segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

O Deus da Idade Média: Conversas com Jean-Luc Pouthier


LE GOFF, Jacques. O Deus da Idade Média: Conversas com Jean-Luc Pouthier. 2º Edição. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010.

Le Goff, consagrado Historiador da terceira geração do Annales, é uma das vozes mais requisitadas quando o assunto é o período medieval, que tradicionalmente é recortado entre a queda do império romano do ocidente (476) e a conquista de Constantinopla pelos turcos otomanos (1453). O colapso do império de Roma que lentamente foi se efetivando com as migrações e invasões bárbaras, finalmente cedeu a uma nova forma de governo, ou melhor dizendo, governos (os feudos). As instâncias políticas, sociais, jurídicas, econômicas e religiosas sofreram progressivas mudanças, ocasionadas pela fusão entre o modo de ser romano e a cultura germânica, não esquecendo, é claro, das concepções religiosas/teológicas legadas pelo cristianismo. O comércio do mediterrâneo não desapareceu, mas declinou consideravelmente com as migrações urbanas para o meio rural (90% de toda a população), como resultado da desintegração do Estado romano, que já não podia controlar as invasões.   

Com o imperador Constantino, a religião do homem da Galileia passa a ser praticada sem os entraves do estado (313). Décadas depois com Teodósio, ela passa a ser a religião oficial do império romano (380). O mundo ocidental europeu começa a se formar. A igreja católica foi sem dúvida a maior instituição da Idade Média, controlando a vida de reis, cavaleiros e servos.

Adentrando o livro propriamente dito, ele é em forma de entrevista, onde o Historiador e Jornalista Jean-Luc Pouthier é o entrevistador. Em tom respeitoso e não crítico, Le Goff passa a falar dos aspectos religiosos que existiram no medievo, enfatizando as mudanças e evoluções de como o europeu passou a ver Jesus, Deus, o Espírito Santo, a igreja...

Em certo momento ele diz:

“A imagem de Deus numa sociedade depende sem dúvida da natureza e do lugar de quem imagina Deus. Existe um Deus dos clérigos e Deus dos leigos; um Deus dos monges e um Deus dos seculares; um Deus dos poderosos e um Deus dos humildes; um Deus dos pobres e um Deus dos ricos. [...] as imagens de Deus mudam com o correr do tempo”. P. 11, 12.

Tenho a impressão de que muitos teólogos fundamentalistas gabaritados não entendem isso. Parece que muitas vezes escrevem, dissertam, falam sobre o cristianismo e teologias cristãs, como se a mesma fé e o mesmo modo de se relacionar com o divino fossem uniformes ao longo desses quase dois mil anos, não atentando para as grandes mudanças que ocorreram e ainda ocorrem nesse relacionamento do homem e das comunidades com Deus. A visão do que é pecado muda; a visão do que Deus deseja, muda; a maneira de como se relacionar com a igreja e o mundo, muda.

Quanto à cobrança de dinheiro feita pela igreja no mundo medieval, o livro explica:

“Na Idade Média, no sistema político feudal, como de um modo geral no conjunto da existência, a Igreja desempenha um papel essencial. É preciso ver isso de um nível econômico e social muito humilde, o do imposto, do pagamento de foros. A Igreja cobrava dízimos e sustenta os senhores que cobram foros. E na vida do dia-a-dia, nos sermões, a Igreja afirma que o dízimo não é dado a ela, o que seria constrangedor, mas a Deus, ou com mais rigor, a São Pedro. Por outro lado, os padres, os monges, explicam que pagar os foros aos senhores é fazer a vontade de Deus, porque Deus lhes confiou um poder de comando que corresponde a suas intenções”. P. 82.

Fica evidente que a esperteza de como legitimar a doação de grana para os cofres da igreja continua a mesma, ou muito semelhante a atual, agora com o agravo de não somente a igreja católica cobrar, mas também as igrejas protestantes e biroscas neopentecostais.

Era somente pela exclusiva mediação da igreja, que as pobres pessoas podiam adentrar ao céu. 

“Os principais instrumentos da dominação da Igreja foram a consolidação da teologia e a prática dos sacramentos. O século XII é aquele em que se estabelecem firmemente os sete pecados capitais, os sete dons do Espírito Santo e os sete sacramentos. E como a Igreja é a única a distribuir os sacramentos, o homem não pode se salvar não a ser pela Igreja e graças à Igreja”. P. 88.

“Era muito difícil, insisto neste ponto, para os homens e as mulheres da Idade Média ter um contato direto com Deus, isto é, um contato sem a mediação da Igreja. Portanto, através dela é que muitos cristãos e cristãs da Idade Média buscaram um acesso a Deus que sentissem como contato verdadeiro e individual. A Igreja, para satisfazer a essa aspiração sem renunciar a seus privilégios e à sua dominação, fez com que evoluísse o sistema dos sacramentos, sistema que tinha a vantagem de tornar sua intervenção obrigatória, preparando uma relação direta da pessoa batizada com Deus”. P. 98.

Como a teologia católica mudou, hoje não é mais assim.

A igreja dispunha de vários meios para manter os seus fiéis sob as suas rédeas. Eis mais um:

“Outro meio utilizado pela Igreja para manter sua situação privilegiada entre Deus e o fiel foi, durante muito tempo, fazer com que se falasse latim com Deus. Quando os valdenses, no fim do século XII, quiseram ler a Bíblia numa tradução em língua vernácula [o francês que nascia], foram condenados, ainda que suas crenças e suas práticas fossem, no conjunto ortodoxas. Com efeito, os cristãos e as cristãs da Idade Média parecem ter sofrido de certo modo uma frustração no seu relacionamento com Deus, e é provável que esse sentimento de frustração tenha sido uma das condições favoráveis ao nascimento Reforma, na qual muitos pensaram achar um acesso mais autêntico e mais direto a Deus”. P. 100.

As igrejas protestantes estão sujeitas a tantas críticas quanta a católica, mas o aparecimento delas, em todo caso, foi uma benção para a humanidade. O cristianismo saiu do curral romano e se diversificou, diluiu o seu centro de poder. Acho que nunca é demais lembrar disso, mesmo sabendo que os ramos protestantes têm dado péssimos exemplos de moral e conduta, não conseguindo estar a altura de seus discursos morais tão elevados.  

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

A Filosofia da Adúltera


PONDÉ, Luiz Felipe. A Filosofia da Adúltera. São Paulo: Leya, 2013. (PDF).

“Filosofar é aprender a morrer, diziam os estoicos, e eles tinham razão: enquanto não perdemos o medo de perder tudo, não começamos a viver”. P. 08.

“[...] o esforço socrático pela verdade é, na realidade, um abrir-se para a certeza da possibilidade de que estamos errados no que pensamos”. P. 51.

Mais um livro do Pondé (Doutor em Filosofia na USP) lido.

Em A Filosofia da Adúltera, substancialmente não há nada de novo que eu não tenha lido nos outros livros dele. Pondé é um crítico contumaz da sociedade contemporânea, e para isso, fez uso neste livro dos insights do seu guru maior, Nelson Rodrigues (1912-1980), Jornalista, escritor, crítico da sociedade, e nas palavras de Pondé, o Filósofo Selvagem. 

Filósofo, sociólogo, teólogo, cientista político, além de dramaturgo, jornalista e escritor de romances, Nelson merece constar na lista dos pensadores brasileiros mais originais”.  P. 14.

É um livro de “meditações rodrigueanas”. P. 13. Nelson foi uma espécie de profeta de sua época; as mazelas culturas que tanto o sr. Nelson combateu em seus escritos, aumentaram exponencialmente nos dias atuais, de acordo com Pondé.

“Escrevo à medida que leio Nelson Rodrigues, assim como quem medita sobre a maior forma de alegria, aquela de dizer apenas o que se quer dizer”. P. 08.

“De Nelson para cá tudo piorou muito (aliás, esta é uma tese que sustento nestes ensaios: tudo de ruim que Nelson identificou, só ficou pior)”. P. 62.

“Filosofar” tendo como protagonista a figura da mulher adúltera é uma metáfora usada como recurso literário, pois “este livro é escrito sob o espírito da adúltera. A mulher que representa a condição humana como escrava do desejo. Que experimenta o tédio miserável da carne. Que conhece a tristeza da cobiça. Que sente o peso do abandono e da mentira social”. P. 05.

“Os ensaios deste livro foram escritos sob o signo da adúltera: são as confissões de um desgraçado que luta constantemente para não se perder no próprio desejo e em suas inconsistências. A filosofia selvagem brota desse combate e do medo que me acompanha o tempo todo”. P. 16.

A natureza humana é contingente; suscetível as mais vis paixões; é fraca; é indolente; é invejosa; é vaidosa; nunca se contenta com nada. E nesse não contentamento, pensamos que temos o direito a felicidade plena e completa – busca-se a todo custo o ser feliz e ser amado, mas:

 “[...] não há dúvida de que a felicidade sistemática nos faz estúpidos”. P. 36.

“Para ele [Nelson], e concordo, é na doença, e não na saúde, que está nossa coerência. O tédio, por exemplo, nos ensina mais sobre nós mesmos do que a alegria”. P. 48.

“[...] a vaidade de querer ser amado pode ser uma das maiores formas de escuridão. [...] Só os melhores entre nós, talvez, consigam entender que viver em busca da autoestima é uma das maiores formas de escuridão que existe. Vaidade é o nome elegante para o vazio que nos define. [...] Sempre que vivemos pela vaidade (o que nos acomete quase todo o tempo), vivemos presos no vazio.” P. 65.

Mesmo sendo ateu, o autor vê o ensinamento cristão sobre o pecado, como uma interpretação muito útil e proveitosa da nossa condição humana deplorável. Abjeta é a posição marxista que a tudo contamina e nada sabe interpretar sobre a realidade passada e presente. Nesse ínterim, Pondé chama “Rousseau, Marx e Foucault [de] (grandes marqueteiros)”. P. 18. Aqui está um pouco de nossa condição:

“Vítimas da herança maldita de Adão e Eva, homens e mulheres arrastariam pelo mundo uma razão submetida a uma vontade orgulhosa, violenta e obcecada pelo sexo e poder. Desejosos de amor, mas incapazes de vivê-lo ou mesmo vê-lo. Cegos e autômatos, caminhariam pela Terra deixando um rastro de desespero e desencontro com os outros e consigo mesmos”. P. 14.

“[...] desejamos um amor ideal, mas ele não existe. Como não existe, caímos em desgraça inevitavelmente, daí decorre tudo o mais. Uma das piores formas dessa idealização do amor é seu mal infinito: queremos sempre mais e, quanto mais queremos, mais dependentes e inseguros ficamos. Ciúmes, delírios de traição, impotência de controlar o outro. Por isso, a adúltera representa o necessário fracasso de um animal atormentado por um desejo de amor sempre impossível. O pecado moral nasce dessa vontade esmagada”. P. 17.

O pensamento esquerdista é uma quimera, mas tomou conta de quase todos os setores universitários, lamenta o Filósofo da USP.

Preferem ideias ao sofrimento real. Nós, que vivemos no início do século XXI no Brasil, sabemos que a esquerda, apesar do sofrimento de alguns poucos, saiu vitoriosa da ditadura, dominando as instâncias de razão pública em larga escala, passando pelos tribunais, escolas de magistratura, universidades, escolas, mídia etc. A esquerda é uma falsa vítima e uma falsa virtude. Nelson percebeu como ninguém o mau-caratismo da esquerda e sua moral abstrata.” P. 24.

Filho da esquerda é o movimento feminista, ao qual Pondé faz duras críticas:

“O feminismo é a nova forma de repressão da sexualidade feminina, e logo será de toda forma de sexualidade”. P. 20.

“O imortal hábito feminino é gostar de ser objeto sexual. Sentir-se cachorra, fácil, vadia, pelo menos por meia hora.

Recentemente um psicanalista comentou sobre como mulheres inteligentes, donas de sua vida, podiam, no segredo da confissão analítica, se queixar de que seus parceiros não sabiam tratá-las como vagabundas, que eram frouxos. Que queriam ser humilhadas e submetidas no sexo. O psicanalista via nisso uma contradição: emancipação versus querer ser objeto, sentir-se vagabundas por alguns minutos, dominadas.

Nelson acertou em cheio quando disse que a objetividade idiota das ciências humanas iria se tornar cega para enxergar as coisas humanas. Ver contradição na fala dessas mulheres é ser vítima da crença de que sexualidade é política. A física aqui é melhor do que a política. O fato de a mulher ser penetrada, “receber” (o erotismo da palavra “violada” está aí), ficar de quatro, revela mais da alma feminina do que o blábláblá da Simone de Beauvoir, que confunde queixas quanto a poder trabalhar fora de casa com gosto sexual e com natureza feminina.

A alma feminina pode pilotar aviões, mas quer ser a puta de um homem. Sem sua puta ela sucumbe à tristeza do desejo. O imortal hábito feminino é o hábito de ser objeto”. P. 53.

“NÃO QUERO SER BONITA” - Disse a aluna de psicologia da PUC. Para ela, isso era uma forma de afirmação de sua dignidade. Meu Deus, como uma mulher pode chegar a esse ponto de negar que o pulmão não quer ar?” P. 90.

Paro por aqui. 

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Filmes Vistos (16)


Um filme que a crentaiada certamente não irá gostar. Resumindo: um crente tenta convencer um ateu de que Deus existe. Ambos se chateiam um com o outro, por suas visões antagônicas. O ateu passar a traçar a mulher do crente. Este fica sabendo da traição de sua esposa, e trama um plano maléfico para matar os dois, pensando estar plenamente "santificado, legitimado e justificado" diante de Deus, para fazer tal coisa. A última parte termina com uma cena, que fará muitos crentes chorarem de raiva. Aprovado, recomendado.


"É irônico como os brancos nos odeiam tanto, sendo que tantos deles foram criados por mulheres negras."

Filme ambientando na década de 1960. Sabe, aquele período turbulento no tio Sam, quando pessoas de "cor" estavam lutando pela plena igualdade civil, numa terra de racistas, onde não poucos enricaram ás custas deles? 

Filme leve e gostoso de se ver, apesar de retratar os maus tratos de um pai pela filha e de brancos espancando negros, por estes estarem ocupando os seus lugares de direito naquela sociedade. 

Uma menina branca chamada Lily, por acidente, ainda muito criança, com uma arma mata a própria mãe, quando esta estava sendo espancada pelo marido. Ela cresce sem o amor de seu pai, que tem uma indiferença enorme por ela, e ainda mente, dizendo que a mãe dela não a amava e os abandonou. 

Depois que a empregada doméstica negra (Rosaleen) deles é espancada na rua, por homens brancos, Lily foge com ela, sem rumo, chegam a uma cidade, e são acolhidas com muita hospitalidade numa casa de três negras. Lily passa a ser aprendiz no apiário (criação de abelhas). 

Uma linda história de amor, compaixão e companheirismo, surge nesse lar. 

Obra belíssima.


História real que conta a trajetória de um solista (tocador de violoncelo) diagnosticado com esquizofrenia, que devido ao seu sério problema de saúde mental, vira mendigo nas ruas de Los Angeles, até que um jornalista (O Homem de Ferro) do Los Angeles Times, observando o seu exímio talento musical, se interessa em ajudá-lo. Surge uma bonita e conturbada amizade entre os dois, com o Tony Stark fazendo de tudo para que ele saia das ruas. Mas será uma tarefa difícil. História bonita. Gostei. 


"Pode parecer estranho, mas o assassinato e estupro [cometido por um serial killer] indicam que o assassino pode ter [tido] relações sexuais com o cadáver, sem se importar se passou um ano. A decomposição e até mesmo os vermes podem excitá-lo." -Ted Bundy, serial killer.

Perturbador! Esta é a conclusão mais adequada a este filme. Talvez não seja exagero dizer, como muitos sites falam, que é o filme de terror mais sombrio já feito. Se não for, com certeza está entre os primeiros. Um terror psicológico cruel! É o desespero da aflição - é a aflição do desespero.


Complexo, ritmo lento, quase parando, me deu sono... Várias interpretações podem ser dadas ao que o diretor e autor, quiseram passar.. Em muitos momentos, tive a impressão (acho que estou errado) que este filme incentiva o tipo de relação que mostra (se for isso mesmo, lamentável). De todo modo, em certa medida, já vivemos a realidade que esta película mostra. Novas relações estão surgindo com a proximidade tão intensa que temos com a tecnologia "internética". No caso da película em questão, relações amorosas com sistemas operacionais. O Japão está vivendo isso há algum tempo já, com jovens que "preferem" namorar personagens virtuais a mulheres de carne e osso. Bizarro? Bizarro sim, causa-nos estranhamento. Mas a vida é assim, dinâmica, "nada do que foi será...". Cada vez mais amamos a humanidade, e odiamos as pessoas, assim como o Filósofo Rousseau. Ou sei lá, sempre fomos assim, e a tecnologia só está escancarando isso.

O Grande Projeto


HAWKING, Stephen; MLodinow, Leonard. O Grande Projeto. São Paulo: Nova Fronteira, 2011. (PDF).

“Este livro tem suas raízes na noção de determinismo científico, o que implica [...] que não existem milagres, ou exceções às leis da natureza.” P. 21.

Dois Físicos proeminentes, Hawking (Professor de Matemática na Universidade de Cambridge) e Mlodinow (Ph.D em Física na Universidade da Califórnia), escreveram este livro para apresentarem a sua resposta científica (eu diria metafísica) a estas perguntas:

“EXISTIMOS, CADA UM DE NÓS POR UM CURTO PERÍODO e neste período exploramos apenas uma pequena parte de todo o universo. Mas os humanos são uma espécie curiosa. Nós nos perguntamos, procuramos respostas. Viver nesse vasto mundo que é ao mesmo tempo gentil e cruel, e olhar para o imenso céu acima, as pessoas sempre fizeram muitas perguntas: Como podemos entender o mundo em que nos encontramos? Como o universo se comporta? Qual é a natureza da realidade? De onde veio tudo isso? O universo precisou de um criador? A maioria de nós não gasta muito tempo preocupando-se com essas questões, mas quase todos nos preocupamos com elas uma parte do tempo.” P. 05.

Na mesma página, vem o primeiro vacilo deles:

“[...] a filosofia está morta. A filosofia não tem acompanhado a evolução da ciência moderna, particularmente da física. Os cientistas se tornaram os portadores da tocha da descoberta, em nossa busca pelo conhecimento”. P. 05.

Quanta besteira, quanto ao enunciado de que a “filosofia está morta”! Este livro é um amontoado de afirmações metafísicas. Impressiona que dois Físicos do quilate do Hawking e Mloding digam um impropério destes. Para fazer Ciência todos de modo consciente ou inconsciente, vão munidos de pressupostos filosóficos.  

Ainda na mesma página, mostram que a visão legada do senso comum foi sendo solapada pelas descobertas no campo da Física. Aquilo que pensávamos ser uma realidade dada e fácil de perceber com os nossos olhos e outros sentidos, revelou-se inadequada.

“Até o advento da física moderna, em geral se pensava que todo o conhecimento do mundo poderia ser obtido através da observação direta, que as coisas são o que parecem ser, como são percebidas através de nossos sentidos. Mas o sucesso espetacular da física moderna, [...] que se choca contra a experiência do dia-a-dia, mostrou que não é esse o caso. A visão ingênua da realidade, portanto, não é compatível com a física moderna”. P. 06.

Para responder as perguntas iniciais, citadas lá em cima, eles propõem, o que chamam de teoria-M, uma espécie de modelo quântico que engloba várias teorias da Física concordantes entre si, em substituição a velha Teoria de Tudo, que os Físicos sonham em formular. Nessa teoria-M, o universo em que vivemos é apenas um entre milhares de milhares de milhares; surgimos do nada; e um Ser superior é totalmente descartado.

“Descreveremos como a teoria-M pode oferecer respostas à questão da criação. De acordo com a teoria-M, o nosso não é o único universo. Ao invés disso, a teoria-M prevê que um grande número de universos foram criados a partir do nada. Sua criação não exige a intervenção de algum ser sobrenatural ou um deus. Pelo contrário, estes múltiplos universos surgem naturalmente da lei física. Eles são uma previsão da ciência. Cada universo tem muitas histórias possíveis e muitos estados possíveis em momentos posteriores, ou seja, em momentos como o presente, muito tempo depois de sua criação. A maioria desses estados será muito diferente do universo que observamos e bastante inadequada para a existência de qualquer forma de vida. Apenas alguns poucos permitiriam a existência de criaturas como nós. Assim, nossa presença seleciona a partir desta vasta série apenas aqueles universos que são compatíveis com nossa existência. Apesar de sermos fracos e insignificantes na escala do cosmos, isto faz de nós em certo sentido os senhores da criação.

Para compreender o universo no nível mais profundo, precisamos saber não só como o universo se comporta, mas por quê.

1. Por que existe algo ao invés de nada?

2. Por que existimos?

3. Por este conjunto específico de leis e não algum outro?

Esta é a Questão Fundamental da Vida, do Universo e de Tudo.” P. 08.

O que me surpreendeu foi o suposto pós-modernismo dos autores. A citação a seguir falar por si mesma:

"O realismo dependente de modelo pode fornecer um quadro para discutir questões como: Se o mundo foi criado há um tempo finito, o que aconteceu antes daquilo? Um filósofo cristão, Santo Agostinho (354-430), disse que a resposta não era que Deus estava preparando o inferno para as pessoas que fazem tais perguntas, mas que o tempo era uma propriedade do mundo que Deus criou, e que o tempo não existia antes da criação, que ele acreditava tinha ocorrido não fazia muito tempo. Esse é um modelo possível, que é favorecida por aqueles que sustentam que a explicação dada no Gênesis é literalmente verdadeira, embora o mundo contenha evidências fósseis e outras evidências que o fazem parecer muito mais velho. (Eles foram colocados ali para nos enganar?) Pode-se também ter um modelo diferente, em que o tempo volta 13,7 bilhões anos até o big bang. O modelo que explica mais sobre nossas observações atuais, incluindo as provas históricas e geológicas, é a melhor representação que temos do passado. O segundo modelo pode explicar os registros fósseis e radioativos e o fato de que recebemos a luz de galáxias milhões de anos-luz longe de nós e, portanto, este modelo - a teoria do Big Bang – é mais útil que o primeiro. Ainda assim, não se pode dizer que qualquer um dos modelos é mais real que o outro." P. 30.

Mas não nos enganemos, para eles, de maneira contraditória, visto que até especulam que podemos ser meras personagens de computador, evocando o filme Matrix, não há Deus.

“Nosso universo e suas leis parecem ter um design que é ao mesmo tempo feito sob medida para nos apoiar e, se quisermos existir, deixa pouco espaço para alterações. [...] Muitas pessoas gostariam que usássemos essas coincidências como prova do trabalho de Deus. [...] Mas, assim como Darwin e Wallace explicaram como o projeto aparentemente miraculoso de formas de vida podia aparecer sem intervenção de um ser supremo, o conceito de multiverso pode explicar o ajuste fino das leis físicas sem a necessidade de um criador benevolente que fez o universo em nosso benefício”. P. 96, 97.

As leis da física já atuavam no início do universo, tal como a lei da gravidade, e assim, tudo surgiu do nada.

“Porque existe uma lei como a gravidade, o universo pode e se criará partir do nada [...]. A criação espontânea é a razão pela qual existe algo ao invés de nada, por que o universo existe e por que nós existimos. Não é necessário invocar Deus para iluminar o papel de toque azul, e colocar o universo em movimento”. P. 105.

Os autores também defendem o determinismo químico e biológico de nosso comportamento. Não temos livre arbítrio. Somos o que somos, por causa do que acontece no “invisível” nível molecular. Não existe liberdade de NADA. Eles chegaram aonde chegaram em suas interpretações sobre o universo, não por uma liberdade intelectual em perscrutá-lo, mas porque as células em ebulição de seus corpos e o meio ambiente determinaram o que eles acham que é a história ou histórias do universo.

Por diversas vezes, me deparei com páginas e mais páginas, das quais não entendi bulhufas. O livro é direcionado ao majoritário público leigo, mas não consegue ser atrativo em sua maior parte. Talvez, por mais que os Físicos simplifiquem os intricados e complexos fenômenos da Física, chega um momento que não dá para facilitar mais. 

domingo, 31 de dezembro de 2017

Documentários vistos (28)


Sucesso meteórico. Derrocada meteórica. Excelente documentário. 



Outra grande artista, aliás, a cantora mais premiada da história, que foi vencida (2012) pelo vício em álcool e drogas. O mais trágico é que numa espécie macabra de maldição hereditária, sua única filha morreu três anos depois, também vencida pelo uso de bebidas e entorpecentes. 


Não fui seu fã. Mas estou sempre curioso em saber um pouco sobre a história dos grandes nomes da música mundial. E Bowie está no seleto time dos maiores músicos. "O homem que mudou o mundo" da música. Bom documentário. 


Se fosse para dizer qual o melhor documentário que vi esse ano, seria este aqui! Superou todas as minhas expectativas. Hipnotiza do início ao fim. Da metade para o final, emociona. Não procure aqui, um filme para aprovar ou reprovar o socialismo cubano. Mas claro, o brilhante Jornalista Jon Alpert não se furtará em mostrar as grandes limitações do governo de Fidel Castro. No entanto, sem fazer juízos de valor. Nas entrelinhas, talvez ele queira nos passar o que o socialismo realmente trouxe a Cuba, apesar dele mostrar um grande apreço por Fidel. Documentário nota 1000! 


Seis micro-documentários sobre o lado sombrio da internet. Para citar apenas um dos temas apresentados, crianças das Filipinas, gravam vídeos despidas, obviamente sem nem saber do que se trata muitas vezes e contra as suas vontades, para satisfazer a luxúria doentia de pedófilos ao redor do mundo, que operam na dark web, sites altamente criptografados, que nem o governo consegue penetrar, para identificar os criminosos virtuais. O mais assustador é que muitas vezes, para garantir o arroz na mesa, muitos pais dessas crianças têm relações sexuais com elas gravadas em vídeo. O mundo é um caos! 

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Filmes Vistos (15)


Este é um filme daqueles! Bom demais! A despeito de tratar de um assunto tão pesado como o racismo, é um filme leve. 

A história de três mulheres negras, que trabalham na NASA e que foram de primordial importância, para que os EUA conseguissem lançar os seus foguetes tripulados, na corrida espacial contra a URSS, que já estava na frente, nessa disputa, quando lançou o primeiro homem ao espaço, em 1961. Elas, por serem “de cor” enfrentaram o costumeiro e abjeto racismo daquela sociedade, onde nem a NASA estava livre das leis de segregação racial. 

A NASA pressionada pelo governo, para que trouxesse resultados que valessem todo o investimento financeiro jogado nela, estava diante de grandes dificuldades nos cálculos matemáticos, para que as naves tripuladas pudessem ser lançadas com segurança. Coube a uma das “negrinhas”, uma expert em matemática, destrinchar através de números intricados, fórmulas e teorias complexas, o segredo para fazer aquelas geringonças orbitarem a terra. Três amigas, com histórias inspiradoras.


Margareth é uma talentosa pintora, porém, separada de seu marido, numa época (1958) em que mulheres divorciadas eram vistas com muita desconfiança e preconceito. Não será nada fácil mostrar as suas obras de arte pitorescas ao mundo. Num momento de solidão e fragilidade, um oportunista acaba aparecendo em seu caminho, enganando Margareth, casando com ela, e fazendo com que ele se passe como autor dos quadros pintados por ela. Ingenuamente, ela aceita essa enganação, e com o tempo vai percebendo o psicopata com quem se casou. A sua vida é de pura submissão aos caprichos egoístas do marido, que leva todo o crédito pelos seus incríveis quadros, retratando crianças com "olhos grandes". E pasmem, através do contato com testemunhas de Jeová, que batem em sua porta, ela toma coragem e bota a boca no mundo, denunciando o marido, dizendo que ele nunca pintou nenhum dos quadros. Vão a julgamento, e é provado que ele é um charlatão. História real. Margareth ainda é viva, com mais de 90 anos. O pilantrão safado, seu ex-marido, morreu em 2000, desacreditado e na pobreza.


Clássico! 

Eu querendo ser cult, do nada resolvi baixar e assistir. 

Filme produzido durante a segunda guerra (1942), que conta a história de um triângulo amoroso, na cidade de Casablanca, na época território francês. 

Rick, Ilsa e Victor, formam, talvez, o triângulo amoroso mais memorável da história do cinema.


Não sou muito de assistir comédias românticas, mas a descrição desta, me deixou curioso. Filme cativante do início ao fim. Trabalha de maneira excepcional o preconceito, discriminação, nossas hipocrisias... Muitas vezes somos discriminados, sofremos algum preconceito, mas nossa natureza quando se vê diante de algo diferente ou incomum, acaba também olhando preconceituosamente. Falta-nos empatia. 

Filme muito bom. Alguns o criticaram, visto que já existe uma produção argentina e uma italiana, da mesma história. Este é uma versão feita na Colômbia.


E o povo dizendo que Nicolas Cage não tinha feito nenhum filme que preste nos últimos anos. Mas este aqui prova o contrário. Um ótimo suspense, baseado em fatos acontecidos em 1983 no Alasca, que conta a busca incansável de um policial para colocar atrás das grades um serial killer, que matou mais de 21 mulheres.

Filmes Vistos (14)


Não chega a ser tão parado quanto 2001: Uma Odisseia no Espaço, mas exige muita paciência de quem assistir. Todavia, é fantástico. Buracos negros, buracos de minhoca, gravidade, velocidade da luz, tempo, relatividade... Interestelar é uma verdadeira "aula" do que em teoria a Física pode fazer. Este filme foi simplesmente o mais baixado na net em 2015.


Um filme antigo sobre o dia a dia de uma tripulação num submarino nazista, que tinha por objetivo atacar navios ingleses. Muito realista e muito bem feito, com detalhes impressionantes de como era viver dentro desses submarinos por meses. O filme é longo e meio paradão. Acho que um reflexo do que era viver dias e mais dias numa gaiola flutuante, sempre na iminência de serem pegos de surpresa e naufragarem de vez. Nota 10!


Ok, clássico é clássico, mesmo a gente não gostando, o que é o meu caso em relação a esta primeira versão de Spartacus no cinema. É uma grande produção dos anos 1960, que tem muitos pontos positivos, quando trabalha bem, os conchavos políticos do senado na antiga Roma. Mas no geral, não me agradou.


Análises fantásticas já foram feitas aos montes sobre esse grande clássico da literatura mundial, que ainda não tive coragem de ler (são mais de mil páginas!). Mas as sínteses áudio-visuais (filmes) estão aí, para quem não tem a ousadia de se debruçar sobre o livro de Victor Hugo. Esta é de 1998, a segunda que assisti. Apesar de não ser tão detalhista como a de 2000, com os consagrados Gérard Depardieu e John Malkovich. Mesmo assim, é muito boa. E pelo que sei, existe uma versão mais recente, lançada em 2012.



O herdeiro do trono de Bechuanaland, protetorado da Inglaterra, apaixona-se por uma mulher branca, nos dias finais de seus estudos em Direito na Inglaterra, em 1947. Ela morrendo de amores por ele, aceita ir para a África, ajudá-lo na administração de seu país. Problemas sérios de ordem política surgem daí, visto que um homem negro africano (e neste caso, principalmente por ele ser rei) se casar com uma mulher branca inglesa é inadmissível, e, portanto, não será bem visto nem pelo país dele, e muito menos pelo país dela. Terão que enfrentar uma avalanche de críticas de seus familiares e governos. Todo tipo de conchavo diplomático entre a Inglaterra, África do Sul e Bechuanaland, será orquestrado para que ele não assuma o trono e para que o casal não siga a sua vida matrimonial. Lamentavelmente, até Winston Churchill, a quem muito admiro (ou admirava, sei lá), teve um papel vergonhoso em toda essa história. 

Documentários Vistos (27)


Criacionistas, criacionistas... São incansáveis em tentar provar a idade do Universo em apenas 6 mil anos. E por que isso? Porque a Bíblia assim o diz, segundo eles. São contra a evolução, mas são incapazes de tentar apresentar um mecanismo científico, pelo qual os seres humanos vieram a existência. A Biologia evolutiva, com todas as limitações, defeitos, erros metodológicos, algumas fraudes, pelo menos vem propondo mecanismos viáveis, ainda que passíveis de dúvidas e sérias contestações. Mas o que os Cientistas da criação têm feito? De 1 a 10, nota 5 para esse documentário. Só porque acredito em um Criador. 


Escobar foi o Pelé e o Maradona das drogas. É o eterno paradigma dos grandes cartéis de drogas. Mandava e desmandava na Colômbia. Foi um narcoterrorista. Morreu em 2 de dezembro de 1993, com três tiros, quando tentava fugir através do telhado da casa em que estava escondido. Mas até hoje, não se sabe quem o matou de fato. O que sabemos é que para pegá-lo, o governo colombiano contou com a ajuda norte-americana, e teve que se aliar ao criminoso cartel de Cali e aos Lo Pepes (organização também criminosa), ambos inimigos mortais de Pablo Escobar. Se não assim não fosse, Escobar não teria sido pego no final de 1993. Talvez durasse mais alguns meses ou anos, ou quem sabe, com muitíssima sorte (sorte não, milagre mesmo), poderia estar vivo até hoje.


Segundo documentário que vejo de Russell Brand, que é um ex-viciado em drogas, que tem militado nos últimos anos, junto as autoridades inglesas e mundiais, para que o tratamento dos viciados em entorpecentes e álcool, sejam mais eficientes. Para ele, falta empenho do governo da Inglaterra, em tratar os usuários. A política estatal tem trabalhado de forma ineficiente para amenizar o problema de quem sofre desse mal, gastando milhões de forma irresponsável. 


O carinha compra um motel (hotel ao lado de uma rodovia), só para observar os hóspedes transando. Ele mesmo faz sozinho as reformas necessárias para que pudesse vê-las, sem ser descoberto. Durante mais ou menos 30 anos, esse foi o seu lazer noturno, noite após noite, com o consentimento de sua esposa. Não há vídeos, não há fotos, apenas as suas memórias.

Gay Talese, Jornalista conhecido e de grande credibilidade, conheceu Gerald Foos, o voyeur, em 1980, e depois de mais de três décadas, ambos resolvem, enfim, revelarem essa história inusitada ao grande público, através de uma matéria numa revista conceituada e posteriormente num livro. Gerald Foos acredita que seus "crimes" prescreveram, visto que segundo ele, o motel foi vendido em 1997. Portanto, a justiça americana não tem como cair em cima dele. 

Documentário muito bom, que nos surpreende com alguma reviravoltas no final. O livro já está publicado em português. 


Em tom amigável e não critico, o consagrado ator de Hollywood, Morgam Freeman, viaja o mundo em busca de respostas vindas das religiões para as questões centrais da vida humana. Freeman escuta atentamente o que a religião católica, protestante, budista, hinduísta e etc., tem a oferecer a humanidade sobre o que é a vida após a morte, como foi a criação do mundo, sobre os milagres, sobre a existência do mal, sobre quem é Deus, entre outras questões que sempre embaralham nossas cabecinhas inquietas. As respostas por vezes soaram hiper triviais e óbvias, as falas do Freeman também. Ele também conversou com especialistas, para situar o telespectador sobre os avanços científicos alcançados sobre os temas mencionados. São 6 documentários nessa primeira temporada. Eu gostei.

Herege: Por que o islã precisa de uma reforma imediata


ALI, Ayaan Hirsi. Herege: Por que o islã precisa de uma reforma imediata. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.

"A vida humana, a liberdade humana, a dignidade humana, tudo isso é mais importante que qualquer texto sagrado". P. 234.

Ayaan Hirsi Ali é Professora da Universidade de Harvard e ex-muçulmana nascida na Somália. Ela rompeu com os ensinamentos do islamismo, o que lhe tem causado um grande ódio por parte do mundo islâmico e de alguns intelectuais ocidentais. A raiva que ela provoca é devido ao seu discurso mais que óbvio: os ensinamentos provenientes do alcorão é a base para toda a violência dos grupos terroristas atuais. A religião islâmica é inerentemente beligerante e agressiva. Ao contrário do mantra midiático, o islã NÃO é uma religião de paz.

Só pessoas cegas ideologicamente não veem dessa forma. Uma maneira simples de se constatar isso é fazendo umas perguntas mui básicas: Por que não vemos igrejas cristãs, outras religiões, ou ideologias secularistas, serem exercidas livremente nos países de maioria muçulmana? Por que as mulheres são tratadas nessas sociedades, como seres de segunda classe? Por que os homossexuais são mortos na cultura maometana? Dezenas de questionamentos podem ser feitos, que solapam esse papinho furado de que o islã é uma religião tolerante e de paz.

Para facilitar o entendimento do que seja os adeptos do islamismo atualmente, Ali faz uma diferenciação didática e útil. Para ela existem basicamente três tipos de muçulmanos:

Muçulmanos de Medina – Extremistas;

Muçulmanos de Meca – Moderados;

Muçulmanos Hereges – Apóstatas.

Os muçulmanos de Medina são a minoria barulhenta, que segue exatamente o que o Alcorão ensina: matar e perseguir quem não segue o islã. É com estes que ela demanda a sua maior preocupação.

"Faz mais de treze anos que venho defendendo um argumento simples em resposta a atos terroristas. [...] Afirmo que é tolice insistir, como fazem habitualmente nossos líderes, que os atos violentos dos islamitas radicais podem ser dissociados dos ideais religiosos que os inspiram. Temos de reconhecer que eles são movidos por uma ideologia política, uma ideologia com raízes no próprio islã, no livro santo do Alcorão e na vida e ensinamentos do profeta Maomé. [...] Deixo claro o meu ponto de vista nos termos mais simples possíveis: o islamismo não é uma religião pacífica." P. 10.

Os muçulmanos de Meca compõem a maioria dos seguidores de Maomé. Eles são pacíficos.  

“Ora, quando afirmo que o islamismo não é uma religião pacífica, não estou dizendo que a crença islâmica torna os muçulmanos naturalmente violentos. Isso, manifestamente, não é verdade: há milhões e milhões de muçulmanos pacíficos no mundo. Estou dizendo que a conclamação à violência e a justificação dela estão explicitadas nos textos sagrados do islã”. P. 15.

“Ed Husain [ex-muçulmano] estima que apenas 3% dos muçulmanos do mundo concebem o islã nesses termos [matam homossexuais; matam adúlteros por apedrejamento; cristãos e judeus são “porcos e macacos; forçam as mulheres a usarem a burca; e etc.]. Mas acontece que 3% de mais de 1,6 bilhões de crentes – 23% da população mundial – são 48 milhões [de muçulmanos prontos a matar em nome de Alá]". P. 23.

Habitantes do Paquistão, Bengala e Iraque, estão entre os mais violentos muçulmanos.

“Três quartos dos paquistaneses e mais de dois quintos dos bengaleses e iraquianos pensam que as pessoas que deixam o islã merecem a pena de morte. Mais de 80% dos paquistaneses e dois terços dos bengaleses e iraquianos acham que a lei da sharia é a palavra de Deus. Proporções semelhantes dizem que o entretenimento ocidental fere a moralidade. Só minúsculas frações dessa população não se incomodariam caso suas filhas se casassem com cristãos. Apenas uma minoria considera que matar mulheres nunca se justifica por motivos de honra. Um quarto dos bengaleses e um dentre oito paquistaneses acha que as explosões suicidas em defesa do islã são frequentemente ou às vezes justificada.” P. 28, 29.

No Brasil ou no ocidente, se alguém queimar páginas da Bíblia ou falar algo que denigra Jesus ou Maria (sua mãe), não será apedrejado, ou colocado no limbo da sociedade. Mas numa sociedade muçulmana, a coisa muda totalmente. Ali dá um exemplo:

"[...] em novembro de 2014, um cristão e sua mulher que moravam em Lahore, Paquistão, foram espancados e queimados vivos em um forno de olaria depois de terem sido acusados de queimar páginas do Alcorão". P. 84.

Ali propõe uma utopia: uma revisão crítica do Alcorão, feita pelos seus seguidores, reconhecendo que o seu livro sagrado não tem lá muita coisa de especial:

"Como a violência cometida em nome do islã é tão frequentemente justificada pelo Alcorão, cabe conclamar os muçulmanos a fazerem uma reflexão crítica acerca de seu texto mais sagrado. Esse processo começa, necessariamente, pelo reconhecimento de que o Livro foi feito por mãos humanas e contém numerosas incoerências." P. 100.

A relativização da Bíblia, por exemplo, existe em maior ou menor grau em praticamente todos os ramos do cristianismo. O que não acontece no islã. Aqui vai uma lista:

1 - Muitos cristãos, incluindo o anglicanismo e o catolicismo, não acreditam na inerrância da Bíblia;

2 - A maioria esmagadora dos evangélicos conservadores e fundamentalistas, não acreditam que as traduções que temos hoje sejam inerrantes, mas apenas os autógrafos;

3 - Permitimos interpretações divergentes do texto, como da história do cristianismo, sem apelar para ameaças a integridade física dos nossos discordantes;

4 – Muitos cristãos e igrejas aceitam a teoria da evolução como a melhor explicação para a origem dos seres vivos, interpretando o Gênesis metaforicamente.

Dezenas e dezenas de exemplos podem ser dados, para a relativização de muitas práticas e crenças que temos em relação ao texto fundante do cristianismo. Mas tais revisões inexistem no islã.

Um dos ensinos mais básicos do islã é tirar a vida de quem não segue a cartilha de Maomé, mediante o suicídio:

"O islã ensina que não há nada mais glorioso do que tirar a vida de um infiel - e melhor ainda se o assassinato custar a vida do matador". P. 121.

Os mais fracos são os mais perseguidos no mundo criado pelo islã:

"Enquanto a regra do direito no Ocidente evoluiu para proteger os membros mais vulneráveis da sociedade, sob a sharia [lei islâmica] são justamente os mais vulneráveis que são mais reprimidos: mulheres, homossexuais, os muçulmanos insuficientemente fiéis ou apóstatas e os devotos de outros deuses.

[...]

Mas nenhum grupo é mais prejudicado pela sharia do que as mulheres muçulmanas - um reflexo, em parte, da cultura tribal patriarcal da qual a lei islâmica emergiu. Repetidamente sob essa lei o valor das mulheres é estipulado em no máximo 'metade de um homem'. A sharia subordina as mulheres aos homens em um sem-número de maneiras: determina sua custódia por homens, dá aos homens o direito de espancar as esposas, de ter acesso irrestrito às suas mulheres e de praticar a poligamia, e restringe os direitos legais das mulheres em casos de divórcio, nos direitos patrimoniais, em casos de estupro, em testemunhos nos tribunais e no consentimento ao casamento". P. 146, 147.

Estarrecedor o que as leis do islamismo faz com as mulheres:

“Em minha Somália natal, uma menina de treze anos contou que foi estuprada por três homens de uma vez. A milícia de Al-Shabaab que então controlava a cidade portuária meridional de Kismayo, onde ela morava, reagiu acusando a menina de adultério, julgou-a culpada e a sentenciou à morte. Sua execução foi anunciada pela manhã por um alto-falante instalado em uma picape Toyota. No estádio de futebol local, partidários da Al-Shabaab cavaram um buraco no chão e trouxeram um caminhão cheio de pedras. Uma multidão de mil pessoas reuniu-se antes das quatro horas da tarde. Aisha Ibrahim Duhulow [...] foi arrastada, debatendo-se aos gritos, para dentro do estádio. Foi preciso quatro homens para enterrá-la até o pescoço no buraco. E então cinquenta homens passaram dez minutos atirando rochas e pedras na menina. Depois de dez minutos, fizeram uma pausa. Ela foi desenterrada, e duas enfermeiras examinaram-na para ver se continuava viva. Alguém descobriu que tinha pulsação e respirava. Aisha foi devolvida ao buraco e o apedrejamento prosseguiu. Um homem que tentou intervir foi baleado; um menino de oito anos também foi morto pela milícia”. P. 153.

O islamismo e sua maneira "amorosa" de tratar os homossexuais:

"Mais de trinta países islâmicos têm leis que proíbem a homossexualidade e a consideram um crime, sujeito a punições variadas, de açoitamentos até prisão. Na Mauritânia, Bangladesh, Iêmen, partes das Nigéria, Sudão, Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita e Irã, os homossexuais condenados podem ser sentenciados à morte". P 151.

"Como noticiou o semanário Der Spiegel, 'Em Bagdá logo no início do ano começou uma nova série de assassinatos contra homens suspeitos de serem gays. Muitos são estuprados, têm a genitália decepada e o ânus fechado com cola. Seus corpos deixados em lixões ou largados na rua'. Nas palavras do líder da principal organização iraquiana de lésbicas, bissexuais e transgêneros, 'o Iraque é o lugar mais perigoso do mundo para as minorias sexuais'. [...] (Evidentemente a hipocrisia nessa questão é crassa, pois em todos os países islâmicos existem populações significativas de gays e lésbicas. Dada a dificuldade logística de ter relações com mulheres, por exemplo, há muito tempo homens árabes recorrem a outros homens para satisfazer suas necessidades sexuais. No Afeganistão, também, membros ricos de tribos sabidamente compram meninos para seu prazer sexual)." P. 170.

Quanto aos muçulmanos violentos que vive no ocidente, Ali tem este recado a eles:

"Precisamos insistir que não somos nós, no Ocidente, que devemos nos adaptar às sensibilidades muçulmanas; são os muçulmanos [residentes aqui] que devem se adaptar aos ideais liberais ocidentais." P. 216.

Livro muito bom.