quarta-feira, 6 de julho de 2016

Os Fatos Sobre Auto-Estima, Psicologia e o Movimento de Recuperação


ANKERBERG, John; WELDON, John. Os Fatos Sobre Auto-Estima, Psicologia e o Movimento de Recuperação. Porto Alegre: Obra Missionária Chamada da Meia Noite, 1999.

John Ankerberg (Mestrado em Divindade e Mestrado em História e Filosofia do Pensamento Cristão, no Trinity Evangelical Divinity School, Bacharel em Artes na Universidade de Illinois, Chicago) e John Weldon (Ph.D em Religiões Comparadas, na Pacific College of Graduate Studies, Austrália; Bacharel em Sociologia na Universidade Estadual da Califórnia) dirigem nesse pequeno livro críticas contundentes as várias escolas da Psicologia.  Eles como cristãos conservadores e fundamentalistas são muito céticos quanto às reivindicações das abordagens psicoterápicas modernas. Mas não fundamentam essa incredulidade baseados apenas em suas crenças religiosas, visto que fazem uso de um amplo número de estudiosos para corroborar suas críticas.

O que fica bem estabelecido no livro, a meu ver, é que independente dos autores serem fundamentalistas ou não, eles alicerçaram bem o seu ceticismo. A abundância de especialistas citados deixa o livro bem persuasivo ao que se propõe.

“Este livro oferece uma argumentação diretamente contrária à psicologia moderna. E isto não se dá por sermos contra o aconselhamento em si; muitos em nossa sociedade contemporânea precisam de aconselhamento de alto nível. Nem somos contra a psicologia em si. O estudo da psique humana, ou da mente e personalidade é uma iniciativa de valor.” P. 8.

Mesmo afirmando que não são contra a Psicologia em si, para eles, grande parte das escolas de Psicologia modernas são puro embustes. O Psiquiatra Thomas Szasz(Professor Emérito de Psiquiatria da Universidade do Estado de Nova Iorque, membro da Associação Americana de Psiquiatria e da Associação Americana de Psicanálise) diz:

“[nem] todas as assim chamadas psicoterapias são coercivas, fraudulentas, ou de outra sorte más... [ainda assim] o que desejo salientar é que muitas, talvez até a maioria, das assim chamadas práticas psicoterápicas sejam daninhas para os chamados pacientes... e que todas essas intervenções e propostas deveriam, por isso ser tidas como maléficas até que se prove o contrário.” P. 11.

Para o estranhamento de muitos, a Psicologia parece não ser tão eficaz quanto se pensa, a despeito de tantas pessoas estarem fazendo terapias. William Kirk Kilpatrick (Ph.D em Psicologia na Universidade de Purdue, Mestrado em educação na Universidade de Harvard e Professor Associado de Psicologia Educacional da Faculdade de Boston) escreve:

“O fato de psicólogos estarem tentando ajudar as pessoas frequentemente nos inibe de perguntar se eles sabem fazê-lo... boa parcela de pesquisa sugere que a psicologia é ineficaz. E existe até evidência apontando para a conclusão de que a psicologia é, de fato, maléfica.” P. 11.

Dorothy Tennov (Ph.D em Psicologia na Universidade de Connecticut) diz sem pudor, que a psicoterapia é:

“[...] emocionalmente exaustiva, cara, demorada, potencialmente viciadora, e de alta periculosidade... a profissão não oferece ao consumidor qualquer segurança de proteção.” P. 12.

Martin L. Gross (Professor Associado Adjunto de Ciências Sociais da Universidade de Nova Iorque) dispara:

“[...] um argumento sério, e por vezes amargo, irrompe dentro da própria profissão. Especificamente, a questão é se a psicoterapia é uma ciência ou uma superstição enobrecida como disciplina.” P. 12.

A medida em que se vai lendo cada parágrafo, o ceticismo quanto a eficácia da Psicologia/Psicoterapia só aumentam. Para completar, nos é dito:

“Uma análise de aproximadamente 500 laudos psicoterápicos concluiu que ‘não estamos cientes de sequer uma demonstração convincente de que os benefícios da psicoterapia excedem aqueles de placebos para pacientes reais.” P. 12-13.

Para quem pensa em ver ainda a psicologia/psicoterapia como uma ciência coerente, o livro traz essa importante conclusão de um amplo estudo:

“Será que a psicologia e a psicoterapia são ciências coerentes? Para responder a essa importante questão, a Associação Psicológica Americana designou Sigmund Koch para dirigir um estudo a ser patrocinado pela Fundação Nacional da Ciência.

Aquele estudo foi efetuado por oitenta peritos eminentes que avaliaram os fatos, as teorias e os métodos de psicologia. Os resultados dessa extensa iniciativa foram publicados numa série de sete volumes intitulada [...] Psicologia: Um Estudo de uma Ciência. Após examinar os resultados, Koch conclui: ‘Eu penso que a esta altura está total e finalmente claro que a psicologia não pode ser uma ciência coerente’.” P. 19.

Ele continua:

“[...] a psicologia dificilmente lida com verdades ou fatos estabelecidos, mas com opiniões e interpretações subjetivas de observações não controladas. [...] Através da história da psicologia como ‘ciência’, o conhecimento propriamente dito que ela tem trazido tem sido uniformemente negativo.” P. 19.

O que dizer diante da conclusão desse exaustivo estudo publicado pela própria Associação Psicológica Americana? Fica difícil argumentar numa via contrária.

E parece que existe uma paranoia entre muitos Psicólogos em dizer que todo mundo precisa de terapia. Não importa o quanto à pessoa esteja saudável, sempre irão dizer que ela precisa de algumas sessões. Inventam crises existenciais, onde não tem. Quanto a isso, mais uma vez Szasz com a palavra:

“Em mais de 20 anos como psiquiatra, jamais conheci psicólogo clínico contar, com base em testes de projeção, que o paciente era ‘uma pessoa normal, mentalmente sadia’... Não há comportamento ou pessoa que um psiquiatra moderno [ele não quis dizer psicólogo?] não possa plausivelmente diagnosticar como anormal ou doentio.” P. 27.

Bernie Zilbergeld, (Ph.D em Psicologia na Universidade da Califórnia) revela:

“De 500 pessoas que compareceram para uma avaliação numa grande clínica nova-iorquina, recomendou-se que todas, exceto quatro, fossem submetidas a terapia. Imagine só a algazarra se fosse recomendada uma cirurgia para 99% dos pacientes que procurassem uma clínica médica.” P. 27.

Os autores complementam:

“Aliás, uma série de testes têm sido feita com indivíduos que estão absolutamente contentes com a vida que levam e que têm poucos problemas – se é que os têm. Quando tais pessoas foram enviadas aos diversos terapeutas e clínicas, a avaliação psicológica invariavelmente concluiu que elas precisavam de terapia” P. 27-28.

Os Psicólogos mais entusiastas talvez digam que eles possuem as ferramentas metodológicas e conceituais corretas para detectar a suposta mazela psicológica das pessoas. Todas precisam de terapia, apenas ainda não perceberam do quanto precisam da ajuda deles.

Donald Klein (Professor Pesquisador do Departamento de Psiquiatria da Universidade de Nova Iorque) admite sua descrença quanto a eficácia da terapia:

“Eu creio que, no momento, a evidência científica quanto à eficácia da psicoterapia não pode justificar o uso de verbas públicas.” P. 31.

Jay Constatine (Chefe do Departamento de Profissionais da saúde) é mais um estudioso do tema citado, que diz:

“Não há, virtualmente, nenhum caso de estudos clínicos controlados, levados a efeito e avaliados de acordo com os princípios científicos normalmente aceitos, que confirme a eficácia, a segurança e a utilidade da psicoterapia, como vem sendo feita hoje em dia.” P. 31.

E não para por aí, Orval Hobart (Ex-Presidente da Associação Americana de Psicologia) é mais um incrédulo, que escreve:

“Mas, com o passar dos anos, eu venho me desencantando progressivamente com os resultados da psicoterapia e de sua teoria subjacente. [...] Estou convicto de que, no geral, a psicoterapia não faz maior bem a seus pacientes.” P. 32.

Michael Sheperd (Ph.D em Psiquiatria pela Universidade de Oxford e Pesquisador do Instituto de Psiquiatria de Londres) assinala:

“Uma imensa gama de estudos já concluídos que, em meio à sua imperfeição, deixaram claro que (1) qualquer vantagem resultante da psicoterapia é pequena, na melhor das hipóteses; (2) a diferença entre efeitos dos diferentes tipos de terapias é desprezível; e (3) intervenção psicoterápica tem possibilidade de causar danos.” P. 32.

O Psiquiatria Garth Wood (Universidade de Cambridge) é outro crítico que diz:

“[...] [foi] conclusivamente demonstrado, para a satisfação de todos – exceto dos extremistas da psicologia – que, em termos de resultados (mas de dinheiro), todas as formas de psicoterapia se equivalem. Cada psicoterapia funciona tão precariamente quanto as demais.” P. 32.

Diante de tudo que já foi dito, é muito mais sensato termos amigos verdadeiros que possam nos ouvir, e se possível nos ajudar. Nos poupará dinheiro e provavelmente terá um melhor efeito sobre nossa mente. É exatamente isso, que 42 estudos divulgados pela Universidade do Sul de Illinois conclui:

“Paraprofissionais atingiram resultados clínicos iguais ou significativamente melhores que aqueles obtidos por profissionais... Além do mais, instrução profissional formal, treinamento e experiência no campo da saúde mental não parecem ser pré-requisitos necessários para uma pessoa ser eficaz na ajuda aos outros.” P. 33.

Em confirmação, Gary Collins (Ph.D em Psicologia na Universidade de Purdue, EUA) aponta que:

“Há pouca evidência de que profissionais ‘obtém melhores resultados – com qualquer tipo de cliente ou problema – que aqueles com pouco ou nenhum estudo formal. Em outras palavras, a maioria das pessoas provavelmente poderá obter o mesmo tanto de ajuda de amigos, parentes, e outros’, inclusive de pastores.” P. 33-34.

Ou seja, melhor conversamos com amigos, familiares, padres e pastores confiáveis.

Agora vamos aos pontos fracos dos autores. Eles como Teólogos evangélicos fundamentalistas acabam cometendo algumas incoerências. Eles dizem:

“Se a psicologia fosse uma ciência verdadeiramente coerente, seria de se esperar que haveríamos de encontrar nela um montante considerável de concordância entre suas ramificações, como acontece na biologia ou na química. Em lugar disso, encontramos centenas de psicoterapias e milhares de técnicas terapêuticas, todas diferentes ou conflitantes, e ainda assim todas reivindicando realizarem a mesma façanha: curar as pessoas de seus problemas.” P. 18.

Estranho que isso venha de dois Teólogos, visto que a discordância na área deles, é talvez mais vasta que na área da Psicologia! Quantas interpretações sobre a Bíblia, sobre Deus, sobre Jesus, existem no meio protestante? Milhares! Ankerbeg e Weldon já escreveram vários livros contestando as posições doutrinárias de vários de seus pares. Eles irão rejeitar/abandonar a Teologia por causa da algazarra existente na área de estudo deles? Nunquinha! Modificando um pouco o que eles disseram, o enunciado ficaria assim:

“Se a Teologia Evangélica e a Bíblia fossem uma ciência (área de conhecimento) verdadeiramente coerente, seria de se esperar que haveríamos de encontrar nela um montante considerável de concordância entre suas ramificações, como acontece na biologia ou na química. Em lugar disso, encontramos centenas de teologias/igrejas/seitas/doutrinas e milhares de técnicas espirituais, todas diferentes ou conflitantes, e ainda assim todas reivindicando realizarem a mesma façanha: curar as pessoas de seus problemas e levá-las para mais perto de deus e para o paraíso.” 

Nas páginas finais, eles deixam claro que a anorexia e o alcoolismo não são doenças, mas sim, erros morais. Por que fazem isso? Como eles podem ignorar as pesquisas científicas que mostram que algumas pessoas já nascem propensas a ter essas doenças? Não será pelo motivo de serem evangélicos ultra-conservadores, que os impedem de ver aspectos da realidade que contradizem sua visão religiosa tão estrita? O que uma menina com anorexia iria sentir lendo que ela está na situação que está, porque está em "pecado"? 

sexta-feira, 1 de julho de 2016

O Escândalo do Comportamento Evangélico


SIDER, Ronald J. O Escândalo do Comportamento Evangélico. Viçosa, MG: Ultimato, 2006. 

Os evangélicos são conhecidos em apontar o “erro” da sociedade que não se identifica com os padrões de comportamento ensinado por eles. Sempre com o dedo em riste condenam o quanto a população precisa de Deus, alias, do seu deus. As pessoas estão em pecado, em rebeldia, em desobediência, em rebelião contra a divindade – e caso não venham o mais rápido para suas igrejas e comecem a comungar de seus valores, irão sofrer a ira divina. Colocam-se como os guardiões da Moralidade e da Ética. São os exemplos dos bons costumes e de como a sociedade deve se comportar. Mas a realidade é ironicamente bem diferente.

Não precisaríamos nem de um livro, nem de pesquisas ou artigos acadêmicos, para constatar algo tão abertamente patente aos nossos olhos. Não obstante, felizmente, muitos olhares de dentro do mundo protestante têm denunciado a hipocrisia reinante nesse ambiente. Ronald J. Sider (Ph.D em História na Universidade de Yale), que já lecionou nas Universidades de Yale, Harvard, Princeton e Oxford, traz nesse livro dados assustadores e realistas sobre a situação daqueles que se dizem “nascidos de novo”. É tão crítico o estado dos evangélicos, que George Barna (Sociólogo e Pesquisador evangélico) admite:

“O cristianismo norte-americano fracassou grandemente desde meados do século 20.” P. 15.

Apenas digo que o Barna ameniza a questão. O cristianismo nos EUA sempre fracassou, visto que nos séculos anteriores, a escravidão fez parte da dinâmica social e econômica desse país. Como um povo que diz seguir a lei do amor ao próximo, como ensinou Jesus, poderia aprovar um sistema tão desumano quanto este? E pior: quando a escravidão acabou, o racismo apenas aumentou. E com a diferença grotesca de que a discriminação foi e ainda é maior nos estados com a maior concentração de “nascidos de novo”. 

Os evangélicos são conhecidos por terem um discurso de valorização do casamento, rejeitando, portanto, o divórcio. Mas inúmeras pesquisas mostram que na prática o discurso não passa meramente de um palavreado vazio.

“Em agosto de 2001, uma nova pesquisa demonstrou que a taxa de divórcio era a mesma para os cristãos nascidos de novo e a população em geral.” P. 18.

Brad Wilcox (Ph.D em Sociologia na Universidade de Princeton), estudioso de temas ligados a família diz:

“Comparados ao resto da população, os protestantes conservadores têm mais propensão a se divorciar.” P. 19.

Com relação às contribuições na área social, Sider destaca que os cristãos protestantes têm contribuído muito pouco para erradicação da miséria.

“Observemos a agenda pública de movimentos políticos e coalizões evangélicas de destaque. Quase nunca a justiça em favor do pobre aparece como uma área de preocupação ou esforço significativo.” P. 21.

“Como evangélicos afirmamos ter a Bíblia como nossa autoridade final. Um dos temas mais recorrentes nas Escrituras é que Deus e seu povo têm uma preocupação especial para com o pobre. Então por que essa contradição gritante entre crença e prática?” P. 22.

Voltando a questão familiar, outro ponto muito enfatizado e “valorizado” pelos protestantes, é o casamento ser oficial; no papel; reconhecido no mínimo pelo Estado. Se não casou na igreja, que pelo menos só passe a viver como um casal depois de terem oficializado a união perante as autoridades competentes. Pois bem, nessa altura, já não sendo mais novidade, a realidade é bem outra.

“Uma reportagem no The New York Times relatou que, de acordo com dados do censo, em 1990 o número de casais não casados vivendo juntos aumentou muito mais no Cinturão da Bíblia (onde grande parte da população é evangélica) que nos Estados Unidos como um todo. No país o aumento foi de 72%. Mas em Oklahoma, ele foi de 97%; no Arkansas, de 125%; e no Tennesse, de 123%.” P. 23. 

Entre os jovens a taxa de sexo antes do casamento é bem alta. Não existe diferença significativa entre a juventude evangélica e a mundana. Meninos e meninas da igreja estão fazendo muito sexo.

“A juventude evangélica tem uma probabilidade apenas de 10% menor de fazer sexo antes do casamento que os não-evangélicos.” P. 23.

No tocante ao racismo, para os que pensam que a comunidade dos “seguidores” de Jesus não despreza as pessoas pretinhas, estão bem enganados. O racismo entranhado nos Estados Unidos não faz distinção entre os que estão na igreja protestante e os que não a frequentam. O crime da discriminação pela simples quantidade de melanina persiste com muita intensidade, com o agravante, de que os evangélicos são os mais racistas!

“Em 1989 George Gallup Jr. e James Castelli publicaram os resultados de uma pesquisa para determinar quais grupos nos Estados Unidos eram mais propensos a rejeitar vizinhos negros – um bom indicador de racismo. Católicos e cristãos não evangélicos foram classificados entre os menos propensos; 11% fizeram objeção ao contato entre negros e brancos. Os protestantes históricos chegaram próximo dos 16%. Com 17% batistas e evangélicos ficaram entre aqueles mais propensos a repudiar a possibilidade de ter vizinhos negros, e 20% dos batistas do sul rejeitaram a ideia de ter vizinhos negros.” P. 25.

E não para por aí, há algumas décadas, até os líderes da igreja...

“Durante o movimento de direitos civis, quando os protestantes históricos e os judeus se uniram aos afro-americanos em sua luta histórica por liberdade e igualdade, líderes evangélicos foram quase totalmente omissos. Alguns se opuseram ao movimento; outros não se pronunciaram. Quando Frank Gaebelein, então co-editor de Christianity Today, não apenas cobriu a marcha de Martin Luther King sobre Selma, como também endossou o movimento e a ele se juntou, experimentou oposição e hostilidade da parte de outros líderes evangélicos.” P. 25.

Sider mesmo sendo um evangélico não se esquiva da hipocrisia que reina absoluta no seio da igreja protestante. E ainda sobre o racismo, ele continua:

“Michael O. Emerson e Christian Smith escreveram um livro crucial [...] explorando as atitudes racistas presentes no mundo evangélico. Concluíram que ‘o evangelicalismo branco provavelmente faz mais para perpetuar a sociedade racista do que para reduzi-lá’. Os protestantes conservadores brancos têm mais que o dobro de propensão que os outros brancos de apontar falta de motivação entre os negros (e não a discriminação) como fator responsável pela desigualdade entre brancos e negros. Os protestantes conservadores são seis vezes mais propensos a citar a falta de motivação que o acesso desigual à educação.” P. 27.

Diante dessa trágica e demoníaca realidade, Sider tristemente pergunta:

“[...] como é possível que os evangélicos sejam as pessoas mais racistas e preconceituosas de nossa sociedade?” P. 47.

Eu também pergunto como é possível, que o povo que se julga o mais santo da face da terra, pode ter uma práxis tão destoante daquilo que diz seguir. Os evangélicos que são conhecidos em criticar os católicos são mais racistas que estes! Como conciliar a discrepância gritante em afirmar possuir ter o Espírito do Criador, com suas ações e práticas tão vergonhosas? O que fica claro é à distância quilométrica entre o que dizem e o que fazem de fato. Lógico que não são todos, e o Sider sabe muito bem disso. Mas os números são altos demais; é uma porcentagem elevada demais, o que descaracteriza o universo evangélico como o “sal da terra e luz do mundo”, como eles gostam de se ver.

Apesar de nos apresentar esses dados que diminuem drasticamente à credibilidade do universo evangélico, Sider não está totalmente desesperado, ele crê que existe esperança para a comunidade evangélica. Eu não tenho.

O Escândalo do Comportamento Evangélico é muito mais do que foi resumido aqui. Mas por ora, basta. 

Livro recomendado.

quarta-feira, 29 de junho de 2016

Escravismo no Brasil


LUNA, Francisco Vidal; KLEIN, Herbert S. Escravismo no Brasil. São Paulo: Edusp, 2011.

Francisco Vidal Luna (Bacharel e Ph.D em Economia na USP e Professor da mesma) e Herbert S. Klein (Bacharel, Mestre e Ph.D em História na Universidade de Chicago, EUA) pesquisaram por mais de trinta anos os arquivos referentes ao sistema escravista no Brasil, e esse livro é o resultado parcial de seus exaustivos estudos. Aliando os pressupostos teóricos da Economia e da História, apresentam uma cuidadosa análise dos africanos escravizados no Brasil Colônia e Brasil Império. Tanto pesquisas em fontes primárias, como em trabalhos acadêmicos publicados, foram meticulosamente feitas, trazendo uma riqueza de dados inestimáveis, para quem se interessa pela dinâmica da vida social, econômica e social do Brasil em seus quatro primeiros séculos. Muitos gráficos, tabelas, números e notas de rodapé estão espalhados ao longo das quase 400 páginas; chega a ser chato e cansativo olhar um por um, porém, muitas obras acadêmicas são assim mesmo, quer os seus leitores gostem ou não.

Vamos ver apenas algumas informações que Luna e Klein nos trazem:

No senso comum, quando falamos em escravidão dos africanos, logo pensamos que a escravização só foi perpetrada pelos europeus. Mas a realidade foi um pouco mais complexa e triste do que essa. Africanos também escravizavam africanos. Fato que ainda poucos conhecem, excetuando-se a comunidade de Historiadores e curiosos. A África se compunha de vários povos, tribos, línguas, dialetos, costumes, que distinguiam as suas populações, como normalmente acontece em qualquer lugar. Naturalmente surgiam conflitos que acabavam em guerras tribais, aonde os vencidos podiam ser escravizados. Essa escravização era numa escala infinitamente menor que a escravidão feita pelos europeus na Idade Moderna. Mas que ela existia entre os africanos, existia. O livro em foco não menciona a média de pessoas que eram levadas cativas depois de uma guerra, mas outros Historiadores mencionam que o número de escravos não passavam de dez.

“Também no continente africano a escravidão existiu desde os registros históricos mais antigos, mas foi uma instituição relativamente sem importância antes de iniciar-se o tráfico atlântico de escravos.” P. 15.

Durante a escravidão nas Américas (portuguesa, espanhola e inglesa), mais africanos foram trazidos para esse lado do atlântico do que europeus. Os traficantes de escravos eram muito habilidosos e eficientes em caçar africanos, tornando menos custoso para os colonizadores os trazerem para cá. Com a ressalva de que na América espanhola, os escravos ficaram relegados mais aos serviços domésticos e a servidão urbana, como acontecia na Europa.

“[...] a América tornou-se o grande mercado para 10,5 milhões de cativos que se estima terem ali desembarcado no decorrer dos cinco séculos seguintes, e foi no Novo Mundo que a escravidão africana mais se expandiu sob o domínio europeu. Até a década de 1830, mais africanos do que europeus haviam atravessado o Atlântico, e estima-se que em 1750 mais de três quartos dos que emigraram para a América eram escravos africanos.” P. 25.

O modelo português de plantation (grande lavoura) serviu de exemplo e fora copiado pelas outras colônias nas Américas. O açúcar antilhano desenvolveu-se e até ultrapassou o mercado luso-brasileiro, graças à tecnologia e modo de trabalho escravo africano aprendido na colônia portuguesa. A escravização indígena e o trabalho assalariado de pessoas vindo da Europa não vingaram no Caribe. 

“A experiência do desenvolvimento colonial na América portuguesa tornou-se o modelo para todas essas colônias posteriores, havendo inclusive uma transferência direta, para as Antilhas, de cativos brasileiros e da tecnologia brasileira no fabrico do açúcar em meados do século XVII.” P. 35.      

Quando os portugueses resolveram de fato colonizar o Brasil, na década de 1530, os engenhos de açúcar precisavam de mão de obra para funcionar a todo vapor, inicialmente os senhores buscaram os indígenas para trabalharem cativos no plantio da cana, mas sabemos que a escravização dos moradores da terra, não durou por muito tempo nos engenhos do nordeste. A pressão dos jesuítas, por exemplo, é um dos fatores que ajudam a explicar isso. O Estado português pressionado pela igreja, depois de um tempo proibiu a escravização dos silvícolas, embora em algumas regiões, durante séculos os nativos tenham sido escravizados. De qualquer forma, o trabalho nas grandes lavouras, foi efetivado pelos africanos. O livro nos ajudar a entender o porquê dos índios terem sido descartados no empreendimento de plantation português, além da pressão religiosa católica:

“Como muitos nativos da África ocidental provinham de culturas com técnicas avançadas de agricultura e metalurgia do ferro, eram muito mais qualificados para tais atividades do que os índios. Além disso, no que respeitava às doenças, eles provinham do mesmo meio que os europeus, e a maioria das moléstias que eram epidêmicas para os índios eram endêmicas para os africanos. Portanto, nos quesitos de qualificação, saúde experiência em trabalho agrícola mais rotinizado, os africanos eram considerados muitos superiores aos cativos indígenas.” P. 39.

Mesmo com a ascensão da cafeicultura, no Vale do Paraíba e na província de São Paulo, ultrapassando em produção e exportação o plantio da cana de açúcar no nordeste, ela não foi o setor que concentrou o maior número de escravos. As análises apontam que a escravaria no Brasil estava mais diluída do que se pensava antes. Nem no açúcar e no café estava o maior contingente de negros.

“Apesar da crescente concentração da escravaria da cafeicultura, a maioria dos cativos do Brasil não trabalhava em fazendas de açúcar ou café mesmo no Centro-Sul. Mesmo com sua posição dominante no valor total das exportações, o café absorvia apenas uma pequena fração dos escravos rurais da região.” P. 113.

“Pelo menos de 1700 em diante, em nenhum momento da história da escravidão brasileira os cativos dos engenhos, minas e cafezais compuseram a maioria dos escravos residentes no Brasil.” P. 130-131.

Nas áreas da pecuária, algodão, produção de grãos e raízes para alimentação, trabalhos especializados, semiespecializados, artesanato, mineração, criação de gado, vendas de vários produtos e frutas (escravos de ganho), e serviços domésticos entre outras atividades, concentravam mais escravos que o açúcar e o café. Eram poucas as pessoas que tinham um alto número de escravos, a maioria dos que possuíam cativos, tinham uma média de sete escravos.

Infelizmente no sistema escravagista, muitos dos que antes tinham sofrido as agruras, humilhações e torturas da servidão forçada, quando conseguiram a sua alforria, fizeram o mesmo que os brancos racistas: escravizaram também. Bastou conseguir a liberdade, para ter os seus próprios escravos, para lhes gerar riquezas. O livro não nos diz, se o tratamento dos negros proprietários eram mais humano e mais leve para os seus cativos “irmãos”, pelo evidente fato deles terem sido também escravos um dia.

“Em 1738, por exemplo, na lista de proprietários de escravos da localidade do Serro Frio, em Minas Gerais, 225 eram ex-escravos e controlavam 10% dos cativos. Ademais, entre esses forros proprietários, dois terços eram mulheres. Isso representa um aspecto importante da escravidão no Brasil: em situações muito particulares, como na mineração, ex-escravos atingiam a condição de proprietários de escravos.” P. 355.  

“O fato de que algumas pessoas de cor foram bem-sucedidas na economia de mercado pode ser visto em seu papel como proprietários de escravos. Em números estudos conclui-se de que tais pessoas possuíram escravos.” P. 306.

Muitos alforriados tornaram-se especialistas em caçar os negros que fugiam das fazendas. Cerca de 15% dos capitães-do-mato eram negros. Quanto mais foragidos eles capturavam, maior o seu pagamento.

Em termos oficiais a Igreja Católica, apesar de não fazer esforço algum para acabar com a escravidão africana, afirmava que os negros possuíam alma. Mas geralmente ouvimos dizer o contrário. De qualquer forma, Bulas Papais legitimavam sem cerimônia a escravização dos habitantes da África. Talvez, uma das mais conhecidas tenha sido a Bula Romanous Pontifex, que não é mencionada no livro.

“A Igreja Católica, embora fosse uma ativa proprietária de escravos, aceitava que os africanos possuíam uma alma imortal e lhes concediam todos os direitos aos sacramentos.” P. 206.

E por incrível que pareça os escravos tinham alguns direitos garantidos pelo Estado, com o intuito de “proteger” as suas vidas. Eles não podiam ser mortos arbitrariamente pelos seus donos. Uma lei do século XVI (Ordenações Manuelinas) e os códigos imperiais do XIX declaravam que o assassinato de um escravo era passível de pena de morte. Mas não nos enganemos, a documentação existente parece nos indicar apenas dois donos de escravos que foram mortos, por assassinar arbitrariamente seus escravos. Esses “direitos de proteção” ao cativo não tornou a escravidão mais palatável; mais mansa; ou mais humana para o cativo. 

“Embora pouquíssimos senhores tenham sido executados por tal crime no Brasil, houve alguns casos de proprietários de escravos que foram punidos com exílio ou vultosa multa, e quase todas as mortes não naturais de cativos, inclusive suicídios, acarretando investigações judiciais formais. [...] mas era consenso que açoitar, marcar a ferro e cometer outras violências físicas constituíam tratamento aceitável para cativos” P. 205.

Como diz a conhecida frase de que “violência gera violência”, os escravos em muitas ocasiões, se vingavam de seus proprietários e capatazes, matando-os:

“Em Campinas, província de São Paulo, no período 1831-1887, houve 79 assassinatos de senhores por escravos.” P. 216.

“São muitos os casos de escravos que justificam ter matado feitores ou senhores porque estes os espancavam constantemente e reduziam ao extremo seus direitos básicos à alimentação e ao descanso.” P. 219.

Para aqueles que conseguiam sua tão sonhada liberdade e pessoas livres de cor, a vida não seria fácil, apesar de termos mencionando que alguns forros possuíam escravos, isso não quer dizer que até mesmo esses seriam bem aceitos na sociedade branca racista. O negro continuava a ser de uma classe humana inferior e, sendo assim, careceria dos mesmos direitos que o cidadão branco.

“Desde o princípio, leis locais e metropolitanas investiram contra os direitos das pessoas livres de cor [...] Era-lhes negado o direito de exercer cargos públicos até mesmo na administração municipal [...] Leis suntuárias proibiam às mulheres de cor usar roupas e joias como as ostentadas pelas mulheres brancas. Por muitos anos, a punição a criminosos diferiu para os brancos e forros.” P. 272-273.

“Uma vez alforriados, os ex-escravos ingressavam no mais baixo estrato da sociedade.” P. 289.

Nas décadas finais do sistema escravista, houve uma grande queda no número de escravos. Cada vez mais aumentava às alforrias, as fugas, a pressão dos clubes abolicionistas, da sociedade e de outros países, principalmente a Inglaterra, para que o Brasil o extinguisse. Todas as regiões ou províncias, de acordo com a documentação existente, apresentam a diminuição de cativos. Eis alguns números de uma tabela na página 320:

PROVÍNCIA
1872
1887
% DE DECLÍNIO




PARÁ
27.458
10.535
-62%
R. G. DO NORTE
13.020
3.167
-72%
PERNAMBUCO
89.028
41.122
-54%
BAHIA
167.824
76.838
-54%
R. DE JANEIRO
292.637
162.421
-44%
SÃO PAULO
156.612
107.085
-32%


A distribuição de escravos por região estava da seguinte forma em 1872:

Centro oeste – 1%

Sul – 6%

Norte – 7%

Nordeste – 27%

Sudeste – 59%

A distribuição da população cativa por região em 1887:

Centro oeste – 1%

Sul – 2%

Norte – 6%

Nordeste – 24%

Sudeste – 67%

Com a abolição em 1888, a entrada de imigrantes europeus cresceu vertiginosamente.

“Na década após a abolição, chegaram da Europa cerca de 1,3 milhão de imigrantes, dos quais 60% eram italianos.” P. 337.

Como já foi dito, a vida dos alforriados no período em que a escravidão vigorava, não era nada fácil. E com o fim dela, a vida dos escravos foi marcada pela discriminação, preconceito e racismo. Os brancos não aceitavam que os ex-escravos tivessem os mesmos direitos. A segregação imperava, mesmo que na teoria eles tivessem seus direitos assegurados.

“A cor negra vista como uma identidade negativa e o ‘embraquecimento’ considerado Pré-requisito para a mobilidade bem-sucedida foram parte da visão cognitiva de todas as sociedades americanas até boa parte do século XX.” P. 339.

Os negros, compondo as pessoas que já eram livres antes da abolição, ex-escravos, seus descendentes e os mulatos adentram o século XX, sob a pecha da rejeição e abandono por parte da sociedade e do Estado. No entanto, não era pra menos, não é porque eles agora não estavam debaixo do chicote dos feitores, exército, polícia, guarda nacional, capitães-do-mato, capatazes e senhores de engenho, que agora seriam visto como plenos cidadãos que podiam gozar de todos os privilégios que a constituição garantia aos brancos. Se muitos destes eram deixados a revelia pelo governo, imagine os pretinhos.