domingo, 27 de maio de 2018

De Frente Para o Sol: Como Superar o Terror da Morte



YALOM, Irvin D. De Frente Para o Sol: Como Superar o Terror da Morte. Rio de Janeiro: Agir, 2008. (PDF).

Irvin D. Yalon (Ph.D em Medicina na Universidade de Boston, EUA) trabalha neste livro o terror primitivo da morte, que acomete a todos nós. Seu objetivo é que passemos do terror a "angústia cotidiana controlável". P. 142. Esse é o preço que pagamos pela nossa autoconsciência. A autoconsciência de que iremos para o buraco, para o não-ser, para a não existência consciente, para o nada, enfim, para o FIM.

Yalom, um Psiquiatra competente, Professor na prestigiada Universidade de Stanford, e com uma larga experiência nos estudos mais avançados de Psicoterapia, revela os meandros, que todo ser humano sente perante o próprio sim - a angústia da mortalidade. Ela é inerente a todos nós. Ele como ateu que é, acredita que o fim definitivo vem com o nosso último suspiro, sem possibilidade de uma vida após a vida terrena. Sua abordagem terapêutica é baseada em suas ideias materialistas, apesar delas não terem o objetivo de solapar a fé daqueles pacientes com fortes crenças religiosas.

Yalom se vale da sabedoria não apenas dos grandes Psicólogos, mas também, de toda uma tradição filosófica, principalmente das ideias de Epicuro (341-270 a.c.) e de Nietzsche (1844-1900). Ele lamenta em várias ocasiões, que de um modo geral, os Psicoterapeutas não atentam bem, e até mesmo ignoram quase que por completo, o terror da morte advinda de seus pacientes, não trabalhando esse sentimento com eles. Um dos motivos, ele acredita que se deve ao próprio medo da mortalidade, que naturalmente o Psicoterapeuta compartilha também.

Quem não teme a morte? Eu temo demais.

“Nossa existência é sempre obscurecida pelo conhecimento de que vamos crescer, nos desenvolver e, inevitavelmente, nos degradar e morrer. [...] todos tememos a morte - cada um de nós, homem, mulher ou criança. Para alguns o medo da morte se manifesta apenas indiretamente, como uma inquietação generalizada ou disfarçado de um sintoma psicológico secundário; outros indivíduos sofrem um fluxo explícito e consciente de angústia em relação à morte; e em algumas pessoas esse medo emerge na forma de um terror que anula qualquer felicidade e realização.” P. 10.

Para Yalom, o caminho inevitável da nossa inexistência é o cerne das crenças religiosas:

“A angústia da morte é a mãe de todas as religiões, as quais, de algum modo, procuram mitigar a agonia da nossa finitude. Deus, segundo a formulação de todas as culturas, não apenas suaviza a dor da mortalidade através de uma visão de vida eterna, como também alivia um isolamento temível oferecendo uma presença eterna e providenciando um projeto claro para que a vida seja significativa.” P. 12.

O que Yalom diz abaixo, é a mais pura verdade. Eu penso nela diariamente.

“A morte [...] nos chama. Ela nos chama o tempo todo; está sempre conosco, arranhando uma porta íntima, sussurrando suavemente, quase inaudível, sob a superfície da consciência. Escondida e disfarçada, transbordando por meio de uma variedade de sintomas, ela é a fonte de muitos de nossos estresses, conflitos e preocupações.” P. 13-14.

Ainda não cheguei, e espero nunca chegar ao nível de terror da morte, descrita a seguir:

“Para [muitas] pessoas, a angústia [da morte] é mais gritante, indisciplinada, tendendo a irromper às três da manhã, deixando-as ofegantes perante o espectro da morte. Elas se afligem com o pensamento de que também estarão mortas em breve, bem como todos a seu redor.” P. 15.

A inevitabilidade da morte vem sendo filosoficamente pensada desde eras antigas. Há toda uma robusta tradição de pensadores que vem refletindo acuradamente sobre ela. A lembrança da morte é a nossa salvação. Eis alguns desses pensadores:

“[Pensadores antigos] desde o surgimento da palavra escrita —, vêm nos lembrando da interdependência da vida e da morte. Os estoicos (por exemplo, Crísipo, Zeno, Cícero e Marco Aurélio) nos ensinaram que aprender a viver bem é aprender a morrer bem, e que, reciprocamente, aprender a morrer bem é aprender a viver bem. Cícero disse que ‘filosofar é se preparar para a morte’. Santo Agostinho escreveu que ‘é apenas perante a morte que o caráter de um homem nasce’. Muitos monges medievais mantinham uma caveira humana em suas celas para concentrar os pensamentos na mortalidade e para servir de lição à condução da vida. Montaigne sugeriu que a mesa de trabalho de um escritor deve oferecer uma boa visão do cemitério para estimular o pensamento. Assim, e de muitas outras maneiras, grandes professores ao longo do tempo nos lembraram que, apesar de a concretude da morte nos destruir, o conceito da morte nos salva.” P. 25.

Epicuro é um dos nortes filosóficos de Yalom, para reflexão sobre a morte:

“Epicuro acreditava que o real objetivo da filosofia é aliviar o sofrimento humano. E qual é a raiz do sofrimento humano? O pensador não tinha dúvida quanto à resposta para a pergunta: o nosso medo onipresente da morte. [...] É parte da genialidade de Epicuro ter antecipado a visão contemporânea do inconsciente: ele enfatizava que preocupações com a morte não são conscientes para a maior parte das pessoas, mas que devem ser inferidas por meio de manifestações disfarçadas, como por exemplo uma religiosidade excessiva, um acúmulo obsessivo de riquezas e um desejo cego de poder e honrarias, todas oferecendo uma versão simulada da imortalidade.” P. 47.

Tudo é transitório, passageiro...

“Muitas pessoas relatam que raramente pensam sobre a própria morte, mas que são obcecadas pela ideia - e pelo terror - da transitoriedade. Todo momento agradável é corroído pelo pensamento em segundo plano de que tudo que se experimenta agora é efêmero e vai acabar dentro de pouco tempo. Uma caminhada agradável com um amigo é prejudicada pela ideia de que tudo está fadado a desaparecer – o amigo vai morrer, a floresta vai ser lentamente transformada pelo desenvolvimento urbano. Qual o sentido de qualquer coisa, se tudo vai se transformar em poeira?” P. 52-53.

E o que faz a angústia da morte ser mais intensa?

“A solidão aumenta muito a angústia da morte. Muitas vezes, nossa cultura forma uma cortina de silêncio e de isolamento em torno dos falecidos. Na presença dos que estão morrendo, amigos e familiares muitas vezes se distanciam por não saber o que dizer. Temem incomodar a pessoa que está agonizando. E também evitam se aproximar demais por medo de confrontar a própria morte. Até mesmo os deuses gregos fugiam com medo quando o momento da morte humana se aproximava.” P. 67.

A nossa ciência de que vamos desaparecer vai ficando cada vez mais forte, à medida que envelhecemos. Eu com 32 anos, sinto fortemente isso.

“[...] o isolamento existencial é menos comum no início da vida; ele é sentido mais evidentemente quando se é mais velho e se está mais próximo da morte. Nesses momentos, nos tornamos cientes de que o nosso mundo vai desaparecer e também de que ninguém poderá nos acompanhar integralmente em nossa triste jornada para a morte. Como um velho canto religioso nos lembra: ‘É preciso atravessar aquele vale solitário por conta própria’.” P. 68.

Precisamos compartilhar com pessoas queridas, a nossa sensação de medo de que um dia não estaremos mais aqui.

“Amigos precisam lembrar aos outros (e a si próprios) de que também sentem medo da morte. [...] Essa participação não implica um alto risco: ela apenas explicita o que é implícito. Afinal, somos todos criaturas com medo do pensamento de ‘eu não existo mais’. Todos enfrentamos a sensação de pequenez e insignificância quando comparados ao infinito tamanho do universo [...]. Cada um de nós não é mais que uma partícula, um grão de areia, na vastidão do cosmo. Como disse Pascal no século XVII, ‘o silêncio eterno de espaços infinitos me assusta’.” P. 72-73.

Para terminar:

“Acredito que devemos confrontar a morte como fazermos com outros medos. Devemos contemplar nosso fim último, familiarizar-nos com ele, dissecá-lo e analisá-lo, raciocinar com ele e descartar aterrorizadoras distorções infantis sobre a morte. Não vamos concluir que a morte é dolorosa demais para ser suportada, que a ideia vai nos destruir, que a transitoriedade deve ser negada, pois a verdade tornaria a vida sem sentido. Essa negação sempre cobra um preço – o encolhimento da nossa vida interior, o embaçamento da visão, o achatamento da racionalidade”. P. 142.

terça-feira, 22 de maio de 2018

Em Defesa do Preconceito



DALRYMPLE, Theodore. Em Defesa do Preconceito. São Paulo: É Realizações, 2015. (PDF).

“O amor pela verdade, embora exista, é geralmente mais fraco do que o amor pelo poder”. P. 24.

Theodore Dalrymple é um Psiquiatra que tem uma substancial literatura que trata de temas culturais contemporâneos. O título desse livro é polêmico e pode gerar preconceito antes que o leiamos. A ideia que ele passa do que seja o preconceito é diferente do que vemos nos dicionários, apesar dele no início já trazer a definição padrão, no Dicionário de Oxford.

Para mim, preconceito é termos juízos injustificados sobre algo ou alguém, mas que podem estar corretos, apesar de não podermos no momento do julgamento, legitimá-los mediante bons argumentos baseados em evidências. Como bem falou Hao Wang, Ph.D em Filosofia na Universidade de Harvard:

"É claro que um preconceito não é necessariamente falso. E, sim, uma crença fortemente aceita e não garantida pelas evidências disponíveis, sendo a intensidade da convicção desproporcional em relação às evidências que a sustentam". P. 102.

BROCKMAN, John; MATSON, Katinka (Orgs). As Coisas São Assim: Pequeno Repertório Científico do Mundo que nos Cerca. São Paulo: Cia das Letras, 1997. (PDF).

Mas parece-me que o Dalrymple vê todo julgamento moral como preconceituoso, com a diferença de que uns são bons e outros são maus preconceitos. Para o autor todos os juízos valorativos são incapazes de serem justificados crítica e racionalmente. Contraditoriamente, ele escreveu um livro para mostrar a razoabilidade do que ele defende. Se tudo são preconceitos que não podem ser fundamentados com argumentos coerentes, como ele pode argumentar a favor do que defende, como sendo um bom preconceito? Ao que ele pode apelar, para mostrar a superioridade do que escreve, se não à argumentos que ele julga passados pelo crivo da coerência, consistência, validez e dados empíricos? Claro que ele acredita que a sua apologia é racional e coerente, e se ela é assim, ela já não é mais um preconceito de sua parte, mas um conceito bem formado.

Dalrymple trabalha mal, a ideia de preconceito. Em contrapartida, ele é um ótimo opositor do relativismo pós-moderno. E parte substancial de seu livro dedica-se a refutar as ideias e legado do Filósofo do século XIX, John Stuart Mill, a quem ele credita grande parte dos preconceitos danosos do nosso tempo.

Analisemos apenas um exemplo de sua confusão entre preconceito e conceito/ideia bem fundamentada:

“Derrubar determinado preconceito não significa destruir o preconceito enquanto tal. Na verdade, implica inculcar outro preconceito. O preconceito que afirma ser errado criar um filho fora do casamento foi substituído por outro que diz que não há absolutamente nada de errado com isso”. P. 32.

Há um equívoco aí. A pessoa que diz não ser errado criar um filho fora do matrimônio, pode apresentar evidências, tais como pesquisas históricas, antropológicas, sociológicas, psicológicas, dados, estudos de caso, e tantas outras provas circunstanciais que mostram que é totalmente razoável criar uma criança na ausência de um pai ou de uma mãe, e que isso não prejudicará a educação e desenvolvimento emocional dela. Neste caso, não seria mais um preconceito substituindo outro, mas, sim, um conceito bem fundamentado nas ciências disponíveis, mostrando, que quem defende a criação de filhos fora do casamento não está sendo preconceituoso. De modo semelhante, o que diz ser errado criar, poderá apresentar suas evidências avaliadas criticamente, e, assim, não será mais um (mau ou bom) preconceito, mas uma ideia firmada e alicerçada. Ele mesmo escreve:

“Ao surgirem diferenças irreconciliáveis, muitas das discussões sobre questões substantivas são hoje em dia encerradas da seguinte forma: ‘Bem, a minha opinião é tão válida quanto a sua’. Pouco importa se entre os debatedores existe alguém que fez um estudo profundo sobre a questão, tem mais evidências à disposição e construiu uma moldura lógica para articulá-las, e se as pessoas que reivindicam igual ‘validade’ para as suas opiniões sobre a questão nunca tenham antes pensado no assunto e se apresentam como totalmente ignorantes diante de tudo aquilo que é mais relevante". P. 50.

Se é dessa forma como está escrito acima, não é mais uma briga entre o mau preconceito e o bom preconceito. É a luta do preconceito contra o conceito bem pensado, avaliado e escrutinado pelas evidências. Dalrymple confunde alhos com bugalhos. O título de seu livro se presta a causar uma polêmica desnecessária. 

Ainda neste tema de filhos fora do casamento, ele conta que certas adolescentes (de 13 anos de idade) de Londres, substituíram o preconceito de não ter filhos ainda jovens, pelo preconceito de que é bom ser mãe precocemente na adolescência. Dalrymple vê ambas as visões como preconceituosas, com a distinção é claro de que o preconceito dessas adolescentes de serem mães jovens, é um mau preconceito que substituiu um bom preconceito. Mas pode-se mostrar a essas adolescentes, que ser mãe muito jovem não é legal, dando vários motivos e provas de que mães adolescentes perdem muitas oportunidades de estudo, perda de juventude, de que terão dificuldades em encontrar um bom emprego e etc. Mais uma vez repito: Neste caso, não seria preconceito algum, mas uma visão aprovada pelos inúmeros exemplos de mães jovens que foram prejudicadas por terem filhos tão cedo em suas vidas. Um conceito ancorado em boas provas. 

Ao longo do livro vários exemplos são dados sobre os preconceitos (que ele acha) ruins, que diga-se de passagem, são os que estão substituindo os milenares e centenários preconceitos (que ele acredita que a maioria deles são os bons preconceitos).

“Em geral é muito mais fácil substituir um bom preconceito por um ruim, do que o contrário, e talvez isso ocorra (falo aqui como alguém desprovido de crenças religiosas) porque o coração do homem se inclina mais ao mal do que ao bem, mais à gula do que à moderação, ao ódio do que ao amor, à preguiça e não à indústria, ao orgulho em vez da modéstia, e assim por diante.” P. 79.

Ele diz que banir as velhas proibições, resultarão em novas proibições.

“À medida que proibições morais tradicionais, inibições e antigas considerações são destruídas pela crítica corrosiva da verborreia filosófica, novas proibições imediatamente aparecerão para preencher o vácuo gerado.” P. 59.

“Uma filosofia que se destine a destruir a influência do costume, da tradição, da autoridade e do preconceito de fato destrói costumes particulares, como também tradições, autoridades e preconceitos específicos, mas apenas para substituí-los por outros. Tanto nesse aspecto da existência humana como em todos os outros, o novo poderá ser melhor que o antigo, mas também poderá ser pior”. P. 62.

Dalrymple dá umas boas cacetadas no relativismo, o que muito me agrada.  

“[...] é muito fácil exagerar ou superestimar a natureza provisória do conhecimento científico. Quando um biólogo eminente que conheço encontra alguém que diz a ele que, afinal de contas, a ciência trabalha apenas com hipóteses, ele costuma responder: 'Mas o sangue de fato circula'. Não mais esperamos que se façam experimentos cujo intuito seria provar a não circulação do sangue, da mesma forma que não esperamos que um matemático apareça com a hipótese de que dois mais dois não somariam quatro”. P. 47.

Mas o pessoal de humanas continua teimando, teimando e teimando - relativizando a ciência quando lhes é conveniente. Idolatram as verborragias de Foulcault e cia.

Ao contrário do que dizem os pós-modernos, o conhecimento verdadeiro pode ser buscado e alcançado.

“Depreende-se como uma das grandes conquistas de nossa civilização o fato de, num grau sem paralelo em outros lugares, ela ter criado os meios institucionais através dos quais o conhecimento genuíno pode ser buscado e disseminado, e por ter examinado simultânea e continuamente a força das evidências sobre as quais esse conhecimento se baseia. Essas instituições operam na medida em que são livres, é claro, embora não livres de preconceito ou de ideias preconcebidas, pois isso seria impossível, mas livres para examinar esses preconceitos e ideias preconcebidas à luz das novas evidências, modificando ou rejeitando os antigos modelos à medida que isso se torna intelectualmente necessário. Todavia, essa liberdade não pressupõe necessariamente o seu mau uso: o sábio questiona apenas aquelas coisas que merecem questionamento.” P. 47.

Algumas verdades também são ditas sobre o socialismo:

“Recentes tentativas de se promover a plena igualdade, tanto econômica quanto social, não foram completamente felizes, todavia. De fato, essas tentativas tiveram como resultado as piores atrocidades da história da humanidade. A mais radical entre elas foi a do Khmer Vermelho no Camboja, e o Sendero Luminoso no Peru cometeria atrocidades semelhantes, embora em escala muito maior caso não tivesse sido derrotado. É uma questão em aberto saber se, por trás do anseio por igualdade, esconde-se o anseio por poder. Tudo o que pode ser dito é que sempre que o anseio se expressa de maneira intransigente, os horrores mais atrozes advirão.” P. 75-76.

quinta-feira, 17 de maio de 2018

Sobre a Tirania: Vinte Lições do Século XX Para o Presente



SNYDER, Timothy. Sobre a Tirania: Vinte Lições do Século XX Para o Presente. São Paulo: Companhia das Letras, 2017. (PDF).

“A história tem o poder de familiarizar e também de advertir”. P. 06.

Timothy Snyder (Professor de História na Universidade de Yale), temendo o avanço de forças antidemocráticas em seu país (EUA), escreveu este livro, para alertar seus leitores contra a tirania política, que sempre está à espreita, sorrateiramente pronta a tomar conta das instituições sociais, políticas e econômicas. Como diz Snyder: “A não história não se repete, mas ensina”. P. 06. Ele faz uso dos três exemplos clássicos do século XXI (comunismo, fascismo e nazismo), conclamando a todos a detectarem certas características destes regimes tirânicos, totalitários e desumanos, que estão aí, sendo apologeticamente defendidos por muitos indivíduos, partidos políticos, instituições paramilitares e etc. Devemos contestar, refutar e lutar contra ideias e conceitos que firam o processo democrático, pois as carcaças moribundas da tríade diabólica do século passado ainda querem causar mais destruição.

"A história europeia do século XX nos mostra que as sociedades podem ruir, que as democracias podem entrar em colapso, que a ética pode ser aniquilada e que os homens comuns podem se ver diante de valas comuns com armas nas mãos". P. 07.

A URSS querendo pôr os seus planos em funcionamento, jogou a população camponesa mais pobre contra a que tinha mais terras, resultando na plena submissão e destruição de ambas.

"Na União Soviética governada por Ióssif Stálin, fazendeiros prósperos eram representados em cartazes de propaganda como porcos — uma desumanização que, num ambiente rural, sugere claramente o assassinato. Era o começo da década de 1930, quando o Estado soviético procurava dominar o campo e arrancar da zona rural o capital necessário para uma rápida industrialização. Os camponeses que eram donos de mais terras ou animais que outros foram os primeiros a perder o que tinham. Um vizinho retratado como um porco é uma pessoa de cuja terra você pode se apossar. No entanto, aqueles que obedeciam à lógica simbólica também se tornaram vítimas. Depois de fazer com que os camponeses mais pobres se voltassem contra os mais ricos, o poder soviético apoderou-se da terra de todos para criar novas fazendas coletivas. Uma vez completada, a coletivização levou grande parte do campesinato soviético a passar fome. Entre 1930 e 1933, milhões de pessoas na Ucrânia soviética, no Cazaquistão soviético e na Rússia soviética morreram de maneira horrível e humilhante. Antes que o processo de coletivização chegasse ao fim, os cidadãos soviéticos se alimentavam de cadáveres." P. 17.

Na oitava lição dada por Snyder, devemos nos destacar, e não sermos passivos diante do mal que se aproxima. Churchill é o seu exemplo:

“Adolf Hitler não demonstrava nenhuma animosidade especial em relação à Grã-Bretanha ou ao seu império, e na verdade imaginava uma divisão do mundo em esferas de interesses. Esperava que Churchill aceitasse uma composição depois da queda da França. Não foi o que Churchill fez. Ele disse aos franceses: ‘não importa o que vocês fizerem, vamos lutar sempre e para sempre’. [...] Na verdade, foi o próprio primeiro-ministro que ajudou os britânicos a se definirem como um povo altivo que resistiria com tranquilidade ao mal. Outros políticos teriam buscado o apoio da opinião pública britânica para pôr fim à guerra. Em vez disso, Churchill resistiu, inspirou e venceu.” P. 26.

Leiamos mais livros (bons), nos cerquemos de boas informações e conhecimento, nos afastemos das frivolidades da TV e a da internet.

“Há mais de meio século, os romances clássicos sobre o totalitarismo advertiram quanto à dominação das telas, à supressão dos livros, ao estreitamento do vocabulário e às dificuldades subsequentes de pensar. [...] Olhar para telas talvez possa ser inevitável, mas o mundo bidimensional faz pouco sentido, a menos que possamos recorrer a um arsenal mental formado em outro lugar. Quando repetimos as mesmas palavras e frases que aparecem nos meios de comunicação diários, aceitamos a ausência de um quadro referencial maior. Dispor desse quadro referencial exige mais conceitos, e ter mais conceitos exige leitura. Por isso, afaste as telas de sua vida e cerque-se de livros”. P. 30.

Sempre é um alento ler Historiadores não mancomunados com o relativismo pós-moderno:

"Abandonar os fatos é abandonar a liberdade. Se nada for verdadeiro, ninguém poderá criticar o poder, porque não haverá uma base para fazê-lo. Se nada for verdadeiro, tudo é espetáculo. A carteira mais recheada garante a pirotecnia mais ofuscante." P. 32.

“'O que é a verdade, afinal?' Às vezes as pessoas fazem essa pergunta porque não querem fazer nada. Aderindo ao cinismo genérico nos sentimos descolados e alternativos, mesmo quando afundamos com nossos concidadãos num atoleiro de indiferença. É a sua capacidade de discernir fatos que faz de você um indivíduo, da mesma forma que é a nossa confiança coletiva num conhecimento comum que faz de nós uma sociedade." P. 36.

Nesses tempos de tanta tensão política por todos lados, não é difícil vermos pessoas cegas pela ideologia que professam, e por políticos e figuras públicas que endeusam. É um antigo defeito humano, que Snyder exemplifica bem:

“Renunciar à diferença entre o que se quer ouvir e o que de fato é verdadeiro é uma maneira de se submeter à tirania. Essa recusa à realidade pode parecer natural e agradável, mas o resultado é o seu fim como indivíduo — e, assim, o colapso de qualquer sistema político que dependa do individualismo. [...] Doze anos mais tarde, após todas as atrocidades e no fim de uma guerra que a Alemanha tinha claramente perdido, um soldado amputado disse a Klemperer [Professor alemão] que Hitler ‘nunca disse uma só mentira. Eu acredito em Hitler’. [...] Depois que a verdade se [torna] oracular, em vez de factual, as evidências [são] irrelevantes. No fim da guerra, um trabalhador declarou a Klemperer que ‘compreender é inútil, é preciso ter fé. Eu acredito no Führer’.” P. 33.

Ah, o nosso mundo facebookiano...

“Na eleição presidencial de 2016, o mundo bidimensional da internet foi mais importante que o mundo tridimensional do contato humano. Pessoas que iam de porta em porta para fazer pesquisas de opinião ou angariar votos eram recebidas por cidadãos americanos espantados, que se davam conta de que teriam de falar de política com um ser humano de carne e osso, em vez de ver suas opiniões validadas por postagens no Facebook. No mundo bidimensional da internet, surgiram novas coletividades, invisíveis à luz do dia — tribos com diferentes visões do mundo, entregues a manipulações. (E, sim, há uma conspiração que se pode encontrar on-line: a conspiração para mantê-lo conectado, à procura de conspirações). P. 36.

sexta-feira, 13 de abril de 2018

O que é Comunismo



SPINDEL, Arnaldo. O que é Comunismo. 18 Ed. São Paulo: Brasiliense. (PDF).

Uns amam, outros odeiam. Uns ainda acreditam que ele irá se concretizar, apesar de todos os esforços fracassados do século XX. Outros acreditam que o marxismo está mais forte do que nunca, agora, nas Universidades, como “marxismo cultural”, contaminando a todos os alunos, mediante o doutrinamento de Professores que foram alienados quando eram simples discentes nos cursos de humanas. De vítimas, estes docentes passaram a serem vilões. É uma cadeia contínua.

Temos também as tentativas teimosas que se arrastam há décadas, de Cuba e Coreia do Norte, que insistentemente mantém os seus habitantes debaixo de um socialismo derrotado e tirânico. Mas isto é a maneira como vejo, que é claro, penso ser a mais correta diante dos fatos históricos e empíricos que presenciamos. Spindel não entrará nesses julgamentos valorativos, dizendo se o comunismo é bom ou ruim. Este pequeno livro é um pouco antigo, foi escrito quando a URSS existia.

As ideias de Marx e Engels surgem no século XIX, dentre várias outras teorias socialistas. Quando as ideias marxistas passam a ser abraçadas pela maioria dos operários, Marx então resolve usar sinonimamente os termos Socialismo e Comunismo. Discípulo de Marx, Lenin, líder da Revolução Russa de 1917, para diferenciar a sua visão das demais alas socialistas, passa a chamar a sua visão de comunista apenas.

Spindel trata principalmente em seu pequeno livro do Marxismo-Leninismo e do comunismo brasileiro, em seus desdobramentos históricos. Ele fala pouco sobre as concepções teóricas de Marx e Engels.  

Para Marx o comunismo era o estágio final da história humana, onde não haveria exploradores e nem explorados. Uma espécie de escatologia materialista, uma volta ao éden bíblico, mas sem a tentação da serpente e sem nenhum deus para interferir. Apenas seres humanos de boa vontade e altruístas vivendo numa sinfonia e harmonia perfeitas.

“Comunismo, para ele [marx], era o estágio da sociedade humana onde não mais existiriam exploradores e explorados, onde a exploração do homem pelo homem tivesse chegado a seu fim. O homem, a sociedade e a natureza formariam um todo harmônico; o sonho do Homem Integral estaria realizado.” P. 07.

Difícil não ver na visão de Marx um paralelo com a tradição cristã, que olha para o final da história, como algo grandioso, onde os justos herdarão a terra, e os ímpios rebeldes serão despojados de quaisquer privilégios, sendo condenados. Troque os justos da história bíblica, pela classe operária, trabalhadora e oprimida, e os ímpios pela classe dominante, a burguesia, que você estará diante de um “cristianismo” comunista/socialista – o reino milenial, o novos céus e nova terra preconizados pelos camaradas.

O barbudin da era vitoriana via que o desenrolar da história estava assentado única e exclusivamente em bases materiais, uma luta de classes constante, dominadores/dominados-opressores/oprimidos, que dão um rumo dialético (divergência de princípios – tese e antítese) ao processo histórico, fosse aonde fosse, independente de país, cultura, lugar, região. O marxismo é uma metanarrativa, ou seja, é um discurso com pretensões universais válido para todas as épocas e lugares.

Umas das grandes ironias do nosso tempo é que os que mais simpatizam com as ideias de Marx, são aqueles que mais querem um estado forte em todas as instâncias da sociedade. Sendo que para ele: “O Estado, na concepção marxista, não passa de um instrumento de dominação de uma classe social sobre outra. O Estado nasce devido à existência de antagonismos inconciliáveis entre as classes sociais; ele responde à necessidade da classe mais forte de dominar a mais fraca.” P. 13.

Para Marx:

“A classe economicamente mais poderosa utiliza o Estado para impor uma ‘ordem’ social, preservar uma situação que lhe é favorável e, principalmente, para transformar-se na classe politicamente dominante, obtendo assim novos meios de oprimir e explorar a classe mais fraca.” P. 14.

E não foi exatamente isso que aconteceu e acontece nos regimes socialistas? Na URSS, Cuba, Coreia do Norte, China... Não adianta, os comunistas atuais, culparem os países capitalistas e fazerem igual ou pior. Essa “ordem social” não foi imposta debaixo de cacete, em todos esses lugares? Não foi o Comintern responsável por tantas mortes políticas e de civis?

Os comunas do presente dizem que são a favor de um Estado Proletário (a classe trabalhadora e honesta na condução do poder), na passagem para o real socialismo, no qual não haverá mais a necessidade de um Estado controlador. É espantoso saber que AINDA muitas pessoas depositam sua fé nesse discurso, sobretudo tendo ciência dos exemplos citados. A história já não mostrou exaustivamente que esse papo não cola mais? O comunismo teve durante décadas a chance de concretizar o seu sonho socialista. Mas o que vimos foi uma classe dominante explorando e matando cruelmente as classes mais pobres. Massacraram os seus cidadãos em campos de escravidão, fuzilamento, fomes...

Spindel falará que com a eclosão da revolução e sua consolidação na Rússia, os comunistas esperavam que outros países também aderissem ao comunismo, a maior esperança naquele momento era que a Alemanha fosse a primeira, visto que ela e a Europa de um modo geral estavam bastante fragilizadas e enfraquecidas em suas economias, por causa da Primeira Guerra Mundial. Existia um desânimo e descontentamento generalizado.

Os comunas russos queriam que o comunismo fosse pensado nos outros países a partir de sua própria visão, não levando em conta as idiossincrasias de cada nação, inclusive no Brasil.  “[...] a maior parte dos dirigentes soviéticos insistia em pensar nas revoluções dos demais países apenas em função da sobrevivência de seu regime.” P. 19-20. Conforme Stálin vai ganhando mais e mais poder, e consolidando a sua tiraria implacável, mais intolerante e avessa as discordâncias e opiniões, a Internacional Comunista passa a reger com mãos de ferro os diversos partidos comunistas dos outros países. “[...] o Comintern passa a aplicar uma política ultra-sectária.” P. 23.

Quanto ao desejo de uma revolução na França, os ventos de uma possível guerra com a Alemanha nazista, quase duas décadas após a revolução russa, mudariam o olhar stalinista sobre aquela nação. Naquela conjuntura sócio-política delicada, não era viável uma França revolucionária, segundo a ótica comunista. Uma França enfraquecida com uma guerra civil, não teria forças para combater as forças de Hitler. Era mais vantajoso para os interesses russos, que naquele momento, 1936, a França continuasse um país burguês forte, apto a enfrentar a Alemanha.  

Em relação a China, quando esta adere ao comunismo, Mao Tsé Tung e Stálin, possuem uma boa relação política, mas os ventos amistosos começam a mudar entre as duas potências, quando da morte de Stálin e a subida de Kruschev ao poder, na década de 1950. Visões ideológicas díspares surgem, fazendo com que a China levasse o seu comunismo adiante sem levar em conta as diretrizes soviéticas, sobretudo porque está tinha uma visão de boa vizinhança com o bloco capitalista, algo que a China contestava.

O comunismo teve os seus flertes em terra brasílicas, quando anarquistas começaram a ver que os ideais comunistas de um estado forte tinham mais chances de colocar abaixo a sociedade burguesa brasileira. “Com isto abriu-se a brecha por onde iria penetrar, no movimento operário de nosso país, a doutrina comunista na forma concebida por Marx e Lenin, e que levaria ao aparecimento do Partido Comunista no Brasil.” P. 31. Na década de 1920 os comunistas começam de fato as suas aventuras pelo nosso país.

Como já me estendi demais, paro por aqui, apenas ressaltando que boa parte do pequeno livro do Spindel é dedicado a falar de como os comunistas trabalharam em prol da revolução socialista tupiniquim, sem contudo (e graças a Deus por isso), terem êxito.

domingo, 8 de abril de 2018

A Conquista do Brasil 1500-1600



GUARACY, Thales. A Conquista do Brasil 1500-1600. 1. ed. - São Paulo: Planeta, 2015. (PDF).

Um livro que se propõe a contar os primeiros 100 anos de nossa história, mas que só vai até os anos da década de 1570. Guaracy investe muitas páginas nas batalhas travadas pela Baía da Guanabara, no Rio de Janeiro, onde houveram massacres sangrentos pela posse da terra. A partir da conquista definitiva, o Brasil passa a ser o foco principal de Portugal em suas investidas comerciais e econômicas, esquecendo-se das Índias e da África, que já não estavam sendo muito lucrativas.

Quanto aos jesuítas, não foram santos. Manoel da Nóbrega e José de Anchieta, por diversas vezes foram cruéis e impiedosos, diante da frustração de não conseguirem convencer os silvícolas a se converterem a sua fé e a cederem aos caprichos dos portugueses. Os jesuítas foram de importância máxima na alienação de indígenas e nas posses das terras brasileiras por Portugal.

Guaracy também gasta muito tempo, trazendo detalhes da antropofagia indígena, que aterrorizava (e não sem razão) os colonizadores, que nunca tinham presenciado até então, pessoas comendo pessoas.

Um ponto importante de sua obra é a figura de João ramalho, um português degredado, que passou a viver como uma espécie de cacique indígena, super bem adaptado ao modo de vida nativo. Ele e seus filhos mestiços deram muitas dores de cabeça aos jesuítas, soldados e aos governadores-gerais, mas também foi uma pessoa relevante na negociação entre os portugueses e indígenas. Eu desconhecia esse personagem tão marcante na história das primeiras décadas de nosso país.

Livro bom.

Os portugueses chegaram e arrasaram as tribos aqui existentes. E não adianta querermos amenizar esse genocídio, dizendo que os índios se matavam entre si, em suas guerras tribais. Genocídios não podem ser justificados por outros genocídios.

“Nessa época [1500], de acordo com os números mais aceitos por historiadores e antropólogos, estima-se que havia no território correspondente ao Brasil atual cerca de 3 milhões de índios, população duas vezes maior que a de Portugal, então com 1,5 milhão de habitantes. Ao longo da costa, estima-se que havia 1 milhão de tupis. O que a história registra a partir daí é apenas a versão do colonizador sobre a terra ‘descoberta’. Mesmo assim, os documentos oficiais de autoridades administrativas, cartas dos jesuítas e registros de viajantes envernizados de civilização europeia revelam sem culpas, como um direito quase natural, a violência bárbara da ocupação portuguesa, marcada pela escravização e, depois, pelo extermínio da civilização nativa, além do confronto mortal com outros europeus que ousaram disputar a riqueza brasileira.” P. 11-12.

Os indígenas eram na visão dos portugueses e dos jesuítas, pessoas inferiores, mesmo que fossem passíveis da “salvação” católica.

“O termo ‘índio’ não aparece entre os primeiros cronistas. Nas cartas dos jesuítas, viajantes e governantes portugueses do século XVI, eles se referem aos nativos brasileiros como ‘gentios’, os pagãos, em contraposição aos cristãos, ou mesmo ‘negros’, como os chama o padre Manoel da Nóbrega – termo que na época não designa necessariamente a cor, mas a gente da terra, com certa conotação de inferioridade, que o jesuíta empregava também para os mouros”. P. 12.

Engraçado que um perpetrador de assassinatos, em 2014, foi consagrado santo católico. É a igreja do Vaticano com as suas incoerências. Falo de José de Anchieta, que não foi nenhum santo, mas um agente de destruição de índios, juntamente com Manoel da Nóbrega.

“Santificados como missionários [os jesuítas Manoel da Nóbrega e José de Anchieta] que arriscavam a vida para converter índios ‘selvagens’ ao catolicismo, na realidade eram homens devotados à Inquisição portuguesa, com vocação política e moral por vezes duvidosa, se considerada pelos critérios do mundo contemporâneo. Também por vezes cruéis e impiedosos, não destoavam muito dos comerciantes ávidos e aventureiros com quem eventualmente precisavam se associar para implantar seu projeto de dominação religiosa e política no Brasil”. P. 14.

Os homens indígenas para cortejar o sexo oposto é que se enfeitavam:

"Ao contrário da sociedade europeia, onde tradicionalmente cabia à mulher enfeitar-se para atrair o homem, os índios eram como os pavões, nos quais somente o macho possui a cauda vistosa, para impressionar as fêmeas e assustar o inimigo". P. 23-24.

A antropofagia indígena era algo de embrulhar o estômago de qualquer europeu:

“[O prisioneiro de guerra] acabava sempre executado com um golpe na base da cabeça que lhe espatifava o crânio. De acordo com Staden [mercenário alemão do século XVI], em seguida à execução os índios esfolavam o corpo e tapavam o ânus do cadáver com um pedaço de madeira para não perder as vísceras. O corpo era esquartejado e assado no moquém. As mulheres e crianças (os ‘curumins’) ficavam com as vísceras, a língua e os miolos, recolhidos do chão em uma cabaça por uma das mulheres. Desses miúdos se fazia uma pasta rala chamada ‘mingau’, nome até hoje utilizado no Brasil para a papa das crianças. O sangue da vítima era recolhido pelos índios para banhar seus filhos homens, de modo a torná-los mais corajosos.

Os índios aguardavam que a carne esfriasse para comê-la, acompanhada de goles de cauim e baforadas de tabaco. As sobras eram assadas novamente e esfriadas quando quisessem consumi-las outra vez. Staden viu a carne de um português que conhecia, chamado Jerônimo, ficar pendurada três semanas na maloca onde dormia, sobre um fumeiro, ‘até que ficou seca como um pau’.” P. 25-26.

Comendo o prisioneiro de guerra, pensava-se que as suas virtudes eram ingeridas:

“Devorando o inimigo valoroso, os tupinambás acreditavam que se alimentavam também da sua bravura. Pela mesma razão, não comiam a carne daqueles que consideravam covardes, assim como de bichos de que não gostavam, como a preguiça, por acreditarem que ficariam mais lentos em combate. Desdenhavam dos portugueses por sua covardia. Na aldeia de Ubatuba, quando procurava salvar-se, dizendo que não era português, Hans Staden ouviu de seus algozes, conforme conta: ‘É um português legítimo, agora grita, apavora-se diante da morte’.” P. 27.

Os portugueses não eram altruístas e não estavam ali para ter piedade das comunidades nativas, no entanto, apesar de toda uma lógica interna dentro da visão indígena, para que crianças nascidas com deformidades sejam enterradas vivas, não podemos deixar de ver tal prática como um aspecto maléfico dessa visão. Algumas tribos ainda praticam hoje, o enterro de bebês vivos. Guaracy relata um caso presenciado pelo José de Anchieta:

“Num ambiente onde o indivíduo precisava sobreviver, e não podia se tornar um fardo para a coletividade, as crianças [indígenas] nascidas com deformidades, ou consideradas incapazes, eram eliminadas em seu nascimento, como acontece com os animais que matam as próprias crias que não se sustentarão sozinhas e, dessa forma, se tornarão um problema para o bando. Na carta ao padre-geral de São Vicente, em 31 de maio de 1560, José de Anchieta narra ter presenciado a execução de uma criança que nascera com um nariz que descia até o queixo, como uma tromba, e tinha a boca abaixo dele. Como se fazia nesses casos, o bebê foi enterrado vivo.” P. 28.

No contato com os europeus, muitas tribos foram dizimadas por doenças, as quais não tinham defesa natural.

“Livrar um índio de alguma doença era um bom começo para a catequese, melhor que o antigo discurso jesuíta, que ameaçava as tribos com desgraças e o fogo do inferno. Mesmo assim, Anchieta registra muitas mortes por doença, em função do próprio contato com o branco, causa que ele escamoteava para não perder também os acólitos que lhe sobravam vivos. Segundo ele, os carijós foram uma das tribos dizimadas por doenças originárias do convívio com os portugueses: ‘acometeu-os uma enfermidade repentina e morreram quase todos’.

Os jesuítas procuravam mudar os costumes indígenas, mas durante bastante tempo tiveram de tolerar os rituais que consideravam mais bárbaros. Em sua carta, Anchieta conta como, depois de uma luta contra os tupiniquins, dois guerreiros guaianazes mortos em batalha foram enterrados conforme o costume cristão. Os inimigos, porém, encontraram as covas, desenterraram os corpos e levaram os cadáveres para comê-los.” P. 60.

A igreja não via nenhum erro moral na escravização dos negros:

“Os jesuítas não se opunham à importação de escravos negros africanos, como acontecia nas posses portuguesas da Madeira e dos Açores e em Pernambuco e na Bahia. Não lhes interessava, ao final, se havia ou não escravidão, desde que todos estivessem ao alcance da influência catequética”. P. 101.

Ah, o amor cristão...