terça-feira, 26 de junho de 2018

A História Está Errada



DANIKEN, Erick Von. A História Está Errada. São Paulo: Idea, 2010.

Daniken é figura conhecida, quando se fala em Ufologia, viajantes espaciais de outros planetas, construção das pirâmides e de outros monumentos, por civilizações avançadas de outros planetas, aos quais os antigos habitantes da Terra, chamaram de deuses. Daniken a despeito de ser bastante criticado por outros estudiosos, continua a sua saga de provar que fomos visitados por seres tecnologicamente mais evoluídos, e que eles nos ensinaram a construir grandes e intrincados monumentos, e que até prometeram que irão voltar.

Ele gasta muitas páginas de seu livro falando sobre o misterioso e indecifrável manuscrito Voynich, que encontra-se atualmente na Universidade de Yale, e que ninguém conseguiu dizer sem sérias contestações, qual o significado de suas palavras e ilustrações. Não surpreende que Daniken atribua as gravuras e palavras ali contidas como sendo uma mensagem velada dos extraterrestres, que em breve serão finalmente descobertas. Semelhante aos religiosos que creem que ao final, as suas verdades absolutas serão expostas a todos, Daniken também nutre esse tipo de esperança.

“As conseqüências poderiam ser altamente inquietantes, pois a existência de extraterrestres, deixada de lado há milhares de anos atrás, geralmente nos força a tirar conclusões que arrebentam nossa visão atual das coisas. [...] Estamos marchando em linha reta diretamente para a era das maravilhas e do despertar.” P. 68.

Como nos seus outros livros, muita atenção é dada a Enoch, aquele obscuro personagem bíblico, que foi levado aos céus – não passou pela morte – mas que ao contrário da interpretação tradicional, o autor analisa tal história com os olhos modernos, ou seja, ele inverte a prática hermenêutica, vendo no livro de Enoch, não anjos, seres celestiais, ou Deus, mas naves tripuladas por alienígenas, que os antigos de maneira equivocada interpretaram como deuses. A tripulação que levou Enoch, voltará em breve, diz Daniken.

“Como você irá se comportar, quando os amigos alienígenas de Enoch realmente voltarem? E que eles irão voltar é tão certo quanto a noite segue o dia.” P. 87.

“Se ETs realmente visitaram nosso planeta há milênios atrás e passaram seu conhecimento para alguém, como Enoch, há muito o que fazer agora. Apenas pense, meu querido leitor, sobre o impacto na religião, as conseqüências filosóficas, as possibilidades para a tecnologia de vôo espacial, que pode atravessar anos-luz. Ou pense ainda na antiga promessa de uma segunda vinda, que aparece em praticamente em todas as religiões até o dia de hoje.” P. 75.

O que seriam encontros com anjos, seres enviados por Deus, para guiarem e ajudarem certas pessoas, na verdade, foram extraterrestres. Na verdade a Bíblia, por exemplo, é uma grande prova das visitações extraterrestres. Um dos encontros ufológicos mais emblemáticos encontra-se no livro de Ezequiel.

“As descrições altamente precisas feitas pelo profeta Ezequiel, na Bíblia, foram transformadas em ‘visões, sonhos, inspirações’ e outras mistificações semelhantes, embora ele claramente esteja falando sobre um ônibus espacial.” P. 80-81.

Não é surpresa, para quem lê literatura ufológica, tal modo de ver os textos bíblicos. Lembro-me que a primeira vez que li sobre isso, foi em 2003, numa edição da revista UFO, que trazia em sua capa a pergunta se Jesus era um extraterrestre. Os Ufológos, pelo menos grande parte deles, assim o creem. Nada mais natural, seguindo a linha interpretativa que eles têm sobre a história e os textos sagrados do passado.

A maneira correta de vermos as coisas, se aproxima. Nada modesto, Daniken vê a si  mesmo como parte crucial nesse processo.

“Alguém como eu, que tende a olhar um pouco mais para trás, nas brumas do tempo, poderia ajudar na aceleração ao longo deste tempo de despertar. Uma grande mudança está chegando e por mais que políticos, cientistas que se dão muita importância, e líderes religiosos, fervorosamente vociferantes, possam querer, nunca serão capazes de impedir. Não há vacina contra o pensamento. Idéias não conhecem fronteiras nem censura. E mais: idéias têm uma tendência perigosa de se alastrarem como o fogo.” P. 84-85.

Daniken reconhece que já cometeu equívocos interpretativos, que já errou, avaliando erradamente os dados, e que isto é combustível para os seus críticos descartarem tudo que ele já escreveu. Mas ele tem um recado a quem pensa assim:

“Errar é humano, como dizem, e admitir o erro não fere. Nas quase 9.000 páginas que escrevi, é inevitável que eu tenha cometido um ou outro erro, ou que ao longo do tempo revelou-se que o ‘outro lado’ estava certo, depois de tudo, e eu estava errado. [...] Agora, há algumas pessoas que agem como se um erro provado em uma teoria é suficiente para anular a idéia inteira. ‘Se uma peça de evidencia em seu livro não está certa’ - ouço isso freqüentemente – ‘então, tenho de assumir que toda outra evidência é falsa’. Segundo esta lógica absurda, teríamos de jogar fora praticamente todos os livros escolares, os livros didáticos, ou livros científicos por todo o planeta, porque o tempo nos mostra que muitas coisas que foram alguma vez consideradas como verdades inabaláveis são agora tidas como erradas.” P. 110-111.

Boa parte de A História Está Errada é uma defesa do próprio caráter e carreira do Daniken. Sua imagem ficou muito prejudicada devido aos seus problemas com Juan Moricz, um carinha que diz ter explorado um conglomerado de cavernas no Equador, que estavam (estão) cheias de placas de metais, que na visão de Daniken têm a ver com os livros ditados por extraterrestres a Enoch, milênios atrás, que foram trazidos para América, pelos jareditas, povo hebreu – história está contada pelo livro de Mórmon. Sim!, numa intricada e nada convincente argumentação, Daniken bota fé que o livro de Mórmon tem o seu quinhão de credibilidade, com o mesmo erro que a Bíblia, de atribuir a Deus, o que na verdade foram encontros com extraterrestres. Os metais presentes nesta caverna têm importância salutar para o futuro da humanidade. Esses escritos entregues a Enoch, em breve serão revelados a todos. Os Ets estão voltando. Que o diga o famoso Chico Xavier, para quem a Data Limite é 20 de julho de 2019.

Daniken teve sérios problemas, depois de ter publicado fotos dessas supostas cavernas, fornecidas Juan Moricz. Décadas depois do acontecido, Daniken retoma toda essa confusão, dando a sua versão dos fatos, declarando-se inocente.

Daniken é um homem que acredita só em ets, ou também acredita em Deus? Sim. Ele crer num Ser Todo Poderoso. Eis o que ele diz:

“Como um homem religioso, que ainda reza diariamente, minha fé começa com a criação do universo. MINHA idéia de Deus é a de um ser eterno, onipresente, atemporal e todo-poderoso, que nunca sentiu a necessidade de viajar ao redor da Terra, em qualquer tipo de veículo que levanta areia, faz muito barulho, irradia luz resplandecente e, o que é mais, é extremamente perigoso para qualquer humano nas vizinhanças.” P. 196.

E é exatamente por ser assim, ele não pode jamais ser o deus das religiões que conhecemos.

“O Deus verdadeiro, o Grande Espírito da Criação, não é responsável pela grande confusão de dogmas e religiões terrestres.” P. 208.

“[...] eu creio - que os alienígenas visitaram a Terra milhares de anos atrás. Isso leva ao nascimento das religiões de hoje e das sagradas escrituras. Como sabemos, cada religião neste hospício terrestre afirma que SUAS escrituras sagradas são as únicas verdadeiras. Em quem - pelo amor de Deus! - devemos acreditar? E NO QUE devemos acreditar? A maioria das religiões prediz algum tipo de julgamento final. Há religiões que anunciam que os infiéis serão cozidos vivos, afogados, espancados, esfaqueados, envenenados (com "água amarga"). Felizmente isso se aplica só aos infiéis - mas, espere! QUAIS infiéis? Aqueles que não acreditam no dogma católico? Aqueles que tiveram a infelicidade de não nascerem na Arábia ou terras asiáticas e nunca terem ouvido os ensinamentos do Islã ou da fé hindu? Aqueles que tiveram suficiente azar de crescer em uma seita cristã ou qualquer outra? Aqueles que são membros da religião xintoísta, no Japão, ou aqueles que não acreditam no Livro de Mórmon ou nos ensinamentos da Cientologia?

“Mesmo o cérebro mais modestamente inteligente precisa certamente começar a ver o problema. [...] Como dificilmente poderemos sustentar que o criador do universo é o responsável pela pletora de escritos sagrados existente em nosso planeta, então devemos olhar para outra fonte, para descobrir uma solução aceitável para o caos existente.” P. 208-209.

quinta-feira, 14 de junho de 2018

Contra a perfeição: Ética na Era da Engenharia Genética




SANDEL, Michael J. Contra a perfeição: Ética na Era da Engenharia Genética. 1. ed. - Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2013.

Michael Sandel, Ph.D em Filosofia Política na Universidade de Oxford, em mais um livro extraordinário, explica o porquê de ser “contra a perfeição” - ser contra o aperfeiçoamento genético, alegando que isso seria uma nova forma de eugenia. Alguns pontos de sua defesa podem ser discutidos e questionados, mas no geral suas argumentações são bastante plausíveis. As consequências de uma sociedade modificada geneticamente não parecem ser muito boas.

Sandel posiciona-se a favor das pesquisas com células tronco embrionárias, o que logicamente matará essas vidas humanas. Ele não acredita que o embrião (blastócito) tenha os mesmos direitos, o mesmo status, que nós, seres humanos nascidos, temos. Neste ponto, também estou com ele.  

Vamos ao livro.

Há muito tempo, os pais já tinham a preocupação na escolha do sexo de seus descendentes.

“Há séculos os pais tentam escolher o sexo dos filhos. Aristóteles aconselhava que os homens que desejavam um menino amarrassem o testículo esquerdo antes da relação sexual. O Talmude ensina que os homens que se contêm e permitem que as mulheres cheguem primeiramente ao orgasmo serão abençoados com um garoto. Outros métodos recomendados envolviam combinar o momento da relação sexual com a época da concepção ou as fases da lua.” P. 20.

Geralmente a escolha de meninos tem precedência, acarretando em vários abortos, na Índia.

“[...] em sociedades nas quais existe uma preferência cultural profunda por meninos, o aborto de meninas depois da determinação do sexo por meio dos exames de ultrassom tornou-se uma prática comum. Na Índia, o número de meninas a cada mil meninos caiu de 962 para 927 nas últimas duas décadas. A Índia proibiu o uso de exames de ultrassom para verificação do sexo de bebês, mas a lei raramente é cumprida. Radiologistas itinerantes com máquinas de ultrassom portáteis vão de cidadezinha em cidadezinha apregoando seus serviços. Uma clínica de Mumbai reportou que, de 8 mil abortos feitos ali, apenas um não o foi por motivos relacionados à escolha do sexo.” P. 21.

O aumento de drogas farmacêuticas ingeridas por crianças tiveram um aumento absurdo, devido as novas obrigações destinadas aos pequenos.

“Há quem atribua o enorme aumento nos diagnósticos de transtorno do déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) às novas demandas impostas às crianças. O dr. Lawrence Diller, pediatra e autor de Running on Ritalin (À base de ritalina), estima que de 5% a 6% das crianças americanas com menos de 18 anos (entre 4 e 5 milhões de jovens) são atualmente medicadas com ritalina e outros estimulantes para tratar o TDAH. (Os estimulantes combatem a hiperatividade, facilitando que as crianças mantenham o foco e a atenção e impedindo que elas se desviem de uma coisa para outra.) Ao longo dos últimos 15 anos, a produção legal de ritalina aumentou 1.700%, e a produção da anfetamina Adderall, também usada para tratar o TDAH, aumentou 3.000%. Para as empresas farmacêuticas, o mercado americano da ritalina e de outros medicamentos relacionados é uma mina de ouro: rende US$ 1 bilhão por ano.” P. 45.

Sandel mostra a incoerência daqueles que não se posicionam contra a FIV, mas são contra as pesquisas com células embrionárias.

“Se é imoral produzir e sacrificar embriões com o intuito de curar ou tratar doenças terríveis, por que não seria igualmente censurável produzir e descartar embriões excedentes em tratamentos de infertilidade? Ou, olhando o argumento de trás para a frente: se produzir e sacrificar embriões vindos de FIV [Fertilização in Vitro] é moralmente aceitável, por que produzir e sacrificar embriões para pesquisas com células-tronco não o seria? Afinal, as duas práticas servem a fins valorosos, e curar doenças como o mal de Parkinson e o diabetes é no mínimo tão importante quanto tratar a infertilidade.” P. 73.

Os embriões congelados aos milhares, deveriam ser usados para pesquisas médicas, visto que qualquer jeito serão descartados.

“[...] o fato é que a FIV, como é praticada nos Estados Unidos, produz dezenas de milhares de embriões excedentes destinados à destruição. (Um estudo recente revelou que cerca de 400 mil embriões congelados estão definhando em clínicas de fertilidade americanas, contra 52 mil no Reino Unido e 71 mil na Austrália.) É verdade que, uma vez que esses embriões condenados existem, ‘não haveria nada a perder’ se fossem utilizados em pesquisas.” P. 74.

Sandel argumenta que o embrião não é pessoa humana.

“A dificuldade de especificar o início exato da pessoalidade no curso do desenvolvimento humano não significa, entretanto, que os blastocistos sejam pessoas. Considere a seguinte analogia: suponha que alguém lhe pergunte quantos grãos de trigo constituem uma pilha. Um único não constitui, nem dois, nem três. O fato de não haver nenhum ponto não arbitrário que estabeleça quando a adição de mais um grão fará um punhado virar uma pilha não significa que inexista diferença entre um grão e uma pilha. Nem nos dá, tampouco, motivos para concluir que um grão deve ser uma pilha.

Esse enigma de especificar pontos em um continuum, conhecido pelos filósofos como ‘paradoxo sorites’, remonta aos antigos gregos. (‘Sorites’ vem de soros, a palavra grega para ‘pilha’, ou ‘monte’.) Os sofistas usavam argumentos do tipo sorites para tentar convencer seus ouvintes de que duas qualidades distintas ligadas por um continuum eram na verdade a mesma, ainda que a intuição e o senso comum sugerissem o contrário. A calvície é um exemplo clássico. Todos concordariam que um homem com um único fio de cabelo na cabeça é careca. Que quantidade de fios marca a transição entre ser careca ou não? Embora não haja resposta determinada a essa pergunta, não se depreende com isso que não exista diferença entre ser careca e ter uma cabeça cheia de cabelos. O mesmo vale para a condição de pessoa. O fato de haver um desenvolvimento contínuo que transforma o blastocisto em embrião implantado, este em feto e, finalmente, em recém-nascido não determina que um bebê e um blastocisto sejam, no sentido moral, equivalentes.” P. 78.

Entre salvar uma criança ou vinte embriões, quem nós salvaríamos?

“Considere a seguinte situação hipotética (sugerida pela primeira vez, até onde sei, por George Annas): suponha que houvesse um incêndio em uma clínica de fertilidade e que você só tivesse tempo para salvar uma menina de 5 anos ou uma bandeja com vinte embriões congelados. Seria errado salvar a menina? Ainda preciso encontrar um defensor do status moral equivalente que diga que escolheria salvar a bandeja de embriões. Mas, se você realmente acreditasse que aqueles embriões são seres humanos, e todos os demais fatores fossem idênticos (isto é, se você não tivesse nenhuma relação pessoal nem com a menina nem com os embriões), sob que bases você poderia justificar salvar a menina?” P. 80.

Por mais que façam barulho, nem os “pró-vida” agem como se os embriões tivessem o mesmo valor de uma pessoa nascida.

“Porém o modo como reagimos à perda natural de embriões sugere que não consideramos esse acontecimento equivalente à morte de uma criança, nem do ponto de vista moral nem do ponto de vista religioso. Até mesmo as tradições religiosas que mais respeitam a vida humana incipiente não pregam que se façam os mesmos rituais funerários para a perda de um embrião e a morte de uma criança”. P. 81.

Qual a concepção filosófica que dá sustentação a convicção de que o embrião é uma pessoa?

“A convicção de que o embrião é uma pessoa deriva não apenas de certas doutrinas religiosas como também da alegação kantiana de que o universo moral se divide em termos binários: tudo ou é pessoa, digna de respeito, ou coisa, sujeita ao uso.” P. 82.

Não tratei da argumentação dele, contra o aperfeiçoamento genético. Para quem quer saber, basta ler o livro.

quarta-feira, 13 de junho de 2018

O Livro Ilustrado dos Maus Argumentos



Almossawi, Ali. O Livro Ilustrado dos Maus Argumentos. Rio de Janeiro: Sextante, 2017. (PDF).

"Este livro trata fundamentalmente do que não se deve fazer em uma argumentação. [...] Logo ficou evidente para mim que formalizar o raciocínio traz benefícios como clareza de pensamento e expressão, aumento de objetividade e autoconfiança. A capacidade de analisar os argumentos dos outros também ajuda a perceber o momento certo de se retirar de discussões infrutíferas. A lógica não gera novas verdades, mas permite que se verifiquem a consistência e a coerência das cadeias de pensamento existentes. Exatamente por isso é uma ferramenta eficaz para a análise e a comunicação de ideias e argumentos." P. 08-09.

“Hoje, com as redes sociais, há cada vez maior participação no debate público sobre fatos do dia, política, liberdades civis. Mas há uma notável falta de raciocínio lógico e fundamentação em boa parte desse discurso”. P. 08.

Livro de importância salutar para identificar as falácias (erros de raciocínio) que brotam por todos os lados. Como parte de nossas vidas está no mundo virtual, o que mais vemos, são pessoas opinando sobre os mais diversos assuntos, com argumentos paupérrimos, sem fundamentação alguma. Falta-lhes raciocínio lógico; falta-lhes validez, solidez e consistência, no que dizem. As conclusões muitas vezes podem até ser verdadeiras, mas falham na construção das premissas para prová-las, ou mostrar a sua razoabilidade. E não quero me eximir: também cometo tais erros.

O mais assustador é que as pessoas que a princípio não deveriam incorrer corriqueiramente em falácias tão simples, são tão suscetíveis quanto os adolescentes imaturos de 15, 16 anos, a caírem nos laços dos erros de raciocínio. Professores, bacharéis, acadêmicos, autodidatas... Quantas vezes já não me deparei com Professores universitários lançando mão de argumentos infantis, para defenderei suas ideologias. Hoje em dia com a polarização ideológica tão acentuada, parece que os mais “estudados” são os mais falaciosos em seus discursos. Os alunos destes, estão seguindo em suas trilhas do erro.

É mais que imprescindível que estejamos treinados em identificar os erros de lógica nos discursos e apologias alheias, e não esquecendo de detectar e admitir os nossos.

Não é fácil olharmos para nossas ideias e visões, e dizer: estou/estava errado. Nosso ego é um inimigo com quem devemos lutar diariamente, colocando-o debaixo de nossos pés. Podemos estar errados em nossas convicções mais caras.

Vamos a algumas falácias que o livro apresenta.

Falácia a Partir das Consequências:

O argumento a partir das consequências consiste em defender ou refutar a veracidade de uma declaração apelando às consequências que ela teria se fosse verdadeira (ou falsa). Mas o fato de uma proposição levar a um resultado desfavorável não significa que ela seja falsa. Da mesma forma, o simples fato de ter consequências positivas não torna a afirmação automaticamente verídica. [...] Vamos analisar a citação de Dostoievski: ‘Se Deus não existe, então tudo é permitido.’ Deixando de lado as discussões morais, o apelo às consequências sombrias de um mundo puramente materialista não prova nada sobre a existência ou não de Deus. [...] A falácia do argumento a partir das consequências pode ser reconhecida como uma pista falsa ou manobra de distração, porque sutilmente desvia a discussão da proposição original – neste caso, em direção ao resultado e não ao mérito da proposta em si”. P. 12.


Falácia do Espantalho:


“A falácia do espantalho consiste em apresentar de forma caricata o argumento da outra pessoa, com o objetivo de atacar essa falsa ideia em vez do argumento em si. Deturpar, citar de maneira incorreta, desconstruir e simplificar demais o ponto de vista do adversário são formas de cometer essa falácia. [...] Além disso, acaba levando o oponente a perder tempo defendendo-se da interpretação ridícula de seu argumento, em vez de sustentar sua posição original.


Por exemplo, um cético em relação à teoria de Darwin poderia dizer: ‘Meu oponente está tentando convencer você de que nós evoluímos dos macacos que se balançavam em árvores; uma afirmação realmente grotesca.’ Essa é uma deturpação do que a biologia evolutiva afirma de fato, que é a ideia de que humanos e chimpanzés compartilharam um ancestral comum há milhões de anos. Deturpar a ideia é muito mais fácil do que refutar suas evidências.” P. 14.


Falácia de Apelo a Autoridades Irrelevantes:


"Um tipo comum de apelo a autoridades irrelevantes é o apelo à sabedoria antiga, onde uma ideia é presumida como verdadeira somente porque foi originada num passado distante." P. 15.


Falácia do Falso Dilema:


“O falso dilema é um argumento que apresenta apenas duas categorias possíveis e parte do princípio de que tudo no âmbito da discussão deva pertencer somente a uma ou a outra destas possibilidades opostas. Assim, ao rejeitar uma das opções, a pessoa não teria alternativa a não ser aceitar a outra. Por exemplo: ‘Na guerra ao fanatismo, não há neutralidade: ou você está do nosso lado, ou está com os extremistas.’ Na realidade, há uma terceira opção, a de estar neutro; e uma quarta, de ser contra os dois lados; e ainda uma quinta opção, de concordar com razões de ambos”. P. 18.


Falácia da Causa Questionável:


“Também conhecida como causa falsa, esta falácia define como causa de um evento, sem provas, uma ocorrência anterior ou simultânea àquele evento. A correlação entre os dois eventos pode ser pura coincidência ou resultado de algum outro fator. Mas sem evidências não é possível concluir que um evento causou o outro. [...] Em várias disciplinas, especialmente pesquisas científicas, esse erro é conhecido como confundir correlação com causalidade.” P. 20.


Falácia de Apelo à Ignorância


“Este tipo de argumento tenta convencer que algo é verdadeiro simplesmente porque não foi comprovado como falso. Assim, a ausência de prova é transformada em prova por ausência. Uma forma específica de apelo à ignorância é o argumento da incredulidade pessoal, onde a incapacidade de entender ou imaginar algo leva a pessoa a acreditar que aquilo é falso. Por exemplo: ‘É impossível imaginar que o homem realmente pisou na Lua, portanto, isso nunca aconteceu.’” P. 26.


Livro muitíssimo bom, e de fácil leitura para todos.

quinta-feira, 7 de junho de 2018

Apresentação da Filosofia



SPONVILLE, André Comte. Apresentação da Filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 2002.

André Comte-Sponvile (Ph.D em Filosofia na Universidade de Paris I: Panthéon – Sobornne) apresenta neste livro, os temas básicos da Filosofia, na seguinte sequência: Moral, Política, Amor, Morte, Conhecimento, Liberdade, Deus, Ateísmo, Arte, Homem e Sabedoria. Já tinha lido sua outra obra, O Espírito do Ateísmo, onde ele faz uma tremenda e lúcida defesa do materialismo.

Vamos a alguns temas que ele trata em Apresentação da Filosofia:

A Moral:

“O que é a moral? É o conjunto do que um indivíduo se impõe ou proíbe a si mesmo, não para, antes de mais nada, aumentar sua felicidade ou seu bem-estar próprios, o que não passaria de egoísmo, mas para levar em conta os interesses ou os direitos do outro, mas para não ser um canalha, mas para permanecer fiel a certa idéia da humanidade e de si. A moral responde à pergunta: ‘O que devo fazer?’ É o conjunto dos meus deveres, em outras palavras, dos imperativos que reconheço como legítimos – mesmo que, às vezes, como todo o mundo, eu o viole. É a lei que imponho a mim mesmo, ou que deveria me impor, independentemente do olhar do outro e de qualquer sanção ou recompensa esperadas.” P. 20.

Para sermos morais, não é preciso que uma divindade imponha certos valores. Sponville vê a nossa moral como fruto de uma evolução sócio-histórica, mas que nem por isso, ela seria arbitrária.

A Morte:

“A coisa em que o homem livre menos pensa é na morte’, escreve porém Spinoza, ‘e sua sabedoria não é uma meditação sobre a morte, mas sobre a vida.’ [...] Como meditar sobe a vida – isto é – filosofar – sem meditar também sobre sua brevidade, sua precariedade, sua fragilidade? Que o sábio (e somente o sábio é livre, papa Spinoza) pense mais no ser do que no não-ser, mais na vida do que na morte, mas sua força do que na sua fraqueza, admitamos. Mas como pensar a vida em sua verdade sem pensa-la também – toda determinação é uma negação – em sua finitude ou em sua mortalidade?” P. 48.

Dois livros que li recentemente, e que tratam magistralmente sobre a problemática da morte são: Confissões do Crematório e De Frente Para o Sol. Ambos concordam com essa assertiva do Sponville.

Um dos capítulos que mais me chamaram à atenção, foi sobre o Conhecimento. Sponville num primeiro momento, parece aderir a uma limitação tal da nossa capacidade de conhecer que parece se aproximar do relativismo epistemológico, mas antes que pensem isso, ele dá uma saraivada de argumentos para solapar o mote de que a verdade inexiste.

Há um progresso incontestável no conhecimento científico:

“[Veja], por exemplo, o movimento da Terra em torno do Sol. Ninguém pode conhcê-lo absolutamente, totalmente, perfeitamente. Mas sabemos que esse movmento existe e que se trata de um movimento de rotação. As teorias de Copérnico e de Nexton, por mais relativas que sejam (já que são teorias), são mais verdadeiras e mais seguras – logo, mais absolutas – do que as de Hiparco ou de Ptolomeu. Do mesmo modo, a Teoria da Relatividade é mais absoluta (e não, como às vezes pensam, por causa do seu nome, mais relativa!) do que a mecânica celeste do XVIII, que ela explica e que não a explica. Que todo conhecimento é relativo não significa que todos os conhecimentos se equivalem. O progresso de Newton a Eisntein é tão inconteste quanto o que vai de Ptolomeu a Newton.” P. 57.

Sem nenhuma obtenção da verdade, o que resta é a anarquia:

“Se não tivéssemos nenhum acesso à verdade, ou se a verdade não existisse, que diferença haveria entre um culpado e um inocente? Entre um depoimento e uma calúnia? Entre a justiça e um erro judiciário? E por que lutaríamos contra os negativistas, contra os obscurantistas, contra os mentirosos?” P. 59.

Isso é tão óbvio, que parece até idiota o Sponville ter que escrevê-lo. Mas na medida em que os próprios educadores (logo eles?! Que lástima!) gritam para os seus alunos e escrevem em seus livros e periódicos, que a verdade NÃO existe, faz-se necessário contestá-los.

Sem a verdade, nada sobra. Aliás, nem haveria razão de nada.

“Se nada fosse verdadeiro, que restaria da nossa razão? Como poderíamos discutir, argumentar, conhecer? ‘Cada qual a sua verdade’? Se fosse assim, já não haveria verdade nenhuma, porque ela só vale se for universal. [...] A verdade não pertence a ninguém; é por isso que pertence, de direito, a todos. A verdade não obedece; é por isso que é livre, e liberta. [...] Se não houvesse verdade, não seria verdadeiro que não há verdade. Se tudo fosse mentira, como queria Nietzsche, seria mentira que tudo é mentira. É aí que a sofística é contraditória [...] se destrói como filosofia. Os sofistas não se preocupam com isso. O que lhes importa uma contradição? O que lhes importa a filosofia? Mas os filósofos, desde Sócrates, se preocupam. Eles têm para tanto suas razões, que são a própria razão e o amor à verdade. Se nada é verdade pode-se pensar qualquer coisa, o que é muito cômodo para os sofistas; mas então já não se pode pensar nada, o que é mortal para a filosofia.” P. 61-62.

Sem a verdade, tudo entra em colapso:

“Porque, se nada fosse verdadeiro nem falso, não haveria nenhuma diferença entre o conhecimento e a ignorância, nem entre a sinceridade e a mentira. As ciências não sobreviveriam, nem a moral, nem a democracia. Se tudo é mentira, tudo é permitido: pode-se trapacear com as experiências ou as demonstrações (já que nenhuma é válida), pôr a superstição no mesmo plano das ciências (já que nenhuma verdade as separa), condenar um inocente (já que não há nenhuma diferença pertinente entre um testemunho verdadeiro e um falso), negar as verdades históricas mais bem estabelecidas (já que são tão falsas quanto o resto), deixar os criminosos em liberdade (já que não é verdade que são culpados), autorizar-se a ser um deles (já que, mesmo sendo culpados, não é verdade que se seja), recusar enfim toda e qualquer validade a todo e qualquer voto (já que um voto só vale se conhecermos de verdade seu resultado)... Quem não vê os perigos que aí se escondem? Se podemos pensar qualquer coisa, podemos fazer qualquer coisa: a sofística conduz ao niilismo, assim como o niilismo leva à barbárie.” P. 63.

Voltando algumas páginas, ele escreve:

“[...] As ciências não respondem a nenhuma das questões mais importantes que nós fazemos. Por que há algo em vez de nada? A vida vale a pena ser vivida? O que é o bem? O que é o mal? Somos livres ou determinados? Deus existe? Há uma vida após a morte? Essas questões, que podemos dizer metafísicas num sentido amplo (de fato, elas vão além de toda física possível), fazem de nós seres pensantes, ou antes, seres filosofantes”. P. 49.

Só faltou ele dizer que a Ciência, mesmo com as suas limitações, tem ajudado muito em fazermos refletir sobre alguns (ou todos?) desses problemas filosóficos citados por ele. Um cientificista mesmo admitindo que a Ciência no momento ainda não dispõe de respostas, pode responder que tampouco a Filosofia ou a religião as têm.

O capítulo em que ele trata do ateísmo é primoroso. Admito isto, mesmo não sendo ateu. Minha incoerência é dizê-lo, e não postar nada sobre ele. Pura preguiça minha.

Livro recomendado.

sábado, 2 de junho de 2018

Sejamos Todos Feministas



ADICHIE, Chimamanda Ngozi. Sejamos Todos Feministas. São Paulo: Companhia das Letras, 2017. (PDF).

“[...] a palavra ‘feminista’ tem um peso negativo: a feminista odeia os homens, odeia sutiã, odeia a cultura africana, acha que as mulheres devem mandar nos homens; ela não se pinta, não se depila, está sempre zangada, não tem senso de humor, não usa desodorante.” P. 15.

“Feminista: uma pessoa que acredita na igualdade social, política e econômica entre os sexos”. P. 66.

Deixando de lado as inconsistências e atos grotescos perpetrados por certos grupos feministas nos últimos tempos, creio ser inquestionável, que ainda há um grande abismo na relação de gêneros, que coloca num patamar muito acima, o sexo masculino, fazendo com que as mulheres ainda tenham que ser humilhadas, submissas e relegadas a uma sub raça humana. Claro que o grau de desigualdade varia de maneiras intensas de país para país. Na Nigéria, país da autora deste livro, o machismo que coloca as mulheres em situações humilhantes, é bem mais intenso do que noutros países, por exemplo. Mas aqui mesmo no Brasil, dependendo da região, o machismo que encara a mulher com desconfiança extrema, pode ser muito forte também.  Adichie incentiva homens e mulheres, a olhar para todos com igualdade social, política e econômica, sem distinção de gênero.  

Por que é importante discutir a disparidade de gêneros?

Alguns motivos:

Os autos postos executivos em sua maioria são protagonizados por homens:

“Existem mais mulheres do que homens no mundo — 52% da população mundial é feminina, mas os cargos de poder e prestígio são ocupados pelos homens. A já falecida nigeriana Wangari Maathai, ganhadora do prêmio Nobel da paz, se expressou muito bem e em poucas palavras, quando disse que quanto mais perto do topo chegamos, menos mulheres encontramos.” P. 22-23.

Discriminação de mulheres até mesmo em restaurantes:

“Sempre que vou acompanhada a um restaurante nigeriano, o garçom cumprimenta o homem e me ignora. Os garçons são produto de uma sociedade onde se aprende que os homens são mais importantes do que as mulheres, e sei que eles não fazem por mal — mas há um abismo entre entender uma coisa racionalmente e entender a mesma coisa emocionalmente. Toda vez que eles me ignoram, eu me sinto invisível. Fico chateada. Quero dizer a eles que sou tão humana quanto um homem, e digna de ser cumprimentada. Sei que são detalhes, mas às vezes são os detalhes que mais incomodam.” P. 27-28.

Discriminação na literatura:

“Em todos os lugares do mundo, existem milhares de artigos e livros ensinando o que as mulheres devem fazer, como devem ou não devem ser para atrair e agradar os homens. Livros sobre como os homens devem agradar as mulheres são poucos.” P. 33-34.

A deficiência na criação de meninas e meninos:

“A questão de gênero é importante em qualquer canto do mundo. É importante que comecemos a planejar e sonhar um mundo diferente. Um mundo mais justo. Um mundo de homens mais felizes e mulheres mais felizes, mais autênticos consigo mesmos. E é assim que devemos começar: precisamos criar nossas filhas de uma maneira diferente. Também precisamos criar nossos filhos de uma maneira diferente.  O modo como criamos nossos filhos homens é nocivo: nossa definição de masculinidade é muito estreita. Abafamos a humanidade que existe nos meninos, enclausurando-os numa jaula pequena e resistente. Ensinamos que eles não podem ter medo, não podem ser fracos ou se mostrar vulneráveis, precisam esconder quem realmente são — porque eles têm que ser, como se diz na Nigéria, homens duros.” P 36-38.

O erro de associar masculinidade a dinheiro:

“No ensino médio, quando um garoto e uma garota saem juntos, o único dinheiro de que dispõem é uma pequena mesada. Mesmo assim, espera-se que ele pague a conta, sempre, para provar sua masculinidade. (E depois nos perguntamos por que alguns roubam dinheiro dos pais...) E se tanto os meninos quanto as meninas fossem criados de modo a não mais vincular a masculinidade ao dinheiro? E se, em vez de “o menino tem que pagar,” a postura fosse “quem tem mais paga”? É claro que, por uma questão histórica, em geral é o homem quem tem mais dinheiro. No entanto, se começarmos a criar nossos filhos de outra maneira, daqui a cinquenta, cem anos eles não serão pressionados a provar sua masculinidade por meio de bens materiais.” P. 37-38.

Linguagens sutis no casamento, que evidenciam a “inferioridade” da mulher:

“Até mesmo a linguagem que empregamos dentro do casamento é reveladora: frequentemente é uma linguagem de posse, não de parceria. Pensamos na palavra ‘respeito como um sentimento que a mulher deve ao homem, mas raramente o inverso. Tanto o homem quanto a mulher dizem: ‘Eu fiz isso porque queria paz no meu casamento’. Mas quando os homens dizem isso, em geral se referem a algo que eles não deveriam mesmo fazer. É como eles se justificam para os amigos, e no fim das contas isso serve para comprovar a sua masculinidade — ‘Minha mulher disse que não posso sair todas as noites, então daqui pra frente, pra ter paz no meu casamento, só vou sair nos fins de semana’. Quando as mulheres dizem que tomaram determinada atitude para ‘ter paz no casamento’, é porque em geral desistiram de um emprego, de um passo na carreira, de um sonho.” P. 43-44.

E finalmente, a necessidade de se usar a palavra feminismo:

“Algumas pessoas me perguntam: ‘Por que usar a palavra ‘feminista’? Por que não dizer que você acredita nos direitos humanos, ou algo parecido?’ Porque seria desonesto. O feminismo faz, obviamente, parte dos direitos humanos de uma forma geral — mas escolher uma expressão vaga como ‘direitos humanos’ é negar a especificidade e particularidade do problema de gênero. Seria uma maneira de fingir que as mulheres não foram excluídas ao longo dos séculos. Seria negar que a questão de gênero tem como alvo as mulheres. Que o problema não é ser humano, mas especificamente um ser humano do sexo feminino. Por séculos, os seres humanos eram divididos em dois grupos, um dos quais excluía e oprimia o outro. É no mínimo justo que a solução para esse problema esteja no reconhecimento desse fato.” P. 57-58.

sexta-feira, 1 de junho de 2018

Para Educar Crianças Feministas


ADICHIE, Chimamanda Ngozi. Para Educar Crianças Feministas. São Paulo: Companhia das Letras, 2017. (PDF).

Abomino, como toda pessoa dotada de um mínimo de bom senso, certos comportamentos de grupos feministas atuais. Mas Chimamanda Ngozi me pareceu até o momento, uma feminista gente boa, que escreve com equilíbrio e muita sabedoria. Discordo de pequenos pontos abordados por ela, mas também, nada que venha comprometer o seu pequeno livro. A realidade é que há sim, uma disparidade sem tamanho na criação de meninas e meninos que evidenciam dois pesos e duas medidas em toda a sua formação, onde os padrões morais impostos as meninas sempre são maiores. Os meninos, os homens, ah, estes podem isso e aquilo. Por que? Ora, porque são homens, né?! Que os padrões morais sejam iguais para todos.

Segundo Adichie, o feminismo é contextual:

“Para mim, o feminismo é sempre uma questão de contexto. Não tenho nenhuma regra. [...] Por exemplo: muita gente acredita que, diante da infidelidade do marido, a reação feminista de uma mulher deveria ser deixá-lo. Mas acho que ficar também pode ser uma escolha feminista, dependendo do contexto. Se o [marido] dorme com outra mulher e você o perdoa, será que a mesma coisa aconteceria se você dormisse com outro homem? Se a resposta for ‘sim’, então sua decisão de perdoá-lo pode ser uma escolha feminista, porque não é moldada pela desigualdade de gênero. Infelizmente, a verdade é que, na maioria dos casamentos, a resposta a essa pergunta em geral seria negativa por uma questão de gênero — aquela ideia absurda de que ‘os homens são assim’, o que significa que os padrões para eles são mais baixos.” P. 07.

Ela fala sobre a premissa equivocada de que a mulher tem que estar apta a “dar conta de tudo”:

“Nossa cultura enaltece a ideia das mulheres capazes de ‘dar conta de tudo’, mas não questiona a premissa desse enaltecimento. Não tenho o menor interesse no debate sobre as mulheres que ‘dão conta de tudo’, porque o pressuposto desse debate é que o trabalho de cuidar da casa e dos filhos é uma seara particularmente feminina, ideia que repudio vivamente. O trabalho de cuidar da casa e dos filhos não deveria ter gênero, e o que devemos perguntar não é se uma mulher consegue ‘dar conta de tudo’, e sim qual é a melhor maneira de apoiar o casal em suas duplas obrigações no emprego e no lar.” P. 09.

A diferença inadequada na educação das meninas e meninos:

“Outra conhecida, uma americana, me contou uma vez que levou o filho de um ano a um espaço de recreação infantil em que várias mães levavam seus bebês, e percebeu que as mães das meninas eram muito controladoras, sempre dizendo ‘não pegue isso’ ou ‘pare e seja boazinha’, e que os meninos eram incentivados a explorar mais, não eram tão reprimidos e as mães quase nunca diziam ‘seja bonzinho’. Sua teoria é que pais e mães inconscientemente começam muito cedo a ensinar às meninas como devem ser, que elas têm mais regras e menos espaço, e os meninos têm mais espaço e menos regras.” P. 12.

Não gostamos de mulheres poderosas:

“[...] é uma triste verdade: nosso mundo está cheio de homens e mulheres que não gostam de mulheres poderosas. Estamos tão condicionados a pensar o poder como coisa masculina que uma mulher poderosa é uma aberração. E por isso ela é policiada. No caso de mulheres poderosas, perguntamos: ela tem humildade? Sorri? Mostra gratidão? Tem um lado doméstico? Perguntas que não fazemos a homens poderosos, o que demonstra que nosso desconforto não é com o poder em si, mas com a mulher. Julgamos as poderosas com mais rigor do que os poderosos”. P. 14.

Como deve ser a educação de uma menina:

“Temos um mundo cheio de mulheres que não conseguem respirar livremente porque estão condicionadas demais a assumir formas que agradem aos outros. Então, em vez de ensinar [a sua filha] a ser agradável, ensine-a a ser honesta. E bondosa. E corajosa. Incentive-a a expor suas opiniões, a dizer o que realmente sente, a falar com sinceridade. E então elogie quando ela agir assim. Elogie principalmente quando ela tomar uma posição que é difícil ou impopular, mas que é sua posição sincera. Diga-lhe que a bondade é importante. Elogie quando ela for bondosa com outras pessoas. Mas ensine-lhe que sua bondade nunca deve ser tratada como se não fosse nada. Diga-lhe que ela também merece a bondade dos outros. Ensine-a a defender o que é seu. Se outra criança pegar o brinquedo dela sem permissão, diga-lhe para pegar de volta, porque seu consentimento é importante. Diga-lhe para falar, para se manifestar, para gritar sempre que se sentir incomodada com alguma coisa.” P. 19.

Mulheres são dignas, independentemente de serem boas ou não: 

“Ao [...] ensinar [a sua filha] sobre opressão, tenha o cuidado de não converter os oprimidos em santos. A santidade não é pré-requisito da dignidade. Pessoas que são más e desonestas continuam seres humanos e continuam a merecer dignidade. [...] as mulheres não precisam ser boas e angelicais para ter reconhecidos seus direitos de propriedade. Nos discursos sobre gênero, às vezes, há o pressuposto de que as mulheres seriam moralmente ‘melhores’ do que os homens. Não são. Mulheres são tão humanas quanto os homens. A bondade feminina é tão normal quanto a maldade feminina. 

E existem muitas mulheres no mundo que não gostam de outras mulheres. A misoginia feminina existe e esquivar-se a reconhecê-la é criar oportunidades desnecessárias para que as antifeministas tentem desacreditar o feminismo. Refiro-me àquele tipo de antifeministas que adora dar exemplos de mulheres dizendo: ‘Não sou feminista’, como se uma pessoa nascida com vagina, ao declarar isso, estivesse de certa forma desacreditando automaticamente o feminismo. Se uma mulher diz não ser feminista, a necessidade do feminismo não diminui em nada. No máximo, isso nos mostra a extensão do problema, o alcance real do patriarcado. Mostra-nos também que nem todas as mulheres são feministas e nem todos os homens são misóginos.” P. 27.

quarta-feira, 30 de maio de 2018

Confissões do Crematório



DOUGHTY, Caitlin. Confissões do Crematório. Rio de Janeiro: DarkSide, 2016. (PDF).

“Sabemos que a morte nos espera e isso afeta tudo que fazemos, inclusive o impulso de tomar um cuidado caprichado dos nossos mortos”. P. 40.

Caitlin Doughty (Bacharel em História na Universidade de Chicago) quando criança, aos oito anos de idade, viu uma menina cair da escada rolante do shopping e morrer. A partir daí, a morte passou a fazer parte do seu imaginário. Com apenas 23 anos, conseguiu o seu tão sonhado emprego: tornar pessoas mortas em cinzas, num crematório na Califórnia. Neste livro ela conta suas experiências de como é trabalhar torrando corpos e triturando ossos; conta como a cultura do enterro, velório, preparação do corpo, eram feitas no passado do seu país e noutros países e épocas. Conclama o leitor a uma reflexão sobre si - uma reflexão sobre a própria finitude e o vazio que o espera, sobretudo, porque a nossa sociedade atual parece pensar que viverá para sempre. Para ela, precisamos pensar a nossa própria morte. Isso é libertação; é emancipação. Agindo assim, teremos uma boa morte. Resignação.

“Olhar diretamente nos olhos da mortalidade não é fácil. Para evitar isso, nós escolhemos continuar vendados, no escuro em relação às realidades da morte. No entanto, a ignorância não é uma bênção — é só um tipo mais profundo de pavor. Podemos nos esforçar para jogar a morte para escanteio, guardando cadáveres atrás de portas de aço inoxidável e enfiando os doentes e moribundos em quartos de hospital. Escondemos a morte com tanta habilidade que quase daria para acreditar que somos a primeira geração de imortais. Mas não somos. Vamos todos morrer e sabemos disso. Como o grande antropólogo cultural Ernest Becker disse: ‘A ideia da morte, o medo dela, assombra o animal humano como nenhuma outra coisa’. O medo da morte é o motivo de construirmos catedrais, de termos filhos, de declararmos guerras e de vermos vídeos de gatinhos na internet às três da madrugada. A morte guia todos os impulsos criativos e destrutivos que temos como seres humanos. Quanto mais perto chegamos de entendê-la, mais perto chegamos de entender a nós mesmos.” P. 11.

A morte na fundação dos EUA:

“Os Estados Unidos foram construídos sobre a morte. Quando os primeiros colonizadores europeus chegaram, o que eles mais fizeram foi morrer. Se não era de fome, do frio congelante ou em batalhas com os nativos, era a influenza, a difteria, a disenteria ou a varíola que acabava com eles. No final dos primeiros três anos do povoado de Jamestown, na Virginia, 440 dos originais quinhentos colonizadores estavam mortos. Principalmente as crianças — elas morriam o tempo todo. Se você era mãe de cinco filhos, teria sorte se dois vivessem para além dos 10 anos de idade.” P. 27.

Antes era preferível morrer em casa:

“Morrer no ambiente higiênico de um hospital é um conceito relativamente novo. No final do século XIX, morrer em um hospital era um destino reservado a indigentes, as pessoas que não tinham nada nem ninguém. Quando tinha escolha, a pessoa queria morrer em casa na cama, cercada de amigos e familiares. Até o começo do século XX, mais de 85% dos americanos ainda morria em casa.

Os anos 1930 trouxeram o que é conhecido como “medicalização” da morte. A ascensão dos hospitais escondeu as visões, os cheiros e os sons desagradáveis da morte. Enquanto antes um líder religioso podia conduzir um moribundo e guiar a família na dor, agora são os médicos que acompanham os momentos finais de um paciente. A medicina passou a cuidar de questões de vida e morte, não os apelos aos céus. O processo da morte ficou mais higiênico e altamente regulado no hospital. Os profissionais da saúde acharam inadequado para consumo público o que o historiador da morte Philippe Ariès chamou de ‘espetáculo nauseante’ da mortalidade. Virou tabu “entrar em um quarto com cheiro de urina, suor e gangrena, em que os lençóis estão sujos de fezes”. O hospital era um lugar onde os moribundos podiam passar pelas indignidades da morte sem ofender a sensibilidade dos vivos.” P. 31-32.

Ver mortos não faz parte de nosso dia a dia:

“Hoje, não ser obrigado a ver cadáveres é um privilégio do mundo desenvolvido. Em um dia comum em Varanasi, nas margens do Ganges, na Índia, algo entre oitenta e cem altares de cremação ardem. Depois de uma cremação bastante pública (algumas executadas por criancinhas da casta intocável da Índia), os ossos e as cinzas são soltos na água do rio sagrado. As cremações não são baratas — o custo da madeira cara, das mortalhas coloridas e de um cremador profissional somam um valor elevado. As famílias que não têm dinheiro para uma cremação, mas que querem que seus entes queridos mortos vão para o Ganges, colocam o corpo no rio à noite e o deixam lá para que se decomponha. Os visitantes de Varanasi veem cadáveres inchados passarem flutuando ou sendo comidos por cachorros. Há tantos corpos assim no rio que o governo indiano solta milhares de tartarugas carnívoras para engolir os ‘poluentes necróticos’.

O mundo industrializado estabeleceu sistemas para impedir esses encontros desagradáveis com os mortos. Neste exato momento, cadáveres seguem por estradas e rodovias em vans brancas comuns. [...] Corpos atravessam o planeta nos compartimentos de carga de aviões enquanto passageiros de férias viajam em cima. Nós colocamos os mortos embaixo. Não só debaixo da terra, mas também debaixo de tampos de macas falsas de hospital, dentro das barrigas das aeronaves e nas profundezas da nossa mente consciente.” P. 35.

E na Paris do século retrasado...

“No final do século XIX, os cidadãos de Paris iam ao necrotério aos milhares diariamente para ver os corpos de mortos não identificados. Os espectadores faziam fila por horas para entrar enquanto ambulantes vendiam frutas, doces e brinquedos. Quando chegavam no início da fila, eram levados para uma sala de exibição, onde os cadáveres estavam expostos em placas por trás de uma vitrine grande”. P. 38.

Sabemos e refletimos sobre nossa morte:

“O grande triunfo (ou tragédia horrível, dependendo de como você encara) de ser humano é que nosso cérebro evoluiu ao longo de centenas de milhares de anos para compreender nossa mortalidade. Infelizmente, somos criaturas conscientes. Mesmo que passemos o dia encontrando jeitos criativos de negar nossa mortalidade, por mais poderosos, amados e especiais que nos sintamos, sabemos que estamos fadados à morte e à decomposição”. P. 40.

A morte no passado dos EUA:

“A morte nos Estados Unidos começou como uma operação totalmente caseira. Uma pessoa morria na própria cama, cercada pela família e pelos amigos. O cadáver era lavado e coberto com uma mortalha pelo indivíduo mais próximo do homem ou da mulher e exposto por vários dias na casa para um velório, um ritual batizado a partir da palavra do inglês antigo para ‘vigília’. [...] Para impedir a decomposição enquanto o corpo ficava em casa, inovações como panos encharcados de vinagre e cubas de gelo embaixo do cadáver foram desenvolvidas no século XIX. Durante o velório, havia comida para ser consumida, álcool para ser ingerido e uma sensação de libertação da pessoa morta do lugar que ocupava na comunidade. Como Gary Laderman, acadêmico das tradições de morte americanas, enunciou: ‘Apesar de o corpo ter perdido a chama que o animava, as convenções sociais profundas exigiam que ele recebesse o respeito apropriado e cuidados dos vivos’.” P. 48.

No Tibete, os mortos são tratados assim:

“No alto das montanhas do Tibete, onde o chão é rochoso demais para enterros e as árvores são poucas para fornecer madeira para piras crematórias, foi desenvolvido outro método para lidar com os mortos. Um rogyapa profissional, ou fragmentador de corpos, corta a carne do cadáver e mói os ossos que sobram com farinha de cevada e manteiga de iaque. O corpo é colocado em uma pedra alta e plana para ser comido por abutres. As aves se aproximam e carregam o corpo em direções diferentes pelo céu. É uma forma generosa de se livrar do corpo, com a carne que sobrou alimentando outros animais.” P. 51.

A evolução histórica da Medicina em relação aos defuntos:

“O uso de cadáveres para avanços na ciência se desenvolveu muito ao longo dos últimos quatrocentos anos. No século XVI, a medicina era praticada com uma compreensão medíocre de como o corpo humano realmente funcionava. Textos médicos erravam em tudo, desde como o sangue corria pelo corpo até a localização de órgãos vitais e ao que fazia as doenças se desenvolverem (respostas aceitáveis: desequilíbrios nos quatro ‘humores’ do corpo — muco, sangue, bile preta e bile amarela). O artista da Renascença Andreas Vesalius, incomodado porque os estudantes de medicina estavam aprendendo a anatomia humana dissecando cachorros, pegava escondido cadáveres de criminosos nas forcas. Apenas nos séculos XVIII e XIX as escolas de treinamento cirúrgico passaram a oferecer consistentemente dissecações anatômicas humanas para ensino e pesquisa. A demanda de cadáveres era tanta que os professores passaram a roubar túmulos recentes para pegar os corpos. Ou, no caso de William Burke e William Hare na Escócia do século XIX, assassinar pessoas vivas (dezesseis no total) e vender os corpos para serem dissecados por um professor de anatomia.” P. 71.
Os mortos no medievo:

“No final da Idade Média, a ‘danse macabre’, ou dança dos mortos, era um assunto popular na arte. As pinturas exibiam corpos em decomposição com sorrisos enormes, que voltam para pegar os vivos, alheios a tudo. Os corpos exultantes, anônimos pela putrefação, acenam e batem os pés enquanto puxam papas e pobres, reis e ferreiros em sua dança animada. As imagens lembravam os espectadores que a morte era certa: ninguém escapa. O anonimato aguarda.” P. 74.

O nosso fim e daqueles que amamos se aproxima:

“O mitologista Joseph Campbell nos diz sabiamente para desprezar o final feliz, ‘pois o mundo que conhecemos, que vimos, só oferece um final: a morte, a desintegração, o desmembramento e a crucificação do nosso coração com o fim daqueles que amamos’.” P. 77.

A artificialidade da indústria da morte:

“Se deixados em paz, os corpos humanos apodrecem, se decompõem, se desintegram e afundam gloriosamente na terra, de onde vieram. Usar o embalsamamento e os caixões pesados de proteção para impedir esse processo é uma tentativa desesperada de adiar o inevitável e demonstra nosso pavor óbvio da decomposição. A indústria da morte faz caixões e embalsamamentos com a justificativa de ajudar nossos corpos a parecerem ‘naturais’, mas nossos costumes relacionados à morte são tão naturais quanto treinar criaturas majestosas como os ursos e os elefantes para dançarem com roupinhas fofas ou erguer réplicas da Torre Eiffel e dos canais de Veneza no meio do árido deserto norte-americano.” P. 85.

A futilidade da tecnologia frente a morte:

“Os cadáveres mantêm os vivos presos à realidade. Eu tinha vivido toda a minha existência até começar a trabalhar na Westwind (crematório na Califórnia) relativamente distante de mortos. Agora, eu tinha acesso a montes deles, empilhados no freezer do crematório. Eles me obrigavam a encarar minha própria morte e a morte dos meus entes queridos. Por mais que a tecnologia possa ter se tornado nossa mestra, precisamos apenas de um cadáver humano para puxar a âncora do barco e nos levar de volta para o conhecimento firme de que somos animais glorificados que comem, cagam e estão fadados a morrer. Não somos nada mais do que futuros cadáveres.” P. 89.

Os mortos e as bactérias:

“Embora seja verdade que cadáveres criem imagens e cheiros ofensivos, um corpo humano morto oferece bem pouca ameaça a um vivo; as bactérias envolvidas na decomposição não são as mesmas que causam doenças. [...]vivo. É mais perigoso para a sua saúde andar de avião do que estar no mesmo aposento que um corpo morto”. P. 91-92.

Os sentimentos que o cadáver evocam em nós:

“Um cadáver não precisa que você se lembre dele. Na verdade, não precisa de mais nada — fica mais do que satisfeito de ficar ali, deitado, apodrecendo. É você que precisa do cadáver. Ao olhar para o corpo, você entende que a pessoa se foi, que não é mais uma participante ativa do jogo da vida. Ao olhar para o corpo, você se vê nele e sabe que também vai morrer. O contato visual é uma chamada à autopercepção. É o começo da sabedoria.” P. 92.

A ironia macabra de vermos o nosso próprio velório quando estamos bem idosos:

“O segmento que cresce mais rápido na população americana está acima dos 85 anos, o que eu chamaria de os agressivamente idosos. Se você chegar a essa idade, além de ter uma boa chance de estar vivendo com algum tipo de demência ou doença terminal, as estatísticas mostram que você tem 50% de chances de acabar em uma casa de repouso, o que gera a pergunta se uma boa vida é medida em qualidade ou quantidade. [...] Em 1899, apenas 4% da população americana tinha mais de 65 anos, e nem se pensava em chegar a 85. Agora, inúmeros indivíduos sabem que a morte está vindo durante meses ou anos de deterioração. A medicina nos deu a ‘oportunidade’ (imprecisamente definida) de estar no nosso próprio velório.” P. 115.

A morte é quem dá sentido as nossas vidas:

“A morte pode parecer destruir o sentido das nossas vidas, mas na verdade ela é a fonte da nossa criatividade. Como disse Kafka: ‘O sentido da vida é que ela termina’. A morte é o motor que nos mantém em movimento, que nos dá motivação para realizar, aprender, amar e criar. Os filósofos proclamam isso há milhares de anos com a mesma veemência com que insistimos em ignorar o aviso geração após geração. Isaac estava fazendo doutorado, explorando os limites da ciência e fazendo música por causa da inspiração que a morte oferecia. Se ele vivesse para sempre, era provável que acabasse se tornando chato, desanimado e desmotivado, privado da riqueza da vida pela rotina maçante. As grandes conquistas da humanidade nasceram dos prazos impostos pela morte.” P. 117-118.

O sonho da imortalidade:

“Mesmo sabendo que podem ter uma morte lenta e sofrida, muitas pessoas ainda desejam ficar vivas a qualquer custo. Larry Ellison, o terceiro homem mais rico dos Estados Unidos, doou milhões de dólares para pesquisas dedicadas à extensão da vida, porque, segundo ele: 'A morte me deixa com muita raiva. Não faz sentido para mim'. Ellison transformou a morte na sua inimiga e acredita que devíamos expandir nosso arsenal de tecnologia médica para acabar com ela de uma vez por todas. Não é surpresa que o grupo de pessoas que tentam tão freneticamente aumentar nosso tempo de vida seja formado basicamente por homens ricos e brancos. Homens que viveram vidas de privilégio sistemático e acreditam que esta deva se estender para sempre.” P. 117.

E mais uma vez, reflitamos sobre o nosso inescapável fim:

“Nunca é cedo demais para começar a pensar na própria morte e na morte das pessoas que você ama. Não quero dizer pensar na morte em ciclos obsessivos, com medo do seu marido ter sofrido um acidente horrível de carro ou do seu avião pegar fogo e despencar do céu. Mas uma interação racional, que termina com você percebendo que vai sobreviver ao pior, seja lá qual for o pior. Aceitar a morte não quer dizer que você não vai ficar arrasado quando alguém que você ama morrer. Quer dizer que você vai ser capaz de se concentrar na sua dor, sem o peso de questões existenciais maiores como 'Por que as pessoas morrem?' e 'Por que isso está acontecendo comigo?'. A morte não está acontecendo com você. Está acontecendo com todo mundo. Uma cultura que nega a morte é uma barreira para alcançar uma boa morte. Superar nossos medos e conceitos equivocados e loucos sobre esse assunto não vai ser tarefa fácil, mas não devemos esquecer a rapidez com que outros preconceitos culturais — o racismo, o sexismo, a homofobia — começaram a desmoronar no passado recente. Está mais do que na hora da morte ter seu momento da verdade.” P. 118-119.