quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

O Apocalipse Nazista

De Adolf a Hitler: Redescobrindo a Segunda Guerra


Esse extraordinário documentário traz imagens e fotos raras e coloridas da Alemanha durante os anos que antecederam a chegada de Hitler ao poder. As nuanças políticas, econômicas e sociais são trabalhadas para tentar entender o contexto pelo qual a Alemanha estava passando naqueles turbulentos anos após a primeira guerra mundial, que deixou a Alemanha endividada e passando por inúmeros problemas estruturais. 

A ironia que o vídeo revela é a possibilidade de Hitler ter sido um judeu. 

“A grande dúvida é: Hitler teria sangue judeu? Um dos segredos mais bem guardados do regime nazista, é que Hitler não tinha como provar o contrário. Ele não sabia quem era um dos avós. A identidade de seu avô paterno é desconhecida. [...] Segundo a lei nazista, Hitler não corresponderia ao chamado critério de proteção do sangue imposto pelos alemães. Para alguém não ser perseguido, deveria provar que nenhum dos quatro avós era judeu. Hitler não podia comprovar que não era judeu, segundo os termos nazistas”.

O documentário mostra imagens de um discurso de Hitler, em que ele diz:

“O jovem alemão deve ser magro, ter pernas longas, e ser rápido como uma lebre, forte como um touro e resistente como um aço!”

Esse FDP nem correspondia a esses critérios. Ele mesmo quando jovem estaria EXCLUÍDO dessas características que ele impõe aos jovens alemães. Mas é claro, era uma declaração que não tinha validade retroativa, pelo menos para ele. Usando uma expressão que eu aprendi quando criança: 

Esse Hitler era um GALADO mesmo.

O Fuhrer: A Ascensão de Hitler


Me pergunto como os alemães se deixaram ludibriar pelos discursos inflamados do Sr. Adolf. É preciso situar os eventos em seu devido contexto histórico (as condições de ordem econômico-social-ideológicas) para entender o mínimo que seja, o porquê do partido nazista depois de tantas tentativas, como bem mostra o vídeo, ter conseguido dominar praticamente toda uma nação.

Isso me lembra o texto A Segunda Guerra Mundial, do historiador Adhemar Martins Marques, que escreve: “[...] as contradições econômicas, sociais e ideológicas” foram fatores determinantes para os pequenos conflitos entre as duas grandes guerras mundiais P. 167. E fala brevemente sobre a “diplomacia nazista” e suas conquistas territoriais P. 168. 

A situação da Alemanha era de alto desemprego; injustiça social; inflação alta; consciência nacional; nacionalismo extremado, entre outras características. O terreno estava muito fértil para que fosse instalada a ditadura nazista. Hitler era a figura modelo que instilava no povo alemão um senso de segurança e futuro promissor para uma nação tão castigada após a primeira guerra mundial.

De acordo com o historiador Mark Mazower, no texto “A Nova Ordem de Hitler, 1938”, citando a observação do estudioso Luciolli: 

“Ao encerrar-se a década de 1930 muitos europeus estavam dispostos a abandonar a ordem liberal, democrática, criada a partir de 1918 pela Inglaterra, pela França e pelos Estados Unidos, para abraçar um futuro mais autoritário”. P. 147.

Mazower, também escreve:

“Ao encerrar-se a década de 1930, a opinião pública européia não se opunha de modo algum à idéia de uma reconstrução autoritária do continente sob a liderança dos alemães”. P. 147.

Terreno bastante preparado para aceitar a visão de mundo do partido nazista. Não é toa que: “Na Alemanha o clima era de euforia. A Nova Ordem prevalecera contra os ‘protetores de uma era agonizante’. Mais que nunca, os alemães sentiam-se vivendo numa época ‘histórica’”. (MAZOWER). 

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

A História da Segunda Guerra Mundial

Duas Frentes de Batalhas Definidas


Hitler com suas tropas nazistas invade a Polônia em 1939... E assim está iniciada a maior carnificina e idiotice humana no século XX. Para Hitler, não apenas os judeus eram menos que porcos, os poloneses também em sua grande maioria não valiam muita coisa. Os seus soldados espoliaram a Polônia, matando e fazendo milhões de poloneses em prisioneiros de guerra. Separando dos seus pais as criancinhas com traços arianos (olhos azuis, por exemplo) para serem incorporadas ao emergente 3º Reich Alemão. 

O vídeo também menciona a invasão da Polônia pela URSS. Os poloneses, coitados, pensavam que os soldados de Stalin, vinham lhe socorrer. Mas não. Estavam querendo pegar o seu quinhão naquele território. Enquanto isso, britânicos, franceses, suecos, americanos e etc., permaneciam quietos, deixando as coisas acontecerem. 

A Finlândia, num primeiro momento foi atacada pelos soldados da URSS, onde estes perderam sua primeira batalha, não conseguindo penetrar o território finlandês almejado. O que acabou agradando a Inglaterra e Estados Unidos. Porém, poucos meses depois, Stalin manda um contingente muito grande de soldados para atacar a Finlândia. Está, com poucos suprimentos e armamentos, esperando a ajuda dos países aliados, acaba sucumbindo às investidas russas.

Enfim, esse documentário traz a história da Segunda Guerra Mundial em muitos detalhes e episódios curiosos e interessantes que ajudam a clarear um dos eventos mais nefastos e irracionais da história mundial.

Primeiro Derramamento de Sangue


Dando continuidade ao assunto “Segunda Guerra Mundial”, esse documentário atribui ao avanço das tropas nazistas a omissão/passividade/negligência/lentidão e má administração dos governos inglês e francês. Ambos demoraram demais a agir diante dos avanços de Hitler. Uma cautela mal pensada que gerou muitas derrotas.

A Inglaterra representada pelo seu Primeiro Ministro, Neville Chamberlain, relutava ao máximo, ainda traumatizada pela Primeira Guerra (1914-1918), a entrar num conflito sangrento mais uma vez. No entanto, a percepção política e acurada de Winston Churchill alertava dia após dia que o nazismo alemão devia ser combatido. Não deu outra. Num processo de eliminação, Churchill assumiu o posto de Primeiro Ministro, e desse modo, começou a colocar a Inglaterra nos eixos para enfrentar as forças bélicas de Hitler.

A França devido ao seu marasmo e despreparo, acabou caindo nas mãos dos nazistas, logo em 1940. O exercito francês era muito inferior aos nazistas, fora os seus armamentos bem defasados. Enquanto que a Alemanha estava secretamente se modernizando e se militarizando desde o início da década de 1930, para suas conquistas territoriais, a França não acompanhou os avanços militares dos seus vizinhos alemães. Não esperava que em tão pouco tempo se depararia com um exército tão bem preparado pelo país que mais sofreu sanções depois da Primeira Guerra. 

Uma das batalhas mais intrigantes da Segunda Guerra foi a “Batalha de Dunquerque”, uma praia francesa que abrigou mais de 300 mil soldados britânicos, franceses e belgas, que estavam completamente encurralados entre o mar e os soldados sedentos de sangue de Hitler. Milagrosamente o líder nazista impediu o avanço de suas tropas, não sabia ele que a sua atitude salvaria involuntariamente 300 mil soldados inimigos. Quando ele e seus generais se deram conta de que os soldados estavam sendo salvos por inúmeros barcos e navios, já era tarde demais. 

Contudo, o vídeo termina mostrando a entrada triunfal de Hitler e seus comparsas na capital francesa, a cidade de Paris; e com a declaração de guerra de Benito Mussolini, líder da Itália, contra os britânicos e franceses. A Inglaterra estava encurralada... Teria que suportar o poder de fogo dos italianos, alemães e talvez até dos soviéticos. O Primeiro Ministro britânico, Winston Churchill, não se acovardou. Essas foram as suas palavras:

“A batalha da França acabou. A batalha da Grã-Bretanha está prestes a começar”.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Derrida em 90 Minutos


STRATHERN, Paul. Derrida em 90 Minutos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003. (Versão em PDF).

“[...] a ‘filosofia’ de Derrida não é uma filosofia propriamente dita, mas antes um questionamento da filosofia: uma ‘interrogação de sua real possibilidade’. Ele questiona toda a base da filosofia e sua capacidade de operar em seus próprios termos”. P. 8.

Jacques Derrida (Professor de Humanidades na Universidade da Califórnia, EUA), um dos intelectuais mais nonsenses do final do século XX. O final da “filosofia” dele e a de Foucault descambam na mesma fossa. Mas Derrida parece descer um degrau a mais nas tolices que escreveu.  Ele foi um dos Filósofos mais discutidos, aclamados e refutados dos últimos anos. Com uma roupagem tão bonita, erudita e rebuscada, a sua filosofia atraiu muitos alunos nos centros universitários. Mas sua construção teórica não passa de areia e cal; não tem nada de consistente. Apenas enganação.

Derrida pretendeu fazer um terrorismo escritural, hermenêutico e filosófico, jogando para o alto todas as concepções de conhecimento conseguidas até então. Tudo é texto; tudo é interpretação. Cabe a cada um desconstruir (e reconstruir) a sua maneira o que leem, visto que as palavras não são possíveis de transmitir o pensamento de quem as escreveu. Há lacunas; há buracos; há frestas; há lapsos; há espaços; há precariedades de sentido nas palavras escritas. “A própria linguagem que [o escritor] utiliza, inevitavelmente, distorce o que ele pensa e escreve”. P. 11. Todo texto carrega em sua internalidade os elementos da desconstrução. Viva ao relativismo interpretativo. Nada de impor a violência hermenêutica de que a verdade foi descoberta aqui ou ali, pois tal conduta se revela como uma postura autoritária e tirânica, que esgota outras maneiras legítimas de ver o mundo.

Diante disso, a pergunta a se fazer é: como interpretar as palavras de Derrida? Como devemos ler os seus livros e artigos? Poderemos ser acusados de “distorcer” os seus escritos? Devemos levar a sério o que ele diz? Ele se sentiria confortável se disséssemos que ele defende a existência da Verdade Absoluta? Podemos desconstruir o seu texto a maneira que quisermos?

Pós-modernista que era, ele não aceitava a idéia de que a verdade é descoberta e não inventada. Não só a base da Filosofia, mas a do conhecimento científico também foram questionadas e abandonadas por ele.

Para Euclides (300 a.c) e Hursserl (1859-1938), por exemplo, “a própria geometria, de alguma forma, ‘já estava lá’, esperando para ser descoberta, esperando o seu momento histórico”. P. 8. Já para o Filósofo francês, não existe essa conversinha de verdades atemporais a serem encontradas em algum âmbito do conhecimento. Não, não, a Verdade Absoluta (ou apenas a verdade) não existe!

À parte da minha crítica inicial, Derrida (juntamente com outros pós-modernistas) se deu conta de que eliminando Deus (sim, isso mesmo), não tem como pressupormos a verdade de coisa alguma. Os pressupostos iluministas levados até as suas últimas consequências parecem implicar em uma anarquia epistemológica total. Visto que o fundamento do conhecimento foi tirado, ou “está morto”, como diria Nietzsche.

“Não é difícil detectar a presença espectral do divino por trás da alegação dessa “presença” [da verdade absoluta]. Por muitos séculos, Deus havia sido a verdade, garantindo essa verdade absoluta. Porém, sem tal presença — chame-a de divina ou absoluta — não existe verdade e ficamos patinando em um atoleiro de relativismo. Isso se aplica à geometria tanto quanto à filosofia. Na verdade, Derrida afirmaria que essa condição impossibilita até a possibilidade de existência da filosofia. Agora fica claro por que ele não se vê como um filósofo!” P. 9.

Os Cientistas, Filósofos e outros acadêmicos anti-relativistas ateus, teimosamente insistem na existência da verdade, mas qual o fundamento disso? Tem que haver um Pressuposto do qual todos os outros derivam! No caso em questão: Deus! 

Paul Strathern (Professor de Filosofia e Matemática na Universidade de Kingston, Londres) não se furta em mostrar as incongruências do autor biografado. A citação é longa, mas vale a pena ser lida.

“A negação de Derrida da verdade geométrica, até da possibilidade da filosofia, está, em sua própria forma abstrata, sujeita às mesmas críticas. Ao solapar a verdade, ele também logra solapar a verdade daquilo que está dizendo. Como veremos, Derrida admitiria isso de pronto — e consideraria suas implicações, persistentemente, até chegar a conclusões ousadas e radicais. Mas o fato é que essa teoria (seja ou não sabotada por suas próprias contradições) desafia abertamente a prática humana.

Nós exercemos a economia e a meteorologia porque o conhecimento infundado que produzem nos ajuda. Podemos aceitar que não existe algo como a verdade absoluta, uma garantia final para nosso conhecimento; não obstante, apesar de tudo isso, não há dúvida de que os três ângulos internos de um triângulo de superfície plana somam 180 graus. O tamanho de um elétron dentro de um átomo é comparado ao de uma agulha em um estádio de futebol e, ainda assim, descobrimos cálculos precisos para predizer com exatidão seu comportamento. Toda a indústria de computadores baseia-se em tais predições. E aceitamos outras “verdades” científicas menos matemáticas, como a teoria da evolução de Darwin, a estrutura do DNA e assim por diante.

Na verdade, ainda que aceitemos que não existe verdade absoluta, paradoxal e impetuosamente opomo-nos a qualquer tentativa de minar essas verdades “não-absolutas” por outro modo que não a refutação científica (isto é, experimentação, experiência). A verdade pode ser relativa em termos de status absoluto, mas tratá-la como relativa é outra questão. Por um lado, Derrida presumivelmente não negaria a “verdade” de que milhões de judeus morreram no Holocausto.

A civilização ocidental pode ter-se desenvolvido usando uma noção autocontraditória de verdade absoluta, mas sem essa noção autocontraditória ela desaba. A forma com que Derrida lida com isso e com a “impossibilidade” da filosofia é vital para qualquer consolidação de sua estatura como pensador.” P. 10.

O autor de 90 Minutos, percebendo mais uma vez a contradição inerente ao sistema do escritor francês, escreve:

“De acordo com Derrida, nosso conhecimento do mundo, baseado em identidade, lógica e verdade, origina-se de uma aporia. É o resultado de uma contradição interna. Mais uma vez, torna-se bastante fácil assinalar a autocontradição de Derrida neste ponto. Se a presença de uma contradição invalida nosso conhecimento lógico, então, certamente, o uso da lógica no argumento de Derrida é igualmente danoso.” P. 13.

O que é excêntrico e vindo com um traje intelectual (aparentemente) sofisticado, sempre terá os seus fãs, seguidores e entusiastas.

“[As Universidades] Johns Hopkins e Yale abraçaram o desconstrucionismo com algum entusiasmo, enquanto outras instituições o rejeitaram com o mesmo sentimento passional. Esse racha na academia norte-americana logo ecoou ao redor do mundo [...] Derrida encontrou seguidores na filosofia e na crítica literária”. P. 16.

Sabiamente e sobriamente muitos rejeitaram:

“Não é de surpreender que os filósofos norte-americanos não tenham ficado muito impressionados com esse pensamento de Derrida. [...] Os cientistas, simplesmente, tinham-no como um contra-senso sem importância”. P. 16.

Mesmo tendo parcos conhecimentos na área filosófica, fico com o bom senso, e, portanto, fico com os últimos. Já o Filósofo Rafael Haddock Lobo (Professor de Filosofia da UFRJ) discorda: “Derrida certamente é um dos autores mais brilhantes da História da Filosofia”. [1]

domingo, 11 de dezembro de 2016

Minha Breve História


HAWKING, Stephen. Minha Breve História. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2013. (Versão em PDF).

Stephen Hawking o Cientista mais famoso do mundo. Aquele homem preso a uma cadeira de rodas cheia de apetrechos tecnológicos que o ajudam a se comunicar, devido as suas sérias deficiências físico-motoras e impossibilidade de falar qualquer coisa que possamos compreender. Por incrível que pareça, ele se tornou uma das figuras mais icônicas e pitorescas das últimas décadas. Virou um ídolo da cultura pop, exatamente pelas suas limitações tão aparentes não terem limitado o seu gigante e assustador intelecto. Talvez se ele não tivesse adquirido essa doença degenerativa, não teria alcançado o que alcançou em suas abstrações teóricas no mundo da Física/Astronomia! Ou pode ser também, que caso ele não tivesse a Esclerose Lateral Amiotrófica, ele poderia ter ido muito mais além, e brindado o mundo da Ciência, com mais insights fabulosos sobre buracos negros, viagens no tempo, Big Bang e etc (algo que ele nega, e mostrarei o porquê).  


Pois bem, como o título já diz, é uma breve biografia sobre esse ilustre acadêmico da Física. Hawking relata brevemente a história de sua infância, família, vida estudantil, vida acadêmica, sua doença, seus casamentos (sim, ele casou duas vezes), seus filhos (sim, ele teve filhos), descobertas científicas, seus livros...


“Minha deficiência não foi um obstáculo sério no meu trabalho científico. Inclusive, acho que de certa forma foi uma vantagem: não tive de dar palestras ou aulas a estudantes de graduação, nem precisei participar de tediosos comitês que consomem muito tempo. Dessa forma, pude me dedicar por completo à pesquisa.” P. 87

Pensando por esse lado, ele tem toda a razão. Para muitos Professores universitários é um saco, um tédio, uma bosta, na verdade, ter que dar aulas para alunos de graduação. Ter que se dá ao trabalho de corrigir provas, organizar seminários de temas triviais, explicar e (re)explicar assuntos que eles nem tem mais paciência, passar por procedimentos burocráticos e se estressar com alunos metidos, ao invés de estar em campo, fazendo pesquisas relevantes, descobrindo as nuances da natureza, é com certeza uma tortura, ao qual muitos têm que se submeter.


“Para os meus colegas de trabalho, sou apenas mais um físico, mas para o público em geral, me tornei possivelmente o cientista mais famoso do mundo. Isso se deve em parte ao fato de que, com a exceção de Einstein, cientistas não são astros de rock conhecidos por todos, e em parte porque me encaixo no estereótipo do gênio deficiente. Não posso me disfarçar com uma peruca e óculos escuros — a cadeira de rodas me denuncia.” P. 87.

Mesmo sendo inegavelmente reconhecido e aplaudido pelos seus pares e estudiosos de outras áreas, Hawking não está isento de críticas. Fez declarações nos últimos anos em sua área, que foram amplamente rejeitadas pelos Físicos. Assim como fez declarações em livro recente, afirmando que a Filosofia está morta, daí nem preciso dizer, que houve uma enxurrada de críticas.


“Ser famoso e facilmente reconhecível tem seus prós e contras. Os contras são o fato de que pode ser difícil fazer coisas comuns, como ir às compras sem ser importunado por pessoas querendo tirar fotos, e de que no passado a imprensa se interessou de maneira pouco saudável pela minha vida pessoal. Mas os contras são mais do que compensados pelos prós. As pessoas parecem genuinamente felizes em me ver”. P. 87.


Agora uma das afirmações mais curiosas vem a seguir:

“Tive e tenho uma vida completa e prazerosa. Acredito que pessoas com deficiências devem se concentrar nas coisas que a desvantagem não as impede de fazer, e não lamentar as que são incapazes de realizar. No meu caso, consegui fazer quase tudo o que queria. Viajei bastante. Visitei a União Soviética sete vezes. Da primeira vez, fui com um grêmio estudantil em que um dos membros, um batista, queria distribuir Bíblias em russo e nos pediu para entrar com elas clandestinamente. Conseguimos fazer isso sem sermos pegos, mas, quando chegou a hora de irmos embora, as autoridades já tinham nos descoberto e nos detiveram por um tempo. Porém, nos acusar de contrabandear Bíblias teria causado um incidente internacional, além de publicidade desfavorável, de forma que nos liberaram após algumas horas.” P. 88.

Aposto que a maioria não sabia dessa peripécia do Hawking. Ele, ateu, levando Bíblias para URSS! Eu contando, ninguém acredita!

Holocausto Brasileiro


ARBEX, Daniela. Holocausto Brasileiro. São Paulo: Geração, 2013. (Versão em PDF).

Esse é sem dúvida o livro mais triste e chocante que já li!

A premiada Jornalista Daniela Arbex traz nesse livro as atrocidades de um hospício, que duraram praticamente todo o século XX. O manicômio de Barbacena, em Minas Gerais. Holocausto Brasileiro foi escolhido, conforme consta no site da autora, como o Melhor Livro-Reportagem do Ano pela Associação Paulista de Críticos de Arte (2013).

A sensibilidade de qualquer pessoa normal é abalada a cada página. É simplesmente inacreditável o que se passou durante décadas nesse “hospital” psiquiátrico, juntamente com o descaso do governo estadual mineiro (federal também), que fez vistas grossas às torturas e assassinatos diários, ocorridos ali.  

Arbex disponibiliza várias fotos antigas ao longo do livro. Farei o mesmo neste resumo. 

Marlene foi uma funcionária do hospício de Barbacena. No seu primeiro dia de emprego no dito hospital, ela não sabia o que a esperava: o inferno. 

“Marlene foi surpreendida pelo odor fétido, vindo do interior do prédio. Nem tinha se refeito de tamanho mal-estar, quando avistou montes de capim espalhados pelo chão. Junto ao mato havia seres humanos esquálidos. Duzentos e oitenta homens, a maioria nu, rastejavam pelo assoalho branco com tozetos pretos em meio à imundície do esgoto aberto que cruzava todo o pavilhão. Marlene sentiu vontade de vomitar. Não encontrava sentido em tudo aquilo, queria gritar, mas a voz desapareceu da garganta”.

“Guiada por um funcionário, viu-se obrigada a entrar. Tentou evitar pisar naqueles seres desfigurados, mas eram tantos, que não havia como desviar. Só teve tempo de pensar que o mundo havia acabado, e não tinha sido avisada. Ainda com os pensamentos descoordenados, avistou num canto da ala um cadáver misturado entre os vivos. Observou quando dois homens de jaleco branco embrulharam o morto num lençol, o décimo sexto naquele dia, embora muitos outros agonizassem. Na tentativa de se aquecerem durante a noite, os pacientes dormiam empilhados, sendo comum que os debaixo fossem encontrados mortos, como naquele dia.” P. 19.


O manicômio Colônia abriu suas portas em 1903, com o apoio da igreja católica. Ainda nos relatos empíricos da Marlene, era comum ela limpar fezes humanas e fezes de ratos nas alas do hospital. Ambos conviviam nos mesmos corredores e espaços. Na verdade os ratos estavam em melhor situação que os pacientes. 


É de se imaginar que o perfil dos internos de um hospital psiquiátrico seja de pessoas incapacitadas de pensar normalmente e, que tragam em seu histórico, acessos de loucuras e delírios, criem um mundo imaginário e etc. Mas não era essa a realidade do campo de concentração de Barbacena.

“Assim como ela, a estimativa é que 70% dos atendidos não sofressem de doença mental. Apenas eram diferentes ou ameaçavam a ordem pública. Por isso, o Colônia tornou–se destino de desafetos, homossexuais, militantes políticos, mães solteiras, alcoolistas, mendigos, negros, pobres, pessoas sem documentos e todos os tipos de indesejados, inclusive os chamados insanos. A teoria eugenista, que sustentava a ideia de limpeza social, fortalecia o hospital e justificava seus abusos. Livrar a sociedade da escória, desfazendo-se dela, de preferência em local que a vista não pudesse alcançar.” P. 21.


Não havia rigor algum na internação de novas pessoas. Apenas interesses escusos de médicos e familiares. Estes, ávidos em se livrar de seus parentes que tinham saído da linha; que tinham quebrado de alguma forma os protocolos sociais. 

“Desde o início do século XX, a falta de critério médico para as internações era rotina no lugar onde se padronizava tudo, inclusive os diagnósticos. Maria de Jesus, brasileira de apenas vinte e três anos, teve o Colônia como destino, em 1911, porque apresentava tristeza como sintoma”. P. 21.


A sociedade machista, hipócrita e nojenta da época, sabia direitinho como calar seus desafetos, que muitas vezes eram mandados para o Colônia, para não atrapalharem a vida dos homens e mulheres de “bem”. 

“Muitas ignoradas eram filhas de fazendeiros as quais haviam perdido a virgindade ou adotavam comportamento considerado inadequado para um Brasil, à época, dominado por coronéis e latifundiários. Esposas trocadas por amantes acabavam silenciadas pela internação no Colônia. Havia também prostitutas, a maioria vinda de São João del-Rei, enviadas para o pavilhão feminino Arthur Bernardes após cortarem com gilete os homens com quem haviam se deitado, mas que se recusavam a pagar pelo programa”. P25-26.

“Várias requisições de internação eram assinadas por delegados. Antes da construção do Colônia, muitos dos chamados loucos em Minas tinham como destino as cadeias públicas ou as Santas Casas de Misericórdia, onde eram mantidos em anexos. Como a psiquiatria se constituiu no Brasil somente no início do século XIX, a assistência aos alienados ainda era algo incipiente no país, que teve o seu primeiro hospício, o Pedro II, instituído por decreto em 1841. Por isso, apesar de ser um hospital, o Colônia era carente de médicos. Até o final da década de 50, psiquiatras e clínicos ainda eram uma raridade por lá.” P. 26.

Um dos Médicos que trabalhou no Colônia, Ronaldo Simões Coelho, relata:

“A coisa era muito pior do que parece. Havia um total desinteresse pela sorte. Basta dizer que os eletrochoques eram dados indiscriminadamente. Às vezes, a energia elétrica da cidade não era suficiente para aguentar a carga. Muitos morriam, outros sofriam fraturas graves.” P. 31.


Cerca de 60 mil pessoas morreram no Colônia. A maior parte delas foram trazidas a força nos vagões de trem. Seus poucos pertences foram confiscados, suas roupas rasgadas e suas cabeças raspadas. Por tais características é que o título do livro da Arbex é tão apropriado. 


Eliana Brum, no prefácio, resume tudo extraordinariamente bem:

“Cerca de 70% não tinham diagnóstico de doença mental. Eram epiléticos, alcoolistas, homossexuais, prostitutas, gente que se rebelava, gente que se tornara incômoda para alguém com mais poder. Eram meninas grávidas, violentadas por seus patrões, eram esposas confinadas para que o marido pudesse morar com a amante, eram filhas de fazendeiros as quais perderam a virgindade antes do casamento. Eram homens e mulheres que haviam extraviado seus documentos. Alguns eram apenas tímidos. Pelo menos trinta e três eram crianças.” P. 12.


“Homens, mulheres e crianças, às vezes, comiam ratos, bebiam esgoto ou urina, dormiam sobre capim, eram espancados e violados. Nas noites geladas da serra da Mantiqueira, eram atirados ao relento, nus ou cobertos apenas por trapos. Instintivamente faziam um círculo compacto, alternando os que ficavam no lado de fora e no de dentro, na tentativa de sobreviver. Alguns não alcançavam as manhãs.” P. 13.


“Os pacientes do Colônia morriam de frio, de fome, de doença. Morriam também de choque. Em alguns dias, os eletrochoques eram tantos e tão fortes, que a sobrecarga derrubava a rede do município. Nos períodos de maior lotação, dezesseis pessoas morriam a cada dia. Morriam de tudo — e também de invisibilidade. Ao morrer, davam lucro. Entre 1969 e 1980, 1.853 corpos de pacientes do manicômio foram vendidos para dezessete faculdades de medicina do país, sem que ninguém questionasse. Quando houve excesso de cadáveres e o mercado encolheu, os corpos foram decompostos em ácido, no pátio do Colônia, na frente dos pacientes, para que as ossadas pudessem ser comercializadas. Nada se perdia, exceto a vida.” P. 13. 


“Pelo menos trinta bebês foram roubados de suas mães. As pacientes conseguiam proteger sua gravidez passando fezes sobre a barriga para não serem tocadas. Mas, logo depois do parto, os bebês eram tirados de seus braços e doados”. P. 14.


Ainda existem hospitais no Brasil em situações tão grotescas como o Colônia? Arbex responde:

“Em 2004, uma inspeção nacional realizada nos hospitais psiquiátricos brasileiros pela Comissão Nacional de Direitos Humanos do Conselho Federal de Psicologia e do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil encontrou condições subumanas em vinte e oito unidades. Considerada uma das maiores vistorias feitas no país, o trabalho alcançou dezesseis estados e revelou que, de norte a sul do país, ainda prevalecem métodos que reproduzem a exclusão, apesar dos avanços conquistados com a aprovação de leis em favor da humanização das instituições de atenção à saúde mental e da consolidação de instrumentos legais comprometidos com os direitos civis dos pacientes psiquiátricos. Nessas unidades foram encontrados celas fortes, instrumentos de contenção e muitos, muitos cadeados, além de registros de mortes por suicídio, afogamento, agressão ou a constatação de que, para muitos óbitos, simplesmente, não houve interesse em definir as causas”. P. 229.

PS: fiz também um resumo de um micro documentário sobre o livro:

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Foucault em 90 Minutos


STRATHERN, Paul. Foucault em 90 Minutos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003. (Versão em PDF).

“Cada sociedade possui o seu regime de verdade, sua ‘política geral’ de verdade: ou seja, os tipos de discurso que aceita e faz funcionar como verdade.” – Michel Foucault

Esse cara ainda é muito importante nos cursos de História, Sociologia. Tive um Professor tão louco por Foucault, que se possível, ele comeria a merda do Filósofo francês! Foucault é idolatrado pelos miguxinhos da área de humanas; é uma espécie de libertador e guru. Se for na área da sexualidade, ele se torna um semi-deus, messias.

Paul Strathern (Professor de Filosofia e Matemática na Universidade de Kingston, Londres) traz uma pequena biografia do pensador francês. Além de suas idéias no campo intelectual, não é raro, quando se fala em Foucault, falarmos de sua homossexualidade. É assim que começamos as citações do presente livro.

[...] fora pouco a pouco tomando consciência de que era homossexual. Isso não apenas era ilegal naquela época, como, em Poitiers, impensável”. P. 09.

Numa sociedade preconceituosa, não foi fácil para ele, lidar com sua condição sexual. Com ele aconteceu, o que ocorre aos milhares de jovens homossexuais:

“Os primeiros anos de Michel Foucault na ENS [École Normale Supérieure] assistiriam a uma série recorrente de incidentes. Numa ocasião, feriu seu peito com uma navalha; em outra, teve de ser contido quando perseguia um estudante com um punhal; e ainda em outra, quase conseguiu cometer suicídio ao tomar uma overdose de comprimidos. Bebia muito e, de vez em quando, experimentava drogas (coisa que só uma pequena minoria possuía naqueles longínquos dias). Em certas ocasiões, desaparecia noites a fio, entrando em colapso depois, pálido e com olheiras profundas, voltando deprimido ao seu dormitório. Poucos adivinharam a verdade. Sofria com o que havia ocorrido em suas solitárias expedições sexuais.” P. 09

Até em um hospital psiquiátrico foi internado durante um tempo:

“Foucault era incapaz de conviver consigo mesmo, e nenhum dos estudantes no seu dormitório queria conviver com ele. Viam-no como louco perigoso, qualidades que só faziam ser exacerbadas com seu inquestionável brilhantismo. Ardorosamente agressivo na argumentação intelectual, era bem capaz de recorrer à violência. Seus colegas evitavam sua companhia e ele começou a desenvolver doenças psicossomáticas. Longos turnos numa cama solitária no sanatório o poupavam da existência comunitária do dormitório, e ali lia voluptuosamente, até para padrões da ENS [École Normale Supérieure].” P. 09-10.

E qual a contribuição dele para os estudos historiográficos? Ela pode ser resumida neste enunciado:

A história não estava registrando a verdade do passado, mas revelando a verdade do presente. Assim era a orientação do pensamento de Foucault.” P. 10.

Para ele, não existe verdades históricas. O historiador está desprovido de objetividade, quando vai chafurdar os antigos documentos existentes. Há interesses de poder em jogo na interpretação dos fatos.

Com o tempo, e racionalizando a sua sexualidade, ele passou a aceitá-la:

“O jovem estava se tornando maduro numa velocidade excepcional, tanto acadêmica como pessoalmente. Sua crescente segurança intelectual casava bem com seu autoconhecimento emocional. Aprendia a aceitar a própria homossexualidade, e a violência de sua personalidade era acalmada por ocasionais práticas sadomasoquistas.” P. 11.

Na ebulição das questões políticas, Foucault filiou-se ao Partido Comunista Francês.

“Tendo se acertado com a própria sexualidade e aceitado a posição central que esta ocupava em sua vida, ficou decepcionado ao ver a homossexualidade ser desprezada pelo partido como mera ‘decadência burguesa’.” P. 12.

Espertinho, passou a ensinar “putaria” as suas ingênuas alunas:

“Foucault dava conferências sobre literatura francesa para turmas com estudantes majoritariamente do sexo feminino. De maneira característica, escolheu um aspecto bastante restrito do assunto, intitulando o seu curso de ‘A concepção do amor na literatura francesa, do Marquês de Sade a Jean Genet’. É difícil imaginar qual foi a impressão daquela plateia de saudáveis garotas suecas de 18 anos sobre essa combinação de sadismo, sodomia e degeneração devassa”. P. 14.

O teórico francês escreveu uma volumosa obra, chamada A História da Loucura. O que os Psiquiatras chamam de “loucura”, assim como os Historiadores quando historiam os eventos passados, não é nada menos que classificações e enunciações contingentes, arbitrárias, ligadas ao poder. O “louco” não é um louco de verdade. Ele apenas tem um saber diferente.

“A postura frente à loucura era, na verdade, uma questão de percepção e prática sociais”. P. 15.

Simplificando o relativismo dele:

"Se nosso modo de pensar era sempre determinado por uma episteme (ou paradigma), tudo indicava que nunca poderíamos chegar à ‘verdade’. Assim, se todas as epistemes eram contingentes, como poderíamos provar que uma episteme era melhor que a outra? Não poderíamos. Logo, toda verdade era relativa; só dependia de como as coisas eram vistas. [...] A questão é que uma episteme (ou paradigma) se mostrará mais útil (ou, teoricamente, mais fecunda) do que a outra. Ela proporcionará uma aproximação maior da imagem perfeita e inatingível (em outras palavras, da ‘verdade absoluta’) daquilo que realmente acontece. Algo inegavelmente acontece, mas nosso aparato perceptivo nos capacita a experienciar somente certos efeitos desses acontecimentos. A crença em nossa habilidade de descobrir a verdade absoluta acarreta a crença de que nosso aparato perceptivo — e sua extensão nos instrumentos científicos — está totalmente adequado à realidade. Nossos olhos registram apenas a luz entre os raios ultravioleta e infravermelho. Como podemos saber se nossos instrumentos científicos, que são apenas uma extensão do nosso campo perceptivo, não são igualmente limitados?” P. 22.

Resta perguntar, se ele nos permite relativizar o que ele diz. Totalmente nonsense.

Voltando a sua sexualidade:

“[...] havia também um lado mais obscuro que poucos, apenas os mais íntimos, dos seus amigos percebiam. Cada vez mais frequentemente, o elegante intelectual em sua gola alta e veludo cotelê se transformaria numa exótica criatura da noite, vestida em couro e fazendo a ronda dos bares sadomasô. Aqueles que o encontravam nesses trajes definem a experiência como sinistra.” P. 27.

Independente de qualquer coisa, Strathern faz uma observação mui verdadeira:

“É fácil condenar a conduta sexual de Foucault. Como pode um filósofo sério se comportar dessa forma? O que teriam dito Platão e Spinoza? No entanto, poucos de nós vivemos como gostaríamos. A vergonha (e/ou a hipocrisia) é uma sutileza aparentemente inevitável da existência social civilizada”. P. 27.

O livro fecha com essa citação:

FOUCAULT: “Não é tão simples assim — alguém fazer o que gosta … e espero morrer de uma overdose… de um prazer de qualquer tipo. Porque eu acho que é realmente difícil e sempre tive a sensação de que não sinto o prazer, o prazer completo total, e, para mim, ele está relacionado com a morte.”

ENTREVISTADOR: “Por que você diz isso?”

FOUCAULT: “Porque penso que o tipo de prazer que considero o prazer real seria tão profundo, tão intenso, tão irresistível que eu não sobreviveria a ele. Morreria.” Prossegue até relatar que um dos momentos mais felizes de sua vida foi ao ser atropelado por um carro (quando estava alucinado por ópio): “Tive a impressão de que estava morrendo e foi, realmente, um prazer muito, muito intenso… Foi, e ainda é, uma de minhas melhores lembranças.” P. 35.