quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Vozes Femininas no Início do Cristianismo


ALMEIDA, Rute Salviano. Vozes Femininas no Início do Cristianismo. São Paulo: Hagnos, 2017.

Rute Almeida tem preenchido uma lacuna na história do cristianismo, trazendo as aventuras das personagens femininas que também protagonizaram os vários acontecimentos importantes dessa religião. Li o seu primeiro livro, Uma Voz Feminina na Reforma, e li a sua segunda obra, Uma Voz Feminina Calada Pela Inquisição. Ela lançou uma terceira literatura, Vozes Femininas no Início do Protestantismo Brasileiro, que ainda não li. E agora, em 2017, foi lançada Vozes Femininas no Início do Cristianismo, que acabo de ler e recomendo.

No capítulo inicial é dado um panorama geral de como era o império romano antes, durante e depois de Jesus. Fala-se sobre a capital Roma, sua cultura, culinária, costumes, abastecimento de água, lazer de sua população, governo de César Augusto, religião, magia, ritos, vícios, os abortos e infanticídios permitidos, a relatividade dos casamentos, que eram facilmente dissolvidos pelo divórcio. Sobre uma das crendices de Tibério, segundo Imperador, Salviano nos diz:

“Tibério, imperador romano sucessor de Augusto, era bastante supersticioso e tinha pavor dos trovões; quando havia tempestade, nunca deixava de pôr na cabeça uma coroa de louros, crendo que as folhas o livrariam dos raios.” P. 54.

No segundo capítulo são nos dadas informações preciosas sobre o cristianismo primitivo. A liturgia do culto cristão no século II, a práticas de caridade, casamento e criação dos filhos, as primeiras literaturas cristãs, os primeiros líderes do cristianismo pós-apostólico, as perseguições aos cristãos, celibato, a hierarquia dentro da comunidade de fiéis, gnosticismo, salvação pelas obras, entre outros. Sobre o cuidado dos cristãos para com as crianças, está escrito:

“Numa cultura na qual o infanticídio e o abandono de crianças eram práticas comuns, as igrejas cristãs se empenharam na tarefa de cuidar de crianças indesejadas e órfãs.” P. 76.

No capítulo três, Salviano nos mostra como se configurava o sexo feminino na sociedade romana nos primeiros séculos. Educação e matrimônio das mancebas, o papel de esposa e a criação dos filhos, as vaidades femininas (cremes faciais, penteados, perfumes, roupas, moda, roupas, jóias, enfeites), religião feminina. Sobre as mulheres cristãs, estas estavam proibidas de casar com quem não professasse o cristianismo. A sua função na igreja, a opinião dos líderes sobre o sexo feminino, o papel do sexo no seio da comunidade cristã, são alguns dos temas abordados. Os pais da igreja eram bem machistas, consideravam a mulher, um ser de segunda classe. Um exemplo que deixa isso bem manifesto está num escrito de Tertuliano (160-220 D.C):

“Tu dá a luz na dor e na angústia, mulher; sofres a atração do teu marido e ele é teu senhor. E ignoras que Eva és tu? Está viva ainda, neste mundo, a sentença de Deus contra o teu sexo. Vive, como se impõe, como acusada. És tu a porta do diabo. Foste tu que quebraste o selo da Árvore; foste a primeira a desertar da lei divina; foste tu que iludiste aquele que o diabo não pode atacar; foste tu que tão facilmente venceste o homem, imagem de Deus. Foi a tua paga, a morte, que causa a morte do próprio filho de Deus. E pensa tu em cobrir de ornamentos as tuas túnicas de pele?” P. 147.

O capítulo quatro fala sobre as perseguições sob o governo do imperador Trajano juntamente com as cartas entre ele e Plínio, o jovem, sobre como proceder em relação aos cristãos, as primeiras defesas escritas pelos pais da igreja, respondendo as acusações injustas, e, finalmente, Salviano entra no assunto principal: as mulheres cristãs dos primeiros século da igreja. Houve perseguições nos governos de Marco Aurélio e Sétimo Severo, onde mulheres da igreja foram duramente punidas por sua fé, como Blandina, Felicidade e Perpétua. As três são resumidamente biografadas. Vários suplícios de mulheres são narrados por Eusébio de Cesareia, Historiador do quarto século. Sobre a morte de Perpétua, Salviano revela a sua coragem diante da morte:

“Perpétua, porém, padecendo com um gladiador pouco destro e com mão trêmula, viu-se obrigada ela mesma a levar a espada à própria garganta, indicando o lugar onde deveria ser cortada e assim foi feito.” P. 185.

O quinto capítulo fala sobre as mulheres do deserto, viúvas, diaconisas. São Ama Sara, Princípia, Ama Sinclética, Marcela, Fabíola, Olímpia. Todas elas deram grandes contribuições para o crescimento do cristianismo, doando seus bens, tempo e dedicando suas vidas a ajudar os mais pobres. Mulheres desprendidas, que não se importavam mais com as coisas desse mundo, mais almejavam agradar o seu deus, para alcançar o mundo vindouro.  Até os pais da igreja Jerônimo e João Crisóstomo tinham grande apreço por algumas dessas mulheres, reconhecendo o inestimável valor delas no seio da comunidade cristã. Sobre a sede de conhecimento de Marcela, o livro tem a dizer:

“A insaciável curiosidade intelectual era o que mais havia de admirável em Marcela. Ela tinha fé, mas desejava conhecimento, e o desejava da fonte mais confiável. Jerônimo, um dos principais nomes do cristianismo, era procurado por ela seguidamente com as questões mais difíceis. Marcela conhecia grego e adquiriu reputação por sua exegese bíblica detalhada e literal.” P. 214.  

O capítulo sexto traz mais histórias de mulheres desprendidas, em que algumas abraçaram o celibato, a vida contemplativa e se entregaram completamente a causa da igreja. Macrina (irmã dos pais capadócios Gregório de Nissa e Basílio de Cesareia), Mônica (mãe de Agostinho), Melânia (a anciã), Paula e Eustóquia. A Vulgata Latina, famosa tradução da Bíblia, teve a participação de duas dessas mulheres.

“Paula e Eustóquia foram companheiras fieis de Jerônimo. Ele ensinava latim para as crianças do povo, grego e hebraico para as monjas e elas, que já dominavam as línguas bíblicas, tornaram-se suas secretárias, ajudando-o em sua tradução da Bíblia para o latim, conhecida como a Vulgata.” P. 282.

O derradeiro capítulo revela-nos as peregrinações de duas mulheres que se destacaram em sua época – Egéria e Melânia (a jovem). Egéria foi uma itinerante, visitando os lugares das histórias bíblicas, meditando e orando com os monges cristãos com os quais se deparava. Melânia (a jovem) tornou-se monja, e fundou monastérios (feminino e masculino). Era muito rica e abriu mão de toda a sua riqueza, investindo o seu dinheiro a causa cristã. Quanto a Egéria, grande foi a sua contribuição na descrição dos lugares que visitou:

“O que diferencia Egéria de outros peregrinos de sua época é exatamente essa descrição de seu itinerário, que é uma das mais antigas narrativas de viagens aos lugares santos da Palestina. [...] Mesmo não sendo uma escrita clássica, a autora escreveu de forma direta e espontânea, com abundância de detalhes e descrições não só de lugares, mas de pessoas e liturgias.” P. 301-302.

Livro muito bom. Uma obra muito proveitosa para quem gosta de estudar a história da igreja cristã. 

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Documentários Vistos (18)


Espantosamente lindo! 

O Coro de Crianças Africanas é uma organização que há 28 anos (em 2013) já mudou a vida de mais de 52 mil crianças africanas, que são apadrinhadas por pessoas nos EUA, Canadá e Reino Unido, ATÉ O FIM DE SEUS ESTUDOS, incluindo a Universidade. Um projeto que honra a vida humana. Detalhe: projeto cristão, viabilizado por protestantes.

Essas crianças viajam em turnê pelos três países mencionados, dançando e cantando em ritmo africano. Conforme vão passando pelas cidades e lugares, vão sendo amorosamente acolhidas a apadrinhadas. 

Emociona de verdade! 

Cada apadrinhamento é a grande chance de um futuro de grande esperança para essas crianças e suas famílias, que vivem em extrema pobreza em Uganda. 

Moses, Angel, Nina... Crianças com sorrisos encantadores.


"Numa cultura de vencer a qualquer custo, preza-se a vitória acima do desenvolvimento de caráter." - Joe Ehrmann.

Documentário que critica, lamenta e nos mostra os resultados de uma educação desumanizante voltada para os homens desde a mais tenra idade. O resultado é uma sociedade violenta e doente. 

Parece-me que há alguns exageros, mas nada que comprometa, pois a mensagem trazida é muito positiva e um tapa na cara no nosso modo de educar e moldar a personalidade de nossos pequenos meninos.


Muitos conhecem o corajoso e abnegado trabalho de Oskar Schindler e Nicholas Winton, que salvaram milhares de pessoas das garras sangrentas do nazismo. Agora chegou a vez de outros heróis serem conhecidos e aplaudidos pelos feitos em prol da vida de milhares de judeus. O casal Sharp. O pastor Waitstill e sua mulher Martha, que saíram da sua pacata e tranquila vida na América, para irem ao olho do furacão, salvar milhares de crianças judias, antes e durante a Segunda Guerra Mundial, levando-as para os EUA, Reino Unido e Espanha. Duas almas iluminadas, que arriscaram a própria vida, para dar vida, a quem estava na iminência da morte, nas mãos dos agentes de Hitler. Não apenas crianças, mas muitos adultos também foram resgatados por eles.


Esse documentário traz a história de um dos maiores músicos da história da música. Um negro que se destacou nos EUA, a ponto de ser considerado em sua época tão excelente músico, ou até melhor, que Frank Sinatra. Foi um dos melhores pianistas do mundo; foi o primeiro negro a ter um programa televisivo em rede nacional, porém, seu programa foi proibido de passar no sul do país, região conhecida pelo seu racismo doentio e irracional. Mesmo com todo o sucesso adquirido, Nat King Cole, quando se apresentava, tinha que ficar em hotéis destinados aos negros. Pois não podia se hospedar entre os brancos. Era ofensiva a negritude; as pessoas tinham “medo do escuro”. Até mesmo em Las Vegas, ele tinha que entrar pela cozinha para fazer suas magistrais apresentações para brancos, que o adoravam vê-lo cantar e tocar. Precocemente a morte lhe encontrou, muito cedo em 1965. Mas o seu legado é incomum e inatacável. Depoimentos emocionantes e emocionados traçam a sua história, nesse merecido vídeo em sua homenagem.


Documentário visual. Não há narração. Poucas falas. Com uma ótima trilha sonora, as imagens exibidas já dizem tudo. O armamento nuclear, segundo o vídeo, poderá levar a civilização ao colapso. Talvez!

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Nascidos em Borddéis


“Os bordéis estavam cheios de crianças, elas estavam em toda parte.” – Zana Briski. 

Existe algo de bom na Índia? Deve ter, mas o lado negativo e opressor excedem e muito o que há de louvável nesse país. Nascidos em Bordéis é a história de crianças que vivem em meio a podridão dos prostíbulos indianos. Elas nasceram e vivem o seu dia a dia na sórdida realidade (prostituição) em que suas mães estão imersas, do qual também são vítimas. O pior é que o caminho mais provável dessas crianças, no caso, as meninas, é entrarem muito cedo, na mais tenra idade, no mundo dos programas sexuais. Não há muita esperança social para que elas consigam transcender as circunstâncias que as coagem violentamente para saciar a vontade louca de homens inescrupulosos. Koch, uma dessas meninas diz logo no início do documentário:

“Os homens que entram em nosso prédio não são tão bons. São bêbados. Eles entram e gritam e xingam. As mulheres me perguntam, ‘Quando você vai entrar na linha?’ Elas dizem que não vai demorar.”

A expressão “entrar na linha” é pura e simplesmente entrar para a prostituição.

Esse documentário foi lançado em 2004, as meninas que aparecem no vídeo já estão adultas. Como será que estão? Entraram efetivamente para o mundo sexual de suas mães? É triste especular que muito provavelmente entraram nesse atoleiro.

Zana Briski é uma fotógrafa que se embrenhou no bairro da luz vermelha de Calcutá, para poder ver de perto como é a vida dessas crianças que ali nasceram e ali também vivem. Ela iniciou um projeto com essas crianças, ensinando-as a fotografarem. Pronto: a diversão dos pimpolhos estava feita. Fotos e mais fotos de todos os jeitos. Todas elas ganharam a sua própria câmera. A medida em que elas vão fotografando, suas vidas vão sendo contadas. Uma linda menina, de nome Kochi, revela:

“Para a Geeta Masis no andar de cima, eu lavo a louça, levo chá, resolvo umas coisas. Ela nos dá dinheiro. Eu esfrego o chão duas vezes por dia. Na varanda também. De noite, se eles quiserem, eu faço compras. Até às 11 da noite, se eles quiserem curry ou arroz... eu tenho que ir buscar.”

O que ela diz a seguir é de cortar o coração:

“Fico pensando se eu pudesse viver em outro lugar e ter uma educação. Me pergunto o que eu poderia ser.” 

Outra garotinha chamada Tapasi, já sabe que a sua existência e das pessoas que a rodeiam não é nenhum parque de diversões. Pelo contrário, é sofrimento mesmo. Ela já possui um senso de realidade extremamente precoce, mas o que ela vê e vive em seu bairro, trabalhando duro, na labuta, enquanto deveria estar estudando e brincando, não deixa ela ter outra conclusão além dessa:

“Na verdade nunca penso em ficar rica. Mesmo se eu fosse pobre, eu teria uma vida feliz. As pessoas têm que aceitar que a vida é triste e dolorosa. Só isso.”

Enquanto ela trabalha, a sua patroa lhe dá esse “belo” tratamento: 

“Sua vadia egoísta da porra. Não consegue nem buscar água direito. Sua vadiazinha imprestável. Vá mandar sua mãe se foder.”

Zana Briski é uma incansável batalhadora pelo futuro dessas crianças, indo busrca recursos lá fora, para que elas possam entrar na escola e terem uma vida melhor. Ela consegue que suas fotos sejam expostas em galerias de arte nos EUA e na Europa. Sem nada em troca, ela se preocupa imensamente com essas crianças. Faz o papel de mãe e pai delas, algo que seus pais verdadeiros, pelas circunstâncias da vida, não podem fazer. Ou por maldade mesmo de alguns deles, não querem fazer.

As crianças falam de suas frustrações, medos, esperanças... Quem poderá ajudá-las? Zana Briski com muito empenho e amor, consegue escola interna para todo o time de crianças que ela adotou em seu projeto de fotografias. Infelizmente, algumas dessas crianças não puderam continuar na escola. Seja porque os pais as tiraram; ou por vontade própria, pelo menos uma delas, quis sair. O futuro delas, só Deus sabe. Sem muita esperança, espero que hoje, em 2017, elas estejam bem. 

terça-feira, 15 de agosto de 2017

A 13ª Emenda: De Escravo a Criminoso em uma Emenda


O início de 13ª Emenda já deixa escancarado que há algo de muito errado no sistema carcerário estadunidense:

“Vamos ver as estatísticas. Os EUA abrigam 5% da população mundial, mas 25% dos prisioneiros do mundo. Pensem nisso.”

“Um em cada quatro seres humanos com suas mãos nas grades, algemados, estão presos aqui na terra da liberdade.”

“Tínhamos uma população carcerária de 300 mil pessoas em 1972. Hoje, temos uma população carcerária de 2,3 milhões de pessoas.”

Esses números no seco, sem nenhuma explicação adicional já dizem muita coisa. Existe uma política sinistra nas prisões norte-americanas. E os afro-americanos desde seu início são os grandes “felizardos” entre os presos. Visto que desde que terminada a Guerra Civil em 1865, cerca de quatro milhões de negros no sul do país, ficaram “livres”. Como lidar com esse contingente gigantesco de pessoas, que antes eram escravas, mas agora, sob a “proteção” da 13ª emenda, eram pessoas “livres”? Não demorou muito para que o racismo tão onipresente continuasse com a sua face cruel. Negros eram presos por coisas banais, tais como “vadiagem”. As prisões começaram a lotar de afro-americanos. Surgia a imagem distorcida do negro como estuprador de mulheres brancas. A ironia é que na história dos EUA, muitos brancos estupraram mulheres negras do que o contrário. O filme o Nascimento de Uma Nação foi um grande instrumento midiático para firmar a visão do negro como um ser animalesco, perante a já sociedade racista. O que vem depois, injustiças, crimes e barbaridades, feitas por uma sociedade que se considerava boa e justa. 

“Milhares de afro-americanos mortos por quadrilhas sob a crença de que tinham cometido algum crime.”  

Em praticamente todas as mortes sofridas, não havia crime algum. O terrorismo estava implantado e aprovado. Então é aprovada a infame Lei de Jim Crow, que segregava os negros, relegando-os a pessoas de segunda categoria. Apenas legalizava o que já vinha acontecendo desde que foram “libertos”.

“Aprovaram leis que relegaram os afro-americanos a um permanente status de segunda classe.”

Enquanto a segregação se arrastava ao longo dos anos, surge o Movimento Pelos Direitos Civis. Agora a luta tinha começado pra valer. Negros foram as ruas em protesto contra as humilhações sofridas. E não foi fácil. Até o presidente da nação Richard Nixon (1969-1974) de maneira sutil queria calar a aprisionar esses “pretos metidos”. Aí começa a germinar o boom do sistema penitenciário. O seu palavreado de “Lei e Ordem” e “Guerra às Drogas”, eram simplesmente uma maneira velada de dizer: “Prendam esses negros!” Além de querer calar a esquerda antiguerra do Vietnã, e também encarcerar hippies. Era uma política de difamação e mentiras jogadas na mídia.

“Um membro do governo de Nixon admitiu que a guerra às drogas tinha o único objetivo de prender negros. Ele disse: ‘A campanha de Nixon em 1968 e a Casa Branca de Nixon depois disso tinham dois inimigos: a esquerda antiguerra e os negros. Sabíamos que não podíamos tornar legal ser contra a guerra ou os negros. Ao fazer o povo associar os hippies à maconha e os negros à heroína e então criminalizá-los pesadamente, poderíamos interferir nessas comunidades. Prender seus líderes, invadir suas casas, impedir suas reuniões e difamá-los noite após noite nos noticiários. Nós sabíamos que estávamos mentindo sobre as drogas? Claro que sim.”

Ronald Reagan chega à presidência, incorporando o discurso de “Guerra às Drogas”, onde recursos financeiros vultuosos são empregados para prender usuários e traficantes. O problema estava aí: tratar simples usuários como bandidos. Algo vigente até hoje. O crack era um problema nos bairros negros, e a cocaína nos bairros brancos. A disparidade é que um negro pego com 30 gramas de crack (usuário) sofria a mesma punição carcerária de um branco com 3 quilos de cocaína (traficante). Estava mais do que óbvio que existia uma política racista e preconceituosa, pronta para prender afro-americanos.

“Sharanda [negra] passou os últimos 16 anos na prisão e vai morrer por lá, porque foi condenada à prisão perpétua sem condicional. Seu único crime? Transportar cocaína. E quando eu digo ‘único crime’ eu quero dizer ‘único crime’. Ela não teve outras prisões. Exigiram que o juiz condenasse Sharanda à prisão perpétua.”   

Conforme os presidentes foram se sucedendo, a coisa só piorou – seja com Bush pai, Clinton (apesar deste ser democrata). O caso de Clinton é especial, pois ele sancionou leis que prolongavam mais ainda os anos de prisão, por coisas banais. Ele mesmo reconheceu seu erro em anos recentes. Mas provavelmente sabia que essa política não era boa, quando a implementou. No entanto, precisava agradar o eleitorado.

O ALEC  e o CCA empresas privadas estavam/estão por trás dessa estratégia mordaz de encarceramentos em massa. A CCA tem muito a lucrar com as prisões feitas. Quanto mais presos e quanto mais tempo eles passarem trancafiados, mais dinheiro para os cofres dela. É aquela velha e conhecida verdade de que Multinacionais e Estado se juntam para benefício próprio, as custas do sangue dos que não podem lutar contra eles. As grandes vítimas: negros e imigrantes.

O que fica muito claro com A 13ª Emenda é que a justiça criminal dos EUA não é tão justa quanto nós brasileiros costumamos pensar. Muitas vezes pensamos que a grama do vizinho é sempre mais verde que a nossa. Que o seu quintal é mais florido, mais bonito. Nossa justiça brasileira é um caos, mas a estadunidense não fica atrás no quesito justiça. Ela também é caótica. Políticos, juízes, promotores e empresários, estão todos juntos nesse empreendimento macabro.

“O complexo industrial presidiário, o sistema, a indústria, é um monstro. Come negros e latinos no café da manhã, no almoço e no jantar.” 

Link na Netflix:

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Documentários Vistos (17)


Nunca vi um documentário sobre UFOs tão ruim, tão lixo, tão amador... Descarado demais os produtores, o protagonista, e quem diz acreditar nele. Não convence nenhum pouco. Stan Romanek quer ganhar fama e notoriedade? Parabéns, ganhou. Vídeo com a estória dele na Netflix, para enganar os incautos. É simplesmente uma porcaria. É o grau máximo da ingenuidade acreditar nas “provas” que ele apresenta. Uma verdadeira piada. Mas como não gosto de deixar comida no prato, fui até o fim do vídeo. Uma hora e quarenta e cinco minutos de muitas mentiras e enganação. Tudo forjado.


Daryl Davis é um músico negro que desde 1990 vem colaborando para o enfraquecimento do racismo em seu país. Mas o seu método é totalmente diferente. Ele vai ao encontro dos líderes das várias facções da Ku Klux Klan (KKK), para ouvi-los, dialogar e questionar as premissas que dão sustentação ao discurso discriminatório de supremacia branca. Por mais inusitado e impossível que pareça, muitos líderes da KKK deixaram o seu racismo. Anos de diálogo cordial fizeram-nos mudar de mentalidade. Isso é redentor. É divino! É uma paciência e estratégia que muitos da comunidade negra questionam e que nutrem até ódio por ela. Compreensível. Em não poucas cidades norte-americanas, ser negro é sinônimo de que você apanhará nas ruas pela polícia simplesmente por ter a pele mais escura. O racismo é sistemático; é endêmico. E apesar dos esforços de pessoas como o Davis, está muito longe de acabar. Na verdade, nunca acabará.


"As pessoas nascem ou se tonam assassinas?" 

"Assassinos em massa são movidos por um desejo de matar ou de morrer?" 


Ate onde os genes e o ambiente têm o seu quinhão no comportamento humano (assassino)? 

A Ciência ainda está engatinhando, tentando encaixar as peças desse intricado jogo que é a mente humana.


10 igrejas protestantes tradicionais foram incendiadas no Texas por dois perturbados, em janeiro de 2010. Estavam revoltados com Deus e com a hipocrisia das igrejas. Cutucaram a fera com vara curta. Na região onde incendiaram as igrejas é uma das mais religiosas do país. Igreja a torto e a direito. Foram pegos e sentenciados a várias prisões perpétuas. Perfeito seria se viessem ao Brasil incendiar a igreja universal e outras.


No Congo sim, existe uma verdadeira cultura do estupro. Soldados do governo e rebeldes, estupram, e ficam impunes. A mulher além de ter sido violada, ainda será abandonada pelo marido, que não dará mais assistência nem a ela e nem aos filhos que tiveram juntos. A sociedade a desprezará. Eita sociedade justa e digna de se viver para o sexo feminino.

segunda-feira, 31 de julho de 2017

A Grande Aventura dos Jesuítas do Brasil


CORDEIRO, Tiago. A Grande Aventura dos Jesuítas no Brasil. São Paulo: Planeta, 2016.

"Se na juventude alguém dissesse a Iñigo [Inácio de Loyola] que, ao morrer, em 1556, ele deixaria como legado uma instituição religiosa e influente, que chegaria ao século XXI com um de seus membros [papa Francisco] no mais alto posto da Igreja Católica, ele provavelmente daria boas risadas." P. 20.

A mais polêmica ordem religiosa surgida no seio do catolicismo. A Companhia de Jesus, ou simplesmente, Jesuítas, foi fundada no período turbulento da Reforma Protestante no século XVI, quando a igreja católica estava sofrendo os maiores ataques até então contra a sua maneira de conduzir os assuntos espirituais. Em muitas regiões da Europa, o catolicismo estava perdendo fieis para os pregadores protestantes, que estavam dizendo em alto e bom som, que a igreja tinha se apartado dos ensinos apostólicos. Segundo eles, ela tinha apostatado da fé. Lutero e outros, agora diziam que o papa era o próprio anticristo, ou, o seu representante. 

Uma das reações do catolicismo veio de um ex soldado, Inácio de Loyola, que imbuído de uma missão espiritual e divina, queria trabalhar de maneira integral, em prol da fé católica. Em 1534 é criada a Companhia. Essa ordem juntamente com outros grupos católicos, como os capuchinhos, dominicanos e outros, estiveram na dianteira da evangelização da recém colônia chamada Brasil.  

Mas os jesuítas foram de longe os mais proeminentes católicos a difundir e coagir os silvícolas a abraçarem a nova fé. Fundaram escolas, traduziram idiomas, criaram gramáticas, lutaram contra a escravização dos indígenas, alargaram o território da colônia e etc. Nenhuma outra ordem foi tão dinâmica e criativa na disseminação dos valores europeus e cristãos. 

Tanto no Brasil, como noutros países, muitos missionários da Companhia passaram pelo martírio. Tiago Cordeiro descreve a morte lacinante de dois missionários jesuítas no Canadá, no século XVII, por uma tribo local:

"Os índios iroqueses arrancaram as roupas dos dois e jogaram ao fogo suas túnicas pretas. Com gritos de euforia, amarraram os prisioneiros pelas mãos, com cordas, de forma que ficassem presos a postes baixos. Aspergiram água fervendo sobre eles, numa simulação de batismo. Usaram facas para arrancar fatias finas de suas pernas, de seus narizes e de suas barrigas. Cozinharam os pedaços diante das próprias vítimas. Por fim, depois de quatro horas de torturas, abriram o peito de Jean e Gabriel e arrancaram seus corações. Comeram os orgãos e então beberam o sangue das duas vítimas." P. 44.

Tanto lá fora, como aqui, o “amor” cristão tinha seus limites. Os Jesuítas militaram a favor da “liberdade” indígena, contanto que eles estivessem dispostos a viver conforme as regras estabelecidas pela ordem. O negro africano não teve esse “privilégio”. 

"Para a mão de obra responsável pela manutenção das terras [na América do Norte], os inacianos [jesuítas] usaram exatamente o mesmo recurso de qualquer outro fazendeiro local: escravos africanos. Os missionários, em geral, não viam problemas em manter outros seres humanos em regime de cativeiro. Dominava entre eles o pensamento estabelecido pelo frei dominicano Bartolomé de las Casas, que, já no século XVI, argumentava que a escravidão de africanos se justificava porque a falta de liberdade era compensada pela conversão forçada ao cristianismo. Se continuassem morando na África, dizia o teólogo espanhol, não conheceriam a fé que os salvaria do inferno." P. 49.

Não foi fácil empreender as missões evangelizadoras nas terras inexploradas. Assim era o caminho dos jesuítas para converter os índios, no Brasil do século XVI:

"As febres eram recorrentes, os muitos ferimentos nas mãos, nos pés e no rosto demoravam a cicatrizar e o sono era difícil em lugares cheios de animais desconhecidos e índios potencialmente agressivos. Ocasionalmente, os colonos ainda conseguiam convencer índios a atuarem como guias, caçadores, pescadores e navegadores. Nos trechos em que não havia nativos para ajudar, o percurso consistia em um acúmulo de improvisos e erros grosseiros cometidos por gente que não sabia se movimentar por aquele tipo de terreno." P. 63-64.

Nessas andanças até histórias com certa semelhança com as aventuras bíblicas, os jesuítas se depararam: 

"[O jesuíta Manoel da Nóbrega] ouviu dos índios histórias sobre um dilúvio. Para os locais, as chuvas tinham preservado um casal, que se protegera em um pinheiro e depois desceria em terra firme para repovoar o mundo". P. 72.

É no mínimo intrigante o fato de que várias culturas distintas, sem nunca terem tido contato umas com as outras terem em seus mitos, histórias semelhantes as narrativas bíblicas de Adão e Eva e do Dilúvio. Com os índios aqui encontrados, não foi diferente, pelo menos com relação à enchente que precipitou-se sobre a terra. Alguns dirão que essas histórias semelhantes seriam um arquétipo universal. Don Richardson, missionário protestante, escreveu o livro O Fator Melquisedeque, que trata especificamente dessas histórias que perpassam várias culturas e povos antigos e tribos contemporâneas. 

O canibalismo dos indígenas no século XVI assustava os europeus. Tiago conta como era esse bizarro comportamento dos moradores da terra:

“[...] poligamia, relação sexual entre familiares, nomadismo, e o hábito de beber muito e guerrear com freqüência. Outro ponto ainda se destaca: os silvícolas tinham o costume, abominável aos olhos europeus, de comer carne humana. Os prisioneiros mais corajosos eram detidos por meses e, durante esse período, eram bem alimentados e tinham acesso tanto às cabanas quanto às mulheres e filhas dos índios inimigos. Até que, num ritual em que deveriam resistir a fim de demonstrar não ter medo da morte, eram assassinados e cozinhados. Os melhores pedaços eram degustados pelos guerreiros, que assim incorporavam a coragem do morto. Esta era a prática mais comum, ainda que não a única”. P. 73.

Manoel da Nóbrega, João de Navarro, José de Anchieta, João Felipe, Antônio Vieira, Anton Sepp, Gabriel Malagrida e Jorge Bergoglio (atual papa), são alguns dos jesuítas que preenchem as páginas desse livro.

Outra figura de importância salutar para a aventura dos inacianos foi o Marquês de Pombal, inimigo mortal da obra, que graças as seus esforços, a ordem foi expulsa do Brasil, perseguida em Portugal, se extinguindo. Muitos foram os inacianos presos e até mortos, pelo Estado português, influenciado pelo Marquês. 

Décadas depois a ordem pode se reerguer, mas não com o mesmo poder de antes, apesar de ter em suas fileiras pessoas que fizeram história além do mundo religioso, como o jesuíta Georges Lemâitre, o primeiro a teorizar sobre a teoria do Big Bang, posteriormente, confirmada por várias observações astronômicas. 

Impressionantemente, foram os jesuítas os primeiros a praticarem o futebol em terras tupiniquins.

“Foi em um colégio jesuíta em Itu (SP) que os religiosos começaram a praticar o futebol, alguns anos antes da chegada de Charles Miller ao Brasil. Em 1873, José Mantero, padre jesuíta e professor do Colégio São Luiz, levou uma bola a um grande gramado e mostrou a seus alunos as regras do novo jogo.” P. 238-239. 

terça-feira, 18 de julho de 2017

Documentários Vistos (16)


O elenco ficou rico, bem de vida, finanças estruturas? Quantos deles estão fazendo filmes, novelas, com um bom emprego? Hoje, 2017, já passaram-se 15 anos. Cidade de Deus é um marco no cinema brasileiro. Filme forte, pesado, reflexivo.


Só bichinho manso. Ataques em regiões dos EUA e Austrália aumentaram. Cientistas tentam entender o motivo dessas aparições, e como repelir esses tubarões, tanto para protegê-los, como para proteger as pessoas. Pessoas que foram atacadas, hoje sofrem problemas psicológicos sérios, por causa da traumática experiência de terem sido mordidas por esses predadores.


Documentário lindo, lindo, lindo.

Em meio a um mundo tão cheio de sofrimento, mortes, dor, injustiças, fome, doenças e todo tipo de mazelas, existem pessoas boas, que estão dando a sua vida em prol dos que sofrem. Pena que são poucas as pessoas dispostas a ajudar, a se doar. Eu estou entre a maioria, olhando para meu próprio umbigo.


Um casal (Shin e Choi) de cineastas sul-coreanos é sequestrado na década de 1970 para a Coreia do norte a mando Kim Jong-il. Tiveram que flertar com governo, fingindo estarem ao lado do regime, apoiando a ideologia socialista do país. Questão de sobrevivência. Eram mestre da atuação nas telinhas do cinema, agora estavam atuando na vida real para garantirem as suas vidas. Conseguem escapar das garras do país, fugindo para a embaixada dos EUA na Áustria, despistando os seguranças do governo. Pedem asilo e vão morar num país livre. Quando estavam presos na Coreia do Norte, fizeram vários filmes a mando de Kim Jong-il, nos EUA, Shin trabalha para a Walt Disney, fazendo filmes ninjas, obtendo sucesso em suas produções.

Mais um documentário que escancara a realidade anômala que é a Coreia do Norte. Esse documentário é diferente de todos os outros, pois traz várias gravações de conversas por telefone entre Shin (diretor sul-coreano) e Kim Jong-il (na época, filho do ditador da Coreia do Norte).


Adam Lanza no dia 14/12/12 entrou numa escola infantil em Newtown, matando 26 pessoas. 20 crianças e 6 adultos. A pacata cidade de Connecticut, jamais imaginará que passaria por um massacre tão horrendo como esse. Seus pimpolhos e funcionários da escola, assassinados por um louco.

O episódio suscitou um debate: a posse de armas.

Compreensivelmente, os moradores da cidade e pais, querem que as leis referentes a posse de armas de cidadãos sejam mudadas.

Acho que apesar da violência em nosso país, com os bandidos tomando conta de tudo, a posse de armas por cidadãos comuns, não daria certo, por aqui. Pelo que lembro, nunca li nada pró ou contra a posse de armas, mas por ora, sou contra.

Panteras Negras: Vanguarda da Revolução


Década de 1960, todo um país fervendo com o barulhento e incômodo movimento pelos direitos civis. Direitos civis reivindicados pelos negros, que até então, nunca tinham sido tratados como gente na terra da “liberdade”. Eis que surge os Panteras Negras, espécie de grupo paramilitar, que se possível, usaria de meios violentos, para que o Estado ouvisse o clamor de todo um povo há bastante tempo humilhado e oprimido.  Aqui vai o que alguns ex membros dos Panteras Negras têm a dizer sobre aquele período:

“As pessoas sempre falam sobre liberdade e seu significado naquele momento. Ser negro na América significa que você não caminharia na rua com o mesmo senso de segurança e o mesmo senso de privilégio das pessoas brancas.”

“Não havia diferença no modo em que a polícia do Mississipi e a da Califórnia nos tratava. Eles poderiam não dizer ‘nigger’ mas os tratavam [os negros] do mesmo modo que no Mississipi [o Estado mais racista do país].”

“A polícia pulava em você, o batia, colocava uma arma na sua cabeça. Era pelo que passávamos diariamente.”

“O The Examiner fez uma reportagem no jornal do último domingo que erámos anti-branco, que nós não ‘tínhamos papas na língua quanto a sermos anti-brancos.’ Isso é um sensacionalismo mentiroso. Nós não odiamos ninguém por causa da cor. Nós odiamos a opressão. Nós odiamos o assassinato de pessoas negras em nossas comunidades.”  

Os Panteras Negras foram adquirindo fama e notoriedade, se espalhando por todo os EUA. Da Califórnia, na cidade de Okland, para a televisão, jornais, rádio, e ganhando cada vez mais a atenção do governo e da polícia, que estavam bastante apreensivos com os rumos que esse grupo de auto-defesa poderia tomar. Chegou um momento em que o governo os classificou como o inimigo interno número 1 da nação.

Negros e mais negros iam aderindo ao movimento, cansados de terem seus direitos negados e jogados no lixo. O que chama a atenção é que os Panteras surgiram na Califórnia, teoricamente um Estado mais moderado e mais aberto, ao contrário do sul (Mississipi, Tennesse, Alabama) mais racista e intolerante. As tensões raciais simplesmente abarcavam toda a nação, não importando a sua localização geográfica.  

Os Panteras Negras como qualquer movimento teve suas contradições internas, erros estratégicos, ações erradas, equívocos e etc. Umas dessas incoerências dentro do movimento era o machismo de muitos de seus membros. Uma desses membros em carta a um de seus fundadores reclamou:

“Caro Huey, quando me uni ao partido, eu estava empolgada por fazer parte de uma organização que acredita na igualdade entre homens e mulheres. Incomoda-me que existam irmãos que ainda vejam as mulheres como objetos sexuais. Não deveríamos ter homens no Panteras Negras ou mulheres que pensem assim.”

O governo norte-americano já de saco cheio dos Panteras, criminosamente, armou estratégias através do FBI, para que o movimento fosse desmantelado – membros importantes do grupo foram assassinados, presos, outros tiveram que fugir do país.

No início da década de 1970 os Panteras Negras já estava se desintegrando. Brigas entre os líderes enfraqueceram bastante o movimento. Até hoje, existem membros trancafiados nas prisões americanas. 

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Além da Senzala: Arranjos Escravos de Moradias no Rio de Janeiro (1808-1850)


SANTOS, Ynaê Lopes dos. Além da Senzala: Arranjos Escravos de Moradias no Rio de Janeiro (1808-1850). Dissertação de Mestrado em História Social pela USP, 2006.

Qualquer aluno do ensino fundamental e médio sabe que o Brasil em seus primeiros três séculos se ancorou no trabalho escravo para desenvolver suas mais variadas atividades e comércio. O Brasil era colônia de Portugal e, também, logo no seu início utilizou aqui e ali, o trabalho forçado de indígenas, apresados pelos bandeirantes. Entretanto, os jesuítas foram ferrenhos opositores da escravidão dos silvícolas, e conseguiram frustrar o desejo daqueles que quiseram escravizá-los.

Com os negros vindos da África, a coisa foi diferente. Sem proteção nem do estado e nem da igreja católica, eles foram feitos escravos em todo o território. Bahia, Pernambuco e Rio de Janeiro foram os principais polos, para onde ele foram mandados. E é no Rio de Janeiro que Ynaê Lopes irá dissertar sobre uma particularidade do viver escravo. 

Sua dissertação de Mestrado, que virou livro, versa sobre a moradia escrava, fora do olhar do senhor de escravo, na cidade do Rio de Janeiro, então capital da Colônia, e depois capital do império português, quando a família real, fugindo das tropas napoleônicas vem para o Brasil, em 1808.

Para começar, a autora traz uma miríade de obras históricas que trabalharam o morar escravo, ou que deram alguma pincelada sobre o assunto, notando que nos anos 1980, vários trabalhos surgem versando sobre os africanos como sujeitos ativos.

“A partir da década de 1980, a historiografia sobre a escravidão vivenciou uma expressiva mudança na sua agenda de pesquisas. Os escravos, que durante muito tempo foram tratados como vítimas passivas da história, passaram a ser encarados como sujeitos capazes de configurar o devir do sistema escravista. Essa nova perspectiva, aliada ao exame de novas fontes documentais, propiciou a ampliação dos temas relacionados à escravidão, dentre eles, o cativeiro citadino.” P. 29. 

A despeito da vergonha da escravidão, a cidade do RJ causava muita admiração pelas suas belezas naturais, aos estrangeiros que chegavam para visitá-la.

“A beleza natural era, em definitivo, um dos primeiros aspectos que chamava atenção para quem quer que chegasse no Rio de Janeiro pela baía de Guanabara no século XIX. A combinação entre morros, mar e cidade parecia insuperável. O inglês Luccock, que aportou em 1808, relatou que ‘o estrangeiro (...) entrará no porto do Rio da maneira mais agradável possível, descendo desde Ponte Negro, rente à praia, até que a Ilha Pay seja trazida ao encontro do Pão de Açúcar. Isso lhe dará a oportunidade de avistar todas as enseadas da costa’.” P. 60.

Sobre o número de portugueses vindos para o Brasil, fugindo de Napoleão Bonaparte, parece que não vieram em milhares como se convencionou nos livros de história.

“Em seu trabalho sobre o Rio de Janeiro setecentista, Nireu Cavalcanti questionou o número de pessoas que acompanhou João VI e sua família para o Brasil. Segundo o autor, que analisou as listas dos passageiros vindos de Portugal para o Rio de Janeiro, o número total de portugueses não ultrapassaria 500 (o que não atenuaria o impacto da transferência da Corte), e não 15 mil como foi sugerido pela historiografia até então.” P. 61.

Caramba, que diferença! 14.500 pessoas a menos, daquilo que aprendi nos estudos sobre a vinda da Família Real e a Corte para o Brasil. É uma diferença abissal. Que disparidade! Aí está o caráter transitório e relativo, que muitas vezes acompanham o saber histórico. Mas é claro, que a versão tradicional pode estar correta. 

Uma das facetas da escravidão urbana era a Capoeira, luta criada no Brasil, usada como instrumento de subversão. 

“No estudo sobre capoeira escrava no Rio de Janeiro [no século XIX], Líbano Soares mostrou algumas das formas de articulação e resistência cativa. Responsável por cerca de 9% das prisões feitas pela polícia no período joanino, os capoeiras trouxeram muita dor de cabeça para os governantes da cidade. E não foram apenas os diversos conflitos travados entre as diferentes maltas ou contra a polícia que preocupavam as autoridades. Para além da luta, do jogo, e do relaxamento do trabalho, a capoeira evidenciava toda uma rede de sociabilidade entre escravos, livres e libertos com a própria dinâmica do cativeiro na Corte.” P. 75.

A ideia central do livro é a seguinte: nos centros urbanos, como a grande cidade do RJ, os escravos podiam trabalhar longe dos olhares e do chicote de seus donos. Muitos negros eram escravos de ganho, trabalhando nas ruas, fazendo serviços, vendendo comidas, ou eram alugados para outras pessoas.

[...] no caso do ganho – característico dos grandes centros do Brasil, como Salvador, Recife e a capital da Corte -, o escravo teria que dispor de sua força de trabalho, passando a maior parte do tempo nas ruas à procura de serviços e, portanto, longe das vistas de seu senhor.” P. 72.

Muitos desses escravos, devido à natureza de suas atividades, não moravam perto, ou sob o teto de seus senhores. A pergunta é: como eram as moradias desses escravos? Através de ampla documentação escrutinada, Ynaê lamenta ao longo de toda obra a escassez de documentos sobre o morar escravo. Ela consegue parcas documentações que mencionam esse morar escravo, esse morar sobre si. Tudo que encontrou foi muito vago e superficial. 

“A dificuldade em obter informações precisas na documentação analisada, devido ao permanente silêncio dos órgãos responsáveis pela segurança e administração do Rio de Janeiro a respeito do morar cativo, alertou para a necessidade de entender tal problemática dentro do quadro mais amplo da história política do país. Por que, mesmo face a mudanças políticas de peso, como a transferência da Corte para o Rio, a independência do Brasil e, até mesmo, a abolição legal do tráfico negreiro transatlântico em 1831, o silêncio sobre as moradas escravas permaneceu?” P. 17.

Eu esperava mais dessa obra. Achei essa dissertação tão ou mais dispersa e desorganizada que os resumos ou resenhas que tento fazer. E olha que a autora lançou mão de um incontável número de fontes primárias, tais como Cartas de Alforrias, Devassas da Polícia, Relatórios dos Presidentes de Províncias, Termos de Bem Viver, Inventários Post Mortem, Arquivo da Biblioteca do Rio de Janeiro, Arquivo Público do Estado Rio de Janeiro, Arquivo Geral do Rio de Janeiro, viajantes que passaram pela cidade no século XIX, fora a historiografia especializada sobre a escravidão. No entanto, como ela mesma admite, pouca dessa documentação tratava do morar escravo citadino, fora do olhar do senhor de escravo.

domingo, 16 de julho de 2017

Faça a Coisa Certa



Fazia uns anos que queria ver o tão afamado Faça a Coisa Certa. Considerado um clássico do cinema que trabalha a problemática do racismo na América do Norte. Pois bem, o filme é ambientado na cidade de Nova Iorque, no bairro negro do Brooklin, no final dos anos 1980. Além da maioria negra, existem asiáticos, latinos e outras minorias étnicas, habitando o bairro. Tipicamente um bairro pobre, com pessoas humildes, cheias de problemas estruturais decorrentes da situação financeira precária em que vivem.

O objetivo de Spike Lee, roteirista, diretor e protagonista do filme, é descortinar uma realidade mais complexa e difícil que a polarização entre brancos e negros, tendo os primeiros como algozes e os últimos sempre como vítimas indefesas. 

Em Faça a Coisa Certa, os pretos são os vilões, os preconceituosos, os intolerantes idiotas. E olha que o Spike Lee é negro. É exatamente por isso, que o teor da obra ganha um tom especial. Muitos (MUITOS) negros que sofrem por serem quem são, pelo olhar discriminatório da sociedade branca, são os mesmos que devolvem o racismo contra outras minorias. 

Negros odiando latinos, estes detestando asiáticos, os últimos execrando italianos, e por aí vai. A trama nos mostra um bairro polarizado, cada grupo étnico vendo o outro como inimigo a ser rejeitado, ostracizado, banido para a puta que pariu. 

Praticamente toda a história se passa numa rua, onde em sua esquina tem uma pizzaria italiana, que tem naturalmente quase todos os seus clientes negros, os próprios residentes do bairro. O dono do estabelecimento não demonstra nenhuma visão negativa pelos negros, está há décadas vendendo suas pizzas no bairro e não pretende sair dele nunca. Um de seus filhos (pino), odeia os negros e se possível não voltaria a pisar no bairro. O entregador (Mookie) é um negro (Spike Lee), que mantém uma relação tensa com o patrão (Sal) e com seu filho racista, mantendo uma certa amizade com o outro filho do patrão (Vito). 

O bicho pega quando Sal é confrontado por um cliente que exige que ele coloque no hall da fama de sua pizzaria, negros famosos como Malcolm X, Nelson Mandela, Michael Jordan..., pois só há ítalos-americanos nos quadros da pizzaria. O negro confuseiro faz o maior auê mandando que seus irmãos de cor sejam colocados na parede do lugar, e acaba sendo expulso. Com muito ódio, ele tenta organizar um boicote a pizzaria, conclamando a todos do bairro a não comprar mais lá. Consegue apenas uma alma, um maluco, conhecido por Rádio Raheem, que fica pra cima e pra baixo com seu aparelho de som, ouvindo sempre a mesma fita cassete. 

Para encurtar a história, ambos vão a pizzaria no final do expediente, exigir mais uma vez que eles coloquem na parede quadros com os seus ídolos negros, pedido negado mais uma vez. O som de Rádio Raheem está ligado nas alturas e Sal quebra-o com um taco, ocasionando um quebra-quebra generalizado, tendo a polícia que intervir e matando sem intenção por enforcamento Rádio Raheen. A população preta do lado de fora, coloca a culpa nos italianos pela morte do irmão de cor, e destroem completamente a pizzaria, quebrando tudo pondo fogo nela. 

Pronto, o filme é basicamente isso. Além de mostrar um dia típico de um bairro negro, com todas as tensões envolvidas nas relações entre os seus residentes.

A película é clara: os pretos são os intolerantes idiotas da história. Spike Lee não roteirizou isso à toa. Apesar da opressão sofrida há séculos, seja com a escravidão, seja com o racismo institucionalizado e o racismo depois da conquista pelos direitos civis, a realidade é que, muitíssimos negros, por mágoa, ressentimento, raiva, ou até má índole mesmo, têm lançado olhares de ódio contra outros grupos minoritários, como é o caso do presente filme. É uma complexa realidade que depois de Faça a Coisa Certa, foi magistralmente trabalhada por outras obras cinematográficas, como por exemplo Os Donos da Rua, lançado dois anos depois, que retrata gangues de negros matando negros, nos guetos de Los Angeles. Crash, no Limite, de 2004, que de maneira brilhante e assustadora, vira nossa cabeça ao avesso, desvelando as tensões raciais na sociedade estadunidense. 

E se olharmos para o nosso próprio quintal, com certos movimentos negros se vitimizando ao grau extremo e dando aulas de intolerância e ódio? 

Achei algumas cenas meio bobinhas e exageradas, mas certos trejeitos bizarros da trama, não foram colocados à revelia de algum propósito, eu é que deixei escapar a finalidade deles.

Resumindo: nem sempre os negros são os coitadinhos inocentes, oprimidos. De vítimas acabam tornando-se vilões e opressores, sob a desculpa de que são discriminados. Na medida em que são execrados, execram os outros.