quinta-feira, 15 de junho de 2017

A Caminhada Cristã na História


MATOS, Alderi Souza. A Caminhada Cristã na História. Viçosa, MG: Ultimato, 2005.

Segunda vez que leio esse livro do Alderi Souza de Matos, Ph.D em História da Igreja na Universidade de Boston, EUA. Livro muito bom. Leitura super agradável e bastante informativa. Alderi tenta ser bem equilibrado em suas abordagens, não poupando críticas a igreja, pelos seus erros passados. Ele é o Historiador oficial da Igreja Presbiteriana do Brasil, uma instituição calvinista teologicamente conservadora. De tudo ele fala um pouco.

Reforma Protestante e sua abertura para a multiplicidade de visões no cristianismo:

"A Reforma Protestante foi, entre outras coisas, o questionamento da noção de que uma determinada tradição cristã tem o direito exclusivo ao título de igreja. Antes, os reformadores afirmaram que, onde quer que o povo de Deus se reúna para ouvir a pregação fiel das escrituras e receber a ministração dos sacramentos bíblicos ai está presente a igreja. Com essa nova mentalidade, o protestantismo abriu as portas para a diversidade dentro do cristianismo". P. 21-22.

Foi a Reforma começar, para que as divergências se fizessem presentes, entre os próprios reformadores. Cada um acusando o outro de herege. Lutero discordava de Zwínglio quanto a eucaristia, onde até foi travado um debate entre os dois, cada qual irredutível em suas posições.

O celibato surgido no século quatro:

“A mais antiga estipulação sobre o assunto, o cânone 33 do concílio de Elvira, na Espanha (por volta do ano 305), declara o seguinte: ‘Decretamos que todos os bispos, sacerdotes e diáconos, e todos os clérigos envolvidos com o ministério, sejam totalmente proibidos de viverem com esposas e gerarem filhos. Quem assim o fizer será deposto da dignidade clerical.’” P. 52.

E assim, até hoje os sacerdotes católicos estão privados de terem suas esposas e filhos. Numa decisão sem pé nem cabeça, fruto de um repúdio injustificado do sexo. A partir do segundo século, o sexo já estava sendo visto, como prática abominável pelos primeiros cristãos.  

A confecção das cópias das escrituras:

"Durante mais de um milênio, as cópias parciais ou integrais da Bíblia eram feitas à mão, trabalho esse realizado principalmente por monges que pacientemente redigiam os manuscritos (hoje existem cerca de 2300 manuscritos bíblicos, produzidos entre os anos 300 e 1500). O fato de os livros serem copiados à mão tornava-os extremamente caros para a maioria das pessoas - copiar um livro como Isaías levava semanas ou meses. Por exemplo, no século 14 o custo de uma Bíblia podia ser equivalente ao salário de um ano inteiro de um sacerdote". P. 68-69.

Hoje o preço das Bíblias já não são tão caros assim. Os preços variam bastante. Têm Bíblias de todos os tamanhos e gostos. As editoras sob o pretexto de estarem divulgando o reino de deus, inventam todo tipo de Bíblias. Chega a ser ridículo esse comércio. Mas os editores dizem com a cara mais limpa do mundo: é para o reino de deus. O deus deles, é claro.

A religião cristã e sua incompatibilidade com o ensinamento espírita da reencarnação:

"Mas, afinal, o que é a reencarnação? Trata-se da crença de que a alma, ou o elemento psíquico do ser humano, passa para um outro corpo após a morte, fato esse que pode repetir-se muitas vezes com o indivíduo." P. 98.

"O cristianismo majoritário nunca professou a tese da reencarnação, pois ela não somente está ausente das escrituras, mas é contraditada por textos bíblicos como Hb 9.27 e Lc 23.43. É somente através de uma interpretação altamente figurada e tendenciosa de certas passagens que os espíritas podem encontrar a reencarnação na Bíblia." P. 100.

Existe pelo menos um caso nas escrituras que corrobora a realidade da comunicação dos mortos com os vivos. O pitoresco caso de Saul e Samuel. A Bíblia é clara quando diz que Samuel já morto, foi ter uma conversinha com Saul, mediante o intermédio de uma feiticeira. Os fundamentalistas têm um pepino grande para descascar.

Fanatismo religioso:

"Em todas as religiões existe o fenômeno do fervor espiritual intenso, por vezes extremado, que caracteriza certos indivíduos, grupos e movimentos. O cristianismo não é exceção. [...] Infelizmente, a história demonstra que muitas vezes o entusiasmo religioso ultrapassa os limites do bom senso e manifesta extravagâncias comportamentais e teológicas. Em alguns casos extremos chega ao fanatismo, com as consequências negativas, até destrutivas, daí advindas." P. 123-124.

Precisa de algum exemplo?

Destruição de culturas pelos cristãos:

"Um caso particularmente inquietante foi o da América Latina, em que o processo de conquista e colonização, abençoado pela igreja, deixou um rastro de destruição entre as populações nativas. Somente se levantaram umas poucas vozes de protesto". P. 145.

Se pudessem, os fanáticos evangélicos destruiriam até hoje monumentos em homenagem aos ídolos pagãos. Deduzo que a maioria evangélica de salvador, na Bahia, se tivessem autorização, colocariam abaixo o Dique do Tororó, que possui várias estátuas dos orixás – seres mitológicos cheios de mugangas, adorados no Candomblé.

Os primeiros calvinistas no Brasil e o seu total fracasso:

"Curiosamente, foi no Brasil que ocorreu a primeira tentativa da história do protestantismo mundial no sentido de evangelizar um povo não-cristão. Isso se deu em conexão com uma colônia francesa criada na Baía da Guanabara em 1555, a França Antártica. A pedido do líder do empreendimento, Nicholas Durand de Villegainon, o reformador João Calvino e a Igreja Reformada de Genebra enviaram catorze colonos, entre eles dois pastores. Esses imigrantes-missionários tinham dois objetivos: implantar uma igreja reformada entre os franceses e evangelizar os silvícolas. Nenhum desses objetivos pôde ser alcançado e quatro dos pioneiros acabaram sendo martirizados, mas esse evento se tornou um marco de grande importância na história das missões, nem sempre caracterizadas pelo sucesso." P. 154.

Isso ficou conhecido como a tragédia da Guanabara. Acho que Jean de Léry, calvinista que presenciou esses acontecimentos, escreveu um livro contando a aventura dos primeiros calvinistas no Brasil. E a primeira confissão de fé calvinista, foi feita aqui, em solo brasileiro.

Mais uma vez o celibato e abstinência sexual no casamento:

"Durante a Idade Média, e mesmo antes, a vida celibatária teria sido considerada a condição ideal para o cristão, o estado espiritual mais elevado. O grande erudito Jerônimo, que morreu no ano 420, foi particularmente enfático nesse sentido. A comparar a virgindade, a viuvez e o casamento, ele deu à primeira o valor numérico de 100, à segunda 60 e ao casamento 30. Mais de um milênio depois, em seus Exercícios Espirituais (1548), Inácio de Loyola exortou os seus seguidores a exaltarem o matrimônio, mas exaltarem ainda mais a castidade. De fato, ao se observar a longa lista de santos católicos, verifica-se que somente alguns poucos dentre eles foram casados.

[...]

Na concepção tradicional, o sexo, embora permitido dentro do casamento, não devia ser desfrutado. De acordo com um catecismo do final do século XV, os leigos pecavam sexualmente no casamento, quando, entre outras coisas, praticavam o sexo por prazer e não pelas razões que Deus ordenou, a saber, evitar o pecado da concupiscência e povoar a terra". P. 193, 194.

O sexo sempre sendo visto como um tabu entre boa parte dos cristãos mais fervorosos. Tudo começa em Maria, mãe de Jesus – que a igreja católica insiste em dizer que ela nunca foi furada por José, depois de Jesus ter nascido. Pergunto: José ficou sua vida inteira com uma mulher, sem dá nenhuma sapecada nela? Uma punhetinha de vez em quando? Certo, certo, gosto de descer o nível as vezes. Ou Deus o agraciou com a frigidez? 

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Bem Vindo a Marly-Gomont


“Só a educação importa, especialmente quando se é negro.” – Seyolo Zantoko.

Racismo e discriminação em relação aos negros é algo disseminado por quase todo o planeta. Na França dos anos 1970, não foi diferente. Um Médico africano, nascido no Zaire, por nome Seyolo Zantoko, formado em Medicina na França, depois de rejeitar por honestidade e consciência limpa, a função de ser Médico do Presidente corrupto de seu país, resolve exercer seus conhecimentos medicinais, na pequena e pacata cidade rural francesa de Marly-Gomont.

Detalhe: nunca nenhum negro tinha pisado nessa cidade. Um lugar provinciano e com moradores cheios de preconceitos.

Doutor Zantoko chega a cidade cheio de vontade de trabalhar e ajudar na saúde de seus habitantes. A cidade estava sem Médico, sendo a clínica mais próxima a 15 quilômetros de distância com o Doutor Vinquier. De cara os moradores não acreditam que quatro negros (Zantoko, sua mulher, uma menina e um menino) estão pondo os pés em sua cidade, e pior: irão morar nela.

Não demora muito para que as crianças sejam alvo de piadas racistas e humilhantes na escola. Zantoko não consegue um paciente sequer para atender. Eles preferem ir na cidade mais próxima, a serem atendidos por um Médico negro africano. Até numa epidemia de gripe na cidade, ninguém foi ao seu consultório. Não acreditam que ele possa exercer a Medicina com competência e seriedade. Negros não estão aptos para um trabalho tão nobre e difícil, pensam eles.  

As contas vão chegando, o dinheiro vai escasseando, e Zantoko não tem ainda nenhum paciente. Quando consegue dois pacientes, estes não lhe pagam, pois dizem que ele não é Médico de verdade, se comparado com o Médico da cidade vizinha.

Ele precisa trabalhar, ganhar dinheiro para sustentar sua família. Sem opções, ele vai trabalhar como agricultor, escondido de sua mulher, que está bastante chateada em ir morar num lugar que não os aceita, visto que também, ela jurava que iria morar em Paris.

Um dos moradores e futuro candidato a prefeito diz a Zantoko:

“Não me entenda mal, mas essa é a França provinciana. As pessoas estão acostumadas com o que elas conhecem.”

Elas não conheciam uma pessoa de “cor”. Não estavam prontas para serem examinadas por uma pessoa vinda da África.

O Médico africano tem a chance de mostrar seu valor quando é chamado às pressas, depois da missa de Natal, a casa de uma mulher que estava no trabalho de parto. Quando ela o vê, se nega, mesmo morrendo de dores, a fazer o parto com ele, xingando-o, com todos os nomes que possamos imaginar. Mas não tinha jeito – ou ela teria o seu bebê pelas mãos dele, ou morreria ali mesmo. O parto acontece, e ela e seu marido ficam muito gratos por ele ter lhes ajudado.

A partir daí sua carreira como Médico da cidade começa a deslanchar. Os moradores guardam seus preconceitos bobos e vão se consultar com ele. Apesar de tudo está finalmente indo bem, Lavigne, candidato a prefeito arma uma cilada contra ele, impedindo Zantoko de trabalhar até que sua situação fosse devidamente averiguada pelo governo francês. Nas eleições o atual prefeito se reelege e Zantoko volta a trabalhar tranquilamente em seu consultório, com a aprovação de toda a pequena cidade de Marly-Gomont.

É uma linda história real. Apesar de abordar o tema espinhoso do racismo, é uma história leve e muito gostosa de se ver. Mais um filme aprovado.  

Cores do paraíso


Regime do Apartheid na África do Sul. Ano 1976! Estudantes se organizam para fazer um grande protesto contra a segregação que sofrem há décadas das autoridades brancas. Muntu Ndebele vive um pouco melhor que seus irmãos negros, pois possui carro, uma futura bolsa de estudos para entrar na Universidade e trabalha como ator de filmes. Mesmo com o seu modesto prestígio, ele ainda vive em sua comunidade e estuda num colégio humilde, destinado a negros. Inconformados com o racismo e discriminação, os estudantes protestam em Soweto e são recebidos com balas pelo exército sul africano. Esse grande marco contra o preconceito ficou conhecido como o Levante de Soweto, ocorrido em 16 de junho de 1976.

Muntu e sua paquera, Sabela, estavam participando do protesto, quando Sabela é atingida por uma bala. A partir daí, tudo começa a desandar, visto que Muntu agride um chefe da polícia, tendo que fugir, e sendo cooptado para o exército da guerrilha do CNA, partido fundado por Nelson Mandela, para extirpar por meio da violência as autoridades opressoras do povo negro sul africano. Ele consegue fugir do acampamento, volta para Soweto em busca de sua amada, mas ela já está casada a contragosto com um chefe tribal, que pagou uma ótima bolada para o pai de Sabela.

Muntu numa reviravolta em sua vida, se envolve no crime, com muitos roubos e associações com a gangue de Bomba, um bandido que também quer derrubar o sistema do Apartheid. Ele luta para conseguir a sua adorável Sabela, sem sucesso. Muntu se envolve com a namorada de Bomba, engravidando-a. A feiticeira que dá conselhos espirituais ao criminoso Bomba, revela que o filho não é dele, e que essa criança precisa ser sacrificada para que ele tenha muito sucesso em seus negócios. A criança não é morta, mas Busy, sua mãe é queimada por traição e delação, na frente de Muntu, que tenta impedir.

Muntu sem rumo na vida, cai no universo das drogas, quando finalmente é visitado por um grande amigo branco da infância, que tenta-o tirar do buraco de onde se encontra. Ele se nega a sair, mas no final do filme, numa cronologia de cerca de trinta anos após o massacre dos estudantes em 1976, em uma homenagem aos estudantes mortos, Muntu já está em fase de recuperação e depois de três décadas consegue ficar junto com o amor de sua vida, Sabela.

A princípio pensei que Cores do Paraíso fosse apenas uma ficção contada dentro contexto cruel e devastador do regime racista na África do Sul. Entretanto é uma história real, que nos passa o quanto o apartheid desestruturou aquele país. Mesmo com Mandela solto e eleito Presidente em 1994, a coisa ainda estava feia por lá. Com grupos rebeldes que não o aceitavam no poder, por ele ter desistido de algumas de suas convicções.

Cores do Paraíso nos ambienta nesse clima de tensão e de ideias opostas entre os vários negros oprimidos pelo governo. Havia vilões e bandidos negros querendo se aproveitar da situação desesperadora em que se encontrava o país naquele momento. Havia pessoas honestas e íntegras, mas que por vários motivos e contingências do destino entraram por um caminho equivocado, como foi o caso de Muntu.

Filme muito bom. Filme realista.

terça-feira, 13 de junho de 2017

Raça


Era o ano de 1936. Dois países: Estados Unidos e Alemanha. Algo em comum entre eles: racismo, preconceito e discriminação aprovados, incentivados e legalizados pelo Estado. Duas etnias vitimizadas e humilhadas: negros e judeus. Na América: os de “cor” segregados. No Terceiro Reich: os descendentes de Abraão despojados de quaisquer direitos. Um evento: Olimpíadas na Alemanha de Hitler. Impasse: negros e judeus disputando medalhas no maior evento esportivo do planeta, em território nazista.

Apenas essas “bobagens” que Raça traz para o cinema.

Jesse Owens é um jovem negro americano, que vive na cidade de Ohio, que corre muito. Não, não, me enganei - ele não corre muito. Ele corre MUITO. Um atleta de alto padrão, extremamente veloz, que não dá chance para os seus adversários. Ele consegue uma vaga para a Universidade Estadual de Ohio, onde terá a oportunidade de ouro de mostrar o quanto ele é rápido e capaz no atletismo.  O Professor esportivo Snyder percebe logo de cara, a potencialidade que Owens tem para competir e ganhar corridas. Não demora muito, não sem esforço e vencendo o costumeiro racismo daquela sociedade, para que Owen seja chamado para competir nas Olimpíadas de Berlin que se aproximam.

Um grande problema é que o regime nazista não quer que negros e judeus venham competir nos jogos olímpicos. O que fazer diante de uma arbitrariedade tão absurda? O Comitê Olímpico Americano está dividido. Um de seus representantes, Sr. Brundage, vai ter com Josef Goeebels, líder nazista e grande responsável pelas Olimpíadas que estão para acontecer. Ele pergunta a Goeebels:

“Querem ser lembrados como aqueles que sediaram os jogos sem os EUA? [...] Ouçam, não estou aqui para dizer como devem governar seu país. Se entro na casa de alguém, não vou urinar no tapete. Mas não espero que sirvam estrume e digam que é foei gras. Querem usar esses jogos para vender suas ideias torpes ao mundo. E estou aqui para dizer que ninguém vai aceitar isso. Precisam mudar esse comportamento! [...] E quero a palavra de vocês, hoje, de que não excluirão judeus e negros dos Jogos. Sendo cidadãos americanos, traremos marcianos se quisermos!”

Ele tem a palavra do fantoche de Hitler de que os Estados Unidos poderão levar seus atletas negros e judeus para competirem em solo alemão.

Uma organização negra pede para que Owens não vá para Berlin, argumentando que ir competir nesses jogos é de certa forma apoiar o regime racista do nazismo. Owens fica pensativo e até diz dias depois ao seu treinador que não irá aos jogos. Porém, volta atrás e decide viajar para a Alemanha e ganhar daqueles alemães FDP.

Quando ganha sua primeira medalha de ouro, Hitler não o recebe. Um nazista diz que o Führer precisou sair mais cedo. Mera desculpa para não receber um negro, que se mostrou melhor atleta que os seus adversários anfitriões. Goebeels, que está presente solta o seu veneno:

“Acha mesmo que ele [Hitler] vai concordar em ser fotografado apertando a mão dessa coisa [Owens]?”

Não importa. Owens estabelece novos recordes olímpicos e acaba ganhando quatro medalhas de ouro, humilhando o regime nazista em seu próprio território. Foi o grande atleta daquelas Olimpíadas dos anos 1930.

O restante nós já sabemos a história: os nazistas invadem a Polônia em 1939, e a Segunda Grande Guerra Mundial se inicia, deixando um rastro de mortes e horror.

Filme muito bom.  

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Até o Último Homem


É simplesmente emocionante. É absurdamente irônico!

Começa a Segunda Grande Guerra Mundial, em 1939 - os EUA sofrem um ataque surpresa dos japoneses em Pearl Harbor – não tem outra escolha, a não ser entrar na guerra e matar aqueles japoneses FDP. Iniciam-se as convocações – jovens e mais jovens vão se alistando para defender e honrar o seu país. Dentre esses jovens encontra-se Desmond Doss, um jovem diferente e com convicções assustadoramente inabaláveis. Ele é um Objetor de Consciência, uma espécie de pacifista, que se nega em pegar em armas; que em hipótese alguma tiraria a vida de alguém, até mesmo dos japoneses.

Para Doss o ataque japonês foi uma afronta ao seu país, que ele encara como um ataque pessoal, que precisa ser corrigido. Sua ajuda ao país será de mãos limpas, sem matar uma única pessoa. Ele acaba sendo uma desagradável surpresa no campo de treinamento. Ganha a antipatia e total reprovação de seus colegas e de seus superiores, indo preso e julgado, quase indo a corte marcial, se não fosse a intervenção de um soldado de alta patente e veterano, que lutou ao lado do pai de Doss, na Primeira Grande Guerra Mundial (1914-1918). Doss, até perde o casamento, pois estava trancafiado pelo exército, visto que não conseguiu a liberação para sair do quartel.  

Doss queria ir para campo de batalha contra os japoneses, não para matá-los, mas para salvar a vida de seus companheiros, quando estes precisassem. Sua convicção ele extraía de suas interpretações da Bíblia. Foi um adventista do sétimo dia pacifista e idôneo guardador do shabat (sábado). Carregava para todo lado sua pequena Bíblia e a foto de sua amada dentro dela.

Ele fez todo o treinamento exigido, com a única exceção de não pegar num rifle, de não aprender a atirar, mesmo que fosse para a guerra sem ser obrigado a usá-lo. A lei garante a sua liberdade de consciência e de não usar armas, mesmo indo guerrear.

Seus colegas de treino e ele vão para a guerra, os soldados o veem com muita desconfiança – acham Doss um louco e covarde. Mas em Okinawa, numa batalha sangrenta, dolorosa e difícil contra os japoneses, o pacifista maluco e fanático mostra o seu extremo e verdadeiro valor ao lado de seus companheiros de guerra. Quando a primeira batalha termina, ele é o único que fica em meio aos mortos, procurando por seus companheiros que porventura estejam vivos, sem ligar para a sua vulnerabilidade diante soldados inimigos.

Surpreendentemente, ele vai salvando dezenas e dezenas de soldados mutilados, que estavam ali para serem mortos pelos soldados japoneses. Um por um, em um trabalho incansável e heroico, ele vai salvando os seus amigos. Aquele garoto franzino, bobo e alvo de chacota, vira um gigante da guerra, se destacando de uma maneira que ninguém imaginava. Conseguiu com muita competência e amor aos seus companheiros, o seu objetivo de salvar muitas e muitas vidas.

Desmond Doss morreu em 2006, nos seus 87 anos, deixando um legado incrível.

Até o Último Homem é um daqueles filmes que tem que estar na playlist de qualquer cinéfilo.

quinta-feira, 8 de junho de 2017

Tempo de Glória



Os Estados Unidos foi mais um país que vergonhosamente fez uso do trabalho dos negros vindos da África, escravizando-os e desumanizando-os. Grande parte de sua riqueza foi adquirida sob o manto de sangue e muito sofrimento de um povo retirado de suas terras, num outro continente, para trabalharem coagidos nas plantações do novo mundo. Todavia, chegou um momento em que a escravidão estava se tornando inviável a nação. Sem concordância entre os Estados do norte e do sul, instala-se a Guerra Civil Americana, ou Guerra de Secessão, iniciada em 1861 até 1865.

Soldados da União contra soldados confederados. Norte livre e industrializado, contra o sul escravocrata e rural. Dois polos divergentes lutando pelos seus interesses econômicos. Uma nação dividida. O chefe do executivo, o Presidente Abraham Lincoln era a favor do fim do sistema escravocrata. Os grandes senhores sulistas, aflitos, não queriam perder a mão de obra escrava, que lhes davam grandes somas de dinheiro anuais.

Os negros, que sempre foram maltratados e humilhados naquela sociedade racista, agora tinham a chance de mostrarem o seu valor na guerra, não sem sofrerem os velhos e costumeiros preconceitos, discriminações, piadas desonrosas e adjetivos ultrajantes, como macacos, crioulos, bichos...

Tempo de Glória é a história real de um regimento formado por combatentes negros, em 1862. Inicialmente, eles foram convocados não para lutar na frente de batalha, mas para fazerem trabalhos secundários e sem muita importância na guerra. Não tinham o fardamento, não tinham sapatos, não tinham a atenção que lhes eram devidas. Eram extremamente disciplinados e organizados, aprendiam as táticas e técnicas das batalhas rapidamente. Estavam prontos para defender a União, o lado norte.

O filme nos mostra a convocação, o treinamento, as disputas internas, a convivência tensa entre brancos e negros e as duas batalhas importantes travadas por esse regimento. Traz atores consagrados como Morgam Freeman e Denzel Washington. Este, um preto briguento, chato e petulante, que não abaixava a cabeça para ninguém, sendo até brutalmente castigado pela sua rebeldia.

Uma ótima película para entender um pouco do que foi a única guerra que ocorreu em solo norte-americano, travada por eles mesmos, tendo como enfoque principal, o papel dos negros no campo de batalha.

O fato é que os Estados da União venceram a guerra, mas os negros do sul, agora livres, não tiveram suas vidas tão mudadas, apesar de estarem pelo menos em teoria libertos do chicote dos feitores. Praticamente nada mudou em suas vidas, que ainda continuavam miseráveis, e agora amargavam todo o veneno e ressentimento do racismo dos brancos sulistas inconformados com o fim da escravidão.

Logo em seguida ao fim da guerra, surge a Ku Klux klan, organização racista que tocou terror no sul, matando, torturando e infernizando a vida dos recém libertos negros. Até hoje o espírito nojento da KKK contamina milhões de norte-americanos, que se acham superiores por terem um tom de pele claro. Várias seitas estão presentes, alegando a superioridade branca, convencendo e doutrinando a muitos jovens, de que os problemas sociais que afligem a nação, é culpa exclusivamente dos negros, asiáticos, mexicanos, imigrantes...

Ok, muita enrolação já. O filme não menciona nada disso.

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Horror em Amityville


A casa mal assombrada mais famosa e comentada do mundo. Está localizada no bairro de Amityville, em Nova Iorque. Ela vem causando curiosidade e assombro, desde a década de 1970, época em que aconteceu fenômenos estranhos e sombrios, que resultaram no assassinato de uma família inteira, em 1974.

Um dos filhos do casal disse que ouviu vozes que lhes ordenavam que matasse a todos da família. Não deu outra: sucumbiu as ordens dadas. Matou a sangue frio, com uma arma o pai, a mãe e os irmãos, enquanto eles dormiam. Depois ele chamou a polícia, onde naturalmente foi preso e condenado. O infeliz continua vivo, preso em Nova Iorque.

Um 1 ano depois do trágico episódio que acometeu a família DeFeo, chegaram os Lutz para morarem na casa. Compraram-na por um preço bem barato, bem abaixo do valor de mercado. A família Lutz (pai e mãe) sabia que ali tinha acontecido uma grande tragédia, porém, não deram muita importância ao passado da casa.

Não demorou muito para que fenômenos sobrenaturais aparecessem frequentemente a vista de todos naquela velha mansão. Vozes, móveis se movendo, visões dos assassinatos ocorridos... Em 28 dias eles deixaram a casa, e nunca mais voltaram nem para pegar os seus pertences.

Livros, filmes, documentários, notícias e mais notícias nos jornais, tornaram essa casa um símbolo do lar satânico e manifestações maléficas. Contabilizei 16 filmes tendo como tema essa casa. 
  
Horror em Amityville é o remake, lançado em 2005, do primeiro filme visto em 1979. Trama interessante, que procurar ser fiel ao que alega-se que aconteceu naquele tempo. Claro que tem os elementos imaginativos e estéticos inerentes ao qualquer filme, mas dentro dos limites possíveis.

Seria o assassino, Ronald DeFeo Jr., um louco, ou ele ouviu vozes do mundo espiritual, que o fizeram fazer o que fez? Fato é que ele era drogado, usava cocaína e LSD. Isso ajuda a manter as coisas no âmbito do natural, sem apelar para o extranatural.

Mas e as outras manifestações espirituais negativas ocorridas um ano depois com os Lutz? O trauma do que se passou ali foi tão enorme e desgastante, que até hoje um dos membros da família vive numa letargia crônica e incurável. Ele garante que o que presenciaram naquela casa era algo terrivelmente demoníaco.

Suponho que eles não presenciaram fenômenos do outro mundo. Descartar por completo a versão alegada por eles, também não posso, sobretudo, quando eu mesmo já tive experiências nada agradáveis quando criança, numa casa que morei até os 9 anos de idade, quando vi em mais de uma ocasião seres não humanos, que me fazem refletir até hoje, na possibilidade de que essas coisas podem existir, conquanto não tenhamos provas concretas a respeito de nada disso, mas apenas experiências, experiências e experiências.

Outras pessoas (corajosas) moraram na macabra casa localizada na Ocean Avenue 108, New York, e garantem que não sofreram nenhum abuso de seres do outro mundo. Viveram quietas e tranquilas. O demônio parece que tirou férias, ou resolveu voltar para o seu lar: o quinto dos infernos. 

O Homem Que Viu o Infinito


Se não existe nada de bom que podemos extrair da estrutura sócio-política-cultural da Índia, um país altamente desigual e sombrio, pelo menos, temos belos exemplos de alguns de seus cidadãos, que deram uma grande contribuição positiva a sociedade global. Nesse caso, realizações extraordinárias na Matemática.

Ramunajan foi uma dessas pessoas. Figura brilhante, diga-se de passagem, que intuía de modo assombroso intricadas fórmulas matemáticas até então impossíveis, que o fez se tornar, não sem muito esforço e força de vontade, membro da Sociedade Real da Trinity, na Universidade de Cambridge, Inglaterra.

Na Índia no início do século XX, na iminência da primeira guerra mundial (1914), Ramunajan cria do “nada” equações e fórmulas matemáticas, que ele urgentemente precisava mostrar ao mundo. Resolve enigmas matemáticos complexos que eram considerados impossíveis de serem solucionados.

Consegue entrar na Trinity, quando Hardy, um Professor, vê nele uma potencialidade enorme, que mudará os rumos da Matemática. Mas há um problema: Ramunajan sempre apresenta suas conclusões (fim). Hardy insiste durante todo o filme para que ele apresente as provas (meios), pois se não proceder assim, não será aceito e nem ouvido pela comunidade de Matemáticos.

Ramunajan tem intuições poderosas para formular equações extremamente complexas, sem ter passado por nenhuma escola especializada em números. Todavia, não sabe apresentar as provas exigidas por Hardy. Para ele, suas equações estão matematicamente corretas e ponto final. Hardy sabe que ele provavelmente esteja certo; acredita piamente que está diante de um gênio comparado a Newton. Mas precisa das malditas provas.

Não demora muito para que o preto indiano provoque invejas grosseiras dos próprios acadêmicos velhotes, que passaram a vida inteira estudando, e que agora, estão diante de um moleque saído do fundo do poço de um país atrasado e incivilizado, que sabe lidar com proeza e façanha o universo dos números. Sem argumentos, acusam-no de embusteiro e impostor, e ainda querem puxar o tapete de Hardy, seu protetor na Universidade.

Ramunajan finalmente apresenta as malditas provas solicitadas, e adivinhem: o indiano estava correto. Possuía as intuições certas, revolucionando para sempre o mundo abstrato da Matemática. Acaba sendo aceito na Sociedade Real.

Hardy, seu incentivador, em discurso para os Professores do Trinity, disse o seguinte:

“Bem, agora vemos o trabalho [de Ramunajan] com petições e o enorme avanço que foi obtido. Tudo isso, entendam, por um homem cujos limites do conhecimento quando o conheci eram impressionantes quanto profundos. As opiniões podem diferir quanto à importância do trabalho de Ramunajan e a influência que pode ou não ter na Matemática do futuro. Mas um dom que ele apresenta é sua profunda e invencível originalidade. [...] Ele me disse, que para ele, uma equação não tinha significado a não ser que expressasse o pensamento de Deus. Bem, apesar de tudo em mim indicar o contrário, talvez ele esteja certo. Pois esta não é exatamente a justificativa para a Matemática pura? Somos meros exploradores do infinito em busca da perfeição absoluta. Nós NÃO INVENTAMOS essas fórmulas, elas já EXISTEM e, adormecidas, esperam que mentes mais brilhantes como as de Ramunajan as encontrem e as comprovem.” (Ênfase acrescentada).

Poderosa história real, de um verdadeiro gênio e intelecto poderoso. Filme fantástico. 

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Sonhos Imperiais


“O gueto é a prisão mais cruel. É um castigo peculiar. Nós nascemos nele. Igual aos coitados da Coreia do Norte, que cumprem pena por algo que o avô fez. Não precisa de muros para manter as pessoas dentro. E, quando nascemos, não sabemos o que fazer com a liberdade. Por mais bonita que pareça.”  

A criminalidade não tem fim nos guetos afros. Negros matando negros. Consumo e tráfico de drogas, que geram mais mortes e inimigos. Irmãos de cor vendo-se como adversários mortais. As gerações vão se sucedendo, e a história vai se repetindo. Há muitas décadas, a comunidade negra continua no fundo do poço, devido a vários fatores, como a pobreza, desemprego, falta de oportunidade, descaso do governo, racismo dos brancos (sim, isso mesmo)... Junte-se a tudo isso, a índole ruim de muitos pretos, e está formada uma sociedade doente e sem esperanças. Filmes e mais filmes vêm retratando essa realidade dura e cruel que acomete milhões de afro-americanos. Muitos têm caráter e bom coração, mas infelizmente, as circunstâncias os forçam a fazer besteiras.  

Sonhos Imperiais traz a história de um típico jovem negro de um bairro tomado pela criminalidade, recém saído da prisão por assalto a mão armada. Sua mulher está presa, sua mãe é uma alcoólatra e drogada, que vive a maior parte do tempo chapada, seu tio é um traficante, e de quebra, ele ainda tem um filho pequeno para criar.

Como reconstruir sua vida na honestidade, se não há nenhuma oportunidade em vista? Como não voltar para a vida do crime? Tentando viver de modo íntegro e ser exemplo para a sua pequena cria, ele recusa a oferta de seu tio Shrimp de deixar uma carga de drogas na cidade de Portland. Inconformado com a negativa de seu sobrinho, o seu tio o expulsa de casa, junto com o seu filho. Bambi e Dayton, sem terem para onde ir, vão morar dentro de seu carro velho e sem gasolina, sem nenhuma estrutura mínima de conforto.  

Shrimp: - Quando quer ir a Portland? Preciso de alguém de confiança.

Bambi: - Eu não posso.

Shrimp: - Eu entendo esse lance de escrever. Você se sente mais civilizado. Mas de que adianta se você não ajuda a sua família? Entendeu?

Bambi: - Eu posso limpar a casa. Estou procurando um emprego para alugar um canto.

Shrimp: - Não é isso. Eu preciso de ajuda de verdade. Não negão. Volte aqui. Você é grandinho. Quer morar aqui? Siga a porra das regras.

Bambi: - É arriscado demais.

Shrimp: - Eu estou cagando para isso, sobrinho. Ou você vai a Portland, ou dá o fora. Minha casa não é um orfanato.

Bambi: - Qual é? Nós não temos lugar para ir. 

Shrimp: - Estou avisando, quando eu acordar se você não colaborar, não quero ver você, nem aquela porra de moleque e nem aquela merda de carro que você estacionou na minha casa. Você tem que merecer morar aqui. Escreva isso.  

Bambi tem um sonho: ser escritor. Antes mesmo de ser expulso da casa de seu tio, ainda quando estava na prisão, começou a escrever sobre a sua história para não enlouquecer naquele lugar desumano. No carro, continua escrevendo num caderno e lendo em voz alta, alguns trechos, para que seu filho escute.

Dias depois, perde a guarda do filho, que fica sob a custódia do Estado, mas um raio de esperança desponta no horizonte, quando surge interesse de uma editora em publicar os seus escritos e memórias.

Filme muito bom.  

domingo, 4 de junho de 2017

Primeiro Contato: Tribo Perdida da Amazônia


Em 2014 foram encontrados os índios de uma das últimas tribos incontactadas restantes. Silvícolas sem nenhum conhecimento do mundo exterior. Nunca tinham tido contato com a tecnologia moderna. Mas quis o destino que eles tivessem essa aproximação com o homem branco.

Uma riqueza para a Antropologia! Uma riqueza cultural! Um momento histórico super importante para a Etnografia.

A tribo Sapanawa com 34 índios foi contactada, na fronteira entre o Brasil e o Peru. O momento foi filmado. Situação muitíssimo tensa, de ambos os lados. Só uma palavra dita pelos indígenas os homens brancos conseguiram entender: Shara = Bom.

Encontro perigoso, principalmente para os índios, que estavam querendo pegar as roupas dos brancos, pois viviam nus na floresta. Queriam levá-las e usá-las. Os Antropólogos desesperados tentavam impedi-los, visto eles não tinham imunidade contra as doenças dos brancos.

“Os antropólogos sabem que tribos isoladas, não têm imunidade contra vírus comuns, tornando roupas e objetos um perigo real.”

Basta lembrar que quando os europeus chegaram nas Américas, trazendo as doenças comuns da Europa, milhões de índios nem precisaram ser mortos por eles, posto que as mazelas dos portugueses e espanhóis, como uma simples gripe, já era suficiente para matá-los. Dessa maneira não poucos vieram a óbito.

O encontro foi uma surpresa que causou um frisson em todo mundo. Nove meses depois do primeiro contato, a tribo dos Sapanawa já estava sob a proteção da FUNAI. Vivendo em maior segurança e com o apoio médico da organização, mantendo ao máximo possível a identidade cultural deles.

Alguns hábitos já não eram mais os mesmos. A tribo já estava usando sandálias, roupas, espelhos, deitados em redes, com machados e facas para caçar e etc. Isso descaracteriza a identidade cultural deles, fazendo-os perder os seus mais primitivos modos de lidar e viver com a natureza? Não segundo, eles próprios. O líder, por nome Xina, diz que eles não querem mais ficar nus. Ele diz que sentem vergonha.

As mulheres da tribo adoram usar roupas e sandálias. Elas se sentem mais seguras. O líder chega a dizer que eles nunca dormiam direito na selva. Quanto a comida, era extremamente escassa e difícil. Passavam até quatro dias sem comer.

O documentário lança a sua atenção para um grande problema de outra tribo incontactada, que tem atacado moradores numa região, no Peru. A coisa lá é bem complicada e delicada, pois o governo peruano tem uma lei que proíbe o contato e quaisquer ataques e revides a essas tribos. Mas ao mesmo tempo, os moradores ribeirinhos se veem desprotegidos, pois esses índios têm atacados suas moradias, roubando e matando gente. Não é fácil resolver isso.

Voltando a mutabilidade dos hábitos dos Sapanawa, o Antropólogo José Carlos Meirelles diz algo importante:

“Por que que os índios têm que estar dentro de uma redoma de vidro, a todo tempo com penas, cantando e dançando? Não adianta a gente querer que os índios fiquem imutáveis, sabe? Que mudem nunca. Claro que eles vão conhecer o mundo e mudar. É perigoso? É. Dá problema? Dá. Vai morrer índio? Vai. Vai ficar índio pirado? Vai. Mas isso assim que é, meu amigo. Assim é que é a vida. Eu vejo assim, e não vejo nenhum problema. Daqui a vinte anos, trinta anos, tem um sapanawa lendo, escrevendo, estudando em Rio Branco, na Universidade do Acre. Qual é o problema? Quem não se modifica na natureza, quem não se adapta, morre. É Darwin."

A Incoerência do Relativismo

Os relativistas dizem: “Não existe esse negócio de verdades absolutas, esse negócio de certo ou errado!” Essa afirmação é auto refutável, autodestrutiva, ou seja, não satisfaz os seus próprios critérios de validade! Afirmam exatamente aquilo que estão tentando negar! Os relativistas estão ABSOLUTAMENTE certos de que não existem ABSOLUTOS! A pergunta que se deve fazer a eles é esta: “Vocês estão ABSOLUTAMENTE CERTOS disso?” Eles ficarão num beco sem saída. Toda e qualquer resposta que eles derem será contraditórias.

Porém, alguns relativistas dizem que essa pergunta, é uma “pegadinha filosófica”, ou, um “jogo de palavras” que são destruídas pela Filosofia da Linguagem. Afirmam que a linguagem é limitada e produz paradoxos que leva a certas ideias não poderem ser expressas plenamente a não ser em longos e "resolutos discursos". Dizem que “as contradições do discurso são causadas pelo paradoxo linguístico”. No entanto, se essa pergunta é um “jogo de palavras, a afirmação “Não existem verdades absolutas...” também o É! Pois a pergunta segue a mesma estrutura gramatical que a afirmação, usando as mesmas palavras chaves. Meu amigo Amadeu Leandro (Licenciado em Filosofia na UFRN) acertadamente diz:

“O problema com essa contradição é que ela não se restringe apenas a uma contradição linguística, mas lógica. Ora, devemos lembrar que os nossos pensamentos são expressos pela linguagem. É na e pela linguagem que ocorre a transmissão do pensamento. Querer dizer e tentar evitar as contradições do discurso afirmando que essas contradições são frutos do paradoxo linguístico é um escapismo. O mais interessante é ver que quando os relativistas se veem em contradição eles jogam a culpa para a linguagem. Mas por que também não seguir o caminho inverso, isto é, atribuir aos paradoxos linguísticos quando eles não cometem contradição? Vamos também classificar de paradoxo linguístico o enunciado de que ‘as contradições do discurso são causados pelo paradoxo linguístico’. Além do mais, se essa pergunta for um jogo de palavras e por isso deve ser rejeitada, então pelo mesmo raciocínio o discurso dos relativistas também o são, e logo devem rejeitá-lo. Esse é o calcanhar-de-Aquiles do relativista: ao tentar refutar alguém, refuta a si próprio, caindo na própria armadilha.”

Ele continua:

“O relativista é contraditório quando nega a existência da verdade. Pois negar a verdade já é PRESSUPÔ-LA. É impossível alguém afirmar: “VERDADES NÃO EXISTEM”, se não acreditar na VERDADE dessa declaração. Negar isso é tão absurdo quanto o aluno que responde ausente enquanto o professor faz a sua chamada.

Com efeito, para um relativista rejeitar uma cosmovisão como falsa soa estranho. Um verdadeiro relativista jamais deve rejeitar a crença de alguém como falsa. Pois ao fazer isso, o relativista está supondo que o outro que adota um ponto de vista contrário ao seu, está errado, o que implica que o seu (a do relativista) é a certa. Mas aqui vai uma pergunta: como o relativista pode rejeitar uma crença de outra pessoa como falsa, se a verdade não existe? Um relativista para ser coerente com a sua filosofia deve aceitar todas as crenças, inclusive aquelas que ele discorda, como igualmente válidas, uma vez que não existe um padrão de verdade!

O relativista diz: “TUDO É RELATIVO.” Bem, se tudo é relativo, então não é verdade que tudo é relativo, pois essa proposição tem um ar de ABSOLUTA. Para falar a verdade, o grande inimigo do relativista são as suas ações. Pensam que verdades ou valores objetivos não existem, mas vivem como se eles existissem.

Só uma ironia: espero que os relativistas não discordem do meu argumento, já que não existem critérios fixos pelos quais possa discordar de mim. Na realidade, eles não podem dizer que o meu argumento está certo ou errado, já que não há padrões de verdade para fazer tal julgamento do meu texto.”

Outro amigo, Pedro Mendes, Licenciado e Pós-Graduado em Ciências da Religião na UERN, com perspicácia escreveu:

“Se ‘não existe verdade’, então a frase ‘não existe verdade’ não é verdadeira, logo, deve existir verdade. Se a ‘verdade é relativa’, a afirmação ‘a verdade é relativa’ também é relativa, o que implica haver uma verdade absoluta.

Se não há nenhuma verdade absoluta, mas somente interpretações dos fatos, a mentira também não existe, pois como pode a mentira existir sem a verdade? Não seria a mentira também uma simples interpretação dos fatos? Sem a absolutização da verdade, o bem e o mal são a mesma coisa, vistos por ângulos diferentes.

Dessa forma, a devota Madre Tereza de Calcutá e o tirano Adolf Hitler não passam de caricaturas humanas, frutos do seu próprio tempo. Em suma, a caridade e a bestialidade, seriam meras convenções humanas; a virtude e a piedade poderiam ser colocadas ao lado do ódio e da maldade, e tudo terminaria na mesma.

A verdade precisa existir, caso contrário, que sentido faz em dizer que o outro está errado? Por que se incomodar com as inverdades ou com as injustiças? Por que se chatear quando alguém toma o seu lugar na fila ou rouba ou seu sanduíche? Afinal, toda crítica que se faz ao outro não pressupõe uma verdade a priori? De outra forma, nenhuma crítica faria sentido, e nenhum juízo de valor aconselhável, você não acha? Anulando a verdade e a crítica, não estaríamos decretando com isso a morte do pensamento?”

Peter Lipton (Professor e Chefe do Departamento de História e Filosofia da Ciência na Universidade de Cambridge) diz:
                              
“Os filósofos não estão de acordo quanto a isto. Todavia, sou de opinião de que existem verdades absolutas. (…) Pode haver áreas em que não se possa chegar à verdade absoluta. Algumas pessoas diriam que as afirmações sobre questões éticas são desse exemplo; outras di-lo-iam acerca das afirmações sobre beleza. Porém, disto não se infere que não existam áreas em que há verdade absoluta.

Posto isto, a pergunta que se impõe é se dispomos de algum exemplo plausível de verdade absoluta. Eis um: «Há árvores em Portugal». Não é a frase mais excitante que imaginar se possa, concordo, mas é verdadeira, e não só para mim. É apenas verdadeira, absolutamente. Deixo-lhe a missão de descobrir exemplos mais interessantes.”

(http://www.paginasdefilosofia.net/page/92/ - Texto do livro de Alexandre  George, O Que Diria Sócrates, Gradiva, 2008, P. 37-39).

Norman Geisler (Ph.D em filosofia pela Universidade Loyola, membro da Associação Cientifica Americana, Sociedade Americana de Religião e da Sociedade Filosófica Americana) escreve:

“Existem muitas outras verdades sobre a verdade. Veja algumas delas:

•             A verdade é descoberta, e não inventada. Ela existe independentemente do conhecimento que uma pessoa tenha dela (a lei da gravidade existia antes de Newton).

•             A verdade é transcultural. Se alguma coisa é verdadeira, então ela é verdadeira para todas as pessoas, em todos os lugares, em todas as épocas (2 + 2 = 4 para todo o mundo, em todo lugar, o tempo todo).

•             A verdade é imutável, embora as nossas crenças sobre a verdade possam mudar (quando começamos a acreditar que a Terra era redonda, em vez de plana, a verdade sobre a Terra não mudou; o que mudou foi nossa crença sobre a forma da Terra).

•             As crenças não podem mudar um fato, não importa com que seriedade elas sejam esposadas (alguém pode sinceramente acreditar que o mundo é plano, mas isso faz apenas a pessoa estar sinceramente errada).
•             A verdade não é afetada pela atitude de quem a professa (uma pessoa arrogante não torna falsa a verdade que ela professa. Uma pessoa humilde não faz o erro que ela professa transformar-se em verdade).

[...]

Em resumo, é possível haver crenças contrárias, mas verdades contrárias é uma coisa impossível de existir. Isso parece suficientemente óbvio. Mas como lidamos com a assertiva moderna de que não existe verdade?

Uma afirmação falsa em si mesma é aquela que não satisfaz o seu próprio padrão. A afirmação — ‘Não existe verdade’ — pretende ser verdadeira e, portanto, derrota a si mesma. É como se um estrangeiro dissesse: ‘Eu não consigo falar uma palavra sequer em português’. Se alguém dissesse isso, você obviamente responderia: ‘Espere um minuto! Sua afirmação é falsa porque você acabou de falar em português!’.”

(GEISLER; Norman; TUREK, Frank. Não Tenho Fé Suficiente Para Ser Ateu. São Paulo: Vida, 2007. P. 36-37).

Dr. Mário Carabajal, Psicanalista Clínico e Presidente da Academia de Letras do Brasil, nos diz algo interessante:

Ao conhecer as verdades relativas, conhecemos também parte da verdade absoluta. Veja-se a teoria do átomo. Embora ela corresponda à realidade, não é completa. Não podemos dizer que esgotamos o assunto. Há muito ainda por conhecer sobre a natureza e a quantidade das partículas elementares que formam o átomo, sobre as causas que originaram sua mutabilidade, a ‘bola de fogo’ de César Lates... A atual teoria do átomo é uma verdade relativa, mas, ao mesmo tempo, ela contém graus de verdade absoluta em crescimento. Assim, a verdade relativa que conhecemos contém partículas da verdade absoluta, é um momento da verdade absoluta. O Pensamento Humano é, por natureza, capaz de conhecer a verdade absoluta que resulta da soma global das verdades relativas. Cada fase do desenvolvimento da ciência adiciona novas partículas a essa soma global de verdades relativas. A verdade absoluta está para a verdade relativa como o todo está para as partes.

(http://www.academialetrasbrasil.org.br/literoterapia.htm - Texto Introdução à Litoterapia)

No programa Café Filosófico da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, há alguns anos, Alípio Filho (Ph.D em Sociologia Université Rene Descartes, Paris V, Sorbonne) falou sobre A Concepção Construcionista da Realidade – visão predominante na Sociologia e Antropologia. Uma teoria que afirma que toda a realidade é um construto social; em outras palavras é a negação de verdades objetivas. Na sessão debate, um ouvinte lhe fez uma pergunta bastante capciosa, porém, uma pergunta que deitou por terra toda (ou quase toda) a teoria exposta pelo Alípio. A pergunta foi:

“Professor Alipío, eu queria perguntar se você não acha que essa posição construcionista não tem, vamos dizer, de base, uma posição realista na medida em que para perceber que a realidade é um construto, eu preciso perceber o que é a realidade em si. Então se ela não tem como fundamento uma percepção do real?! É isso.”

O questionamento de Anastácio Borges (Ph.D em Filosofia na Unicamp) mostrou a falácia do fundamento da Sociologia do Alípio (tudo é uma construção social). Ao longo de mais de 20 minutos, ele expôs a sua teoria de maneira clara e fluente (embora, às vezes, gaguejasse um pouco), contudo, quando se deparou com essa pergunta – gaguejou bastante e como resposta, disse que era uma questão importante, contudo, que o tempo era pouco para responder; falou sobre os pré-socráticos; nominalistas e naturalistas; admitiu que há uma base realista materialista, mas que essa realidade se dá através da linguagem... Enfim, fez uma explanação interessante, mas que não convenceu, ou, só convence quem já acredita ou quem está predisposto a crer nessa teoria.

Pois se tudo é uma construção social, por que os Sociólogos e Antropólogos fazem tanta questão de “provar” isso? Essa tese de que tudo é um construto, está mais para um postulado metafísico e dogmático que não pode ser provado. Pois se essa idéia for “verdade”, a própria afirmação (tudo é um construto social) também é fruto de uma construção social condicionada ao meio em que foi formulada! Não é uma afirmação OBJETIVA, mas construída socialmente. E, portanto, não tem mais valor do que a afirmação dos “reacionários”, “direitistas”, “religiosos atrasados”, de que nem tudo é uma construção social, de que existem absolutos morais, verdades objetivas e que se pode conhecer pelo menos parte da realidade em si. E, se, este for o caso, e É - por que esses Cientistas sociais, muitas vezes discordam veementemente quando são questionados pelos seus alunos em sala de aula? Não são raras às vezes, em que esses alunos mais perspicazes são tratados com desdém e ridicularizados por esses “intelectuais” contemporâneos.

O Filósofo Olavo de Carvalho percebeu uma ironia que acontece frequentemente quando se debate com os relativistas:

“Os sujeitos que menos toleravam objeções eram precisamente aqueles que mais proclamavam a relatividade de tudo e a inexistência de verdades absolutas”.


Ele está certíssimo! Eles acusam os veristas e moralistas de terem a mente fechada. Mas por que estes teriam a mente fechada? Por que não concordam com o relativismo e dizem que o mesmo está errado? Contudo, os relativistas, não concordam com o absolutismo verista e moral, dizem que os que abraçam essa visão não estão certos. Então pelo mesmo raciocínio, os relativistas teriam a mente fechada! No entanto, eles não admitem essa conclusão. Usam dois pesos e duas medidas. Mas não importa. A carapuça de mente fechada lhes caem muito bem. Não toleram nenhuma ideia que vá de encontro as suas teses relativistas. O que é um CONTRA-SENSO dos GRANDES, já que eles dizem não existir verdades absolutas ou objetivas. É interessante notar que muitos relativistas já escreveram longos textos, livros e artigos tentando “provar” a não-existência de verdades objetivas. Mas se elas não existem, pra quê se preocupar em convencer os veristas de seu “erro”? A maior prova de que os relativistas acreditam em verdades absolutas são seus extensos textos tentando negar a existência de tais VERDADES. Os relativistas só não querem admitir o óbvio.

PS: parece-me que a maioria dos Filósofos não estão a vontade em usar a expressão “verdade absoluta”, preferindo no lugar desta, “verdade objetiva”. Uns usam as duas expressões de forma intercambiável, como sinônimas.