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quinta-feira, 2 de setembro de 2021

O Multiverso é Real e Elimina a Existência de Deus?

O universo está ajustado de maneira tão refinada e precisa, para que a vida dele emergisse, que qualquer mudança mínima que houvesse, nós não estaríamos aqui. Na verdade, quaisquer alterações milimétricas seriam o suficiente para que nenhuma forma de vida surgisse. Não podia haver erro algum, tudo teria que ser perfeitamente sintonizado. Todos os elementos do universo foram interdependentes, para que vida se formasse. As constantes antrópicas foram/são extremamente precisas. Nível de oxigênio, gravidade, força nuclear forte, força nuclear fraca, força eletromagnética, pressão atmosférica e mais de 100 constantes, provam a fineza com o que o universo foi formado, permitindo o surgimento da vida humana. O universo está equilibrado na corda bamba, em face da precisão dessas constantes cosmológicas. Lembre-se, basta alterar de maneira extremamente sensível (a nível subatômico) qualquer uma delas, para que a vida vá para o buraco.  

A Sintonia Fina do Universo é um dos argumentos mais corriqueiros dos apologistas cristãos, para mostrar a razoabilidade da existência de Deus. Não há tolice aqui! Ninguém diz que a sintonia prova que Deus existe. O que eles dizem é que a sintonia é totalmente compatível com um universo teísta. Ela é uma evidência, indício, pista... Ela insinua... Ela sugere... É um fio condutor. Ela se encaixa com a crença em Deus. Pode-se inferir legitimamente que a sintonia traz implicações teístas. Ela sugestiona um planejamento. Ela é consonante com a ideia de um Criador. Em conjunto com outras evidências encontradas, ela torna-se um argumento que não pode ser ignorado, dado que as probabilidades matemáticas envolvidas são uma forte evidência de organização não aleatória.

Diante das inferências teológicas da sintonia, não demorou para que alguns ateus a contestasse, apelando para a teoria do Multiverso, Mundos Paralelos, Teoria das Cordas, Universos Paralelos, Muitos Mundos. Isto é, se existem milhões e bilhões de universos além do nosso, em pelo menos um deles, a vida inteligente surgirá, e calhou de ser em nosso universo, e por isso estamos aqui falando sobre esse incrível tema.

"Hoje muitos físicos usam o conceito de 'multiverso' para explicar coincidências que de maneira diferente seriam inexplicáveis, como a razão pela qual as forças têm a intensidade que possuem, permitindo a existência de átomos e da vida." P. 183. - Joanne Baker, Ph.D em Física na Universidade de Sydney.

BAKER, Joanne. 50 Ideias de Física Quântica Que Você Precisa Conhecer. São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2015.

“‘No passado, muitas ideias pareceram tão loucas quanto essa ao serem propostas pela primeira vez’, conta o físico teórico do momento, Brian Greene, autor de O Universo elegante. ‘Einstein não acreditava em buracos negros, embora fossem decorrentes de suas equações. Hoje, ninguém os questiona. Agora a matemática indica que poderiam existir outros universos além do nosso.’” P. 338-339.

KUKSO, Federico. Tudo o Que Você Precisa Saber Sobre Ciência. São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2019. (PDF).

Dois Físicos proeminentes, Hawking (Professor de Matemática na Universidade de Cambridge) e Mlodinow (Ph.D em Física na Universidade da Califórnia), são dois ateus que defendem que o Multiverso descarta por completo Deus como o Criador.

“Nosso universo e suas leis parecem ter um design que é ao mesmo tempo feito sob medida para nos apoiar e, se quisermos existir, deixa pouco espaço para alterações. [...] Muitas pessoas gostariam que usássemos essas coincidências como prova do trabalho de Deus. [...] Mas, assim como Darwin e Wallace explicaram como o projeto aparentemente miraculoso de formas de vida podia aparecer sem intervenção de um ser supremo, o conceito de multiverso pode explicar o ajuste fino das leis físicas sem a necessidade de um criador benevolente que fez o universo em nosso benefício”. P. 96, 97.

HAWKING, Stephen; MLODINOW, Leonard. O Grande Projeto. São Paulo: Nova Fronteira, 2011. (PDF).

O Multiverso é real ou não? Pode ser. Não há unanimidade entre os pesquisadores. Mas acontece que por mais fascinante que seja a existência de outros supostos universos, parece que até o momento não passa de especulação, por mais que grandes Físicos estejam trabalhando nessa hipótese. E mesmo admitindo que exista o Multiverso, ele passa longe de ser uma evidência em favor do ateísmo. Alguns até dizem que ele seria mais uma pista que favorece a crença em Deus, solapando o entusiasmo de Hawking e Mlodinow, que meteram os pés pelas mãos, em pensar que tais universos ratificam a sua cosmovisão naturalista, que não consegue se sustentar, a não ser apelando para suposições metafísicas, mesmo que eles contraditoriamente digam no início de seu livro, que "a filosofia está morta".  

Para Deborah B. Haarsma, Ph.D em Astrofísica no MIT, o Multiverso não é incompatível com a existência de Deus, e carece de experimentos que o corroborem.

“A Teoria das Cordas sugere que há um tipo de universo-mãe, a partir do qual muitos universos poderiam se formar, em diversos Big Bangs. Trata-se de uma teoria matemática que não foi testada experimentalmente.

No entanto, é interessante pensar sobre como essas ideias de ponta podem interagir com a minha fé. Se realmente houver um universo-mãe, ou ‘multiversos’, isso sugere a existência de muitos universos além do nosso. Esses universos poderiam ter um espectro diferente de leis físicas. Talvez o nosso seja apenas aquele no qual todas as forças estão equilibradas exatamente do modo correto para colher a vida, e, assim, existam muitos outros universos lá fora que sejam estéreis. Se isso for verdade, poderia explicar algo da sintonia fina que vemos em nosso universo.

Eu posso conciliar a ideia de um multiverso com minha compreensão de Deus. Por um lado, estou pronta para seguir o que quer que o universo nos mostre sobre a sua formação, continuando a ver Deus como o Criador de tudo. De todo modo, ainda precisamos de um universo-mãe para receber a sintonia fina, pois ele deve ser capaz de produzir universos com um certo espectros de propriedades. O multiverso não elimina inteiramente o argumento da sintonia fina.

Por outro lado, também me sinto confortável com a ideia de que Deus fez apenas um universo, mesmo que jamais possamos explicar o que Deus fez no primeiro instante. Há uns poucos experimentos, aguardando serem postos em prática nos próximos anos, que podem dar alguma substância a essas diferentes teorias. Estou esperando para ver os resultados dessa investigação e, também, o que o próprio universo nos diz sobre como Deus o fez.” P. 140-141.

BANCEWICZ. Ruth (Org.). O Teste da Fé. Viçosa, MG: Ultimato, 2013.

Jeff Zweerink, Ph.D em Astrofísica na Universidade Estadual de Iowa, EUA, argumenta que o Multiverso é mais compatível com a cosmovisão teísta.

“As ambiguidades científicas atuais na avaliação de modelos de multiversos impactam argumentos apologéticos para a existência de Deus. Em vez de focar na existência de um multiverso, a questão chave torna-se: ‘Os modelos multiversos se encaixam mais confortavelmente em uma cosmovisão cristã e teísta ou em uma cosmovisão ateísta do naturalismo estrito?’ Três áreas principais em que essas duas cosmovisões diferem estão relacionadas à origem do universo (argumento cosmológico), design no universo (argumento teleológico) e consciência (argumento da razão). Inicialmente, os modelos de multiversos pareciam a base da segunda premissa do argumento cosmológico, a saber, que o universo começou a existir. Por exemplo, os multiversos inflacionários do big bang, esse universo ainda tem um começo, mas o mecanismo da inflação produziu novos universos para sempre no futuro. Os cosmológos achavam que esse processo poderia se estender para sempre no passado também; se for verdade, nosso universo começaria, mas o multiverso seria eterno. A pesquisa finalmente demonstrou que qualquer modelo de multiverso inflacionário capaz de explicar o universo também deve ter um começo, fortalecendo ainda mais o argumento cosmológico para a existência de Deus. A maioria dos cosmólogos agora concorda que o reino físico (não apenas o universo, mas todo o multiverso) começou a existir.

[...]

Em suma mesmo que exista um tipo de multiverso, as pesquisas mais recentes indicam que ele começou a existir, o que demonstra evidências de design para a humanidade e parece exigir uma mente (que existe além do multiverso) para explicar a consciência. Em vez de apoiar o argumento para uma cosmovisão naturalista e ateísta, esses resultados defendem fortemente uma cosmovisão teísta e sobrenatural semelhante ao judeu-cristianismo.” P. 518-519.

COPAN, Paul; LONGMAN III, Tremper; REESE, Christopher L.; STRAUSS, Michael (Orgs). Dicionário de Cristianismo e Ciência. Rio de Janeiro: Thomas Nelson, 2018. 

Edward Harrison, Cosmólogo e membro da Associação Americana para o Avanço da Ciência, usa a Navalha de Ockam:

“O ajuste fino do universo fornece evidência, prima face de projeto deísta. Faça sua escolha: acaso que requer uma multidão de universos ou projeto que requer apenas um [...]. Muitos cientistas, ao admitirem os seus pontos de vista, se inclinam em direção ao argumento teleológico ou projeto [...]. Aqui está a prova cosmológica da existência de Deus — o argumento de projeto de Paley — atualizado e remodelado.” P. 91.

BROOCKS, Rice. Deus Não Está Morto. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2014.

John Lennox, Professor de Matemática e Filosofia da Ciência na Universidade de Oxford, também apela para a Navalha:

“[...] muitos cientistas têm a sensação de que uma explicação que envolve universos não detectáveis, e, além disso, representa uma extrema violação do princípio da Navalha de Ockham de buscar teorias que não envolvam a multiplicação de hipóteses desnecessárias, vai muito além da ciência e acaba na metafísica. Há muita especulação e poucas evidências.” P. 309.

Multiverso e Deus, não se excluem.

“[...] essas duas opções não são mutuamente excludentes, embora sejam em geral apresentadas como se fossem. No fim das contas, universos paralelos poderiam ser a obra de um Criador. P. 94.

John Polkinghorne, ex Professor de Física na Universidade de Cambridge.

“Vamos reconhecer essas especulações pelo que elas são. Não são físicas, mas sim, no sentido mais estrito, metafísicas. Não há uma razão puramente científica para crer num conjunto de universos. Por sua construção, esses outros universos não podem ser conhecidos por nós. Uma explicação possível com igual respeitabilidade intelectual — e a meu ver com mais economia e elegância — seria a de que este mundo é como é porque é a criação da vontade de um Criador que pretende que ele assim seja.” P. 309.

Christian de Duve, Nobel de Medicina, mesmo não sendo um pesquisador profissional do tema, mostra que o Multiverso não anula a grande significância do nosso universo, de onde brotou a mente.

“Independentemente de quantos universos alguém postule, o nosso nunca poderá ser reduzido à insignificância pela magnitude desse número [...] o que para mim parece ter suprema importância é que no fim das contas exista uma combinação capaz de fazer surgir a vida e a mente.” P. 94-95.

Até Martin Rees, Astrônomo Real Britânico, que é proponente do Multiverso, admite é uma teoria altamente especulativa.

“Se alguém não acredita no design da providência, mas ainda acha que a sintonia fina precisa de uma explicação, há uma outra perspectiva — uma perspectiva altamente especulativa, de modo que, neste estágio, devo reiterar que estou bem de saúde. É uma perspectiva, porém, que tem toda a minha preferência, embora, em nosso atual estado de conhecimento, qualquer preferência desse gênero não passe de um palpite.” P. 95.

LENNOX, John C. Por Que a Ciência Não Consegue Enterrar Deus. São Paulo: Mundo Cristão, 2011.

Richard Swiburne, Professor na Universidade de Oxford, usa a Navalha:

“[...] seria o cúmulo da irracionalidade postular inúmeros universos apenas para explicar as características particulares de nosso universo quando podemos fazê-lo postulando apenas uma entidade adicional — Deus. A ciência nos requer que postulemos a explicação mais simples dos dados e uma entidade é mais simples que um trilhão.” P. 400.

SWIBURNE, Richard. A Existência de Deus. Brasília, DF: Academia Monergista, 2015. (PDF).

Alister McGrath, Ph.D em Biofísica Molecular em Oxford, que escreveu um livro inteiro sobre a Sintonia, escreve:

“Uma forma de evitar as implicações teístas óbvias da sintonia fina consiste em postular a existência de um ‘multiverso’. De acordo com essa teoria, nosso universo é apenas um entre muitos outros. O universo observável deve, portanto, ser contextualizado no âmbito de um multiverso invisível, infinitamente grande e eterno. Pode ser que nosso universo esteja mesmo sob um regime de sintonia fina, mas não há necessidade de que os outros estejam. Demos sorte. Alguém tinha de acertar na loteria. Não é de admirar que Richard Dawkins, seja favorável a essa teoria!

Contudo, a hipótese do multiverso padece de problemas óbvios [...]. Em primeiro lugar, a distinção entre universo e multiverso é em grande medida semântica. Continua a existir apenas um universo verdadeiro nessa hipótese, se é que o termo ‘universo’ significa o domínio por completo da realidade física interconectada. Se o multiverso hipotético não estiver conectado de modo algum ao universo em particular que observamos de fato, é difícil ver como qualquer lei da física derivada do nosso domínio possa ser aplicada ao multiverso de modo geral. Isso significa que não podemos recorrer a observações do nosso mundo para tirar quaisquer conclusões sobre o multiverso.” P. 100.

MCGRATH, Alister. Apologética Pura e Simples. São Paulo: Vida Nova, 2013.

Em outro livro McGrath revela:

“Hoje a hipótese do multiverso continua pouco mais que um exercício matemático fascinante, mas altamente especulativo. Essa hipótese, talvez de forma não sensata, foi adotada por ateístas ansiosos por solapar a potencial relevância teológica da sintonia fina do universo. Assim, parte da atração da hipótese do multiverso para os físicos ateístas, [...] está no fato de que ela parece evitar qualquer inferência de projeto ou divindade. No entanto, é possível usar em grande medida os mesmos argumentos para sustentar a existência de Deus no caso de um multiverso quanto no caso de um universo, com a hipótese do multiverso sendo consistente com o entendimento de Deus, e não o elemento intelectual destruidor desse entendimento.” P. 113-114.

MCGRATH, Alister. Surpreendido pelo Sentido. São Paulo: Hagnos, 2015.

Ariel Roth, Ph.D em Biologia pela Universidade de Michigan, EUA, dá o seu parecer:

“Seria possível haver outros universos que não conhecemos? Seria possível haver diferentes tipos de universo e em grande quantidade? Tudo isso é possível. Com base na pura força dos números, poderíamos sugerir que existe um número infinito de universos, sendo o nosso o único que por mero acaso veio a ter as características exatas para a existência da vida. Essa ideia tem sido alvo de muitas considerações como resposta para o Universo com finos ajustes no qual vivemos. Simplesmente aconteceu de estarmos no universo correto dentre muitos outros. Tal raciocínio não possui nenhuma força argumentativa e carece de validação. É possível explicar praticamente qualquer coisa com esse tipo de argumento, sendo, portanto, desprezível. Seja lá o que você encontrar, basta dizer que simplesmente surgiu por acaso em um dos infinitos universos. O cerne da questão é onde estariam esses outros universos. Onde estariam as evidências científicas para a existência deles? Parece não haver uma sequer.

[...] O conceito de muitos universos se tornou um campo fértil para muitas cogitações sobre nossa existência, a vida e o cosmos. Não é difícil se perder nessas lucubrações, especialmente quando se pode misturar nelas uma pitada de realidade para fazê-las parecer mais plausíveis.

[...]

Pode-se argumentar que há sempre a possibilidade de existir muitos outros tipos de universos, fornecendo todos os tipos de ideias mirabolantes, mas isso não é ciência; é pura imaginação. [...] É necessário postular um número gigantesco de universos na tentativa de reduzir as inúmeras improbabilidades observadas no Universo com finos ajustes no qual vivemos. Essa sugestão representa uma grave ofensa ao princípio científico conhecido como a navalha de Ockham (também conhecido como princípio da parcimônia). Esse princípio requer que as explicações não se multipliquem além do necessário. A proposta da existência de muitos universos não passa de especulação desenfreada, não é raciocínio cuidadoso baseado em fatos conhecidos.” P. 64-65.

Hugh Ross, Ph.D em Astronomia pela Universidade de Toronto, diz que:

“Esta proposta [do multiverso] é um abuso gritante da teoria da probabilidade. Ela pressupõe os benefícios de uma amostra com dimensões infinitas sem possuir, contudo, qualquer evidência de que exista mais de uma amostra.” P. 65.

ROTH, Ariel. A Ciência Descobre Deus. São Paulo: Casa Publicadora Brasileira, 2010. (PDF).

William Lane Craig, Ph.D em Filosofia na Universidade de Birmingham, que já escreveu amplamente sobre o argumento cosmológico, também aponta algumas arbitrariedades na hipótese dos Muitos Mundos. Para ele, é apenas uma desculpa sem fundamento para negar que o Ajuste Fino do Universo é poderosamente uma evidência para a existência de Deus.

“O problema é o seguinte: esses outros universos teóricos são inacessíveis a nós e, portanto, não há nenhum meio ´possível de oferecer qualquer evidência de que isso poderia ser verdade. É simplesmente um conceito, uma idéia, sem prova científica. O proeminente cientista e teólogo inglês John Polkighorne a denominou ‘pseudociência’ e ‘adivinhação metafísica’.

E pense no seguinte: se isso fosse verdade, tornaria impossível a conduta racional da vida, porque se poderia justificar qualquer coisa – não importa quão improvável – ao postular um número infinito de outros universos.

[...]

Por exemplo, se você estivesse dando as cartas em jogo de pôquer, toda vez que distribuísse a si mesmo quatro ás você não poderia ser acusado de trapacear, não importa quão improvável fosse a situação. Você poderia simplesmente argumentar que em um conjunto infinito de universos existirá um universo, em que, toda vez que uma pessoa dá as cartas – ela dá quatro a´s para si mesma e, portanto – sorte minha! – acontece de eu estar nesse universo. Veja – isso é pura metafísica. Não há nenhuma pessoa de verdade que acredite na existência desses universos paralelos. O próprio fato de que os céticos têm de inventar uma teoria tão fantasiosa é porque o ajuste preciso do universo aponta poderosamente para um Planejador Inteligente -  e algumas pessoas vão apresentar qualquer hipótese para não chegar a essa conclusão.” P 105-106.

Craig só está errado em dizer que nenhuma pessoa acredita nesses universos fantasmas. Para citar apenas um, o grande Físico Michio Kaku já trabalhava nessa hipótese, quando Craig deu essa entrevista.

STROBEL, Lee. Em Defesa da Fé. São Paulo: Vida, 2002.

Em seu livro, Craig argumenta magistralmente:

“O atual debate sobre o ajuste preciso tornou-se agora um debate sobre a hipótese dos muitos mundos. A fim de explicar o ajuste preciso estão nos pedindo para acreditar não somente que existem outros universos não observáveis, mas que existem um número infinito deles e que eles variam aleatoriamente em suas constantes e quantidades fundamentais. Tudo isso é necessário para garantir que um universo como o nosso, que permita a existência de vida, venha a surgir aleatoriamente nesse conjunto de mundos. A hipótese dos muitos mundos é na verdade um elogio às avessas ao design. Se assim não fosse, cientistas sérios não estariam se reunindo para adotar uma hipótese tão especulativa e extravagante quanto essa dos muitos mundos, a não ser que eles se sentissem absolutamente obrigados a fazê-lo. Assim, se alguém lhe disser: ‘0 ajuste preciso poderia ter acontecido por acaso’ ou ‘O improvável acontece’ ou “É apenas pura sorte”, pergunte a essa pessoa: ‘Se é assim, então porque os opositores do design se sentem obrigados a acatar uma teoria tão extravagante quanto essa da hipótese dos muitos mundos, somente com o intuito de evitar o design.” P. 129.

Craig faz um bombardeio de argumentos de que o Multiverso e o ateísmo são excludentes, e conclui:

“Ironicamente, a melhor das esperanças para os partidários do multiverso é manter que Deus criou o multiverso e ordenou seus mundos, de modo que eles não são aleatoriamente ordenados. Deus poderia dar preferência a mundos observáveis que são precisamente ajustados cosmicamente. Ou seja, para ser racionalmente aceitável, a hipótese dos muitos mundos precisa de Deus.” P. 131.

CRAIG, Willian Lane. Em Guarda. São Paulo: Vida Nova, 2011.

Marcelo Gleiser, ateu e Ph.D em Física na Universidade de Londres, quando perguntado sobre se é razoável a existência de múltiplos universos, respondeu que:

“A ideia do multiverso é a de que o nosso universo não seja o único e de que, além dele, existam múltiplos universos, paralelos ao nosso, nos quais as leis da física seriam, em princípio, diferentes deste nosso universo. A gente não consegue visualizar isso, mas, de forma simplificada, seria imaginar coleções de bolhas de sabão numa sala, e cada uma delas ocupando um espaço diferente, e dentro das quais haveria uma física diferente. Em princípio, não tem nada de errado com essa hipótese: existem outros planetas, existem estrelas diferentes, existem outras galáxias e, se as leis da física podem realmente mudar, e há várias teorias que preveem que elas possam mudar, por que não imaginar que existam outros universos além do nosso, com propriedades diferentes? Essa é uma hipótese super ousada, que traz uma série de problemas complicados para comprová-la ou refutá-la: podemos ou não observar esses universos?. A resposta é não. Não podemos observar esses universos por um motivo simples: toda a informação que recebemos do mundo, da natureza, viaja na velocidade da luz. Então, demora um tempo para a informação chegar até nós. Se olhamos para a lua, estamos vendo-a há alguns segundos no passado. Se olhamos para o sol, estamos vendo-o há oito minutos no passado. Então, toda a informação que recebemos depende da viagem da luz até nós. Isso significa, que como o universo tem uma idade finita de 14 bilhões de anos, só podemos receber informação que tenha viajado na velocidade da luz durante esses 14 bilhões de anos. Tudo o que está além desta bolha de informação – como se fosse o nosso aquário cósmico – não é acessível a nós. E esses universos estão além desses aquários cósmicos. Então, não podemos receber informações deles. E, se não podemos receber informações deles, não podemos comprovar se realmente existem. Então, passam a ser uma hipótese científica que não pode ser comprovada e que representa um problema filosófico supercomplicado.”

O Multiverso pode até existir! Físicos apontam que a matéria escura que permeia praticamente tudo no universo é uma evidência dele. Equações matemáticas realizadas, dizem, também entram na conta das evidências encontradas. Os Universos Paralelos, afirmam alguns, resolveria os paradoxos da escala subatômica, como a dualidade onda-partícula. A matéria escura, cálculos matemáticos e a onda-partícula seriam evidências substanciais a favor dos Múltiplos Mundos ou ainda estamos no terreno de meras conjecturas metafísicas? Pesquisadores profissionais estão divididos. Admito que é até fascinante e muito louca essa teoria. E não vejo nela, um bom argumento de escape para explicar a sintonia fina do nosso universo para escantear Deus. Os ateus devem apelar para outros argumentos.

domingo, 6 de junho de 2021

A Ciência Pode Explicar Tudo?


LENNOX, John. A Ciência Pode Explicar Tudo? São Paulo: Vida Nova, 2021.

O veinho John Lennox é um Matemático e Filósofo da universidade de Oxford, que vem se destacando nos últimos anos no Brasil, com os seus argumentos em favor do teísmo, através de livros, vídeos e por cauda do seu conhecido debate com o seu colega de Oxford, o Biólogo Richard Dawkins, onde fica notório que o Lennox se saiu bem melhor na exposição das ideias. Li dois de seus livros, dentre eles Porque a Ciência Não Consegue Enterrar Deus, que achei bastante persuasivo. Li também Cristianismo: Ópio do Povo?, livro mais simples, em coautoria com o seu amigo David Gooding. Agora, li este. Livro pequeno, simples, mas não menos interessante e persuasivo em muitos momentos.

Lennox é um teísta cristão desde muito jovem, entrando na academia universitária como cristão e permanecendo inabalável e irredutível nesta posição até hoje. Mas ele relata que logo nos primeiros anos, foi pressionado a abandonar suas convicções teístas, visto que se assim não fizesse, não progrediria no meio acadêmico. A história mostrou que o seu interlocutor estava redondamente enganado. Lennox é um respeitado acadêmico em sua área de atuação (Filosofia da Ciência e Matemática), e coleciona uma série de debates com estudiosos que estão na elite do pensamento ateu, como o já mencionado Richard Dawkins, como também o Eticista Peter Singer, o Jornalista Christopher Hitchens, ao qual Lennox o chama de pensador cuidadoso e ponderado, dentre outras personalidades do ceticismo ateu.  

“[Há] um lado sombrio da academia. Há alguns cientistas que se apresentam com ideias preconcebidas, e que não querem realmente debater as evidências e parecem determinados a não buscar a verdade. Eles estão interessados em propagar as noções de que a ciência e Deus são incompatíveis e de que as pessoas que acreditam em Deus são simplesmente ignorantes. Isso, obviamente, não é verdade.” P. 24-25.

A propaganda de que Ciência e Religião estão em pé de guerra não para na boca dos ignorantes em história. No entanto, Colin A. Russel, Ph.D em História e Filosofia da Ciência na Universidade de Londres, é citado dizendo estas palavras:

“A crença comum de que [...] o verdadeiro relacionamento entre religião e ciência nos últimos séculos tem sido marcado por hostilidade profunda e duradoura [...] não apenas é historicamente incorreta, mas, na verdade, trata-se de uma caricatura tão grotesca que o que realmente precisa ser explicado é como ela pode ter alcançado qualquer grau de respeitabilidade.” P. 34.

Quem não conhece a célebre frase de Carl Sagan e repetida pelo seu substituto Neil DeGrasse Tyson na série Cosmos?

“No início de sua conhecida série da televisão, Cosmos, o astrônomo e cosmólogo americano Carl Sagan afirmou: ‘O cosmo é tudo o que existe, já existiu e sempre existirá’. Essa não é uma afirmação da ciência; não deve ser colocada na mesma categoria, por exemplo, da afirmação científica de que a gravidade obedece à lei do inverso do quadrado. A afirmação de Sagan é simplesmente uma expressão de sua crença ateísta. O problema é que muitas pessoas dão a todas as afirmações de cientistas a autoridade devida apropriadamente à ciência, simplesmente porque foram feitas por um cientista.” P. 35-36.

Esse tipo de idolatria deve acontecer muito com o falecido e renomado Físico Stephen Hawking, que em seu último livro, escreveu que o universo surgiu do nada. Lennox não deixa passar essa contradição. 

“Stephen Hawking afirmava que Deus não é necessário para explicar por que o universo existe, em primeiro lugar – por que existe algo em vez de nada. Ele acreditava que a ciência poderia fornecer a reposta. Escreve assim: ‘Uma vez que há uma lei a da gravidade, o universo pode criar-se e se criará a partir do nada.’

Essa afirmação parece científica, e certamente foi escrita por um cientista. Contudo, além de não ser científica, não é nem mesmo racional, como um pouco de lógica rudimentar demonstrará.

A afirmação de Hawking é autocontraditória: ‘Uma vez que há uma lei como a da gravidade’ – ou seja, visto que há alguma coisa – ‘o universo [...] se criará a partir do nada’. Hawking assume que a lei da gravidade existe. Ela não pode ser considerada nada, logo, ele é culpado dessa contradição flagrante.

Observe cuidadosamente o que Hawking afirma: ‘Uma vez que há uma lei como a da gravidade...’. Quando li isso pela primeira vez, pensei: ‘Com certeza ele quis dizer: ‘Uma vez que há a gravidade...’ Pois, o que uma lei da gravidade significaria se não houvesse gravidade para ela descrever? Além disso, não é só os cientistas que não criaram o universo; a ciência e as leis da física matemática também não o fizeram. Ainda assim, Hawking parece pensar que poderiam, muito bem, tê-lo feito.

[...]

A ideia [...] de leis físicas trazendo o universo à existência poder parecer fascinante, mas, na realidade, não faz sentido algum. [...] a lei da gravidade de Newton não explica a gravidade. Além do mais, ela certamente não cria a gravidade. Na verdade, as leis da física não são apenas incapazes de criar qualquer coisa; elas também não podem ser a causa de qualquer coisa.” P. 49-50, 51.

Continuando...

“Por fim, a afirmação de Hawking de que ‘o universo pode criar-se e se criará a partir do nada’ não faz sentido. Se eu digo, que ‘X cria Y’, isso pressupõe à existência de X em um primeiro momento, para trazer Y à existência. Se eu digo que ‘X cria X’, pressuponho a existência de X para explicar a existência de X. Pressupor a existência do universo para explicar sua existência é logicamente incoerente.” P. 53.

Lennox toca num ponto, que sempre me chamou muita atenção: a incompatibilidade entre racionalidade e ateísmo, no sentido de que este diz que as nossas capacidades de raciocinar surgiram do caos irracional. O universo resulta da aleatoriedade/acaso/irracionalidade, segundo os ateus. Então como podemos confiar em nosso raciocínio? Que justificativas epistêmicas o ateu tem para poder dar credibilidade ao que ele pensa sobre o mundo? Se tudo foi gerado pela irracionalidade, porque o ateísmo seria superior aos demais pensamentos que ele julga serem irracionais, quando a sua própria cosmovisão recai na mesma categoria, visto que ela também foi gestada no mesmo mundo que é efeito da absurdidade e ilogicidade? Mas todos, crentes e descrentes, acreditam que podem apreender algo verdadeiro e confiável sobre o mundo que os cerca. Mas parece que o ateu não tem como justificar adequadamente isso.

“Meu professor de mecânica quântica em Cambridge, o catedrático Sir John Polkinghorne, escreveu: ‘A ciência não explica a inteligibilidade matemática do mundo físico, pois é parte da fé [observe o uso explícito da palavra] fundacional da ciência que isso seja assim...’ pelo simples motivo de que não podemos começar a nos envolver na física sem acreditar em sua inteligibilidade.

Sobre qual evidência, portanto, os cientistas baseiam sua fé fé na inteligibilidade racional do universo, que os permite fazer ciência? O primeiro ponto a ser observado é que a razão humana não criou o universo. Esse ponto é tão óbvio que, à primeira vista, pode parecer trivial; mas é, na realidade, de fundamental importância quando nos propomos a testar a validade de nossas capacidades cognitivas. Além de não termos criado o universo, não criamos nossa própria capacidade de raciocinar. Podemos desenvolver nossas faculdades racionais pelo uso, mas não as originamos. Como é possível, então, que o que se passa em nossa minúscula cabeça possa fornecer algo que se aproxime de uma verdadeira explicação da realidade? Como é possível que uma equação matemática desenvolvida na mente de um matemático possa corresponder ao funcionamento do universo?

[...]

Às vezes, em conversas com meus companheiros cientistas, pergunto a eles:

- Com o que você faz ciência?

- Com a minha mente – dizem alguns; e outros que sustentam a opinião de que a mente é o cérebro dizem:

- Com meu cérebro.

- Fale-me sobre seu cérebro. Como ele surgiu?

- Por meio de processos naturais, irracionais e não guiados.

 - Por que, então, você confia neles? – pergunto. Se você acreditasse que seu computador fosse o resultado final de processos irracionais e não guiados, você confiaria nele?

- Nem por um segundo – vem a resposta.

- Obviamente você tem um problema, então.” P. 61, 62.

John Gray, ateu e Professor de Filosofia na Universidade de Oxford, reconhece:

“O humanismo moderno é a fé de que pela ciência a humanidade pode conhecer a verdade – e assim ser livre. Porém, se a teoria da seleção natural de Darwin for verdadeira, isso se torna impossível. A mente humana está a serviço do êxito evolutivo, e não da verdade.” P. 63. [1]

Lennox nos seis últimos capítulos se volta mais especificamente para o Cristianismo, argumentando que a Bíblia é confiável, apelando para vários argumentos, como a defesa da ressurreição de Jesus, a confiabilidade histórica do Novo testamento, a preservação da sua mensagem original, apesar de dois mil anos de existência, etc.

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[1] Vários Cientistas e Filósofos creem que a teoria da evolução é compatível com a existência de Deus. Deus iniciando o processo evolutivo, este geraria não apenas a sobrevivência, mas uma racionalidade confiável. Se o processo evolutivo for apenas gestado pela cegueira do acaso, não há como justificar racionalidade alguma.

segunda-feira, 24 de junho de 2019

Deus



FILHO, Juvenal Savian. Deus. São Paulo: Globo, 2008.

O tema Deus sempre suscitou o interesse dos grandes Filósofos da antiguidade, idade média, idade moderna e idade contemporânea. “Quem é Deus?”, “Que é Deus?” e questionamentos e reflexões filosóficas similares nunca deixaram de estar na pauta da tradição dos grandes pensadores que já deram as caras por aqui. Ora, uns rejeitando a sua existência, outros admitindo-a, outros se abstendo de bater o martelo... Como reiteradas vezes o Filósofo Luiz Felipe Pondé (Professor da USP) pontuou, apesar de ser ateu, a ideia/conceito de Deus produzido no Ocidente é filosoficamente muito sofisticada. Como não ficar abismado com o argumento ontológico do Arcebispo Anselmo (1033-1109)? Podemos até não concordar, refutar, ou nem entender apropriadamente a sua linha de raciocínio, mas que é um pensamento engenhoso, ah, isso é.

Entre os Filósofos da Religião contemporâneos, quem ousar não reconhecer a engenhosidade dos escritos do Filósofo cristão Alvin Plantinga (Professor na Universidade de Notre Dame), que tem colocado boa parte da comunidade de acadêmicos para discutirem as suas concepções sobre Deus e sobre a crença cristã. Posso ainda citar outro Filósofo cristão, Richard Swiburne (Professor na Universidade de Oxford), que trilhando um caminho epistêmico distinto, e até antagônico ao de Plantinga, também deu grande impulso a Filosofia teísta nas últimas décadas. E para não ficar apenas entre Filósofos cristãos, fica aqui a lembrança do eminente Antony Flew (Professor da Universidade de Oxford), que ganhou grande notoriedade por seus escritos anti-teísticos por cerca de cinco décadas, criando novas formas de pensar a temática “Deus”, dando grande dor de cabeça aos pensadores cristãos.  

Chega de enrolação, vamos ao livro Deus, de Juvenal Savian (Ph.D em Filosofia na USP), que traz uma pequeníssima contribuição introdutória ao assunto.

Ele nos diz, que ao contrário do que se pensa, a maioria dos Filósofos não rejeitam a existência de deus.              

"Uma imagem que se criou a respeito dos filósofos é a de que eles são contra Deus. De acordo com essa imagem, os filósofos são pessoas tão racionais a críticas que não poderiam engolir a ideia de que exista Deus. Quanto à religião, pior ainda... Só mesmo uma pessoa inculta poderia aceitar essas crendices infantis... essa imagem corresponde à realidade? Não, não corresponde. Se fizermos uma estatística, há mais filósofos que afirmam a existência de Deus do que filósofos que a negam. É curioso notar que mesmo filósofos racionalistas, que não definem a fé como uma atividade racional, muitas vezes afirmam a existência de Deus como Criador ou produtor da ordem no mundo." P. 23.

Este trecho por si só, pode precisar de maiores esclarecimentos, visto que poderíamos perguntar se esses Filósofos que ele está se referindo o são no sentido strictu sensu, lato sensu, ou englobando os dois? O que quero dizer, esses pensadores são aqueles que chamamos Filósofos clássicos (strictu sensu), ou ele está colocando nesse time qualquer um que adquire o seu certificado de Doutor em Filosofia (
lato sensu) [1], mas que não criou necessariamente nenhum argumento novo que possa contribuir para novas ideias e debates sobre Deus? Sabemos que conseguir boas titulações, ensinar em grandes Universidades e ter grande prestígio entre os seus pares, não torna por si só, ninguém em um FILÓSOFO, visto que saber articular bem as ideias da Filosofia, ter uma mente enciclopédica sobre a história do pensamento grego antigo, passando pelo medieval, moderno e contemporâneo, torna o camarada em um exímio Historiador da Filosofia, mas se ele não criou novos argumentos, não pode se enquadrar no seleto grupo dos grandes Filósofos.

Pois bem, como estou enrolando mais uma vez, conforme vamos passando as páginas da obra do nosso Juvenal, fica claro que ele está se referindo ao grupo restrito dos Filósofos clássicos, como Platão, Aristóteles, Agostinho, Pascal, Descartes, Voltaire, Bergson... Eu até desconfio que se fossemos contabilizar os Professores de Filosofia universitários aqui no Brasil e lá fora, o número de pensadores céticos ultrapassaria o de crentes.   

Para certos pensadores da antiguidade clássica, pensar o Universo sem um ser superior não tinha cabimento algum.

"[...] para alguns filósofos gregos e romanos, ou afirmamos a existência de um ser divino ou tudo o que nos parece ocorrer no mundo não fará o menor sentido, será absurdo." P. 25.

Isto continua sendo um ponto crucial defendido pelos pensadores cristãos atuais, como o Filósofo Willian Lane (Ph.D em Filosofia pela Universidade de Birminghan) e James Porter (Ph.D em Filosofia pela Universidade do Sul da Califórnia), que escreveram juntos a monumental obra Filosofia e Cosmovisão Cristã, que em seu primeiro capítulo fala sobre “O Absurdo da Vida Sem Deus”.

Nosso amigo Juvenal mostra-se favorável a religiosidade que pulsa tão latente no ser humano, não imputando a ela, uma fraqueza intelectual e moral, alienação e etc. 

“[...] a experiência religiosa não parece propriamente uma ‘invenção’, uma prática convencional, mas algo ligado às camadas mais profundas disso que se costumou chamar de ‘natureza humana’. Seja como for, certas críticas à prática religiosa mostram-se inválidas, como é o caso, por exemplo, da crítica feita por alguns filósofos seguidores de Marx e Nietzche, quando dizem que a prática religiosa é uma violência à condição humana, uma diminuição do humano ou um instrumento de dominação social.” P. 21.

Juvenal não deixa claro se acredita ou não na divindade, de todo modo, mostra-se bem favorável ao pensamento teísta, fazendo uma distinção muito importante, que muitos críticos teimam em não atentar.

"Antes de tudo é preciso distinguir entre Deus e as religiões, sabendo que Deus não pode ser responsabilizado pelas incoerências cometidas pelas religiões. Além disso, é preciso lembrar que nem toda religião pratica violência. Mesmo os aspectos negativos do passado cristão na Idade Média, por exemplo, não podem nos impedir de ver as intermináveis contribuições que a fé cristã trouxe para o desenvolvimento do mundo ocidental." P. 66.

Lendo isto, lembro de que nas minhas humildes leituras já me deparei com vários autores que mesmo não sendo cristãos, reconhecem a grande contribuição moral e intelectual que o Cristianismo legou ao mundo. Clóvis Filho (Ph.D em Ciências da Comunicação na USP), no seu livro Ética e Vergonha na Cara, reconhece que a ideia de igualdade entre os seres humanos é fruto do pensamento cristão. Enquanto que a ideia de virtude grega é aristocrática, poucas pessoas a possuem, no Cristianismo ela é democratizada, não há escolha de uns em detrimento dos outros.

No entanto, dando uma de advogado do Diabo, durante séculos e mais séculos de hegemonia cultural e espiritual no Ocidente, é mais do que natural que a religião cristã tenha deixado coisas boas. Devemos ver grande coisa nisso? Até os portugueses que espoliaram o Brasil, deverá também ter alguma listinha de coisas benéficas que aqui fizeram. Acho que não devemos supervalorizar demais os benefícios do Cristianismo, assim como devemos sabe dosar as críticas a ele. Há exageros grandes demais tanto entre os seus defensores como entre os seus detratores.

Nosso autor passa então a trazer o que os Filósofos têm a dizer sobre Deus. Entra nessa lista: Platão, Aristóteles, Fílon de Alexandria, Tomás de Aquino, Kant, Voltaire, Pascal, Espinosa, Hegel, Lévinas e muitos outros.

A parte mais interessante do livro é a parte final intitulada Ensaiando Leituras, onde ele traz pequenos excertos dos Filósofos trabalhados.

Um livro diminuto, com apenas 106 páginas, mas que é um bom começo para quem está interessado em começar a adentrar esse terreno tão importante que é o pensar sobre Deus.  

[1] Eu sei que o Doutorado é pesquisa strictu sensu. Há um recorte bem restrito sobre o quê trabalhar na tese. Mas ficou claro o que eu quis dizer no texto. 

quinta-feira, 12 de julho de 2018

Uma Prova do Céu


ALEXANDER, Eben. Uma Prova do Céu. Rio de Janeiro: Sextante, 2013. (PDF).

Eben Alexander III foi Professor de Medicina na Universidade de Harvard, precisamente um Neurocirurgião, que depois de tantos anos de práticas médicas na área do cérebro, foi acometido por uma meningite bacteriana que o deixou em coma por sete longos dias, deixando todos aflitos e esperando pela derradeira notícia de sua morte. Mas ele sobreviveu, e o que experienciou nessa semana enquanto estava apagado, é surpreendente.

“Em 10 de novembro de 2008, entretanto, aos 54 anos, a sorte pareceu me abandonar. Fui surpreendido por uma doença rara e fiquei em coma durante sete dias. Nesse período, todo o meu neocórtex – a superfície externa do cérebro, a parte que nos torna humanos – ficou paralisado. Inoperante. Completamente ausente.

[...]

Como neurocirurgião, ouvi muitos relatos de pessoas que tiveram experiências estranhas, geralmente depois de sofrerem ataques cardíacos: histórias de viagem para lugares misteriosos e maravilhosos, de conversas com parentes mortos – e até de encontros com Deus.

Fascinante, sem dúvida. Mas tudo isso, em minha opinião, era pura fantasia. Afinal, o que provocava as experiências sobrenaturais que as pessoas relatavam com tanta frequência? Na verdade, a resposta não me interessava, mas eu acreditava que essas experiências tinham uma base cerebral. Toda consciência tem. Se não houver atividade cerebral, não há consciência.” P. 21.

Não obstante:

“Durante o coma, não é que meu cérebro trabalhasse de forma inadequada – ele simplesmente não trabalhava.” P. 22.

Ele conta que:

“[...] meu caso o neocórtex estava fora de área. Eu estava conhecendo uma dimensão da consciência que existia completamente à parte das limitações de meu cérebro físico.

De certa forma, vivi uma avalanche de experiências de quase morte. Como neurocirurgião com décadas de pesquisa e prática, eu estava em melhor posição para avaliar não apenas a realidade, mas as implicações do que acontecera.

E essas implicações são extraordinárias. Minha experiência me mostrou que a morte do corpo e do cérebro não é o fim da consciência, e que a existência humana continua no além túmulo. E, mais importante ainda, ela se perpetua sob o olhar de um Deus que nos ama e que se importa com cada um de nós, com o destino do Universo e de todos os seres contidos nele.

O lugar onde estive era real. Tão real a ponto de fazer a vida no aqui e agora parecer uma ilusão. Isso não significa, entretanto, que eu não valorize a vida que levo agora. Pelo contrário, prezo-a até mais do que antes. E o faço porque consigo enxergá-la em seu verdadeiro contexto.” P. 22-23.

A doença que o pegou era tão rara que “menos de um em cada 10 milhões de adultos é afetado pela doença por ano.” P.39.

“Os médicos simplesmente não sabiam como eu poderia ter contraído a doença, ou quando eu voltaria do coma. Eles só tinham certeza de uma coisa: não conheciam ninguém que tivesse se recuperado completamente de uma meningite bacteriana após ter passado alguns dias em coma.” P. 127.

“[...] o meu caso era o primeiro desse tipo na história médica.” P. 131.

Ainda sobre o seu estado clínico:

“As estruturas mais primitivas do meu cérebro continuaram a funcionar o tempo todo durante o coma. Mas a região do meu cérebro que os neurologistas dizem ser responsável pela minha parte humana havia sumido. Eu podia ver isso nas imagens, nos números do laboratório, nos exames neurológicos – em todos os dados recolhidos aquela semana no hospital. Então eu logo comecei a perceber que a minha experiência de quase morte era tecnicamente quase impecável, e talvez um dos casos mais convincentes na história moderna do fenômeno.” P. 184-185.

Eben milagrosamente voltou, e além de sua recuperação, diz ter passado por momentos totalmente conscientes num outro mundo. Eben escreve que em seu estado de coma de repente ele se encontrou noutra dimensão.

“Eu não era humano naquele lugar. Eu não era sequer animal. Eu era alguma coisa anterior, e inferior, a tudo isso. Era apenas um ponto solitário de consciência em um mar vermelho-escuro.” P. 52.

Nos primeiros momentos de sua viagem a esse mundo, ele esteve numa espécie de inferno.

“Caras grotescas de animais borbulhavam na lama, grunhiam, guinchavam e desapareciam de novo. Escutei urros medonhos. Algumas vezes, esses urros e grunhidos davam lugar a cânticos rítmicos e obscuros que eram, ao mesmo tempo, assustadores e curiosamente conhecidos – como se em algum momento eu mesmo os tivesse cantado.” P. 53.

Um lugar assustador.

“Quanto mais me sentia como um eu – como alguma coisa separada do ambiente frio, úmido e escuro à minha volta –, mais os rostos que borbulhavam na massa pegajosa se tornavam feios e ameaçadores. As batidas ritmadas do ferreiro também ficaram mais intensas: pareciam britadeiras de trabalhadores subterrâneos, tipo ogros, executando uma tarefa interminável e massacrantemente monótona. O movimento à minha volta se tornou menos visual e mais palpável, como se criaturas parecidas com vermes e répteis estivessem passando em bandos e de vez em quando esfregassem suas peles macias ou espinhosas em mim.

Foi então que tomei consciência de um odor: era uma mistura de cheiro de fezes, sangue e vômito. Em outras palavras, um cheiro biológico, porém de morte, não de vida. À medida que minha consciência se aguçava, eu me aproximava mais do pânico. Eu não pertencia àquele lugar. Precisava escapar. Mas para onde?” P. 53-54.

Aí, as coisas começaram a mudar.

“Quando me fiz essa pergunta, algo novo emergiu da escuridão: alguma coisa que não era fria, nem morta, tampouco sombria, mas o exato oposto disso tudo. Mesmo que eu passasse o resto da vida tentando, não conseguiria fazer justiça à entidade que se aproximava de mim. Nem sequer chegaria perto de descrever como era bela.” P. 53-54.

Um paraíso se abria diante de seus olhos.

“Eu estava voando. Passei por árvores e campos, rios e cachoeiras, e avistei pessoas aqui e ali. Também havia crianças rindo e brincando. Todos cantavam e dançavam em círculos, e vi até cachorros correndo e saltando entre elas, igualmente tomados de alegria. As pessoas vestiam roupas simples, mas bonitas, e tive a impressão de que as cores dessas vestimentas tinham o mesmo tom vívido das árvores e das flores que desabrochavam e encantavam todo o campo ao redor.

Um mundo de sonhos belo e incrível...

Só que não era um sonho. Embora não soubesse onde me encontrava e nem mesmo o que era aquilo tudo, eu estava convicto de uma coisa: esse lugar em que de repente me vi era completamente real.” P. 62-63.

Uma menina desse mundo espiritual lhe falou:

“Você é amado e valorizado imensamente, para sempre.”

“Não há nada a temer.”

“Não há nada que você possa fazer de errado.”

[...]

‘Nós lhe mostraremos muitas coisas aqui’, a menina me disse, de novo sem usar palavras, apenas projetando a essência do significado delas em mim. ‘Mas, no fim, você irá voltar.’” P. 65.

Mais sobre o “Céu”:

“[...] seres deslumbrantes se deslocavam em arco por todo o céu, deixando grandes rastros atrás de si.

Pássaros? Anjos? Estas palavras me ocorreram quando eu escrevia minhas recordações, mas nenhuma delas faz jus àqueles seres, que eram muito diferentes de qualquer coisa que eu tivesse conhecido neste planeta. Eles eram mais evoluídos. Superiores.

Um som forte e majestoso, como uma música sacra, veio de cima, e me perguntei se aqueles seres superiores estariam produzindo esse uníssono. Novamente, refletindo sobre isso mais tarde, me ocorreu que a alegria dessas criaturas era tão imensa que elas tinham que manifestar esse som – como se fosse uma emoção impossível de conter. Era algo palpável e quase material, assim como uma chuva que se sente na pele, mas que não nos deixa molhados.

Ver e ouvir não eram coisas separadas naquele lugar. Eu podia ouvir a beleza dos corpos daqueles seres cintilantes e, ao mesmo tempo, ver a perfeição do que eles cantavam. Parecia que não era possível ver ou escutar qualquer coisa ali sem se tornar parte dela – sem se fundir com aquilo de alguma forma misteriosa. Lá tudo era diferente e, no entanto, fazia parte de algo maior, como os belos desenhos entrelaçados nos tapetes persas... ou como nas asas de borboleta.” P. 71-72.

A Eben é revelado que existem outros universos além do nosso, e que o mal também existe neles.

“O mal também estava presente em todos os outros universos, porém em quantidades muito pequenas. O mal era necessário porque sem ele o livre-arbítrio era impossível, e sem livre-arbítrio não poderia haver crescimento – nenhum avanço, nenhuma chance de nos tornarmos o que Deus desejou que fôssemos. Por mais horrível e poderoso que o mal pareça, o amor é avassaladoramente maior, e triunfará no final.

Vi a abundância da vida nos incontáveis universos, incluindo alguns cuja inteligência estava muito além da nossa. Vi que existem incontáveis dimensões superiores, mas que a única maneira de conhecê-las é experimentando-as diretamente. Elas não podem ser conhecidas ou entendidas de um espaço dimensional inferior.

Causa e efeito existem nesses reinos mais elevados, mas de maneira diferente da nossa concepção terrena. O nosso tempo e espaço estão unidos, de maneira íntima e complexa, com esses universos mais avançados. Em outras palavras, esses mundos não estão totalmente separados do nosso, porque todos os mundos fazem parte da mesma e abrangente Realidade divina. Daqueles universos mais avançados se pode acessar qualquer tempo ou lugar do nosso mundo.” P. 75-76.

Eben tem certeza de que sua experiência foi verdadeira.

“[...] sei a diferença entre a fantasia e a realidade, e posso assegurar que a experiência que estou tentando transmitir aqui, ainda que de forma vaga e insatisfatória, foi de longe a experiência mais real da minha vida.” P. 66.

“Um pouco longe do padrão científico? Não acho. Voltei daquele lugar, e nada poderá me convencer de que esta não é somente a verdade emocional mais importante no Universo, como também a verdade científica mais fundamental de todas.” P. 105.

Como a maioria dos Neurocientistas, ele tinha muito ceticismo em relação ao sobrenatural.

“Nunca escondi minhas dúvidas sobre a vida espiritual. Por mais que eu quisesse acreditar em Deus, no céu e na vida após a morte, meus anos no rigoroso mundo científico me faziam questionar como tais coisas poderiam existir. A neurociência moderna postula que o cérebro comanda a consciência – ou a mente, a alma, o espírito, ou como quer que se chame essa parte invisível e intangível de nosso ser que nos faz ser quem somos – e eu não tinha dúvida de que a neurociência estava certa.

Assim como a maioria dos profissionais de saúde que lida diretamente com pacientes moribundos e seus familiares, eu tinha ouvido relatos – e até visto acontecimentos – inexplicáveis. Eu classificava essas ocorrências como ‘desconhecidas’ e as deixava para lá. Não que eu me opusesse a crenças no sobrenatural. Como um médico que via grandes sofrimentos físicos e emocionais todos os dias, a última coisa que eu queria era negar a alguém o consolo e a esperança que a fé proporcionava. Para falar a verdade, eu mesmo queria ter desfrutado de algum tipo de fé.

Mas quanto mais velho eu ficava, menos provável isso se tornava. Como o mar avançando pouco a pouco sobre a praia, ao longo do tempo minha visão científica do mundo minava lentamente minha capacidade de crer em algo maior. A ciência parecia fornecer uma imensa quantidade de evidências que tornavam quase nula a importância do ser humano no Universo. A crença pode ser uma coisa boa, mas a ciência não está preocupada com o que poderia ser bom. Ela está preocupada com o que é.” P. 57-58.

Para Eben, antes de sua experiência extracorpórea, a consciência não era nada além de uma mera extensão de cérebro. 

“E eu sabia muito bem que o cérebro é apenas isto: uma máquina que produz o fenômeno da consciência. É claro que os cientistas não haviam descoberto exatamente como os neurônios do cérebro conseguem fazer isso, mas era apenas uma questão de tempo. Afinal, isso era provado todos os dias na sala de cirurgia. Um paciente chega com uma tremenda dor de cabeça e com a consciência reduzida. O médico faz uma ressonância magnética no cérebro e descobre um tumor. O paciente toma anestesia geral, o tumor é extirpado, e algumas horas depois ele está pronto para encarar o mundo de novo. Nada de dor de cabeça. Nada de consciência turva. Tudo muito simples.

Eu adorava essa objetividade – a absoluta honestidade e isenção da ciência. Não havia espaço para fantasias nem para negligência. Se um fato pudesse ser visto como concreto e confiável, ele era aceito. Do contrário, era rejeitado.

Essa abordagem deixava muito pouco espaço para a alma e o espírito, para a continuação da existência depois que o cérebro para de funcionar. E deixava menos espaço ainda para aquelas palavras que eu sempre ouvia na igreja: vida eterna.” P. 59.

Depois do que passou, ele crê que a Ciência e o sobrenatural são compatíveis.

“A ciência, a que me dediquei durante tanto tempo, não contradiz o que aprendi lá em cima. Mas muita gente acredita que sim, pois alguns membros da comunidade científica, presos à visão materialista do mundo, têm insistido cada vez mais que ciência e espiritualidade não podem coexistir. Eles estão equivocados. Para tornar esse conhecimento acessível ao grande público é que escrevi este livro.” P. 107.

“Dizer que ainda existe um abismo entre a visão científica do Universo e a realidade que vivi não é correto. Eu ainda gosto da física e da cosmologia, ainda adoro estudar o nosso Universo imenso e maravilhoso. Apenas tenho agora uma concepção bem mais ampliada do que ‘imenso’ e ‘maravilhoso’ de fato significam. A parte física do Universo é um grão de areia comparada à parte espiritual e invisível. Antigamente, eu jamais usaria a palavra espiritual no meio de uma conversa científica. Hoje acho que não podemos deixá-la de fora.” P. 118-119.

A crença em Deus e no seu amor agora é parte essencial de sua vida.

“Compreendi que sou parte do Divino e que nada, absolutamente nada, pode tirar isso de mim. A suspeita (falsa) de que estamos separados de Deus é a raiz de todas as formas de ansiedade no Universo; e a cura para isso – que eu comecei a receber no Portal e depois no Núcleo – é a certeza de que nada é capaz de nos separar do amor de Deus.” P. 111-112.

“Cada um de nós é profundamente conhecido e cuidado por um Criador que nos trata com um carinho muito além da nossa capacidade de compreensão. Esse conhecimento não pode mais ser mantido em segredo.” P. 136.

“[...] nosso ser espiritual eterno é mais verdadeiro do que qualquer coisa que possamos perceber no domínio físico e tem uma conexão direta com o infinito amor do Criador.” P. 199.

Mesmo com as suas credencias de Neurocirurgião impecáveis, poucas pessoas estavam solicitas em dar crédito a sua história.

“Afinal de contas, o que vivi alterou minhas crenças a respeito do cérebro, da consciência e do sentido da vida. Quem não estaria interessado em ouvir sobre essas descobertas? Muito pouca gente, como logo percebi. Sobretudo pessoas com credenciais médicas.” P. 171.

Eben reconhece que muito do que acreditava como Médico, desmoronou.

“Quanto mais meu raciocínio lógico retornava, mais eu via com clareza que o que aprendi durante décadas de estudo e prática médica conflitava radicalmente com o que vivi naqueles sete dias, e mais eu tinha certeza de que a mente e a personalidade (ou alma, espírito, como queira chamar) continuam a existir depois da morte do corpo. Eu precisava contar essa história para o mundo.” P. 175.

Admite que sua incredulidade era ancorada em puro preconceito.

“Eu era um exemplo típico do médico bom caráter, porém cético e incrédulo. E, como tal, posso garantir que mesmo os mais céticos não são céticos de verdade. Para ser realmente cético é preciso examinar o assunto e levá-lo a sério. E eu, como muitos cientistas, nunca gastei meu tempo com as EQMs [Experiência de Quase-Morte]. Eu simplesmente ‘sabia’ que elas eram impossíveis.” P. 181.

“Enquanto lia as explicações ‘científicas’ a respeito da EQM, eu ficava chocado com a superficialidade das análises. Descobri também, com tristeza, que elas eram exatamente as mesmas explicações que meu antigo eu daria se alguém perguntasse o que eu achava dessa experiência fora do corpo.” P. 196.

O autor de Uma Prova do Céu insiste em dizer que sua experiência de quase-morte tem valor científico.

“[...] eu sabia que estava contando uma coisa que tinha valor científico genuíno, algo que abria as portas da percepção para um novo mundo de compreensão científica. Uma reflexão que elevava a consciência à condição de maior entidade de toda a existência.” P. 216-217.

Mas até onde sei, ele não provou a existência do céu ou de uma dimensão espiritual. Claro que o seu depoimento tem um certo peso, por ele ser quem ele é - um homem educado na mais prestigiada Universidade do mundo, uma mente científica e rigorosa. Ao contrário de outras histórias extraordinárias publicadas, que contam experiências semelhantes, não duvido de que a sua história seja totalmente verdadeira.

Muitos cristãos (principalmente evangélicos) torcerão o nariz para o seu livro, visto que em nenhum momento a sua experiência legitima o cristianismo, apesar de alguns paralelos. Ele até diz que falou com pessoas que já morreram, o que contraria a crença de muitos cristãos. Isso basta para que eles rechacem o que ele diz ter vivenciado. Até arrisco em dizer: dirão que o diabo o enganou.

De todo modo, ele é enfático:

“[...] o que experimentei fora do corpo é verdadeiro, real e transformador. Não apenas para mim, mas para todos nós.” P. 226-227.