domingo, 18 de abril de 2021

A Dança do Universo


GLEISER, Marcelo. A Dança do Universo: Dos Mitos de Criação ao Big Bang. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.

“Para a maioria dos cientistas o estudo da Natureza é encarado como um desafio intelectual. Sua motivação para enfrentar esse desafio vem de uma profunda fé na capacidade da razão humana de poder entender o mundo à sua volta.” P. 19.

Marcelo Gleiser, Ph.D em Física na Universidade de Londres, faz um passeio pelo maravilhoso, misterioso e estranho mundo dos astros, estrelas, cometas, planetas e átomos. Gleiser passou a ficar conhecido do grande público apenas na metade dos anos 2000, por causa da série Poeira das Estrelas, apresentada no Fantástico, em que nos brindava com as descobertas científicas da Astronomia. Mas este livro é de 1997. Seus trabalhos na área de Cosmologia já eram reconhecidos nos EUA. Não é por acaso, que ele é também membro da Sociedade de Física Americana.

A Dança do Universo é um livro direcionado para o grande público. Mas não se engane, a leitura dele será cansativa em alguns momentos.  Porém, isso não desqualifica a obra. No geral é um livro muito bom.   

Gleiser é ateu, mas reconhece que os teístas tiveram papel primordial na empreitada científica.

“[...] se voltarmos um pouco no tempo, veremos que alguns dos cientistas responsáveis pelo desenvolvimento de nossa visão do Universo eram profundamente religiosos.” P. 19.

No capítulo primeiro, sobre os mitos de criação, Gleiser mostra que os antigos já tinham a percepção de que a Terra era redondinha. Ovídio (43 a.C.-18 d. C), poeta romano, já dizia em sua obra Metamorfoses:

“Divisão, subdivisão, quem quer que ele seja, Ele moldou a terra na forma de um grande globo”. P. 33.

No mito de criação chinês, o deus Pan Ku morre para que o Universo seja aperfeiçoado; e da putrefação do seu corpo, emergem os humanos.

“E dos vermes que cobriam seu corpo surgiu a humanidade.” P. 34.

Nossa! Isso faz todo o sentido!

Sobre a relação da ciência e religião, Gleiser tece esses comentários:

“[...] será possível que uma pessoa possa questionar o mundo cientificamente e ainda assim ser religiosa? Acredito que a resposta é um óbvio sim, contanto que seja claro para essa pessoa que ambas não devem interferir entre si de modo errado, ou seja, que existem limites tanto para a ciência como para a religião. Cientistas não devem abusar da ciência, aplicando-a a situações claramente especulativas, e, apesar disso, sentirem-se justificados em declarar que resolveram ou que podem resolver questões de natureza teológica. Teólogos não devem tentar interpretar textos sagrados cientificamente, porque estes não foram escritos com esse objetivo. Para mim, o que é realmente fascinante é que tanto a ciência como a religião expressam nossa reverência e fascínio pela Natureza. Sua complementaridade se manifesta na motivação essencialmente religiosa dos maiores cientistas de todos os tempos.” P. 40.

As Leis da Física são imutáveis e universais, abrangendo todo o Universo, se não fosse assim, a ciência seria impossível.

“Uma das funções mais importantes da física é a busca de leis universais que sejam capazes de descrever fenômenos naturais observados tanto no dia-a-dia como no laboratório. Ao chamarmos essas leis de ‘universais’, estamos implicitamente supondo que elas são válidas não só em qualquer parte do Universo, mas também em qualquer momento de sua história. Essa suposição baseia-se na nossa crença de que a Natureza, em um nível mais profundo de análise, é de fato imutável, e que, portanto, as leis que concebemos para descrever seu funcionamento são também imutáveis. [...] De fato, é justamente por causa dessa imutabilidade das leis da física que o estudo racional da Natureza é possível.” P. 52.

Essa crença é anátema para o irracionalismo pós-moderno.

Mais uma vez, Gleiser reconhece o papel da religião no forjar do pensamento científico:

“Sua filosofia religiosa influenciou e moldou o pensamento de alguns dos maiores filósofos e cientistas da história, incluindo Platão e Kepler. Alguns autores consideram Pitágoras o fundador Alguns autores consideram Pitágoras o fundador da ciência, enquanto outros, levados pela enorme repercussão do seu pensamento em várias áreas do conhecimento, consideram Pitágoras ‘o fundador da cultura européia em sua vertente mediterrânea ocidental’.” P. 53.

Copérnico não foi o primeiro a tirar a Terra do centro do universo. Muito antes dele, já se especulava sobre.

“Astrônomos pitagóricos sugeriram que não só a Terra se move, como também não é o centro do Universo.” P. 57.

Por mais que a crença religiosa tenha tido o seu quinhão de responsabilidade sobre o desenrolar da ciência, esta deve caminhar sozinha, sem estar presa aos pressupostos de nenhuma religião, assevera o nosso Físico.

“Para que o discurso científico tenha uma natureza universal, é fundamental que ele não dependa de nenhuma crença religiosa ou interpretação subjetiva.” P. 64.

Isso de certa forma, não contradiz o que ele já disse anteriormente, quando afirma que a crença religiosa de uns, teve um impacto profundo em suas ciências? O pressuposto religioso de que o Universo é inteligível, porque um deus pessoal e todo poderoso o criou, tornando-o inteligível e pronto para ser investigado, foi uma das premissas pela qual os grandes cientistas do passado criaram a ciência moderna. Esse foi o pressuposto religioso-filosófico deles e, ainda é o de muitos hoje. Não consigo ver contradição, ou empecilho nisto. Pressupostos ligados ao divino, sempre estiveram atrelados ao estudo do mundo natural, como o próprio Gleiser atesta algumas páginas a frente.

“Para ele, assim como para Platão e para Aristóteles, os corpos celestes eram divinos. Mais ainda, a ordem que percebemos no Universo é uma manifestação direta da inteligência divina. O estudo dos céus servia como um veículo de ascensão espiritual para o astrônomo. Por intermédio de seu trabalho, o astrônomo liberava-se das limitações e trivialidades da vida diária, em busca de uma existência moral e ética superior; para Ptolomeu, a astronomia estava profundamente ligada à filosofia moral. Ao investigar os mecanismos celestes, o astrônomo estava em contato com o divino.” P. 84.

“O frade franciscano de Oxford, Roger Bacon (c. 1219-1292), [...] fiel a seus pronunciamentos contra o dogmatismo, ele enfatizou a importância da matemática e da experimentação como instrumentos no estudo da Natureza e, portanto, como veículos para nos aproximarmos de Deus e de sua Criação, tornando-se uma importante influência no desenvolvimento inicial da ciência. Quando penso em Roger Bacon, imediatamente a imagem de um ‘profeta da ciência’ me vem à mente, um visionário solitário anunciando o inevitável declínio do Universo medieval.” P. 97-98.

“Newton via o Universo como manifestação do poder infinito de Deus. Não é exagero dizer que sua vida foi uma longa busca de Deus, uma longa busca de uma comunhão com a Inteligência Divina, que Newton acreditava dotar o Universo com sua beleza e ordem. Sua ciência foi um produto dessa crença, uma expressão de seu misticismo racional, uma ponte entre o humano e o divino.” P. 164.

Claro que o fato da religião/crença no divino ter contribuído, não é um passaporte automático para a sua validade enquanto verdade metafísica sobre o Universo. Não acreditamos mais na Astrologia e na Alquimia, por mais que essas também tenham sido respectivamente o embrião da Astronomia e da Química. Muitos reconhecem a religião como mola propulsora para a ciência na modernidade, no entanto, tornaram-se ateus. Outros tanto a reconhecem, como também subscrevem seus pressupostos fundamentais. O importante é que todos contribuam para o aumento do conhecimento sobre o Cosmos. 

Os gregos, ah, os gregos! Sempre eles!

“Talvez mais relevante que os vários detalhes de seu legado cultural, os gregos nos ensinaram como é importante nos perguntar sobre o mundo à nossa volta e sobre nós mesmos. Seu amor pela razão e sua fé no uso do raciocínio como instrumento principal na busca do conhecimento formam o arcabouço fundamental do estudo científico da Natureza. Não devemos nunca fugir dessa busca, intimidados pela nossa ignorância. O medo deve ser combatido com a razão e não com mais medo. Essa, para os gregos, é a chave da sabedoria.” P. 88.

Gleiser, a exemplos de muitos, traz o mito tão propalado de que na Idade Média, a igreja colocou empecilhos ao estudo da natureza, e de que a crença na Terra plana era generalizada.

“Ao entrarmos na Idade Média, veremos que essa curiosidade sobre o mundo natural irá praticamente desaparecer. A ascensão da Igreja e o declínio de Roma redirecionaram as preocupações das pessoas ‘educadas’ para questões teológicas extremamente abstratas; as sementes plantadas pelos gregos irão hibernar por um longo tempo. Isso não significa que nenhuma ciência tenha sido produzida nesse período. Os árabes, em particular, produziram melhorias no modelo de Ptolomeu, e levaram a matemática a novos níveis de sofisticação. Entretanto, seu Universo continuou sendo essencialmente aristotélico, finito, com a Terra no centro e dividido entre os domínios do ser e do devir.

O único tipo de estudo aceitável era de natureza teológica. Questões pertinentes ao estudo da Natureza eram consideradas não só supérfluas como também perigosas para a salvação da alma. A situação se tornou tão terrível que, por aproximadamente setecentos anos, de 300 d.C. (santo Lactancio) até o ano 1000 (papa Silvestre 11), se acreditava novamente que a Terra era plana! Quando os muçulmanos trouxeram os textos de Aristóteles, Euclides, Arquimedes, Ptolomeu e muitos outros de volta para a Europa, uma nova brisa de despertar começou a soprar, lentamente liberando o intelecto do sono hipnótico da Idade Média.” P. 88-89.

Se eu não tivesse lido Terra Plana, Galileu na Prisão e Outros Mitos Sobre Ciência e Religião, acreditaria ainda nisso. Mas esta obra desmente com maestria muitas dessas afirmações acima.

Como todo livro sobre história da ciência, ele passa por Copérnico, Galileu, Tycho, Newton Kepler... Sobre este último, olha que bacana:

"Kepler não devia ser uma pessoa muito agradável de se conviver, ou por quem fosse fácil sentir atração física. Fora suas horrendas feridas e vermes nos dedos, parece que ele tomou apenas um banho em toda sua vida. E, mesmo assim, ele reclamou que o banho o deixou doente por dias." P. 124.

Se o grande mestre foi assim, quem sou eu para contrariar. Não tenho 1% da genialidade intelectual dele, mas compartilho pelo menos de uma de suas práticas.

Sobre o afamado caso de Galileu e a igreja, Gleiser tem isto a dizer:

“Embora seja comum representar Galileu como um dos grandes mártires na luta pela liberdade de expressão e a Igreja como o vilão intolerante, a verdade (ao menos o que podemos concluir, dada a evidência existente e as interpretações em conflito) é bem mais sutil. [...]Os problemas iniciais de Galileu vieram principalmente do meio acadêmico, incitados por professores de filosofia de várias universidades italianas, cegamente obedientes à doutrina aristotélica.” P. 137.

Sobre a existência de Deus, o que dizer? Gleiser assume uma atitude parcimoniosa.

“Mesmo que não possamos descartar por completo a possibilidade de que uma prova definitiva da existência de Deus esteja escondida em algum canto obscuro da Natureza, pacientemente esperando para ser descoberta por nós, também não podemos descartar a possibilidade de que jamais tenhamos acesso a essa prova através da ciência. Ou de que essa prova simplesmente não exista, a menos que acreditemos nela. Talvez existam muitas respostas possíveis a essa pergunta, científicas ou não, cada uma satisfazendo parcialmente nossa necessidade de entender a origem de todas as coisas. No momento, tudo o que podemos fazer é especular, com base em nossos próprios preconceitos. Para mim, não é claro que a beleza e a ordem que tantas vezes encontramos na Natureza não possam ser simplesmente resultado do acaso, de acidentes sem nenhum objetivo ou ‘plano final’. Por outro lado, também não é claro que tudo seja produto do acaso.” P. 203.

As misteriosas Leis da Física não podem ser um poderoso indício de um Criador? Gleiser, como cético que é, mostra-se cautelosamente incrédulo.

“Será que as leis da física são evidência para a existência de um Criador? É muito tentador dizer que as leis da física são ‘inteligentes’. Afinal, é devido à nossa inteligência que podemos desvendar os mecanismos através dos quais a Natureza opera, expressando-os em termos de leis físicas. Mas assumir superficialmente essa posição pode ser muito perigoso. O fato de que seja necessária inteligência para desvendarmos as leis da física não implica que elas sejam produto de um Criador. A menos, claro, que acreditemos que nossa própria inteligência não seja produto do acaso, por intermédio da seleção natural, mas sim o produto do trabalho de um Criador. Será que a necessidade de identificarmos inteligência por trás do funcionamento dos processos naturais é uma conseqüência do fato de sermos seres inteligentes? Afinal, se a capacidade do cérebro humano de reconhecer padrões complexos (como, por exemplo, atribuirmos formas a constelações ou a nuvens, ou reconhecermos melodias musicais) é uma de suas propriedades mais importantes, não seria previsível que tentaríamos encontrar inteligência em um mundo cheio de padrões complexos? Será que somos vítimas de nossos próprios processos mentais?

Ou será que o modo como funcionamos é realmente produto premeditado de um Criador inteligente? Até que tenhamos uma compreensão mais profunda da origem de nossa própria inteligência, talvez seja um pouco prematuro querer atribuir inteligência ao Universo como um todo.” P. 204.

As Leis da Física como passaram a existir? Ninguém sabe! É um mistério, que parece-me insolúvel! Gleiser reconhece a grande dificuldade nesse enigma inexplicável.

“Mesmo que seja possível usar relatividade geral e mecânica quântica na construção de modelos matemáticos que descrevam de modo auto-consistente uma possível ‘origem’, na minha opinião modelos por si sós não são suficientes para que realmente possamos entender a origem do Universo. Já que todos esses modelos supõem a validade das leis da física como ferramenta fundamental em sua construção, eles, por definição, não podem explicar qual a origem das próprias leis da física. Se simplesmente supusermos que as leis da física foram criadas juntamente com o Universo, cairemos forçosamente numa regressão infinita.

Na minha opinião, que também é defendida por outros colegas, como, por exemplo, Paul Davies, é a questão da origem das leis da física que lida de fato com ‘A Pergunta’. Infelizmente, a resposta para tal pergunta está além do alcance das teorias físicas, pelo menos do modo como elas são formuladas no momento. Será que devemos então desistir de investigar essas questões através da física? Certamente não!

Mas talvez, ao refletirmos sobre essas questões, e sobre nossas limitações ao lidarmos com elas, um pouco de humildade, tantas vezes esquecida no ‘calor’ do debate científico, venha a ser restaurada.” P. 361-362.

Já vi não lembro onde, que a relatividade de Einstein foi usada para “provar” o relativismo pós-moderno. Mas este é um uso completamente equivocado das ideias do nobre cientista.

“A teoria da relatividade especial é uma teoria de absolutos, mesmo que ela tenha sido (e ainda seja) interpretada como uma teoria de relativos nas suas muitas encarnações fora da física, de jantares em família a círculos mais acadêmicos.” P. 277.

Para o azar dos pós-modernos é o absoluto que a ciência procura.

“Desde os pré-socráticos até nossos dias, a busca do absoluto é uma inspiração constante para a criatividade científica.” P. 281.

A Física na virada do século XIX para o XX, sofreu uma gigantesca reviravolta e baque. O mundo atômico e subatômico emergia de tal forma, que deixou a comunidade de cientistas arrepiada com o que acontecia no mundo minúsculo dos átomos - elétrons, nêutrons, prótons.  O universo quântico com os seus inacreditáveis absurdos, tais como a dualidade onda/partícula da luz, perda da causalidade, a imprevisibilidade total da localização dos elétrons, a interferência do observador, entre outros, colidia/rompia/separava completamente e violentamente o mundo clássico do mundo quântico. Os objetos quânticos podem nem existir! As descobertas malucas e extraordinárias do universo diminuto dos átomos chegaram ao ponto de deixar um de seus pesquisadores, o Nobel de Física Erwin Schrödinger tão tenso, que ficou doente, diante dos disparates encontrados. Mesmo diante dos acalorados debates e brigas, da incredulidade, ceticismo e estupefação dos pesquisadores e do próprio Einstein (ele se angustiou muito), Gleiser assevera que a Física Quântica é bastante eficaz para explicar nosso mundo de partículas invisíveis, gozando o posto de ser a teoria mais bem colocada na explicação das coisas.  

“A mecânica quântica é extremamente eficiente na descrição dos resultados de inúmeros experimentos que testam fenômenos em escalas atômicas e subatômicas. De fato, ela é a teoria científica mais eficiente em toda a história da ciência. É devido ao seu fantástico sucesso que um número enorme de maravilhas tecnológicas foi criado durante este século, de transistores e computadores até discos laser e televisão digital. “As descobertas de hoje serão as ferramentas de amanhã.” P. 305.

Para terminar estes recortes de A Dança do Universo, nada melhor do que fechar o livro com estas palavras:

“O conhecimento pode gerar poder, e o poder é muito sedutor. A ciência pode curar, mas também pode matar. Contudo, a alternativa, certamente, não é desprezar a importância crucial da ciência para a sociedade. Essa atitude seria uma viagem sem escalas para o obscurantismo, forçando nossa qualidade de vida a regredir aos padrões miseráveis de um passado não muito distante. O conhecimento não representa necessariamente sabedoria, mas com certeza a ignorância nunca é uma opção razoável.” P. 275.

“Teorias científicas jamais serão a verdade final: elas Irão sempre evoluir e mudar, tornando-se progressivamente mais corretas e eficientes, sem chegar nunca a um estado final de perfeição. Novos fenômenos estranhos, inesperados e imprevisíveis irão sempre desafiar nossa imaginação. Assim como nossos antepassados, estaremos sempre buscando compreender o novo. E, a cada passo dessa busca sem fim, compreenderemos um pouco mais sobre nós mesmos e sobre o mundo a nossa volta.” P. 397-398.

sábado, 17 de abril de 2021

Mateus 16.18 e os Estudiosos Protestantes

O evangélico médio, sobretudo o pentecostal/neopentecostal, acredita piamente que a Pedra na qual a igreja está edificada é Cristo, na passagem do evangelho de Mateus 16.18 . Eles acham que a intepretação de que a Pedra na qual Jesus falou é Pedro, é uma exegese espúria e tipicamente católica, não comportando lugar entre os estudiosos evangélicos. Mas será que é assim mesmo? Proeminentes eruditos evangélicos, dentre eles, muitos conservadores, necessariamente veem a Pedra na qual Jesus falou como se referindo a si mesmo? Intérpretes evangélicos não creem que a Pedra seja o apóstolo Pedro?

O texto de Mateus 16.18 diz assim na Nova Versão Transformadora:

“Agora eu lhe digo que você é Pedro, e sobre esta pedra edificarei minha igreja, e as forças da morte não a conquistarão.”

Listarei a seguir eruditos evangélicos conservadores, que afirmam que a Pedra na qual Jesus falou é Pedro.

“Em Mt 16:18 Jesus diz que Pedro é a rocha sobre a qual edificará a Sua igreja: ‘Também eu te digo que tu és Pedro\petros], e sobre esta pedra\petra) edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela’ (- Portão; Inferno), O fundamento aqui é o jogo de palavras entre petros e petra. Conforme Mc 3:16 e Jo 1:42, o próprio Jesus deu a Si mão o nome de Pedro. Em Mateus, Pedro já tem este nome quando é mencionado pela primeira vez em 4:18; muitos comentaristas tiram daí a conclusão de que em Mt 16:18 não está recebendo o nome, mas, sim a interpretação dele. Paulo emprega usualmente a forma aram. Cephas kepa\urochan, ‘pedra’ (1 Co 1:12; 3:22; 9:5; 15:5; G1 1:18; 2:9, 11, 14; cf. 1 Ciem 47:3). Em Jo 1:42, o único lugar no NT onde o subs. petros é empregado no seu sentido normal, declara-se que o nome Kephas significa petros: ‘E [André] o levou [a seu irmão, Simão] a Jesus. Olhando Jesus para ele, disse: Tu és Simão, o filho de João; tu serás chamado Cefas’ (que quer dizer Pedro).’ Tanto a transliteração aram. quanto a tradução gr,, kephas/petros, podem significar ‘rocha’ e, portanto, petra em Mt 16:18 pode ser traduzida como ‘rocha’. A assonância entre as palavras torna imediatamente evidente que Pedro é o ‘homem-rocha’, o alicerce sobre o qual Jesus edificará Sua igreja.” P. 1615.

BROWN, Colin; COENE, Lothar. (Orgs). Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento Volume 02. São Paulo: Vida Nova, 2007.

“O significado é: Você é Pedro, isto é, Rocha, e sobre esta rocha, isto é, sobre você, Pedro, edificarei minha igreja. Nosso Senhor, falando em aramaico, provavelmente tenha dito: 'E eu disse a você, você é Kepha, e sobre esta kepha edificarei minha igreja.' Jesus, pois, está prometendo a Pedro que ele está para edificar sua igreja sobre ele\ Eu aceito este ponto de vista.” P. 204.

HENDRIKSEN, William. Comentário do Novo Testamento: Mateus Vol 02. São Paulo: Cultura Cristã, 2001.

“Até que ficou demonstrado na última década do século XIX que normalmente Jesus deve ter ensinado em aramaico, a exegese protestante popular desse versículo contrastava petros, uma pedra, com petra, uma rocha, assim tentando descartar a idéia de que Pedro de alguma maneira deveria ser o fundamento da igreja. Já antes, quando a verdadeira natureza do grego koinê começou a se tornar conhecida, alguns estudiosos estavam insatisfeitos com o jogo de palavras, que se encaixava melhor com o grego clássico do que com o koinê. Uma vez que se compreendeu que o nome conferido era o termo aramaico Kepha (gr. kêphas, português Cefas), ficou claro que o suposto jogo de palavras tinha de ser abandonado, pois era impossível em aramaico. Que Cefas foi o nome dado, fica claro no uso que Paulo faz do nome ao citá-lo oito vezes e citar ‘Pedro’ som ente duas vezes (G1 2.7,8). Parece claro então que a formulação tão atacada da NEB (e de Phillips) é justificada: ‘Você é Pedro, a Rocha, e sobre esta rocha...’.” P. 1578.

BRUCE, F. F. (Org). Comentário Bíblico NVI: Antigo e Novo Testamentos. São Paulo: Editora Vida, 2009.

“Ao dar a bênção, Jesus se dirige a Pedro por ‘Simão Barjonas’ (Simão Bariona) e reconhece que o único meio de ele saber que Jesus é o Cristo é mediante revelação divina, e não mediante especulação humana. Bariona (“Barjona”) é termo aramaico que significa ‘filho de Jonas’. Jesus dá a Simão o novo nome ‘Pedro’ (petros), que significa ‘pedra’, visto que eles estão diante da grande pedra atrás da cidade tendo o monte Hermom visível à distância. Sobre esta pedra (petra) Jesus promete edificar a Igreja. É evidente que Jesus quer que a primeira pedra, Pedro, seja identificado com a segunda pedra.

Alguns estudiosos tentam distanciar as duas pedras comentando que Pedro é petros em grego (substantivo masculino), ao passo que a segunda pedra é petra (substantivo feminino). Eles sustentam que a primeira pedra denota uma pedrinha e a última, uma considerável formação geológica. Esta interpretação afirma que a petra sobre a qual Jesus edifica é a confissão de Pedro, não o homem Pedro.

É razoável que petra se torne petros quando se refere a Simão, porque em grego é natural que o homem traga a forma masculina do substantivo, e não a feminina. Do contrário seria como chamar André de Andréa! Além disso, a alegada diferença entre petros e petra se evapora quando o aramaico original é considerado: “Tu és Kejpha e sobre esta kepha edificarei a minha igreja”. (Kepha é o nome original de “Cefas”, usado para se referir a Pedro.) O significado mais óbvio do texto em aramaico, grego ou em nosso idioma é que Pedro é a pedra, opinião apoiada pela maior parte da erudição protestante. O uso de petros/petra em relação a edificar no contexto que se segue, exprime o ensino da Igreja em que Jesus e os apóstolos são a fundação da Igreja (At 2.42; Ef 2.20,21; Cl 1.18; 1 Tm 3.15; 1 Pe 2.4-7).” P. 101.

ARRINGTON, French, L.; STRONTAD, Roger. (Editores). Comentário Bíblico Pentecostal: Novo Testamento. 4 ª Ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2006.

“Houve muita discussão sobre o significado das palavras de Cristo a Pedro, ‘Sobre esta pedra edificarei a minha igreja’. Também houve muita discussão sobre ‘as chaves do reino dos céus’ de que Jesus falou aqui. Não existe uma razão gramaticalmente convincente pela qual Cristo não estivesse se referindo a Pedro como a ‘rocha’.” P. 576.

RICHARDS, Lawrence O. Comentário Devocional da Bíblia. Rio de Janeiro: CPAD, 2012.

“O nome Pedro faz um trocadilho, no grego, com a palavra ‘rocha’ (petra). Há quatro principais interpretações para este jogo de palavras: (a) a pedra é a confissão de Pedro (‘tu és o Cristo’, v. 16), sobre a qual a igreja é edificada; (b) Jesus mesmo é a pedra, como Pedro depois testifica (1 Pe 2.5-8); (c) Pedro, como representante dos apóstolos, é o fundamento da igreja (Ef 2.20). (d) Por sua confissão, Pedro representa o tipo de pessoa sobre a qual a Igreja será edificada.

A primeira e segunda possibilidades são freqüentemente defendidas, por indicar que o nome de Pedro é petros e a pedra é petra. Porém esta diferença linguística não é significativa neste contexto. A segunda possibilidade é improvável porque Jesus descreve-se a si mesmo. nesta passagem, não como a fundação, mas como construtor da igreja.

Não fosse pelo abuso desta passagem pela Igreja Católico-Romana, é pouco provável que qualquer dúvida fosse levantada de que a referência é a Pedro. Mas a pedra fundamental é Pedro como representante dos apóstolos (v. 15, nota), e cuja confissão a respeito de Cristo lhe foi revelada pelo Pai. Como Pedro mesmo declara posteriormente (1Pe2.4-8), todos os crentes se tornaram ‘pedras vivas’ por causa da associação deles com Cristo e com os apóstolos, como o fundamento da igreja (Ef 2.20-21; Ap 21.14).” P. 1124.

Bíblia de Estudo de Genebra. São Paulo e Barueri: Cultura Cristã e Sociedade Bíblica do Brasil, 1999.

“Pedra: Pode também ser traduzido por rocha; em grego há um jogo de palavras entre petros ‘pedra, rocha’, usada aqui como nome próprio (aportuguesado para Pedro), e petra ‘rocha, penha’ (rocha, traduzida em Mt 7.24-25). Jesus usou, provavelmente, a forma aramaica kefá (Cefas; cf. Jo 1.42; 1Co 1.12; Gl 2.9), que significa tanto ‘rocha’ como ‘pedra’.”

Bíblia de Estudo Almeida. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil.

“Chegamos à última interpretação, que é a melhor. Consiste em que Pedro mesmo é a rocha, mas em um sentido especial. Não é a rocha sobre a qual se funda a Igreja; essa rocha é Deus. É a primeira pedra basal de toda a Igreja. Pedro foi o primeiro homem da Terra que descobriu quem era Jesus. Foi o primeiro homem que efetuou o salto de fé que via em Jesus Cristo o Filho do Deus vivo. Em outras palavras, Pedro foi o primeiro membro da Igreja e, nesse sentido, a Igreja está fundada sobre ele. Este é o significado. É como se Jesus tivesse dito a Pedro: "Pedro, você é o primeiro em compreender quem sou eu; portanto, é a primeira pedra, a pedra fundamental, o princípio mesmo da Igreja que fundo." E nos séculos por vir, qualquer um que faz o mesmo descobrimento que Pedro fez é outra pedra que se acrescenta ao edifício da Igreja de Cristo.” P. 571.

BARCLAY, William. Comentário do Novo Testamento. Tradução: Carlos Biagini. (PDF).

“Assim, Mateus 16.13-20 traz a famosa “confissão” na estrada para Cesaréia de Filipe. Em resposta a ela, e apenas no relato que Mateus faz do episódio, Jesus louva a percepção de Pedro como vinda do céu e diz que ele é a rocha sobre a qual edificaria a sua igreja, prometendo-lhe as chaves do reino. Não há aqui nenhuma base para as idéias católicas de papado ou de sucessão apostólica. O que Jesus predisse foi o papel de destaque que Pedro teria como líder no começo da igreja, integrando novos grupos étnicos na comunidade cristã (veja At 1— 12).” P. 595.

DOCKERY, David S. Manual Bíblico Vida Nova. São Paulo: Vida Nova, 2001.

“E sobre esta pedra... Agora, ‘pedra’ torna-se petra (feminino), e com base na distinção entre petros (acima) e petra (aqui), muitos tentam evitar identificar Pedro como a pedra sobre a qual Jesus edifica sua igreja. Alega-se que Pedro é uma mera ‘pedra’; mas Jesus mesmo é a ‘pedra’, conforme Pedro mesmo atesta (IPe 2.5-8; como, entre outros, Lenski, Gander, Walvoord). Outros adotam alguma outra distinção: e.g., ‘sobre essa pedra da verdade revelada — a verdade que você acaba de confessar — edificarei minha igreja’ (Allen). Contudo, se não fosse pela reação protestante contra os extremos de interpretação do catolicismo romano, seria duvidoso que muitos considerassem que ‘pedra’ fosse alguma outra coisa ou outra pessoa que não Pedro.

Embora seja verdade que, no grego antigo, petros petra possam ter o sentido de “pedra” e ‘rocha’, respectivamente, a distinção está grandemente limitada à poesia. Além disso, nesse caso, a base aramaica é inquestionável; e o mais provável é que kêpâ’ tenha sido usado nas duas orações (‘você é Kêpâ’, e sobre esta kêpâ’’ ), uma vez que a palavra foi usada para o nome e para ‘pedra’. A Peshita (escrita em siríaco, língua cognata com o aramaico) não faz distinção entre as palavras nas duas orações. O grego faz a distinção entre petros e petra apenas porque tenta preservar o jogo de palavras, e, no grego, o feminino petra não pode servir muito bem como nome masculino.

[...]

Se Mateus não quisesse dizer nada mais além de que Pedro era uma pedra em contraste com Jesus, a Rocha, a palavra mais comum a ser usada seria lithos (‘pedra’ de quase qualquer tamanho). Então, não haveria jogo de palavras — e esse é exatamente o ponto!” P. 431.

CARSON, D. A. O Comentário de Mateus. São Paulo: Shedd publicações, 2010.

“Esta é uma das passagens mais controversas e debatidas em toda a Escritura. Os católicos romanos têm apelado para esta passagem para defender a idéia de que Pedro foi o primeiro papa. A questão fundamental diz respeito a relação de Pedro com ‘esta pedra’. Em grego, ‘Pedro’ é Petros (‘pedra’), que está relacionada com a petra (‘rock’). O outro nome NT de Pedro, Cefas (. Cf. João 1:42, 1 Coríntios 1:12), é o equivalente aramaico: kepha’ significa ‘pedra’, e se traduz em grego como Kephas. ‘Esta rocha’ foi por diversas vezes interpretado como referindo-se (1) o próprio Pedro; (2) a confissão de Pedro; ou (3) Cristo e seus ensinamentos. Por várias razões, a primeira opção é a mais forte. Todo o pronunciamento de Jesus é direcionado para Pedro, e a palavra de ligar ‘e’ (gr. kai) identifica mais, naturalmente, o rock com o próprio Pedro.” P. 1441.

Bíblia de Estudo ESV. Illinois, EUA: Published by Crossway Bibles Wheaton, 2007.

“‘Esta pedra’ tem sido interpretado diferentemente como se referindo (1) ao próprio Pedro; (2) à confissão de Pedro; ou (3) a Cristo e seus ensinamentos. Por várias razões, a primeira opção é a mais forte. Todo o pronunciamento de Jesus é dirigido a Pedro, e o conector ‘e’ (gr. Kay) identifica mais naturalmente a pedra com o próprio Pedro.” P. 1734.

Bíblia de Estudo NAA. Barueri, SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 2018. 

“O nome ‘Pedro’, em grego, significa ‘rocha’ ou ‘pedra’. A frase sobre esta pedra é, portanto, um trocadilho: Pedro era a pedra fundamental, uma vez que foi o primeiro a confessar Jesus como o Cristo e também foi o líder dos apóstolos, isto é, o ‘membro fundador’ da igreja (ver Ef 2.20-22; Ap 21.14). Alguns estudiosos sugerem que Jesus se referiu a si mesmo quando disse esta pedra, mas parece claro que ele apontava para Pedro ou para a confissão do discípulo.” P. 1560.

Bíblia de Estudo Nova Versão Transformadora. 1. Ed. – São Paulo: Mundo Cristão, 2018.  

“Simão reconheceu a identidade de Jesus por meio da revelação divina (11:25-27), e essa é a razão pela qual Jesus lhe deu o nome de Pedro. Apesar de Mateus já ter se referido a Simão como Pedro, esta é a primeira vez no Evangelho que jesus fez assim. Jesus identificou Pedro como rocha sobre a qual a Sua igreja seria estabelecida. A proclamação, por Pedro e pelos demais apóstolos, do messiado de Jesus pôs o fundamento para a igreja (Ef 2 19-20; Ap 21:14).” P. 1575.

Bíblia King James 1611 Com Estudo Holman. 3º Ed. Niterói-RJ: BV Books, 2020.

“Se Pedro declarou que Jesus era o Messias, Jesus também tinha uma palavra para ele. O nome ‘Pedro’ ou sem nome nativo aramaico, ‘Cefas’, tem o sentido de ‘rocha’ ou ‘pedra’. Se Pedro estava preparado para afirmar que Jesus era o Messias, Jesus estava preparado para dizer que Pedro, com sua sujeição, seria ele mesmo a fundação de sua nova edificação. Da mesma forma como Deus deu a Abrão o nome de Abraão, indicando que ele seria pai de muitas nações (Gênesis 17:5), agora Jesus dá a Simão o novo nome de Pedro, a Rocha.” P. 22.

WRIGHT, N. T. Mateus Para Todos. 1 Ed. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2020.

“A palavra grega traduzida <<pedra>> é petra e serve de trocadilho ao nome de Pedro, que em grego é Petros. A interpretação católico-romana desta passagem é que Pedro é a pedra fundamental da igreja, que gozava de uma primazia entre os apóstolos e se tornou bispo de Roma, passando esta primazia a seus sucessores, os papas. Era difícil sustentar a primeira proposição e impossível defender as outras. Uns comentaristas, apoiados por alguns pais da igreja, tendem a identificar a pedra ou com a confissão de Pedro ou com o Senhor mesmo. A intepretação mais simples é que Pedro é indicado como a pedra, sem ser o único fundamento. Os doze fundamentos da igreja são mencionados em Ef. 2:20 e Ap. 21:44. Esta interpretação é apoiada pelo fato de que as mesmas palavras são dirigidas a todos os discípulos em [Mateus] 18:18, como a Pedro em [Mateus] 16:19.” P. 968.

DAVIDSON, F. (Org.). O Novo Comentário da Bíblia. São Paulo: Vida Nova, 1997. 

“Quando Pedro foi aclamado ‘A Pedra’, não se sabia ao certo que tipo de pedra ele provaria ser. Um oráculo, no livro de Isaías, sugere que a mesma pedra que ofereceria refúgio seguro em tempos de enchentes também seria uma pedra de tropeço e queda para quem fosse jogado contra ela (Is 8.14). Assim, no mesmo contexto, o primeiro evangelista mostra Jesus dizendo a Pedro: ‘Sobre esta pedra construirei minha igreja’, e: ‘Você é um obstáculo (skandalon) no meu caminho’ (Mt 16.18,23). Pedro tinha a capacidade de ser tanto uma pedra de tropeço quanto uma pedra fundamental. Graças à intercessão do Mestre a seu favor em uma hora crítica, Pedro fortaleceu seus irmãos e tornou-se uma rocha de estabilidade e um ponto de união.” P. 35.

BRUCE, F. F. Pedro, Estevão, Tiago e João: Estudo do Cristianismo Não-Paulino. São Paulo: Shedd Publicações, 2005.

“Do grego, petros e petra, respectivamente – um trocadilho. Alguns creem que a diferença na terminação das duas palavras distingue ‘Pedro’ de ‘Pedra’ – uma referência a Cristo ou à confissão de Pedro acerca de Jesus. Mas a palavra para ‘Pedra’ no grego é o substantivo feminino petra, enquanto ‘Pedro’, o nome de um homem, é o masculino petros. O jogo de palavras requer uma mudança no gênero, ainda que Pedro seja, de fato, a pedra. O trocadilho faz mais sentido dessa forma, já que, no v. 23, é o próprio Pedro que repentinamente transforma-se em um tipo diferente de pedra: uma ‘pedra de tropeço’. [...] nada nesta passagem, e em nenhum outro lugar da Bíblia, sugere que ele é infalível ou que tenha iniciado um processo de ‘sucessão apostólica’ de liderança da igreja.” P. 1574.

Bíblia de Estudo Thomas Nelson. 1° Ed. São Paulo: Thomas Nelson, 2021.

“Cristo profetizou nestas palavras dirigidas a Pedro: ‘sobre esta pedra edificarei a minha igreja.’ Há um trocadilho aqui com a palavra ‘pedra’, que é também o nome de Pedro. Jesus disse: ‘você é Pedro’ (masculino, petros), e ‘sobre esta pedra’ (feminino, petra) ‘edificarei a minha igreja’. O Espírito Santo desceu sobre a igreja no dia de Pentecostes após o sermão de Pedro quando ‘houve um acréscimo ao número de seguidores de aproximadamente três mil pessoas’ (At 2;41).” P. 1036.

Bíblia de Estudo Introdutória. 1° Ed. São Paulo: Thomas Nelson, 2025.

A finalidade de citar esses autores evangélicos é apenas para mostrar que não existe consenso algum sobre a passagem de Mateus 16.18 no arraial protestante, contrariando a visão simplista de que só os católicos afirmam que Pedro é a Rocha da passagem em questão. Admitir que a Rocha é o senhor Pedroca, não embasa a doutrina da sucessão apostólica e as implicações que a igreja católica tira dela, como bem diz alguns dos comentaristas acima.

Para Toda a Eternidade: Conhecendo o Mundo de Mãos Dadas com a Morte

 


DOUGHTY, Caitlin. Para Toda a Eternidade: Conhecendo o Mundo de Mãos Dadas com a Morte. Rio de Janeiro: DarkSide, 2019. (PDF).

Caitlin Doughty, Bacharel em História na Universidade de Chicago, traz neste livro os modos diversos de como as várias culturas lidam com a morte e tudo que ela enseja – rituais, enterros, cerimônias, símbolos, cremações, luto, lamentos.  Oportuno dizer que a autora trabalha diretamente com os defuntos, pois durante muitos anos, ainda uma garota de vinte e poucos anos, foi funcionária de um crematório na Califórnia, onde diariamente ela torrava corpos e mais corpos, história essa que pode ser vista em seu primeiro livro Confissões do Crematório. Atualmente ela é dona do seu próprio crematório, apesar de ser uma crítica mordaz desse tipo de tratamento dado aos mortos, preferindo que eles sejam enterrados. Ela é uma crítica feroz também da maneira de como o luto é praticado hoje em dia, sempre às pressas, corrido, de poucas horas, sem intimidade e sem tempo para que as famílias enlutadas possam lamentar de modo satisfatório o ente querido que se foi.

“Nos Estados Unidos, onde eu moro, a morte tornou-se um grande negócio desde a virada do século XX. Um século se mostrou ser a quantidade de tempo perfeita para os cidadãos esquecerem como os funerais eram antes: assunto da família e da comunidade. No século XIX, ninguém teria questionado o fato de a filha de Josephine querer preparar o corpo da mãe — seria estranho se ela não fizesse isso. Ninguém teria questionado uma esposa lavando e vestindo o corpo do marido ou um pai carregando o filho para o túmulo em um caixão caseiro. Em pouquíssimo tempo, a indústria funerária norte-americana se tornou mais cara, mais empresarial e mais burocrática do que qualquer outra indústria funerária no planeta. Se pudermos ser chamados de melhores em alguma coisa, seria em manter as famílias em luto separadas dos mortos.” P. 19-20.

O tipo de destino que cada povo dá aos seus mortos, geralmente causa estranhamento. Para uns queimar os mortos é inadmissível. Para outros enterrá-los não é nada respeitoso. Já para outros, a maneira mais correta e benéfica para a natureza é deixá-los para serem comidos pelos animais. O estranhamento diante do ritual alheio vem desde a antiguidade, sendo registrado por aquele que é considerado o pai da História, o grego Heródoto.

“O historiador grego Heródoto, em seus escritos há mais de 2 mil anos, produziu uma das primeiras descrições de uma cultura que se incomodava com os rituais de morte de outra. Na história, o governante do Império Persa convoca um grupo de gregos. Como eles cremam os mortos, o rei se questiona: ‘O que seria preciso para fazer com que [eles] comessem os pais mortos?’. Os gregos hesitam ao ouvir a pergunta e explicam que riqueza nenhuma no mundo seria suficiente para transformá-los em canibais. Em seguida, o rei convoca um grupo da tribo Callatiae, conhecida por comer a carne dos mortos. Ele pergunta: ‘Por que preço estariam dispostos a queimar os pais no fogo?’. Os membros da tribo imploram para que ele não mencione ‘tais horrores!’.” P. 22-23.

Mesmo que tenha crescido vertiginosamente o número de cremações nas últimas décadas, a igreja cristã de um modo geral, tanto em suas vertentes católica e evangélica, tem uma certa aversão a queimar os corpos de seus fiéis. Lembro que no livro Ressurreição, do apologista evangélico Josh McDowell, ele argumenta fortemente contra a cremação, pois esta não se coaduna com a doutrina da ressurreição dos mortos, que em breve acontecerá com a vinda do messias Jesus Cristo, para julgar a todos nós. Desta forma, a sua crença religiosa serve como parâmetro para rechaçar e criticar as outras formas de lidar com os mortos, que não seja o enterro dos mortos. Para ele, nas palavras de nossa escritora, quaisquer outros rituais que não sejam o enterro seriam “rituais de morte selvagens”.

“Como a religião é a fonte de muitos rituais de morte, nós muitas vezes invocamos a crença para desonrar as práticas dos outros. Em 1965, James W. Fraser escreveu em Cremation: Is It Christian? [Cremação: é algo cristão?] (spoiler: não) que cremar era “um ato bárbaro’ e ‘um apoio ao crime’. Para um cristão decente, é ‘repulsivo pensar no corpo de um amigo sendo tratado como um rosbife no forno, com todas as gorduras e tecidos derretendo e escorrendo’. Eu passei a acreditar que os méritos de um costume relacionado à morte não são baseados em matemática (por exemplo, 36,7% um ‘ato bárbaro’), mas em emoções, numa crença na nobreza única da própria cultura da pessoa. Isso quer dizer que consideramos os rituais de morte selvagens apenas quando eles não são como os nossos.” P. 27-28.

Para a autora, os rituais ocidentais de morte não são superiores. Na verdade, são até inferiores aos rituais de outras partes do mundo. O nosso modo é muito voltado para o capital e nada mais.

“[...] é errado alegar que o Ocidente tem rituais de morte superiores aos do restante do mundo. Mais ainda, devido à corporatização e à comercialização dos cuidados funerários, nós ficamos para trás do resto do mundo no que diz respeito a proximidade, intimidade e rituais relacionados à morte.” P. 30.

Quando surgiu a cremação no Ocidente? Apesar da ojeriza da igreja cristã, foi na Itália, terra onde está fincado o Vaticano, que a cremação apareceu. E foi um clérigo cristão que liderou a prática em território americano no século XIX.

“A cremação industrial em fornalhas surgiu na Europa no final do século XIX. Em 1869, um grupo de especialistas médicos se reuniu em Florença, na Itália, para denunciar o enterro como algo não higiênico e defender uma mudança para a cremação. Quase simultaneamente, o movimento pró-cremação saltou o oceano até os Estados Unidos, liderado por reformadores como o absurdamente nomeado reverendo Octavius B. Frothingham, que acreditava que era melhor para um cadáver se transformar em ‘cinzas brancas’ do que em uma ‘massa de podridão’.” P. 40.

Em minha subjetividade, estou com o reverendo aí. Prefiro a cremação, que acaba com tudo em questão de poucas horas, a o enterro que torna o corpo numa “massa de podridão”.

Pensava eu que a cremação não fazia mal algum ao meio ambiente; apenas o enterro é que o contaminava, com a liberação de pesados elementos químicos dos cadáveres sobre a terra, podendo chegar (e muitas vezes chega mesmo, principalmente em cemitérios públicos) ao lençol freático. Entretanto, a cremação tem a sua cota de estragos a natureza.

“Nossas máquinas crematórias ainda parecem os modelos introduzidos nos anos 1870 — monstros de dez toneladas feitos de aço, tijolo e concreto. Consomem milhares de dólares em gás natural por mês, liberando monóxido de carbono, fuligem, dióxido de enxofre e mercúrio altamente tóxico (proveniente das obturações dentárias) na atmosfera.” P. 42.

“Nos países em que a pira de cremação é a norma, como a Índia e o Nepal, as inúmeras cremações anuais queimam mais de 50 milhões de árvores e liberam carbono negro na atmosfera. Depois do dióxido de carbono, o carbono negro é a segunda principal causa das mudanças climáticas provocadas pelo homem.” P. 44.

“[...] obturações de amálgama de mercúrio nos dentes, cuja liberação tóxica no ar é uma das maiores preocupações ambientais em relação à cremação.” P. 133.

E como não poderia ser diferente, o mundo da indústria funerária está interessado unicamente na bufunfa que advém de cada defunto tratado “amorosamente” por eles. Dougthy conta um episódio que ilustra muito bem isso.

“Depois do furacão Katrina, um grupo de monges beneditinos no sul da Louisiana começou a vender caixões de cipreste de baixo custo feitos à mão. O Comitê de Embalsamadores e Diretores Funerários do estado emitiu uma ordem de cessar e desistir, alegando que só funerárias licenciadas pelo comitê podiam vender “mercadoria funerária”. Um juiz federal acabou ficando do lado dos monges e disse que estava claro que a venda dos caixões não representava risco à saúde pública, e que a motivação do comitê era puro protecionismo econômico.” P. 53.

Cuidar dos mortos começa a render muito dinheiro:

“Quando os cuidados funerários se tornaram uma indústria no começo do século XX, houve um abalo sísmico em relação a quem era responsável pelos mortos. Cuidar do cadáver passou de um trabalho visceral e primitivo executado por mulheres a uma ‘profissão’, uma ‘arte’ e até uma ‘ciência’ executada por homens bem pagos. O cadáver, com toda a sujeira física e emocional, foi tirado das mulheres.” P. 134.

E para que o dinheiro continue entrando:

“Um executivo da Service Corporation International, a maior empresa funerária e de cemitérios do país, admitiu recentemente que ‘a indústria foi realmente construída em torno da venda de caixões’. Conforme cada vez menos pessoas veem valor em colocar o corpo preparado da mamãe em um caixão de 7 mil dólares e acabam procurando cremações simples, a indústria precisa encontrar uma nova forma de sobreviver financeiramente, vendendo não um ‘serviço funerário’, mas uma ‘reunião’ em uma ‘sala de experiências multissensoriais’.” P. 212.

Um ritual que ficou bastante conhecido na internet, graças aos vídeos no YouTube, são os mortos de Tana Toraja, na Indonésia. A própria autora esteve lá, para testemunhar como os vivos lidam com os seus parentes que se foram. Lá é comum o defunto ficar meses e até anos dentro de casa, sendo tratado como se estivesse vivo.

“Em Toraja, durante o período entre a morte e o funeral, o corpo fica em casa. Pode não parecer um choque, até eu contar que esse período pode durar de vários meses a vários anos. Durante esse tempo, a família cuida do corpo e o mumifica, leva comida, troca as roupas e fala com o cadáver.

Na primeira vez que Paul visitou Toraja, ele perguntou a Agus se era incomum uma família deixar um parente morto em casa. Agus riu da pergunta. ‘Quando eu era criança, meu avô ficou em casa por sete anos. Meu irmão e eu dormíamos com ele na mesma cama. De manhã, nós vestíamos roupas nele e o colocávamos de pé encostado na parede. À noite, ele voltava para a cama’.” P. 68.

Além da Indonésia, Doughty detalha os rituais fúnebres de vários outros lugares do planeta, tais como: Japão, México, Espanha, Bolívia, entre outros.

sexta-feira, 16 de abril de 2021

Terra Plana, Galileu na Prisão e Outros Mitos Sobre Ciência e Religião


NUMBERS, Ronald L. (Org). Terra Plana, Galileu na Prisão e Outros Mitos Sobre Ciência e Religião. 1ª Ed. - Rio de Janeiro: Thomas Nelson, 2020. (PDF).

Um assunto que sempre chama a atenção das pessoas é a relação, ou conflito entre a religião e a ciência. Em muitas conversas sobre, podem sair faíscas, brigas, desentendimentos e chateações, quando os interlocutores defendem pontos de vista antagônicos. Essa discussão e diálogo vem de longa data. Somos apenas mais uma geração discutindo e lendo sobre essa temática que causa paixões.

Temos em português mais uma obra lançada, buscando lançar nova luz nesse suposto conflito entre a razão cientifica e o sentimento religioso. Este livro traz 25 capítulos que elucidam muitos dos mitos que se alastraram por aí, que colocaram essas duas crianças travessas sempre em pé de guerra.

A distribuição de cientistas e historiadores é bem eclética, comportando teístas cristãos, agnósticos e ateus, todos juntos em uníssona voz, para refutar as lendas que ainda estão na boca do povo e na boca de muitos de seus pares acadêmicos.

A leitura de cada capítulo é bem agradável e fácil de ler. A participação de cada autor é curta, mostrando objetivamente o resultado de suas pesquisas, que deixará muitos inimigos da religião descontentes. Mas deixará também aqueles crentes criacionistas, desanimados com alguns capítulos, visto que a obra não é a favor do criacionismo e nem do seu irmão mais novo, o Design Inteligente.

O primeiro capítulo trata do mito de que “a ascensão do cristianismo foi responsável pelo fim da ciência antiga”. O autor do texto, David C. Lindberger, Ph.D em História e Filosofia da Ciência na Universidade de Indiana, EUA, discorda totalmente. Usando muitas citações de teólogos cristãos dos primeiros séculos, os acusadores querem montar um argumento de que esses cristãos eram completamente avessos ao estudo da filosofia clássica e da filosofia natural. Lindberger mostra o devido contexto de muitas dessas citações. Uma de suas conclusões é esta:

“Nenhuma instituição ou força cultural do período patrístico ofereceu mais encorajamento para a investigação da natureza que a igreja cristã. A cultura contemporânea pagã não era mais favorável à especulação desinteressada do cosmos que a cultura cristã. Vale dizer que a presença da igreja cristã aprimorou, ao invés de prejudicar, o desenvolvimento das ciências naturais.” P. 28.

No capítulo dois, o mito em questão é: Que a Igreja Cristã Medieval Impediu o Avanço da Ciência. Michael H. Shank, Ph.D em História da Ciência em Harvard, tem isto a nos dizer:

“O imaturo conceito da Idade Média como um milênio de estagnação trazida pelo cristianismo praticamente desapareceu entre estudiosos familiarizados com o período, mas se mantém vigoroso entre popularizadores de história da ciência, talvez porque, ao invés de consultar estudiosos sobre o assunto, os mais recentes popularizadores se baseiam acriticamente em seus antecessores.” P. 31.

A Terra era plana para os cristãos medievais? A igreja ensinou isto? A reposta dada no terceiro capítulo, por Lesley B. Cormack, Ph.D em História e Filosofia da Ciência na Universidade de Toronto, Canadá, é negativa.

“Poucas pessoas ao longo da Idade Média acreditavam que a Terra era plana. [...] Colombo não poderia ter provado que a Terra era redonda, pois já o sabia.” P. 40.

“Muitos autores populares de vernáculo na Idade Média também apoiavam a ideia de uma Terra redonda. O livro de Jean de Mandeville, Viagens à terra prometida e ao paraíso terreno além, escrito em cerca de 1370, foi um dos livros mais lidos na Europa dos séculos 14 a 16. Mandeville foi explícito ao declarar que a Terra era redonda e navegável. [...]Com exceção de Lactâncio e Cosme, todos os grandes estudiosos e muitos autores de vernáculo interessados pelo formato físico da Terra, desde a queda de Roma até o tempo de Colombo, articularam a teoria de que a Terra era redonda. [...] Porém, com exceção de Cosme, nenhum escritor medieval negou que a Terra era esférica, e a Igreja Católica nunca se posicionou a respeito.” P. 41-42.           

A igreja medieval proibia dissecação de corpos? Não, essa é a resposta de Katkarine Park, Ph.D em História da Ciência na Universidade de Harvard, capítulo cinco.

“A maioria das autoridades na igreja medieval não somente toleravam, mas encorajavam a abertura e desmembramento de corpos humanos para fins religiosos: o embalsamento de corpos santos por evisceração; sua divisão para render relíquias corporais; a inspeção dos órgãos internos de homens e mulheres santos buscando sinais de santidade; e a operação que mais tarde veio a ser chamada cesariana, cujo objetivo era batizar fetos extraídos dos corpos de mulheres que morreram no parto. Todas estas práticas apontam para a falsidade da alegação de que a igreja como instituição estava comprometida com a integridade do corpo humano após a morte, assim como a prática comum de dividir os corpos de príncipes e nobres antes do enterro. Ao mesmo tempo, a cultura medieval colocava limites distintos na aceitação do tratamento de cadáveres humanos, o que dramaticamente restringia o número de cadáveres disponíveis para dissecação. Porém, estes limites refletiam valores seculares de honra pessoal e familiar, e decoro ritual, e foram aplicados por governos locais, não por autoridades religiosas.” P. 55.

Somente o cristianismo foi o responsável pelo surgimento da ciência moderna? Negativo. Quem trabalha essa questão no capítulo nove, é Noah J. Efron, Ph.D em História e Filosofia da Ciência na Universidade de Tel Aviv, Israel. Depois de enumerar os vários elementos que tornam o cristianismo um dos grandes responsáveis pelo concebimento da ciência na modernidade, ele faz essa ressalva:

“Por todos estes motivos, não se pode recontar a história da ciência moderna sem reconhecer a importância crucial do cristianismo. Mas isto não significa que o cristianismo e apenas o cristianismo produziu a ciência moderna, assim como a observação de que a arte moderna não pode ser recontada sem reconhecer Picasso não significa que Picasso criou a arte moderna. A história é simplesmente mais que isso.” P. 90.

Os católicos não contribuíram para a revolução da ciência? No capitulo 11, Lawrence Principe, Ph.D em História da Ciência na Universidade John Hopkins, afirma que eles contribuíram e muito.

“A Igreja Católica talvez seja a maior e mais longa patrocinadora da ciência na história, que muitos dos que contribuíram para a Revolução Científica eram católicos, e que diversas instituições e perspectivas católicas foram influências-chave na ascensão da ciência moderna.” P. 108.

No mito 21, Matthew Stanley, Professor de História da Ciência na Universidade de Nova York, desmente o popular boato de que Albert Eisntein acreditava em um deus pessoal.  

"Em quase todos os casos o termo Deus parece ter funcionado para Einstein como um tipo de marcador linguístico, fornecendo uma forma evocativa e memorável de se referir à ordem e compreensibilidade do universo." P. 195. 

"Além de negar um Deus pessoal, ele rejeitou os fundamentos do teísmo ocidental como vida após a morte e livre-arbítrio humano." P. 197. 

Darwin Sem Frescuras

 


LOPES, Reinaldo José; PIRULA. Darwin Sem Frescura: Como a Ciência Evolutiva Ajuda a Explicar Algumas Polêmicas da Atualidade. Rio de Janeiro: HarperCollins, 2019. (PDF).

Uma decepção!

Um livro que tem por finalidade ser simples, direto, agradável, e apresentar o velho "Darwin sem frescuras", faz exatamente o contrário. Bote frescura nisso! Leitura chata, maçante e desempolgante.

Poucos capítulos escapam.

Pirula, Doutor em Zoologia na USP, que já acompanhei em diversos vídeos, sempre se pautou pela clareza na exposição de suas ideias. No entanto, na escrita deste livro, vi um Pirula totalmente oposto.

Reinaldo José Lopes, Doutor em Estudos Linguísticos e Literários em Inglês na USP, um autor que também se pauta pela clareza e leitura atraente, a qual já pude constatar em um de seus livros, também falha miseravelmente nas páginas desta obra.

O livro se propõe aos leigos, mas passa longe disso. Eles querem ser engraçados, mas suas piadinhas artificiais não colam em nenhum momento.

Uma pena! Ambos têm uma habilidade brilhante para comunicar suas ideias, no entanto, deixaram ela de lado neste livro.

Vamos recortar algumas coisinhas desta obra.

Os autores rechaçam a acusação costumeira dos criacionistas, de que a evolução é falsa por falta de fósseis transicionais.

“Fósseis de transição são as lacunas de evidências mais trombeteadas pelos criacionistas. Para eles, a ausência dos 'elos perdidos' tornaria a Evolução uma ideia totalmente falsa. Falsa, na verdade, é essa afirmação dos criacionistas, e é falsa de muitas maneiras — não só porque os fósseis de transição não são fundamentais para provar a veracidade da Evolução, mas também porque existem centenas desses fósseis. Explicando o primeiro erro da afirmação: a genética, a embriologia, a anatomia comparada, a dinâmica populacional e mesmo experimentos com bactérias já seriam suficientes para demonstrar a Evolução. Os fósseis constituiriam apenas um bônus nesse mar de evidências paralelas.” P. 50.

A explosão cambriana, tão propalada pelo criacionistas, não é tão “explosiva” assim, pois ela levou 40 milhões de anos, o que acaba solapando a rapidez com que os criacionistas acham que a vida ocorreu.

“E essa explosão está registrada num crescente de diversidade que vai de 540 milhões a 500 milhões de anos atrás. Ou seja, a tal explosão, que na visão dos criacionistas seria a ‘criação de vida do nada’, levou 40 milhões de anos para acontecer. Isso está mais para um bolo assando que para uma explosão.” P. 81.

Há um capítulo inteiro sobre a homossexualidade.

“A homossexualidade aparece em todas as culturas e sociedades humanas, presentes e pretéritas (até onde podemos averiguar), em uma curiosa proporção que sempre oscila entre 4% e 10% da população. Ou seja, há uma quantidade mais ou menos fixa de pessoas na humanidade que preferem se relacionar com outras do mesmo sexo.” P. 119.

Existem ainda muitos que acreditam que a homossexualidade é simplesmente uma escolha do individuo. No Brasil, o propagador mais conhecido, e, diga-se de passagem, o mais estúpido, é o Silas Malafaia. Eles usam também a homossexualidade como evidência de que a evolução não é verdadeira.

“Expliquemos o questionamento: o fato de alguns preferirem se relacionar com pessoas do mesmo sexo traz uma consequência óbvia, que é a menor probabilidade de deixar descendentes. Se você deixa menos descendentes, é esperado que sua linhagem genética desapareça com o tempo. Seguindo essa lógica, se houvesse algo genético que favorecesse a homossexualidade, esses genes já deveriam ter sido extintos da população há muito tempo por mera desvantagem evolutiva. E aí? Para resolver essa questão, só existem dois caminhos, correto? 1) A homossexualidade não é inata (e, portanto, seria uma ‘escolha’ dos indivíduos, não tendo nada de genético); 2) a Evolução não existe. ‘Peguei vocês, seus escritores evolucionistas marxistas seguidores da agenda gayzista do George Soros’, diria algum leitor mais raivoso e conspiracionista.” P. 119.

Uma informação de grande importância que aparece no livro, em vista do atual contexto identitário e idiota que estamos vivendo, espalhado pelo movimento negro e pessoinhas da esquerda:

“Ao pessoal que condena o uso do termo mulato por considerá-lo pejorativo, há vários estudos defendendo a ideia de que ele não deriva da palavra ‘mula’, como se costuma pensar, mas do termo árabe muwallad — nascido —, que designava o mestiço de árabe com não árabe na Espanha muçulmana e na África.” P. 120.

Os homossexuais têm um jeito específicio de ser, têm traços identificáveis - aquilo que pejorativamente chamamos de boiolagem, viadagem, baitolagem?

“Mas, em linhas gerais, há uma curva gaussiana (aquelas curvas de gráfico em formato de sino, em que a parte mais alta indica a maioria) indicando que homossexuais apresentam, sim, trejeitos identificáveis na maioria dos casos. Isso poderia ser uma característica cultural? (Afinal, o meio gay acabaria por ‘contaminar’ as pessoas com estereótipos que elas incorporariam por identificação.) Até poderia, mas tudo indica que essa explicação não faz muito sentido. Isso porque foram realizados estudos internacionais aplicando os mesmos testes em várias culturas e continentes diferentes (Américas do Norte e do Sul, Oceania, Europa e Ásia) e os traços de feminilidade ou masculinidade que distinguem os homossexuais foram observados com mínimas diferenças em todos os países estudados. É claro que mais estudos precisam ser feitos para comparar os resultados com os de outras sociedades, mais fechadas e menos expostas à cultura de origem europeia.

[...]

Esses traços — tanto de voz quanto de expressão corporal — que podem ajudar a identificar uma boa porcentagem de homossexuais são observados também (prenda a respiração e tente ler o parágrafo até o final antes de fechar o livro e jogá-lo fora)… em crianças . Sim, sabemos que é quase impossível falar sobre sexualidade de crianças, porque, por definição, crianças não possuem nenhuma libido ou interesse sexual. Toda e qualquer tentativa de sexualização de crianças de que temos notícia gera traumas e comportamentos anômalos decorrentes desses traumas. Porém, mesmo antes de os hormônios responsáveis pela libido aflorarem, esses traços ‘acessórios’, por assim dizer, de orientação sexual podem ser detectados. Igualmente em uma porcentagem bem alta (88% em alguns estudos), esses traços acabam por corresponder às preferências sexuais que os indivíduos terão depois da puberdade (e bissexuais ficam em um meio-termo, metade correspondendo, metade não). Essas crianças são chamadas de pré-homossexuais (existe, portanto, o termo pré-heterossexual também) na literatura acadêmica, pois não é possível classificá-las até chegarem a uma fase adulta, mas é possível identificar esses traços que indicam uma probabilidade alta (que nunca é de 100%, vale sempre lembrar) de que serão homossexuais. Um fato interessante é que, em meninas, essa detecção é menos acurada do que em meninos, ou seja, um menor número de meninas com comportamento pré-homossexual vai efetivamente ser lésbica na vida adulta. Mas, mesmo assim, o percentual também é alto.

Em resumo, há características objetivas de voz e linguagem corporal que podem ser observadas na maioria dos homossexuais, homens ou mulheres, que se repetem em diferentes culturas e modelos de sociedade e que são detectáveis pela maioria das pessoas, sejam homossexuais ou não.” P. 126-127.

Eles fornecem muitas explicações científicas que formam uma base sólida da homossexualidade não como uma escolha livre e espontânea das pessoas, mas de determinantes biológicos. Isso tem feito os religiosos evangélicos ficarem numa bica de sinuca, pois sempre afirmaram que a homossexualidade é escolha pecaminosa dos indivíduos, dizendo que se eles quiserem, podem parar e passar a gostar sexualmente de pessoas do sexo oposto.