segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

O Deus da Idade Média: Conversas com Jean-Luc Pouthier


LE GOFF, Jacques. O Deus da Idade Média: Conversas com Jean-Luc Pouthier. 2º Edição. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010.

Le Goff, consagrado Historiador da terceira geração do Annales, é uma das vozes mais requisitadas quando o assunto é o período medieval, que tradicionalmente é recortado entre a queda do império romano do ocidente (476) e a conquista de Constantinopla pelos turcos otomanos (1453). O colapso do império de Roma que lentamente foi se efetivando com as migrações e invasões bárbaras, finalmente cedeu a uma nova forma de governo, ou melhor dizendo, governos (os feudos). As instâncias políticas, sociais, jurídicas, econômicas e religiosas sofreram progressivas mudanças, ocasionadas pela fusão entre o modo de ser romano e a cultura germânica, não esquecendo, é claro, das concepções religiosas/teológicas legadas pelo cristianismo. O comércio do mediterrâneo não desapareceu, mas declinou consideravelmente com as migrações urbanas para o meio rural (90% de toda a população), como resultado da desintegração do Estado romano, que já não podia controlar as invasões.   

Com o imperador Constantino, a religião do homem da Galileia passa a ser praticada sem os entraves do estado (313). Décadas depois com Teodósio, ela passa a ser a religião oficial do império romano (380). O mundo ocidental europeu começa a se formar. A igreja católica foi sem dúvida a maior instituição da Idade Média, controlando a vida de reis, cavaleiros e servos.

Adentrando o livro propriamente dito, ele é em forma de entrevista, onde o Historiador e Jornalista Jean-Luc Pouthier é o entrevistador. Em tom respeitoso e não crítico, Le Goff passa a falar dos aspectos religiosos que existiram no medievo, enfatizando as mudanças e evoluções de como o europeu passou a ver Jesus, Deus, o Espírito Santo, a igreja...

Em certo momento ele diz:

“A imagem de Deus numa sociedade depende sem dúvida da natureza e do lugar de quem imagina Deus. Existe um Deus dos clérigos e Deus dos leigos; um Deus dos monges e um Deus dos seculares; um Deus dos poderosos e um Deus dos humildes; um Deus dos pobres e um Deus dos ricos. [...] as imagens de Deus mudam com o correr do tempo”. P. 11, 12.

Tenho a impressão de que muitos teólogos fundamentalistas gabaritados não entendem isso. Parece que muitas vezes escrevem, dissertam, falam sobre o cristianismo e teologias cristãs, como se a mesma fé e o mesmo modo de se relacionar com o divino fossem uniformes ao longo desses quase dois mil anos, não atentando para as grandes mudanças que ocorreram e ainda ocorrem nesse relacionamento do homem e das comunidades com Deus. A visão do que é pecado muda; a visão do que Deus deseja, muda; a maneira de como se relacionar com a igreja e o mundo, muda.

Quanto à cobrança de dinheiro feita pela igreja no mundo medieval, o livro explica:

“Na Idade Média, no sistema político feudal, como de um modo geral no conjunto da existência, a Igreja desempenha um papel essencial. É preciso ver isso de um nível econômico e social muito humilde, o do imposto, do pagamento de foros. A Igreja cobrava dízimos e sustenta os senhores que cobram foros. E na vida do dia-a-dia, nos sermões, a Igreja afirma que o dízimo não é dado a ela, o que seria constrangedor, mas a Deus, ou com mais rigor, a São Pedro. Por outro lado, os padres, os monges, explicam que pagar os foros aos senhores é fazer a vontade de Deus, porque Deus lhes confiou um poder de comando que corresponde a suas intenções”. P. 82.

Fica evidente que a esperteza de como legitimar a doação de grana para os cofres da igreja continua a mesma, ou muito semelhante a atual, agora com o agravo de não somente a igreja católica cobrar, mas também as igrejas protestantes e biroscas neopentecostais.

Era somente pela exclusiva mediação da igreja, que as pobres pessoas podiam adentrar ao céu. 

“Os principais instrumentos da dominação da Igreja foram a consolidação da teologia e a prática dos sacramentos. O século XII é aquele em que se estabelecem firmemente os sete pecados capitais, os sete dons do Espírito Santo e os sete sacramentos. E como a Igreja é a única a distribuir os sacramentos, o homem não pode se salvar não a ser pela Igreja e graças à Igreja”. P. 88.

“Era muito difícil, insisto neste ponto, para os homens e as mulheres da Idade Média ter um contato direto com Deus, isto é, um contato sem a mediação da Igreja. Portanto, através dela é que muitos cristãos e cristãs da Idade Média buscaram um acesso a Deus que sentissem como contato verdadeiro e individual. A Igreja, para satisfazer a essa aspiração sem renunciar a seus privilégios e à sua dominação, fez com que evoluísse o sistema dos sacramentos, sistema que tinha a vantagem de tornar sua intervenção obrigatória, preparando uma relação direta da pessoa batizada com Deus”. P. 98.

Como a teologia católica mudou, hoje não é mais assim.

A igreja dispunha de vários meios para manter os seus fiéis sob as suas rédeas. Eis mais um:

“Outro meio utilizado pela Igreja para manter sua situação privilegiada entre Deus e o fiel foi, durante muito tempo, fazer com que se falasse latim com Deus. Quando os valdenses, no fim do século XII, quiseram ler a Bíblia numa tradução em língua vernácula [o francês que nascia], foram condenados, ainda que suas crenças e suas práticas fossem, no conjunto ortodoxas. Com efeito, os cristãos e as cristãs da Idade Média parecem ter sofrido de certo modo uma frustração no seu relacionamento com Deus, e é provável que esse sentimento de frustração tenha sido uma das condições favoráveis ao nascimento Reforma, na qual muitos pensaram achar um acesso mais autêntico e mais direto a Deus”. P. 100.

As igrejas protestantes estão sujeitas a tantas críticas quanta a católica, mas o aparecimento delas, em todo caso, foi uma benção para a humanidade. O cristianismo saiu do curral romano e se diversificou, diluiu o seu centro de poder. Acho que nunca é demais lembrar disso, mesmo sabendo que os ramos protestantes têm dado péssimos exemplos de moral e conduta, não conseguindo estar a altura de seus discursos morais tão elevados.