segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

Filmes Vistos (18)



Acho que esta franquia só não supera em terror o filme Espíritos, de 2004. Sobrenatural 1 e 2 em vários momentos me deixaram com um frio na barriga. Achei bem macabro e assustador. O terceiro já não achei tão envolvente. A franquia assume a costumeira visão espírita da realidade, onde espíritos malignos de pessoas mortas infernizam a vida daqueles que ainda não partiram para o outro lado. A princípio pensei que seria mais uma típica história de poltergeists tão repetida ad nausean no cinema, mas Sobrenatural te coloca num ambiente espiritual insano e aparentemente sem esperanças, que deixa no chinelo todos os outros filmes sobre almas penadas, que se tem a torto e a direito pó aí. Se têm pessoas que viram e não se assustaram - comigo foi diferente. Fui surpreendido por uma ótima e criativa história. Excelente trilogia. E o quarto, já está nas telas do cinema.


Frank Lucas, uma lenda do tráfico de drogas na década de 1970, que aproveitando a longa estadia dos soldados norte-americanos no Vietnã, traficava quilos e mais quilos da mais pura heroína produzida neste país. O bandidão tornou-se um milionário em pouco tempo, sendo o maior senhor das drogas em Nova Iorque, monopolizando quase todo o mercado dos entorpecentes, com a sua "Magia Azul", nome dado as suas carreirinhas de cocaína. Pois bem, O Gângter vem trazer a impressionante ascensão deste negão do Harlem, protagonizado pelo inconfundível Denzel Washington. Filme muito bom.


Inquietante, doloroso e lancinante. Mas na mesma proporção, lindo, maravilhoso e esplêndido. Tensão do começo ao fim. Uma criança adquire uma doença degenerativa, que em poucos meses faz ela perder quase todas as suas capacidades motoras e cognitivas. O desespero se instala nos pais, para saber o que está havendo com seu filho. A criança é diagnosticada com Adrenoleucodistrofia (ALD), doença sem cura, que leva o paciente em não mais que dois anos. Os pais inconformados iniciam uma corrida frenética para buscar uma cura ou um tratamento adequado para o seu pequenino, visto que a medicina da época não dispunha de meios adequados, para tratar quem tinha essa doença. O pai incrivelmente, sem ser Médico ou Cientista, pesquisando por conta própria, os intricados caminhos da bioquímica, encontra a solução para evitar os sintomas da doença, conseguindo a proeza de prolongar a vida de seu filho e de todas as crianças que sofrem do mal da ALD. Foi além da comunidade científica, que devia ter descoberto o tal "óleo". Filme impressionante de verdade. Interpretações marcantes, cenas fortíssimas. Quem é pai ou mãe se sentirá muito desconfortável em assistir.


Mais uma história que aponta aquilo que já estamos cansados de saber: os males do vício em álcool. Denzel interpreta um piloto de avião viciado em bebidas e drogas, que se vê em um turbilhão de problemas, decorrentes de um acidente aéreo, ao qual ele era o comandante, matando 6 pessoas e ferindo outras centenas. A mídia e a população estão no seu encalço. O avião caiu porque ele estava sob o efeito de bebidas inebriantes? Como todo alcoólatra teimoso, ele não admite que é escravo das bebidas - que nem criança birrenta, bate o pé e diz: “escolhi beber, e paro quando eu quiser.” Num momento crucial, ele surpreende, tomando uma decisão que mudará drasticamente a sua vida. Um ótimo drama. Não me lembro de ver um filme desse negão que não tenha gostado.


Nossa, que filme! Que história! Como já disse outras vezes, não sou muito de ver filmes românticos. Mas este é formidável! Adaline, devido a um acidente não envelhece mais. Ficará com carinha e saúde de uma mulher de 29 anos para sempre. Mas os problemas advindos dessa condição lhe custaram muito caro. 

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Seremos História?



Leonardo DiCaprio além de fazer ótimos filmes, agora fez um excelente documentário sobre aquecimento global e mudanças climáticas. Digamos que Seremos História? é o documentário Uma Verdade Inconveniente atualizado, confirmando tudo aquilo, que Al Gore gritou (e ainda grita) aos quatro cantos do planeta, sobre os malefícios que o mundo moderno tem produzido com as suas emissões de gases, provenientes de combustíveis fosseis. DiCaprio não é apenas um aventureiro, querendo criar a imagem de bom moço preocupado com a humanidade, ele realmente se mostra interessado e engajado em conscientizar o mundo para esse tema de grande envergadura, que deve ser do interesse de todos nós, se queremos um futuro para nós, e para os que virão.

O ator de Hollywood denuncia aquilo que está mais do que claro, para quem pesquisa um pouquinho sobre mudanças no clima. Estamos na beira do precipício. Falta vontade política para que os EUA se interesse de verdade em diminuir os poluentes que estão destruindo o planeta. Os políticos, como é de praxe, em sua maioria, são corruptos e comprados pelas multinacionais, para desacreditarem perante o grande público, sobre o aquecimento global, dizendo que este é uma grande farsa de alarmantes fanáticos mal intencionados. Infelizmente, tais discursos negacionistas confundem a cabeça de muitos, que compram a ideia de que não há consenso na comunidade científica, sobre o aquecimento do globo. O que é uma mentira deslavada. Mas se têm criaturas "bem" informadas que negam a esfericidade da terra, porque não teriam pessoas que teimosamente neguem o aquecimento global?

A coisa está tão feia, que na produção de Seremos História?, DiCaprio concomitantemente estava fazendo O Regresso, filme em que ele ganhou o Oscar de melhor ator, e para que as gravações pudessem ser finalizadas, 200 pessoas, entre atores e produtores, tiveram que ser deslocadas para a Argentina, em caráter de emergência, para terminarem as gravações, milhares de quilômetros de onde o longa estava sendo filmado, porque não havia mais neve, resultado do aquecimento global. Em anos anteriores isso não aconteceria, pois a neve estaria lá, no seu devido lugar - branquinha branquinha. No entanto, as mudanças climáticas já se fazem sentidas há anos, e se não diminuirmos drasticamente nosso consumo de combustíveis fosseis, a merda vai ser grande. Vários lugares, como DiCaprio bem mostrou, já estão sofrendo as consequências.

Em discurso na ONU, DiCaprio disse:

"Como Mensageiro da Paz da ONU, eu viajei pelo mundo inteiro nos dois últimos anos. Eu vi cidades como Pequim, sufocada pela poluição industrial, antigas florestas boreais no Canadá que foram desmatadas, e florestas tropicais na Indonésia que foram incineradas. Na índia, conheci fazendeiros, cujas as colheitas foram levadas pela chuva. Nos EUA, vi o aumento do nível do mar inundar as ruas de Miami. Na Groelândia e no Ártico, fiquei impressionado, ao ver geleiras antigas desaparecendo rapidamente, muito antes das previsões científicas. Tudo que eu vi, aprendi na minha jornada, me deixou apavorado. Eu penso na vergonha que cada um de nós vai sentir, quando nossos filhos e netos olharem para o passado e perceberem que havia maneiras de frear essa devastação, mas que faltava vontade política para fazer isso”.

O Acordo de Paris ratificado em 2015 por 195 países promete diminuir a emissão de carbono, gerando um retrocesso nos efeitos do aquecimento global. Foi um grande passo, porém, insuficiente na opinião de DiCaprio, dos Cientistas, de Obama (entrevistado por DiCaPrio) e do papa Francisco (entrevistado por DiCaprio). Sobre o tal acordo, em sua mesma fala na ONU, DiCaprio alerta:

“Sim, nós alcançamos o Acordo de Paris. Essa causa reuniu mais países para assinar um acordo do que qualquer outra causa da história da humanidade, e essa é uma razão para acreditar. Mas, infelizmente, as evidências mostram que isso não vai ser suficiente. É necessário fazer uma grande mudança agora. Uma mudança que traga uma nova consciência coletiva. Uma nova evolução coletiva da raça humana, inspirada e possibilitada, por um senso de urgência de todos vocês. Hoje nós podemos comemorar, mas isso não vai significar nada se os senhores voltarem aos seus países e não fizerem nada além das promessas desse acordo histórico. Após 21 anos de debates e conferências, é hora de declarar: chega de conversa, chega de desculpas, chega de estudos que leva 10 anos, chega de permitir que empresas de combustíveis fósseis manipulem e ditem a ciência e as políticas que afetam o nosso futuro. O mundo está atento agora. Vocês podem ser celebrados pelas gerações futuras, ou rechaçadas por elas. Vocês são a única esperança da Terra. Queremos que ela seja protegida, ou a humanidade e todas as criaturas que valorizamos desaparecerão.”

Link para assistir online:


Disponível também na Netflix.

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Documentários Vistos (30)


"Acredito que a evolução da sociedade possa ser medida pelo valor dado aos direitos da mulher." 

O Cineasta francês Nills Tavernier visita cinco países miseráveis (Camarões, Camboja, Senegal, Nicarágua e Etiópia), onde a emancipação feminina é uma luta diária e árdua, e conta neste documentário a história de cinco mulheres batalhadoras, que têm dado o sangue para que o sexo feminino tenha plena igualdade de direitos. A verdade nua e crua é que as mulheres ainda são tratadas como seres humanos subservientes em não poucos países e regiões. Aqui no Brasil, bem menos do que nesses países, obviamente.


O aquecimento global é um fato. Mas sempre têm aqueles que querem desmentir a obviedade das descobertas científicas. Hoje em dia, tem maluco pra tudo, tem até gente negando a esfericidade da Terra, porque não teria almas teimosas negando o aquecimento do planeta. Al Gore, conhecido político norte-americano, vem alertando o mundo há décadas sobre as catástrofes que podem vim e virão, caso as nações, inclusive o seu querido tio Sam, principal poluidor do planeta, não mudem drasticamente o seu modus operandi. Acredito que teremos um futuro tenebroso. Tsunami na Ásia em 2004, Katrina em 2005, e Tsunami no Japão em 2011, que o digam.


A cidade de Denver, no estado do Colorado, em 2014, finalmente liberou o uso recreacional da maconha. Os maconheiros da cidade agora podiam ficar chapados sem preocupações se iriam ou não serem pegos pela polícia e passarem algumas horas ou dias no chilindró. Um jornal aproveita a nova situação da cidade para investir parte de seus recursos em pesquisar e noticiar coisas relacionadas a cannabis. No mesmo ano, 𝐌𝐮𝐣𝐢𝐜𝐚, presidente do Uruguai, também libera a venda de maconha em seu país. Um ponto de interrogação fica no ar. O que acontecerá, em médio e longo prazo, com os maconheiros a todo vapor, relaxando sob os efeitos do 𝐓𝐇𝐂? Ouvi falar que a legalização aqui no nosso vizinho, não deu muito certo. Eu tinha uma expectativa melhor em relação a este documentário, mas o achei muito disperso e desorganizado. Existem outros bem melhores.


"Os humanos devem tomar muito cuidado em relação a responder quaisquer sinais de civilizações alienígenas." - Stephen Hawking, Professor de Matemática na Universidade de Cambridge.

Para o famoso Astrofísico, que está cada vez mais crente na existência de seres inteligentes habitando outros mundos, o nosso contato com eles será catastrófico. Tipo o filme Guerra dos Mundos, Independence Day... De minha parte, não descarto que esses seres estejam rodando e rondando o nosso planeta. Mas não há provas concretas, mas apenas evidências que me soam muitas vezes obscuras e inconclusivas. Este documentário é um exemplo, visto que traz muitas especulações rasas. Mas já supostamente me contradizendo: há sim indícios verossímeis de vidas pensantes fora do globo terráqueo.


O pedantismo japonês fez com que fossem lançadas duas bombas atômicas sobre o seu território, em agosto de 1945. Mais de 215 mil pessoas (em sua maioria, civis) foram mortas como que num passe de mágica. Mas a teimosia do Japão em não se render, não justifica, para mim, o lançamento desses demônios nucleares em Hiroshima e dias depois em Nagasaki. A velha máxima continua: um erro não pode justificar outro. Tsutomo Yamaguchi passou pelo inferno de sobreviver ao lançamento das duas bombas. Aos 90 anos de idade, em 2006, resolveu contar a sua história de sobrevivência e fazer um alerta ao mundo, para que nunca mais ocorra algo assim. Em 2010 ele faleceu, aos 93 anos. 

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Filmes Vistos (17)


Existe vício em drogas, vício em bebidas, vício em internet... e também vício em pornografia e sexo. Esses dois últimos são os vícios apresentados neste filme. Para quem pensa que isso é besteira, não é. Como todo vício, a pornografia e o sexo desenfreado, são destrutivos, são alienantes, e bastante prejudiciais a uma vida normal e saudável. É um labirinto difícil de sair. Terapia do Amor de maneira leve, mas séria, aborda muito bem a vida de alguns viciados, que lutam diariamente contra essa vontade compulsiva em fazer sexo, se masturbar e ver pornografia. Uma verdadeira guerra no território mental e físico.


Inglaterra, começo do século XX. O país que tinha sido pioneiro na abolição da escravatura, décadas atrás, é o mesmo que deixa muitas de suas mulheres em regime de semi-escravidão nas fábricas e ainda nega-lhes o direito de voto. Mas surgem mulheres guerreiras e corajosas, que estão dispostas a pagarem um alto preço pelo sufrágio universal. 

Em uma das cenas, a protagonista presa, resolveu fazer greve de fome, as autoridades não aceitando que uma das rebeldes vire mártir, foram até a cela, e com a ajuda de outras mulheres, colocaram um funil em sua boca, para que ela coma a força. Pois bem, o fato de muitas mulheres da época, oprimirem e aceitarem que as suas iguais fossem maltratadas e relegadas a seres de segunda classe, não minimiza em nenhum milímetro a causa feminista de querer o sufrágio. Só porque mulheres também faziam parte do lado opressor, não quer dizer que a luta das sufragistas era ilegítima, e que o governo não precisava reparar aquela situação injusta e cruel. Digo isto, porque vez por outra vejo argumentações estúpidas (e racistas?), trazendo exemplos de negros que tinham escravos no Brasil Colonial, e assim, tentam deslegitimar a luta dos movimentos negros atuais, como se o erro de uns negros (e mesmo que tivessem sido muitos) minimizasse drasticamente a opressão mortal iniciada pelos brancos.


Impressiona-me que pessoas estudadas ainda tenham a audácia de defender o comunismo soviético. A história de Milada Horáková é mais um exemplo, dentre milhões, de que o socialismo implantado no leste europeu foi um atraso na política e na vida de seus cidadãos. Este filme trata de uma falsa democracia implantada na Checoslováquia, na década de 1940, tendo como foco a perseguição sofrida por Milada, onde ela foi presa e brutalmente torturada na prisão, para que admitisse os crimes de sabotagem contra governo "democraticamente estabelecido". Seu final foi a morte por enforcamento. Há um leve puxa-saquismo para o bloco capitalista liderado pelo tio Sam, porém, isto em nada, alivia a responsabilidade das barbaridades cometidas pelo bloco socialista.


Retrata em toda a sua crueza os horrores da escravidão norte-americana, que alguns ainda disseram, ou por ingenuidade ou má fé mesmo, que lá, os escravos foram tratados com mais humanidade, se comparado com o tratamento aqui no Brasil.

O Nascimento de Uma Nação tem cenas que chocam, meu estômago se revirou com algumas. Este longa conta a história de Nat Turner, um escravo pacífico, que sabia ler, e que era um pregador da bíblia, que ajudava aos fazendeiros a manterem os escravos submissos e obedientes, pois assim, estariam obedecendo a vontade divina. Mas chega um momento que não dá mais para aguentar tanto sofrimento e injustiça, e se apossando de uma nova visão do texto sagrado, ele junta um grupo de escravos para se rebelarem contra os brancos que os escravizam.

A carnificina, então começa. As cenas em que os escravagistas são mortos são um alento para quem vê, apesar de serem bem violentas, mas diante daquele contexto de vingança bem justificada, foi bem feito pra eles. Não dá pra ter pena alguma. O sangue pulsando no peito do ex-senhor de Turner, com uma machadada desferida pelo seu ex-escravo, torna-se uma coisa linda de se ver. Infelizmente, a história não é como queremos que ela seja, visto que no final do filme, o mal vence.

É uma história baseada em fatos reais, ocorrida na década de 1830, e nós sabemos que a Guerra Civil Americana só viria a acontecer 30 anos mais tarde, levando os negros a conseguirem a sua "liberdade".


Este é o primeiro filme que vejo, que mostra o contato da humanidade com seres extraterrestres, onde a nossa raça é a vilã, destruidora do planeta alheio, querendo explorar e roubar os recursos naturais, matando e destruindo a natureza. Avatar é uma ótima crítica ao modo como os governos e multinacionais têm tratado a nossa fauna e flora, com o único objetivo de enriquecer, sob o pretexto do desenvolvimento. E um dos agravantes é a passividade dos "bons" - nós, que nada, ou pouco fazemos para impedir, e no pior cenário: quando fazemos parte da destruição ativamente. O que os humanos fazem em Pandora, planeta dos avatares, é o que nós estamos fazendo há décadas, para sustentar nossas vidinhas modernas e "felizes", debaixo de desculpas esfarrapadas de que temos essa ou aquela necessidade que precisam ser saciadas, mas que nunca são alcançadas, e assim, somos obrigados a explorar mais e mais.

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Documentários Vistos (29)


Perfeito, genial, magnífico. A mãe África, apesar de todos os seus problemas sociais e políticos, consegue dar um show de exuberância e beleza no seu Reino Encantado. Uma explosão de cores e vida em suas florestas, rios, planícies e savanas. A BBC sempre com documentários em sua plenitude máxima.


Um país de grandes contrastes em sua natureza. Por um lado, montanhas desérticas, por outro, a riqueza da flora e fauna da Amazônia. Um pouco de cada coisa do Peru, praias, oceano, natureza, as misteriosas pinturas gigantescas de Nazca, ruínas de Machu Pichu, cultura peruana e etc.


Juro que queria ter a coragem de virar vegetariano ou vegano, sendo este último, a proposta deste documentário. Qual é a Saúde, por um lado é tendencioso, mas traz informações verdadeiras e fatos perturbadores sobre a associação nojenta do governo com as indústrias dos alimentos e dos remédios. Médicos e instituições que deveriam zelar pela saúde da população, fizeram um pacto com o diabo (multinacionais), para juntos lucrarem às custas das doenças de toda a sociedade. Nesse ponto, o documentário acerta em cheio.

O idealizador Kip Anderson demoniza todo tipo de carne e dá um status de messianidade ao veganismo, que mudará DRASTICAMENTE para MELHOR, a saúde, em apenas 14 dias, daqueles que adotarem um modo de vida sem carnes e seus derivados. Ele entrevista pessoas muitos doentes, que tomam vários comprimidos por dia, pessoas que estão, na verdade, moribundas, e como num toque de mágica, depois que passam a se alimentar sem carnes e laticínios, estão com as suas saúdes extremamente melhores. Digo MELHORES mesmo. Sinceramente, apesar de me deixar persuadir em vários momentos pelos argumentos apresentados, sinto que esses pacientes foram forjados. Se a alimentação vegana causa os benefícios exibidos, caramba, estamos diante então da solução de praticamente todos os problemas de saúde. O veganismo seria a "salvação" da humanidade.

É um filme rico em informações, mas que precisa ser bem dosado em muitos momentos. Pareceu-me utópico demais.


Esporte extremo, que exige treinamento e modo vida extremos. Homens barrigudos, mas que nem por isso, menos fortes, que competem entre si, para saberem quem é literalmente o homem que tem a maior capacidade física de levantar pesos sobre-humanos. Esporte perigoso - eles sabem disso. Precisam comer exageradamente. E nessa dieta, vai quase tudo. Precisam de camadas de gorduras para terem a força quase sobrenatural que possuem. É enfatizado diversas vezes, o quanto é torturante ter que comer a toda a hora. A alimentação torna-se a parte mais custosa e difícil da preparação. O Arnold Classic Strongman em Ohio é o campeonato almejado pelos quatro competidores biografados nesse documentário. Logicamente, apenas um sairá vencedor. É um documentário muito mais empolgante que o Generation Iron.


E quando pensamos que a estúpida e bestial prática de se arrancar os clitóris de crianças ficou no passado, ou apenas sobrevive em pequenas aldeias na África, ei que A Maçã de Eva nos diz exatamente o contrário. Milhões (e não milhares) de meninas foram rasgadas/dilaceradas, em nome de um costume cultural do mal. Ainda em muitas regiões da África (e não somente nela), meninas são submetidas a clitoridectomia, contra as suas vontades. Os males advindos desse procedimento são imensos e levados para o resto da vida.

O que é de estarrecer é que ainda existe quem defenda a não intervenção externa para dar um basta a esses costumes primitivos e bestiais. São os defensores do multiculturalismo, para quem todos os hábitos culturais se equivalem e não são nem melhores e nem piores que os outros. De maneira contraditória, acusam quem pensa diferente deles, de etnocêntricos. Lembro das palavras de Zigmunt Bauman, que são um belo chute no traseiro dos relativistas:


"A nova indiferença à diferença apresenta-se, em teoria, como uma aprovação do ‘pluralismo cultural’. A prática política constituída e apoiada por essa teoria é definida pelo termo ‘multiculturalismo’. Ela é aparentemente inspirada pelo postulado da tolerância liberal e do apoio aos direitos das comunidades à independência e à aceitação pública das identidades que escolheram (ou herdaram). Na realidade, contudo, o multiculturalismo age como uma força socialmente conservadora. Seu empreendimento é a transformação da desigualdade social, fenômeno cuja aprovação geral é altamente improvável, sob o disfarce da ‘diversidade cultural’, ou seja, um fenômeno merecedor do respeito universal e do cultivo cuidadoso. Com esse artifício linguístico, a feiúra moral da pobreza [ou extirpação do clitóris] se transforma magicamente, como que pelo toque de uma varinha de condão, no apelo estético da diversidade cultural". P. 33.


BAUMAN, Zigmunt. A Cultura no Mundo Líquido Moderno. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2013. (PDF).

A Cultura no Mundo Líquido Moderno


BAUMAN, Zigmunt. A Cultura no Mundo Líquido Moderno. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2013. (PDF).

Bauman (Professor de Sociologia da Universidade de Leeds e Varsóvia) é um dos teóricos mais lidos dos últimos anos. Suas análises sagazes da sociedade atual conseguem explicar muito bem o modo como temos vivido nas últimas décadas. Dezenas de livros sobre a sociedade hodierna são de autoria desse Sociólogo polonês, que tem servido de base para que outros acadêmicos construam as suas posições, teses e interpretações sobre como temos vividos nossas relações com o consumo, com os familiares, amigos e etc. 

Aqui está a definição do termo que o fez ficar tão conhecido:

“Uso aqui a expressão 'modernidade líquida' para denominar o formato atual da condição moderna, descrita por outros autores como ‘pós-modernidade’, ‘modernidade tardia’, ‘segunda modernidade’ ou ‘hipermodernidade’. O que torna ‘líquida’ a modernidade, e assim justifica a escolha do nome, é sua ‘modernização’ compulsiva e obsessiva, capaz de impulsionar e intensificar a si mesma, em consequência do que, como ocorre com os líquidos, nenhuma das formas consecutivas de vida social é capaz de manter seu aspecto por muito tempo. ‘Dissolver tudo que é sólido’ tem sido a característica inata e definidora da forma de vida moderna desde o princípio; mas hoje, ao contrário de ontem, as formas dissolvidas não devem ser substituídas (e não o são) por outras formas sólidas – consideradas ‘aperfeiçoadas’, no sentido de serem até mais sólidas e ‘permanentes’ que as anteriores, e portanto até mais resistentes à liquefação. No lugar de formas derretidas, e portanto inconstantes, surgem outras, não menos – se não mais – suscetíveis ao derretimento, e portanto também inconstantes.” P. 11.

Bauman é cirúrgico em sua análise das relações de consumo que nos são "impostas". Somos manipulados a ter necessidades que nunca serão satisfeitas, pois novas aquisições nos serão oferecidas, com a promessa de que com elas, agora sim, seremos plenamente supridos. Mas nunca conseguimos chegar a esse nirvana; a esse estado de torpor. Então um novo ciclo se inicia ad infinitun. Somos geralmente feitos de trouxas, e raramente nos damos conta disso. São os males do capitalismo, numa sociedade relativista.

“Uma economia líquido-moderna, orientada para o consumidor, baseia-se no excedente das ofertas, no rápido envelhecimento e no definhamento prematuro do poder de sedução. [...] Um suprimento ininterrupto de ofertas sempre novas é imperativo para a crescente circulação de produtos, com um intervalo reduzido entre aquisição e alienação; as ofertas são acompanhadas pela substituição por produtos ‘novos e melhores’. [...] A função da cultura não é satisfazer necessidades existentes, mas criar outras – ao mesmo tempo que mantém as necessidades já entranhadas ou permanentemente irrealizadas. Sua principal preocupação é evitar o sentimento de satisfação em seus antigos objetos e encargos, agora transformados em clientes; e, de maneira bem particular, neutralizar sua satisfação total, completa e definitiva, o que não deixaria espaço para outras necessidades e fantasias novas, ainda inalcançadas.” P. 14.

Aqui é um bom diagnóstico do que é a nossa relação de consumo hoje em dia:

 “Se você não quer afundar, deve continuar surfando, ou seja, continuar mudando, com tanta frequência quanto possível, o guarda-roupa, a mobília, o papel de parede, a aparência e os hábitos – em suma, você. Uma vez que os esforços coordenados e resolutos do mercado de consumo fizeram com que a cultura fosse subjugada pela lógica da moda, torna-se necessário – para ser uma pessoa e ser visto como tal – demonstrar a capacidade de ser outra. [...] As pessoas que se apegam a roupas, computadores e celulares de ontem significam a catástrofe para uma economia cuja principal preocupação, e cuja condição sine qua non de sobrevivência, é o descarte rápido, e cada vez mais abundante, na lata do lixo, dos bens comprados e adquiridos; uma economia cuja coluna vertebral é a remoção do lixo”. P. 19-20.

Moda Líquida, segundo Bauman, que mais uma vez acerta na mosca. Tudo é volúvel, sujeito a desaparecer, a ser ultrapassado quando menos esperamos. E para não "morrermos afogados", cedemos, consumindo, consumindo e consumindo, para entrar na moda. É uma verdadeira paranoia, sobretudo, quando vejo neguinho/a todo ano, por exemplo, trocando de celular, porque precisa estar com o aparelho mais moderno, se não "pira" - precisa livrar-se do que já "não serve". Não que eu não tenha muitas vezes também, tal vontade, afinal, estamos todos dentro dessa teia esquizofrênica de consumo.

O velhinho da Polônia nos premia com uma sagaz crítica ao multiculturalismo, filhote querido do pós-modernismo, ou nas palavras Jonathan Friedman, citadas por Bauman, “modernistas sem modernismo”:

"Em suas consequências práticas, a filosofia do ‘multiculturalismo’, tão em voga entre os ‘modernistas sem modernismo’, refuta seu próprio valor teoricamente promulgado de coexistência harmoniosa de culturas. De modo consciente ou involuntário, de propósito ou por negligência, essa filosofia apóia tendências separatistas e, portanto, antagônicas, tornando assim ainda mais difícil qualquer tentativa de estabelecer seriamente um diálogo multicultural.

[...]

A nova indiferença à diferença apresenta-se, em teoria, como uma aprovação do ‘pluralismo cultural’. A prática política constituída e apoiada por essa teoria é definida pelo termo ‘multiculturalismo’. Ela é aparentemente inspirada pelo postulado da tolerância liberal e do apoio aos direitos das comunidades à independência e à aceitação pública das identidades que escolheram (ou herdaram). Na realidade, contudo, o multiculturalismo age como uma força socialmente conservadora. Seu empreendimento é a transformação da desigualdade social, fenômeno cuja aprovação geral é altamente improvável, sob o disfarce da ‘diversidade cultural’, ou seja, um fenômeno merecedor do respeito universal e do cultivo cuidadoso. Com esse artifício linguístico, a feiúra moral da pobreza se transforma magicamente, como que pelo toque de uma varinha de condão, no apelo estético da diversidade cultural". P. 33.

O discurso multiculturalista traz em si, o germe inerente da contradição. Promove aquilo que diz combater. Perpetua as facetas da opressão. Bauman ainda desfere páginas a frente, várias críticas a esse pensamento insustentável, mas que teima em estar na pauta de vários intelectuais.

E aqui vai uma palavrinha aos atuais “detentores do conhecimento”, que penso eu, se aplica direitinho aos defensores multiculturais:

"Enfrentar o status quo exige coragem, considerando-se o enorme poder das forças que o sustentam; coragem, porém, é uma qualidade que os intelectuais, antes conhecidos por sua bravura ou por seu destemor simplesmente heróico perderam nas suas empreitadas em busca de novos papéis e novos ‘nichos’ como especialistas, gurus acadêmicos e celebridades midiáticas". P. 35.

O livro ainda se aplica em falar sobre a cultura na Europa, que graças ao seu processo de unificação, tem sobrevivido aos males da globalização (que corrói a soberania do Estado-nação), preservando a sua identidade.

E por fim, a produção da cultura e sua atual relação com o mercado, são o tema do derradeiro capítulo. E mais uma vez, Bauman em suas análises, não vê com bons olhos, a submissão da arte ao deus mercado.

“Submeter a atividade cultural aos padrões e critérios dos mercados de consumo equivale a exigir que as obras de arte aceitem as condições de ingresso impostas a qualquer produto que aspire à categoria de bem de consumo – ou seja, justificar-se em termos de seu valor de mercado atual.” P. 73-74.

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Santos Fortes: Raízes do Sagrado no Brasil


FERNANDES, Luiz Estevam; KARNAL, Leandro. Santos Fortes: Raízes do Sagrado no Brasil. Rio de Janeiro: Anfiteatro, 2017.

Karnal (Ph.D em História na USP) e Fernandes (Ph.D em História na Unicamp), trazem neste livro, uma ínfima parcela do panteão de santos (ou semideuses) do catolicismo romano, que estão presentes na devoção de milhões dos católicos do mundo inteiro, em especial, os fiéis brasileiros. Ambos os Historiadores são ateus, no entanto, nutrem um profundo respeito pela religiosidade que irão historiar. Aqui e ali, vemos algumas pitadas de humor e de ironia, talvez uma crítica velada a cachorrada que é essa miríade de intercessores mortos do catolicismo romano? Afinal ninguém é de ferro, e é muito difícil se isentar de alguma crítica, quando se fala na história dessa instituição. Os autores advertem aquelas pessoas que se julgam mais racionais e inteligentes que os devotos dos santos fortes:

“Bom senso é aquilo que apenas eu tenho. Infelizmente, a fé do outro está sempre errada e Deus se comunica de forma reta apenas comigo. Somente eu sei que estas pessoas cometem um equívoco porque são diferentes de mim e não interpretam a Bíblia, a Torá ou o Corão da maneira correta – a propósito, a minha. [...] A virtude presumida pode ser mais grave no Juízo Final do que uma singela devoção ao bem.” P. 13.

Eles têm razão. Estou pronto a admitir, que me julgo mais racional (virtude presumida) que os veneradores (adoradores) desses semideuses católicos, mas também, estou pronto a recuar e, dizer que, em muitos outros aspectos da minha vida, eu sou irracional, passional, subjetivo ao extremo, ao passo que muitíssimos devotos dos santos, estão há anos luz de mim, em inteligência, sagacidade e objetividade em outras áreas. Ninguém é frio, calculista, realista e objetivo, em todas as áreas da existência. Viver assim seria insuportável. Precisamos cultivar pensamentos mágicos.

Para quem dirige suas orações aos santos, pouco importa o que a igreja tem a dizer sobre eles, seja aprovando ou reprovando. Discursos vindo da Teologia não tem lugar na cabecinha de quem acredita que foi abençoado por esses mediadores do céu.  

"Os devotos dos santos fortes não se preocupam com teologias elaboradas em gabinetes e bibliotecas. Não debatem as sutilezas conceituais da latria (adoração devida a Deus), dulia (veneração de santos) e hiperdulia (dedicada à Virgem Maria). Apenas sentem que precisam de ajuda. Teologia é recurso mental sofisticado. A necessidade imediata e prática dispensa esse tipo de sutileza. O fiel não é metafísico; o aqui e agora é mais forte do que a especulação sobre as causas primeiras. A fé de alguém diante do seu santo de eleição não diminuiria diante dos protestos de todos os teólogos e, obviamente, não depende da aprovação deles." P. 13.

O monte Olimpo do Vaticano é tão cheio de intermediadores de Deus, que muitos estão tirando férias há séculos, por não terem mais terráqueos que peçam as bênçãos celestiais a eles.

"Por fim, há santos absolutamente anônimos para a imensa maioria das pessoas, mesmo as católicas. São milhares de obscuros bispos da Alta Idade Média, abades dos confins do mundo, condessas de lugares ermos e mártires sem muito holofote. [...] Dos milhares de santos do panteão católico, constituem a maioria, perdidos nas brumas do tempo e enterrados nas areias do esquecimento". P. 22-23.

Sou um cético inveterado ao modo de o catolicismo guiar as pessoas em suas devoções espirituais, entretanto, sou o primeiro a baixar a guarda, quando surgem problemas em minha vida, dos quais acredito que são mais fortes do que posso suportar. Portanto, não tenho vergonha de pedir uma ajudinha do céu, mesmo que tal pedido chegue aos céus entrelaçado com muita desconfiança e ceticismo (talvez não passem do teto). Nós, humanos, somos frágeis demais, para aguentar as pedradas da vida, sozinhos. Quanto a isso, subscrevo as palavras abaixo:

"Para todos os seres humanos chega um dia de angústia no qual os recursos humanos disponíveis estão barrados. Pode ser uma doença sem cura, uma crise financeira aguda ou uma angústia com um filho. A impotência diante das fatalidades, o mundo hostil e as ciladas dos inimigos terrenos e espirituais sobrepujam a força da alma angustiada. Esse é o momento da intercessão, do auxílio, da busca do além para o aqui e agora." P. 57-58.

O livro contará a história de vários santos: São Jorge, São Sebastião, São Judas Tadeu, São Longuinho, Santo Expedito, Maria, São João Batista, Santa Bárbara, Santo Antônio, entre outros. Alguns são santos canônicos (aprovados pela igreja), outros foram aclamados pelo povo, como o padre Cícero, no interior do Ceará.

Sobre o popular Chiquinho de Assis:

"Francisco nunca se ordenou. Não era padre, de fato. Logo, nunca pôde presidir uma missa. Tampouco se encaixou no modelo monacal de sua época, o do isolamento em fortalezas de Deus chamadas mosteiros, rezar pela salvação de uns poucos e, no processo, garantir a própria entrada no Paraíso. O novo modelo de santo era o do frade, o irmão consagrado. Sua atuação podia se dar em conventos, mas preferencialmente devia se dar no mundo, em meio ao pecado. Menos estudo e mais ação. Pregar de maneira itinerante, de acordo com a necessidade do lugar e das pessoas. Pregar a toda criatura, humana ou não. Uma visão ecológica e holística da natureza como criação divina, sem hierarquias". P. 108.

Chiquinho conseguiu convencer várias pessoas a viverem sem nada, apenas de doações, esmolas, da maneira mais simples possível. Atraiu a atenção de muitas cidades. Num determinado momento, a igreja sempre com sede e fome de poderes ilimitados, teve receio do aumento dos seguidores de Chiquinho.

"Receava-se a expansão da ordem franciscana. Se os ideais de pobreza e desapego não fossem suficientemente controlados, o que seria da instituição mais rica da Idade Média?" P. 113-114.

Mas a grande ironia da coisa foi que:

"Menos de um século depois de sua morte [de Francisco], a ordem franciscana era tão rica quanto qualquer outra. A própria Basílica de Assis, ricamente adornada por dois gênios, é prova disso. Cada cena da vida de Francisco que ilustra o templo é antagônica ao custo que aquela arte de vanguarda teve à ordem. [...] Assim, os franciscanos chegariam ao século XVI como a ordem mais importante da Europa". P. 119.

Muitos que eram santos, já não são tão santos assim.

"Bárbara é mais um dos milhares de santos mártires dos primeiros séculos do cristianismo. Sua existência concreta é altamente questionável. No movimento de verificação e atualização de sua lista hagiológica feito pelo Vaticano nos anos 1960, retirou-se a santa do rol de mártires oficiais. Ou quase. Ela ainda consta do martirológico, mas a data de 4 de dezembro, sua festa, e mesmo o seu nome foram removidos do calendário da Igreja na reforma de 1969. Isso significa que a Igreja reconhece o culto e a popularidade de Bárbara, mas não afirma categoricamente sua existência." P. 163.

E nós, brasileiros, já temos os nossos santos. Há poucos anos, não tínhamos nenhum, apenas beatos. Agora são dezenas.

"[...] até pouco tempo, o maior país católico não tinha santos nativos. João Paulo II canonizou Madre Paulina. O nacionalismo queria mais, pois a santa viveu aqui, mas nasceu na Itália. Vieram Frei Galvão e suas pílulas mágicas. Nascido em Guaratinguetá, tornou-se o primeiro santo tupiniquim com eira e beira. Em outubro de 2017, o papa Francisco anunciou a canonização de trinta novos santos brasileiros: os mártires de Cunhaú e Uruaçú, no Rio Grande do Norte. Nada mal. Saímos de nenhum para dezenas de santos oficiais em pouco mais de uma década e meia." P. 182-183.

E ainda existem, digamos, os santos apócrifos:

"O Brasil, bem como qualquer país de matriz católica, está cheio de santos fora do altar, esperando o reconhecimento da Igreja. Ou nem necessitando dele. A canonização é espontânea. O postulante a santo pode ser um padre ou um bandido, pobre coitado ou ricaço com fama de evérgeta, criança ou velho". P. 184.

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

O Deus da Idade Média: Conversas com Jean-Luc Pouthier


LE GOFF, Jacques. O Deus da Idade Média: Conversas com Jean-Luc Pouthier. 2º Edição. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010.

Le Goff, consagrado Historiador da terceira geração do Annales, é uma das vozes mais requisitadas quando o assunto é o período medieval, que tradicionalmente é recortado entre a queda do império romano do ocidente (476) e a conquista de Constantinopla pelos turcos otomanos (1453). O colapso do império de Roma que lentamente foi se efetivando com as migrações e invasões bárbaras, finalmente cedeu a uma nova forma de governo, ou melhor dizendo, governos (os feudos). As instâncias políticas, sociais, jurídicas, econômicas e religiosas sofreram progressivas mudanças, ocasionadas pela fusão entre o modo de ser romano e a cultura germânica, não esquecendo, é claro, das concepções religiosas/teológicas legadas pelo cristianismo. O comércio do mediterrâneo não desapareceu, mas declinou consideravelmente com as migrações urbanas para o meio rural (90% de toda a população), como resultado da desintegração do Estado romano, que já não podia controlar as invasões.   

Com o imperador Constantino, a religião do homem da Galileia passa a ser praticada sem os entraves do estado (313). Décadas depois com Teodósio, ela passa a ser a religião oficial do império romano (380). O mundo ocidental europeu começa a se formar. A igreja católica foi sem dúvida a maior instituição da Idade Média, controlando a vida de reis, cavaleiros e servos.

Adentrando o livro propriamente dito, ele é em forma de entrevista, onde o Historiador e Jornalista Jean-Luc Pouthier é o entrevistador. Em tom respeitoso e não crítico, Le Goff passa a falar dos aspectos religiosos que existiram no medievo, enfatizando as mudanças e evoluções de como o europeu passou a ver Jesus, Deus, o Espírito Santo, a igreja...

Em certo momento ele diz:

“A imagem de Deus numa sociedade depende sem dúvida da natureza e do lugar de quem imagina Deus. Existe um Deus dos clérigos e Deus dos leigos; um Deus dos monges e um Deus dos seculares; um Deus dos poderosos e um Deus dos humildes; um Deus dos pobres e um Deus dos ricos. [...] as imagens de Deus mudam com o correr do tempo”. P. 11, 12.

Tenho a impressão de que muitos teólogos fundamentalistas gabaritados não entendem isso. Parece que muitas vezes escrevem, dissertam, falam sobre o cristianismo e teologias cristãs, como se a mesma fé e o mesmo modo de se relacionar com o divino fossem uniformes ao longo desses quase dois mil anos, não atentando para as grandes mudanças que ocorreram e ainda ocorrem nesse relacionamento do homem e das comunidades com Deus. A visão do que é pecado muda; a visão do que Deus deseja, muda; a maneira de como se relacionar com a igreja e o mundo, muda.

Quanto à cobrança de dinheiro feita pela igreja no mundo medieval, o livro explica:

“Na Idade Média, no sistema político feudal, como de um modo geral no conjunto da existência, a Igreja desempenha um papel essencial. É preciso ver isso de um nível econômico e social muito humilde, o do imposto, do pagamento de foros. A Igreja cobrava dízimos e sustenta os senhores que cobram foros. E na vida do dia-a-dia, nos sermões, a Igreja afirma que o dízimo não é dado a ela, o que seria constrangedor, mas a Deus, ou com mais rigor, a São Pedro. Por outro lado, os padres, os monges, explicam que pagar os foros aos senhores é fazer a vontade de Deus, porque Deus lhes confiou um poder de comando que corresponde a suas intenções”. P. 82.

Fica evidente que a esperteza de como legitimar a doação de grana para os cofres da igreja continua a mesma, ou muito semelhante a atual, agora com o agravo de não somente a igreja católica cobrar, mas também as igrejas protestantes e biroscas neopentecostais.

Era somente pela exclusiva mediação da igreja, que as pobres pessoas podiam adentrar ao céu. 

“Os principais instrumentos da dominação da Igreja foram a consolidação da teologia e a prática dos sacramentos. O século XII é aquele em que se estabelecem firmemente os sete pecados capitais, os sete dons do Espírito Santo e os sete sacramentos. E como a Igreja é a única a distribuir os sacramentos, o homem não pode se salvar não a ser pela Igreja e graças à Igreja”. P. 88.

“Era muito difícil, insisto neste ponto, para os homens e as mulheres da Idade Média ter um contato direto com Deus, isto é, um contato sem a mediação da Igreja. Portanto, através dela é que muitos cristãos e cristãs da Idade Média buscaram um acesso a Deus que sentissem como contato verdadeiro e individual. A Igreja, para satisfazer a essa aspiração sem renunciar a seus privilégios e à sua dominação, fez com que evoluísse o sistema dos sacramentos, sistema que tinha a vantagem de tornar sua intervenção obrigatória, preparando uma relação direta da pessoa batizada com Deus”. P. 98.

Como a teologia católica mudou, hoje não é mais assim.

A igreja dispunha de vários meios para manter os seus fiéis sob as suas rédeas. Eis mais um:

“Outro meio utilizado pela Igreja para manter sua situação privilegiada entre Deus e o fiel foi, durante muito tempo, fazer com que se falasse latim com Deus. Quando os valdenses, no fim do século XII, quiseram ler a Bíblia numa tradução em língua vernácula [o francês que nascia], foram condenados, ainda que suas crenças e suas práticas fossem, no conjunto ortodoxas. Com efeito, os cristãos e as cristãs da Idade Média parecem ter sofrido de certo modo uma frustração no seu relacionamento com Deus, e é provável que esse sentimento de frustração tenha sido uma das condições favoráveis ao nascimento Reforma, na qual muitos pensaram achar um acesso mais autêntico e mais direto a Deus”. P. 100.

As igrejas protestantes estão sujeitas a tantas críticas quanta a católica, mas o aparecimento delas, em todo caso, foi uma benção para a humanidade. O cristianismo saiu do curral romano e se diversificou, diluiu o seu centro de poder. Acho que nunca é demais lembrar disso, mesmo sabendo que os ramos protestantes têm dado péssimos exemplos de moral e conduta, não conseguindo estar a altura de seus discursos morais tão elevados.