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sexta-feira, 27 de agosto de 2021

Régine Pernoud e a Objetividade da História

Durante toda a história do pensamento clássico ocidental, a verdade sempre foi vista como objetiva ou absoluta. Por mais que houvessem discordâncias nas conclusões, havia unanimidade de que a maioria via a verdade como correspondência. A verdade era aquilo que é (Aristóteles). A verdade era descoberta, e não inventada. Não havia muito espaço para o relativismo. Claro que existia um ou outro teórico, que pendia para ideias relativistas ou algo semelhante. No entanto, o sentimento geral era de que podia-se acessar a verdade sobre o mundo, a vida, a natureza, o cosmos, Deus etc.

No século XX, precisamente em sua segunda metade, o ambiente cultural mudou. A Modernidade caía aos prantos diante da Pós-Modernidade. A verdade passa a ser vista como relativa e contextual, sendo o ser humano incapaz de se desprender das amarras sociais, para decodificar o mundo assim como ele é. Cada vez mais, a teoria da verdade como correspondência foi sendo questionada e motivo de risos, pelos mais cínicos filósofos, críticos literários e sociólogos. A verdade era vista agora como um meio eficaz de oprimir os mais fracos, e de legitimar interesses pessoais escusos. Os poderosos contam as suas verdades, que ocultam um poder de coerção para organizar a vida social e até natural, para que continuem a moldar a sociedade conforme os seus caprichos. Os ideais clássicos de verdade e razão foram às favas.

Os departamentos de História não escaparam dessa corrosão pós-modernista. A própria ideia de verdades objetivas no campo do estudo histórico foi solapada por alguns historiadores de grande influência. Alguns passaram a ver os estudos historiográficos como mera ficção e manipulação de documentos antigos que nada tinham a ver com verdade e objetividade. Eles não estavam pondo em xeque apenas as interpretações dos fatos históricos, mas os próprios fatos. Interpretações diversas dos acontecimentos sempre houve, os historiadores sabiam e sabem disto. A diferença é que agora, todas as interpretações não eram mais do que jogos de palavras e proposições sem consonância com o mundo real, mas apenas coadunavam-se com a visão e ideias subjetivas de quem escreve a história.

Felizmente, apesar de todos os estragos intelectuais feitos, a maioria dos historiadores não caíram no canto da sereia, segundo nos conta John Tosh, em seu livro A Busca da História.

Régine Pernoud, Historiadora, Arquivista e Paleografa, com um Ph.D em Letras na Ècole Nationale des Chartes, não caiu nessa maracutaia. Na sua obra Idade Média: O Que Não Nos Ensinaram, livro que foi tema da postagem passada, ela é cristalina quanto a busca da verdade objetiva no campo da história.

Pernoud sintetiza bem, o que historiadores relativistas pensam e fazem, e lhes dá uma resposta:

“‘Eu, compreenda, quando faço história, não é para saber se tal fato é exato ou não; procuro apenas aquilo que possa promover minhas ideias.’ Impunha-se uma resposta: ‘Então, caro senhor, por que faz história? Volte-se para a política, para o romance, o cinema, o jornalismo! A História não tem interesse a não ser quando busca a verdade; ela deixa de se chamar História desde que seja outro seu objetivo’. P. 112.

Para ela:

“[...] a História é o estudo paciente de documentos, às vezes bastante áridos, mas sempre concretos, traços de acontecimentos vividos por pessoas vivas, pouco preocupadas de se condicionar a teorias pré-fabricadas, ou a obedecer a estatísticas determinadas.” P. 112.

A objetividade deve pautar a pesquisa do historiador.

“Impossível negar de modo mais ingênuo ou com menos pudor a História. A liberdade de pensamento que ela exige e necessita como toda pesquisa científica, não pode ser confundida de forma alguma com fantasias intelectuais de um indivíduo ditadas por suas opções políticas, opiniões pessoais, impulsos momentâneos ou mais simplesmente pelo desejo de escrever um volume de grande tiragem. A História tem seu campo. Ela deixa de existir quando não for procura de verdade, fundamentada em documentos autênticos; ela se evapora literalmente; ou melhor, ela nada mais é do que fraude e mistificação. É, aqui, a ocasião de citar a belíssima definição de História de Henri Irénée Marrou: ‘Homem de ciência, o historiador, encontra-se, como nomeado por seus irmãos, os homens, para conquistar a verdade’.” P. 113.

Claro que podem e de fato existem muitas interpretações que deixam a desejar. Erros metodológicos contaminam a credibilidade e veracidade da pesquisa. Mas é precisamente a objetividade que faz com que esses erros sejam notados e corrigidos.

“Remontar às fontes, mas não a qualquer fonte, porque a confusão é frequente em demasia, entre fontes literárias e fontes históricas. É evidente que quando se toma ‘em primeiro grau’, ao pé da letra, o teor das canções de gesta ou dos romances de cavalaria, e se deseja fazer de seus personagens tipos de vida quotidiana, a humanidade que se descreve povoa se de monstros, de grandes crimes, de aberrações. O simples bom senso, parece, deveria bastar para retificar erros deste gênero. Isto não é nada. Vimos comentaristas, na França, principalmente, obstinados em tomar em uma acepção literal obras de pura fantasmagoria. Tudo o que se pode pedir a uma obra literária é que seja eco de uma mentalidade, não a descrição de uma realidade, ainda menos sua descrição exata.” P. 116.

A história sendo ficção para entretenimento dos leitores, está cagando para isso.

O verdadeiro trabalho de pesquisa histórica é árduo e cheio de percalços e dificuldades.

“Ciência árdua, que exige que se debruce, longamente, sobre cacos e escritos ilegíveis — os escritos ilegíveis a que os historiadores marxistas acharam bem tratar com desprezo, porque duvidam de sua própria existência enquanto historiadores. Pesar e repesar o valor histórico de cada fonte de documentação, desde a consistência da cerâmica até a carta ou ata do notário; isolar, lentamente, de uma justaposição de fatos controlados a substância viva, a que permite reconstituir peça por peça o itinerário de um personagem, sua obra, às vezes, quando se tem uma documentação suficiente- mente abundante e falante, sua mentalidade — isto exige anos de trabalho e em nossa época de facilidade é, ainda uma vez, quase heroico, mas é apenas a este preço que se faz História.” P. 132-133.

Não há problema em iniciar uma pesquisa, imbuído de uma certa visão, contanto que se os documentos analisados a desmentirem, o historiador abandone-a.

“Um preconceito como ponto de partida é estimulante por certo, mas é necessário saber se resignar a abandoná-lo sempre que os documentos assim o impuserem.” P. 133.

Isto é precisamente o que historiadores relativistas não farão. Ou as vezes nem são relativistas, apenas querem porque querem manter seus preconceitos a despeito de toda e qualquer evidência que os contrariem.

PERNOUD, Régine. Idade Média: O Que Não Nos Ensinaram. São Paulo: Linotipo Digital, 2016. (PDF).

quinta-feira, 5 de julho de 2018

O Capelão do Diabo



DAWKINS, Richard. O Capelão do Diabo. São Paulo: Companhia das Letras, 2005. (PDF).

Meu primeiro contato com este livro deu-se há uns 11 ou 12 anos, quando em visita a uma livraria, fui para a prateleira de religião, encontrando o infame O Capelão do diabo. Acho que o autor não ficaria feliz de saber que seu livro estava junto as “porcarias” metafísicas que ele mais odeia e que tem travado uma aguerrida batalha nas últimas décadas.

Richard Dawkins (Ph.D em Zoologia na Universidade de Oxford, membro da Royal Society e da Associação Britânica para o Avanço da Ciência) traz nesta obra uma série de artigos, cartas e ensaios reunidos. Foram escritos em momentos distintos, abrangendo temas que já são conhecidos em sua agenda literária. Evolução, Ciência, Religião, Ateísmo, Relativismo, Ética...

Aqui será o maior “resumo” que já fiz neste blog. Com o costumeiro modo de deixar que o próprio autor resumido fale por si mesmo, com várias citações da obra em questão.    

Dawkins não se mostra muito favorável as importunações que os Filósofos fazem ao trabalho científico, questionando o status de verdade deste.

“Os cientistas tendem a assumir uma visão confiante em relação à verdade e ficam impacientes com a ambigüidade filosófica a respeito de sua realidade ou de sua importância.” P. 11.

Outro grupo ao qual ele dispara suas críticas é ao pessoal das ciências humanas, que com um linguajar rebuscado sob o manto da erudição, não dizem nada com nada. O pior que ele tem muita razão no que diz.

“A física é um assunto genuinamente difícil e profundo, de tal maneira que os físicos necessitam dar duro — e o fazem — para tornar sua linguagem tão simples quanto possível (‘mas não mais simples do que seria necessário’, como insistiu Einstein, corretamente). Outros acadêmicos — alguns apontariam o dedo para as escolas européias de teoria literária e de ciências sociais — sofrem daquilo que Medawar (eu acho) chamou de ‘inveja da física’. Eles desejam ser considerados profundos, mas seu assunto é na realidade um tanto simples e raso, de modo que eles necessitam revesti-lo de uma linguagem difícil para reestabelecer o equilíbrio.” P. 12.

Há uma admissão de que o darwinismo traz em seu germe implicações morais perturbadoras, e que, felizmente podemos lutar elas.

“Não há contradição alguma em considerar o darwinismo correto enquanto cientista e acadêmico e, ao mesmo tempo, me opor a ele como ser humano. Isso não é mais incoerente do que explicar o câncer como médico e pesquisador e simultaneamente lutar contra ele no exercício da clínica. Por razões absolutamente darwinianas, a evolução nos legou um cérebro que se avolumou até o ponto de se tornar capaz de compreender a sua própria origem, de deplorar suas implicações morais e de lutar contra elas. Toda vez que usamos a contracepção, demonstramos que o cérebro pode contrariar os desígnios darwinianos.” P. 16.

Seu tiro de canhão agora disparado contra o relativismo cultural. Eu mesmo usei exemplo semelhante para o meu Professor de Antropologia.

“Mostre-me um relativista cultural voando a 10 mil metros de altura e eu lhe mostrarei um hipócrita [...] Se você está viajando de avião para um congresso de antropólogos ou de críticos literários, a razão pela qual provavelmente chegará ao seu destino — ao invés de despencar num campo cultivado — é que uma porção de engenheiros ocidentais cientificamente treinados acertaram nas contas.” P. 19.

Para Dawkins algumas coisas já não são mais passíveis de refutação na Ciência, visto que já foram convincentemente comprovadas (páginas a frente ele se contradiz). Posso não concordar com todos os exemplos citados por ele, mas tendo a subscrever que sim – há coisas que são simplesmente verdadeiras e ponto final. E isto em nada dogmatiza ou engessa a Ciência.  

“É simplesmente verdadeiro que o Sol é mais quente que a Terra e que a escrivaninha na qual eu escrevo neste momento é feita de madeira. Essas não são hipóteses que aguardam refutação, nem aproximações temporárias de uma verdade sempre impalpável; também não são verdades locais que poderiam ser contestadas em uma outra cultura. E o mesmo se pode dizer com segurança em relação a muitas verdades científicas, ainda que não possamos vê-las ‘com os nossos próprios olhos’. A dupla hélice do DNA será sempre verdadeira, assim como será sempre verdadeiro que, se você e um chimpanzé (ou um polvo ou um canguru) seguirem o rastro de seus antepassados até um ponto suficientemente longínquo, acabarão por encontrar um ancestral comum. P. 22.

Espiritualidade na Ciência? Sim.

“A ciência pode ser espiritual, até mesmo religiosa, no sentido não sobrenatural da palavra. P. 30.

Algo que impressiona é o Código Genético ser totalmente digital.

“É difícil ser exagerado em relação à absoluta euforia intelectual no campo da genética depois de Watson e Crick. O que ocorreu é que a genética se converteu num ramo da informática. O código genético é de fato digital, exatamente no mesmo sentido que os códigos dos computadores. Não se trata de uma analogia vaga, mas de uma verdade literal. Além do mais, diferentemente dos códigos dos computadores, o código genético é universal. [...] O código genético, por outro lado, com algumas poucas exceções secundárias, é idêntico em todas as criaturas vivas neste planeta, dos tiobacilos às sequóias-gigantes, dos cogumelos aos homens. Todas as criaturas vivas, ao menos neste planeta, são da mesma ‘marca’.” P. 30-31.

É comum ouvirmos que a Ciência não tem nada a dizer sobre a Ética, a Moral...Mas ela pode lançar (e tem lançado) luz sobre elas. Parece-me que muitos ainda não perceberam isso, ou fingem não perceber.

“A ciência não conta com um método para decidir o que é ético. Trata-se de um assunto que fica a cargo dos indivíduos e da sociedade. Mas a ciência pode ajudar a esclarecer as perguntas formuladas e pode também desfazer mal-entendidos que geram confusão.” P. 36.

Dawkins vê a si mesmo com uma pessoa totalmente imparcial na busca da verdade. Coitado, ele acredita mesmo nisso?

“No entanto, em qualquer lugar do mundo onde me pedissem para, numa única expressão, caracterizar o meu papel como professor de Compreensão Pública da Ciência, creio que eu escolheria Advogado da Verdade Desinteressada.” P.38.

Dawkins no início de seu livro passa uma visão absolutista da realidade que podemos aprender através do método científico, em resposta aos desmandos dos pós-modernistas que relativizam tudo. Mas agora entra em contradição ao dizer que ao invés de termos um conhecimento verdadeiro do mundo, temos apenas um conhecimento útil dele. Ele sem perceber acaba concordando com os pós-modernistas.

“Nossos órgãos sensoriais, como todas as partes de nosso corpo, foram modelados pela seleção natural darwiniana ao longo de inumeráveis gerações. Poderíamos pensar que eles foram moldados para nos dar um retrato ‘verdadeiro’ do mundo como ele “realmente” é. É mais seguro presumir que eles foram moldados para nos fornecer um retrato útil do mundo, que nos auxilie em nossa sobrevivência. De certo modo, o que os órgãos sensoriais fazem é ajudar o nosso cérebro a construir um modelo útil do mundo, e é nesse modelo que nos movemos. É um tipo de ‘realidade virtual’, de simulação do mundo real.” P. 47.

Biologia sem evolução? Dawkins não vê sentido nisto.

“Sem a evolução, a biologia se resume a uma miscelânea de fatos heterogêneos. Até que as crianças aprendam a raciocinar em termos evolutivos, os fatos que elas vierem a conhecer serão apenas fatos, sem nenhuma articulação entre eles e sem nada que os torne significativos ou coerentes. Com a evolução, há uma luz que penetra os mais íntimos recessos, os espaços mais remotos da ciência da vida. Não só se compreendem os fatos, como as razões deles. Como é possível ensinar biologia a menos que se comece pela evolução? Como, a bem da verdade, alguém pode se considerar uma pessoa instruída se nada sabe sobre a razão de sua própria existência?” P. 58.

A evolução tem aplicações interplanetárias, intergalácticas, abrange todo o Universo. Onde houver vida no Universo, ela passou por processos darwinianos, segundo o nosso amigo. Faz sentido, caso ela seja verdadeira mesmo.

“A evolução darwiniana não é simplesmente a base da vida em nosso planeta. É possível defender o argumento de que ela é essencial à vida em si mesma, um fenômeno universal onde quer que haja vida. Se essa suposição estiver correta, a luz lançada por Darwin vai muito mais longe do que jamais sonhou aquele homem gentil e modesto.” P. 62.

Na página 22, já citada, Dawkins diz que a ancestralidade comum dos seres vivos será sempre verdadeira. Entretanto, sua contradição torna-se bastante aparente, quando diz que o darwinismo pode ser abandonado no futuro por não poder responder a questionamentos abalizados que venham a derrubá-lo. A pergunta é: o darwinismo será ou não será sempre verdadeiro? Pode haver um equívoco meu, se a ancestralidade comum não for parte inerente a ideia de evolução proposta por Darwin. O que acho que não é o caso. A ancestralidade comum faz parte do núcleo do pensamento evolutivo.

“Eu falei da vocação de Darwin para compreender as coisas da maneira correta, mas, seguramente, isso só pode significar ‘correta’ do nosso ponto de vista atual. Não seria o caso de sermos humildes o bastante para admitir que o nosso ‘correto’ pode estar completamente errado na opinião das futuras gerações de cientistas? A resposta é ‘não’. Há ocasiões em que a humildade por parte de uma geração pode mostrar-se imprópria, para não dizer pedante.

Atualmente podemos afirmar com confiança que a teoria de que a Terra gira em torno do Sol não apenas é correta no nosso tempo como será correta em todo momento futuro, ainda que a hipótese da Terra plana venha a reviver e a tornar-se universalmente aceita numa nova era das trevas da história humana. Não é possível afirmar exatamente que o darwinismo se encontra na mesma categoria incontestável.

 Pode ser que uma oposição respeitável a ele venha a ser produzida, e pode-se argumentar com seriedade que a atual reputação elevada do darwinismo nas mentes instruídas talvez não perdure ao longo de todas as gerações futuras. Darwin pode mostrar-se triunfante ao final do século XX, contudo temos que reconhecer a possibilidade de que novos fatos venham à luz, forçando nossos sucessores do século XXI a abandonar o darwinismo ou a modificá-lo até que ele se torne irreconhecível.

 Mas será que há um núcleo essencial do darwinismo, um núcleo que o próprio Darwin pudesse ter descrito como o cerne irredutível de sua teoria, que poderíamos situar como uma teoria virtualmente candidata a permanecer fora do alcance da refutação factual?” P. 81.

Ao contrário do que muitos alegam, há componentes hereditários na homossexualidade.

“Os fatos podem ser apresentados em algumas poucas palavras. Uma equipe de pesquisadores do National Institutes of Health, em Bethesda, Maryland, relatou na revista Science o seguinte padrão. A probabilidade de que os homens homossexuais tenham irmãos homossexuais é mais alta do que seria de se esperar se fosse apenas um acaso.

Significativamente, também a probabilidade de que eles tenham tios maternos homossexuais e primos do lado materno homossexuais é maior do que a esperada, o mesmo não ocorrendo do lado paterno. Esse padrão levanta a suspeita imediata de que ao menos um gene causador da homossexualidade nos homens se localiza no cromossomo X.a.

A equipe de Bethesda foi ainda mais longe. A tecnologia moderna possibilitou que procurassem por marcadores moleculares específicos no próprio código do DNA. Numa região, chamada de Xq28, perto da extremidade do cromossomo X, eles encontraram cinco marcadores idênticos partilhados por uma porcentagem sugestivamente alta de irmãos homossexuais. Esses fatos combinam-se com elegância entre si para confirmar indícios anteriores de um componente hereditário em relação à homossexualidade masculina”. P. 102.

Mas a genética do indivíduo não é determinante se ele será ou não homossexual.

“[...] o fato de um indivíduo possuir um gene particular não determina infalivelmente que ele será homossexual. É muito mais provável que a influência causal será estatística. O efeito dos genes nos corpos e no comportamento é como o efeito da fumaça do cigarro nos pulmões. Se você fuma muito, isso aumenta a probabilidade de que você tenha um câncer de pulmão. Mas não determina infalivelmente que você terá um câncer de pulmão. Nem garante infalivelmente que você não terá um câncer de pulmão se evitar o fumo. Vivemos num mundo estatístico.” P. 103.

“Os genes não têm o monopólio do determinismo.” P. 104.

Dawkins se pergunta sobre o porquê das religiões serem tão ridículas, dando o exemplo de uma distintiva crença católica.

“Seria possível pensar que algumas religiões são preferidas, não apesar de serem ridículas, mas precisamente porque são ridículas? Qualquer religioso iniciante poderia acreditar que o pão representa simbolicamente o corpo de Cristo, mas é preciso ser um católico verdadeiro, um católico até a raiz dos cabelos, para acreditar em algo tão bizarro como a transubstanciação. Se alguém pode acreditar nisso, pode acreditar em qualquer coisa.” P. 135.

Os televangelistas e suas vigarices escancaradas:

“Muitos de nós apostaríamos que ninguém teria sucesso se fosse à televisão e dissesse, com todas as palavras: ‘Envie-me seu dinheiro para que eu possa usá-lo para convencer outros trouxas a me enviar o dinheiro deles também’. E no entanto, hoje em dia, em qualquer grande cidade dos Estados Unidos nós podemos encontrar pelo menos um canal evangélico totalmente dedicado a esse tipo de fraude transparente. E eles conseguem sacos de dinheiro. Diante dessa parvoíce em escala tão assustadora, é difícil não nutrir um sentimento de compreensão ressentida em relação a esses vigaristas de ternos brilhantes.

Até que nos lembramos de que nem todos os trouxas são pessoas ricas, e de que quase sempre é com o parco dinheirinho das viúvas que os evangélicos engordam seus cofres. [...] Deus só aprecia verdadeiramente uma doação, disse ele, com sinceridade apaixonada, quando ela é substancial a ponto de representar um prejuízo para o doador. Anciãos pobres eram conduzidos em cadeiras de rodas para testemunhar o quanto eles se sentiam mais felizes depois de terem doado o pouco que tinham para o reverendo fulano de tal.” P. 136.

Dawkins é irredutível. Não há harmonia entre religião e Ciência.

“Estarão a ciência e a religião convergindo? Não. Atualmente há cientistas cujas palavras soam religiosas, mas cujas crenças, se examinadas de perto, mostram-se idênticas às de outros cientistas que se referem a si mesmos, sem rodeios, como ateus.” P. 139.

Há coisas que Dawkins escreve que só lendo as próprias palavras dele para acreditar. Surpreendentemente ele diz que:

“[...] a religião [não] é em si a motivação para as guerras, os assassinatos e os ataques terroristas, mas que ela é o principal rótulo, e o mais perigoso, pelo qual se demarca uma oposição entre um ‘eles’ e um ‘nós’. Não estou afirmando nem mesmo que a religião seja o único rótulo pelo qual demarcamos as vítimas de nossos preconceitos. Há também a cor da pele, a língua e a classe social. Mas, com freqüência, como é o caso na Irlanda do Norte, esses rótulos não se aplicam, e a religião torna-se o único sustentáculo de uma divisão. Mesmo quando não está sozinha, ela é quase sempre um ingrediente explosivo na mistura desses rótulos. P. 148-149.

A bala do seu canhão agora é disparada contra a Homeopatia, que carece de testes que a legitimem como tratamento medicinal eficaz. Lembro que em 2004 o programa Fantástico exibiu durante quatro domingos seguidos, a batalha de um Cientista em tentar provar a cientificidade dos remédios homeopáticos. Os testes não foram favoráveis.

“Há uma saída possível em relação a esse problema, da qual os homeopatas frequentemente lançam mão desde que se chamou a atenção deles para essa dificuldade embaraçosa. O modo de ação de seus remédios, dizem eles, não é químico, mas físico. Eles concordam com a afirmação de que nem uma única molécula do ingrediente ativo subsiste no frasco que compramos, mas isso só importa se insistirmos em raciocinar nos termos da química. Eles acreditam que, por algum mecanismo físico que os próprios físicos desconhecem, uma espécie de ‘traço’ ou de ‘memória’ das moléculas ativas se imprime nas moléculas da água empregada para diluí-las. É o molde impresso fisicamente na água que cura o paciente, e não a natureza química do ingrediente original. Essa é uma hipótese científica, no sentido de que é passível de verificação. Ela é facilmente testável, na verdade, e se não me dou ao trabalho de fazê-lo é somente porque considero que o tempo e o dinheiro de que dispomos seria mais bem empregado no teste de uma hipótese mais plausível. Mas todo homeopata que realmente acredite em sua teoria deveria se esforçar dia e noite para comprová-la.

Afinal de contas, se os testes duplo-cego dos medicamentos prescritos aos pacientes produzissem repetidamente um resultado positivo confiável, ele ganharia um prêmio Nobel não somente de medicina como também de física. E teria descoberto um princípio da física novinho em folha, talvez uma nova força fundamental no universo. Com uma tal perspectiva em vista, os homeopatas com certeza devem estar se acotovelando uns com os outros na sua ânsia por chegar primeiro ao laboratório, correndo em disparada, como Watsons e Cricks alternativos, para reclamar para si esse brilhante galardão científico. Bem, na verdade eles não estão. Será que eles não acreditam de fato em sua teoria, afinal de contas?” P. 172.

Valeu demais a leitura. Gosto do Dawkins, apesar de seus exageros. Meus amigos é que não gostam.

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

A Cultura no Mundo Líquido Moderno


BAUMAN, Zigmunt. A Cultura no Mundo Líquido Moderno. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2013. (PDF).

Bauman (Professor de Sociologia da Universidade de Leeds e Varsóvia) é um dos teóricos mais lidos dos últimos anos. Suas análises sagazes da sociedade atual conseguem explicar muito bem o modo como temos vivido nas últimas décadas. Dezenas de livros sobre a sociedade hodierna são de autoria desse Sociólogo polonês, que tem servido de base para que outros acadêmicos construam as suas posições, teses e interpretações sobre como temos vividos nossas relações com o consumo, com os familiares, amigos e etc. 

Aqui está a definição do termo que o fez ficar tão conhecido:

“Uso aqui a expressão 'modernidade líquida' para denominar o formato atual da condição moderna, descrita por outros autores como ‘pós-modernidade’, ‘modernidade tardia’, ‘segunda modernidade’ ou ‘hipermodernidade’. O que torna ‘líquida’ a modernidade, e assim justifica a escolha do nome, é sua ‘modernização’ compulsiva e obsessiva, capaz de impulsionar e intensificar a si mesma, em consequência do que, como ocorre com os líquidos, nenhuma das formas consecutivas de vida social é capaz de manter seu aspecto por muito tempo. ‘Dissolver tudo que é sólido’ tem sido a característica inata e definidora da forma de vida moderna desde o princípio; mas hoje, ao contrário de ontem, as formas dissolvidas não devem ser substituídas (e não o são) por outras formas sólidas – consideradas ‘aperfeiçoadas’, no sentido de serem até mais sólidas e ‘permanentes’ que as anteriores, e portanto até mais resistentes à liquefação. No lugar de formas derretidas, e portanto inconstantes, surgem outras, não menos – se não mais – suscetíveis ao derretimento, e portanto também inconstantes.” P. 11.

Bauman é cirúrgico em sua análise das relações de consumo que nos são "impostas". Somos manipulados a ter necessidades que nunca serão satisfeitas, pois novas aquisições nos serão oferecidas, com a promessa de que com elas, agora sim, seremos plenamente supridos. Mas nunca conseguimos chegar a esse nirvana; a esse estado de torpor. Então um novo ciclo se inicia ad infinitun. Somos geralmente feitos de trouxas, e raramente nos damos conta disso. São os males do capitalismo, numa sociedade relativista.

“Uma economia líquido-moderna, orientada para o consumidor, baseia-se no excedente das ofertas, no rápido envelhecimento e no definhamento prematuro do poder de sedução. [...] Um suprimento ininterrupto de ofertas sempre novas é imperativo para a crescente circulação de produtos, com um intervalo reduzido entre aquisição e alienação; as ofertas são acompanhadas pela substituição por produtos ‘novos e melhores’. [...] A função da cultura não é satisfazer necessidades existentes, mas criar outras – ao mesmo tempo que mantém as necessidades já entranhadas ou permanentemente irrealizadas. Sua principal preocupação é evitar o sentimento de satisfação em seus antigos objetos e encargos, agora transformados em clientes; e, de maneira bem particular, neutralizar sua satisfação total, completa e definitiva, o que não deixaria espaço para outras necessidades e fantasias novas, ainda inalcançadas.” P. 14.

Aqui é um bom diagnóstico do que é a nossa relação de consumo hoje em dia:

 “Se você não quer afundar, deve continuar surfando, ou seja, continuar mudando, com tanta frequência quanto possível, o guarda-roupa, a mobília, o papel de parede, a aparência e os hábitos – em suma, você. Uma vez que os esforços coordenados e resolutos do mercado de consumo fizeram com que a cultura fosse subjugada pela lógica da moda, torna-se necessário – para ser uma pessoa e ser visto como tal – demonstrar a capacidade de ser outra. [...] As pessoas que se apegam a roupas, computadores e celulares de ontem significam a catástrofe para uma economia cuja principal preocupação, e cuja condição sine qua non de sobrevivência, é o descarte rápido, e cada vez mais abundante, na lata do lixo, dos bens comprados e adquiridos; uma economia cuja coluna vertebral é a remoção do lixo”. P. 19-20.

Moda Líquida, segundo Bauman, que mais uma vez acerta na mosca. Tudo é volúvel, sujeito a desaparecer, a ser ultrapassado quando menos esperamos. E para não "morrermos afogados", cedemos, consumindo, consumindo e consumindo, para entrar na moda. É uma verdadeira paranoia, sobretudo, quando vejo neguinho/a todo ano, por exemplo, trocando de celular, porque precisa estar com o aparelho mais moderno, se não "pira" - precisa livrar-se do que já "não serve". Não que eu não tenha muitas vezes também, tal vontade, afinal, estamos todos dentro dessa teia esquizofrênica de consumo.

O velhinho da Polônia nos premia com uma sagaz crítica ao multiculturalismo, filhote querido do pós-modernismo, ou nas palavras Jonathan Friedman, citadas por Bauman, “modernistas sem modernismo”:

"Em suas consequências práticas, a filosofia do ‘multiculturalismo’, tão em voga entre os ‘modernistas sem modernismo’, refuta seu próprio valor teoricamente promulgado de coexistência harmoniosa de culturas. De modo consciente ou involuntário, de propósito ou por negligência, essa filosofia apóia tendências separatistas e, portanto, antagônicas, tornando assim ainda mais difícil qualquer tentativa de estabelecer seriamente um diálogo multicultural.

[...]

A nova indiferença à diferença apresenta-se, em teoria, como uma aprovação do ‘pluralismo cultural’. A prática política constituída e apoiada por essa teoria é definida pelo termo ‘multiculturalismo’. Ela é aparentemente inspirada pelo postulado da tolerância liberal e do apoio aos direitos das comunidades à independência e à aceitação pública das identidades que escolheram (ou herdaram). Na realidade, contudo, o multiculturalismo age como uma força socialmente conservadora. Seu empreendimento é a transformação da desigualdade social, fenômeno cuja aprovação geral é altamente improvável, sob o disfarce da ‘diversidade cultural’, ou seja, um fenômeno merecedor do respeito universal e do cultivo cuidadoso. Com esse artifício linguístico, a feiúra moral da pobreza se transforma magicamente, como que pelo toque de uma varinha de condão, no apelo estético da diversidade cultural". P. 33.

O discurso multiculturalista traz em si, o germe inerente da contradição. Promove aquilo que diz combater. Perpetua as facetas da opressão. Bauman ainda desfere páginas a frente, várias críticas a esse pensamento insustentável, mas que teima em estar na pauta de vários intelectuais.

E aqui vai uma palavrinha aos atuais “detentores do conhecimento”, que penso eu, se aplica direitinho aos defensores multiculturais:

"Enfrentar o status quo exige coragem, considerando-se o enorme poder das forças que o sustentam; coragem, porém, é uma qualidade que os intelectuais, antes conhecidos por sua bravura ou por seu destemor simplesmente heróico perderam nas suas empreitadas em busca de novos papéis e novos ‘nichos’ como especialistas, gurus acadêmicos e celebridades midiáticas". P. 35.

O livro ainda se aplica em falar sobre a cultura na Europa, que graças ao seu processo de unificação, tem sobrevivido aos males da globalização (que corrói a soberania do Estado-nação), preservando a sua identidade.

E por fim, a produção da cultura e sua atual relação com o mercado, são o tema do derradeiro capítulo. E mais uma vez, Bauman em suas análises, não vê com bons olhos, a submissão da arte ao deus mercado.

“Submeter a atividade cultural aos padrões e critérios dos mercados de consumo equivale a exigir que as obras de arte aceitem as condições de ingresso impostas a qualquer produto que aspire à categoria de bem de consumo – ou seja, justificar-se em termos de seu valor de mercado atual.” P. 73-74.

domingo, 4 de junho de 2017

A Incoerência do Relativismo

Os relativistas dizem: “Não existe esse negócio de verdades absolutas, esse negócio de certo ou errado!” Essa afirmação é auto refutável, autodestrutiva, ou seja, não satisfaz os seus próprios critérios de validade! Afirmam exatamente aquilo que estão tentando negar! Os relativistas estão ABSOLUTAMENTE certos de que não existem ABSOLUTOS! A pergunta que se deve fazer a eles é esta: “Vocês estão ABSOLUTAMENTE CERTOS disso?” Eles ficarão num beco sem saída. Toda e qualquer resposta que eles derem será contraditórias.

Porém, alguns relativistas dizem que essa pergunta, é uma “pegadinha filosófica”, ou, um “jogo de palavras” que são destruídas pela Filosofia da Linguagem. Afirmam que a linguagem é limitada e produz paradoxos que leva a certas ideias não poderem ser expressas plenamente a não ser em longos e "resolutos discursos". Dizem que “as contradições do discurso são causadas pelo paradoxo linguístico”. No entanto, se essa pergunta é um “jogo de palavras, a afirmação “Não existem verdades absolutas...” também o É! Pois a pergunta segue a mesma estrutura gramatical que a afirmação, usando as mesmas palavras chaves. Meu amigo Amadeu Leandro (Licenciado em Filosofia na UFRN) acertadamente diz:

“O problema com essa contradição é que ela não se restringe apenas a uma contradição linguística, mas lógica. Ora, devemos lembrar que os nossos pensamentos são expressos pela linguagem. É na e pela linguagem que ocorre a transmissão do pensamento. Querer dizer e tentar evitar as contradições do discurso afirmando que essas contradições são frutos do paradoxo linguístico é um escapismo. O mais interessante é ver que quando os relativistas se veem em contradição eles jogam a culpa para a linguagem. Mas por que também não seguir o caminho inverso, isto é, atribuir aos paradoxos linguísticos quando eles não cometem contradição? Vamos também classificar de paradoxo linguístico o enunciado de que ‘as contradições do discurso são causados pelo paradoxo linguístico’. Além do mais, se essa pergunta for um jogo de palavras e por isso deve ser rejeitada, então pelo mesmo raciocínio o discurso dos relativistas também o são, e logo devem rejeitá-lo. Esse é o calcanhar-de-Aquiles do relativista: ao tentar refutar alguém, refuta a si próprio, caindo na própria armadilha.”

Ele continua:

“O relativista é contraditório quando nega a existência da verdade. Pois negar a verdade já é PRESSUPÔ-LA. É impossível alguém afirmar: “VERDADES NÃO EXISTEM”, se não acreditar na VERDADE dessa declaração. Negar isso é tão absurdo quanto o aluno que responde ausente enquanto o professor faz a sua chamada.

Com efeito, para um relativista rejeitar uma cosmovisão como falsa soa estranho. Um verdadeiro relativista jamais deve rejeitar a crença de alguém como falsa. Pois ao fazer isso, o relativista está supondo que o outro que adota um ponto de vista contrário ao seu, está errado, o que implica que o seu (a do relativista) é a certa. Mas aqui vai uma pergunta: como o relativista pode rejeitar uma crença de outra pessoa como falsa, se a verdade não existe? Um relativista para ser coerente com a sua filosofia deve aceitar todas as crenças, inclusive aquelas que ele discorda, como igualmente válidas, uma vez que não existe um padrão de verdade!

O relativista diz: “TUDO É RELATIVO.” Bem, se tudo é relativo, então não é verdade que tudo é relativo, pois essa proposição tem um ar de ABSOLUTA. Para falar a verdade, o grande inimigo do relativista são as suas ações. Pensam que verdades ou valores objetivos não existem, mas vivem como se eles existissem.

Só uma ironia: espero que os relativistas não discordem do meu argumento, já que não existem critérios fixos pelos quais possa discordar de mim. Na realidade, eles não podem dizer que o meu argumento está certo ou errado, já que não há padrões de verdade para fazer tal julgamento do meu texto.”

Outro amigo, Pedro Mendes, Licenciado e Pós-Graduado em Ciências da Religião na UERN, com perspicácia escreveu:

“Se ‘não existe verdade’, então a frase ‘não existe verdade’ não é verdadeira, logo, deve existir verdade. Se a ‘verdade é relativa’, a afirmação ‘a verdade é relativa’ também é relativa, o que implica haver uma verdade absoluta.

Se não há nenhuma verdade absoluta, mas somente interpretações dos fatos, a mentira também não existe, pois como pode a mentira existir sem a verdade? Não seria a mentira também uma simples interpretação dos fatos? Sem a absolutização da verdade, o bem e o mal são a mesma coisa, vistos por ângulos diferentes.

Dessa forma, a devota Madre Tereza de Calcutá e o tirano Adolf Hitler não passam de caricaturas humanas, frutos do seu próprio tempo. Em suma, a caridade e a bestialidade, seriam meras convenções humanas; a virtude e a piedade poderiam ser colocadas ao lado do ódio e da maldade, e tudo terminaria na mesma.

A verdade precisa existir, caso contrário, que sentido faz em dizer que o outro está errado? Por que se incomodar com as inverdades ou com as injustiças? Por que se chatear quando alguém toma o seu lugar na fila ou rouba ou seu sanduíche? Afinal, toda crítica que se faz ao outro não pressupõe uma verdade a priori? De outra forma, nenhuma crítica faria sentido, e nenhum juízo de valor aconselhável, você não acha? Anulando a verdade e a crítica, não estaríamos decretando com isso a morte do pensamento?”

Peter Lipton (Professor e Chefe do Departamento de História e Filosofia da Ciência na Universidade de Cambridge) diz:
                              
“Os filósofos não estão de acordo quanto a isto. Todavia, sou de opinião de que existem verdades absolutas. (…) Pode haver áreas em que não se possa chegar à verdade absoluta. Algumas pessoas diriam que as afirmações sobre questões éticas são desse exemplo; outras di-lo-iam acerca das afirmações sobre beleza. Porém, disto não se infere que não existam áreas em que há verdade absoluta.

Posto isto, a pergunta que se impõe é se dispomos de algum exemplo plausível de verdade absoluta. Eis um: «Há árvores em Portugal». Não é a frase mais excitante que imaginar se possa, concordo, mas é verdadeira, e não só para mim. É apenas verdadeira, absolutamente. Deixo-lhe a missão de descobrir exemplos mais interessantes.”

(http://www.paginasdefilosofia.net/page/92/ - Texto do livro de Alexandre  George, O Que Diria Sócrates, Gradiva, 2008, P. 37-39).

Norman Geisler (Ph.D em filosofia pela Universidade Loyola, membro da Associação Cientifica Americana, Sociedade Americana de Religião e da Sociedade Filosófica Americana) escreve:

“Existem muitas outras verdades sobre a verdade. Veja algumas delas:

•             A verdade é descoberta, e não inventada. Ela existe independentemente do conhecimento que uma pessoa tenha dela (a lei da gravidade existia antes de Newton).

•             A verdade é transcultural. Se alguma coisa é verdadeira, então ela é verdadeira para todas as pessoas, em todos os lugares, em todas as épocas (2 + 2 = 4 para todo o mundo, em todo lugar, o tempo todo).

•             A verdade é imutável, embora as nossas crenças sobre a verdade possam mudar (quando começamos a acreditar que a Terra era redonda, em vez de plana, a verdade sobre a Terra não mudou; o que mudou foi nossa crença sobre a forma da Terra).

•             As crenças não podem mudar um fato, não importa com que seriedade elas sejam esposadas (alguém pode sinceramente acreditar que o mundo é plano, mas isso faz apenas a pessoa estar sinceramente errada).
•             A verdade não é afetada pela atitude de quem a professa (uma pessoa arrogante não torna falsa a verdade que ela professa. Uma pessoa humilde não faz o erro que ela professa transformar-se em verdade).

[...]

Em resumo, é possível haver crenças contrárias, mas verdades contrárias é uma coisa impossível de existir. Isso parece suficientemente óbvio. Mas como lidamos com a assertiva moderna de que não existe verdade?

Uma afirmação falsa em si mesma é aquela que não satisfaz o seu próprio padrão. A afirmação — ‘Não existe verdade’ — pretende ser verdadeira e, portanto, derrota a si mesma. É como se um estrangeiro dissesse: ‘Eu não consigo falar uma palavra sequer em português’. Se alguém dissesse isso, você obviamente responderia: ‘Espere um minuto! Sua afirmação é falsa porque você acabou de falar em português!’.”

(GEISLER; Norman; TUREK, Frank. Não Tenho Fé Suficiente Para Ser Ateu. São Paulo: Vida, 2007. P. 36-37).

Dr. Mário Carabajal, Psicanalista Clínico e Presidente da Academia de Letras do Brasil, nos diz algo interessante:

Ao conhecer as verdades relativas, conhecemos também parte da verdade absoluta. Veja-se a teoria do átomo. Embora ela corresponda à realidade, não é completa. Não podemos dizer que esgotamos o assunto. Há muito ainda por conhecer sobre a natureza e a quantidade das partículas elementares que formam o átomo, sobre as causas que originaram sua mutabilidade, a ‘bola de fogo’ de César Lates... A atual teoria do átomo é uma verdade relativa, mas, ao mesmo tempo, ela contém graus de verdade absoluta em crescimento. Assim, a verdade relativa que conhecemos contém partículas da verdade absoluta, é um momento da verdade absoluta. O Pensamento Humano é, por natureza, capaz de conhecer a verdade absoluta que resulta da soma global das verdades relativas. Cada fase do desenvolvimento da ciência adiciona novas partículas a essa soma global de verdades relativas. A verdade absoluta está para a verdade relativa como o todo está para as partes.

(http://www.academialetrasbrasil.org.br/literoterapia.htm - Texto Introdução à Litoterapia)

No programa Café Filosófico da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, há alguns anos, Alípio Filho (Ph.D em Sociologia Université Rene Descartes, Paris V, Sorbonne) falou sobre A Concepção Construcionista da Realidade – visão predominante na Sociologia e Antropologia. Uma teoria que afirma que toda a realidade é um construto social; em outras palavras é a negação de verdades objetivas. Na sessão debate, um ouvinte lhe fez uma pergunta bastante capciosa, porém, uma pergunta que deitou por terra toda (ou quase toda) a teoria exposta pelo Alípio. A pergunta foi:

“Professor Alipío, eu queria perguntar se você não acha que essa posição construcionista não tem, vamos dizer, de base, uma posição realista na medida em que para perceber que a realidade é um construto, eu preciso perceber o que é a realidade em si. Então se ela não tem como fundamento uma percepção do real?! É isso.”

O questionamento de Anastácio Borges (Ph.D em Filosofia na Unicamp) mostrou a falácia do fundamento da Sociologia do Alípio (tudo é uma construção social). Ao longo de mais de 20 minutos, ele expôs a sua teoria de maneira clara e fluente (embora, às vezes, gaguejasse um pouco), contudo, quando se deparou com essa pergunta – gaguejou bastante e como resposta, disse que era uma questão importante, contudo, que o tempo era pouco para responder; falou sobre os pré-socráticos; nominalistas e naturalistas; admitiu que há uma base realista materialista, mas que essa realidade se dá através da linguagem... Enfim, fez uma explanação interessante, mas que não convenceu, ou, só convence quem já acredita ou quem está predisposto a crer nessa teoria.

Pois se tudo é uma construção social, por que os Sociólogos e Antropólogos fazem tanta questão de “provar” isso? Essa tese de que tudo é um construto, está mais para um postulado metafísico e dogmático que não pode ser provado. Pois se essa idéia for “verdade”, a própria afirmação (tudo é um construto social) também é fruto de uma construção social condicionada ao meio em que foi formulada! Não é uma afirmação OBJETIVA, mas construída socialmente. E, portanto, não tem mais valor do que a afirmação dos “reacionários”, “direitistas”, “religiosos atrasados”, de que nem tudo é uma construção social, de que existem absolutos morais, verdades objetivas e que se pode conhecer pelo menos parte da realidade em si. E, se, este for o caso, e É - por que esses Cientistas sociais, muitas vezes discordam veementemente quando são questionados pelos seus alunos em sala de aula? Não são raras às vezes, em que esses alunos mais perspicazes são tratados com desdém e ridicularizados por esses “intelectuais” contemporâneos.

O Filósofo Olavo de Carvalho percebeu uma ironia que acontece frequentemente quando se debate com os relativistas:

“Os sujeitos que menos toleravam objeções eram precisamente aqueles que mais proclamavam a relatividade de tudo e a inexistência de verdades absolutas”.


Ele está certíssimo! Eles acusam os veristas e moralistas de terem a mente fechada. Mas por que estes teriam a mente fechada? Por que não concordam com o relativismo e dizem que o mesmo está errado? Contudo, os relativistas, não concordam com o absolutismo verista e moral, dizem que os que abraçam essa visão não estão certos. Então pelo mesmo raciocínio, os relativistas teriam a mente fechada! No entanto, eles não admitem essa conclusão. Usam dois pesos e duas medidas. Mas não importa. A carapuça de mente fechada lhes caem muito bem. Não toleram nenhuma ideia que vá de encontro as suas teses relativistas. O que é um CONTRA-SENSO dos GRANDES, já que eles dizem não existir verdades absolutas ou objetivas. É interessante notar que muitos relativistas já escreveram longos textos, livros e artigos tentando “provar” a não-existência de verdades objetivas. Mas se elas não existem, pra quê se preocupar em convencer os veristas de seu “erro”? A maior prova de que os relativistas acreditam em verdades absolutas são seus extensos textos tentando negar a existência de tais VERDADES. Os relativistas só não querem admitir o óbvio.

PS: parece-me que a maioria dos Filósofos não estão a vontade em usar a expressão “verdade absoluta”, preferindo no lugar desta, “verdade objetiva”. Uns usam as duas expressões de forma intercambiável, como sinônimas.