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segunda-feira, 26 de abril de 2021

Manifesto do Partido Comunista



ENGELS, Friedrich; MARX, Karl. Manifesto do Partido Comunista. 2ª Ed. Portugal, Lisboa: Avante, 1997. (PDF).

“Anda um espectro pela Europa — o espectro do Comunismo.” 

Karl Marx desperta paixões! Desperta amor! Desperta ódio!

Muitos desejam que ele esteja no lugar mais quente do inferno. Motivo? Suas ideias que serviram de inspiração para os governos comunistas/socialistas do século XX, que redundaram no mais pleno fiasco, tendo a URSS o seu maior exemplo de fracasso, e, o pior, a morte de milhões e milhões de pessoas. Fora a total falta de liberdade de expressão, impressa, ideias, religião e locomoção. Os que odeiam Marx podem ainda citar os atuais governos comunistas da Coreia do Norte e Cuba, sobretudo o primeiro, onde reina o caos, a fome, os assassinatos e toda sorte de malefícios aos seus cidadãos.

Na contramão, não são poucos os que idolatram o velhinho de barba do século XIX. Professores nas cátedras de humanas, estão aos montes, para celebrar Marx e o seu “materialismo histórico”, que dizem ser o maior empreendimento intelectual para entender e dar sentido a todos os processos históricos, que estão assentados na infraestrutura econômica, de onde emerge a superestrutura (filosofia, religião, ideias). Uns ainda sonham com o utópico paraíso comunista, em que a sociedade como um todo, estará plenamente assentada na igualdade social, inexistindo as antigas relações de opressores (burguesia) e oprimidos (proletários).  

Karl Marx (1818-18830 foi um autor prolífico. Sua obra é vasta e complexa, onde poucos se atrevem a ler o seu mais monumental livro – O Capital. Nesses dois times de detratores e fãs, poucos foram aqueles que leram pelo menos metade de seus escritos, sobretudo O Capital, que não é uma obra fácil e atraente de ler, além de ser muito extensa, com mais de duas mil e quinhentas páginas! Quem é o maluco para se aventurar? Eu que não me arrisco. Prefiro ler o Manifesto do Partido Comunista e outras obras que comentam, interpretam, desvelam o pensamento de Marx e de seu companheiro intelectual Friedrich Engels (1820-1895), seja criticando, ou elogiando, ou tentando ser neutra. Muitos críticos e entusiastas de Marx, nem isso fazem. Ficam nos pequenos vídeos de cinco, dez, quinze minutos...

Em todo caso, aqui estamos no Manifesto. Este opúsculo foi lançado em 1848. Teve ainda no século XIX, diversas traduções e reedições nos vários países europeus e na América do Norte, sendo um sucesso entre os movimentos proletários, germinando as ideias que viriam a configurar o arcabouço intelectual do comunismo e, de como ele suplantaria o capitalismo burguês, dando lugar a sociedade sem classes, mais justa e igualitária.

O Manifesto começa com um ar triunfal:

“Anda um espectro pela Europa — o espectro do Comunismo. Todos os poderes da velha Europa se aliaram para uma santa caçada a este espectro, o papa e o tsar, Metternich e Guizot, radicais franceses e polícias alemães. [...] O comunismo já é reconhecido por todos os poderes europeus como um poder. Já é tempo de os comunistas exporem abertamente perante o mundo inteiro o seu modo de ver, os seus objectivos, as suas tendências, e de contraporem à lenda * do espectro do comunismo um Manifesto do próprio partido.” P. 28.

Marx e Engels dizem que a burguesia rompeu com todos os laços medievais, destruindo todas as relações então existentes. Aquele ambiente bucólico da Idade Média tinha se desfeito sem pudor. O valor de troca, o comércio, desbancaram sem piedade os laços que prendiam o homem do campo aos seus senhores naturais. A burguesia causou um racha sem volta e inexorável nas formas de viver e ver o mundo. As relações de produção foram irredutivelmente modificadas, dando lugar ao novo social, e, com ele, a um novo antagonismo entre as classes dos opressores e oprimidos. Os enganos vindos da religião e a política agora eram abertos, sem subterfúgios. O que era sagrado a burguesia dessacralizou. Tudo era movido por dinheiro e pelo dinheiro.

“Numa palavra, no lugar da exploração encoberta com ilusões políticas e religiosas, pôs a exploração seca, directa, despudorada, aberta.

A burguesia despiu da sua aparência sagrada todas as atividades até aqui veneráveis e consideradas com pia reverência. Transformou o médico, o jurista, o padre, o poeta, o homem de ciência em trabalhadores assalariados pagos por ela.

A burguesia arrancou à relação familiar o seu comovente véu sentimental e reduziu-a a uma pura relação de dinheiro.” P. 32.

Com o boom da revolução industrial, a ascensão cada vez mais evidente da burguesia e a desenfreada produção cada vez mais gigantes de produtos, estes tinham ser vendidos, escoados, postos à disposição de compradores, não apenas na Europa, mas em cada recanto do planeta.

“A necessidade de um escoamento sempre mais extenso para os seus produtos persegue a burguesia por todo o globo terrestre. Tem de se implantar em toda a parte, instalar-se em toda a parte, estabelecer contactos em toda a parte.” P. 32-33.

“As relações burguesas tornaram-se demasiado estreitas para conterem a riqueza por elas gerada. — E como triunfa a burguesia das crises? Por um lado, pela aniquilação forçada de uma massa de forças produtivas; por outro lado, pela conquista de novos mercados e pela exploração mais profunda de antigos mercados.” P. 35.

Como o sistema capitalista aí está, mais forte do que nunca, esse escoamento continua numa proporção jamais imaginada por Marx e Engels. Com a era dos eletrônicos, somos constantemente “obrigados” a trocar de celulares, televisores, notebooks, tablets e outras parafernálias digitais, todos os anos. Isso sem falar em carros, roupas... As empresas para sobreviverem, precisam estar dissimulando a todo momento, novas necessidades para vender e não ficarem para trás e falirem. Isto é uma bola de neve, pois se falirem, muitos ficarão sem empregos. Portanto, para que tudo funcione “direitinho” é preciso colocar no mercado produtos atraentes que escoem o mais rápido possível. Estamos presos em uma teia inescapável. Sem o consumo exagerado, o mundo vai à bancarrota. É salutar para o empresariado, convencer as pessoas de que elas precisam de seus produtos inovadores, para que daí possam ser gente de verdade, descoladas, alinhadas com a moda, com o que o mundo tem de melhor. Essa psicologia barata tem dado certo. É aquele velho clichê de que na sociedade capitalista, as pessoas serão vistas pelo que tem, e não pelo que são.

A dupla dinâmica escreve:

“Para o lugar das velhas necessidades, satisfeitas por artigos do país, entram [necessidades] novas que exigem para a sua satisfação os produtos dos países e dos climas mais longínquos. Para o lugar da velha auto-suficiência e do velho isolamento locais e nacionais, entram um intercâmbio omnilateral, uma dependência das nações umas das outras. E tal como na produção material, assim também na produção espiritual. Os artigos espirituais das nações singulares tornam-se bem comum. A unilateralidade e estreiteza nacionais tornam-se cada vez mais impossíveis, e das muitas literaturas nacionais e locais forma-se uma literatura mundial.

A burguesia, pelo rápido melhoramento de todos os instrumentos de produção, pelas comunicações infinitamente facilitadas, arrasta todas as nações, mesmo as mais bárbaras, para a civilização. Os preços baratos das suas mercadorias são a artilharia pesada com que deita por terra todas as muralhas da China, com que força à capitulação o mais obstinado ódio dos bárbaros ao estrangeiro. Compele todas as nações a apropriarem o modo de produção da burguesia, se não quiserem arruinar-se; compele-as a introduzirem no seu seio a chamada civilização, i. é, a tornarem-se burguesas. Numa palavra, ela cria para si um mundo à sua própria imagem.” P. 33.

Quando eles falam da China, não tem como não lembrar do que as potências capitalistas fizeram a ela no século XIX, com as Guerras do Ópio (1839-1842, 1856-1860) que forçaram a China a abrir cinco de seus portos para a Inglaterra e outros países, e a entregar a ilha de Hong Kong aos britânicos. Era o “livre comércio” sendo imposto na base do cacete. Não bastando, ainda teve a Guerra dos Boxers, em que a Inglaterra, Rússia, França, Japão, Estados Unidos e Alemanha, invadiram a China obrigando o país a reconhecer de uma vez por todas, as concessões de que gozavam as potencias imperialistas. A ironia macabra disso tudo, é que atualmente a China está tomando conta de tudo, chegando em breve a ser a maior economia e potência mundial, comprando ações, universidades, países, impondo sua ética política, subjugando vários setores do mundo ocidental e não ocidental. O Ocidente está pagando pelos pecados de outrora?

Com a burguesia tomando conta de todos os setores de produção e venda, além dos proletários das fábricas, ela tinha os seus contestadores entre os pequenos comerciantes, camponeses... Mas Marx e Engels chegam a prever que apesar de ainda de serem reacionários, finalmente serão absorvidos na grande massa de proletários, rumo a sociedade comunista.  

“Os estados médios [Mittelstände] — o pequeno industrial, o pequeno comerciante, o artesão, o camponês —, todos eles combatem a burguesia para assegurar, face ao declínio, a sua existência como estados médios. Não são, pois, revolucionários, mas conservadores. Mais ainda, são reaccionários, procuram fazer andar para trás a roda da história. Se são revolucionários, são-no apenas à luz da sua iminente passagem para o proletariado, e assim não defendem os seus interesses presentes, mas os futuros, e assim abandonam a sua posição própria para se colocarem na do proletariado.” P. 39.

A dupla Batman e Robbin afirma que o modo de pensar do proletariado é totalmente distinto dos pensamentos, ética, moral e justiça dos opressores da classe dominante. A destruição da superestrutura em todas as suas facetas burguesas deve ser colocada abaixo, para que dela surja a nova sociedade. É uma ruptura total com as verdades ditas eternas legadas pela burguesia e pelas sociedades anteriores, onde sempre foi regra a opressão de uma parte por outra. Primeiro começa-se a luta proletária em seus respectivos países, para depois irromper-se pelo mundo. Para isto acontecer, a violência é um caminho legítimo.

“As leis, a moral, a religião são para ele outros tantos preconceitos burgueses, atrás dos quais se escondem outros tantos interesses burgueses. [...] Os proletários nada têm de seu a assegurar, têm sim de destruir todas as seguranças privadas e asseguramentos privados. [...] O proletariado, a camada mais baixa da sociedade actual, não pode elevar-se, não pode endireitar-se, sem fazer ir pelos ares toda a superestrutura [Überbau] das camadas que formam a sociedade oficial. [...] Ao traçarmos as fases mais gerais do desenvolvimento do proletariado, seguimos de perto a guerra civil mais ou menos oculta no seio da sociedade existente até ao ponto em que rebenta numa revolução aberta e o proletariado, pelo derrube violento da burguesia, funda a sua dominação.” P. 40.

“À medida que é suprimida a exploração de um indivíduo por outro, é suprimida a exploração de uma nação por outra. [...] Será preciso uma inteligência profunda para compreender que com as relações de vida dos homens, com as suas ligações sociais, com a sua existência social, mudam também as suas representações, intuições e conceitos, numa palavra, [muda] também a sua consciência?” P. 48.

“A revolução comunista é a ruptura mais radical com as relações de propriedade legadas; não admira que no curso do seu desenvolvimento se rompa da maneira mais radical com as ideias legadas.” P. 49.

“Para o lugar da velha sociedade burguesa com as suas classes e oposições de classes entra uma associação em que o livre desenvolvimento de cada um é a condição para o livre desenvolvimento de todos.” P. 51.

Neste aspecto é que recaem muitas críticas a Marx, devido aos seus desejos(?) de solapar tudo que tinha sido construído até então pela civilização ocidental: seus valores que regulam a civilização. “Derrube violento da burguesia” – Não era difícil um proletário pensar assim, diante das agruras que sofria nas fábricas insalubres em que trabalhava que nem um animal, por horas a fio, para ganhar um salário miserável, que dava apenas para mal se alimentar e enriquecer os seus patrões. Eu não teria piedade alguma. 

O declínio da burguesa e poder nas mãos do proletário chegaria muito em breve. Essa é uma das “profecias” de Marx que mais causa riso em seus críticos, pois como sabemos, ela não se confirmou.

“Torna-se com isto evidente que a burguesia é incapaz de continuar a ser por muito mais tempo a classe dominante da sociedade e a impor à sociedade como lei reguladora as condições de vida da sua classe. Ela é incapaz de dominar porque é incapaz de assegurar ao seu escravo a própria existência no seio da escravidão, porque é obrigada a deixá-lo afundar-se numa situação em que tem de ser ela a alimentá-lo, em vez de ser alimentada por ele. A sociedade não pode mais viver sob ela [ou seja, sob a dominação da burguesia], i. é, a vida desta já não é compatível com a sociedade.

A condição essencial para a existência e para a dominação da classe burguesa é a acumulação da riqueza nas mãos de privados, a formação e multiplicação do capital; a condição do capital é o trabalho assalariado. O trabalho assalariado repousa exclusivamente na concorrência entre os operários. O progresso da indústria, de que a burguesia é portadora, involuntária e sem resistência, coloca no lugar do isolamento dos operários pela concorrência a sua união revolucionária pela associação. Com o desenvolvimento da grande indústria é retirada debaixo dos pés da burguesia a própria base sobre que ela produz e se apropria dos produtos. Ela produz, antes do mais, o seu  próprio coveiro. O seu declínio e a vitória do proletariado são igualmente inevitáveis.” P. 41.

Em uma das citações anteriores, Marx/Engels falam sobre o proletariado “destruir todas as seguranças privadas e asseguramentos privados.” O que eles queriam dizer com isso? Muito se fala que Marx era contra a propriedade privada, e queria a sua total abolição. O Manifesto explica o que ele quis dizer com isso.

“Neste sentido, os comunistas podem condensar a sua teoria numa única expressão: supressão [Aufhebung] da propriedade privada.

Têm-nos censurado, a nós, comunistas, de que quereríamos abolir a propriedade adquirida pessoalmente, fruto do trabalho próprio — a propriedade que formaria a base de toda a liberdade, actividade e autonomia pessoais.

Propriedade fruto do trabalho, conseguida, ganha pelo próprio! Falais da propriedade pequeno-burguesa, pequeno-camponesa, que precedeu a propriedade burguesa? Não precisamos de a abolir, o desenvolvimento da indústria aboliu-a e abole-a diariamente.” P. 43.

Marx/Engels continuam:

“Mas será que o trabalho assalariado, o trabalho do proletário, lhe cria propriedade? De modo nenhum. Cria o capital, i. é, a propriedade que explora o trabalho assalariado, que só pode multiplicar-se na condição de gerar novo trabalho assalariado para de novo o explorar. A propriedade, na sua figura hodierna, move-se na oposição de capital e trabalho assalariado.” P. 44.

...

“Horrorizais-vos por querermos suprimir a propriedade privada. Mas na vossa sociedade existente, a propriedade privada está suprimida para nove décimos dos seus membros; ela existe precisamente pelo facto de não existir para nove décimos. Censurais-nos, portanto, por querermos suprimir uma propriedade que pressupõe como condição necessária que a imensa maioria da sociedade não possua propriedade.

Numa palavra, censurais-nos por querermos suprimir a vossa propriedade. Certamente, é isso mesmo que queremos.

[...]

Concedeis, por conseguinte, que por pessoa não entendeis mais ninguém a não ser o burguês, o proprietário burguês. E esta pessoa tem certamente de ser suprimida.

O comunismo não tira a ninguém o poder de se apropriar de produtos sociais; tira apenas o poder de, por esta apropriação, subjugar a si trabalho alheio.

Tem-se objectado que com a supressão da propriedade privada cessaria toda a actividade e alastraria uma preguiça geral.

De acordo com isso, a sociedade burguesa teria há muito de ter perecido de inércia; pois os que nela trabalham não ganham, e os que nela ganham não trabalham. Toda esta objecção vai dar à tautologia de que deixa de haver trabalho assalariado assim que deixar de haver capital.” P. 45.

Sabe aquela história de “família burguesa opressora”? Pois é, ela tem que ser abolida. Qual a qualificação e o porquê de Marx/Engels nesta abolição?

“Supressão da família! Até os mais radicais se indignam com este propósito infame dos comunistas.

Sobre que assenta a família actual, a família burguesa? Sobre o capital, sobre o proveito privado. Completamente desenvolvida ela só existe para a burguesia; mas ela encontra o seu complemento na ausência forçada da família para os proletários e na prostituição pública.

A família dos burgueses elimina-se naturalmente com o eliminar deste seu complemento, e ambos desaparecem com o desaparecer do capital.

Censurais-nos por querermos suprimir a exploração das crianças pelos pais? Confessamos este crime.

Mas, dizeis vós, nós suprimimos as relações mais íntimas ao pormos no lugar da educação doméstica a social.” P. 46.

Marx/Engels passeiam rapidamente pelo socialismo utópico que precedeu o pensamento comunista propriamente dito, sendo os seus maiores representantes Saint-Simon, Fourier, Owen e outros mais, que pregavam uma revolução desprovida de conteúdo, sem terem desenvolvido as armas teóricas e organizativas para enfrentar a classe burguesa, não pensando num movimento político revolucionário onde a classe oprimida toma as rédeas da história.

“A forma não desenvolvida da luta de classes assim como a sua própria situação de vida implicam, porém, que eles creiam estar muito acima daquela oposição de classes. Querem melhorar a situação de vida de todos os membros da sociedade, mesmo dos mais bem colocados. Por isso apelam continuamente à sociedade toda sem diferença, e de preferência à classe dominante.

É só preciso entender o seu sistema para reconhecer nele o melhor plano possível para a melhor sociedade possível. Rejeitam, por isso, toda a acção política, nomeadamente toda a acção revolucionária, querem atingir o seu objectivo por via pacífica e procuram, com pequenos experimentos naturalmente condenados ao fracasso, abrir pela força do exemplo o caminho ao novo evangelho social.” P. 61.

Por último, a previsão de Marx/Engels era de que a grande revolução proletária aconteceria em breve na Alemanha.

“Para a Alemanha dirigem os comunistas a sua atenção principal, porque a Alemanha está em vésperas de uma revolução burguesa e porque leva a cabo este revolucionamento em condições de maior progresso da civilização europeia em geral e com um proletariado muito mais desenvolvido do que a Inglaterra no século XVII e a França no século XVIII, porque a revolução burguesa alemã só pode ser, portanto, o prelúdio imediato de uma revolução proletária.” P. 64.

Como sabemos, isso não aconteceu.

sábado, 24 de abril de 2021

Marx em 90 Minutos


STRATHERN, Paul. Marx em 90 Minutos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003. (PDF). 

O presente livreto arranha algumas coisinhas sobre Marx e seu pensamento. Eu particularmente, gosto muito desta série 90 Minutos. Os chatos de plantão, os “sabidões”, os “fodões”, não apreciam. Acham que poucas páginas não podem sintetizar a complexidade da vida e obra de um Marx, Darwin, Kant e os demais. Mas aprende-se muito mais lendo esses livrinhos introdutórios, do que assistindo as aulas desses pedantes.

 Paul Strathern, Professor de Filosofia e Matemática na Universidade de Kingston, Londres, de cara já escreve:

“Marx propôs o comunismo como a resposta [para obtenção de direitos iguais]. A experiência do século XX nos ensinou em termos nada incertos que essa resposta não funciona. Ainda assim, várias das críticas mais argutas que Marx fez ao capitalismo permanecem sem resposta. As questões de justiça social que ele suscitou — urgentes e cruciais na época — continuam pertinentes.” P. 05.

Marx nasceu em 1818. Logo cedo, quando tinha 17 anos, ele deixou os seus estudos secundários. Porém, aprendeu 24 línguas. Ele assistiu de perto, toda a situação precária em que os trabalhadores ingleses viviam nas mãos dos burgueses, que os exploravam com jornadas diárias de trabalho extenuantes, em troca de salários baixíssimos, fora a exploração de crianças e mulheres. Tal situação de calamidade não podia continuar. O que fazer então?

“Quando a produção e a comercialização de bens são inteiramente motivadas pelo lucro, a justiça social e até as necessidades humanas básicas são desprezadas. Um mundo econômico como esse, que encontra sua razão de ser exclusivamente no lucro, resulta em relações sociais grotescamente distorcidas que afetam toda a atividade humana.” P. 18.

Diante das agruras sofridas pela classe de milhões de trabalhadores nas fábricas insalubres da Inglaterra e outros lugares, fruto da Revolução Industrial iniciada no século XVIII, como Marx orquestrou o seu pensamento, para girar a roda da história em 360° em favor da maioria, os proletários? De modo pacífico, através do diálogo com a burguesia (a diminuta classe de pessoas que detinha praticamente toda a riqueza gerada)? Esta, depois de um bom papo com os trabalhadores, cederia aos seus privilégios?

“[...] ele acreditava que a revolução era a resposta, e logo se tornou um dos novos comunistas. Mas como a revolução poderia ocorrer? Primeiro, um programa intelectual completo devia ser elaborado. E, se a política devia mudar, o mesmo devia acontecer com a economia. Marx iniciou um intenso estudo do fundador da economia, o escocês Adam Smith, e de seu sucessor, o inglês David Ricardo. Ao mesmo tempo começou a elaborar um arcabouço filosófico para seu pensamento, na forma de sua própria epistemologia. Quais são as bases para nosso conhecimento do mundo? Como sabemos o que sabemos, e como sabemos se isso é verdadeiro? [...] ele desejava basear todo o conhecimento em premissas estritamente científicas.” P. 09-10.

Qual era então a epistemologia de Marx?

“Para Marx, nosso conhecimento tem origem em nossa experiência — nossas sensações e percepções — do mundo material. Mas o materialismo de Marx diferia significativamente do de seus predecessores. Estes tendiam a considerar a sensação e a percepção em termos passivos. A luz atinge nossos olhos, nós sentimos o calor, ouvimos um som. Nossa percepção de tais coisas não as altera de maneira nenhuma: são coisas que nos afetam. Para Marx, por outro lado, essa percepção era uma interação entre nós, o sujeito, e o objeto material. Esse objeto (o mundo à nossa volta) é transformado no processo de ser conhecido. Nossa percepção não descobre a verdade do mundo, apenas sua aparência. Portanto, também nosso conhecimento não pode ser a verdade. Ele consiste, isto sim, em métodos práticos pelos quais podemos manipular o mundo natural e adquirir controle sobre ele. Nosso conhecimento do mundo não é passivo, ele tem um propósito. É um processo de duas vias — ativo e reativo - em conformidade com a dialética.

A síntese de conhecimento científico que assim adquirimos permite-nos impor padrões de ordem aos funcionamentos da natureza, manipulá-los e antecipá-los. Esse processo não alcança a verdade como esta é usualmente concebida. ‘Saber se é possível atribuir verdade objetiva ao pensamento humano nada tem a ver com teoria, é uma questão puramente prática. A verdade é a realidade e o poder do pensamento, que só podem ser demonstrados na prática.’ Isso leva Marx à sua famosa conclusão: ‘Antes os filósofos apenas interpretavam o mundo; ... a questão, porém, é transformá-lo.’

Esta afirmação deu margem a muitas interpretações. Tomada como uma atitude filosófica, pareceria invalidar inteiramente seu autor como filósofo — pois defende o abandono da filosofia em favor da ação política. Sua famosa observação fica portanto aberta a todas as objeções filosóficas apresentadas contra ela. Contudo, se for vista à luz da epistemologia de Marx — um processo interativo —, ela tem de fato valor filosófico. Ele está defendendo uma idéia profunda. Verdade absoluta é algo que simplesmente não existe. Aprendemos como o mundo funciona para usá-lo, para viver nele. Infelizmente, mesmo no contexto original da sua afirmação Marx parecia querer dizer as duas coisas.” P. 10.

Tudo isso aí, soa como o mais puro relativismo. A coisa é simples de entender: Marx queria trocar a verdade da burguesia, pela verdade do proletariado comunista. A verdade para ele, não existe metafisicamente, como bem explica Antônio Carlos Mazzeo (Doutor em História Econômica pela USP):

“[Para Marx] todas as ‘verdades’ [...] são históricas. Valem pro momento. Elas não valem nem pro passado e nem pro futuro. Você explica a realidade, a partir dela mesma”.

Algumas páginas a frente, Strathern relata um caso que evidencia que a verdade para Marx, era apenas um meio manipulativo para se alcançar um fim.

“Quando a Revolta dos Sipaios foi deflagrada na Índia, seu editor pediu-lhe que previsse o resultado, e ele [Marx] escreveu a Engels: ‘É possível que eu faça papel de burro. Mas nesse caso sempre dá para escapar com um pouquinho de dialética. Formulei minha proposição, é claro, de modo a estar certo em qualquer caso'. (Assim começou uma tradição marxista que sobreviveria ao colapso tanto do Império Britânico quanto do Soviético.)” P. 16.

A obra mais lida e conhecida de Marx, é o Manifesto do Partido Comunista, que teve como coautor, seu amigo Friedrich Engels. Neste pequeno livro, Marx defendeu:

“[...] o imposto de renda progressivo, a abolição do trabalho infantil e a educação gratuita para todas as crianças, que hoje aceitamos como norma. Outras, como a abolição da propriedade privada e o estabelecimento de um monopólio estatal sobre os bancos, as comunicações, os transportes e todas as formas de produção, foram tentadas.” P. 13.

O pai do comunismo cientifico tinha saúde frágil e não era nenhum santo.

“Marx começou a sofrer de penosos furúnculos, uma maldição de proporções bíblicas que continuou a arruinar sua débil estrutura até o fim de seus dias. Outros na família, entretanto, não tinham a mesma resistência, e mais dois de seus filhos morreram na infância. Como se tudo isso não fosse ruim o suficiente, Marx ainda teve um caso com a criada da família, Lenchen Demuth, e engravidou-a.” P. 15.

Duas de suas filhas, infelizmente, tiraram a própria vida.

“A filha mais velha de Marx, Laura, se suicidaria junto com o marido anarquista com quem vivia na pobreza em Paris. A favorita dele, Tussy, escolheu o mesmo caminho após ser rejeitada por seu amante mulherengo, que chegou a lhe fornecer o ácido prússico que ela tomou, tendo uma morte dolorosíssima.” P. 15.

Strathern desvela sobre a pobreza de Marx, sua relação com o trabalho, com Engels e com o dinheiro deste, gastos e etc.

“Segundo todos os relatos, a pura irresponsabilidade era o principal fator da persistente pobreza de Marx. Engels continuou a enviar-lhe dinheiro regularmente, e Marx foi até admitido como correspondente em Londres do New York Daily Tribune, na época o jornal de maior circulação do mundo. Foi contratado para escrever dois comentários por semana sobre as notícias da Grã-Bretanha e do Império, que muitas vezes eram redigidos às pressas por Engels, para que o prazo não estourasse.

[...]

Embora Marx estivesse tendo um rendimento regular, sua correspondência com Engels incluía freqüentes pedidos desesperados de mais dinheiro, sob a alegação da chegada iminente de oficiais de justiça, da falta de comida em casa e que tais. Ele era completamente aberto na discussão de suas idéias políticas com Engels, e essa intimidade se estendia à sua vida pessoal — indo mesmo além de suas emergências financeiras para incluir detalhes como a erupção de um furúnculo em seu pênis ou o comentário de que resolvera relaxar e ficar em casa porque empenhara seu único par de calças para poder comprar charutos. Karl Marx ou Groucho Marx? Às vezes é difícil dizer. Para citar algumas estatísticas econômicas relevantes — como Marx tanto gostava de fazer em suas obras —, ele ganhava 150 libras por ano de Engels, além de duas libras por cada um de seus artigos bissemanais para o Tribune. Mesmo em suas marés mais baixas, seu rendimento anual nunca foi inferior a 200 libras, enquanto um escrevente ganhava nessa época 75 libras. As despesas de Marx eram modestas: seu aluguel anual na Dean Street era de apenas 22 libras, e Lenchen devia receber 20 libras (se é que algum dia foi paga). De alguma forma as 178 libras restantes do rendimento de Marx simplesmente evaporavam no ar anuviado de tabaco enquanto ele, de cueca, tomava banho de sol à janela.” P. 16.

Nada de trabalhar usando a força física.

“Marx se recusava terminantemente a se rebaixar a qualquer trabalho braçal, preferindo escrever extensamente sobre tal atividade. Isso levou sua mãe a comentar, exasperada: ‘É uma pena que o pequeno Karl não produza algum capital, em vez de só escrever sobre ele’.” P. 16.

“Apesar de sua relutância em prover materialmente a família, Marx foi sempre um páter-famílias muito querido, a quem todos chamavam pelo apelido de ‘Mouro’.” P. 16.

As predições de Marx sobre a derrocada iminente do capitalismo, fracassaram.

“Como a história mostrou, no entanto, o erro estava muito mais nas pessoas que operavam o sistema, e na liberdade que lhes era concedida, do que no sistema em si. O poder desenfreado sempre foi uma receita de exploração e hipocrisia. O sistema capitalista em si tem apenas parte da culpa. O capitalismo parece ser como a democracia de Churchill: ‘A pior forma de governo, exceto todas as outras que foram tentadas’.” P. 21.

“O que Marx não compreendeu foi que as contradições internas do capitalismo teriam um grande papel estimulando sua evolução, e não destruindo-o. Marx não foi o único a compreender mal o capitalismo. Nenhum dos grandes pensadores de sua época — de Mill a Nietzsche — suspeitou nem de leve que o capitalismo iria proliferar da maneira como o fez.” P. 22.

Entretanto...

“A propriedade privada, o dinheiro, o estímulo do lucro e a alienação parecem ser fundamentais em nosso atual estágio de evolução. Nós os usamos — assim como eles nos usam. A alienação transforma-se em individualidade exacerbada. Por outro lado, a análise de Marx se estende muito além dos primeiros tempos da sociedade vitoriana a que foi aplicada. Suas descrições do culto ao dinheiro, de nossa atitude em relação à propriedade privada, do consumismo e da busca do lucro pelo lucro são todas pertinentes à era de enxugamento de empresas, crises monetárias provocadas, disparada nos preços das ações de empresas de tecnologia com base em valores irreais, e companhias cujos ativos consistem em tudo exceto nas pessoas que nela trabalham.” P. 19.

quinta-feira, 17 de maio de 2018

Sobre a Tirania: Vinte Lições do Século XX Para o Presente



SNYDER, Timothy. Sobre a Tirania: Vinte Lições do Século XX Para o Presente. São Paulo: Companhia das Letras, 2017. (PDF).

“A história tem o poder de familiarizar e também de advertir”. P. 06.

Timothy Snyder (Professor de História na Universidade de Yale), temendo o avanço de forças antidemocráticas em seu país (EUA), escreveu este livro, para alertar seus leitores contra a tirania política, que sempre está à espreita, sorrateiramente pronta a tomar conta das instituições sociais, políticas e econômicas. Como diz Snyder: “A não história não se repete, mas ensina”. P. 06. Ele faz uso dos três exemplos clássicos do século XXI (comunismo, fascismo e nazismo), conclamando a todos a detectarem certas características destes regimes tirânicos, totalitários e desumanos, que estão aí, sendo apologeticamente defendidos por muitos indivíduos, partidos políticos, instituições paramilitares e etc. Devemos contestar, refutar e lutar contra ideias e conceitos que firam o processo democrático, pois as carcaças moribundas da tríade diabólica do século passado ainda querem causar mais destruição.

"A história europeia do século XX nos mostra que as sociedades podem ruir, que as democracias podem entrar em colapso, que a ética pode ser aniquilada e que os homens comuns podem se ver diante de valas comuns com armas nas mãos". P. 07.

A URSS querendo pôr os seus planos em funcionamento, jogou a população camponesa mais pobre contra a que tinha mais terras, resultando na plena submissão e destruição de ambas.

"Na União Soviética governada por Ióssif Stálin, fazendeiros prósperos eram representados em cartazes de propaganda como porcos — uma desumanização que, num ambiente rural, sugere claramente o assassinato. Era o começo da década de 1930, quando o Estado soviético procurava dominar o campo e arrancar da zona rural o capital necessário para uma rápida industrialização. Os camponeses que eram donos de mais terras ou animais que outros foram os primeiros a perder o que tinham. Um vizinho retratado como um porco é uma pessoa de cuja terra você pode se apossar. No entanto, aqueles que obedeciam à lógica simbólica também se tornaram vítimas. Depois de fazer com que os camponeses mais pobres se voltassem contra os mais ricos, o poder soviético apoderou-se da terra de todos para criar novas fazendas coletivas. Uma vez completada, a coletivização levou grande parte do campesinato soviético a passar fome. Entre 1930 e 1933, milhões de pessoas na Ucrânia soviética, no Cazaquistão soviético e na Rússia soviética morreram de maneira horrível e humilhante. Antes que o processo de coletivização chegasse ao fim, os cidadãos soviéticos se alimentavam de cadáveres." P. 17.

Na oitava lição dada por Snyder, devemos nos destacar, e não sermos passivos diante do mal que se aproxima. Churchill é o seu exemplo:

“Adolf Hitler não demonstrava nenhuma animosidade especial em relação à Grã-Bretanha ou ao seu império, e na verdade imaginava uma divisão do mundo em esferas de interesses. Esperava que Churchill aceitasse uma composição depois da queda da França. Não foi o que Churchill fez. Ele disse aos franceses: ‘não importa o que vocês fizerem, vamos lutar sempre e para sempre’. [...] Na verdade, foi o próprio primeiro-ministro que ajudou os britânicos a se definirem como um povo altivo que resistiria com tranquilidade ao mal. Outros políticos teriam buscado o apoio da opinião pública britânica para pôr fim à guerra. Em vez disso, Churchill resistiu, inspirou e venceu.” P. 26.

Leiamos mais livros (bons), nos cerquemos de boas informações e conhecimento, nos afastemos das frivolidades da TV e a da internet.

“Há mais de meio século, os romances clássicos sobre o totalitarismo advertiram quanto à dominação das telas, à supressão dos livros, ao estreitamento do vocabulário e às dificuldades subsequentes de pensar. [...] Olhar para telas talvez possa ser inevitável, mas o mundo bidimensional faz pouco sentido, a menos que possamos recorrer a um arsenal mental formado em outro lugar. Quando repetimos as mesmas palavras e frases que aparecem nos meios de comunicação diários, aceitamos a ausência de um quadro referencial maior. Dispor desse quadro referencial exige mais conceitos, e ter mais conceitos exige leitura. Por isso, afaste as telas de sua vida e cerque-se de livros”. P. 30.

Sempre é um alento ler Historiadores não mancomunados com o relativismo pós-moderno:

"Abandonar os fatos é abandonar a liberdade. Se nada for verdadeiro, ninguém poderá criticar o poder, porque não haverá uma base para fazê-lo. Se nada for verdadeiro, tudo é espetáculo. A carteira mais recheada garante a pirotecnia mais ofuscante." P. 32.

“'O que é a verdade, afinal?' Às vezes as pessoas fazem essa pergunta porque não querem fazer nada. Aderindo ao cinismo genérico nos sentimos descolados e alternativos, mesmo quando afundamos com nossos concidadãos num atoleiro de indiferença. É a sua capacidade de discernir fatos que faz de você um indivíduo, da mesma forma que é a nossa confiança coletiva num conhecimento comum que faz de nós uma sociedade." P. 36.

Nesses tempos de tanta tensão política por todos lados, não é difícil vermos pessoas cegas pela ideologia que professam, e por políticos e figuras públicas que endeusam. É um antigo defeito humano, que Snyder exemplifica bem:

“Renunciar à diferença entre o que se quer ouvir e o que de fato é verdadeiro é uma maneira de se submeter à tirania. Essa recusa à realidade pode parecer natural e agradável, mas o resultado é o seu fim como indivíduo — e, assim, o colapso de qualquer sistema político que dependa do individualismo. [...] Doze anos mais tarde, após todas as atrocidades e no fim de uma guerra que a Alemanha tinha claramente perdido, um soldado amputado disse a Klemperer [Professor alemão] que Hitler ‘nunca disse uma só mentira. Eu acredito em Hitler’. [...] Depois que a verdade se [torna] oracular, em vez de factual, as evidências [são] irrelevantes. No fim da guerra, um trabalhador declarou a Klemperer que ‘compreender é inútil, é preciso ter fé. Eu acredito no Führer’.” P. 33.

Ah, o nosso mundo facebookiano...

“Na eleição presidencial de 2016, o mundo bidimensional da internet foi mais importante que o mundo tridimensional do contato humano. Pessoas que iam de porta em porta para fazer pesquisas de opinião ou angariar votos eram recebidas por cidadãos americanos espantados, que se davam conta de que teriam de falar de política com um ser humano de carne e osso, em vez de ver suas opiniões validadas por postagens no Facebook. No mundo bidimensional da internet, surgiram novas coletividades, invisíveis à luz do dia — tribos com diferentes visões do mundo, entregues a manipulações. (E, sim, há uma conspiração que se pode encontrar on-line: a conspiração para mantê-lo conectado, à procura de conspirações). P. 36.

sexta-feira, 13 de abril de 2018

O que é Comunismo



SPINDEL, Arnaldo. O que é Comunismo. 18 Ed. São Paulo: Brasiliense. (PDF).

Uns amam, outros odeiam. Uns ainda acreditam que ele irá se concretizar, apesar de todos os esforços fracassados do século XX. Outros acreditam que o marxismo está mais forte do que nunca, agora, nas Universidades, como “marxismo cultural”, contaminando a todos os alunos, mediante o doutrinamento de Professores que foram alienados quando eram simples discentes nos cursos de humanas. De vítimas, estes docentes passaram a serem vilões. É uma cadeia contínua.

Temos também as tentativas teimosas que se arrastam há décadas, de Cuba e Coreia do Norte, que insistentemente mantém os seus habitantes debaixo de um socialismo derrotado e tirânico. Mas isto é a maneira como vejo, que é claro, penso ser a mais correta diante dos fatos históricos e empíricos que presenciamos. Spindel não entrará nesses julgamentos valorativos, dizendo se o comunismo é bom ou ruim. Este pequeno livro é um pouco antigo, foi escrito quando a URSS existia.

As ideias de Marx e Engels surgem no século XIX, dentre várias outras teorias socialistas. Quando as ideias marxistas passam a ser abraçadas pela maioria dos operários, Marx então resolve usar sinonimamente os termos Socialismo e Comunismo. Discípulo de Marx, Lenin, líder da Revolução Russa de 1917, para diferenciar a sua visão das demais alas socialistas, passa a chamar a sua visão de comunista apenas.

Spindel trata principalmente em seu pequeno livro do Marxismo-Leninismo e do comunismo brasileiro, em seus desdobramentos históricos. Ele fala pouco sobre as concepções teóricas de Marx e Engels.  

Para Marx o comunismo era o estágio final da história humana, onde não haveria exploradores e nem explorados. Uma espécie de escatologia materialista, uma volta ao éden bíblico, mas sem a tentação da serpente e sem nenhum deus para interferir. Apenas seres humanos de boa vontade e altruístas vivendo numa sinfonia e harmonia perfeitas.

“Comunismo, para ele [marx], era o estágio da sociedade humana onde não mais existiriam exploradores e explorados, onde a exploração do homem pelo homem tivesse chegado a seu fim. O homem, a sociedade e a natureza formariam um todo harmônico; o sonho do Homem Integral estaria realizado.” P. 07.

Difícil não ver na visão de Marx um paralelo com a tradição cristã, que olha para o final da história, como algo grandioso, onde os justos herdarão a terra, e os ímpios rebeldes serão despojados de quaisquer privilégios, sendo condenados. Troque os justos da história bíblica, pela classe operária, trabalhadora e oprimida, e os ímpios pela classe dominante, a burguesia, que você estará diante de um “cristianismo” comunista/socialista – o reino milenial, o novos céus e nova terra preconizados pelos camaradas.

O barbudin da era vitoriana via que o desenrolar da história estava assentado única e exclusivamente em bases materiais, uma luta de classes constante, dominadores/dominados-opressores/oprimidos, que dão um rumo dialético (divergência de princípios – tese e antítese) ao processo histórico, fosse aonde fosse, independente de país, cultura, lugar, região. O marxismo é uma metanarrativa, ou seja, é um discurso com pretensões universais válido para todas as épocas e lugares.

Umas das grandes ironias do nosso tempo é que os que mais simpatizam com as ideias de Marx, são aqueles que mais querem um estado forte em todas as instâncias da sociedade. Sendo que para ele: “O Estado, na concepção marxista, não passa de um instrumento de dominação de uma classe social sobre outra. O Estado nasce devido à existência de antagonismos inconciliáveis entre as classes sociais; ele responde à necessidade da classe mais forte de dominar a mais fraca.” P. 13.

Para Marx:

“A classe economicamente mais poderosa utiliza o Estado para impor uma ‘ordem’ social, preservar uma situação que lhe é favorável e, principalmente, para transformar-se na classe politicamente dominante, obtendo assim novos meios de oprimir e explorar a classe mais fraca.” P. 14.

E não foi exatamente isso que aconteceu e acontece nos regimes socialistas? Na URSS, Cuba, Coreia do Norte, China... Não adianta, os comunistas atuais, culparem os países capitalistas e fazerem igual ou pior. Essa “ordem social” não foi imposta debaixo de cacete, em todos esses lugares? Não foi o Comintern responsável por tantas mortes políticas e de civis?

Os comunas do presente dizem que são a favor de um Estado Proletário (a classe trabalhadora e honesta na condução do poder), na passagem para o real socialismo, no qual não haverá mais a necessidade de um Estado controlador. É espantoso saber que AINDA muitas pessoas depositam sua fé nesse discurso, sobretudo tendo ciência dos exemplos citados. A história já não mostrou exaustivamente que esse papo não cola mais? O comunismo teve durante décadas a chance de concretizar o seu sonho socialista. Mas o que vimos foi uma classe dominante explorando e matando cruelmente as classes mais pobres. Massacraram os seus cidadãos em campos de escravidão, fuzilamento, fomes...

Spindel falará que com a eclosão da revolução e sua consolidação na Rússia, os comunistas esperavam que outros países também aderissem ao comunismo, a maior esperança naquele momento era que a Alemanha fosse a primeira, visto que ela e a Europa de um modo geral estavam bastante fragilizadas e enfraquecidas em suas economias, por causa da Primeira Guerra Mundial. Existia um desânimo e descontentamento generalizado.

Os comunas russos queriam que o comunismo fosse pensado nos outros países a partir de sua própria visão, não levando em conta as idiossincrasias de cada nação, inclusive no Brasil.  “[...] a maior parte dos dirigentes soviéticos insistia em pensar nas revoluções dos demais países apenas em função da sobrevivência de seu regime.” P. 19-20. Conforme Stálin vai ganhando mais e mais poder, e consolidando a sua tiraria implacável, mais intolerante e avessa as discordâncias e opiniões, a Internacional Comunista passa a reger com mãos de ferro os diversos partidos comunistas dos outros países. “[...] o Comintern passa a aplicar uma política ultra-sectária.” P. 23.

Quanto ao desejo de uma revolução na França, os ventos de uma possível guerra com a Alemanha nazista, quase duas décadas após a revolução russa, mudariam o olhar stalinista sobre aquela nação. Naquela conjuntura sócio-política delicada, não era viável uma França revolucionária, segundo a ótica comunista. Uma França enfraquecida com uma guerra civil, não teria forças para combater as forças de Hitler. Era mais vantajoso para os interesses russos, que naquele momento, 1936, a França continuasse um país burguês forte, apto a enfrentar a Alemanha.  

Em relação a China, quando esta adere ao comunismo, Mao Tsé Tung e Stálin, possuem uma boa relação política, mas os ventos amistosos começam a mudar entre as duas potências, quando da morte de Stálin e a subida de Kruschev ao poder, na década de 1950. Visões ideológicas díspares surgem, fazendo com que a China levasse o seu comunismo adiante sem levar em conta as diretrizes soviéticas, sobretudo porque está tinha uma visão de boa vizinhança com o bloco capitalista, algo que a China contestava.

O comunismo teve os seus flertes em terra brasílicas, quando anarquistas começaram a ver que os ideais comunistas de um estado forte tinham mais chances de colocar abaixo a sociedade burguesa brasileira. “Com isto abriu-se a brecha por onde iria penetrar, no movimento operário de nosso país, a doutrina comunista na forma concebida por Marx e Lenin, e que levaria ao aparecimento do Partido Comunista no Brasil.” P. 31. Na década de 1920 os comunistas começam de fato as suas aventuras pelo nosso país.

Como já me estendi demais, paro por aqui, apenas ressaltando que boa parte do pequeno livro do Spindel é dedicado a falar de como os comunistas trabalharam em prol da revolução socialista tupiniquim, sem contudo (e graças a Deus por isso), terem êxito.

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Filmes Vistos (17)


Existe vício em drogas, vício em bebidas, vício em internet... e também vício em pornografia e sexo. Esses dois últimos são os vícios apresentados neste filme. Para quem pensa que isso é besteira, não é. Como todo vício, a pornografia e o sexo desenfreado, são destrutivos, são alienantes, e bastante prejudiciais a uma vida normal e saudável. É um labirinto difícil de sair. Terapia do Amor de maneira leve, mas séria, aborda muito bem a vida de alguns viciados, que lutam diariamente contra essa vontade compulsiva em fazer sexo, se masturbar e ver pornografia. Uma verdadeira guerra no território mental e físico.


Inglaterra, começo do século XX. O país que tinha sido pioneiro na abolição da escravatura, décadas atrás, é o mesmo que deixa muitas de suas mulheres em regime de semi-escravidão nas fábricas e ainda nega-lhes o direito de voto. Mas surgem mulheres guerreiras e corajosas, que estão dispostas a pagarem um alto preço pelo sufrágio universal. 

Em uma das cenas, a protagonista presa, resolveu fazer greve de fome, as autoridades não aceitando que uma das rebeldes vire mártir, foram até a cela, e com a ajuda de outras mulheres, colocaram um funil em sua boca, para que ela coma a força. Pois bem, o fato de muitas mulheres da época, oprimirem e aceitarem que as suas iguais fossem maltratadas e relegadas a seres de segunda classe, não minimiza em nenhum milímetro a causa feminista de querer o sufrágio. Só porque mulheres também faziam parte do lado opressor, não quer dizer que a luta das sufragistas era ilegítima, e que o governo não precisava reparar aquela situação injusta e cruel. Digo isto, porque vez por outra vejo argumentações estúpidas (e racistas?), trazendo exemplos de negros que tinham escravos no Brasil Colonial, e assim, tentam deslegitimar a luta dos movimentos negros atuais, como se o erro de uns negros (e mesmo que tivessem sido muitos) minimizasse drasticamente a opressão mortal iniciada pelos brancos.


Impressiona-me que pessoas estudadas ainda tenham a audácia de defender o comunismo soviético. A história de Milada Horáková é mais um exemplo, dentre milhões, de que o socialismo implantado no leste europeu foi um atraso na política e na vida de seus cidadãos. Este filme trata de uma falsa democracia implantada na Checoslováquia, na década de 1940, tendo como foco a perseguição sofrida por Milada, onde ela foi presa e brutalmente torturada na prisão, para que admitisse os crimes de sabotagem contra governo "democraticamente estabelecido". Seu final foi a morte por enforcamento. Há um leve puxa-saquismo para o bloco capitalista liderado pelo tio Sam, porém, isto em nada, alivia a responsabilidade das barbaridades cometidas pelo bloco socialista.


Retrata em toda a sua crueza os horrores da escravidão norte-americana, que alguns ainda disseram, ou por ingenuidade ou má fé mesmo, que lá, os escravos foram tratados com mais humanidade, se comparado com o tratamento aqui no Brasil.

O Nascimento de Uma Nação tem cenas que chocam, meu estômago se revirou com algumas. Este longa conta a história de Nat Turner, um escravo pacífico, que sabia ler, e que era um pregador da bíblia, que ajudava aos fazendeiros a manterem os escravos submissos e obedientes, pois assim, estariam obedecendo a vontade divina. Mas chega um momento que não dá mais para aguentar tanto sofrimento e injustiça, e se apossando de uma nova visão do texto sagrado, ele junta um grupo de escravos para se rebelarem contra os brancos que os escravizam.

A carnificina, então começa. As cenas em que os escravagistas são mortos são um alento para quem vê, apesar de serem bem violentas, mas diante daquele contexto de vingança bem justificada, foi bem feito pra eles. Não dá pra ter pena alguma. O sangue pulsando no peito do ex-senhor de Turner, com uma machadada desferida pelo seu ex-escravo, torna-se uma coisa linda de se ver. Infelizmente, a história não é como queremos que ela seja, visto que no final do filme, o mal vence.

É uma história baseada em fatos reais, ocorrida na década de 1830, e nós sabemos que a Guerra Civil Americana só viria a acontecer 30 anos mais tarde, levando os negros a conseguirem a sua "liberdade".


Este é o primeiro filme que vejo, que mostra o contato da humanidade com seres extraterrestres, onde a nossa raça é a vilã, destruidora do planeta alheio, querendo explorar e roubar os recursos naturais, matando e destruindo a natureza. Avatar é uma ótima crítica ao modo como os governos e multinacionais têm tratado a nossa fauna e flora, com o único objetivo de enriquecer, sob o pretexto do desenvolvimento. E um dos agravantes é a passividade dos "bons" - nós, que nada, ou pouco fazemos para impedir, e no pior cenário: quando fazemos parte da destruição ativamente. O que os humanos fazem em Pandora, planeta dos avatares, é o que nós estamos fazendo há décadas, para sustentar nossas vidinhas modernas e "felizes", debaixo de desculpas esfarrapadas de que temos essa ou aquela necessidade que precisam ser saciadas, mas que nunca são alcançadas, e assim, somos obrigados a explorar mais e mais.