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segunda-feira, 1 de outubro de 2018

Uma História do Negro no Brasil



ALBUQUERQUE, Wlamyra R. de; FILHO, Walter Fraga. Uma História do Negro no Brasil. Salvador: Centro de Estudos Afro-Orientais; Brasília: Fundação Cultural Palmares, 2006.

Wlamyra de Albuquerque (Doutora em História Social na Unicamp) e Walter Fraga (Doutora em História Social na Unicamp), traçam a história do negro desde a escravidão africana, sendo intensificada pelos árabes, culminando no grande comércio escravagista europeu, que trouxe para cá, a partir do século XVI, milhões de negros para trabalharem forçadamente para enriquecer a Portugal e os senhores de engenho.

O Brasil se desenvolveu ancorado no trabalho escravo, que fazia do negro uma coisa útil para um determinado fim. Tanto o escravo africano como o escravo crioulo (nascido aqui), arranjaram diversas formas de resistência ao regime escravocrata, ora fugindo e criando seus quilombos, ora sabotando as plantações e os bens de seus senhores, fundando irmandades...

Eles criaram a Capoeira, luta disfarçada em dança; mantiveram em meio a perseguição, a sua inabalável crença nos orixás, inundaram o Brasil com os seus costumes, hábitos, culinária...

Diante de revisionismos toscos de uma classe de pessoas que se julgam guardadoras da alta moral, que querem minimizar os horrores da escravidão e de suas sequelas tão evidentes diante de nossos olhos (o racismo e a situação de vulnerabilidade do negro), é um alento ler um livro sério sobre a história de tão grande parcela de pessoas que levaram esse país nas costas.

A escravidão já existia no continente africano muito antes dos europeus aportarem lá, para levar os seus primeiros cativos para trabalharem em suas lavouras, países, feitorias e etc. Mas era em quantidades bem inferiores comparada ao viria depois. Os árabes intensificaram vertiginosamente tráfico, e daí não parou mais.

“Desde que os árabes ocuparam o Egito e o norte da África, entre o fim do século VII e metade do século VIII, a escravidão doméstica, de pequena escala, passou a conviver com o comércio mais intenso de escravos. A escravidão africana foi transformada significativamente com a ofensiva dos muçulmanos. Os árabes organizaram e desenvolveram o tráfico de escravos como empreendimento comercial de grande escala na África. Não se tratava mais de alguns poucos cativos, mas de centenas deles a serem trocados e vendidos, tanto dentro da própria África quanto no mundo árabe e, posteriormente, no tráfico transatlântico para as Américas, inclusive para o Brasil.” P. 15.

A religião dos árabes lhes davam o aval para escravizarem aqueles que não estavam no curral de fieis do islamismo. As jihads chegaram a África, para converter na base da força e escravizar.

“Desde os fins do século VIII, os árabes, partindo da região do Golfo Pérsico e da Arábia, disseminaram o islamismo pela força da palavra, dos acordos comerciais e, principalmente, das armas. Eram as guerras santas, as jihad, destinadas a islamizar populações, converter líderes políticos e escravizar os ‘infiéis’, ou seja, quem se recusasse a professar a fé em Alá.” P. 16.

A “misericórdia” de Alá se traduzia assim, para com os de fora:

“O Corão não condenava o cativeiro. Para os seguidores do profeta Maomé, a escravização era uma espécie de missão religiosa. O infiel, ao ser escravizado, ‘ganhava’ a oportunidade da conversão e, depois de devidamente instruído nos preceitos islâmicos, tinha direito a voltar a ser livre.” P. 18.

Quantos mais escravos, mais dinheiro no bolso. Nessa corrida, por exemplo, os luadenses eram os caçadores.

“[...] eram os próprios moradores de Luanda que se lançavam à caça de cativos. Luanda rapidamente se tornou uma grande feira de comércio de gente. Angola, desde fins do século XVI até a primeira metade do século XVIII, foi o maior fornecedor de escravos para as Américas portuguesa e espanhola.” P. 33.

Cabe aqui uma ressalva. Não é raro vermos por aí, alguns querendo mitigar a escravidão que houve por aqui, ressaltando a escravidão dos africanos contra os próprios africanos, alegando que nem eles tinham consideração pelos seus “irmãos”. Tal ideia ignora que a única coisa que eles tinham em comum eram a cor da pele e a sua moradia num mesmo continente, que por sinal é gigante, abarcando culturas e modos de vida bem distintos. Eles eram suscetíveis a todos os erros e virtudes, como qualquer europeu era. Não consigo concluir a partir da escravidão existente na África, um álibi para a escravatura aqui, e muito menos para o racismo ainda existente.

O conceito de salvação dos cristãos não era muito diferente dos muçulmanos. A justificativa para escravizar tinha na verdade uma missão mais nobre e profunda por trás. A salvação espiritual do africano. Ah, o amor cristão...

“Na idéia dos europeus, o tráfico era justificado como instrumento da missão evangelizadora dos infiéis africanos. O padre Antônio Vieira considerava o tráfico um ‘grande milagre’ de Nossa Senhora do Rosário, pois retirados da África pagã, os negros teriam chances de salvação da alma no Brasil católico. No século XVIII, o conceito de civilização complementará a justificativa religiosa do tráfico atlântico ao introduzir a idéia de que se tratava de uma cruzada contra as supostas barbárie e selvageria africanas.” P. 41.

Feito cativo, o africano agora seria tratado que nem gado.  

“Antes de entrar nas embarcações, eles [os escravos] eram marcados a ferro quente no peito ou nas costas com os sinais que identificavam a que traficante pertenciam, uma vez que em cada barco viajavam escravizados pertencentes a diferentes donos.” P. 48.

A vinda até aqui era dura, penosa, um verdadeiro inferno.

“Estimativas mais recentes calculam entre 15 a 20 por cento de mortos durante uma viagem normal, mas não era incomum haver 40 a 50 por cento de perdas.” P. 50.

“Havia ainda a morte provocada por suicídio e não foram poucos os cativos que puseram fim à existência precipitando-se no mar.” P. 50.

Até existiam leis que tinham a finalidade de “proteger” os escravos contra os exagerados castigos impostos por seus senhores, mas não novidade que eles só estavam no papel, não tendo nenhum efeito prático e real.

“Apesar da legislação colonial permitir que escravos e livres denunciassem senhores cruéis às autoridades civis ou eclesiásticas, pouquíssimos senhores responderam perante os juízes por acusações de crueldade contra escravos. A maioria dos acusados terminou perdoada ou absolvida por juízes que, em geral, pertenciam à mesma classe dos senhores.” P. 69.

Diante da revolta de ser escravizado, muitos negros podiam e sabotavam as produções. Era preciso ter cuidado e estar de olho.

“A produção no engenho podia ser facilmente sabotada. Bastava espremer um limão em uma caldeira de melado para impedir a sua cristalização em açúcar. Daí que, trabalhadores negligentes e rebeldes não eram selecionados para as tarefas mais especializadas. Para conseguir a colaboração dos escravos era preciso recorrer a incentivos. Os senhores costumavam pagar os escravos especializados com pequenas quantidades de açúcar, aguardente, melaço, roupa ou mesmo em dinheiro.” P. 75.

E que não é novidade:

“A sociedade escravista contou com o apoio da Igreja Católica para inculcar nos cativos paciência e humildade como virtudes desejáveis.” P. 96.

Li não lembro aonde, um Historiador dizendo que os feriados católicos, que não eram poucos, e é exatamente pela abundância deles, salvaram muitos africanos dos trabalhos estafantes a que estavam submetidos. Isso alivia e minimiza o papel dela numa conjuntura tão brutal quanto foi a escravidão no Brasil?

Umas das grandes forças terapêuticas que mantiveram muitos africanos fortes diante da brutalidade portuguesa, foi a religião. A crença nos orixás dava-lhes a força necessária para resistirem e manterem a esperança. Mas cultivar o culto aos seus deuses era proibido pelo estado.

“Africanos e afro-brasileiros não tinham liberdade para cultuar seus santos e deuses, mas muitas vezes tinham permissão para fazê-lo. E permissão não é liberdade. A Constituição do país, promulgada em 1824, definiu o catolicismo como religião oficial do Império, sendo outras religiões permitidas desde que não ostentassem templos. Mas as religiões afro-brasileiras não estavam incluídas nessa tolerância legal porque não eram consideradas religião e sim superstição, curandeirismo, feitiçaria. Por isso eram consideradas práticas ilegais e muitas vezes criminosas.” P. 112.

Na segunda metade do século XIX começam a aparecer vários grupos abolicionistas, e muitos se destacaram na guerra contra o sistema escravista. Uns lutavam apenas pelo fim do cativeiro, outros, se preocupavam com a situação econômica e social dos negros quando fossem libertos. Foi o caso de André Rebouças (1838-1898).

“André Rebouças pregava mudanças na legislação que permitissem aos ex-escravos acesso à terra. Era o que ele chamava de ‘democracia rural’, uma espécie de reforma agrária que deveria promover a inclusão social dos ex-escravos. Para Rebouças a luta contra a escravidão não podia ser desligada da luta pela cidadania dos ex-escravos e dos seus descendentes.” P. 164.

Acabada a escravidão em 1888, as ideias racistas eugênicas começam a percorrer o seu nefasto caminho.

“Em 1894, Raimundo Nina Rodrigues, professor da Faculdade de Medicina da Bahia, defendeu uma idéia polêmica sobre a responsabilidade penal no Brasil. Segundo Nina Rodrigues os criminosos deveriam ser julgados por critérios diferenciados, pois os negros seriam naturalmente incapazes de compreender certas regras sociais e, portanto, não poderiam ser responsabilizados penalmente do mesmo modo que os brancos. Na sua lógica, por conta das hierarquias raciais, os negros deveriam ter um tratamento jurídico diferenciado. Afinal, se as raças eram desiguais em termos civilizatórios, não se poderia igualar a cidadania dos negros à dos brancos, ou seja, não era possível estabelecer direitos e deveres iguais para todos. Já em 1899 ele publicou um estudo intitulado ‘Mestiçagem, crime e degenerescência’, no qual relacionou certos problemas psiquiátricos a miscigenação racial. No entanto, as suas convicções racistas não o impediram de realizar pesquisas importantes sobre a presença africana no Brasil. Nina Rodrigues foi autor de Os Africanos no Brasil, um estudo fundamental para a história dos negros brasileiros. Nesse livro, o autor trata, dentre outros aspectos, da origem étnica dos escravos, suas práticas religiosas, valores e costumes.” P. 205.

Teses eugênicas ainda são defendidas por estudiosos hoje em dia. O famoso documentário norueguês Lavagem Cerebral, em seu terceiro episódio traz a opinião de dois estudiosos que são peremptoriamente contra o casamento de negros e brancos, alegando que isso é prejudicial a humanidade. O documentário Uma História Sobre o Racismo, da BBC, é outro que mostra que ideias eugênicas e racistas ainda têm fôlego nos dias atuais.

Mas nem todos eram contra a miscigenação no final do século XIX, veja o porquê:

“Mas para outros era justamente a miscigenação que garantiria a civilização no Brasil. A esperança era que, em médio e longo prazo, o país se tornasse predominantemente branco. E o caminho para o branqueamento era a miscigenação. Desse modo a ‘raça branca’, considerada mais evoluída, corrigiria as marcas deixadas na população brasileira por aquelas tidas como ‘raças inferiores’, negros e índios.” P. 206.

Havia quem contestasse as teses raciais que inferiorizavam os negros.

“Manoel Bomfim, ao contrário da grande maioria dos intelectuais do seu tempo, não considerava que a numerosa população negra era o que explicava o atraso da sociedade brasileira. Para ele, as teorias raciais não passavam de 'ciência barata' que, covardemente, era usada para garantir a exploração dos fracos pelos fortes. Manoel Bomfim nasceu em Sergipe, estudou na Faculdade de Medicina da Bahia e, além de insistente contestador da validade científica das teorias raciais, criticou os políticos brasileiros por não terem se empenhado por melhores condições de vida para os negros depois da abolição.” P. 207.

Havia quem acreditasse que os negros estariam extintos nos iniciais deste século.

“Em 1911, durante o Congresso Internacional das Raças realizado em Londres, o representante brasileiro, Batista Lacerda, garantiu que no início do século XXI já não haveria negros no país e que o número de mulatos seria insignificante.” P. 208.

Nos EUA existiam as Leis Jim Crown, que segregava os negros. Estes não podiam ter a liberdade de frequentar os mesmos lugares que os negros. No Brasil não havia leis nesse sentido, porém, eram como se houvesse. Os negros eram impedidos de muitas atividades que só eram permitidas aos brancos.

No esporte:

“Até a década de 1930, jogadores negros não eram admitidos nos times de primeira divisão do campeonato paulista.” P. 237.

No lazer:

“Na cidade de São Paulo, por exemplo, o acesso dos negros aos parques e praças era restrito a locais afastados dos freqüentadores brancos.” P. 263.

Nos postos de trabalho:

“As dificuldades crescentes impostas aos trabalhadores negros para sua inserção no mercado de trabalho contrastavam cruamente com o desenvolvimento industrial e urbanístico de São Paulo. Mesmo na década de 1930, quando a imigração diminuiu de ritmo e aumentou o número de trabalhadores nacionais na indústria paulista, os critérios de contratação e demissão continuaram marcados pelo racismo. Os brancos, depois os mulatos, é que tinham maiores chances de conseguir e manter empregos, em detrimento das pessoas de pele mais escura. [...] A grande imprensa, os jornais de maior circulação, que tanto haviam contribuído com o movimento abolicionista, demonstravam pouco ou nenhum interesse pelas questões que afligiam a população negra no pós-Abolição.” P. 260.

O culto aos deuses africanos demorou para ser totalmente pelo governo.

"[...] só em janeiro de 1976, durante os festejos ao Senhor do Bonfim na Bahia, o então governador Roberto Santos assinou o ato administrativo que garantiu a liberdade de culto para as religiões afro brasileiras. Só então, os terreiros deixaram de ser obrigados a pedir licença para funcionarem e foi suspenso o pagamento de taxa ou registro na polícia." P. 243.

A Capoeira, luta criada pelo negro em solo tupiniquim, foi proibida no Brasil republicano.

“Quando a República foi proclamada [...] a capoeira passou a ser contravenção prevista no Código Penal de 1890, com pena de dois a seis meses de prisão. Muitos praticantes acusados de outros crimes, como vagabundagem e roubo, tiveram como destino a colônia correcional da Paraíba, a ilha de Fernando de Noronha ou o Acre para que fossem corrigidos pelo trabalho. A ordem do presidente Deodoro da Fonseca era que a capoeiragem fosse extinta do território nacional para o bem dos cidadãos e da segurança do Estado. A atenção especial da legislação penal republicana, por certo, estava relacionada à participação política de capoeiras nos episódios que antecederam a proclamação da república em 1889. Mas outras razões para a repressão aos capoeiras também foram enumeradas. Em Belém, um delas era o suposto aumento da criminalidade. Na interpretação da polícia paraense os capoeiras eram os principais responsáveis por delitos que iam desde o uso de palavras obscenas em locais públicos a homicídios.” P. 247.

A sociedade branca dizia hipocritamente que não existia racismo no Brasil. Assim como hoje, muitos dizem a mesma coisa.

“Falar de preconceito contra negros [anos 1920] já era algo bastante censurado, uma vez que a sociedade brasileira não reconhecia a existência do racismo, nem tão pouco que as dificuldades de ascensão social das populações negras tivessem como causa a discriminação racial. A negação do preconceito era conveniente, pois mantinha os privilégios de uma minoria e isentava o governo brasileiro de qualquer responsabilidade sobre a situação de pobreza e marginalidade da população negra.” P. 262.

Criticar movimentos negros não é prerrogativa dos dias atuais, isso já vem de longa data.

“A idéia de identidade nacional formulada pelas elites republicanas não apenas servia para negar a existência do racismo como para desestimular a formação de associações negras. Quando, em 1928, O Clarim d’Alvorada anunciou a intenção de organizar um Congresso da Mocidade Negra, os jornais da grande imprensa paulista reagiram indignados à iniciativa. A possibilidade de que os negros pudessem se organizar e manifestar politicamente suas aspirações assustava a elite brasileira. Houve quem se perguntasse: ‘que necessidade há nisso?’, ‘o que se vai falar nesse congresso?’.” P. 263.

“Na interpretação de alguns jornais [década de 1940], a organização dos negros devia ser combatida porque ameaçava a democracia, porque contribuía para o que chamavam de ‘racismo às avessas’, ou seja, o preconceito do negro em relação ao branco. O argumento do ‘racismo às avessas’ era a evidência de que na sociedade brasileira havia o preconceito racial, pois não se admitia que os negros tivessem o direito de se organizar e reagir ao racismo.” P. 274.

Passados 100 anos da abolição, o negro se encontrava em situação extremamente vulnerável na sociedade brasileira. Abolição de quê mesmo?

“A militância negra da década de 1980 passou a questionar, com vigor, a versão oficial da Abolição que exaltava muito mais a bondade e a caridade da princesa Isabel do que a luta dos escravos para conquistar a liberdade. Ao mesmo tempo, não parecia fazer sentido comemorar a Abolição se a maioria da população negra continuava relegada a péssimas condições de vida. Com o objetivo de resgatar o espírito de luta e enaltecer a resistência, as organizações negras passaram a rejeitar o 13 de Maio.” P. 295-296.

E não é que já vi criaturinhas exaltarem sobremaneira a princesa Isabel por ela ter assinado a Lei Áurea, desconsiderando por completo a luta de resistência de três séculos dos escravos em busca de suas liberdades, fora a militância dos grupos abolicionistas, compostos por pessoas brancas?

terça-feira, 14 de agosto de 2018

Canção da Liberdade



Há uns 12 anos, numa madrugada sem sono, liguei a TV e estava passando este filme no SBT. Logo me chamou a atenção, devido ao tema abordado em sua trama. O racismo e o Movimento pelos Direitos Civis, na década de 1960, em todo o território norte-americano, principalmente nos estados sulistas, onde a discriminação e perseguição aos negros eram e ainda é mais intensa que nos estados do norte.

Sempre garimpando na internet filmes sobre o racismo, demorei anos a fio para encontrar este. Finalmente consegui baixá-lo e colocá-lo disponível no Youtube. Infelizmente, não está em sua melhor qualidade visual, mas dá para apreciá-lo numa boa, e ver o quanto o nefasto racismo que gerou uma cruel segregação é uma ferida aberta na história do país da “liberdade”.

Canção da Liberdade conta em seu elenco com o renomado ator negro, Danny Glover, que faz o papel de pai de Owen, um adolescente indignado com o racismo e preconceito vigentes na cidade em que vive. 

A história se passa na fictícia cidade de Quinlan, no Mississipi, uma cidadezinha tranquila e pacata, mas que guarda em suas entranhas um ódio visceral dos negros que ali habitam. A segregação é total. Negros não podem entrar em lanchonetes, não podem frequentar a biblioteca, a justiça eleitoral coloca várias dificuldades para o direito de voto dos negros, mesmo que a constituição do país lhes “garanta” essa prerrogativa.

Não conformados com a situação de humilhação porque passam, os negros de Quinlan começam a se organizar para reverter o quadro degradante em que a segregação os colocam. Imbuídos da ideia de não-violência, resistirão as investidas dos brancos racistas sem apelarem para o revide físico, suportando as pancadas, chutes e murros, numa tentativa de pouco a pouco ir minando a segregação. 

Em muitos lugares da nação, o Movimento Pelos Direitos Civis está progredindo e fazendo as estruturas segregacionistas verem os primeiros tijolos de seus muros ruírem. Em Quinlam, seus moradores negros nutrem essa esperança, não sem discordarem e discutirem calorosamente sobre as estratégias que devem tomar. No final das contas, a não-violência é o caminho que resolvem adotar.

Encarceramentos, surras e humilhações, que já eram esperados não demoram a acontecer. Quando Owen e Archie Mullen, outro ativista negro estão saindo da prisão, uma corja de moradores brancos tentam linchá-los, e um homem empunhando uma Bíblia, provavelmente o pastor da cidade, interpela Owen:

“Não acredita em jesus, acredita?”

Ao que Archie Mullen responde:

“Acredita que Jesus Cristo é amor?”

O “cristão” retruca:

“Não estou falando com você. Você vai pro inferno, negro! E vai logo!”

Numa outra ocasião do filme, uma “mulher de Deus” tem uma “inteligente” e “divina inspiração” ao dizer:

“Deus nos fez separados. Deve ter uma razão. Enfim, percebi... Ele quer que cada um saiba o seu lugar e fique nele! De outro modo, haveria desordem. E Deus não quer desordem!”

Nunca é demais lembrar que o estado do Mississipi tinha e tem uma concentração massiva de evangélicos conservadores, aqueles que se dizem a luz do mundo, e veem a si mesmos como os iluminados de Deus.

O racismo dos evangélicos ainda é tão acentuado que o protestante Ronald Syder, Ph.D em História na Universidade de Yale, traz em seu livro (O Escândalo do Comportamento Evangélico. Viçosa, MG: Ultimato, 2006), os seguintes números:

“Em 1989 George Gallup Jr. e James Castelli publicaram os resultados de uma pesquisa para determinar quais grupos nos Estados Unidos eram mais propensos a rejeitar vizinhos negros – um bom indicador de racismo. Católicos e cristãos não evangélicos foram classificados entre os menos propensos; 11% fizeram objeção ao contato entre negros e brancos. Os protestantes históricos chegaram próximo dos 16%. Com 17% batistas e evangélicos ficaram entre aqueles mais propensos a repudiar a possibilidade de ter vizinhos negros, e 20% dos batistas do sul rejeitaram a ideia de ter vizinhos negros.” P. 25.

Ele escreve mais:

“Durante o movimento de direitos civis, quando os protestantes históricos e os judeus se uniram aos afro-americanos em sua luta histórica por liberdade e igualdade, líderes evangélicos foram quase totalmente omissos. Alguns se opuseram ao movimento; outros não se pronunciaram. Quando Frank Gaebelein, então co-editor de Christianity Today, não apenas cobriu a marcha de Martin Luther King sobre Selma, como também endossou o movimento e a ele se juntou, experimentou oposição e hostilidade da parte de outros líderes evangélicos.” P. 25.

E conclui com uma pergunta desconcertante:

“[...] como é possível que os evangélicos sejam as pessoas mais racistas e preconceituosas de nossa sociedade?” P. 47.

Voltando ao filme, com muitos sofrimentos e dores, os pretinhos de Quinlan conseguem a liberdade de não serem mais segregacionados. Entretanto, para quem conhece um pouco da história dos negros, isso não seria o final de práticas racistas nos EUA.

Mais um filme espetacular!


terça-feira, 10 de julho de 2018

História dos Estados Unidos: Das Origens ao Século XXI.




FERNANDES; Luiz Estevam; KARNAL, Leandro; MORAIS, Marcus Vinícius; PURDY, Sean. 
História dos Estados Unidos: Das Origens ao Século XXI. São Paulo: Contexto, 2007. (PDF).

“Aqui não se fala do Grande Satã nem da luz que ilumina a civilização ocidental.” P. 09.

“Os EUA não são a única fonte dos problemas do mundo.” P. 14.

"Para o bem e para o mal, o destino do planeta está associado aos Estados Unidos da América". P. 232.

O que achei admirável neste livro é que os Historiadores não entraram no maniqueísmo de que o país historiado é do mal, e que nós, latinos e o resto do mundo (excetuando a Europa), somos suas vítimas passivas, coitadinhos e pobres almas escravizadas por eles.

“Que país é esse? Que cultura engendrou? Por que seduz e irrita o planeta? Existe um típico norte-americano? Que processo histórico pode ter originado o american way of life e como é possível explicar tal concentração de riquezas? Esse é o caminho deste livro.” P.18.

São colocados os fatos na mesa, de que este país, assim como qualquer outro, tem as suas contradições, erros, idiossincrasias, cerceamento dos direitos humanos e etc.

A relação do mundo com os EUA gira em torno de um amor e ódio que se cruzam, se imbricam, se misturam.

“Quando criticamos os EUA como um país que apenas pensa em si e apenas conhece o mundo dentro de suas fronteiras, expressamos um sentimento de pesar por não sermos conhecidos/reconhecidos por eles.” P. 11.

"Para uns, os EUA são a síntese de todo mal que reina no mundo, para outros, o melhor dos mundos possíveis; para todos, um fato insuperável na análise do globo". P. 233.

O Historiador Leandro Karnal observa que o norte-americano atual ainda olha para o mundo fora de suas fronteiras com a visão binária nós e eles.

“O inglês do XIX olhava para o outro e dizia: ‘você é inferior!’; o norte-americano do XXI dificilmente reconhece a existência do outro a não ser no código eu/antieu.” P. 11-12.

Também nos diz que é a terra que mais recebeu imigrantes.

Uma observação curiosa é que o analista Jean-François Revel, um francês, escreveu a obra A Obsessão Antiamericana, em que defende os EUA e critica o seu país e a Europa. A França e a Europa têm inveja do papel de liderança da nação americana, em especial por causa da segunda guerra e do capitalismo. O tio Sam sempre é criticado, porém, os seus críticos não olham para os próprios umbigos e hipocrisias internas, que não são poucas. Revel sem meias palavras acredita que a cultura cristã ocidental é superior as outras formas de organização social.

De todo modo, o livro não deixa passar despercebidos uns fatos bem embaraçosos. Os EUA é:  

“[...] o país com mais gastos militares do mundo, com o maior número de mortes por armas de fogo no mundo, o maior consumidor de energia per capita do mundo, o maior emissor de dióxido de carbono, o maior produtor de lixo tóxico do planeta e o maior produtor de lixo doméstico, entre dezenas de outras 'vitórias' duvidosas...” P. 15-16.

A fundação dos EUA teve por base a ideia religiosa de que eles eram o povo especial de Deus. O destino manifestava-se rumo ao progresso e ao sucesso material, graças a eleição divina, ainda que tenham passados por muitas dificuldades, como a fome, em que dizimara muitos de seus colonos, fazendo com que cachorros, felinos e serpentes, servissem como alimentos, quando da fundação de Jamestown. Não importando as grandes dificuldades, consideravam-se o povo fiel de Deus. Puritanos, calvinistas, reformados, batistas e etc., tiveram parte importante nos anos iniciais e em toda trajetória dos EUA.

Tal fidelidade a Deus pensada por eles, não os impediram de escravizar e terem um sistema de discriminação racial que perdura até hoje no modo de ser desse país. O livro do Karnal e cia, tem muito a falar sobre essa vergonhosa dimensão da história norte-americana, e é nela que me concentrarei. A escravidão dos africanos, o racismo e outras minorias, serão o meu recorte deste livro, daqui pra frente. Trarei o lado mal desta nação, nesse quesito, consciente de que não foi o objetivo dos autores (e isso é muito bom, como já disse no início) falar dos EUA como “o Grande Satã”.

Vamos lá.

A escravidão não era só de negros, mas de crianças também.

“Raptos de crianças na Inglaterra para vendê-las como empregadas na américa, prática muito comum no século XVII, eram outra fonte de servidão.” P. 38.

Indígenas também serviram forçadamente aos colonos.

“Embora o fato seja bem pouco conhecido da História norte-americana, os índios também foram escravizados. Os colonos das Carolinas, em particular, desenvolveram o hábito de vender índios como escravos. Em 1708, a Carolina do sul contava com 1.400 escravos índios. Essa prática permaneceria até a independência.” P. 50.

Havia uma luz em meio a escuridão da escravatura. Algumas facções protestantes não toleravam a servidão forçada de seres humanos.

“Grupos quakers e menonitas recusavam a violência contra índios e também a violência da compra de escravos negros. Porém, quakers, menonitas, católicos e puritanos ocupavam de igual modo as terras que foram, originalmente, dos índios.” P. 53.

E os outros grupos protestantes? Somente esses dois eram contra a escravidão? Parece que sim.

Os primeiros escravos da África chegaram em 1619, na Virgínia. E o primeiro negro nascido foi William Tucker. 

O livro diz:

“Muitos autores costumam considerar a escravidão norte-americana como a mais cruel que a américa registrou.” P. 54.

Isso é exatamente o contrário do que pensa Geoffrey Blainey, que é taxativo em dizer que a escravidão norte-americana foi mais amena que na América do Sul.

“É praticamente certo que os Estados Unidos foram superiores ao Brasil e outras terras em seu tratamento com os escravos. Alguns observadores da escravidão americana concordam que, em uma típica plantação de algodão ou arroz, os barracos dos escravos eram pelo menos tão confortáveis quanto os das pessoas mais pobres da Escócia e da Sicília; mas, fora dos barracos, não havia liberdade.” P. 142. - BLAINEY, Geoffrey. Uma Breve História do Mundo. Curitiba:Fundamento, 2007. (PDF).

O livro nos conta a análise do Historiador Frank Tannenbaum, que diferenciou a escravidão anglo-saxônica da ibérica.

Anglo-saxônica: relações sociais individualistas, em que o escravo como um objeto tinha total precedência sobre a sua humanidade.

Ibérica: Relações sociais paternalistas, baseadas no Direito Romano, onde o escravo fazia parte da sociedade. Apesar de estar sob as dores lancinantes do chicote, ainda era visto como um ser humano.

Ao contrário da parte sul da América, os escravos não eram obrigados a aceitarem o Cristianismo como a sua religião.

O escravo sendo um mero objeto, não havia punição caso ele fosse morto pelo seu dono e empregados.

“Em outubro de 1669, uma nova lei sobre escravos determina que, se um escravo vier a morrer em conseqüência dos castigos corporais impostos pelo capataz ou por seu amo, não será considerado isso ‘delito maior, mas se absolverá o amo’. A lei continua com lógica implacável: matar o escravo não é ato intencional, posto que ninguém, intencionalmente, procura destroçar ‘seus próprios bens’. Essa lei revela a ‘reificação’ (tornar coisa) do escravo na legislação colonial.” P. 55.

No Brasil existiram leis que em tese puniriam os donos que chegassem a matar arbitrariamente os seus escravos, mas os registros parecem trazer somente dois proprietários que foram severamente punidos com a pena de morte. Eram as Ordenanças Manuelinas. Tive conhecimento dessas leis no livro Escravismo no Brasil.

Não conformados com a vida desgraçada que levavam, “em 1740, os escravos tentaram, em Nova York, envenenar todo o abastecimento de água da cidade.” P. 55. Pena que o plano não vingou.

Mais ou menos 400 mil negros foram levados para os EUA, quando do fim do período colonial, eram cerca de 500 mil. O movimento de independência de 1776 perpetrado pelos brancos ricos não tinha em mente acabar com a servidão.

E os povos da terra, como ficaram?

“Para os índios, a independência foi negativa, pois, a partir dela, aumentou a pressão expansionista dos brancos sobre os territórios ocupados pelas tribos indígenas.” P. 82.

Uma tal Lei de Remoção de Índios removeu em 1830 vários nativos para Oklahoma. Tirados de suas terras, andaram milhares de quilômetros contra a sua vontade, ocasionando a morte de milhares deles. Essa andança forçada ficou conhecida como a Trilha das Lágrimas. Nove anos depois várias outras nações de índios foram expulsas de suas habitações e colocadas para o Oeste. 100 milhões de acres de terra ficaram prontas para a agricultura do “povo eleito”. Nas reservas milhares de indígenas tiveram a morte como destino.

Enquanto isso, os negros escravizados sabiam ler, graças a cultura protestante que primava pela educação religiosa e leitura da Bíblia. Herança da Reforma do século XVI, que deu grande impulso aos estudos.

Aqueles que se posicionavam contra a escravidão, eram em sua maioria religiosos, que enfatizavam que escravizar pessoas eram um terrível mal moral. O livro não fala, mas a Bíblia também era usada para legitimar a passividade e obediência dos escravos, invocando as cartas do Novo Testamento, em que a escravidão não é em nenhum momento reprovada. O Nascimento de Uma Nação é um filme que ilustra bem o uso da Bíblia para legitimar a servidão negra, como também para que eles se rebelassem.  

Chega então a Guerra de Secessão, ou Guerra Civil Americana (1861-1865), sendo vencida pelos Yankes (nortistas), tendo sido conquistada a “liberdade” tão sonhada da comunidade negra, por séculos maltratada e agrilhoada. O negro liberto continuou na penúria e não teve nenhuma ajuda do estado para se realocar na nova conjuntura social que acabara de emergir. O racismo ganhava novos contornos, com a criação da Ku Klux Klan, grupo protestante de supremacistas brancos que odiavam e caçavam negros. Entramos no século XX, e o racismo continua forte, tanto no sul, como norte que “libertou” os negros. As Leis Jim Crow apareceriam e varreriam toda a nação. O lema dessas leis – separados, mas iguais – eram na verdade o contrário. O cerne delas era que o homem branco é superior.

“O termo ‘Jim Crow’, nascido de uma música popular, referia-se a toda lei (foram dezenas) que seguisse o princípio “separados, mas iguais”, estabelecendo afastamento entre negros e brancos nos trens, estações ferroviárias, cais, hotéis, barbearias, restaurantes, teatros, entre outros. Em 1885, a maior parte das escolas sulistas também foram divididas em instituições para brancos e outras para negros. Houve ‘leis Jim Crow’ por todo o sul. Apenas nas décadas de 1950 e 1960 a suprema Corte derrubaria a idéia de ‘separados, mas iguais’.” P. 126.

O racismo estava entranhado em tudo. E na política não era diferente. Dependendo de eleitores racistas, o então presidente Delano Roosevelt não podia ser contra a discriminação racial, confinando a população negra a vidas subalternas.

A segunda guerra mundial proporcionou uma certa mobilidade social as minorias, criando vários postos de trabalhos, transformando a vida das minorias (mulheres, negros, imigrantes), criando um espaço pela busca de mais igualdade e direitos. Mas o caminho em busca da cidadania não seria fácil.

“[...] segregação formal e informal, linchamento e violência policial, discriminação no emprego, na educação e nos serviços públicos, falta de direitos políticos, pobreza extrema – tudo isso caracterizava a vida de negros nos Estados Unidos depois da segunda Guerra Mundial.” P. 204.

“As atitudes raciais do governo e da sociedade, porém, mudavam lentamente e, freqüentemente, ressurgiam as antigas tensões violentas. Discriminação e, às vezes, violência física eram realidades enfrentadas pelos novos imigrantes mexicanos, como no motim racista em junho de 1943, em Los Angeles, mas novamente foram os negros a sofrerem mais com o racismo. As Forças armadas permaneceram quase totalmente marcadas pela segregação mesmo com 700 mil negros alistados. Não menos de 242 motins raciais, provocados por tensões econômicas e sociais relativas a emprego e moradia, explodiram em 47 cidades em 1943, inclusive Detroit, onde 34 pessoas (25 negros e nove brancos) morreram e 700 ficaram feridas.” P. 189.

Quem também sofreu com o racismo norte-americano foram o povo de olhinhos puxados, durante a guerra contra Hitler e o Japão. O governo americano não levou em conta os 75% da população de descendência japonesa que não representavam nenhuma ameaça ao país, sendo duramente perseguidos tanto pelo governo como pela sociedade. 110 mil nipo-americanos foram presos, tendo os seus bens caçados, até o fim da guerra.

A segregação racial implicava em segregação espacial, visto que a população negra eram reservados os piores lugares para se morar, fazendo com que negros e latinos dependessem cada vez mais do estado, emperrando o seu desenvolvimento.

Quanto a luta pelos Direitos Civis, na década de 1960, o governo sempre foi relapso em apoiar o movimento. Até mesmo procurou matar o líder Martin Luther King.

“[...] o chefe do FBI, o veterano anticomunista e racista J. Edgar Hoover, fez uma campanha clandestina contra King, grampeando seus telefones e o chantageando, além de enviar-lhe uma carta anônima sugerindo que se suicidasse. Um relatório do senado, em 1976, concluiu que o FBI tentou ‘destruir’ Luther King.” P. 207.

Uma figura importante para comunidade negra foi Malcolm X, líder negro, pelo qual muitos jovens negros vieram a adotar o islamismo como religião. Ele foi assassinado pelas ideias de emancipação negra e denúncias feitas contra a opressão branca.

Os Panteras Negras, grupo fundado por alunos negros da Califórnia, também tiveram o seu quinhão de importância nos turbulentos anos 1960-70, pregando a defesa armada, sendo brutalmente perseguidos pelo FBI. Fiz um resumo de um ótimo documentário da Netflix sobre eles aqui:


Com o “fim” da segregação racial conseguida pelo movimento negro dos anos 1960, as ações afirmativas começam a operar.

“Influenciadas pelas ações do governo federal, muitas universidades e até algumas empresas também implementaram programas de ‘ação afirmativa’ e ‘sistemas de cotas’ na década de 1970.” P. 207.

E as mulheres nisso tudo?

“Mulheres constituíram 40% da mão-de-obra economicamente ativa em 1970, mas ainda sofriam de discriminação no emprego, na família e na sociedade como um todo. A atmosfera tumultuada da década de 1960 criou condições para o ressurgimento do feminismo e de lutas contra descriminação sexual.” P. 211.

No entanto:

“Nos anos 1970, uma mobilização de mulheres conservadoras já tinha derrubado a Emenda de direitos iguais aprovada pelo Congresso em 1972 para eliminar barreiras à participação plena de mulheres na vida pública.” P. 226.

Os anos 1970-1990 não foram bons para a comunidade afro-americana. Vejamos:

“A situação econômica nos guetos negros dos centros das cidades piorou ao longo dos anos 1970 e 1980. Um terço da população negra ficou abaixo da linha de pobreza, sem recursos suficientes para educação e outros serviços públicos, carente de emprego, treinamento e oportunidade. No fim dos anos 1990, a renda familiar branca ficou quatro vezes maior que a das famílias negras. A estrutura familiar foi abalada: somente 38% das crianças negras moravam em famílias biparentais em 2000. Um quarto das crianças negras vivia na pobreza. A redução do estado de bem-estar, ao longo dos anos 1980 e 1990, também piorou as condições da vida de negros desproporcionalmente em relação aos brancos. Frustração com o racismo ainda existente, poucas oportunidades econômicas e violência policial provocaram vários motins urbanos desencadeados por questões raciais em Miami, Nova York e outras cidades nos anos 1980 e 1990.” P. 222.

E não podendo faltar aqueles racistas que não se envergonham do seu racismo...

“[...] grupos conservadores passaram a afirmar que as críticas feitas ao racismo, ao machismo, à homofobia e a alguns aspectos da cultura ocidental representavam elas próprias uma forma de ‘intolerância’.” P. 229.

Os Historiadores Leandro Karnal, Marcus Vinícius, Sean Purdy e Luiz Estevam, deram um show de história neste livro. Estão de parabéns pela obra, por primarem pelo equilíbrio em não demonizar a nação norte-americana, como se os outros países fossem o paraíso na terra e não tivessem políticas injustas e opressivas que atrasam o desenvolvimento pleno de seus cidadãos.

Eu que optei por mostrar um pouco do que eles falaram sobre a escravidão e o racismo. Sendo o último, ainda bastante presente no país historiado.