quinta-feira, 4 de maio de 2017

Ciência Proibida


NOGUEIRA, Salvador. Ciência Proibida. São Paulo: Abril, 2015.

Livro fantástico e ao mesmo tempo assustador.

Numa viagem pelo nosso passado científico, essa obra nos traz vários exemplos de experiências que passaram dos limites da ética e da empatia. A Ciência foi e é feita por homens e mulheres que estão sujeitos a todas as paixões, que o resto da humanidade está. Egoísmo, politicagem, ganância, busca por sucesso e dinheiro... Tudo isso, infelizmente, guia muitos acadêmicos e produtores de tecnologias. Começando por Ptolomeu, passando por Colombo, até os dias atuais, muitas foram às fraudes cometidas em nome do conhecimento.

Mas Salvador Nogueira (assessor da Sociedade Brasileira de Física e colunista da Scientific American Brasil) é um apaixonado e entusiasmado divulgador da Ciência, e tem esperanças de que evoluímos em nossas percepções éticas, apesar de tantos erros e crimes cometidos em nome do progresso científico e tecnológico. Há esperanças de que nossos empreendimentos presentes e futuros sejam pautados e escrutinados por uma ética mais rígida que nas décadas pregressas.

"[...] os cientistas, como todos os seres humanos, rotineiramente cometem erros – e que esses erros podem ser cometidos de muitos modos, com ou sem intenção, e podem ter diversas raízes. Há quem minta por prestígio, há fraudes por poder, há a busca por dinheiro e há, pura e simplesmente, a vontade de acreditar. Isso não deve, contudo, fazer você perder a fé na ciência, nem nos cientistas. O fato de que conhecemos todos esses casos de fraude e engano significa que o método científico e o funcionamento básico da dinâmica de pesquisa parecem compor um sistema que, cedo ou tarde, acaba eliminando ideias incorretas. Essa é a boa notícia que não pode ser desprezada. A ciência já traz embutido um mecanismo de correção de erros. Na prática, é um bom motivo para você confiar nos alicerces, mas desconfiar sempre do último tijolo colocado no edifício da ciência. A humanização dos cientistas e a compreensão de que eles erram não diminui o sucesso da ciência". P. 37.

Sem dúvidas a bomba atômica, lançada contra as cidades japonesas, é um dos inventos mais assustadores postos em prática pela humanidade. Felizmente, Hitler, não teve o devido interesse nela. Falando sobre isso, Nogueira revela:

"Por que Hitler (ainda bem) nunca teve sua bomba atômica? Em essência, o consenso entre os historiadores que se debruçaram com mais afinco sobre essa questão é o de que ele só não a teve porque não quis. Como a impressão inicial da guerra era a de que ela terminaria rapidamente, e com vitória alemã, os nazistas decidiram que não valeria a pena priorizar financeiramente o programa nuclear, uma vez que não haveria tempo para ele ser decisivo para o próprio esforço de guerra. Em vez disso, o Reich decidiu investir num outro programa tecnológico bélico – os foguetes V-2 criados por Wernher Von Braun, que depois da guerra se tornaria o arquiteto do programa espacial civil americano. Após avaliar os dois esforços, os nazistas chegaram à conclusão de que os foguetes poderiam ser importantes ainda durante a guerra, e as armas nucleares, não." P. 55.

Lamentavelmente o pesadelo da bomba atômica é um fato que incomoda:

"Até hoje há discussões acaloradas entre historiadores sobre se as bombas atômicas foram necessárias para a rendição e poucos disputam o fato de que, fosse qual fosse o desfecho, foi uma das ações militares mais desumanas já perpetradas pela humanidade, numa guerra que já havia sido a mais sangrenta de toda a história registrada. Mas não há dúvida de que a invenção da bomba atômica mudou o mundo para sempre. E seguirá nos acompanhando como um fantasma por toda a eternidade – ou até nossa autodestruição". P. 61-62.

Sobre a máfia da indústria farmacêutica, Nogueira tem muito a nos falar:

"A farmacêutica Pfizer estava desenvolvendo um novo antibiótico, chamado Trovan (trovafloxacin), que já havia se mostrado promissor contra uma gama ampla de infecções e que podia ser ministrado por via oral, em vez de injeção. Quando uma epidemia de meningite apareceu na Nigéria, uma equipe da companhia viu a oportunidade ideal para a realização de um teste de campo. Duzentas crianças doentes foram recrutadas, e metade recebeu Trovan, enquanto a outra metade recebeu Ceftriaxone, uma droga já estabelecida no tratamento de meningite. Ao final do teste, muitas crianças ficaram com sequelas deixadas pela doença, e 11 delas morreram – cinco que haviam tomado Trovan e seis que tomaram Ceftriaxone. Ponto para o novo medicamento, certo? Não exatamente. 

Primeiro que houve uma violação ética – nem os pais, nem as crianças foram informadas de que um experimento estava em andamento.Todos imaginavam que se tratasse apenas de ajuda humanitária. Segundo que, em nome do estudo, crianças cuja saúde estava se deteriorando a olhos vistos não tiveram a medicação trocada. E o pior: as crianças do grupo controle, que receberam Ceftriaxone, tomaram a droga em doses menores do que as adequadas – presumivelmente para garantir o melhor resultado do Trovan.

O caso terminou na Justiça e, num acordo para encerrar o processo, a Pfizer pagou US$ 75 milhões. Mas que ciência é essa? Trata-se de um caso claro de fraude (além de desumanidade), em que o experimento é manipulado para produzir o resultado desejado – e vidas são perdidas por isso. Mas, ainda que não fosse, ele teria grande chance de produzir resultados não confiáveis. E esse é outro grande segredo da indústria farmacêutica – ela explora o fato de que testes clínicos podem essencialmente provar qualquer coisa que se queira." P. 102-103.

Muitas pesquisas divulgadas, na verdade, são tendenciosas e muito fora do padrão de qualidade exigidos. Porém, os pesquisadores, em não raras ocasiões são comprados e, assim, empreendem estudos e resultados previamente estabelecidos para confirmar o que eles quiserem.

"[...] os cientistas são humanos e precisam fazer descobertas significativas para manter o financiamento às suas linhas de pesquisa. Aí começa a surgir um viés. O pesquisador, ainda que se esforce para eliminar qualquer postura tendenciosa e produzir resultados de qualidade, acaba sutilmente desenvolvendo o experimento de forma a confirmar sua tese. Isso quando não redige seus resultados da forma mais espalhafatosa possível, a fim de produzir mais impacto.” P. 105.

Sobre a máfia das pesquisas biomédicas. Estas são as piores. Gasta-se muita grana nelas, para resultados pouco promissores.

“Eis que a ciência não é aquele joguinho da verdade que todos gostaríamos que fosse. É apenas uma forma humana de produção de conhecimento, com seu próprio conjunto de regras e, com elas, suas próprias mazelas. É fato que, no fim das contas, a verdade acaba prevalecendo, e os avanços passam a ser inegáveis. Atualmente, sabemos mais sobre tudo do que sabíamos alguns anos, para não dizer décadas e séculos, atrás. Mas, quando os cientistas estão apenas no meio do caminho para confirmar ou refutar uma hipótese, o processo é muito mais tortuoso e perigoso do que eles mesmos gostariam de admitir.

[...]

Um levantamento publicado na PLoS Biology em junho de 2015 e liderado por Leonard P. Freedman, do Instituto Global de Padrões Biológicos, em Washington, indica o possível tamanho do problema para pesquisas biomédicas: aproximadamente 50% dos resultados pré-clínicos (ou seja, feitos somente em laboratório e com animais) obtidos nos Estados Unidos não conseguem ser reproduzidos por outros pesquisadores, o que equivale a um investimento anual de US$ 28 bilhões em pesquisas que provavelmente geraram conclusões falsas. É um caminhão de dinheiro.” P. 106.

Em conversa com uma cliente, mulher de um cirurgião, ela garantiu que não mais existe a infame prática de Médicos receitarem certos remédios, de determinadas marcas, aos seu pacientes, para ganharem benesses das ditas empresas farmacêuticas. Resignação de minha parte. Não queria dizer que o marido dela é mais um Médico mentiroso. Mas essa prática mercenária ainda permanece entre aqueles que estão a nos "ajudar", quando estamos moribundos. Nogueira, que conhece muitíssimo bem o lado tenebroso da relação de muitos (a maioria?) Médicos com as grandes indústrias de remédios, escreve:

"É importante lembrar que os tentáculos econômicos da indústria farmacêutica hoje se encontram firmemente agarrados a boa parte da comunidade médica e científica. A indústria financia pesquisas, dá amostras grátis de medicamentos, oferece viagens, contrata palestras, paga cursos e trata muitos médicos como virtuais parceiros de negócios. E aceitar agrados da indústria é uma prática em geral disseminada entre os médicos, embora todos digam que isso jamais os influenciaria nas prescrições ou nos tratamentos”. P. 109.

Em confirmação, Adriane Fugh-Berman (Professora de Farmacologia e Fisiologia na Universidade de Georgetown), que não se vendeu a indústria farmacêutica, diz:

“Os médicos invejam os que são pagos pelas companhias farmacêuticas. A relação entre a medicina e a indústria farmacêutica é profunda, complexa e nada saudável. Elas deveriam ser cirurgicamente separadas com regulamentações. Empresas farmacêuticas não deveriam ter permissão para financiar publicações ou seguir com atividades de educação médica.” P. 111.

Mas tenhamos calma, vários benefícios vieram da indústria dos fármacos, apesar de seu lastro de calamidades.

“Na verdade, os casos de medicamentos que entram e saem do mercado deixando uma trilha de desgraças pelo caminho são recorrentes. A ciência é o nosso único caminho viável para navegar com alguma segurança nesse terreno escorregadio, e não vamos aqui fingir que, no geral, a indústria farmacêutica não trouxe incríveis benefícios à sociedade. Trouxe. Estamos melhor com ela do que sem ela. Vivemos mais e melhor que nossos ancestrais e, com certeza, isso tem a ver com melhorias proporcionadas pelo avanço do saber científico e das pesquisas farmacológicas. Isso, contudo, não pode – e não deve – se traduzir num cheque em branco para indústria dos medicamentos. Não se pode acreditar em tudo que tentam nos empurrar, sob a rubrica ‘estudos mostram que’.” P. 115-116.

Várias foram às experiências perpetradas com animais completamente desnecessárias. Atualmente a comunidade científica tem mais consciência de que seus experimentos devem visar o mínimo sofrimento possível a eles, mesmo que em muitos experimentos e pesquisas, isso seja praticamente impossível. Esquizofrenicamente Hitler não via com bons olhos que pesquisas médicas fossem feitas com animais, visto seriam cruéis.

"Acredite se quiser, mas o estado nazista foi um dos maiores defensores dos direitos dos animais. Em abril de 1933, Hitler anunciou: 'No novo Reich, não será mais permitida crueldade animal'. O governo chegou a banir completamente vivissecções, mas em seguida aliviou a lei, pois se cristalizou a noção de que pesquisas bélicas e de defesa poderiam ser atrasadas pela medida. Ainda assim, foram impostas regras estritas para minimizar dor e experimentos desnecessários. Poucos anos depois, esses mesmos caras estavam fazendo vivissecções em seres humanos –ou 'sub-humanos', como preferiam dizer. Apenas mais uma amostra da esquizofrenia coletiva selvagem e incompreensível que foi o nazismo." P. 122.

Livro espetacular.

terça-feira, 2 de maio de 2017

Memórias de um Exorcista


AMORTH, Gabriele; TOSATTI, Marco. Memórias de um Exorcista. Edições Asa, 2010.

Exorcizado!

Padre Gabriele Amorth, que para o além partiu em 16 de setembro do ano passado, aos 91 anos, foi um dos poucos padres exorcistas da igreja católica. Ele repetidas vezes reclama que a igreja dá pouca importância a existência do diabo e seus amiguinhos maléficos, os demônios. Mas seu veredicto é absoluto: eles EXISTEM! Causam OPRESSÃO e podem se APOSSAR das pessoas. Sua realidade é palpável e tem destruído a vida de muitos seres humanos. Suas histórias beiram o extraordinário. Mas acredita quem quer. Eu não descarto completamente. Todavia, eu tenha preferência pelas explicações da Psiquiatria e da Parapsicologia. Ainda que, segundo o padre Amorth, muitos Psiquiatras italianos, não podendo dar conta dos problemas estranhos e incomuns de muitos de seus pacientes, acabavam mandando-os para que ele pudesse resolver os seus bizarros comportamentos.

O livro é um diálogo entre Amorth e Tosatti. Este apenas lhe faz as perguntas. Acaba sendo um livro de histórias e mais histórias, que o padre vivenciou. O que torna-o chato e repetitivo, posto que suas milhares de experiências são muito semelhantes.   

Como tinha falado, ele acusa em vários momentos a incredulidade e omissão da igreja, através de seus arcebispos, cardeais, bispos e padres, que são céticos quanto à atuação dos demônios. Eis alguns desses momentos:

"[...] ainda temos muitos padres e muitos bispos que não acreditam no exorcismo. [...] A primeira consequência [disto] é que hoje me escrevem de várias nações lamentando a total ausência de exorcistas. E trata-se de nações de primeiro plano: Alemanha, Áustria, Suíça, Espanha, Portugal, só para referir algumas. Estes países não têm exorcistas. E muitos fiéis escrevem-me porque querem vir a Roma para receberem exorcismos feitos por mim. E isso não é possível, porque estou sobrecarregado de compromissos e de casos que tenho de acompanhar." P. 14, 16-17.

[...] actualmente muitos padres não acreditam nisso e nem muitos bispos… sim, bispos, porque alguns padres depois tornam-se bispos, mas continuam a não acreditar nisso e chegam até a dizer em público: o Inferno não existe, o Demónio não existe… Mas Jesus, no Evangelho, fala disso abundantemente, razão pela qual é caso para se dizer: ou nunca leram o Evangelho, ou simplesmente não acreditam nele!

E perante as numerosas curas operadas por Jesus em relação aos possuídos, dizem que se trata de um termo derivado da linguagem e da cultura da época, que definia como possuídos aqueles que na realidade eram meros doentes. Mas o Evangelho distingue com muita clareza os dois casos, ou seja, quando Jesus cura doentes, e quando os liberta do Demónio. Com grande clareza distingue também o poder de curar, e o poder de expulsar os demónios. E a ordem final é: ide, pregai a minha palavra, expulsai os demónios e curai os doentes." P. 19.

Ele chega a dizer sem rodeios que no próprio Vaticano existem satanistas, com o conhecimento do papa.

"E, infelizmente [as seitas satânicas], estão por todo o lado até mesmo no Vaticano. [...] Sim, também no Vaticano há membros de seitas satânicas. [...] Há padres, monsenhores e até cardeais! [...] Sei através de pessoas que me puderam dar essa informação porque tiveram maneira de o saber directamente. E é uma coisa «confessada» diversas vezes pelo próprio Demónio, sob obediência, durante os exorcismos…

[...] Claro que [o papa] foi informado! Mas [ele] faz aquilo que pode… É uma coisa terrível. Lembre-se também de que Bento XVI é um Papa alemão, vem de uma nação decididamente avessa a acreditar nestas coisas… Na Alemanha, de facto, não há praticamente exorcistas… e, no entanto, o Papa acredita nisso: tive ocasião de falar com ele, por três vezes, quando ainda era prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. Acredita, e de que maneira! E também falou sobre isso explicitamente em público, várias vezes. Recebeu-nos, como Associação dos Exorcistas, e fez até um bonito discurso, encorajando-nos e elogiando o nosso apostolado". P. 72-73.

O diabo e seus comandados agem assim:

Falando agora de opressões [demoníacas], podemos dizer que se manifestam essencialmente através de brincadeiras desagradáveis perpetradas pelo Demónio. Porque o inimigo pode fazer « brincadeiras» realmente pesadas, e faz muitas. E as pessoas que são alvo destas suas atenções particulares sofrem muito e também padecem de muitos transtornos. Nas suas casas há portas e janelas que se abrem e se fecham, electrodomésticos que se ligam e desligam, e todas as instalações eléctricas são bastante afectadas… telefones que tocam e não há ninguém do outro lado do aparelho, televisores que se ligam sem que ninguém lhes toque e depois se apagam… Brincadeirinhas do Demónio! Eu chamo a isto transtornos. E são as formas mais ligeiras de opressão. Mas também as há maiores: há muitas pessoas que têm distúrbios físicos fortíssimos, que nenhum médico consegue diagnosticar, e muito menos curar." P. 36-37.

Lamenta que muitas pessoas hoje estão entregues as práticas espíritas.

"Noutros tempos não se praticava o ocultismo como agora. E eu, sob o nome de ocultismo, incluo a magia, as sessões espíritas, as seitas satânicas... incluo tudo isso. A situação era diferente quando se ia à igreja, quando se rezava, quando as famílias eram unidas… Está a ver o que é agora a sociedade? Os jovens vivem juntos, não querem saber nem do casamento civil... veja os homossexuais, que pedem o reconhecimento do casamento entre eles, e até pedem para poder adoptar crianças! Chegámos a alguns absurdos que, quando eu era pequeno, eram completamente impensáveis! Tudo isto —magia, ocultismo, espiritismo — contribui para abrir as portas. E, uma vez abertas as portas, o Demónio tem o caminho livre". P. 54.

Baseando-se também no depoimento de uma ex-possuída pelo demo, a igreja católica é a única verdadeira. Segundo ela, os demônios lhes fizeram essa confissão. Amorth concorda. O ecumenismo passa longe aí.

"Quando se faz um pacto com Satanás [...] fica-se a saber pelo próprio demónio que a verdadeira religião é apenas a cristã católica, fiel ao Papa, e por isso ela é tão hostilizada. As outras religiões cristãs apenas são toleradas". P. 68. 

Noutro momento, ele se orgulha de que o diabo tem medo dele.

"Eu sempre disse que o Demónio tem medo de mim, e sempre disse: «Quando me vê, não sabe onde se há-de meter. Nunca tive perturbações, nem medo do Demónio. »Mas com outros nem sempre foi assim… Há efectivamente exorcistas que tiveram incómodos, e incómodos fortes. Gostava que lesse um livro, de Renzo Allegri, Crônicas do Inferno. Encontra aqui em Roma um exorcista que ficou feito num farrapo pelo Demónio. Fisicamente. Não conseguia fazer mais nada. O Senhor às vezes permite estas coisas, sempre para daí obter algum bem. Quem sabe o bem que ele conseguiu com os sofrimentos deste exorcista.” P. 110. 

sábado, 29 de abril de 2017

Extraterrestres: onde eles estão e como a ciência vai encontrá-los


NOGUEIRA, Salvador. Extraterrestres: onde eles estão e como a ciência vai encontrá-los. São Paulo: Abril, 2014. (Versão em PDF).

Comecei a ler sobre Ufologia em 2003, quando em contato com um amigo, que era assinante da revista UFO, maior e melhor veículo de divulgação do fenômeno sobre os OVNIs no Brasil. O interesse de meu amigo arrefeceu e, ele acabou me presenteando tempos depois, com todas as suas revistas e um livro sobre esse assunto, que me fascinava e me fascina.

Salvador Nogueira, colunista da revista Scientific American Brasil e assessor de comunicação da Sociedade Brasileira de Física, não é um entusiasta das pesquisas sobre discos voadores e homenzinhos verdes ou cinzas. O seu interesse está focado nas pesquisas empreendidas pela comunidade científica, que tem se esforçado nas últimas décadas em busca de vida além do nosso planeta – seja ela a nível microscópio ou macroscópico. Ele acha bem improvável que relatos de naves interestelares já tenham travado contato com algum ser humano, como dizem os Ufólogos. Tenta explicar as fantasiosas alegações de pessoas que juram terem sido abduzidas ou terem visto discos voadores, apelando para os conceitos do famoso Psicanalista Carl Jung e para a cultura pop que propiciou a nossa sociedade a partir das primeiras décadas do século passado, um movimento cultural voltado para os alienígenas”. P. 232.

Sendo assim:

“Uma mistura poderosa de ciência, permeada de novidades e maravilhas tecnológicas, e ficção, que especulava com base no progresso acelerado, criou a sensação de que era perfeitamente possível que estivéssemos sendo visitados por extraterrestres, ou mesmo que eles estivessem tentando estabelecer contato.” P. 232.

Mas autor defende que existem boas razões para pensarmos que não estamos a sós no Universo. Apenas ainda não temos provas que estejam aptas a passarem pelo rígido crivo da Ciência. Um dia, quem sabe, as teremos. Ele pergunta:

"[...] é impossível olhar para o céu e não se sentir oprimido por uma dúvida: há outros seres vivos além da Terra? Nosso planeta é um lugar especial, singular, ou apenas mais um dentre bilhões e bilhões de mundos pululando de vida, muitos dos quais abrigando espécies inteligentes? Quando olhamos para o céu, será que há lá em cima alguém também trocando olhares conosco, visualizando nossa pequena estrela anã amarela [sol] e se perguntando se há alguém por aqui?" P. 24.

Se tivermos de algum dia, sabe-se lá quando, de encontrar algum tipo de ser vivente na Via Láctea, é mais provável, que ele será uma espécie de vida simples.

"[...] a descoberta de vida extraterrestre no Sistema Solar é prioridade dos programas espaciais mais avançados. Embora muito provavelmente esses alienígenas não passem da escala microbiana e, mesmo na melhor das hipóteses, não incluam criaturas inteligentes, saber que eles estão por aí confirmaria a hipótese de que os fenômenos químicos que levam à biologia se repetem com frequência no Universo. Só de saber que a Terra não é o único abrigo para a vida – com a possibilidade de estudar uma segunda história de origem ou, caso a panspermia esteja correta, compreender como cada ambiente conduz a evolução por caminhos diferentes –, já estaríamos dando um passo fundamental para aplacar nossa solidão cósmica." P. 117.

Num certo momento, Nogueira flerta com a panspermia dirigida, mas ciente de que até o momento ela sofre com a falta de qualquer evidência palpável.

"E se a vida na Terra começou por intervenção direta de uma civilização alienígena? Não é tão difícil imaginar uma sociedade avançada avaliando planetas pela galáxia em termos de sua habitabilidade. Ao decidir que um mundo é passível de ocupação biológica, esses extraterrestres decidem semear esse planeta com um conjunto de criaturas primitivas, nem que seja só para ver o que a evolução fará delas em bilhões de anos". P. 174.

Convencionou-se na Academia acreditar, que se os extraterrestres inteligentes existam, eles serão bonzinhos, mas pode ser exatamente o contrário.

"Embora Carl Sagan e os entusiastas da SETI [Busca por Inteligência Extraterrestre] tenham desde sempre vendido a ideia de que civilizações extraterrestres necessariamente serão benignas e socialmente avançadas, gente como o físico britânico Stephen Hawking acredita que anunciar nossa existência ao cosmos pode ser perigoso. Nada sabemos sobre ética e moral alienígenas, e até podemos estar contando a eles onde procurar seu próximo almoço". P. 201.

O ceticismo do Nogueira em relação aos OVINs é um reflexo da própria incredulidade da grande maioria dos Cientistas. Isso não quer dizer que tais naves não existam. Ele escreve:

"[...] é aí que está o problema dos OVNIs – e mais ainda dos casos de abdução,em que pessoas alegam ter sido sequestradas, contatadas e estudadas por alienígenas. Há testemunhos aos montes (de pessoas com e sem diagnóstico de problemas psiquiátricos), mas faltam provas materiais conclusivas. Ninguém até hoje conseguiu levar um pedaço de espaçonave para análise em laboratório, o que facilmente demonstraria sua origem extraterrestre, e vídeos e fotos se tornam cada vez menos relevantes. Se antes eles eram fáceis de falsificar, agora você pode até baixar softwares em seu celular que fazem isso de forma automática. Sem evidências palpáveis, o fenômeno escapa do alcance da ciência. Não há como teorizar a respeito, nem prever novas ocorrências. Talvez por isso, a maioria dos cientistas prefira manter uma distância saudável do tema, embora poucos corajosos, como o astrobiólogo David Grinspoon e o físico Michio Kaku, admitam que há um percentual de casos inexplicados que dá margem à especulação de que se trata de visitantes alienígenas." P. 221.

Entretanto, muitos governos têm se dedicado a estudar e a levar a sério a “invasão” dos alienígenas – a França é um exemplo.

"Aos que preferem acreditar que tudo não passa de imaginação [UFOs], um fato notável é que muitos países tenham dedicado tantos esforços a investigar o fenômeno. Convenhamos que é no mínimo estranho gastar dinheiro para estudar uma coisa que supostamente não existe. Os franceses, por exemplo, deixaram o assunto sob encargo da CNES, a agência espacial francesa. Uma investigação em andamento, iniciada em 1977, já registrou cerca de 6 mil casos, dos quais 14% seguem sem explicação. Embora oficialmente os relatórios não defendam que os OVNIs são alienígenas, os líderes do estudo já vieram a público dizer que essas aparições eram máquinas voadoras físicas além do nosso conhecimento, e que a melhor explicação para os casos mais enigmáticos era a hipótese extraterrestre. " P. 221.

Cautela, cautela e cautela, quando o assunto são os avistamentos e contatos com UFOS.

"Tomadas como um todo, as características dos testemunhos de OVNIs e de seus ocupantes lembram muito mais produtos da mente humana do que visitantes de outros mundos. É possível que uma parcela corresponda a reais visitas alienígenas? Até é. Mas não provável, nem comprovável. Interpretar fenômenos desconhecidos como evidência de vida extraterrestre é, por definição, uma questão de fé." P. 226.

Quanto aos círculos que aparecem nas plantações, Nogueira não tem dúvidas – não tem nada a ver com seres de outros mundos.

“Outro elemento das histórias de disco voador que não cola é o dos círculos nas plantações. O primeiro caso veio da Inglaterra, em 1976. Todos ficaram pasmos com a precisão dos desenhos e disseram que não havia como humanos conseguirem fazer uma obra daquelas. Novos padrões continuaram a aparecer, da noite para o dia, para o espanto de todos. Até que em 1991, dois velhinhos, Doug Bower e Dave Chorley, admitiram que estavam fazendo os desenhos e mostraram como eram produzidos, para a tristeza dos ufólogos. [...] Não há nada de misterioso ou alienígena a respeito deles. P. 239.

Como os testemunhos de avistamentos são muitos, e as vezes bastante convincentes e difíceis de descartar, até mesmo o Nogueira precisa admitir:

"Por outro lado, pessoas que dizem ter visto artefatos voadores me parecem críveis, pelo menos em alguns casos bem documentados. Se eles têm origem alienígena, ninguém sabe. Mas, como não se pode descartar a existência de outras civilizações no Universo, bem como a viabilidade de voos interestelares, é uma hipótese que não pode ser afastada por completo.” P. 239.

O livro é muito bom.

Nogueira conta que desde Copérnico, passando por Galileu, Kepler, Newton, entre vários Cientistas - o pavimento foi sendo construído para que começássemos a ver que não estamos sozinhos. 

Caso venha alguma confirmação disto, as implicações serão avassaladoras nos vários campos do conhecimento.

Talvez ela nunca venha.

terça-feira, 25 de abril de 2017

Deus: Como Ele Nasceu


LOPES, Reinaldo José. Deus: Como Ele Nasceu. São Paulo: Abril, 2015. (Versão em PDF)

Faz uns bons anos que já não leio a revista Superinteressante. Nos anos em que lia edição após edição, sempre as matérias referentes a Jesus e/ou ao cristianismo foram menos amistosas comparadas às outras tradições de fé, como o budismo ou espiritismo, por exemplo. Fazendo uso corrente de estudiosos extremamente céticos em relação à crença cristã, o quadro pintado pela Super sempre foi o de desconstruir a visão tradicional que nos foi legada. Tal metodologia não me incomoda, visto que as milhares de igrejas estão aí, para divulgar o modelo já consagrado de como Deus “nasceu”. A revista tem todo o direito de trazer o outro lado da história. Noutro sentido, fico incomodado, quando vejo a parcialidade da revista em fazer generalizações descabidas, como se não existissem estudiosos competentes de linha conservadora, que defendem posições contrárias ao que ela propõe. Soa contraditório? Talvez.

Reinaldo José Lopes, Ph.D e Mestre em Estudos Linguísticos e Literários em Inglês na USP, escrevendo em nome da Super, nos contará a história do “nascimento” do deus judaico-cristão. Inicialmente pensei, que o livro estava recheado de palavras jocosas e piadinhas para denegrir a imagem da tradição monoteísta. Mas estava errado. Lopes não deixando de ter uma escrita leve, descontraída e com algumas pitadas de humor (característica da Super), em nenhum capítulo, parágrafo ou linha, o vi desdenhando da fé religiosa. Obviamente é uma obra que vai de encontro aos ensinos que se recebe nas igrejas, de que a bíblia foi inspirada por deus; de que as histórias contidas nela possuem confirmações na história e etc.

“[...] a postura da nossa narrativa será, ao menos na maior parte do tempo, metodologicamente agnóstica. Ou seja, não é meu objetivo provar que Deus existe ou deixa de existir — e, do ponto de vista estritamente científico e racional, sou da opinião que esse tipo de demonstração é inviável. Para usar o simpático jargão da filosofia da ciência, a ‘hipótese Deus’’ não é ‘falseável’ — ou seja, não tem como bolar um experimento, ou série de ‘experimentos, que demonstre de forma conclusiva que Deus não existe ou existe, especialmente se a gente levar a sério a ideia de que ele é inefável, ou seja, manifesta-se quando e como quiser, como afirmam as religiões que o veneram.” P. 12.

Mesmo que todas as religiões, inclusive a judaica e cristã, sejam perfeitamente escrutinadas pelo que há de melhor na História, Antropologia, Arqueologia, Psicologia Social, Sociologia e etc, não se segue daí que o sentimento de que existe algo além, que normalmente chamamos de Deus, seja apenas fruto de nossas mentes. A Filosofia continua tendo primazia sobre todas elas. Deus pode existir independente da origem detectável e explicável das milhares de religiões existentes. Ele pode muito bem não ter NADA a ver com todas elas. Quanto a declaração que diz que “do ponto de vista estritamente científico e racional, sou da opinião que esse tipo de demonstração é inviável” – penso que ele comete um equívoco, visto que tanto cientificamente como no campo filosófico, pode-se apresentar argumentos plausíveis de que a crença em Deus pode está ancorada em boas evidências, ainda que passíveis de dúvidas.

“Ao ler sobre fenômenos religiosos — seja do ponto de vista individual, seja em uma perspectiva histórica de longo prazo —, você pode, com toda a justiça, contentar-se com apenas a primeira parte do nosso paradoxo: ‘é tudo coisa da sua cabeça’, resumindo. Não há nada sobrenatural acontecendo, no fim das contas. Por mais que as pessoas acreditem estar na presença de Deus numa igreja, numa sinagoga ou numa mesquita, qualquer sensação especial que venham a sentir em contextos religiosos não passa do resultado de mensageiros químicos e impulsos elétricos pulando de um neurônio para outro em algum canto da cabeça delas. Ótimo, que seja assim. Por outro lado, é minha convicção que a forma completa do paradoxo permite que as pessoas que acreditam em Deus — entre as quais me incluo — sejam capazes de apreciar a trajetória complexa e fascinante que acabou produzindo sua fé de forma intelectualmente honesta, sem que para isso se sintam obrigadas a jogá-la na lata do lixo.” P. 12.

Felizmente, contrariando os materialistas amadores da internet, que afirmam que todos nascemos ateus. Na verdade é quase o oposto: temos uma tendência a crer em algo além do mundo sensível.

“O que fica cada vez mais claro, no entanto, é que, diferentemente do que dizem certos defensores do ateísmo, ninguém ‘nasce’ ateu — nem cristão, budista ou adorador de Thor. Se o cérebro humano fosse um computador, ele seria do tipo que vem com vários programas pré-instalados, bastando clicar nos iconezinhos deles para que se autoinstalassem e começassem a funcionar. E a crença em seres sobrenaturais parece ser um desses programas. Acreditar em deuses parece um resultado completamente natural da maneira como o cérebro humano se desenvolve desde a primeira infância“. P. 14.

Já deu pra perceber que o autor não tem o intuito de desdenhar, zombar ou ridicularizar a fé, mesmo que o título fale sobre o nascimento da divindade. Lopes explica:

“[...] admito que Deus: Como Ele Nasceu tem um elemento de provocação, mas não é minha intenção dizer que Deus foi simplesmente inventado pelo homem — ao menos não como resumo do que acredito ser verdade sobre o Senhor (como o chamam tradicionalmente judeus e cristãos). Dizer que Deus “nasceu”, e que a gente pode contar as etapas desse parto, equivale simplesmente a reconhecer um fato que até as grandes tradições religiosas monoteístas admitem em seus textos sagrados: a crença nele pregada pelas fés atuais não existe desde o princípio do mundo, mas precisou ser formulada de maneira paulatina”. P. 16-17.

Explicando como a fé em deus pode ter surgido entre nós, seres humanos, Lopes, o que não agradará os mais fanáticos religiosos, tampouco, pode não agradar os céticos ateus, quando ele diz:

“[...] alguns estudos realizados na Itália e no Reino Unido nos anos 1990 e 2000, enfocando especificamente as reações de quem não acredita em Deus a eventos importantes da vida — mortes, perda de emprego, dificuldades escolares e financeiras etc. —, mostraram que até esses não crentes às vezes respondem usando uma variante daquela frase ‘tudo acontece por uma razão’, o que sugere, se não uma crença subconsciente em Deus, ao menos uma tendência a enxergar que existe algum destino vago e poderoso controlando as coisas por trás do pano.” P. 29.

Baseados em várias linhas de evidências interpretadas por Historiadores, Teólogos e Arqueólogos, Lopes vai montando o quebra-cabeça de como deve ter surgido o povo de Israel e, consequentemente, o nascimento de Yahweh, a divindade suprema. O Antigo Testamento é uma colcha de retalhos – aquelas historinhas bonitinhas, de que Deus chamou um homem chamado Abraão, que gerou Isaque e Jacó, onde este último teve vários filhos que deram origem as 12 tribos de Israel e, que foram levados para o Egito, e foram escravizados, libertados por Moisés, migrando para a Palestina, dando início a nação de Israel, não passa de construções não factuais, com apenas algumas pinceladas de verdade histórica. Simplesmente as histórias bíblicas e o que sabemos sobre o mundo antigo não batem, segundo Lopes.  

De qualquer forma, algo que me chama atenção na Bíblia é que ela não esconde os fatos embaraçosos sobre os seus personagens mais estimados. Nem Jesus escapa, quando na cruz, ele brada: “Deus meu, Deus meus, porque me desamparaste?”. No Antigo Testamento não é diferente.

“Figuras como Saul, David e Salomão são personagens fabulosos, críveis, de carne e osso, comparáveis aos criados pelos grandes romancistas de todos os tempos. Apesar dos triunfos desses figurões, a Bíblia em geral não os idealiza. Pelo contrário, aliás — suas escorregadas éticas e políticas parecem estar sendo mostradas sem retoques, de um jeito que, por vezes, lembra o estilo de um bom historiador ou biógrafo do século 21”. P. 74.

Referente à principal personagem do Novo Testamento, Jesus de Nazaré, embora Lopes tenha uma abordagem agnóstica e cética, ele enumera alguns critérios de historicidade, que possivelmente nos ajudam a detectar com algum grau de certeza, certos acontecimentos relatados nos evangelhos. A crucificação de Jesus é um exemplo.

“A ideia chocante de um salvador crucificado  é, para quase todos os historiadores sérios do cristianismo nascente, aterradora  demais para ter sido inventada do nada. Isso significa que, por trás dela, houve um homem de carne e osso executado sumariamente em Jerusalém lá pelo ano 30 d.C. P. 114.

Lopes posiciona-se contra aqueles que negam a existência de Jesus. De acordo com ele, é uma posição extremamente frágil de ser defendida. Há também uma admissão de que os evangelhos apócrifos, com exceção do evangelho de Tomé, quase nada têm a dizer sobre o Jesus histórico.

“[...] apesar do grande barulho ocasional causado pela descoberta ou reinterpretação de certos textos apócrifos (ou seja, não incluídos na lista oficial de escritos bíblicos aprovados pelas igrejas cristãs), o fato é que quase nenhum pesquisador na ativa hoje defende que esses textos não canônicos tragam informações importantes a respeito do Jesus histórico. Em geral, são relatos tardios, escritos a partir da metade do século 2º d.C.” P. 124-125.

Concernente as teorias de que Jesus foi na Índia buscar sabedoria e conhecimento durante os anos aos quais os evangelhos se calam, Lopes manda um recado para aqueles que dão crédito a essas teorias nada críveis:

“Seja como for, faça a gentileza de não dar ouvidos aos livros doidões que afirmam que o jovem Jesus foi estudar com monges tibetanos, iogues da Índia ou ascetas do Mar Morto antes de iniciar sua vida pública. É infinitamente mais provável que ele tenha passado os 30 primeiros anos de sua vida em Nazaré, em meio a uma família grande, com vários irmãos e irmãs”. P. 130.

No livro do livro, mencionando mais uma vez os ateus, mas agora num tom que lhes dá uma certa vantagem, Lopes nos diz:

“De fato, podemos afirmar sem muito medo de errar que países como Dinamarca, Suécia, Noruega e Finlândia estão realizando, sem querer, um dos experimentos de psicologia social mais interessantes da história: eles estão entre os primeiros Estados de que se tem notícia nos quais a grande maioria da população livremente escolheu não acreditar em Deus, e nos quais a qualidade de vida é elevadíssima em quase todos os aspectos. Atenção para os números: só 28% dos dinamarqueses, 23% dos suecos, 22% dos noruegueses e 33% dos finlandeses afirmam acreditar em Deus. Não temos nenhum sinal de que, após abraçar a descrença, aquele monte de gente loira se transformou num bando de amorais. Pelo contrário - crimes violentos são muito mais comuns nos EUA, a mais religiosa das nações desenvolvidas, do que entre eles.” P. 160.

Fim. 

sábado, 22 de abril de 2017

Contra um mundo melhor: ensaios do afeto


PONDÉ, Luiz Felipe. Contra um Mundo Melhor: Ensaios do Afeto. São Paulo: Leya, 2010. (PDF).

“Mas, afinal, o que é a vida senão se ocupar de coisas e, ao final, tornar-se mais uma coisa no chão de terra que nos cobrirá a todos?” P. 92.

Quarto do livro que leio do Pondé (Ph.D em Filosofia na USP), um escritor e palestrante que muito me agrada, por sua perspicácia em desmentir as ideias romanciadas e tolas que vemos no cotidiano. Pondé é um Filósofo do cotidiano; está interessado nas coisas banais da vida (aliais o que não seria banal?).

Como tinha dito nas outras postagens sobre seus livros, ele em muitas situações é um resmungão, contraditório, um marqueteiro até. Mas tá valendo. Seus livros acabam sendo obras de “anti auto-ajuda” - críticas veementes aos milhares de escritos que inundam o mercado editorial, com besteiras de como encontrar a felicidade, visto que segundo elas, nascemos para ser felizes, que somos especiais, de que devemos confiar em nós mesmos, e um monte de ilusões.

Não encontramos em seus livros, tratados filosóficos sobre Metafísica, Ontologia, Epistemologia e etc., até porque se assim o fossem, eu nem estaria lendo-os.  

“[...] prefiro escrever textos curtos, falta-me a paciência necessária para textos longos”. P. 10.

“Cansei da filosofia, por isso comecei a escrever para não filósofos, porque a universidade, antes um lugar de gente inteligente, se transformou num projeto contra o pensamento. Todos são preocupados em construir um mundo melhor e suas carreiras profissionais. E como quase todas são pessoas feias, fracas e pobres, sem ideias e sem espírito inquieto, nada nelas brota de grandioso, corajoso ou humilde. Eu não acredito num mundo melhor. E não faço filosofia para melhorar o mundo. Não confio em quem quer melhorar o mundo.” P. 10-11.

Mostra-se exageradamente pretensioso quando diz:

“Cuidado, a leitura destes ensaios pode trazer efeitos colaterais: dúvidas, insegurança, insônia, raiva. Se isso acontecer, e você não gostar do que está sentindo, leia livros de autoajuda, tome remédios, faça meditação por cinco minutos”. P. 12.

Pelo menos ele admite:

“Mas, como tudo nesta coletânea é assistemático, os tamanhos variam, alguns beiram a miséria de conteúdo por ser meros fragmentos de pensamento”. P. 12.

Pondé é um ateu, que não vê a religião com os olhos bufando de raiva como muitos materialistas a veem. Ela é superstição? Sim. Mas de igual modo e até pior, são as crendices modernas dos “inteligentinhos”.

“Acho que a vida provavelmente não tem nenhum sentido, apesar de que é na sua forma profunda um movimento que busca a ordem. Em matéria de sentido, prefiro os antigos: Deus, a fidelidade, a castidade, a culpa, a disciplina, a família, o medo, Shakespeare, a Bíblia, a Ilíada. Rejeito todos os novos sentidos: a democracia como religião moderna, a revolução sexual, que não passa de puro marketing de comportamento (continuamos a mentir sobre o sexo e a ser infelizes), a sustentabilidade (nova grife para o ambientalismo), a cidadania, a igualdade entre os homens, uma alimentação balanceada, o fascismo dos direitos humanos, enfim, tudo o que os idiotas contemporâneos cultuam em seu grande cotidiano”. P. 10.

“Pessoalmente, digo que nunca saberemos tudo, por isso sempre poderemos crer e dialogar com o invisível, e que a história dos últimos séculos nos provou que, quando deixamos de acreditar em Deus, sempre acabamos acreditando em qualquer bobagem como ‘História, natureza, ciência, energias, política, em si mesmo, tanto faz’ (como dizia o escritor inglês Chesterton no começo do século XX). Para mim, Deus permanece uma ideia mais elegante.” P. 11-12.

“Mas um trágico cético, como eu, tende a dar valor às crenças religiosas como hábitos válidos em alguma medida. Mas um cético trágico, como eu, tende a partilhar certa sensibilidade pelo mistério que as religiões têm. Antes de tudo porque são antigas e prefiro sempre crenças antigas”. P. 60.

Eis o seu pessimismo diante da vida:

“Não controlamos a vida. Grandes planos podem dar em nada, ter fé pode levar você ao fracasso, acreditar em si mesmo pode levá-lo a erros definitivos, escolher ficar rico pode ou não dar certo, ter muito dinheiro pode sim garantir pessoas ao seu redor amando-o [...] ou pode levá-lo à solidão – enfim, não há garantias. É por isso que o normal é ser inseguro, mentiroso, covarde, e não santo ou corajoso”. P. 12.

“Não é humano saber que a vida é sustentada numa ilusão contínua. Pagamos um preço. Outro risco: pensamos que a dúvida, esse ácido do espírito, só afeta as ideias; mas não, ele também afeta a alma, o corpo, o desejo, os gestos, a capacidade de sonhar à noite. [...] Não acredito em nenhum sistema de valor disponível. Ando como quem anda num deserto, sem direção e sem discernimento, porque a paisagem é toda igual, feita da mesma matéria efêmera e sem forma. Acho que esta é a condição pós-moderna por excelência”. P. 15.

“Muitas vezes, em horas de agonia, contemplamos as paredes e o teto de nosso quarto, mergulhados no silêncio da solidão”. P. 25.

Em muitos momentos, sou muito tentado a concordar com tudo isso. A vida em certo sentido é uma merda (mesmo que exista um deus). Mas sempre queremos pensar que existe algo superior que está levando tudo para o bem maior, no final.

Os ressentimentos do Filósofo e sua acidez não param, trazendo verdades (?) que incomodam:

“TODO MUNDO TEM SEU PREÇO. Essa é uma máxima conhecida há muito tempo. Creio nela profundamente. Apesar de muita gente tentar negá-la, vendendo uma imagem à prova de qualquer preço de si mesmo. O cotidiano é um massacre. Claro que, se você é rico, pode pousar de superior, mas isso é raridade que não vale porque sustentada na sorte incomum. Ninguém é digno para além da miséria que o assola.

Todavia, sem hipocrisia não há civilização, e isso é a prova de que somos desgraçados: precisamos da falta de caráter como cimento da vida coletiva. Muitas vezes sinto, como que de forma material, a presença da hipocrisia ligando as pessoas do mundo quando se afirmam éticas. Por isso o desfile de falsas virtudes em toda parte: o ser entregue à sua pureza seria obsceno. O véu que esconde a nudez moral horrível é como a hipocrisia que nos torna falsamente belos. Mas o pior é quando o pensamento se torna escravo dessa hipocrisia.

Por isso o filósofo deve sempre desdenhar a sobrevivência e o bom convívio e ser contra um mundo saudável. A suposição de que as pessoas se amam em família ou que filhos e pais necessariamente se amam é tão falsa quanto a ideia de que as pessoas não têm preço – e, às vezes, esse preço é bem menor do que imaginamos. O amor familiar pode ser apenas resultado de falta de opção. O problema é que a vida sem família, na maioria esmagadora dos casos, é puro abandono. Precisamos nos sentir parte de algo (pelo menos a maioria de nós) e, para isso, pagamos o preço de não ser livres e de fingir que amamos uns aos outros.” P. 45.

Atos morais não são virtudes de fato:

“[...] eu sempre penso que o fundamento de todo ato verdadeiramente moral, que resiste à miséria de ter um preço, é algo de ordem fisiológica e visceral. Uma fobia, um pânico, uma doença, uma vergonha, um trauma, uma violência contra a alma e o corpo, nunca um ato ético consciente ou um princípio. Um vício, nunca uma virtude”. P. 47.

Mais ceticismo e tragédia:

“Quando digo que sou trágico, quero dizer que não acho que o mundo tenha suficiência moral última, digo que o mundo está à deriva, indo para lugar  nenhum”. P. 61.

“Como diria o filósofo alemão Horkheimer no século XX: somos uma raça de exilados abandonados à própria má-sorte, ninguém 'cuida' de nós.” P. 62.

“[...] poucos têm coragem suficiente para enfrentar uma existência insuficiente de sentido.” P. 63.

“A esmagadora maioria dos homens e mulheres se despedaça contra as paredes desse abismo que é o vazio e a indiferença cósmica.” P. 63.

“Mas reconheço que a ausência de beleza torna o homem um monstro, por isso entendo que a busca desenfreada da beleza mova o espírito humano em meio às trevas que é a sobrevivência. P. 74.

“Amadurecer é se aproximar da morte e sentir o cheiro da insignificância de tudo”.  P. 89.

“A natureza humana por si só já tende à mentira, ao orgulho, à inveja, que se repetem à monotonia em virtude das duras condições de sobrevivência nas quais vivemos há milhares de anos. Não há como evitar a vida sob pecados tão essenciais como orgulho e inveja”. P. 91.

Não somos melhores que a sociedade alemã diante dos horrores do nazismo:

"NÃO ACHO que tenhamos mudado um milímetro desde a experiência nazista. Naquele momento, muitos europeus colaboraram com o massacre não apenas porque odiavam as vítimas dos nazistas (nem precisavam odiá-las, isso seria até demais pensar), mas apenas pelo amor ao cotidiano. Hoje em dia, se qualquer regime decidisse perseguir o grupo do qual seu vizinho faz parte, você fecharia os olhos como os franceses fizeram.

A covardia e o amor à rotina acomodam mais os homens ao crime coletivo e social do que a força das ideias. Em nome de um emprego melhor, em nome de sentir menos medo diariamente, em nome de conseguir melhor qualidade de vida, aceitamos qualquer crime. Toda discussão sobre o massacre nazista (ou qualquer outro) esbarra no fato de que nós, hoje, gostamos de pensar que não faríamos a mesma coisa que aqueles homens e mulheres fizeram. Nossa maior preocupação é assegurar uma ideia construtiva de nós mesmos. O massacre nazista nasceu do horror que continuamos a alimentar com relação a tudo que afete nosso cotidiano imediato. Erraram todos os que se esqueceram de dizer isso. Além disso, nos sentimos mais tranquilos quando outros estão sendo destruídos em nosso lugar. Estamos sempre dispostos a nos calar quando um jantar a mais é garantido.

O comportamento moral comum é mais decidido em nome de uma noite tranquila e um dia monótono do que em nome de qualquer ideia de justiça que algum dia alguém escreveu. E se qualquer massacre se der em nome de alguma ideia em que acreditamos e, além disso, se nosso cotidiano estiver garantido, aí então nos transformamos em feras banais.” P. 76.

Triste constatar que ele tem toda a razão. Hoje mesmo, basta olharmos ao nosso redor para vermos pessoas sofrendo, e nada fazemos. Sempre olhamos para o nosso próprio umbigo. Milhões de seres humanos estão nas mais péssimas condições de vida, e a sociedade para não sair de sua zona de conforto, finge que está tudo bem, ou que, afinal de contas, a situação não está tão mal assim. Queremos incutir em nós mesmos, o pensamento de que agiríamos diferente dos alemães. Somos virtuosos, eles não.

Talvez de forma paradoxal, Pondé declara no final:

“Sou apenas alguém que, sem até hoje saber a razão, passou a ser constantemente visitado – no sentido mais comum que a expressão tem, por exemplo, na tradição do cristianismo ortodoxo – pela sensação de que o mundo é sustentado pelas mãos de uma beleza que é também uma presença que fala”. P. 110.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Toda a Verdade (Parte 3)

Prostituição: As Novas Escravas


Chinesas, búlgaras e nigerianas, são traficadas para a França, para se prostituírem. A Bulgária é a nação campeã no tráfico de mulheres, no leste europeu. Não existem empregos suficientes por lá, ocasionando a saída de várias mulheres enganadas, para Europa. Na Nigéria, elas vão debaixo das pragas lançadas pelos feiticeiros, caso não cumpram a sua missão. O mundo é um CAOS! É muito sofrimento por todos os lados.

Jovens Alcoólicos


Nordeste da Inglaterra, lugar onde mais se consome bebidas embriagantes no país. Houve um aumento de 300% nas doenças relacionadas ao álcool nos últimos anos. Pré-adolescentes de apenas 11 anos, começam a ingerir vodca e afins, e tornam-se futuros viciados.

Tóquio: Cidade Exótica


Cada país com seus gostos, manias e taras. Em Tóquio existe um comércio bem exótico e bastante peculiar: a venda de calcinhas e cuecas usadas, de jovenzinhas e jovenzinhos! O cliente taradão compra-os normalmente em uma loja e depois vai se deliciar cheirando a calcinha sujinha e úmida da ninfeta! Obviamente, uma minoria dos habitantes de Tóquio fazem isso. No maior aglomerado de pessoas do planeta (36 milhões), é claro que existirá os mais diversos gostos e comportamentos.

Turistas e Logros: Segredos de Veneza


Uma cidade com um dos maiores fluxos turísticos do mundo, mas que tem agravado os seus problemas estruturais, exatamente pela alta concentração de turistas. Numa contradição evidente, Veneza que vive exclusivamente dos visitantes que enchem os seus cofres, precisará, em breve, limitar o número de pessoas em sua cidade. Se não, irá a bancarrota.

Escravos do Daesh


Terrorismo. Dessa vez, um grupo terrorista no Iraque, conhecido como Daesh. Escraviza, mata, tortura, sequestra e estupra as mulheres da comunidade iazidi. Além de aliciar crianças de até três anos para as suas guerrilhas insanas. Tudo em nome Alá.