quarta-feira, 27 de junho de 2018

O Impasse Sobre a Origem da vida


A origem da vida ainda continua sendo um mistério insondável para as mentes científicas mais eminentes do nosso tempo, que não conseguem uma explicação passível de provas de que ela surgiu assim ou assado. Apesar das animosidades entre Cientistas materialistas (que são a maioria) e Cientistas teístas, há uma concordância geral, de que ainda estamos muito longe de desvendar, se é que vamos, esse enigma de como de um momento para o outro a vida passou a existir. Teorias aos montes foram propostas ao longo dos últimos sessenta anos, mas elas não passaram pelo escrutínio da Ciência.

Vejamos o que alguns Cientistas teístas têm a dizer:

George T. Javor (Ph.D. pela Columbia University) leciona Bioquímica na Loma Linda University, Loma Linda, Califórnia, EUA.

“Cinqüenta anos de pesquisa bioquímica demonstraram inequivocamente que, a despeito de quais sejam as condições, a abiogênese é uma impossibilidade. É apenas uma questão de tempo antes que o edifício chamado ‘evolução química’ imploda sob o peso dos fatos.”


Urias Takatohi, tem Licenciatura pela Universidade São Carlos e Bacharelado, Mestrado e  Doutorado em Física pela USP.

“Nenhuma teoria [naturalista] adequada sobre a origem da vida foi desenvolvida até agora, e os livros didáticos de biologia ainda citam as hipóteses do bioquímico russo Oparin (c. 1930), e os experimentos de Stanley Miller, da Universidade de Chicago (1952), como progressos nessa direção.”


Werner Gitt, especialista em Teoria da Informação e Diretor do Instituto Federal de Tecnologia em Brunsvique, Alemanha.

“Stanley Miller (1930-2007), cuja experiência com a ‘sopa pré-biótica’ (1953) é mencionada em todo livro de Biologia, admitiu depois de 40 anos que nenhuma das atuais hipóteses sobre a origem da vida consegue ser convincente. Ele classificou todas elas de ‘bobagens’, de ‘gestações mentais químicas’”.


Ariel A. Roth, Ph.D em Biologia pela Universidade de Michigan, membro da Sociedade Americana de Geologia e membro da Sociedade de Geologia Sedimentar.

O fracasso da evolução química para apresentar um modelo plausível, junto com a persistência dos cientistas em tentar criá-lo, provoca uma séria questão sobre a prática atual da ciência. Por que tantos cientistas têm fé em modelos da origem da vida que seguem uma multidão de proposições essencialmente impossíveis, mas não consideram a fé em um idealizador? Existe uma atitude preconceituosa contra Deus no atual ambiente científico? Estaria essa atitude impedindo que a ciência encontre toda a verdade? Algo parece estranho.”

ROTH, Ariel. A Ciência descobre Deus. São Paulo: Casa Publicadora Brasileira, 2010. P. 102.

Cláudia Aparecida Alves, Bacharel em Química/USP, Mestre em Ciência e Química Analítica/USP e Doutora em Biotecnologia Molecular Estrutural/USP.

“Stanley Miller ficou famoso ao publicar, em 1953, os resultados de sua experiência, realizada sob as condições da suposta atmosfera primitiva. A atmosfera primitiva, proposta no experimento de Miller, era composta por vapor d'água, metano, amônia e hidrogênio, na total ausência de oxigênio livre, pois ele sabia que o oxigênio impediria a formação das grandes moléculas orgânicas. Sob estas condições, Miller relatou que obteve formação de alguns aminoácidos. Entretanto, não existem provas de que a atmosfera primitiva fosse isenta de oxigênio livre.

O conhecimento científico chegou a um impasse sobre a origem da vida e que algumas pessoas começam a reconhecer que as respostas podem estar no âmbito da teologia.”


John Briant, Ph.D em Bioquímica na Universidade de Cambridge, com Pós-Doutorado na Universidade de East Anglia. Professor emérito de Biologia Celular e Molecular na universidade Exeter.

“A ciência nos diz também que há coisas que não sabemos e que talvez não conseguiremos saber, o que nos mantém humildes. Não acredito, por exemplo, que um dia saberemos como a vida começou. Podemos conceber um mecanismo viável, mas isso não nos diz o que aconteceu realmente, pois não sabemos repetir o experimento.”

BANCEWICZ. Ruth (Org). O Teste da Fé. Viçosa. Minas Gerais: Ultimato, 2013. P.72.

James Tour, Cientista Infinitesimal, com Ph.D em Química Orgânica pela Universidade Purdue e Pós-Doutorado na Universidade Stanford e na Universidade de Wisconsin. Professor do Departamento de Química e do Centro de Ciência e Tecnologia em Escala Infinitesimal da Universidade Rice. 

“Vou contar-lhe que como cientista e químico sintético”, [...] se alguém devia entender a evolução, seria eu, porque faço moléculas para ganhar a vida, e não apenas compro um kit, e misturo isso e mais isso e obtenho aquilo. Quer dizer, ab initio, eu faço moléculas. Eu entendo o quão difícil é fazer moléculas.

Eu não entendo a evolução, e vou confessar para você. [...] Para mim está tudo bem dizer que ‘eu não entendo isso’? Está tudo bem? Eu sei que há um monte de pessoas lá fora que não entende nada de síntese orgânica, mas entendem de evolução. Eu entendo um monte sobre fazer moléculas; eu não entendo a evolução.

Deixe-me dizer a você o que acontece nos bastidores da ciência – com os membros da Academia Nacional, com vencedores de prêmios Nobel. [...] Eu me assentei com eles, e quando estávamos sós, não em público – porque é uma coisa apavorante, se você diz o que eu acabei de dizer –, eu disse: ‘Você entende tudo isso, de onde tudo isso veio e como aconteceu [a origem da vida]?’ [...] Não.

Toda vez que eu me assento com químicos sintéticos, que entendem isso, eles dizem ‘Ah-hã. Não’. [...] E se eles estão com medo, e querem dizer ‘sim’, então não dizem nada. Eles apenas olham pra mim, porque eles não podem sinceramente fazer isso.


Stephen Grocott, Ph.D em Química na Universidade da Austrália Ocidental. Membro do Instituto Real de Química da Austrália.

“Se alguém acredita na evolução, então é preciso também explicar a origem da vida, o primeiro passo. Sem isso, toda a questão da evolução paira sobre nada.

Agora este é um assunto sobre o qual eu li muito. E o peso das evidências contra a origem espontânea da vida na Terra é, na minha opinião, esmagadora.”

ASHTON, John F. Em Seis Dias: Por Que 50 Cientistas Decidiram Aceitar a Criação. Master Books, 2001. P. 144.

Francis Collins, renomado Geneticista e Diretor do Projeto Genoma Humano, responsável pelo mapeamento do DNA humano, em 2001.

“Para começar, como surgiram esses organismos que se auto-reproduzem? É justo afirmar que simplesmente não sabemos. Nenhuma hipótese atual se aproxima de uma boa explicação acerca de como, num espaço de meros 150 milhões de anos, o ambiente pré-biótico que existia sobre o planeta Terra gerou vida.

Há cinquenta anos, os famosos experimentos de Stanley Miller e Harold Urey recriaram uma mistura de água e compostos orgânicos que poderia ter representado as circunstâncias primordiais na Terra. Aplicando uma descarga elétrica, esses pesquisadores puderam formar pequenas quantidades de importantes blocos de construção biológica, como os aminoácidos.

Além desse ponto, porém, os detalhes tornam-se bastante incompletos. Como poderia uma molécula que se auto-reproduz, portando informações, montar-se espontaneamente a partir desses componentes? Parece totalmente improvável que uma molécula como o RNA, com sua estrutura de açúcar-fosfato e bases orgânicas dispostas de forma complexa, empilhadas umas sobre as outras e emparelhadas em cada degrau de uma hélice dupla e retorcida, tenha 'apenas acontecido' – especialmente uma vez que o DNA aparenta não ter, em sua essência, nenhum modo de copiar a si mesmo.”

COLLINS, Francis. A Linguagem de Deus. São Paulo: Gente, 2007. P. 96-97.

A maioria dos citados acima são criacionistas clássicos, aquele pequenino grupo de Cientistas que elaboram as mais inusitadas teorias para negar os bilhões de anos do universo, e que creem piamente que a origem da vida surgiu abruptamente já formada, conforme o Gênesis. Não levando em conta tal crença, eles têm razão quanto a ignorância ainda existente sobre como a vida surgiu. Alegam que as teorias materialistas fracassaram rotineiramente em explicar como a vida apareceu.

É frequente vermos apelarem para a Lei da Biogênese: vida só pode surgir de vida. Mas este é um problema para eles! Tal lei diz que vida material (seres unicelulares, bactérias, vírus, animais, seres humanos) só pode vir de vida material, e não de uma vida invisível, inacessível, misteriosa, inalcançável e incompreensível, que é exatamente o Deus que postulam. Estão a misturar Filosofia e Teologia com Ciência? Parece que sim. Para que tal argumento funcione, precisam inserir doses cavalares de Filosofia e Teologia no meio disso tudo. 

O primeiro citado, George T. Javor escreve: “[...] a abiogênese é uma impossibilidade”. Por ora, digamos que sim. No entanto, a Biogênese parece tornar a visão do que você defende uma impossibilidade, conforme já expliquei.

O segundo citado, Urias Takatohi diz: “Nenhuma teoria [naturalista] adequada sobre a origem da vida foi desenvolvida até agora”. Você está certo, Takatohi. Mas retruco-lhe: “Nenhuma teoria adequada baseada na sua interpretação da Bíblia sobre a origem da vida foi desenvolvida até agora”.

O terceiro citado, Werner Gitt arrebata: “Stanley Miller [...] admitiu [...] que nenhuma das atuais hipóteses sobre a origem da vida consegue ser convincente. Ele classificou todas elas de ‘bobagens’, de ‘gestações mentais químicas’”. Você está correto, Gitt. E é bom lembrares que Miller têm um conceito muito pior sobre as teorias criacionistas da vida.

...

Como pode-se ver, há sempre um contraponto adequado para cada asserção dos criacionistas. 

Estamos diante de um impasse científico sobre como a vida se originou, conforme diz a Cláudia Aparecida Alves - e é aí, que os criacionistas falham, visto que só sabem apontar os defeitos nas teorias naturalistas, sem proporem um modelo adequadamente científico para explicar todo esse mistério.

PS: Não sou ateu. Apenas lançando um olhar mais crítico sobre aqueles que adoram ver defeitos no quintal alheio. 

terça-feira, 26 de junho de 2018

A História Está Errada



DANIKEN, Erick Von. A História Está Errada. São Paulo: Idea, 2010.

Daniken é figura conhecida, quando se fala em Ufologia, viajantes espaciais de outros planetas, construção das pirâmides e de outros monumentos, por civilizações avançadas de outros planetas, aos quais os antigos habitantes da Terra, chamaram de deuses. Daniken a despeito de ser bastante criticado por outros estudiosos, continua a sua saga de provar que fomos visitados por seres tecnologicamente mais evoluídos, e que eles nos ensinaram a construir grandes e intrincados monumentos, e que até prometeram que irão voltar.

Ele gasta muitas páginas de seu livro falando sobre o misterioso e indecifrável manuscrito Voynich, que encontra-se atualmente na Universidade de Yale, e que ninguém conseguiu dizer sem sérias contestações, qual o significado de suas palavras e ilustrações. Não surpreende que Daniken atribua as gravuras e palavras ali contidas como sendo uma mensagem velada dos extraterrestres, que em breve serão finalmente descobertas. Semelhante aos religiosos que creem que ao final, as suas verdades absolutas serão expostas a todos, Daniken também nutre esse tipo de esperança.

“As conseqüências poderiam ser altamente inquietantes, pois a existência de extraterrestres, deixada de lado há milhares de anos atrás, geralmente nos força a tirar conclusões que arrebentam nossa visão atual das coisas. [...] Estamos marchando em linha reta diretamente para a era das maravilhas e do despertar.” P. 68.

Como nos seus outros livros, muita atenção é dada a Enoch, aquele obscuro personagem bíblico, que foi levado aos céus – não passou pela morte – mas que ao contrário da interpretação tradicional, o autor analisa tal história com os olhos modernos, ou seja, ele inverte a prática hermenêutica, vendo no livro de Enoch, não anjos, seres celestiais, ou Deus, mas naves tripuladas por alienígenas, que os antigos de maneira equivocada interpretaram como deuses. A tripulação que levou Enoch, voltará em breve, diz Daniken.

“Como você irá se comportar, quando os amigos alienígenas de Enoch realmente voltarem? E que eles irão voltar é tão certo quanto a noite segue o dia.” P. 87.

“Se ETs realmente visitaram nosso planeta há milênios atrás e passaram seu conhecimento para alguém, como Enoch, há muito o que fazer agora. Apenas pense, meu querido leitor, sobre o impacto na religião, as conseqüências filosóficas, as possibilidades para a tecnologia de vôo espacial, que pode atravessar anos-luz. Ou pense ainda na antiga promessa de uma segunda vinda, que aparece em praticamente em todas as religiões até o dia de hoje.” P. 75.

O que seriam encontros com anjos, seres enviados por Deus, para guiarem e ajudarem certas pessoas, na verdade, foram extraterrestres. Na verdade a Bíblia, por exemplo, é uma grande prova das visitações extraterrestres. Um dos encontros ufológicos mais emblemáticos encontra-se no livro de Ezequiel.

“As descrições altamente precisas feitas pelo profeta Ezequiel, na Bíblia, foram transformadas em ‘visões, sonhos, inspirações’ e outras mistificações semelhantes, embora ele claramente esteja falando sobre um ônibus espacial.” P. 80-81.

Não é surpresa, para quem lê literatura ufológica, tal modo de ver os textos bíblicos. Lembro-me que a primeira vez que li sobre isso, foi em 2003, numa edição da revista UFO, que trazia em sua capa a pergunta se Jesus era um extraterrestre. Os Ufológos, pelo menos grande parte deles, assim o creem. Nada mais natural, seguindo a linha interpretativa que eles têm sobre a história e os textos sagrados do passado.

A maneira correta de vermos as coisas, se aproxima. Nada modesto, Daniken vê a si  mesmo como parte crucial nesse processo.

“Alguém como eu, que tende a olhar um pouco mais para trás, nas brumas do tempo, poderia ajudar na aceleração ao longo deste tempo de despertar. Uma grande mudança está chegando e por mais que políticos, cientistas que se dão muita importância, e líderes religiosos, fervorosamente vociferantes, possam querer, nunca serão capazes de impedir. Não há vacina contra o pensamento. Idéias não conhecem fronteiras nem censura. E mais: idéias têm uma tendência perigosa de se alastrarem como o fogo.” P. 84-85.

Daniken reconhece que já cometeu equívocos interpretativos, que já errou, avaliando erradamente os dados, e que isto é combustível para os seus críticos descartarem tudo que ele já escreveu. Mas ele tem um recado a quem pensa assim:

“Errar é humano, como dizem, e admitir o erro não fere. Nas quase 9.000 páginas que escrevi, é inevitável que eu tenha cometido um ou outro erro, ou que ao longo do tempo revelou-se que o ‘outro lado’ estava certo, depois de tudo, e eu estava errado. [...] Agora, há algumas pessoas que agem como se um erro provado em uma teoria é suficiente para anular a idéia inteira. ‘Se uma peça de evidencia em seu livro não está certa’ - ouço isso freqüentemente – ‘então, tenho de assumir que toda outra evidência é falsa’. Segundo esta lógica absurda, teríamos de jogar fora praticamente todos os livros escolares, os livros didáticos, ou livros científicos por todo o planeta, porque o tempo nos mostra que muitas coisas que foram alguma vez consideradas como verdades inabaláveis são agora tidas como erradas.” P. 110-111.

Boa parte de A História Está Errada é uma defesa do próprio caráter e carreira do Daniken. Sua imagem ficou muito prejudicada devido aos seus problemas com Juan Moricz, um carinha que diz ter explorado um conglomerado de cavernas no Equador, que estavam (estão) cheias de placas de metais, que na visão de Daniken têm a ver com os livros ditados por extraterrestres a Enoch, milênios atrás, que foram trazidos para América, pelos jareditas, povo hebreu – história está contada pelo livro de Mórmon. Sim!, numa intricada e nada convincente argumentação, Daniken bota fé que o livro de Mórmon tem o seu quinhão de credibilidade, com o mesmo erro que a Bíblia, de atribuir a Deus, o que na verdade foram encontros com extraterrestres. Os metais presentes nesta caverna têm importância salutar para o futuro da humanidade. Esses escritos entregues a Enoch, em breve serão revelados a todos. Os Ets estão voltando. Que o diga o famoso Chico Xavier, para quem a Data Limite é 20 de julho de 2019.

Daniken teve sérios problemas, depois de ter publicado fotos dessas supostas cavernas, fornecidas Juan Moricz. Décadas depois do acontecido, Daniken retoma toda essa confusão, dando a sua versão dos fatos, declarando-se inocente.

Daniken é um homem que acredita só em ets, ou também acredita em Deus? Sim. Ele crer num Ser Todo Poderoso. Eis o que ele diz:

“Como um homem religioso, que ainda reza diariamente, minha fé começa com a criação do universo. MINHA idéia de Deus é a de um ser eterno, onipresente, atemporal e todo-poderoso, que nunca sentiu a necessidade de viajar ao redor da Terra, em qualquer tipo de veículo que levanta areia, faz muito barulho, irradia luz resplandecente e, o que é mais, é extremamente perigoso para qualquer humano nas vizinhanças.” P. 196.

E é exatamente por ser assim, ele não pode jamais ser o deus das religiões que conhecemos.

“O Deus verdadeiro, o Grande Espírito da Criação, não é responsável pela grande confusão de dogmas e religiões terrestres.” P. 208.

“[...] eu creio - que os alienígenas visitaram a Terra milhares de anos atrás. Isso leva ao nascimento das religiões de hoje e das sagradas escrituras. Como sabemos, cada religião neste hospício terrestre afirma que SUAS escrituras sagradas são as únicas verdadeiras. Em quem - pelo amor de Deus! - devemos acreditar? E NO QUE devemos acreditar? A maioria das religiões prediz algum tipo de julgamento final. Há religiões que anunciam que os infiéis serão cozidos vivos, afogados, espancados, esfaqueados, envenenados (com "água amarga"). Felizmente isso se aplica só aos infiéis - mas, espere! QUAIS infiéis? Aqueles que não acreditam no dogma católico? Aqueles que tiveram a infelicidade de não nascerem na Arábia ou terras asiáticas e nunca terem ouvido os ensinamentos do Islã ou da fé hindu? Aqueles que tiveram suficiente azar de crescer em uma seita cristã ou qualquer outra? Aqueles que são membros da religião xintoísta, no Japão, ou aqueles que não acreditam no Livro de Mórmon ou nos ensinamentos da Cientologia?

“Mesmo o cérebro mais modestamente inteligente precisa certamente começar a ver o problema. [...] Como dificilmente poderemos sustentar que o criador do universo é o responsável pela pletora de escritos sagrados existente em nosso planeta, então devemos olhar para outra fonte, para descobrir uma solução aceitável para o caos existente.” P. 208-209.

quinta-feira, 14 de junho de 2018

Contra a perfeição: Ética na Era da Engenharia Genética




SANDEL, Michael J. Contra a perfeição: Ética na Era da Engenharia Genética. 1. ed. - Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2013.

Michael Sandel, Ph.D em Filosofia Política na Universidade de Oxford, em mais um livro extraordinário, explica o porquê de ser “contra a perfeição” - ser contra o aperfeiçoamento genético, alegando que isso seria uma nova forma de eugenia. Alguns pontos de sua defesa podem ser discutidos e questionados, mas no geral suas argumentações são bastante plausíveis. As consequências de uma sociedade modificada geneticamente não parecem ser muito boas.

Sandel posiciona-se a favor das pesquisas com células tronco embrionárias, o que logicamente matará essas vidas humanas. Ele não acredita que o embrião (blastócito) tenha os mesmos direitos, o mesmo status, que nós, seres humanos nascidos, temos. Neste ponto, também estou com ele.  

Vamos ao livro.

Há muito tempo, os pais já tinham a preocupação na escolha do sexo de seus descendentes.

“Há séculos os pais tentam escolher o sexo dos filhos. Aristóteles aconselhava que os homens que desejavam um menino amarrassem o testículo esquerdo antes da relação sexual. O Talmude ensina que os homens que se contêm e permitem que as mulheres cheguem primeiramente ao orgasmo serão abençoados com um garoto. Outros métodos recomendados envolviam combinar o momento da relação sexual com a época da concepção ou as fases da lua.” P. 20.

Geralmente a escolha de meninos tem precedência, acarretando em vários abortos, na Índia.

“[...] em sociedades nas quais existe uma preferência cultural profunda por meninos, o aborto de meninas depois da determinação do sexo por meio dos exames de ultrassom tornou-se uma prática comum. Na Índia, o número de meninas a cada mil meninos caiu de 962 para 927 nas últimas duas décadas. A Índia proibiu o uso de exames de ultrassom para verificação do sexo de bebês, mas a lei raramente é cumprida. Radiologistas itinerantes com máquinas de ultrassom portáteis vão de cidadezinha em cidadezinha apregoando seus serviços. Uma clínica de Mumbai reportou que, de 8 mil abortos feitos ali, apenas um não o foi por motivos relacionados à escolha do sexo.” P. 21.

O aumento de drogas farmacêuticas ingeridas por crianças tiveram um aumento absurdo, devido as novas obrigações destinadas aos pequenos.

“Há quem atribua o enorme aumento nos diagnósticos de transtorno do déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) às novas demandas impostas às crianças. O dr. Lawrence Diller, pediatra e autor de Running on Ritalin (À base de ritalina), estima que de 5% a 6% das crianças americanas com menos de 18 anos (entre 4 e 5 milhões de jovens) são atualmente medicadas com ritalina e outros estimulantes para tratar o TDAH. (Os estimulantes combatem a hiperatividade, facilitando que as crianças mantenham o foco e a atenção e impedindo que elas se desviem de uma coisa para outra.) Ao longo dos últimos 15 anos, a produção legal de ritalina aumentou 1.700%, e a produção da anfetamina Adderall, também usada para tratar o TDAH, aumentou 3.000%. Para as empresas farmacêuticas, o mercado americano da ritalina e de outros medicamentos relacionados é uma mina de ouro: rende US$ 1 bilhão por ano.” P. 45.

Sandel mostra a incoerência daqueles que não se posicionam contra a FIV, mas são contra as pesquisas com células embrionárias.

“Se é imoral produzir e sacrificar embriões com o intuito de curar ou tratar doenças terríveis, por que não seria igualmente censurável produzir e descartar embriões excedentes em tratamentos de infertilidade? Ou, olhando o argumento de trás para a frente: se produzir e sacrificar embriões vindos de FIV [Fertilização in Vitro] é moralmente aceitável, por que produzir e sacrificar embriões para pesquisas com células-tronco não o seria? Afinal, as duas práticas servem a fins valorosos, e curar doenças como o mal de Parkinson e o diabetes é no mínimo tão importante quanto tratar a infertilidade.” P. 73.

Os embriões congelados aos milhares, deveriam ser usados para pesquisas médicas, visto que qualquer jeito serão descartados.

“[...] o fato é que a FIV, como é praticada nos Estados Unidos, produz dezenas de milhares de embriões excedentes destinados à destruição. (Um estudo recente revelou que cerca de 400 mil embriões congelados estão definhando em clínicas de fertilidade americanas, contra 52 mil no Reino Unido e 71 mil na Austrália.) É verdade que, uma vez que esses embriões condenados existem, ‘não haveria nada a perder’ se fossem utilizados em pesquisas.” P. 74.

Sandel argumenta que o embrião não é pessoa humana.

“A dificuldade de especificar o início exato da pessoalidade no curso do desenvolvimento humano não significa, entretanto, que os blastocistos sejam pessoas. Considere a seguinte analogia: suponha que alguém lhe pergunte quantos grãos de trigo constituem uma pilha. Um único não constitui, nem dois, nem três. O fato de não haver nenhum ponto não arbitrário que estabeleça quando a adição de mais um grão fará um punhado virar uma pilha não significa que inexista diferença entre um grão e uma pilha. Nem nos dá, tampouco, motivos para concluir que um grão deve ser uma pilha.

Esse enigma de especificar pontos em um continuum, conhecido pelos filósofos como ‘paradoxo sorites’, remonta aos antigos gregos. (‘Sorites’ vem de soros, a palavra grega para ‘pilha’, ou ‘monte’.) Os sofistas usavam argumentos do tipo sorites para tentar convencer seus ouvintes de que duas qualidades distintas ligadas por um continuum eram na verdade a mesma, ainda que a intuição e o senso comum sugerissem o contrário. A calvície é um exemplo clássico. Todos concordariam que um homem com um único fio de cabelo na cabeça é careca. Que quantidade de fios marca a transição entre ser careca ou não? Embora não haja resposta determinada a essa pergunta, não se depreende com isso que não exista diferença entre ser careca e ter uma cabeça cheia de cabelos. O mesmo vale para a condição de pessoa. O fato de haver um desenvolvimento contínuo que transforma o blastocisto em embrião implantado, este em feto e, finalmente, em recém-nascido não determina que um bebê e um blastocisto sejam, no sentido moral, equivalentes.” P. 78.

Entre salvar uma criança ou vinte embriões, quem nós salvaríamos?

“Considere a seguinte situação hipotética (sugerida pela primeira vez, até onde sei, por George Annas): suponha que houvesse um incêndio em uma clínica de fertilidade e que você só tivesse tempo para salvar uma menina de 5 anos ou uma bandeja com vinte embriões congelados. Seria errado salvar a menina? Ainda preciso encontrar um defensor do status moral equivalente que diga que escolheria salvar a bandeja de embriões. Mas, se você realmente acreditasse que aqueles embriões são seres humanos, e todos os demais fatores fossem idênticos (isto é, se você não tivesse nenhuma relação pessoal nem com a menina nem com os embriões), sob que bases você poderia justificar salvar a menina?” P. 80.

Por mais que façam barulho, nem os “pró-vida” agem como se os embriões tivessem o mesmo valor de uma pessoa nascida.

“Porém o modo como reagimos à perda natural de embriões sugere que não consideramos esse acontecimento equivalente à morte de uma criança, nem do ponto de vista moral nem do ponto de vista religioso. Até mesmo as tradições religiosas que mais respeitam a vida humana incipiente não pregam que se façam os mesmos rituais funerários para a perda de um embrião e a morte de uma criança”. P. 81.

Qual a concepção filosófica que dá sustentação a convicção de que o embrião é uma pessoa?

“A convicção de que o embrião é uma pessoa deriva não apenas de certas doutrinas religiosas como também da alegação kantiana de que o universo moral se divide em termos binários: tudo ou é pessoa, digna de respeito, ou coisa, sujeita ao uso.” P. 82.

Não tratei da argumentação dele, contra o aperfeiçoamento genético. Para quem quer saber, basta ler o livro.

quarta-feira, 13 de junho de 2018

O Livro Ilustrado dos Maus Argumentos



Almossawi, Ali. O Livro Ilustrado dos Maus Argumentos. Rio de Janeiro: Sextante, 2017. (PDF).

"Este livro trata fundamentalmente do que não se deve fazer em uma argumentação. [...] Logo ficou evidente para mim que formalizar o raciocínio traz benefícios como clareza de pensamento e expressão, aumento de objetividade e autoconfiança. A capacidade de analisar os argumentos dos outros também ajuda a perceber o momento certo de se retirar de discussões infrutíferas. A lógica não gera novas verdades, mas permite que se verifiquem a consistência e a coerência das cadeias de pensamento existentes. Exatamente por isso é uma ferramenta eficaz para a análise e a comunicação de ideias e argumentos." P. 08-09.

“Hoje, com as redes sociais, há cada vez maior participação no debate público sobre fatos do dia, política, liberdades civis. Mas há uma notável falta de raciocínio lógico e fundamentação em boa parte desse discurso”. P. 08.

Livro de importância salutar para identificar as falácias (erros de raciocínio) que brotam por todos os lados. Como parte de nossas vidas está no mundo virtual, o que mais vemos, são pessoas opinando sobre os mais diversos assuntos, com argumentos paupérrimos, sem fundamentação alguma. Falta-lhes raciocínio lógico; falta-lhes validez, solidez e consistência, no que dizem. As conclusões muitas vezes podem até ser verdadeiras, mas falham na construção das premissas para prová-las, ou mostrar a sua razoabilidade. E não quero me eximir: também cometo tais erros.

O mais assustador é que as pessoas que a princípio não deveriam incorrer corriqueiramente em falácias tão simples, são tão suscetíveis quanto os adolescentes imaturos de 15, 16 anos, a caírem nos laços dos erros de raciocínio. Professores, bacharéis, acadêmicos, autodidatas... Quantas vezes já não me deparei com Professores universitários lançando mão de argumentos infantis, para defenderei suas ideologias. Hoje em dia com a polarização ideológica tão acentuada, parece que os mais “estudados” são os mais falaciosos em seus discursos. Os alunos destes, estão seguindo em suas trilhas do erro.

É mais que imprescindível que estejamos treinados em identificar os erros de lógica nos discursos e apologias alheias, e não esquecendo de detectar e admitir os nossos.

Não é fácil olharmos para nossas ideias e visões, e dizer: estou/estava errado. Nosso ego é um inimigo com quem devemos lutar diariamente, colocando-o debaixo de nossos pés. Podemos estar errados em nossas convicções mais caras.

Vamos a algumas falácias que o livro apresenta.

Falácia a Partir das Consequências:

O argumento a partir das consequências consiste em defender ou refutar a veracidade de uma declaração apelando às consequências que ela teria se fosse verdadeira (ou falsa). Mas o fato de uma proposição levar a um resultado desfavorável não significa que ela seja falsa. Da mesma forma, o simples fato de ter consequências positivas não torna a afirmação automaticamente verídica. [...] Vamos analisar a citação de Dostoievski: ‘Se Deus não existe, então tudo é permitido.’ Deixando de lado as discussões morais, o apelo às consequências sombrias de um mundo puramente materialista não prova nada sobre a existência ou não de Deus. [...] A falácia do argumento a partir das consequências pode ser reconhecida como uma pista falsa ou manobra de distração, porque sutilmente desvia a discussão da proposição original – neste caso, em direção ao resultado e não ao mérito da proposta em si”. P. 12.


Falácia do Espantalho:


“A falácia do espantalho consiste em apresentar de forma caricata o argumento da outra pessoa, com o objetivo de atacar essa falsa ideia em vez do argumento em si. Deturpar, citar de maneira incorreta, desconstruir e simplificar demais o ponto de vista do adversário são formas de cometer essa falácia. [...] Além disso, acaba levando o oponente a perder tempo defendendo-se da interpretação ridícula de seu argumento, em vez de sustentar sua posição original.


Por exemplo, um cético em relação à teoria de Darwin poderia dizer: ‘Meu oponente está tentando convencer você de que nós evoluímos dos macacos que se balançavam em árvores; uma afirmação realmente grotesca.’ Essa é uma deturpação do que a biologia evolutiva afirma de fato, que é a ideia de que humanos e chimpanzés compartilharam um ancestral comum há milhões de anos. Deturpar a ideia é muito mais fácil do que refutar suas evidências.” P. 14.


Falácia de Apelo a Autoridades Irrelevantes:


"Um tipo comum de apelo a autoridades irrelevantes é o apelo à sabedoria antiga, onde uma ideia é presumida como verdadeira somente porque foi originada num passado distante." P. 15.


Falácia do Falso Dilema:


“O falso dilema é um argumento que apresenta apenas duas categorias possíveis e parte do princípio de que tudo no âmbito da discussão deva pertencer somente a uma ou a outra destas possibilidades opostas. Assim, ao rejeitar uma das opções, a pessoa não teria alternativa a não ser aceitar a outra. Por exemplo: ‘Na guerra ao fanatismo, não há neutralidade: ou você está do nosso lado, ou está com os extremistas.’ Na realidade, há uma terceira opção, a de estar neutro; e uma quarta, de ser contra os dois lados; e ainda uma quinta opção, de concordar com razões de ambos”. P. 18.


Falácia da Causa Questionável:


“Também conhecida como causa falsa, esta falácia define como causa de um evento, sem provas, uma ocorrência anterior ou simultânea àquele evento. A correlação entre os dois eventos pode ser pura coincidência ou resultado de algum outro fator. Mas sem evidências não é possível concluir que um evento causou o outro. [...] Em várias disciplinas, especialmente pesquisas científicas, esse erro é conhecido como confundir correlação com causalidade.” P. 20.


Falácia de Apelo à Ignorância


“Este tipo de argumento tenta convencer que algo é verdadeiro simplesmente porque não foi comprovado como falso. Assim, a ausência de prova é transformada em prova por ausência. Uma forma específica de apelo à ignorância é o argumento da incredulidade pessoal, onde a incapacidade de entender ou imaginar algo leva a pessoa a acreditar que aquilo é falso. Por exemplo: ‘É impossível imaginar que o homem realmente pisou na Lua, portanto, isso nunca aconteceu.’” P. 26.


Livro muitíssimo bom, e de fácil leitura para todos.

quinta-feira, 7 de junho de 2018

Apresentação da Filosofia



SPONVILLE, André Comte. Apresentação da Filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 2002.

André Comte-Sponvile (Ph.D em Filosofia na Universidade de Paris I: Panthéon – Sobornne) apresenta neste livro, os temas básicos da Filosofia, na seguinte sequência: Moral, Política, Amor, Morte, Conhecimento, Liberdade, Deus, Ateísmo, Arte, Homem e Sabedoria. Já tinha lido sua outra obra, O Espírito do Ateísmo, onde ele faz uma tremenda e lúcida defesa do materialismo.

Vamos a alguns temas que ele trata em Apresentação da Filosofia:

A Moral:

“O que é a moral? É o conjunto do que um indivíduo se impõe ou proíbe a si mesmo, não para, antes de mais nada, aumentar sua felicidade ou seu bem-estar próprios, o que não passaria de egoísmo, mas para levar em conta os interesses ou os direitos do outro, mas para não ser um canalha, mas para permanecer fiel a certa idéia da humanidade e de si. A moral responde à pergunta: ‘O que devo fazer?’ É o conjunto dos meus deveres, em outras palavras, dos imperativos que reconheço como legítimos – mesmo que, às vezes, como todo o mundo, eu o viole. É a lei que imponho a mim mesmo, ou que deveria me impor, independentemente do olhar do outro e de qualquer sanção ou recompensa esperadas.” P. 20.

Para sermos morais, não é preciso que uma divindade imponha certos valores. Sponville vê a nossa moral como fruto de uma evolução sócio-histórica, mas que nem por isso, ela seria arbitrária.

A Morte:

“A coisa em que o homem livre menos pensa é na morte’, escreve porém Spinoza, ‘e sua sabedoria não é uma meditação sobre a morte, mas sobre a vida.’ [...] Como meditar sobe a vida – isto é – filosofar – sem meditar também sobre sua brevidade, sua precariedade, sua fragilidade? Que o sábio (e somente o sábio é livre, papa Spinoza) pense mais no ser do que no não-ser, mais na vida do que na morte, mas sua força do que na sua fraqueza, admitamos. Mas como pensar a vida em sua verdade sem pensa-la também – toda determinação é uma negação – em sua finitude ou em sua mortalidade?” P. 48.

Dois livros que li recentemente, e que tratam magistralmente sobre a problemática da morte são: Confissões do Crematório e De Frente Para o Sol. Ambos concordam com essa assertiva do Sponville.

Um dos capítulos que mais me chamaram à atenção, foi sobre o Conhecimento. Sponville num primeiro momento, parece aderir a uma limitação tal da nossa capacidade de conhecer que parece se aproximar do relativismo epistemológico, mas antes que pensem isso, ele dá uma saraivada de argumentos para solapar o mote de que a verdade inexiste.

Há um progresso incontestável no conhecimento científico:

“[Veja], por exemplo, o movimento da Terra em torno do Sol. Ninguém pode conhcê-lo absolutamente, totalmente, perfeitamente. Mas sabemos que esse movmento existe e que se trata de um movimento de rotação. As teorias de Copérnico e de Nexton, por mais relativas que sejam (já que são teorias), são mais verdadeiras e mais seguras – logo, mais absolutas – do que as de Hiparco ou de Ptolomeu. Do mesmo modo, a Teoria da Relatividade é mais absoluta (e não, como às vezes pensam, por causa do seu nome, mais relativa!) do que a mecânica celeste do XVIII, que ela explica e que não a explica. Que todo conhecimento é relativo não significa que todos os conhecimentos se equivalem. O progresso de Newton a Eisntein é tão inconteste quanto o que vai de Ptolomeu a Newton.” P. 57.

Sem nenhuma obtenção da verdade, o que resta é a anarquia:

“Se não tivéssemos nenhum acesso à verdade, ou se a verdade não existisse, que diferença haveria entre um culpado e um inocente? Entre um depoimento e uma calúnia? Entre a justiça e um erro judiciário? E por que lutaríamos contra os negativistas, contra os obscurantistas, contra os mentirosos?” P. 59.

Isso é tão óbvio, que parece até idiota o Sponville ter que escrevê-lo. Mas na medida em que os próprios educadores (logo eles?! Que lástima!) gritam para os seus alunos e escrevem em seus livros e periódicos, que a verdade NÃO existe, faz-se necessário contestá-los.

Sem a verdade, nada sobra. Aliás, nem haveria razão de nada.

“Se nada fosse verdadeiro, que restaria da nossa razão? Como poderíamos discutir, argumentar, conhecer? ‘Cada qual a sua verdade’? Se fosse assim, já não haveria verdade nenhuma, porque ela só vale se for universal. [...] A verdade não pertence a ninguém; é por isso que pertence, de direito, a todos. A verdade não obedece; é por isso que é livre, e liberta. [...] Se não houvesse verdade, não seria verdadeiro que não há verdade. Se tudo fosse mentira, como queria Nietzsche, seria mentira que tudo é mentira. É aí que a sofística é contraditória [...] se destrói como filosofia. Os sofistas não se preocupam com isso. O que lhes importa uma contradição? O que lhes importa a filosofia? Mas os filósofos, desde Sócrates, se preocupam. Eles têm para tanto suas razões, que são a própria razão e o amor à verdade. Se nada é verdade pode-se pensar qualquer coisa, o que é muito cômodo para os sofistas; mas então já não se pode pensar nada, o que é mortal para a filosofia.” P. 61-62.

Sem a verdade, tudo entra em colapso:

“Porque, se nada fosse verdadeiro nem falso, não haveria nenhuma diferença entre o conhecimento e a ignorância, nem entre a sinceridade e a mentira. As ciências não sobreviveriam, nem a moral, nem a democracia. Se tudo é mentira, tudo é permitido: pode-se trapacear com as experiências ou as demonstrações (já que nenhuma é válida), pôr a superstição no mesmo plano das ciências (já que nenhuma verdade as separa), condenar um inocente (já que não há nenhuma diferença pertinente entre um testemunho verdadeiro e um falso), negar as verdades históricas mais bem estabelecidas (já que são tão falsas quanto o resto), deixar os criminosos em liberdade (já que não é verdade que são culpados), autorizar-se a ser um deles (já que, mesmo sendo culpados, não é verdade que se seja), recusar enfim toda e qualquer validade a todo e qualquer voto (já que um voto só vale se conhecermos de verdade seu resultado)... Quem não vê os perigos que aí se escondem? Se podemos pensar qualquer coisa, podemos fazer qualquer coisa: a sofística conduz ao niilismo, assim como o niilismo leva à barbárie.” P. 63.

Voltando algumas páginas, ele escreve:

“[...] As ciências não respondem a nenhuma das questões mais importantes que nós fazemos. Por que há algo em vez de nada? A vida vale a pena ser vivida? O que é o bem? O que é o mal? Somos livres ou determinados? Deus existe? Há uma vida após a morte? Essas questões, que podemos dizer metafísicas num sentido amplo (de fato, elas vão além de toda física possível), fazem de nós seres pensantes, ou antes, seres filosofantes”. P. 49.

Só faltou ele dizer que a Ciência, mesmo com as suas limitações, tem ajudado muito em fazermos refletir sobre alguns (ou todos?) desses problemas filosóficos citados por ele. Um cientificista mesmo admitindo que a Ciência no momento ainda não dispõe de respostas, pode responder que tampouco a Filosofia ou a religião as têm.

O capítulo em que ele trata do ateísmo é primoroso. Admito isto, mesmo não sendo ateu. Minha incoerência é dizê-lo, e não postar nada sobre ele. Pura preguiça minha.

Livro recomendado.

sábado, 2 de junho de 2018

Sejamos Todos Feministas



ADICHIE, Chimamanda Ngozi. Sejamos Todos Feministas. São Paulo: Companhia das Letras, 2017. (PDF).

“[...] a palavra ‘feminista’ tem um peso negativo: a feminista odeia os homens, odeia sutiã, odeia a cultura africana, acha que as mulheres devem mandar nos homens; ela não se pinta, não se depila, está sempre zangada, não tem senso de humor, não usa desodorante.” P. 15.

“Feminista: uma pessoa que acredita na igualdade social, política e econômica entre os sexos”. P. 66.

Deixando de lado as inconsistências e atos grotescos perpetrados por certos grupos feministas nos últimos tempos, creio ser inquestionável, que ainda há um grande abismo na relação de gêneros, que coloca num patamar muito acima, o sexo masculino, fazendo com que as mulheres ainda tenham que ser humilhadas, submissas e relegadas a uma sub raça humana. Claro que o grau de desigualdade varia de maneiras intensas de país para país. Na Nigéria, país da autora deste livro, o machismo que coloca as mulheres em situações humilhantes, é bem mais intenso do que noutros países, por exemplo. Mas aqui mesmo no Brasil, dependendo da região, o machismo que encara a mulher com desconfiança extrema, pode ser muito forte também.  Adichie incentiva homens e mulheres, a olhar para todos com igualdade social, política e econômica, sem distinção de gênero.  

Por que é importante discutir a disparidade de gêneros?

Alguns motivos:

Os autos postos executivos em sua maioria são protagonizados por homens:

“Existem mais mulheres do que homens no mundo — 52% da população mundial é feminina, mas os cargos de poder e prestígio são ocupados pelos homens. A já falecida nigeriana Wangari Maathai, ganhadora do prêmio Nobel da paz, se expressou muito bem e em poucas palavras, quando disse que quanto mais perto do topo chegamos, menos mulheres encontramos.” P. 22-23.

Discriminação de mulheres até mesmo em restaurantes:

“Sempre que vou acompanhada a um restaurante nigeriano, o garçom cumprimenta o homem e me ignora. Os garçons são produto de uma sociedade onde se aprende que os homens são mais importantes do que as mulheres, e sei que eles não fazem por mal — mas há um abismo entre entender uma coisa racionalmente e entender a mesma coisa emocionalmente. Toda vez que eles me ignoram, eu me sinto invisível. Fico chateada. Quero dizer a eles que sou tão humana quanto um homem, e digna de ser cumprimentada. Sei que são detalhes, mas às vezes são os detalhes que mais incomodam.” P. 27-28.

Discriminação na literatura:

“Em todos os lugares do mundo, existem milhares de artigos e livros ensinando o que as mulheres devem fazer, como devem ou não devem ser para atrair e agradar os homens. Livros sobre como os homens devem agradar as mulheres são poucos.” P. 33-34.

A deficiência na criação de meninas e meninos:

“A questão de gênero é importante em qualquer canto do mundo. É importante que comecemos a planejar e sonhar um mundo diferente. Um mundo mais justo. Um mundo de homens mais felizes e mulheres mais felizes, mais autênticos consigo mesmos. E é assim que devemos começar: precisamos criar nossas filhas de uma maneira diferente. Também precisamos criar nossos filhos de uma maneira diferente.  O modo como criamos nossos filhos homens é nocivo: nossa definição de masculinidade é muito estreita. Abafamos a humanidade que existe nos meninos, enclausurando-os numa jaula pequena e resistente. Ensinamos que eles não podem ter medo, não podem ser fracos ou se mostrar vulneráveis, precisam esconder quem realmente são — porque eles têm que ser, como se diz na Nigéria, homens duros.” P 36-38.

O erro de associar masculinidade a dinheiro:

“No ensino médio, quando um garoto e uma garota saem juntos, o único dinheiro de que dispõem é uma pequena mesada. Mesmo assim, espera-se que ele pague a conta, sempre, para provar sua masculinidade. (E depois nos perguntamos por que alguns roubam dinheiro dos pais...) E se tanto os meninos quanto as meninas fossem criados de modo a não mais vincular a masculinidade ao dinheiro? E se, em vez de “o menino tem que pagar,” a postura fosse “quem tem mais paga”? É claro que, por uma questão histórica, em geral é o homem quem tem mais dinheiro. No entanto, se começarmos a criar nossos filhos de outra maneira, daqui a cinquenta, cem anos eles não serão pressionados a provar sua masculinidade por meio de bens materiais.” P. 37-38.

Linguagens sutis no casamento, que evidenciam a “inferioridade” da mulher:

“Até mesmo a linguagem que empregamos dentro do casamento é reveladora: frequentemente é uma linguagem de posse, não de parceria. Pensamos na palavra ‘respeito como um sentimento que a mulher deve ao homem, mas raramente o inverso. Tanto o homem quanto a mulher dizem: ‘Eu fiz isso porque queria paz no meu casamento’. Mas quando os homens dizem isso, em geral se referem a algo que eles não deveriam mesmo fazer. É como eles se justificam para os amigos, e no fim das contas isso serve para comprovar a sua masculinidade — ‘Minha mulher disse que não posso sair todas as noites, então daqui pra frente, pra ter paz no meu casamento, só vou sair nos fins de semana’. Quando as mulheres dizem que tomaram determinada atitude para ‘ter paz no casamento’, é porque em geral desistiram de um emprego, de um passo na carreira, de um sonho.” P. 43-44.

E finalmente, a necessidade de se usar a palavra feminismo:

“Algumas pessoas me perguntam: ‘Por que usar a palavra ‘feminista’? Por que não dizer que você acredita nos direitos humanos, ou algo parecido?’ Porque seria desonesto. O feminismo faz, obviamente, parte dos direitos humanos de uma forma geral — mas escolher uma expressão vaga como ‘direitos humanos’ é negar a especificidade e particularidade do problema de gênero. Seria uma maneira de fingir que as mulheres não foram excluídas ao longo dos séculos. Seria negar que a questão de gênero tem como alvo as mulheres. Que o problema não é ser humano, mas especificamente um ser humano do sexo feminino. Por séculos, os seres humanos eram divididos em dois grupos, um dos quais excluía e oprimia o outro. É no mínimo justo que a solução para esse problema esteja no reconhecimento desse fato.” P. 57-58.

sexta-feira, 1 de junho de 2018

Para Educar Crianças Feministas


ADICHIE, Chimamanda Ngozi. Para Educar Crianças Feministas. São Paulo: Companhia das Letras, 2017. (PDF).

Abomino, como toda pessoa dotada de um mínimo de bom senso, certos comportamentos de grupos feministas atuais. Mas Chimamanda Ngozi me pareceu até o momento, uma feminista gente boa, que escreve com equilíbrio e muita sabedoria. Discordo de pequenos pontos abordados por ela, mas também, nada que venha comprometer o seu pequeno livro. A realidade é que há sim, uma disparidade sem tamanho na criação de meninas e meninos que evidenciam dois pesos e duas medidas em toda a sua formação, onde os padrões morais impostos as meninas sempre são maiores. Os meninos, os homens, ah, estes podem isso e aquilo. Por que? Ora, porque são homens, né?! Que os padrões morais sejam iguais para todos.

Segundo Adichie, o feminismo é contextual:

“Para mim, o feminismo é sempre uma questão de contexto. Não tenho nenhuma regra. [...] Por exemplo: muita gente acredita que, diante da infidelidade do marido, a reação feminista de uma mulher deveria ser deixá-lo. Mas acho que ficar também pode ser uma escolha feminista, dependendo do contexto. Se o [marido] dorme com outra mulher e você o perdoa, será que a mesma coisa aconteceria se você dormisse com outro homem? Se a resposta for ‘sim’, então sua decisão de perdoá-lo pode ser uma escolha feminista, porque não é moldada pela desigualdade de gênero. Infelizmente, a verdade é que, na maioria dos casamentos, a resposta a essa pergunta em geral seria negativa por uma questão de gênero — aquela ideia absurda de que ‘os homens são assim’, o que significa que os padrões para eles são mais baixos.” P. 07.

Ela fala sobre a premissa equivocada de que a mulher tem que estar apta a “dar conta de tudo”:

“Nossa cultura enaltece a ideia das mulheres capazes de ‘dar conta de tudo’, mas não questiona a premissa desse enaltecimento. Não tenho o menor interesse no debate sobre as mulheres que ‘dão conta de tudo’, porque o pressuposto desse debate é que o trabalho de cuidar da casa e dos filhos é uma seara particularmente feminina, ideia que repudio vivamente. O trabalho de cuidar da casa e dos filhos não deveria ter gênero, e o que devemos perguntar não é se uma mulher consegue ‘dar conta de tudo’, e sim qual é a melhor maneira de apoiar o casal em suas duplas obrigações no emprego e no lar.” P. 09.

A diferença inadequada na educação das meninas e meninos:

“Outra conhecida, uma americana, me contou uma vez que levou o filho de um ano a um espaço de recreação infantil em que várias mães levavam seus bebês, e percebeu que as mães das meninas eram muito controladoras, sempre dizendo ‘não pegue isso’ ou ‘pare e seja boazinha’, e que os meninos eram incentivados a explorar mais, não eram tão reprimidos e as mães quase nunca diziam ‘seja bonzinho’. Sua teoria é que pais e mães inconscientemente começam muito cedo a ensinar às meninas como devem ser, que elas têm mais regras e menos espaço, e os meninos têm mais espaço e menos regras.” P. 12.

Não gostamos de mulheres poderosas:

“[...] é uma triste verdade: nosso mundo está cheio de homens e mulheres que não gostam de mulheres poderosas. Estamos tão condicionados a pensar o poder como coisa masculina que uma mulher poderosa é uma aberração. E por isso ela é policiada. No caso de mulheres poderosas, perguntamos: ela tem humildade? Sorri? Mostra gratidão? Tem um lado doméstico? Perguntas que não fazemos a homens poderosos, o que demonstra que nosso desconforto não é com o poder em si, mas com a mulher. Julgamos as poderosas com mais rigor do que os poderosos”. P. 14.

Como deve ser a educação de uma menina:

“Temos um mundo cheio de mulheres que não conseguem respirar livremente porque estão condicionadas demais a assumir formas que agradem aos outros. Então, em vez de ensinar [a sua filha] a ser agradável, ensine-a a ser honesta. E bondosa. E corajosa. Incentive-a a expor suas opiniões, a dizer o que realmente sente, a falar com sinceridade. E então elogie quando ela agir assim. Elogie principalmente quando ela tomar uma posição que é difícil ou impopular, mas que é sua posição sincera. Diga-lhe que a bondade é importante. Elogie quando ela for bondosa com outras pessoas. Mas ensine-lhe que sua bondade nunca deve ser tratada como se não fosse nada. Diga-lhe que ela também merece a bondade dos outros. Ensine-a a defender o que é seu. Se outra criança pegar o brinquedo dela sem permissão, diga-lhe para pegar de volta, porque seu consentimento é importante. Diga-lhe para falar, para se manifestar, para gritar sempre que se sentir incomodada com alguma coisa.” P. 19.

Mulheres são dignas, independentemente de serem boas ou não: 

“Ao [...] ensinar [a sua filha] sobre opressão, tenha o cuidado de não converter os oprimidos em santos. A santidade não é pré-requisito da dignidade. Pessoas que são más e desonestas continuam seres humanos e continuam a merecer dignidade. [...] as mulheres não precisam ser boas e angelicais para ter reconhecidos seus direitos de propriedade. Nos discursos sobre gênero, às vezes, há o pressuposto de que as mulheres seriam moralmente ‘melhores’ do que os homens. Não são. Mulheres são tão humanas quanto os homens. A bondade feminina é tão normal quanto a maldade feminina. 

E existem muitas mulheres no mundo que não gostam de outras mulheres. A misoginia feminina existe e esquivar-se a reconhecê-la é criar oportunidades desnecessárias para que as antifeministas tentem desacreditar o feminismo. Refiro-me àquele tipo de antifeministas que adora dar exemplos de mulheres dizendo: ‘Não sou feminista’, como se uma pessoa nascida com vagina, ao declarar isso, estivesse de certa forma desacreditando automaticamente o feminismo. Se uma mulher diz não ser feminista, a necessidade do feminismo não diminui em nada. No máximo, isso nos mostra a extensão do problema, o alcance real do patriarcado. Mostra-nos também que nem todas as mulheres são feministas e nem todos os homens são misóginos.” P. 27.