segunda-feira, 1 de outubro de 2018

Uma História do Negro no Brasil



ALBUQUERQUE, Wlamyra R. de; FILHO, Walter Fraga. Uma História do Negro no Brasil. Salvador: Centro de Estudos Afro-Orientais; Brasília: Fundação Cultural Palmares, 2006.

Wlamyra de Albuquerque (Doutora em História Social na Unicamp) e Walter Fraga (Doutora em História Social na Unicamp), traçam a história do negro desde a escravidão africana, sendo intensificada pelos árabes, culminando no grande comércio escravagista europeu, que trouxe para cá, a partir do século XVI, milhões de negros para trabalharem forçadamente para enriquecer a Portugal e os senhores de engenho.

O Brasil se desenvolveu ancorado no trabalho escravo, que fazia do negro uma coisa útil para um determinado fim. Tanto o escravo africano como o escravo crioulo (nascido aqui), arranjaram diversas formas de resistência ao regime escravocrata, ora fugindo e criando seus quilombos, ora sabotando as plantações e os bens de seus senhores, fundando irmandades...

Eles criaram a Capoeira, luta disfarçada em dança; mantiveram em meio a perseguição, a sua inabalável crença nos orixás, inundaram o Brasil com os seus costumes, hábitos, culinária...

Diante de revisionismos toscos de uma classe de pessoas que se julgam guardadoras da alta moral, que querem minimizar os horrores da escravidão e de suas sequelas tão evidentes diante de nossos olhos (o racismo e a situação de vulnerabilidade do negro), é um alento ler um livro sério sobre a história de tão grande parcela de pessoas que levaram esse país nas costas.

A escravidão já existia no continente africano muito antes dos europeus aportarem lá, para levar os seus primeiros cativos para trabalharem em suas lavouras, países, feitorias e etc. Mas era em quantidades bem inferiores comparada ao viria depois. Os árabes intensificaram vertiginosamente tráfico, e daí não parou mais.

“Desde que os árabes ocuparam o Egito e o norte da África, entre o fim do século VII e metade do século VIII, a escravidão doméstica, de pequena escala, passou a conviver com o comércio mais intenso de escravos. A escravidão africana foi transformada significativamente com a ofensiva dos muçulmanos. Os árabes organizaram e desenvolveram o tráfico de escravos como empreendimento comercial de grande escala na África. Não se tratava mais de alguns poucos cativos, mas de centenas deles a serem trocados e vendidos, tanto dentro da própria África quanto no mundo árabe e, posteriormente, no tráfico transatlântico para as Américas, inclusive para o Brasil.” P. 15.

A religião dos árabes lhes davam o aval para escravizarem aqueles que não estavam no curral de fieis do islamismo. As jihads chegaram a África, para converter na base da força e escravizar.

“Desde os fins do século VIII, os árabes, partindo da região do Golfo Pérsico e da Arábia, disseminaram o islamismo pela força da palavra, dos acordos comerciais e, principalmente, das armas. Eram as guerras santas, as jihad, destinadas a islamizar populações, converter líderes políticos e escravizar os ‘infiéis’, ou seja, quem se recusasse a professar a fé em Alá.” P. 16.

A “misericórdia” de Alá se traduzia assim, para com os de fora:

“O Corão não condenava o cativeiro. Para os seguidores do profeta Maomé, a escravização era uma espécie de missão religiosa. O infiel, ao ser escravizado, ‘ganhava’ a oportunidade da conversão e, depois de devidamente instruído nos preceitos islâmicos, tinha direito a voltar a ser livre.” P. 18.

Quantos mais escravos, mais dinheiro no bolso. Nessa corrida, por exemplo, os luadenses eram os caçadores.

“[...] eram os próprios moradores de Luanda que se lançavam à caça de cativos. Luanda rapidamente se tornou uma grande feira de comércio de gente. Angola, desde fins do século XVI até a primeira metade do século XVIII, foi o maior fornecedor de escravos para as Américas portuguesa e espanhola.” P. 33.

Cabe aqui uma ressalva. Não é raro vermos por aí, alguns querendo mitigar a escravidão que houve por aqui, ressaltando a escravidão dos africanos contra os próprios africanos, alegando que nem eles tinham consideração pelos seus “irmãos”. Tal ideia ignora que a única coisa que eles tinham em comum eram a cor da pele e a sua moradia num mesmo continente, que por sinal é gigante, abarcando culturas e modos de vida bem distintos. Eles eram suscetíveis a todos os erros e virtudes, como qualquer europeu era. Não consigo concluir a partir da escravidão existente na África, um álibi para a escravatura aqui, e muito menos para o racismo ainda existente.

O conceito de salvação dos cristãos não era muito diferente dos muçulmanos. A justificativa para escravizar tinha na verdade uma missão mais nobre e profunda por trás. A salvação espiritual do africano. Ah, o amor cristão...

“Na idéia dos europeus, o tráfico era justificado como instrumento da missão evangelizadora dos infiéis africanos. O padre Antônio Vieira considerava o tráfico um ‘grande milagre’ de Nossa Senhora do Rosário, pois retirados da África pagã, os negros teriam chances de salvação da alma no Brasil católico. No século XVIII, o conceito de civilização complementará a justificativa religiosa do tráfico atlântico ao introduzir a idéia de que se tratava de uma cruzada contra as supostas barbárie e selvageria africanas.” P. 41.

Feito cativo, o africano agora seria tratado que nem gado.  

“Antes de entrar nas embarcações, eles [os escravos] eram marcados a ferro quente no peito ou nas costas com os sinais que identificavam a que traficante pertenciam, uma vez que em cada barco viajavam escravizados pertencentes a diferentes donos.” P. 48.

A vinda até aqui era dura, penosa, um verdadeiro inferno.

“Estimativas mais recentes calculam entre 15 a 20 por cento de mortos durante uma viagem normal, mas não era incomum haver 40 a 50 por cento de perdas.” P. 50.

“Havia ainda a morte provocada por suicídio e não foram poucos os cativos que puseram fim à existência precipitando-se no mar.” P. 50.

Até existiam leis que tinham a finalidade de “proteger” os escravos contra os exagerados castigos impostos por seus senhores, mas não novidade que eles só estavam no papel, não tendo nenhum efeito prático e real.

“Apesar da legislação colonial permitir que escravos e livres denunciassem senhores cruéis às autoridades civis ou eclesiásticas, pouquíssimos senhores responderam perante os juízes por acusações de crueldade contra escravos. A maioria dos acusados terminou perdoada ou absolvida por juízes que, em geral, pertenciam à mesma classe dos senhores.” P. 69.

Diante da revolta de ser escravizado, muitos negros podiam e sabotavam as produções. Era preciso ter cuidado e estar de olho.

“A produção no engenho podia ser facilmente sabotada. Bastava espremer um limão em uma caldeira de melado para impedir a sua cristalização em açúcar. Daí que, trabalhadores negligentes e rebeldes não eram selecionados para as tarefas mais especializadas. Para conseguir a colaboração dos escravos era preciso recorrer a incentivos. Os senhores costumavam pagar os escravos especializados com pequenas quantidades de açúcar, aguardente, melaço, roupa ou mesmo em dinheiro.” P. 75.

E que não é novidade:

“A sociedade escravista contou com o apoio da Igreja Católica para inculcar nos cativos paciência e humildade como virtudes desejáveis.” P. 96.

Li não lembro aonde, um Historiador dizendo que os feriados católicos, que não eram poucos, e é exatamente pela abundância deles, salvaram muitos africanos dos trabalhos estafantes a que estavam submetidos. Isso alivia e minimiza o papel dela numa conjuntura tão brutal quanto foi a escravidão no Brasil?

Umas das grandes forças terapêuticas que mantiveram muitos africanos fortes diante da brutalidade portuguesa, foi a religião. A crença nos orixás dava-lhes a força necessária para resistirem e manterem a esperança. Mas cultivar o culto aos seus deuses era proibido pelo estado.

“Africanos e afro-brasileiros não tinham liberdade para cultuar seus santos e deuses, mas muitas vezes tinham permissão para fazê-lo. E permissão não é liberdade. A Constituição do país, promulgada em 1824, definiu o catolicismo como religião oficial do Império, sendo outras religiões permitidas desde que não ostentassem templos. Mas as religiões afro-brasileiras não estavam incluídas nessa tolerância legal porque não eram consideradas religião e sim superstição, curandeirismo, feitiçaria. Por isso eram consideradas práticas ilegais e muitas vezes criminosas.” P. 112.

Na segunda metade do século XIX começam a aparecer vários grupos abolicionistas, e muitos se destacaram na guerra contra o sistema escravista. Uns lutavam apenas pelo fim do cativeiro, outros, se preocupavam com a situação econômica e social dos negros quando fossem libertos. Foi o caso de André Rebouças (1838-1898).

“André Rebouças pregava mudanças na legislação que permitissem aos ex-escravos acesso à terra. Era o que ele chamava de ‘democracia rural’, uma espécie de reforma agrária que deveria promover a inclusão social dos ex-escravos. Para Rebouças a luta contra a escravidão não podia ser desligada da luta pela cidadania dos ex-escravos e dos seus descendentes.” P. 164.

Acabada a escravidão em 1888, as ideias racistas eugênicas começam a percorrer o seu nefasto caminho.

“Em 1894, Raimundo Nina Rodrigues, professor da Faculdade de Medicina da Bahia, defendeu uma idéia polêmica sobre a responsabilidade penal no Brasil. Segundo Nina Rodrigues os criminosos deveriam ser julgados por critérios diferenciados, pois os negros seriam naturalmente incapazes de compreender certas regras sociais e, portanto, não poderiam ser responsabilizados penalmente do mesmo modo que os brancos. Na sua lógica, por conta das hierarquias raciais, os negros deveriam ter um tratamento jurídico diferenciado. Afinal, se as raças eram desiguais em termos civilizatórios, não se poderia igualar a cidadania dos negros à dos brancos, ou seja, não era possível estabelecer direitos e deveres iguais para todos. Já em 1899 ele publicou um estudo intitulado ‘Mestiçagem, crime e degenerescência’, no qual relacionou certos problemas psiquiátricos a miscigenação racial. No entanto, as suas convicções racistas não o impediram de realizar pesquisas importantes sobre a presença africana no Brasil. Nina Rodrigues foi autor de Os Africanos no Brasil, um estudo fundamental para a história dos negros brasileiros. Nesse livro, o autor trata, dentre outros aspectos, da origem étnica dos escravos, suas práticas religiosas, valores e costumes.” P. 205.

Teses eugênicas ainda são defendidas por estudiosos hoje em dia. O famoso documentário norueguês Lavagem Cerebral, em seu terceiro episódio traz a opinião de dois estudiosos que são peremptoriamente contra o casamento de negros e brancos, alegando que isso é prejudicial a humanidade. O documentário Uma História Sobre o Racismo, da BBC, é outro que mostra que ideias eugênicas e racistas ainda têm fôlego nos dias atuais.

Mas nem todos eram contra a miscigenação no final do século XIX, veja o porquê:

“Mas para outros era justamente a miscigenação que garantiria a civilização no Brasil. A esperança era que, em médio e longo prazo, o país se tornasse predominantemente branco. E o caminho para o branqueamento era a miscigenação. Desse modo a ‘raça branca’, considerada mais evoluída, corrigiria as marcas deixadas na população brasileira por aquelas tidas como ‘raças inferiores’, negros e índios.” P. 206.

Havia quem contestasse as teses raciais que inferiorizavam os negros.

“Manoel Bomfim, ao contrário da grande maioria dos intelectuais do seu tempo, não considerava que a numerosa população negra era o que explicava o atraso da sociedade brasileira. Para ele, as teorias raciais não passavam de 'ciência barata' que, covardemente, era usada para garantir a exploração dos fracos pelos fortes. Manoel Bomfim nasceu em Sergipe, estudou na Faculdade de Medicina da Bahia e, além de insistente contestador da validade científica das teorias raciais, criticou os políticos brasileiros por não terem se empenhado por melhores condições de vida para os negros depois da abolição.” P. 207.

Havia quem acreditasse que os negros estariam extintos nos iniciais deste século.

“Em 1911, durante o Congresso Internacional das Raças realizado em Londres, o representante brasileiro, Batista Lacerda, garantiu que no início do século XXI já não haveria negros no país e que o número de mulatos seria insignificante.” P. 208.

Nos EUA existiam as Leis Jim Crown, que segregava os negros. Estes não podiam ter a liberdade de frequentar os mesmos lugares que os negros. No Brasil não havia leis nesse sentido, porém, eram como se houvesse. Os negros eram impedidos de muitas atividades que só eram permitidas aos brancos.

No esporte:

“Até a década de 1930, jogadores negros não eram admitidos nos times de primeira divisão do campeonato paulista.” P. 237.

No lazer:

“Na cidade de São Paulo, por exemplo, o acesso dos negros aos parques e praças era restrito a locais afastados dos freqüentadores brancos.” P. 263.

Nos postos de trabalho:

“As dificuldades crescentes impostas aos trabalhadores negros para sua inserção no mercado de trabalho contrastavam cruamente com o desenvolvimento industrial e urbanístico de São Paulo. Mesmo na década de 1930, quando a imigração diminuiu de ritmo e aumentou o número de trabalhadores nacionais na indústria paulista, os critérios de contratação e demissão continuaram marcados pelo racismo. Os brancos, depois os mulatos, é que tinham maiores chances de conseguir e manter empregos, em detrimento das pessoas de pele mais escura. [...] A grande imprensa, os jornais de maior circulação, que tanto haviam contribuído com o movimento abolicionista, demonstravam pouco ou nenhum interesse pelas questões que afligiam a população negra no pós-Abolição.” P. 260.

O culto aos deuses africanos demorou para ser totalmente pelo governo.

"[...] só em janeiro de 1976, durante os festejos ao Senhor do Bonfim na Bahia, o então governador Roberto Santos assinou o ato administrativo que garantiu a liberdade de culto para as religiões afro brasileiras. Só então, os terreiros deixaram de ser obrigados a pedir licença para funcionarem e foi suspenso o pagamento de taxa ou registro na polícia." P. 243.

A Capoeira, luta criada pelo negro em solo tupiniquim, foi proibida no Brasil republicano.

“Quando a República foi proclamada [...] a capoeira passou a ser contravenção prevista no Código Penal de 1890, com pena de dois a seis meses de prisão. Muitos praticantes acusados de outros crimes, como vagabundagem e roubo, tiveram como destino a colônia correcional da Paraíba, a ilha de Fernando de Noronha ou o Acre para que fossem corrigidos pelo trabalho. A ordem do presidente Deodoro da Fonseca era que a capoeiragem fosse extinta do território nacional para o bem dos cidadãos e da segurança do Estado. A atenção especial da legislação penal republicana, por certo, estava relacionada à participação política de capoeiras nos episódios que antecederam a proclamação da república em 1889. Mas outras razões para a repressão aos capoeiras também foram enumeradas. Em Belém, um delas era o suposto aumento da criminalidade. Na interpretação da polícia paraense os capoeiras eram os principais responsáveis por delitos que iam desde o uso de palavras obscenas em locais públicos a homicídios.” P. 247.

A sociedade branca dizia hipocritamente que não existia racismo no Brasil. Assim como hoje, muitos dizem a mesma coisa.

“Falar de preconceito contra negros [anos 1920] já era algo bastante censurado, uma vez que a sociedade brasileira não reconhecia a existência do racismo, nem tão pouco que as dificuldades de ascensão social das populações negras tivessem como causa a discriminação racial. A negação do preconceito era conveniente, pois mantinha os privilégios de uma minoria e isentava o governo brasileiro de qualquer responsabilidade sobre a situação de pobreza e marginalidade da população negra.” P. 262.

Criticar movimentos negros não é prerrogativa dos dias atuais, isso já vem de longa data.

“A idéia de identidade nacional formulada pelas elites republicanas não apenas servia para negar a existência do racismo como para desestimular a formação de associações negras. Quando, em 1928, O Clarim d’Alvorada anunciou a intenção de organizar um Congresso da Mocidade Negra, os jornais da grande imprensa paulista reagiram indignados à iniciativa. A possibilidade de que os negros pudessem se organizar e manifestar politicamente suas aspirações assustava a elite brasileira. Houve quem se perguntasse: ‘que necessidade há nisso?’, ‘o que se vai falar nesse congresso?’.” P. 263.

“Na interpretação de alguns jornais [década de 1940], a organização dos negros devia ser combatida porque ameaçava a democracia, porque contribuía para o que chamavam de ‘racismo às avessas’, ou seja, o preconceito do negro em relação ao branco. O argumento do ‘racismo às avessas’ era a evidência de que na sociedade brasileira havia o preconceito racial, pois não se admitia que os negros tivessem o direito de se organizar e reagir ao racismo.” P. 274.

Passados 100 anos da abolição, o negro se encontrava em situação extremamente vulnerável na sociedade brasileira. Abolição de quê mesmo?

“A militância negra da década de 1980 passou a questionar, com vigor, a versão oficial da Abolição que exaltava muito mais a bondade e a caridade da princesa Isabel do que a luta dos escravos para conquistar a liberdade. Ao mesmo tempo, não parecia fazer sentido comemorar a Abolição se a maioria da população negra continuava relegada a péssimas condições de vida. Com o objetivo de resgatar o espírito de luta e enaltecer a resistência, as organizações negras passaram a rejeitar o 13 de Maio.” P. 295-296.

E não é que já vi criaturinhas exaltarem sobremaneira a princesa Isabel por ela ter assinado a Lei Áurea, desconsiderando por completo a luta de resistência de três séculos dos escravos em busca de suas liberdades, fora a militância dos grupos abolicionistas, compostos por pessoas brancas?

domingo, 30 de setembro de 2018

A Morte: Um Amanhecer



KUBLER-ROSS, Elisabeth. A Morte: Um Amanhecer. 14º ed. São Paulo: Pensamento-Cultrix, 2013.

Elisabeth Kübler-Ross foi uma Médica especialista e pioneira em tratar pessoas em fases terminais, incluindo crianças com câncer. O reconhecimento de sua obra é amplamente conhecido no mundo da Medicina. Diante da sua lida diária com a morte, ela acabou tendo contato com milhares e milhares de casos de pessoas que tiveram a Experiência de Quase-Morte (EQM), e este é um dos assuntos tratados neste livro.

“Estudamos vinte mil casos de pessoas ao redor do mundo que, depois de terem sido declaradas clinicamente mortas, voltaram a viver.” P. 10.

Numa experiência fora do corpo num leito de hospital, o paciente mesmo estando em coma profundo, pode ver e ouvir tudo que se passa na sala de cirurgia.

“Você compreende exatamente o que todos estão dizendo, pensando e fazendo.” P. 13.

"Muitas pessoas, quando submetidas a cirurgias, passam pela experiência de sair do corpo físico e podem, inclusive, observar o trabalho feito pelo cirurgião." P. 14.

Pessoas deficiente físicas que tiveram uma EQM relatam que quando estiveram fora do corpo, suas limitações físicas já não existiam. Se eram cegas, passaram a ver, se não podiam andar, isso já não era problema. Naturalmente quando voltam aos seus corpos, suas deficiências estão lá.

“[...] a pessoa perceberá que voltou a ter uma saúde perfeita. Se era cega, poderá voltar a enxergar. Se era surda ou muda, poderá ouvir ou falar novamente. Alguns pacientes meus com esclerose múltipla, que dependem de cadeiras de rodas para se locomover e que têm dificuldade para se expressar, ao voltar de suas experiências de quase-morte dizem exultantes: ‘Dra. Ross, consegui dançar de novo.’ E existem milhares de pacientes em cadeiras de rodas que, nesse segundo estágio, podem finalmente voltar a dançar. Evidentemente, quando voltam à vida, seu corpo está doente como antes.” P. 14-15.

Kübler-Ross tem plena ciência de que os seus pares não estão inclinados em acreditar nos relatos de EQM. Falta-lhes modéstia.

“Os Cientistas carecem de humildade. Temos de ter humildade para aceitar que há milhões de coisas que não podemos compreender, mas que nem por isso deixam de existir, de ser ver dadeiras.” P. 13.

“Muitos de meus colegas céticos dizem: ‘Esses casos podem ser considerados como projeções da racionalização de um desejo’.” P. 15.

Kübler-Ross mostra ter uma visão espírita da vida, falando com convicção sobre o que acontece após a morte. Na verdade, a morte não existe, diz ela.

“[...] a morte do corpo humano é um processo idêntico ao que ocorre quando uma borboleta deixa o casulo. O casulo pode ser comparado ao corpo humano, mas não é idêntico ao seu eu real, pois é apenas uma morada temporária. Morrer é como mudar-se de uma casa para outra mais bonita — simbolicamente comparando.” P. 11.

“Mas o meu verdadeiro trabalho, e é por isso que preciso da sua ajuda, é dizer às pessoas que a morte não existe. E muito importante que a humanidade saiba disso, pois estamos no início de tempos muito difíceis.” P. 48-49.

“Um modo de não sentir medo é saber que a morte não existe, que tudo nesta vida tem um propósito positivo. Afaste-se de toda negatividade e comece a encarar a vida como um desafio, uma forma de testar seus recursos interiores e sua força.” P. 49.

“Temos centenas de casos, da Austrália à Califórnia, e todos têm um denominador comum. Todas as pessoas envolvidas têm plena consciência de ter deixado o corpo físico e de que a morte, como a entendemos em linguagem científica, na realidade não existe. A morte nada mais é do que o abandono do corpo físico, assim como a borboleta abandona o casulo. E uma transição para um estado de consciência mais amplo, no qual você continua a perceber, a entender, a sorrir e pode continuar se desenvolvendo. A única coisa que você perde é algo de que não necessita mais, ou seja, o seu corpo físico.” P. 39-40.

Sabe aquela historinha de que temos um anjo da guarda, um guia espiritual... Pois é, segundo ela, isso não é conto de fadas.

“Existem provas de que todos os seres humanos, do nascimento até a morte, são guiados por uma entidade espiritual. Todos têm esse guia, acredite você ou não. Não importa se você é judeu, católico ou se pertence a alguma outra religião, pois esse amor é incondicional. E por isso que todos recebem como presente esse guia espiritual.” P. 17-18.

Numa EQM o mundo do lado de lá é muito melhor e mais completo que este.

Nenhum dos pacientes que passaram pela experiência fora do corpo continuou a ter medo da morte. Nenhum, dentre todos os nossos casos. Além disso, muitos de nossos pacientes disseram que, além do sentimento de paz e de serenidade que sentiram e do conhecimento de poderem perceber os outros sem serem percebidos, sentiram também um sentimento de inteireza. Com isso queremos dizer que alguém que tenha perdido uma perna em um acidente de automóvel pode ver essa perna jogada na estrada mas, ao sair do corpo físico, tem ambas as pernas. Uma de nossas pacientes ficou cega por ocasião da explosão de um laboratório e, no momento em que se viu fora do corpo físico, foi capaz de descrever o acidente todo, bem como todas as pessoas que foram arremessadas para fora do laboratório. Quando voltou à vida, estava totalmente cega novamente. Isso pode ajudá-lo a entender por que muitos desses pacientes se ressentem dos artifícios usados para trazê-Ios de volta: é que se encontram num lugar muito mais bonito e perfeito do que a vida que levavam.” P. 40.

Quem nos esperam do outro lado?

“Em geral, as pessoas que nos esperam do outro lado são as que mais nos amaram. São sempre as primeiras que encontramos. No caso de crianças muito pequenas — de dois ou três anos, por exemplo — cujos avós, pais e todos os demais familiares conhecidos ainda se encontram na Terra, geralmente são os anjos da guarda, Jesus ou outra figura religiosa que as recebem. Nunca deparei com uma criança protestante que tivesse visto a Virgem Maria em seus últimos minutos de vida, como acontece com muitas crianças católicas. Não é questão de discriminação; simplesmente você é recebido pelos que são mais importantes para você.” P. 18-19.

Em alguns momentos achei suas falas um pouco exageradas. Esperava bem mais deste livro. Mas as EQM são um fenômeno que parece pôr em cheque a visão naturalista de que somos apenas matéria.

segunda-feira, 24 de setembro de 2018

A Crise do Islã: Guerra Santa e Terror Profano



LEWIS, Bernard. A Crise do Islã: Guerra Santa e Terror Profano. Rio de Janeiro: Zahar, 2004. (PDF).

Bernard Lewis (Professor da Universidade de Princeton, EUA) é figura reconhecida pelos seus pares, quando o assunto é o mundo islâmico. Sendo bastante requisitado, principalmente depois dos ataques terroristas as Torres Gêmeas, no 11 de setembro de 2001. Lewis defende neste livro que o moderno terrorismo islâmico não encontra apoio nos ensinos do Alcorão, mas engana-se quem pensa que o islã é um corpo de crença pacífico por isso. Lewis algumas vezes reitera que a pena de morte é o ensino islâmico para os muçulmanos apóstatas. Uma religião que prega a matança daqueles estiveram em suas fileiras e resolveram não mais crer em seus dogmas, não pode ser uma religião de paz. É o máximo que a intolerância pode atingir.

Em seu livro, Lewis definirá o que é o islã, falará sobre as cruzadas contra os muçulmanos, o imperialismo islâmico que varreu o mundo no medievo, a jihad, explicará a ascensão do terrorismo, sobre como os EUA passou a ser considerado o “grande satã” e etc.

É um baita livro!

Vou me concentrar nas partes em que ele aborda o lado nada transigente do islã. Mostrando que o islã é uma religião inerentemente beligerante, que tem em seus fundamentos uma propensão para a espada, para a coação.

Mas antes de tudo, reconheçamos um fato:

“A expulsão de minorias religiosas é extremamente rara na história islâmica – ao contrário da cristandade medieval, na qual expulsões de judeus e, após a Reconquista, de muçulmanos eram normais e freqüentes. [...] diferentemente dos judeus e muçulmanos expulsos da Espanha e de outros países europeus, obrigados a encontrar o refúgio que pudessem em outro lugar, os judeus e cristãos da Arábia [em 641] foram reassentados em terras destinadas a eles – os judeus, na Síria e na Palestina e os cristãos, no Iraque.” P. 14.

Reconheçamos outro fato:

“No período que historiadores europeus vêem como um negro interlúdio entre o declínio da civilização antiga – Grécia e Roma – e o surgimento da moderna, ou seja, da Europa, o islã era a civilização que liderava o mundo, marcada por seus grandes e poderosos reinos, pela riqueza e variedade da indústria e do comércio, por suas ciências e artes engenhosas e criativas. Muito mais que a cristandade, o islã foi o estágio intermediário entre o antigo Oriente e o moderno Ocidente, para o qual contribuiu de modo significativo.” P. 17.

Um dos pilares do Ocidente é o Estado ser laico. O islã contempla uma sociedade laica? Infelizmente, não.

“Se é possível, no mundo islâmico, falar de um clero num senso sociológico limitado, não há o menor sentido em se falar de uma laicidade. A própria noção de algo separado, ou mesmo separável, da autoridade religiosa, expressa na linguagem cristã por termos como laico, temporal ou secular, é totalmente estranha ao pensamento e à prática do islã. Não foi senão a partir de tempos relativamente modernos que passaram a existir equivalentes para esses termos na língua árabe. Foram tomados emprestados do uso de cristãos de fala árabe, ou recém-inventados.” P. 19.

“Mas em nenhum país cristão da atualidade os líderes religiosos podem contar com um grau de crença e participação como o que continua a ser normalmente encontrado em terras muçulmanas. Em poucos países cristãos, se é que em algum, os princípios e práticas cristãos estão imunes a comentários críticos ou discussões no nível em que é aceito como normal mesmo em sociedades muçulmanas ostensivamente seculares e democráticas. Na realidade, essa imunidade privilegiada tem sido estendida, de facto, a países ocidentais onde comunidades muçulmanas estão já estabelecidas e onde crenças e práticas muçulmanas têm garantia de imunidade a críticas num nível que as maiorias cristãs perderam e as minorias judias nunca tiveram. Mais importante ainda: com muito poucas exceções, o clero cristão não exerce ou nem ao menos demanda o tipo de autoridade pública que ainda é normal e aceita na maior parte dos países muçulmanos.” P. 21.

Que coisa absurda! O islã não pode ser criticado e ridicularizado, mas o cristianismo sim. A religião de Maomé já tem privilégios garantidos em muitos recintos acadêmicos. Eu mesmo, quase fui engolido por um Professor universitário por levantar críticas a essa religião. Se eu fosse um aluno dele, estaria lascado. Todas as religiões devem ser despidas de quaisquer privilégios, não importando qual seja. Mas falar mal (ou falar a verdade mesmo?!) contra o islã e contra as religiões afro-brasileiras pode render a crucificação de quem se mete a penetrar a blindagem construída em torno delas. Enquanto isso, os muçulmanos estão cagando pra tolerância em suas terras.

Sobre a Jihad:

“A esmagadora maioria das autoridades mais antigas, citando as passagens relevantes do Alcorão, os comentários e as tradições do Profeta, discute jihad em termos militares. Segundo a lei islâmica, está de acordo com as escrituras fazer guerra contra quatro tipos de inimigos: infiéis, apóstatas, rebeldes e bandidos. Embora os quatro tipos de guerras sejam legítimos, apenas os dois primeiros contam como jihad. Portanto, a jihad é uma obrigação religiosa.

[...]

Durante a maior parte dos 14 séculos de história muçulmana registrada, a jihad foi mais comumente interpretada como luta armada para defesa ou aumento do poder muçulmano. Na tradição muçulmana, o mundo é dividido em duas casas: a Casa do Islã (Dar al-Islam), na qual existem governos muçulmanos e onde prevalece a lei muçulmana, e a Casa da Guerra (Dar al-Harb), o resto do mundo, ainda habitado por infiéis e, mais importante, sob governos infiéis. A presunção é que a obrigação da jihad continuará, interrompida apenas por tréguas, até que o mundo todo adote a fé muçulmana ou se submeta ao mando muçulmano. Aqueles que lutam na jihad qualificam-se para recompensas nos dois mundos, butim nesse, paraíso no próximo.” P. 27.

Essa é a religião de paz, preconizada pela grande mídia. Lewis, páginas atrás, escreve:

“As centenas de milhares de tradições e ditos atribuídos, com variados graus de confiabilidade, ao Profeta, e algumas vezes interpretados de maneiras muito diversas, oferecem ampla gama de orientações, das quais a interpretação militante e violenta da religião é apenas uma dentre muitas.” P. 15-16.

A primeira citação acima contradiz claramente com os fatos o segundo enunciado de que “a interpretação militante e violenta da religião é apenas uma dentre muitas.” O islã é uma religião beligerante.

Só os mal informados ou maus-caracteres dizem que o islã é uma religião pacífica. O islã é violento desde o berço.

“A jihad é apresentada, às vezes, como o equivalente muçulmano das cruzadas, e as duas são vistas como mais ou menos equivalentes. Em um certo sentido, isso é verdadeiro – ambas foram proclamadas e lançadas como guerras santas da fé verdadeira contra um inimigo infiel. Mas há uma diferença. As cruzadas são um evento tardio na história cristã e, de certo modo, marcam um afastamento radical dos valores básicos cristãos, tal como expressos nos Evangelhos. A cristandade estivera sob ataque desde o século VII, e havia perdido vastos territórios para o domínio muçulmano; o conceito de uma guerra santa, mais comumente uma guerra justa, era familiar desde a Antigüidade. Ainda assim, no longo conflito entre islamismo e cristandade, as cruzadas foram tardias, limitadas e de relativamente pouca duração. A jihad, ao contrário, está presente desde o início da história islâmica – nos textos sagrados, na vida do Profeta e nas condutas de seus companheiros e sucessores imediatos. Continuou a existir ao longo da história islâmica e mantém seu apelo até os dias atuais.” P. 29-30.

A religião de “paz” decreta a morte daqueles que a abandonam. Quantos muçulmanos não ficam caladinhos na sua, com medo de terem suas vidas ceifadas brutalmente por terem renegado o “grande” profeta? Essa é a religião “pacífica”, segundo o politicamente correto de muitas, se não, da maioria das universidades, constituídas por docentes medíocres e hipócritas.

“As regras relativas a uma guerra contra apóstatas são um tanto diferentes, e sem dúvida mais rigorosas que as para uma guerra contra infiéis. O apóstata ou renegado, aos olhos muçulmanos, é muito pior do que o infiel. O infiel não viu a luz, e há sempre a esperança de que, um dia, ele a veja. No meio tempo, desde que atenda às condições necessárias, pode merecer a tolerância do Estado muçulmano e ter permissão para continuar a praticar sua própria religião e até mesmo aplicar suas próprias leis religiosas. O renegado é alguém que conheceu a fé verdadeira, não importa se por pouco tempo, e a abandonou. Não existe perdão humano para essa ofensa, e, de acordo com a esmagadora maioria dos juristas, o renegado deve ser morto, se for homem. Se for mulher, pode ser suficiente uma punição mais leve, como flagelação e prisão. A misericórdia divina pode perdoá-lo no outro mundo, se Deus assim escolher. Nenhum ser humano tem autoridade para tanto. Essa distinção é de alguma importância atualmente, quando líderes militantes proclamaram uma jihad dupla – contra estrangeiros infiéis e contra apóstatas domésticos. A maior parte, se não a totalidade, dos governantes muçulmanos que nós, no Ocidente, temos o prazer de ver como nossos amigos e aliados é vista por muitos – ou talvez pela maioria de seu próprio povo – como traidores e, muito pior que isso, como apóstatas.” P. 31.

Você é católico? Caso abandone o catolicismo, você não correrá perigo de morte por isso. Você é protestante? Caso abandone o protestantismo, você não será alvo de uma sentença de morte. No Ocidente, o máximo que você receberá, por ter rejeitado essa ou aquela vertente cristã, salvo algumas pequeníssimas exceções, é a pecha de um desviado, excomungado e nada mais. Essa já não é a realidade daqueles que impugnam a religião de “paz”, em terras islâmicas. Pobres muçulmanos.

“Nos cânones muçulmanos, a renúncia ao islamismo é uma apostasia – uma ofensa capital tanto para o que é mal-encaminhado quanto para o que o desencaminha. Sobre essa questão, a lei é clara e inequívoca. Se um muçulmano renuncia ao islã, mesmo que seja um novo muçulmano voltando à sua fé anterior, a penalidade é a morte. Nos tempos modernos, o conceito e a prática de takfir, reconhecer e denunciar a apostasia, têm sido muito ampliados. Não é pouco usual em círculos extremistas e fundamentalistas decretar que determinada política, ação ou mesmo fala de um muçulmano professo equivale a uma apostasia e pronunciar uma sentença de morte contra o acusado.” P. 36-37.

Todo imperialismo traz grande malefícios para os países subjugados, acho que ninguém de bom senso nega isso. Mas o imperialismo ocidental deixou marcas benéficas em alguns países muçulmanos, fazendo com que estes, hoje, tenham uma melhor estrutura social que os países não dominados.

“Afinal, houve alguns benefícios – infra-estrutura, serviços públicos, sistemas educacionais, bem como algumas mudanças sociais, notadamente a abolição da escravidão e a considerável redução, embora não a eliminação, da poligamia. O contraste pode ser visto muito claramente comparando-se os países que sofreram sob o jugo imperial, como o Egito e a Argélia, com aqueles que nunca perderam sua independência, como a Arábia e o Afeganistão.” P. 37.

Lewis em alguns momentos de seu livro reconhece a primazia intelectual e estrutural do mundo islâmico na era medieval, todavia, isso ficou para trás. A cultural islâmica como “a mais rica, mais poderosa, mais criativa e esclarecida região do mundo” (P. 35), ficou para trás. O mundo árabe em termos intelectuais e científicos é desprezível.

“Na Arábia Saudita, as universidades surgiram mais tarde, e em pequeno número. Atualmente, para uma população estimada em 21 milhões, há oito universidades – uma a mais que as sete instituições de ensino superior criadas pelos palestinos desde a ocupação dos territórios por Israel em 1967.” P. 37.

No país sede da religião alcorânica, a escravidão terminou tardiamente. Não é essa a religião da paz?

“A escravidão só foi legalmente abolida na Arábia Saudita em 1962, e a subjugação das mulheres permanece em plena vigência.” P. 37.

Eis as raízes filosóficas do sentimento de ódio contra os Estados Unidos:

“Entre os componentes do sentimento antiamericanista [entre os arábes] estavam certas influências intelectuais vindas da Europa. Uma dessas originava-se na Alemanha, onde uma imagem negativa da América fazia parte de uma escola de pensamento que incluía escritores tão diversos quanto Rainer Maria Rilke, Oswald Spengler, Ernst Jünger e Martin Heidegger. Para eles, os Estados Unidos eram o exemplo perfeito de civilização sem cultura; rica e confortável, materialmente avançada, mas desprovida de alma e artificial; montada ou, no melhor dos casos, construída, mas não arraigada; mecânica, não orgânica; tecnologicamente complexa, mas sem a espiritualidade e vitalidade das culturas enraizadas, humanas, nacionais dos alemães e de outros povos “autênticos”. A filosofia alemã e a filosofia da educação, em particular, desfrutaram de popularidade considerável entre intelectuais árabes e de alguns outros países muçulmanos na década de 1930 e início da década seguinte, e esse antiamericanismo filosófico era parte da mensagem.” P. 41.

No conflito de décadas entre Israel e os palestinos, convencido por dois documentários, fico ao lado dos palestinos. Mas tenho que concordar com o Lewis, com o que ele diz:

“O conflito Israel-Palestina certamente tem atraído muito mais atenção que qualquer um dos outros, por diversas razões. Primeira, dado que Israel é uma democracia e uma sociedade aberta, é muito mais fácil noticiar – e noticiar de forma errada – o que está acontecendo no país. Segunda, os judeus estão envolvidos, e, em geral, isso pode garantir uma audiência significativa entre aqueles que, por uma razão ou outra, são a favor deles ou contra. Um bom exemplo dessa diferença é a Guerra Irã-Iraque, que durou oito anos, de 1980 a 1988, e causou mortes e destruição muito maiores que todas as guerras árabe-israelenses juntas, mas recebeu bem menos atenção. É verdade que nem Iraque nem Irã são uma democracia, e a cobertura jornalística era, portanto, uma tarefa mais difícil e mais perigosa. Por outro lado, os judeus não estavam envolvidos, nem como vítimas nem como autores, e as notícias, portanto, eram menos interessantes.

Uma terceira e, em última instância, a mais importante razão para a primazia da questão palestina é que ela é, por assim dizer, uma queixa autorizada – a única que pode ser expressada com liberdade e segurança naqueles países muçulmanos onde a mídia está totalmente nas mãos do governo ou é estritamente supervisionada por ele. Na verdade, Israel serve como um útil bode expiatório para reclamações sobre as privações econômicas e a repressão política sob as quais vive a maior parte dos povos muçulmanos, e como uma maneira de desviar o ódio resultante. Esse método é amplamente favorecido pelo cenário interno israelense, onde qualquer impropriedade da parte do governo, do exército, dos colonos ou de quem quer que seja é imediatamente revelada e qualquer falsidade imediatamente denunciada por críticos israelenses, tanto judeus quanto árabes, na mídia e no Parlamento israelenses. A maior parte dos oponentes de Israel não sofre nenhum desses impedimentos em sua diplomacia pública.” P. 50-51.

A relação entre EUA e Israel:

"Durante muito tempo, esse relacionamento [entre EUA e Israel] foi moldado por duas considerações inteiramente diferentes: uma delas pode ser chamada ideológica ou sentimental; a outra, estratégica. Os norte americanos, escolados na Bíblia e em sua própria história, podem prontamente ver o nascimento do moderno Estado de Israel como um novo Êxodo e um retorno à Terra Prometida, e acham fácil desenvolver uma empatia por pessoas que parecem estar repetindo a experiência dos peregrinos fundadores, dos pioneiros e dos que os sucederam. Os árabes, por certo, não vêem dessa maneira, e muitos europeus também não." P. 53.

E os interesses norte-americano sobre o petróleo do Oriente Médio? Lewis responde:

“Desde o colapso da União Soviética, uma nova política norte-americana surgiu no Oriente Médio, relacionada com diferentes objetivos. Seu principal propósito é impedir a emergência de uma hegemonia regional – ou de uma única autoridade regional que possa dominar a área e estabelecer o controle monopolístico do petróleo do Oriente Médio. Essa tem sido a preocupação básica subjacente a sucessivas políticas norte-americanas para o Irã, Iraque ou para qualquer outra situação percebida como uma futura ameaça dentro da região.” P. 53.

Os interesses muitas vezes escusos dos EUA e da Europa:

“Há alguma justiça em uma acusação feita freqüentemente aos Estados Unidos e, em termos mais gerais, ao Ocidente: os povos do Oriente Médio reclamam cada vez mais que o Ocidente os julga com base em padrões diferentes e inferiores aos usados para julgar europeus e norte-americanos, tanto no que se espera deles quanto no que eles podem esperar em relação a seu bem-estar econômico e sua liberdade política. Afirmam que porta-vozes ocidentais repetidamente relevam ou mesmo defendem ações e apoiam governantes que eles próprios não tolerariam em seus países.

[...]

As mais flagrantes violações de direitos civis, liberdade política, até mesmo decência humana são ignoradas ou apagadas, e crimes contra a humanidade, que em um país europeu ou nos Estados Unidos invocariam uma onda de indignação, são vistos como normais e mesmo aceitáveis. Regimes que praticam tais violações são não apenas tolerados, mas até mesmo eleitos para a Comissão de Direitos Humanos das Nações Unidas, cujos membros incluem a Arábia Saudita, Síria, Sudão e Líbia.

[...]

Tal como muitos vêem no Oriente Médio, a posição básica dos governos europeus e norte-americano é: ‘Não nos preocupamos com o que vocês fazem com seus próprios povos em seus países, desde que sejam cooperativos em atender nossas necessidades e proteger nossos interesses.’” P. 55, 56.

O ressentimento do mundo árabe:

“As pessoas no Oriente Médio estão cada vez mais conscientes do profundo e crescente hiato entre as oportunidades do mundo livre além de suas fronteiras e a privação e repressão chocantes dentro delas. A raiva daí resultante é naturalmente dirigida, primeiro, contra seus governos e, depois, contra aqueles que, para elas, mantêm esses governantes no poder por razões egoístas. É certamente significativo que todos os terroristas identificados nos ataques de 11 de setembro em Nova York e Washington tenham vindo da Arábia Saudita e do Egito, isto é, de países cujos governantes são considerados amigos dos Estados Unidos.” P. 61.

O Ocidente corre perigo.

"Na Europa e nos Estados Unidos, devido à relutância dos Estados em se envolverem em assuntos religiosos, o ensino do islã em escolas e em outros locais tem sido, de modo geral, totalmente sem supervisão das autoridades”. P. 65.

Para os mais fanáticos seguidores de Maomé, a influência ocidental deve ser extirpada de seus países.

"Em termos amplos, os fundamentalistas muçulmanos são aqueles que sentem que os atuais problemas do mundo muçulmano resultam não de modernização insuficiente, mas de excessiva modernização, que vêem como uma traição aos autênticos valores islâmicos. Para eles, a solução é um retorno ao verdadeiro islã, incluindo a abolição de todas as leis e de outros arranjos sociais tomados emprestados do Ocidente, com a restauração da Lei Sagrada islâmica, a shari’a, como a efetiva lei da terra. De sua perspectiva, o conflito básico não é contra o intruso ocidental, mas contra o traidor ocidentalizador em casa. Seus inimigos mais perigosos, segundo vêem, são os muçulmanos falsos e renegados que governam os países do mundo islâmico e que importaram e impuseram costumes infiéis aos seus povos." P. 67.

O que pode acontecer com um não-muçulmano que “insultar” o profeta Maomé em terras muçulmanas?

“Os juristas dedicam considerável atenção à definição de ofensa, às regras de obter evidências e à punição apropriada. Mostram grande preocupação com que as acusações dessa ofensa não sejam usadas como um artifício para conseguir alguma vingança particular, e insistem em cuidadoso escrutínio das provas antes que qualquer veredicto ou sentença sejam pronunciados. A opinião majoritária é que UMA FLAGELAÇÃO E UMA PENA DE PRISÃO SÃO PUNIÇÕES SUFICIENTES – A SEVERIDADE DA FLAGELAÇÃO E O TEMPO DE APRISIONAMENTO DEPENDEM DA GRAVIDADE DA OFENSA. O caso do muçulmano que insulta o Profeta praticamente não é levado em consideração, e deve ter sido muito raro. Quando discutido, a opinião comum é de que se trata de um ato equivalente à apostasia.” P. 69. (Ênfase acrescentada).

Para os muçulmanos que rechaçam o mensageiro de Alá, a punição é a morte.

“A apostasia é uma das grandes ofensas na lei muçulmana, e resulta em pena de morte para homens. Mas a palavra importante nessa declaração é lei. A jurisprudência islâmica é um sistema de lei e justiça, não de linchamento e terror. Ela estabelece procedimentos de acordo com os quais uma pessoa acusada de uma ofensa deve ser levada a julgamento, confrontada com seu acusador e ter a oportunidade de se defender. Um juiz então dará um veredicto e, se for considerada culpada, pronunciará a sentença.” P. 69.

Religião de amor? Não, não.

“Os muçulmanos não são instruídos para dar a outra face, nem se espera que refundam suas espadas para transformá-las em arados e suas lanças em foices (Isaías 2:4). Essas admoestações certamente não impediram que os cristãos fizessem uma série de guerras sangrentas de religião dentro da cristandade e guerras de agressão fora dela.” P. 70.

O suicídio no islã:

“Os livros da lei islâmica são muito claros quanto à questão do suicídio. É um grande pecado, punido com a danação eterna sob a forma da repetição sem fim do ato através do qual o suicida se matou. As seguintes passagens, tiradas das tradições do Profeta, ilustram a questão vividamente:

O Profeta disse: Quem quer que se mate com uma lâmina será atormentado com aquela lâmina nos fogos do inferno.

O Profeta também disse: Aquele que se enforca enforcará a si mesmo no inferno, e aquele que se esfaquear esfaqueará a si mesmo no inferno. … Aquele que se lança de uma montanha e se mata lançará a si mesmo aos fogos do inferno para todo o sempre. Aquele que toma veneno e se mata levará seu veneno nas mãos e o beberá no inferno para todo o sempre. … Quem quer que se mate de alguma maneira será atormentado da mesma maneira no inferno. … Quem quer que se mate de alguma maneira neste mundo será atormentado do mesmo modo no dia da ressurreição.” P. 73.

A essa altura, não espanta que muitos muçulmanos neguem os 6 milhões de judeus mortos na segunda grande guerra.

“No que se refere ao Holocausto, não é incomum encontrar três posições na mídia árabe: nunca aconteceu; foi grandemente exagerado; de qualquer forma, os judeus mereciam. Ninguém ainda afirmou que a destruição do World Trade Center nunca aconteceu, embora, com o passar do tempo, isso não esteja além da capacidade de teóricos com visão conspiratória. O discurso atual entre muitos dos comentaristas muçulmanos – embora, de forma alguma, de todos – é argumentar que nem muçulmanos nem árabes poderiam ter feito isso.” P. 74.

É claro que o livro é extremamente mais rico e explicativo do que mostrei toscamente aqui. De todo modo, as passagens mostradas provam por A mais B, que o islã está muito longe de ser uma religião que prega o amor e a paz, como muitos meios midiáticos e a esquerda querem nos fazer crer.

sexta-feira, 24 de agosto de 2018

O Nascimento de Uma Nação (1915)


O negro é um ser bestial, insolente, desonesto, não-confiável, estuprador de mulheres brancas, intratável, incapaz de viver integrado em uma sociedade civilizada... Essa é a mensagem que O Nascimento de Uma Nação, filme “saído do forno”, de 1915, nos passa. É um filme mudo com mais de três horas de duração, que conta a história de duas famílias, uma nortista e a outra sulista, que se veem em lados opostos devido a Guerra Civil Americana (1861-1865), visto que o lado norte queria o fim da escravidão, enquanto que o lado sul queria mantê-la.

Com o lado nortista vencedor, começa-se a “integração” do negro a sociedade, como um agente “livre/autônomo”. O filme é dividido em duas partes, e na segunda, na reconstrução da nação, o negro é retratado como totalmente incapaz de viver honestamente numa sociedade democrática, fazendo com que a Ku Klux Klan tome as rédeas, para pôr em ordem a cidade sulista de Piedmont, no estado do Alabama, que foi tomada por negros malcriados, descuidados e péssimos administradores, que arruinarão tudo que ela tem de decente e de valor. A assassina Ku Klux Klan é tida como a salvadora da pátria e dos valores civilizados, que estão sendo solapados pela negraiada corrupta e pervertida. No final, a Ku Klux Klan vence e os negros são colocados no seu devido e apropriado cantinho, com os brancos estando no seu merecido lugar de direito, como raça ariana superior e divinamente estabelecida.

O Nascimento de Uma Nação é um marco na história do cinema. Usou de novas técnicas para filmar um longa, usou o que havia de mais tecnológico na época (1915), e é considerado, apesar de seu teor ultra racista, um dos filmes mais importantes já feitos. Na época conseguiu arrecadar mais de 10 milhões de dólares, tendo um lucro exorbitante em vista do que tinha gasto em sua produção.

Infelizmente, o seu conteúdo preconceituoso cimentou ainda mais o sentimento de ódio nutrido pelos brancos naquele país. A Ku Klux Klan que estava extinta, reapareceu perseguindo, linchando e matando negros. Ainda hoje essa organização está atuando, diluída entre vários grupos de ódio, que pregam a supremacia branca e protestante, sem o governo mexer um dedinho sequer para acabar com elas. Existem mais de 200 grupos que destilam a sua raiva doentia não somente contra negros, mas contra judeus, latinos, católicos e etc., como nos diz o documentário O Livro Secreto da América: América Nazista. São uma mistura das ideias de Hitler e da KKK.

O filme é uma tortura para nós, acostumados as produções modernas, visto que é mudo, poucas legendas e extremamente longo.

Felizmente, diante de uma conscientização maior dos grandes estúdios, uma grande avalanche de filmes denunciando o terror do racismo têm sido lançados ano a ano. Creio que eles possuem um grande potencial de minar esse sentimento tão horrível, mas ainda tão presente na cabeça de tantos milhões de pessoas.

Este filme tem um legado demoníaco e abjeto, mas é de salutar importância assisti-lo, principalmente, para quem quer entender a longa e odiosa trajetória da marginalização do negro na sociedade norte-americana, que tristemente está muito longe de acabar.

quarta-feira, 22 de agosto de 2018

O Céu é de Verdade



Focando um pouco do meu tempo nos relatos de EQM, visto que li dois livros sobre o tema, e estou com vistas a ler um terceiro, resolvo assistir este filme, que traz a história de Colton Burpo, que acometido por uma apendicite, que estourou e contaminou os outros órgãos, deixando-o à beira da morte. No período em que passou desacordado na sala de cirurgia, segundo ele conta, sua mente estava bem ativa, e diz ter visitado o céu. Verdade ou mentira?

Colton é apenas um lindo menino, filho do pastor da cidade, que diz ter encontrado Jesus, enquanto estava doente na cama do hospital. Jesus lhe mostrou partes do céu, ele viu anjos, e de quebra, ainda conversou com sua irmãzinha que nem chegou a nascer, devido a um aborto natural.

Os seus pais, apesar de serem cristãos, ficam bastante relutantes em acreditar que ele presenciou realmente essas coisas. O seu pai, Todd Burpo, acredita que o filho teve uma experiência real, mas questiona a interpretação que Colton dá a ela.  O relato do filho incomoda não apenas os seus pais, mas também, a igreja do qual fazem parte. Há muita incredulidade em crer que ele de fato tenha ido ao paraíso.

Moradores de uma cidade pequena, a história chega aos ouvidos de seus habitantes, que também não acreditam numa história tão fantástica como essa. Chacotas, piadas e risos, são as reações mais comuns, diante de tudo isso.

Todd vai atrás de uma Psicóloga que diz que seu filho interpretou o que supostamente viu, conforme o que aprendeu de sua religião. Condicionamento total.

Para resumir, no fim das contas, seus pais e a igreja passam a acreditar no relato do pequeno Colton.

As Experiências de Quase-Morte é um fenômeno universal. É um fenômeno intrigante e instigante. Muitas pessoas que passaram por ela, contam coisas que viram no hospital, na sala de cirurgia, nos quartos vizinhos, que seriam impossíveis de saber, na situação em que estavam – apagadas, em coma, quase do outro lado.

Como explicar em termos puramente naturalistas/materialistas esses abundantes testemunhos vindos de toda parte?

Não estou aqui endossando o testemunho do Colton, dando-lhe um atestado de verdadeiro, até porque, é uma grande verdade, que se ele fosse de uma outra cultura religiosa, com certeza, não teria encontrado um ser chamado Jesus, mas sim, algum ser espiritual cultuado em sua religião.

Mas em todo caso, as experiências das pessoas de encontrarem um Ser de Luz são extensas, e todas guardam pontos em comum. É difícil tratar todas elas, apenas como mecanismos produzidos pelo cérebro, como forma de atenuar o fim da existência, dando um senso de paz ao moribundo prestes a ter extinta de uma vez por todas, a sua vida mental.

Este filme, naturalmente, tem a finalidade de legitimar a visão cristã de um céu esperando os fiéis depois da morte. Entretanto, podemos sair dessa restrição, e vê-lo por um víeis mais amplo. Um filme que traz mais uma história de EQM, que desafia os postulados do materialismo metafísico, tão presentes na comunidade científica, mesmo que ele seja um relato ficcional, pois ele traz os elementos comuns de uma EQM, independente dele ser um embuste ou não.

É claro, não custa nada lembrar que essas histórias vindas de comunidades evangélicas têm uma grande chance de serem pura propaganda religiosa e embuste, mesmo que envolvam crianças. Alex Malarkey, uma criança que ficou em coma em 2004, também disse ter visitado o céu, e contou como era o paraíso. Pois bem, ele mesmo desmentiu há poucos anos, toda a história. Ele MENTIU. Mas o prejuízo já estava feito, um livro contando a sua história foi lançado, e pessoas foram enganadas. Aqui no Brasil, o livro foi comercializado pela editora CPAD, com o nome O Menino que Voltou do Céu. Venderam um engodo.

Fica de alerta, quando ouvirmos histórias fantásticas de EQM que confirmam essa ou aquela visão religiosa. Esse é o diferencial dos livros Uma Prova do Céu e Vida Depois da Vida, que não têm o propósito de provar que visão X de dada religião é a verdadeira, porque fulano e beltrano, que passaram pela EQM, constataram a sua veracidade. As EQM ultrapassam qualquer visão religiosa, não confirmando nenhuma em especial.