domingo, 17 de janeiro de 2016

Caçadores de Monstros


Supostas criaturas assustadoras ainda não catalogadas pela Ciência, mas que milhares de pessoas afirmam tê-lo vistas. Histórias fantásticas, que os céticos dirão que são apenas lendas. Será que os diversos relatos de avistamentos, podem evidenciar um fundo de verdade neles? Ou existe um floreamento e exagero deliberado por parte daqueles que dizer ter visto esses animais?  

O primeiro caso que o vídeo nos mostra, é nas praias de Vancouver, no Canadá. O Cadborosauros, uma espécie de animal marinho gigante, que lembra os antigos dinossauros. Caso ele exista, seria ele uma espécie sobrevivente? Apesar dos vários relatos e ida de Cientistas a praia, a tal criatura não foi encontrada até o momento.

O segundo bicho, parece ser uma espécie de hominídeo – homem macaco – morador das florestas, que assusta há séculos muitos moradores da Austrália. Segundo alguns que juram tê-lo visto, ele possui cerca de três metros a dois metros e meio de altura. O animal é grande mesmo. E por sinal muito forte, e ainda tem um rugido assustador. A exemplo do primeiro caso, nada de concreto nesse também.

O terceiro bicho, ao contrário dos primeiros, têm-se fotos e imagens antigas dele. É o tigre da tasmânia (não confundir com o demônio). “Um conjunto primitivos de animais: pernas de canguru, pele de tigre e uma mordia impressionante de 120º graus. Mas parecido com um réptil que com um mamífero”. Ele está oficialmente extinto. Contudo, alguns afirmam que não. O tigre também não foi encontrado.

Os colonizadores se assustaram com esse animal feroz a arisco, quando chegaram à Austrália no século XIX. O governo mandou que todos eles fossem exterminados. Em tese o último tigre foi morto na década de 1930. Um vídeo dele é mostrado no documentário.

Cientistas estão estudando uma forma de trazê-lo de volta, através da Genética. Tomara que tenham êxito. Religiosos fundamentalistas posicionaram-se contra a pesquisa, vomitando a besteira de que os Cientistas estão brincando de Deus. Um dos Cientistas respondeu que quem brincou de Deus foram às pessoas que caçaram o animal. Na verdade, trazendo o tigre da tasmânia de volta, estaríamos brincando de seres humanos inteligentes.

Achei ótima a resposta dele. E acrescentaria, que trazendo essa espécie de volta, estaríamos colaborando com Deus. É um ato de amor à natureza, restaurar aquilo que perdemos, exatamente por causa da nossa ignorância e falta de respeito à fauna.

É impressionante como tem religiosos idiotas. Sendo a Austrália um país que possui um grande contingente de pessoas evangélicas, especulo que provavelmente foi um grupo destes que falou essa merda.

Quem diabo se importa com a opinião deles? Devemos nos importar, visto que suas ideias descabidas alienam a muitos. 

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

A Grande Tradição Intelectual Cristã


DOCKERY, David; GEORGE, Timothy. A Grande Tradição Intelectual Cristã. São Paulo: Cultura Cristã, 2015.

Dando continuidade a leitura de livros sobre a história da Igreja, acabei lendo esse, escrito pelos Teólogos Timothy George (Ph.D e Mestre em Teologia na Universidade de Harvard, EUA) e David S. Dockery (Ph.D em Humanidades na Universidade do Texas, EUA), que fala-nos sobre as grandes mentes teológicas e filosóficas que contribuíram para a grande tradição intelectual cristã, desde Justino Mártir, no século II, aos dias atuais, com o Teólogo Thomas Oden.

Logo de início é admitido que o cristianismo já não tem a relevância que antes gozava nas Universidades e outras instituições de ensino. A fé cristã foi relegada ao âmbito privado.

“[...] a maioria das universidades da Europa e da América do Norte, atualmente, entende que a tarefa de descobrir e de transmitir conhecimento é algo totalmente distante de qualquer conexão com a fé cristã, apesar de muitas dessas instituições acadêmicas atribuírem suas origens a uma herança cristã.” P. 17.

Páginas à frente, eles retomam esse tema:

“[...] Comumente, todos sabem que o pensamento cristão não é mais considerado um tema relevante na universidade moderna. Talvez seja admitido no departamento de História ou de Religião, onde há possibilidade de se fazer um trabalho sobre o que uma vez criam os cristãos.” P. 77.

No Brasil, Universidades como a Mackenzie (Igreja Presbiteriana do Brasil) e UNASP (Igreja Adventista do Sétimo Dia) tentam superar essa situação, dando ênfase a temas que julgam importantes para um cristianismo pulsante e atuante na sociedade. Por exemplo, ambas julgando a Teoria da Evolução uma inimiga mortal da grande tradição intelectual cristã, promovem eventos, cursos e disciplinas que questionam o darwinismo como a melhor teoria sobre a origem dos seres vivos.

Mas quem foram os homens que moldaram a grande tradição intelectual cristã, a despeito da sua atual crise nas grandes Universidades? Num imenso time que esculpiu o pensamento cristão, o livro traz em sua lista, nomes conhecidos e carimbados da Teologia Cristã, tais como:

JUSTINO MÁRTIR (século II) – “De forma brilhante, Justino vinculou o Antigo ao Novo Testamento.” P. 22.

ORÍGENES (séculos II-III) - “O trabalho de Orígenes foi grandemente influenciado pelo pensamento neoplatonista.” P. 24.

JOÃO CRISÓSTOMO (séculos III-IV) – “Deu primordial atenção à intepretação literal, gramatical e histórica das Escrituras.” P. 28.

JERÔNIMO (séculos III-IV) – “Sem dúvida, Jeronimo classifica-se como intérprete bíblico de primeira ordem, uma reputação que permanece até hoje.” P. 31.

AGOSTINHO (séculos IV-V) – “O trabalho de Agostinho formou o que há de melhor na tradição intelectual cristã, como poucos outros nos dois mil anos de história da igreja.” P. 31.

Muitos outros são mencionados: Anselmo, Aquino, Lutero, Calvino...

No tocante aos “hereges” que surgiram para atrapalhar o andamento da coisa, temos o trio do beiçudo – Marcião, Ário e Pelágio. Pense em três figuras que deram uma enorme dor de cabeça as lideranças da igreja. Concílios precisaram ser feitos para liquidar ou atenuar a influência “maléfica” que esses três causaram. E pior: ainda hoje, o protestantismo e catolicismo tem que lidar com os atuais arianos (testemunhas de Jeová) e com os pelagianos em suas próprias fileiras. As carcaças de Ário e Pelágio agradecem.

Um enunciado que chamou bastante atenção foi este:

“[...] sola gratia é herança comum do protestantismo histórico e do catolicismo fiel, assim como o é a confissão compartilhada pelo calvinismo tradicional e pelo arminianismo de João Wesley.” P. 51.

Os autores são dois Teólogos de tradição calvinista. Dessa forma, o reconhecimento deles de que João Wesley foi um cristão em consonância com a sola gratia (reconhecem a ortodoxia de sua teologia), se reveste de primordial importância para o longo debate entre arminianos e calvinistas. Os calvos do Facebook, por exemplo, com certeza em sua grande maioria, fariam chacota desse tipo de afirmação, caso viesse de autores arminianos. No entanto, devem se resignar. E note bem: Dockery e George usam a expressão "arminianismo de João Wesley", o que implica em dizer que os ensinos de Jacó Armínio estão fundamentados no SOLA GRATIA. Todavia, não é isso que os calvos de internet dizem. Sempre estão prontos a dizer de peito aberto que Armínio distorceu essa doutrina.

Felizmente nos últimos anos, as obras de autores arminianos têm preenchido o vácuo da Teologia protestante no tocante a essa questão, em terras brasileiras. Para quem se interessa por História da Igreja e Teologia Histórica, as prateleiras já dispõem de ótimas obras arminianas, que desmentem os espantalhos criados em torno de Armínio e dos arminianos.

Trazendo um dado triste e cruel do imperador Nero, o livro diz:

“[...] Os que visitam Roma podem ver o Coliseu. Esse lugar foi a princípio uma área de lazer do grande palácio de Nero, no alto da colina. Em um de seus banquetes, Nero mandou amarrar cristãos de Roma em postes e ordenou que ateassem fogo neles, de forma que quando os convivas chegassem, a caminho do banquete, passassem por onde os cristãos estavam sendo queimados, como postes de luz vivos.” P. 57.

Séculos depois, foram os ditos cristãos que fizeram coisas semelhantes. Bastou o poder mudar de lado. Humanos fazendo humanices.

E agora trazendo um trecho de uma carta do famoso Cientista Albert Einstein:

“[...] Somente a igreja se opôs à luta que Hitler empreendia contra a liberdade. Até então, eu não tinha nenhum interesse pela igreja, mas agora sinto grande admiração e estou bastante atraído por ela, que teve coragem persistente de lutar em favor da verdade espiritual e da liberdade moral. Sinto-me obrigado a confessar que agora admiro aquilo que costumava considerar de pouco valor.” P. 65.

Imagino os ateus mais empedernidos e cheios de ódio contra a religião, dizendo que essa carta não existe ou que os autores tiraram o texto do seu contexto, e assim, distorceram o que o Físico quis dizer. Haja paciência com esses também. Mesmo que o Einstein não tenha sido um religioso no sentido tradicional, esse tipo de reconhecimento de sua parte, da utilidade benéfica da religião num momento tão crucial da história humana, é algo que os ateus raivosos não curtem.

E terminando, nas páginas finais, os autores conclamam toda a comunidade cristã a lutarem e batalharem para que a grande tradição intelectual cristã tenha seu espaço nas Universidades e nas pesquisas de ponta do saber. Excelência, seriedade e pesquisa, nas mais diversas áreas devem ser feitas com entusiasmo pelos cristãos. Afinal, toda verdade é uma verdade de Deus. As ciências da natureza, humanidades, artes e todo tipo de conhecimento, deve ser buscado com diligência, para que Deus seja glorificado.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

As Catacumbas de Roma


SCOTT, Benjamin. As Catacumbas de Roma. 41º Impressão. Rio de Janeiro: CPAD, 2015. 

Leitura terminada. Vamos à obra.

Começando pelo autor, Benjamin Scott, o que tenho a dizer? Nada!

- Nada?

Sim, nadinha, nadinha. Os elementos pré-textuais do livro, não nos informa sobre quem ele é; o que faz; que igreja faz parte, etc. Pastor? Teólogo? Historiador? Pesquisador autodidata? Também não encontrei informações sobre ele na Web.

Em todo caso, como o próprio título da obra diz, ele vem trazer à luz, a história das intrigantes catacumbas dos primeiros cristãos. Esses lugares que serviram de refúgio e locais de adoração, para esse mar de gente, que rompeu os seus laços com a religiosidade “pagã”, para abraçar uma nova fé. O polêmico homem da Judeia, Jesus Cristo, agora era o objeto de sua crença. Objeto esse, que lhes custou à própria vida em não raras ocasiões, nos longos séculos I-IV.

Antes de entrar no tema propriamente dito, nos capítulos iniciais, ele irá traçar um relato sombrio sobre o culto e a sociedade que viviam debaixo da religião do paganismo. Nessas sociedades imperavam toda sorte de imoralidades, perversões, sacrifícios de crianças, rebaixamento da mulher e toda sorte de torpezas. Vários povos são mencionados: egípcios, gregos, romanos, hindus, fenícios, etc. Todos, absolutamente todos, estavam entregues as mais variadas práticas repugnantes e desumanas.

“E, para completar o testemunho dos pagãos, quanto ao caráter e efeitos do seu sistema, Platão declara: ‘O homem tem-se tornado mais baixo que o mais vil dos animais’. P. 12.

Citando outra testemunha da época, para corroborar sua tese, Scott traz as palavras de Dionísio de Halicarnasso, Filósofo grego:

“Há somente uns poucos que chegaram a ser mestres de filosofia; por outro lado, a grande e ignorante massa popular está mais propensa a encarar essas narrativas (as vidas dos deuses) pelo lado pior e a desprezar os deuses como seres que se transformam nas mais crassas abominações, ou a não temer praticar as maiores baixezas, crendo que os deuses as praticam também.” P. 13.

Falando sobre o culto e sacrifício de crianças em homenagem ao conhecido e condenável deus Moloque, ídolo tão comum aos leitores da Bíblia, Scott nos descreve como era o ritual:

“O ídolo consistia numa estátua de latão, sob a forma de homem com cabeça de touro; tinha os braços estendidos para a frente, um pouco abaixados. Os pais colocavam seus filhos nas mãos do ídolo. Dali a criança caía numa fornalha onde morria queimada. Durante a cerimônia, tocavam tambores e trombetas para abafar os gritos dos inocentes. Algumas vezes o ídolo era oco. Aquecido até ao rubro por fogo colocado dentro, as crianças eram então queimadas nas mãos em brasa da estátua.” P. 15-17.

A condição da mulher era paupérrima.

“A mulher era definida pelas leis de Roma, não como pessoa, mas como coisa e, se faltasse o título da sua posse, poderia reclamar-se como quaisquer móveis. Era tratada como escrava do homem e não como sua companheira e amiga; era comprada, vendida, trocada, desposada, casada, divorciada e separada de seus filhos, sem seu consentimento; muitas vezes sem misericórdia; à vontade do capricho de seu senhor. Ele podia legalmente matá-la, ainda que fosse por ter provado do seu vinho ou por ter usado suas chaves.” P. 27-29.

Diante do exposto, fico pasmo diante da apressada acusação de que o texto bíblico oprime as mulheres. E apesar da mulher não ter a sua devida valorização na cultura hebraica, a sua condição era bem pior na maioria das culturas em derredor. É por isso que o cristianismo atraiu tanto o sexo feminino. Visto que o seu fundador, pelo menos de acordo com os textos mais primitivos de que dispomos, deu-lhes uma dignidade que lhes era negada no judaísmo, e muito mais na cultura romana, entre outras. 

A partir do capítulo 3, o autor começa a tratar das catacumbas romanas, enfatizando um enorme contraste entre as perspectivas “pagãs” e cristãs, nas inscrições encontradas. Enquanto nas catacumbas de não cristãos não havia palavras de esperança pós-morte, nas catacumbas cristãs, apesar da dor da perda de um filho, marido ou esposa, a esperança da vida eterna com Deus, é bem corriqueira nas rudimentares inscrições e desenhos feitos pelos seguidores do cristianismo. Eis dois exemplos, na página 80:

Inscrição “pagã”:

CAIUS JULIUS MAXIMUS, 2 ANOS E 5 MESES (IDADE).
Ó INFORTÚNIO IM-PLACÁVEL, QUE TE DELEITAS EM MORTE CRUEL, PORQUE ME FOI MÁXIMO ARRANCADO TÃO REPENTINAMENTE, AQUELE QUE ULTIMAMENTE SE RECLINAVA NO MEU COLO? ESTA PEDRA AGORA MARCA O SEU TÚMULO.
EIS A SUA MÃE!

Inscrição cristã:

PETRONIA, ESPOSA DE UM DIÁCONO, TIPO DE MODÉSTIA.
NESTE LUGAR DEITO OS MEUS OSSOS. DEIXAI AS VOSSAS LÁGRIMAS, CARO MARIDO E FILHOS, E CREDE QUE É PROIBIDO CHORAR POR UMA QUE VIVE EM DEUS. ENTERRADA NO TER-CEIRO, ANTES DAS NONAS DE OUTUBRO, DURANTE O CONSULADO DE FESTO.

Diante do exposto, Scott completa:

“Onde se pode encontrar um contraste maior em sentimento do que o que existe em monumentos pagãos e cristãos sobre a morte? O paganismo, não obstante as alusões de seus poetas aos Campos Elíseos, para além das negras águas do Estyge, não tinha esperança da imortalidade. Entre os muitos milhares de epitáfios existentes em gabinetes e museus, ainda não se achou uma única alusão a qualquer convicção definida de imortalidade.” P. 80.

Muitas outras inscrições são trabalhas pelo livro, trazendo informações valiosas sobre as catacumbas e as pesquisas feitas sobre elas. Contudo, nos dois capítulos finais, o autor se volta contra o catolicismo romano, afirmando que os túmulos dos crentes primitivos refutam boa parte das doutrinas distintivas do papado. As mais duras críticas são levantadas para convencer o leitor de que o catolicismo não é uma representação fiel dos ensinos apostólicos.

“A Igreja Romana é acusada de usar da mentira, da violência, da prepotência, para castigar, matar, destruir aqueles que julgava seus inimigos ou que de seus erros di-vergiam. Seus mais altos dignatários, para alcançar seus fins inconfessáveis, praticavam os crimes mais infames, dando lugar a obras de grandes escritores que os condenaram publicamente. Aí está a história da Inquisição onde milhares de santos foram martirizados pela Igreja Romana.” P. 126.

Segundo o autor, doutrinas fundamentais do catolicismo, tais como a presença do sacrifício de Cristo na missa, purgatório, sacerdócio do padre acima da comunidade de fé, não são sequer mencionadas nem de relance. Não se pode nem deduzir qualquer dessas crenças dos desenhos encontrados nas catacumbas primitivas.

O livro é bonzinho. Com certeza, há livros bem melhores que tratam do tema. A emoção e fé protestante anticatólica do autor, veio à tona com força no final do livro, mas nada que venha a comprometer as informações curiosas que o livro traz. Não tenho muito apreço pelo catolicismo mesmo. Quem diabo se importa com o Vaticano? Eu não me importo.  

domingo, 10 de janeiro de 2016

A Teoria da Evolução: Uma Conspiração Antibíblica


Não me canso de assistir documentários referentes a essa longa disputa e controvérsia. Lembrando que para os evolucionistas, não existe controvérsia alguma sobre o “fato da evolução”. Ela é algo bem consolidado nos departamentos de Ciências. O alarde, segundo eles, vem dos criacionistas inimigos de Darwin e da Teoria da Evolução.

No vídeo em questão, tive uma curiosa surpresa: o conhecido Filósofo e Teólogo Norman Geisler, a quem muito admiro, é o apresentador.

Uma produção antiga, de 1988, que tenta desmascarar/refutar/desentronizar a evolução biológica do seu lugar de proeminência nos atuais e principais centros de ensino dos EUA.

Numa miscelânea de argumentos propostos, são entrevistados alguns Cientistas da criação, pastores e escritores. Tendo como base o livro A Conspiração da Evolução, a ideia vendida, é que existe uma conspiração antibíblica consciente para eliminar a crença em Deus nas Universidades e escolas, mediante a doutrina de que nós, seres humanos, não somos produtos de uma criação divina, e sim, de processos puramente naturais e irracionais, por meio da seleção natural e mutações. O deus judaico-cristão, de acordo com Geisler e cia, está sendo escorraçado das aulas de ciências, e isso deve ser motivo de muita preocupação para sociedade civil.

Um dos entrevistados lamenta a passividade dos pais, que na sua maioria, são cristãos, mas nada fazem para frear a disseminação anticristã que vem ocorrendo nas últimas décadas nas salas de aula.  
 
As várias fraudes que “mancham” a evolução, são evidenciadas, na tentativa de enfraquecer o víeis científico da mesma. O Homem de Pitdow, o Homem de Java, entre outros, são os batidos exemplos citados.

Outro argumento lançado é a afirmação de que não vemos a evolução em ação. Ou seja, uma espécie transformando-se em outra. O máximo que podemos ver é a resistência que muitos organismos possuem a determinados venenos, mas isso não seria evolução, no sentido de uma espécie transforma-se noutra, visto que o organismo apenas adquiriu a capacidade de sobreviver aquele veneno, e nada mais.

Para contrapor os Cientistas que na sua maioria esmagadora são evolucionistas, o vídeo trás essa fala do Lane P. Lester, Ph.D em Genética na Universidade de Purdue:

“Eu acabei percebendo, finalmente, após estudar a todo esse material, e pensar muito a respeito, que a evidência científica para a criação é bem mais forte que a evidência científica para a evolução.”

Os acadêmicos darwinistas também são entrevistados. Eles são unânimes em dizer que o criacionismo carece de cientificidade; que é inverídica a declaração de que não existem os fósseis transicionais; que a evolução é um fato estabelecido, etc.

Numa estratégia que pode enganar a muitos, o documentário fez sob medida a “refutação” de muitas afirmações dos evolucionistas. O esquema foi o seguinte: quando o darwinista fazia alguma declaração, logo em seguida, o vídeo colocava um criacionista o contestando. Porém, ao darwinista não foi dada a chance de ouvir a explicação criacionista e, assim, contestá-la. Aos desavisados, fica a impressão de que a ideia de Darwin e cia, foi devidamente refutada. Pode até ser. Não sou evolucionista, e, portanto, não estou compromissado em defender Darwin. Ele nem precisa. Mas julgo que a maneira como foi organizado o vídeo, não é a forma mais honesta e justa de lidar com a confrontação de ideias.

Também no âmbito jurídico, os criacionistas disparam seus gatilhos contra o darwinismo, alegando que apenas o ensino do evolucionismo nas escolas é inconstitucional. A evolução deve ser ensinada ao lado da criação. As escolas devem prezar pela diversidade de visões, e não priorizar a religião da evolução e do naturalismo, como tem feito. Baseando-se em algumas pesquisas, uma parcela gigante da população norte-americana quer a ministração da Ciência da Criação nas escolas.

Como já disse, não sou evolucionista, mas tampouco sou criacionista, nos termos em que ele é defendido por esses crentes fundamentalistas do filme. Particularmente, não acredito que esses crentes estejam preocupados em ensinar prioritariamente a verdade que a Ciência pode revelar. Eles querem que a sua visão religiosa seja imposta as todas as crianças. Eles não cansam; não fatigam; não esmorecem; não desanimam e não desistem. Proselitismo pesado eles querem fazer nas escolas.

Ensinar à dita “Ciência da Criação” é apenas uma ponte para enfiar goela abaixo os dogmas do protestantismo conservador. Eles não querem que sejam ensinadas nas instituições de ensino outras formas de criacionismo que não seja o bíblico. Acusam os evolucionistas de desprezarem a diversidade, mas eles mesmos a desprezam. A própria natureza de sua religião e visão de mundo, lhes obriga a isso.

Querem mais espaço para divulgar suas crenças?! As crianças não têm a opção de escolherem (criação ou evolução)?! E as suas igrejas, com seus cultos e reuniões semanais, já não é um centro difusor de seus dogmas absolutos?! Ainda querem as Universidades e escolas?!

Não, não. Prefiro não me alinhar a esse tipo de política religiosa e proselitista. Eles querem uma liberdade e democracia que nem eles aceitam em suas igrejas. Acusam a evolução de fraudes e mentiras, mas se esquecem de mencionar a longa lista de fraudes que o criacionismo tem no seu histórico. Fora as fraudes escondidas de suas denominações.

Sei que o evolucionismo carece de bases epistêmicas fundamentais. Mas não será aderindo uma espécie bizarra de “ciência” tendo como base um livro religioso, que não pode na visão deles ser questionado em hipótese alguma.

Lembrando que tenho simpatia, com algumas ressalvas, pelo moderno movimento do Design Inteligente. Mesmo que saiba que as velhas motivações fundamentalistas, talvez até da maioria de seus membros, seja a mola propulsora de sua militância. Contraditório de minha parte? Muitos dirão que sim. Mas quem diabo se importa?! 

sábado, 2 de janeiro de 2016

O que é Historia?


Pelo que lembro esse foi o primeiro livro lido no curso de História que li. Um singelo e agradável livro de introdução à disciplina, que vem passando de geração em geração dando os primeiros lampejos do que é a ciência histórica aos inúmeros discentes que optam em conhecer com um pouco mais de profundidade o passado humano. 

A Vavy Pacheco Borges é Doutora em Ciências Sociais pela PUC/SP, com Mestrado e Bacharelado em História pela mesma Universidade. É Professora do Departamento de História da UNICAMP.

Ela faz uma dicotomia interessante sobre o que é história:

“Os dois sentidos da palavra [história] estão, pois, estreitamente ligados: os acontecimentos históricos (a história acontecimento) são o objeto de análise do conhecimento histórico (história conhecimento)”. 

“A história seria aquilo que aconteceu [...] e o estudo desses acontecimentos”. Pág. 48.

Julgo ser uma simplificação muito útil. 

Depois ela escreve:

“Infelizmente, é preciso desiludir-se de inicio: escrever história não é estabelecer certezas, mas é reduzir o campo das incertezas, é estabelecer um feixe de probabilidades. Não é dizer tudo sobre uma determinada realidade, determinado objeto do passo, mas explicar o que nesses é fundamental. Nem por isso, se deve cair num total relativismo em que toda e qualquer explicação tenha a mesma importância, o mesmo peso". 

"Para esse tipo de conhecimento histórico, todas as conclusões são provisórias, pois podem ser aprofundadas e revistas por trabalhos posteriores. Um 'saber absoluto', uma 'verdade absoluta' não serve aos estudiosos sérios e dignos do nome; servem aos totalitários, tanto de direita como de esquerda, que, colocando-se, como donos do saber e da verdade, procuram, por meio da explicação histórica, justificar a sua forma de poder”. Pág. 69-70.

Num primeiro momento pensei que isso cheirava a puro pós-modernismo, mas uma leitura mais cuidadosa revela apenas a cautela da autora na interpretação dos eventos historiados. Na ânsia de detectar e refutar qualquer indício de relativismo no curso, julguei que a autora estava defendendo uma visão pós-modernista nesse trecho.

Começar a estudar a ciência histórica tendo como ponto de partida este pequeno livro, é um bom começo. Depois o aprendiz pode ler Apologia da História – Marc Bloch, A História Repensada - Keith Jenkins, A Busca da História – John Tosh, Que é História – E. H. Carr, etc.

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

O Básico da Filosofia


NIGEL, Warbuton. O Básico da Filosofia. Rio de Janeiro: José Olympio, 2008.

O relativismo no campo moral, epistemológico e ontológico é algo bastante disseminado nos cursos de humanas. Sempre existem os mais empolgados professores e alunos que gritam em alto e bom som que não existe mais acadêmicos sérios que rejeitam a visão relativista. Deparei-me inúmeras vezes com esses tipos. 

Sinto muito em dizer que eles estão bem equivocados. O Nigel Warburton (Ph.D em Filosofia no Darwin College da Universidade de Cambridge, Inglaterra. Foi Professor na Universidade de Nottingham, Inglaterra. Atualmente é Professor e Palestrante de Filosofia na Universidade Aberta, Inglaterra) é um dos acadêmicos que discorda dessa visão tosca do relativismo. Fiquei positivamente surpreso quando li o seu livro em 2012. 

Vejamos o que ele fala sobre o relativismo moral:

"Diferentes sociedades têm diferentes costumes e idéias a respeito de certo e errado. Não há um consenso mundial sobre que ações são certas e erradas. Ainda que exista uma considerável coincidência entre as concepções. Se considerarmos o quanto os valores morais mudaram, tanto de lugar para lugar, quanto de época para época, pode ser tentador achar que não há fatos morais absolutos, mas sim que a moralidade é sempre relativa à sociedade em que você foi criado. Por esse ponto de vista, uma vez que a escravidão era moralmente aceitável para a maioria dos gregos antigos, mas não o é para a maioria dos europeus hoje, a escravidão era correta no contexto dos antigos gregos, mas seria errada no contexto atual". 

"Esse ponto de vista, conhecido como relativismo cultural, torna a moralidade simplesmente uma descrição dos valores esposados por uma sociedade particular num momento particular. Essa é uma posição metaética sobre a natureza dos julgamentos morais: só podem ser considerados verdadeiros ou falsos relativamente a uma sociedade particular. Não haveria, portanto, julgamentos morais absolutos: são todos relativos. O relativismo moral contesta frontalmente o ponto de vista que algumas ações são certas ou erradas de modo absoluto, tal como defendido, por exemplo, por muitos que acreditam que a moralidade consiste nas ordens de Deus à humanidade". 

"Os relativistas costumam acrescentar à sua concepção de moralidade a convicção de que como a moralidade é relativa, nunca deveríamos interferir nos costumes de outras sociedades, pois não há um ponto de vista neutro a partir do qual julgar. Esta opinião foi particularmente popular entre antropólogos, talvez por terem testemunhado com frequência a destruição infligida a outras sociedades por uma importação nua e crua de valores ocidentais. Quando o relativismo moral tem o acréscimo deste componente para com outras sociedades, é geralmente conhecido como relativismo normativo".

Críticas ao relativismo moral

Os relativistas são inconsistentes?

"Os relativistas morais às vezes são acusados de inconsistência, uma vez que alegam que todos os julgamentos morais são relativos, mas ao mesmo tempo querem que acreditemos que a teoria do relativismo moral é ela própria absolutamente verdadeira. Isto é um problema sério para um relativista moral que é também um relativista quanto à verdade, isto é, alguém que acredita que não existe verdade absoluta, apenas verdades relativas a sociedades particulares. Esse tipo de relativista não pode defender nenhuma teoria, muito menos declarar que algumas delas é absolutamente verdadeira".

"Relativistas normativos também estão vulneráveis á acusação de inconsistência. Eles acreditam não só que todos os julgamentos morais são relativos à sua sociedade, mas que as sociedades não deveriam interferir umas nas outras. No entanto, essa segunda convicção é com certeza exemplo de um julgamento moral absoluto, incompatível com a premissa básica do relativismo normativo. Esta é a maior crítica ao relativismo normativo".

O que considerar como sociedade?

"Os relativistas morais costumam ser vagos a respeito do que considerar uma sociedade. Por exemplo, na Grã-Bretanha contemporânea há com certeza membros de subculturas que acreditam ser moralmente aceitável usar drogas ilícitas para fins recreativos. Em que ponto um relativista estará preparado para dizer que os membros dessas subculturas formam uma sociedade separada, concluindo que possuem sua própria moralidade, a qual é imune a críticas de outras culturas? Não há resposta óbvia para esta questão".

Impedimentos de críticas morais aos valores de uma sociedade

"Ainda que a crítica anterior pudesse ser refutada, coloca-se uma dificuldade a mais quanto ao relativismo moral. Parece impedir a possibilidade de crítica moral aos valores essenciais de uma sociedade. Se julgamentos morais são definidos em termos de valores capitais daquela sociedade, nenhuma crítica a esses valores pode usar argumentos morais contra eles. Em uma sociedade na qual a idéia predominante é na qual as mulheres não deviam ter direito a votar, qualquer pessoa advogando o sufrágio feminino estaria sugerindo algo relativamente imoral aos valores daquela sociedade". P. 97-100.

Em acréscimo, cito aqui as palavras do Desidério Murcho (Mestrado e Licenciado em Filosofia pela Universidade de Lisboa, Portugal, e Professor da Universidade Federal de Ouro Preto):

“A motivação pós-modernista para abandonar a noção de verdade é a ideia de que esta seria opressora, colonialista e eurocêntrica: em nome da verdade, diz-se, exploraram-se os povos indígenas de África e das Américas, impôs-se a religião europeia e sustentou-se o racismo e o colonialismo. Esta acusação resulta de uma confusão pré-moderna entre a verdade e o que se pensa que é verdade mas é de facto falso. O racismo e o colonialismo baseiam-se em falsidades: que os negros ou os índios são inferiores, que por terem sociedades diferentes das nossas não têm direito à autodeterminação, à integridade territorial e à autonomia económica, política e religiosa. Quando se abandona a noção de verdade não se pode protestar perante as falsidades em que se apoia o racismo ou o colonialismo. Só o respeito pela verdade justifica que não se aceite como absolutas as nossas crenças, costumes e ideologias: porque podemos estar errados.” [1].

A Sociologia e a Antropologia não fornecem as ferramentas necessárias para lidar com os Valores e a Ética. Ambas apenas descrevem e interpretam dada sociedade e realidade; são descritivas e não prescritivas. Mas os Antropólogos/Sociólogos adoram prescrever como nós ocidentais devemos olhar certas práticas de outros povos e nos comportar diante delas. Um comportamento de passividade, alias. Porém, diante do relativismo cultural tão ferozmente defendido por eles, porque deveríamos acatar o “conselho” de “tolerância” deles? 

Referências

domingo, 27 de dezembro de 2015

Deus e a Cosmologia - Debate entre Willian Lane Craig e Sean Carrol


Mais um debate sobre esse tema tão discutido e gerador de emoções, paixões, raivas e ressentimentos de ambos os lados. Telespectadores teístas, ávidos por “provarem” a existência do seu deus; telespectadores naturalistas/ateístas impacientes, querendo o óbito e sepultamento de deus, ocasionados pela ciência.  

Conhecido por participar de vários debates nas últimas décadas, defendendo o teísmo, temos Willian Lane Craig (Ph.D em Filosofia pela Universidade de Birminghan, na Inglaterra, membro de nove Sociedades Acadêmicas, dentre as quais estão a Associação Filosófica Americana, Sociedade Americana de Religião e o Instituto de Filosofia da Universidade de Louvain, na Bélgica). Na contramão, fazendo apologia ao naturalismo como realidade última, temos o Sean Carrol (Ph.D em Astronomia na Universidade de Harvard, Pós-Doutor em Física no Instituto de Tecnologia de Massachusetts, Professor do Departamento de Física do Instituto de Tecnologia da Califórnia (MIT) e membro da Sociedade Americana de Física).

A tônica da fala de Craig é um pouco diferente dos seus debates anteriores (pelo menos os que temos legendados em português), visto que o seu oponente, ao contrário da maioria dos Físicos, defende um Universo eterno. Dessa forma, Craig tenta mostrar em sua fala inicial as evidências de que o Universo passou a existir (teve um começo) há 13,65 bilhões de anos. A 2º Lei da Termodinâmica é umas de suas evidências apresentadas.

Carrol de modo eloquente rejeita todas as proposições do Craig, numa saraivada de argumentos e conhecimentos cosmológicos, ele parece refutar quase todos os pontos frisados pelo seu adversário. E várias vezes enfatiza que o Craig, está equivocado, errado, faz citações de Físicos fora do contexto e etc. A evidência do ajuste fino como sendo um indício de um suposto deus que criou os cosmos, é rejeitada por ele.  Carrol permanece irredutível.

Para mim, e para maioria dos que assistiram a esse debate, ficou uma pontada de frustração. Pelo simples fato de não termos conhecimentos na área de Astronomia, como os dois debatedores têm. Muitos termos e conceitos cosmológicos são usados e frisados, e mesmo que ambos os debatedores os apresentem de modo simplificado, ainda fiquei sem entender uma boa parte do que quiseram dizer. O ideal seria fazer algumas pesquisas adicionais e assistir o debate uma segunda vez, para se ter uma visão mais abalizada e mais “justa” do embate. Mas não farei isso. Rsrsrs. Assim como o teísmo de um, e o naturalismo do outro, ficaram inabaláveis, o meu teísmo/deísmo (oscilo entre um e outro) também está.

Na parte final do debate, o moderador abriu perguntas para a plateia. Uma considerável parte do debate ficou restrita a isso. Foi um momento interessante. E como estava propenso a estar do lado do Craig no debate (continuo estando), faço aqui o recorte de uma pergunta direcionada ao Carrol sobre o problema do livre-arbítrio.

Pergunta:

“Dr. Carrol, você disse em conversas anteriores que dentro das leis da física que observamos hoje não lugar para o livre arbítrio. Eu considero você um pensador crítico e racional. Como você reconcilia o pensamento crítico se ao mesmo tempo, você não tem o livre-arbítrio de escolher entre premissas verdadeiras e falsas, e lógicas, válidas e inválidas, se estas escolhas são feitas [por] você, como que qualquer coisa que qualquer um diga não é inerentemente irracional?”

Resposta do Carrol:

“Eu sei que estou com problemas quando alguém diz ‘eu te considero um pensador racional’, antes de fazer a pergunta. Eu acho que você não tem certeza sobre exatamente o que você leu. Se você ler com cuidado, verá que sou a favor do livre-arbítrio. Eu sou pró-livre-arbítrio. E acho que o livre-arbítrio é um conceito emergente em um universo em que, em um nível fundamental, é completamente mecanístico. Eu acho que existem leis físicas que não envolvem o que chamamos de uma abordagem libertária do livre-arbítrio. 

Eu não acho que os seres humanos super cedam as leis da física. Eu acho que os seres humanos são uma coleção de partículas elementares se interagindo de acordo com as leis da física. E se eu fosse descrever cada partícula do meu corpo e se tivesse uma capacidade computacional do nível do demônio de L’aplace eu seria capa de prever o que faria. 

Mas eu não tenho nada disso! Eu não tenho as informações, o microestado das minhas funções de onda da mecânica quântica. E logo o vocabulário que uso para me descrever é ‘um ser humano fazendo escolhas de acordo com princípios racionais’. E eu acho que é absolutamente legítimo neste padrão dizer: ‘O livre-arbítrio é real’.

O máximo que já escrevi sobre o livre-arbítrio foi um pequeno post em um blog em que eu dizia: ‘O livre-arbítrio é tão real quando o basebol’. O basebol não possui nenhum lugar para ser encontrado nas leis fundamentais da física, ele é uma descrição de coisas em um nível coletivo que acontecem em um nível microscópico. Isso não significa que o basebol não exista, isso só significa que ele não está presente nas leis fundamentais. Eu diria que o livre-arbítrio é assim também. Então eu acho que não há nada de errado usarem a linguagem de ‘pessoas fazendo escolhas’ ou ‘as pessoas estão corretas ou incorretas’.”

Considerações do Craig:

“O que me parece é que na sua visão o livre-arbítrio é no final das contas uma ilusão, por que tudo que fazemos é determinado por tudo que acontece em um nível fundamental. Logo mesmo que eu tenha a ilusão do livre-arbítrio, se eu fosse realmente capaz de entedê-lo eu veria que eu estou determinado a fazer o que eu faço. Incluindo acreditar no determinismo, o que faz a minha escolha de crer no determinismo, me parece, ser irracional, ou não racional deveria dizer. Eu estou simplesmente determinado a crer no determinismo. 

Então eu não acho que seja útil falar do livre-arbítrio como uma realidade emergente, quando em um nível fundamental, você esteja afirmando o determinismo. Então seria apenas no nome e não na realidade. Então neste caso, o cara que fez a pergunta está correto. É muito difícil ver como que qualquer coisa que eu faça seja racional, é como crescer um galho em uma árvore. Tudo já está determinado pelas minhas forças não mentais.”

O rapaz da plateia, como diz o Craig, está correto. Sua pergunta acaba destruindo todo ou quase toda a argumentação que o Carrol tão eloquentemente e inteligentemente expôs durante o debate. Ele tenta ludibriar os incautos. Mas no fundo, ele não crer que o livre-arbítrio de fato exista. Apenas as nossas partículas criaram esse conceito, ou seja, é uma ideia determinada por elas. Dessa maneira, o Carrol crer no crer, porque foi determinado para tal. Ele não teve, não tem, e nunca terá  a escolha de agir ao contrário do que suas partículas irracionais determinam. No final, todas as crenças, incluindo o Teísmo e o Naturalismo são a mesma bosta/merda/cocô/esterco/estrume e o escambal.

Me passando um pensamento “maléfico” e “demoníaco” agora, se alguém desse um tiro no Carrol e o deixasse tetraplégico, o atirador (eu? Não, deus me livre) poderia lhe dizer: “Eu fiz o que fiz, porque sou ‘uma coleção de partículas elementares se interagindo de acordo com as leis da física’. Não poderia agir de outra forma. Pena que eu não te matei.”

Depois esses Cientistas ateus ficam indignados com os religiosos que tentam fazer uma ponte entre Ciência e Teologia. Os religiosos só fazem isso, porque são “uma coleção de partículas elementares se interagindo de acordo com as leis da física”.

Esse questionamento estava fora do escopo do debate, mas serviu para escancarar o contra-senso do ateísmo defendido pelo Carrol.

OBS: A legenda foi às pressas. Durante o debate, pequenas falhas são bem perceptíveis. Mas nada que atrapalhe o andar da carruagem. 

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

É Necessário Queimar Os Hereges


ALMEIDA, Leandro Thomaz. É necessário queimar os hereges. São Paulo: Fonte Editorial, 2014.

Concomitante ao livro Nazismo e Cristianismo, estava também lendo e apreciando essa obra, que traz um tema e um texto inédito sobre os eventos que fizeram parte da Reforma Protestante do século XVI.

Muito se fala e se lê sobre Lutero e Calvino – mas sobre Sébastien Castellion, apenas tinha visto poucas páginas dedicadas a ele em alguns livros biográficos sobre João Calvino.

De acordo com o Leandro Thomaz de Almeida (Ph.D em Letras na Unicamp), seu interesse surgiu em pesquisar essa figura pouco conhecida da Reforma Protestante, quando estava fazendo estudos do seu Doutorado na França, e acabou descobrindo por lá, os documentos referentes a Castellion e sua atuação religiosa e apaziguadora nos anos loucos do século XVI.

Castellion foi um homem a frente de seu tempo que teceu criticas ajuizadas e certeiras contra Calvino e Beza, reformadores de Genebra, que foram coniventes com a morte na fogueira de Michel Servetus, um homem que ousou pensar diferente. E não apenas isso, Castellion, em cartas e livros apelou para a tolerância às ideias divergentes, não impondo sobre seus discordantes a pecha de hereges ou de caluniadores de Deus.

“Lembremo-nos que nessa época, ideias levavam à morte, livros podiam ser passaporte à fogueira e mesmo afirmações que lançassem uma centelha de dúvida sobre o pensamento ortodoxo podia ser sinônimo de degredo perpétuo”. P. 33.

Para muitos protestantes e católicos nada mais nada menos que a morte na fogueira e de quebra, a eternidade no INFERNO DE FOGO sofrendo os suplícios flamejantes ali presentes, estavam reservados para os que divergissem de seus pontos de vista. Questiúnculas bestas (para eles, era da maior importância, menos para Castellion), tais como se o batismo deve ser ministrado às crianças ou não, era suficiente para se criar um real inimigo e, assim, tentar destruí-lo, caso não abandonasse as suas ideias.

Almeida dispara:

“Os dois maiores nomes da Reforma Protestante aboliram a autoridade papal e logo em seguida cuidaram de estabelecer outra: as suas próprias. Lutero perseguiria os anabatistas, Calvino os hereges, assim chamados [...] não necessariamente por não desejarem seguir as Escrituras, mas por não fazê-lo segundo a opinião do mestre [Lutero ou Calvino]. Destronado o papa enquanto figura de autoridade, outras foram erigidas, mas com um agravante: disfarçadas, agora, sob a propaganda do livre acesso à Bíblia, sob um suposto contato direto com a Palavra de Deus”. P. 96.

E hoje continua da mesma forma. Milhares de igrejas evangélicas, se dizendo guardiãs da “sã doutrina”, são campeãs em condenar os outros a fogueira. Muitos líderes, se possível, mandariam para a forca os que lhe contradizem. E tudo isso, usando os supostos textos-provas da bíblia.

Em uma severa e contundente crítica ao fanatismo e fundamentalismo religioso tão presente na Europa do século XVI (os anos turbulentos da Reforma Protestante), Sébastian Castellion, um dos reformadores, traduz corretamente como um suposto herético era muitas vezes identificado:

“Certamente, após ter frequentemente procurado o que é um herético, não encontro outra coisa senão que estimamos heréticos todos aqueles que não concordam conosco em nossa opinião”. P. 113.

Em não raras ocasiões, pessoas eram entregues as masmorras e mortes, por não compactuarem com as ideias religiosas vigentes em dada região. Isso valia tanto para territórios católicos como protestantes.

Sébastien Castellion, em carta endereçada a um príncipe, lhe diz a que pé estava os “seguidores” de Jesus uns em relação aos outros:

“[...] os Católicos, os Luteranos, os Zuinglianos, os Anabatistas, os Monges e outros se condenam e perseguem mais cruelmente uns aos outros, como não se vê nem entre os Turcos em relação aos Cristãos. Tais ruídos e dissensões não vêm de outro lugar, senão da ignorância quanto à verdade. [...] Pois isto é certo, que à medida que alguém conhece melhor a verdade é menos inclinado a condenar os outros”. P. 116.

Ainda em sua carta endereçada a um certo príncipe, Castellion lamenta a triste situação de católicos e protestantes no contexto do século XVI:

“Como, no entanto, combatemos uns contra os outros por ódios e perseguições, vamos cada dia de mal a pior, e não nos lembramos de nosso ofício, mas estamos ocupados em condenar os outros, de tal modo que o Evangelho é hostilizado entre os Gentios por nossa falta. Pois quando eles nos veem correndo uns após os outros furiosamente como bestas, e os mais fracos serem oprimidos pelos mais fortes, eles têm horror ao Evangelho e o destetam, como se ele tivesse ordenado tais coisas, e odeiam a Cristo como se ele tivesse ordenado tais coisas. [...] Pois quem iria querer se tornar Cristão quando vê que aqueles que professam o nome de Cristo são mortos por Cristãos, pelo fogo, pela água, pela espada, sem qualquer misericórdia, e tratados mais cruelmente que malfeitores ou assassinos? Quem não pensaria que Cristo não seria algum Moloque [deus a quem as crianças eram sacrificadas], ou um Deus qualquer, se ele quer que os homens lhe sejam imolados vivos?” P. 116-117.

Livro apaixonadamente recomendado. Serve de alerta aos donos da “verdade”. O título desse livro é uma ironia que traduz fielmente o sentimento de muitos pastores ávidos por controlar suas massas e exercer o terror psicológico sobre elas. 

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Deus não é cristão


TUTU, Desmond. Deus não é cristão. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2012.

Finalmente terminei! Desmond Tutu é um líder da Igreja Anglicana, que lutou ferozmente contra o opressivo e cruel regime do apartheid na África do Sul. Esse livro é uma compilação de inúmeros sermões, cartas e escritos do bispo Tutu desde a década de 1970 até anos recentes. 

Aí está uma autoridade religiosa digna de respeito e consideração. Foi Nobel da Paz em 1984, em reconhecimento pelas suas incansáveis contribuições em favor da paz e fim do sistema de segregação que até então era vigente em seu país.

Ele se pauta pelo equilíbrio, serenidade, humildade e muita paciência. Porque viver num sistema tão injusto quanto foi o apartheid, e ainda manter a calma e a constância que ele manteve é para poucos. 

A minha vontade seria de pegar em armas e cravejar de balas aqueles brancos FDP. Irracional e pouco eficiente isso? É sim! As armas de Tutu, Gandhi, Luther King, Malcolm X (tardiamente) e do exemplo maior do Tutu – Jesus, o Cristo – foi não revidar o mal na mesma moeda.

“A religião, que deveria estimular a irmandade e a fraternidade; e encorajar a tolerância, o respeito, a compaixão, a paz, a reconciliação, o cuidado e a partilha, tem com muita freqüência (perversamente) praticado o oposto. A religião tem alimentado a alienação e o conflito e exacerbado a intolerância, a injustiça e a opressão. Algumas das atrocidades mais medonhas aconteceram e estão acontecendo em nome da religião.” P. 69.

Até parece que foi um ateu ou um antirreligioso que expressou essas palavras tão contundentes. Mas Tutu acerta em cheio em sua critica. A religião não raras vezes tem provocado exatamente isso. Em especial aqui no Brasil, certos seguimentos religiosos têm gerado um fanatismo e escravidão espiritual e psicológica assustadoras. As igrejas evangélicas são um triste exemplo. A pobreza de pensamento e senso crítico de seus membros os fazem vítimas fáceis de pastores inescrupulosos. 

Tutu contundentemente revela a lastimável situação do continente africano, que ainda está envolto nas trevas da pobreza, injustiça, sofrimento e subdesenvolvimento.

“A África tem uma característica nada invejável de produzir a maior quantidade de refugiados do mundo. É claro, muitos refugiados se devem a desastres naturais. Mas, infelizmente, irmãos e irmãs, a maioria deles se deve à injustiça e à opressão presentes na própria terra natal. Precisamos confessar, com tristeza e humildade, que a África detém um dos piores recordes de violação dos direitos humanos. A África sofre com um dilúvio de ditaduras militares.” P.83.

“Em muitos lugares, tudo que mudou para o povo que sofre foi a cor da pele do opressor. No período colonial o opressor tinha uma cor de pele diferente. Hoje, infelizmente, a cor da pele do opressor é a mesma da do oprimido.” P. 83.

Tutu se mostra assustado e inconformado diante do apoio de Israel ao regime de segregação na África do Sul.

“[...] Não conseguimos compreender como os judeus [governo de Israel] conseguem cooperar com um governo [Partido Nacional sul-africano que mantinha a política do apartheid] cuja a maioria dos membros era simpática a Hitler e aos nazistas e que, durante muito tempo, se recusou a aceitar judeus em suas fileiras apenas por serem judeus.” P. 105.

Uma puta sacanagem do governo israelense. Esses FDP sofreram o que sofreram, para apoiar poucas décadas depois um governo cruel e preconceituoso como o governo da África do Sul, que segregava e tratava os negros como sub-humanos, e que não aceitava judeus em seu partido, quando Hitler estava no poder na Alemanha. Tutu falou isso na década de 1980 quando o regime do apartheid ainda vigorava na África do Sul. 

Tutu interpela:

“[...] qual é o tratamento que você dispensa ao pobre, ao faminto? Que tratamento dispensa ao vulnerável, ao que não tem voz?” P. 125.

Esse tipo de pergunta é um murro na boca do estômago!