quinta-feira, 5 de julho de 2018

O Capelão do Diabo



DAWKINS, Richard. O Capelão do Diabo. São Paulo: Companhia das Letras, 2005. (PDF).

Meu primeiro contato com este livro deu-se há uns 11 ou 12 anos, quando em visita a uma livraria, fui para a prateleira de religião, encontrando o infame O Capelão do diabo. Acho que o autor não ficaria feliz de saber que seu livro estava junto as “porcarias” metafísicas que ele mais odeia e que tem travado uma aguerrida batalha nas últimas décadas.

Richard Dawkins (Ph.D em Zoologia na Universidade de Oxford, membro da Royal Society e da Associação Britânica para o Avanço da Ciência) traz nesta obra uma série de artigos, cartas e ensaios reunidos. Foram escritos em momentos distintos, abrangendo temas que já são conhecidos em sua agenda literária. Evolução, Ciência, Religião, Ateísmo, Relativismo, Ética...

Aqui será o maior “resumo” que já fiz neste blog. Com o costumeiro modo de deixar que o próprio autor resumido fale por si mesmo, com várias citações da obra em questão.    

Dawkins não se mostra muito favorável as importunações que os Filósofos fazem ao trabalho científico, questionando o status de verdade deste.

“Os cientistas tendem a assumir uma visão confiante em relação à verdade e ficam impacientes com a ambigüidade filosófica a respeito de sua realidade ou de sua importância.” P. 11.

Outro grupo ao qual ele dispara suas críticas é ao pessoal das ciências humanas, que com um linguajar rebuscado sob o manto da erudição, não dizem nada com nada. O pior que ele tem muita razão no que diz.

“A física é um assunto genuinamente difícil e profundo, de tal maneira que os físicos necessitam dar duro — e o fazem — para tornar sua linguagem tão simples quanto possível (‘mas não mais simples do que seria necessário’, como insistiu Einstein, corretamente). Outros acadêmicos — alguns apontariam o dedo para as escolas européias de teoria literária e de ciências sociais — sofrem daquilo que Medawar (eu acho) chamou de ‘inveja da física’. Eles desejam ser considerados profundos, mas seu assunto é na realidade um tanto simples e raso, de modo que eles necessitam revesti-lo de uma linguagem difícil para reestabelecer o equilíbrio.” P. 12.

Há uma admissão de que o darwinismo traz em seu germe implicações morais perturbadoras, e que, felizmente podemos lutar elas.

“Não há contradição alguma em considerar o darwinismo correto enquanto cientista e acadêmico e, ao mesmo tempo, me opor a ele como ser humano. Isso não é mais incoerente do que explicar o câncer como médico e pesquisador e simultaneamente lutar contra ele no exercício da clínica. Por razões absolutamente darwinianas, a evolução nos legou um cérebro que se avolumou até o ponto de se tornar capaz de compreender a sua própria origem, de deplorar suas implicações morais e de lutar contra elas. Toda vez que usamos a contracepção, demonstramos que o cérebro pode contrariar os desígnios darwinianos.” P. 16.

Seu tiro de canhão agora disparado contra o relativismo cultural. Eu mesmo usei exemplo semelhante para o meu Professor de Antropologia.

“Mostre-me um relativista cultural voando a 10 mil metros de altura e eu lhe mostrarei um hipócrita [...] Se você está viajando de avião para um congresso de antropólogos ou de críticos literários, a razão pela qual provavelmente chegará ao seu destino — ao invés de despencar num campo cultivado — é que uma porção de engenheiros ocidentais cientificamente treinados acertaram nas contas.” P. 19.

Para Dawkins algumas coisas já não são mais passíveis de refutação na Ciência, visto que já foram convincentemente comprovadas (páginas a frente ele se contradiz). Posso não concordar com todos os exemplos citados por ele, mas tendo a subscrever que sim – há coisas que são simplesmente verdadeiras e ponto final. E isto em nada dogmatiza ou engessa a Ciência.  

“É simplesmente verdadeiro que o Sol é mais quente que a Terra e que a escrivaninha na qual eu escrevo neste momento é feita de madeira. Essas não são hipóteses que aguardam refutação, nem aproximações temporárias de uma verdade sempre impalpável; também não são verdades locais que poderiam ser contestadas em uma outra cultura. E o mesmo se pode dizer com segurança em relação a muitas verdades científicas, ainda que não possamos vê-las ‘com os nossos próprios olhos’. A dupla hélice do DNA será sempre verdadeira, assim como será sempre verdadeiro que, se você e um chimpanzé (ou um polvo ou um canguru) seguirem o rastro de seus antepassados até um ponto suficientemente longínquo, acabarão por encontrar um ancestral comum. P. 22.

Espiritualidade na Ciência? Sim.

“A ciência pode ser espiritual, até mesmo religiosa, no sentido não sobrenatural da palavra. P. 30.

Algo que impressiona é o Código Genético ser totalmente digital.

“É difícil ser exagerado em relação à absoluta euforia intelectual no campo da genética depois de Watson e Crick. O que ocorreu é que a genética se converteu num ramo da informática. O código genético é de fato digital, exatamente no mesmo sentido que os códigos dos computadores. Não se trata de uma analogia vaga, mas de uma verdade literal. Além do mais, diferentemente dos códigos dos computadores, o código genético é universal. [...] O código genético, por outro lado, com algumas poucas exceções secundárias, é idêntico em todas as criaturas vivas neste planeta, dos tiobacilos às sequóias-gigantes, dos cogumelos aos homens. Todas as criaturas vivas, ao menos neste planeta, são da mesma ‘marca’.” P. 30-31.

É comum ouvirmos que a Ciência não tem nada a dizer sobre a Ética, a Moral...Mas ela pode lançar (e tem lançado) luz sobre elas. Parece-me que muitos ainda não perceberam isso, ou fingem não perceber.

“A ciência não conta com um método para decidir o que é ético. Trata-se de um assunto que fica a cargo dos indivíduos e da sociedade. Mas a ciência pode ajudar a esclarecer as perguntas formuladas e pode também desfazer mal-entendidos que geram confusão.” P. 36.

Dawkins vê a si mesmo com uma pessoa totalmente imparcial na busca da verdade. Coitado, ele acredita mesmo nisso?

“No entanto, em qualquer lugar do mundo onde me pedissem para, numa única expressão, caracterizar o meu papel como professor de Compreensão Pública da Ciência, creio que eu escolheria Advogado da Verdade Desinteressada.” P.38.

Dawkins no início de seu livro passa uma visão absolutista da realidade que podemos aprender através do método científico, em resposta aos desmandos dos pós-modernistas que relativizam tudo. Mas agora entra em contradição ao dizer que ao invés de termos um conhecimento verdadeiro do mundo, temos apenas um conhecimento útil dele. Ele sem perceber acaba concordando com os pós-modernistas.

“Nossos órgãos sensoriais, como todas as partes de nosso corpo, foram modelados pela seleção natural darwiniana ao longo de inumeráveis gerações. Poderíamos pensar que eles foram moldados para nos dar um retrato ‘verdadeiro’ do mundo como ele “realmente” é. É mais seguro presumir que eles foram moldados para nos fornecer um retrato útil do mundo, que nos auxilie em nossa sobrevivência. De certo modo, o que os órgãos sensoriais fazem é ajudar o nosso cérebro a construir um modelo útil do mundo, e é nesse modelo que nos movemos. É um tipo de ‘realidade virtual’, de simulação do mundo real.” P. 47.

Biologia sem evolução? Dawkins não vê sentido nisto.

“Sem a evolução, a biologia se resume a uma miscelânea de fatos heterogêneos. Até que as crianças aprendam a raciocinar em termos evolutivos, os fatos que elas vierem a conhecer serão apenas fatos, sem nenhuma articulação entre eles e sem nada que os torne significativos ou coerentes. Com a evolução, há uma luz que penetra os mais íntimos recessos, os espaços mais remotos da ciência da vida. Não só se compreendem os fatos, como as razões deles. Como é possível ensinar biologia a menos que se comece pela evolução? Como, a bem da verdade, alguém pode se considerar uma pessoa instruída se nada sabe sobre a razão de sua própria existência?” P. 58.

A evolução tem aplicações interplanetárias, intergalácticas, abrange todo o Universo. Onde houver vida no Universo, ela passou por processos darwinianos, segundo o nosso amigo. Faz sentido, caso ela seja verdadeira mesmo.

“A evolução darwiniana não é simplesmente a base da vida em nosso planeta. É possível defender o argumento de que ela é essencial à vida em si mesma, um fenômeno universal onde quer que haja vida. Se essa suposição estiver correta, a luz lançada por Darwin vai muito mais longe do que jamais sonhou aquele homem gentil e modesto.” P. 62.

Na página 22, já citada, Dawkins diz que a ancestralidade comum dos seres vivos será sempre verdadeira. Entretanto, sua contradição torna-se bastante aparente, quando diz que o darwinismo pode ser abandonado no futuro por não poder responder a questionamentos abalizados que venham a derrubá-lo. A pergunta é: o darwinismo será ou não será sempre verdadeiro? Pode haver um equívoco meu, se a ancestralidade comum não for parte inerente a ideia de evolução proposta por Darwin. O que acho que não é o caso. A ancestralidade comum faz parte do núcleo do pensamento evolutivo.

“Eu falei da vocação de Darwin para compreender as coisas da maneira correta, mas, seguramente, isso só pode significar ‘correta’ do nosso ponto de vista atual. Não seria o caso de sermos humildes o bastante para admitir que o nosso ‘correto’ pode estar completamente errado na opinião das futuras gerações de cientistas? A resposta é ‘não’. Há ocasiões em que a humildade por parte de uma geração pode mostrar-se imprópria, para não dizer pedante.

Atualmente podemos afirmar com confiança que a teoria de que a Terra gira em torno do Sol não apenas é correta no nosso tempo como será correta em todo momento futuro, ainda que a hipótese da Terra plana venha a reviver e a tornar-se universalmente aceita numa nova era das trevas da história humana. Não é possível afirmar exatamente que o darwinismo se encontra na mesma categoria incontestável.

 Pode ser que uma oposição respeitável a ele venha a ser produzida, e pode-se argumentar com seriedade que a atual reputação elevada do darwinismo nas mentes instruídas talvez não perdure ao longo de todas as gerações futuras. Darwin pode mostrar-se triunfante ao final do século XX, contudo temos que reconhecer a possibilidade de que novos fatos venham à luz, forçando nossos sucessores do século XXI a abandonar o darwinismo ou a modificá-lo até que ele se torne irreconhecível.

 Mas será que há um núcleo essencial do darwinismo, um núcleo que o próprio Darwin pudesse ter descrito como o cerne irredutível de sua teoria, que poderíamos situar como uma teoria virtualmente candidata a permanecer fora do alcance da refutação factual?” P. 81.

Ao contrário do que muitos alegam, há componentes hereditários na homossexualidade.

“Os fatos podem ser apresentados em algumas poucas palavras. Uma equipe de pesquisadores do National Institutes of Health, em Bethesda, Maryland, relatou na revista Science o seguinte padrão. A probabilidade de que os homens homossexuais tenham irmãos homossexuais é mais alta do que seria de se esperar se fosse apenas um acaso.

Significativamente, também a probabilidade de que eles tenham tios maternos homossexuais e primos do lado materno homossexuais é maior do que a esperada, o mesmo não ocorrendo do lado paterno. Esse padrão levanta a suspeita imediata de que ao menos um gene causador da homossexualidade nos homens se localiza no cromossomo X.a.

A equipe de Bethesda foi ainda mais longe. A tecnologia moderna possibilitou que procurassem por marcadores moleculares específicos no próprio código do DNA. Numa região, chamada de Xq28, perto da extremidade do cromossomo X, eles encontraram cinco marcadores idênticos partilhados por uma porcentagem sugestivamente alta de irmãos homossexuais. Esses fatos combinam-se com elegância entre si para confirmar indícios anteriores de um componente hereditário em relação à homossexualidade masculina”. P. 102.

Mas a genética do indivíduo não é determinante se ele será ou não homossexual.

“[...] o fato de um indivíduo possuir um gene particular não determina infalivelmente que ele será homossexual. É muito mais provável que a influência causal será estatística. O efeito dos genes nos corpos e no comportamento é como o efeito da fumaça do cigarro nos pulmões. Se você fuma muito, isso aumenta a probabilidade de que você tenha um câncer de pulmão. Mas não determina infalivelmente que você terá um câncer de pulmão. Nem garante infalivelmente que você não terá um câncer de pulmão se evitar o fumo. Vivemos num mundo estatístico.” P. 103.

“Os genes não têm o monopólio do determinismo.” P. 104.

Dawkins se pergunta sobre o porquê das religiões serem tão ridículas, dando o exemplo de uma distintiva crença católica.

“Seria possível pensar que algumas religiões são preferidas, não apesar de serem ridículas, mas precisamente porque são ridículas? Qualquer religioso iniciante poderia acreditar que o pão representa simbolicamente o corpo de Cristo, mas é preciso ser um católico verdadeiro, um católico até a raiz dos cabelos, para acreditar em algo tão bizarro como a transubstanciação. Se alguém pode acreditar nisso, pode acreditar em qualquer coisa.” P. 135.

Os televangelistas e suas vigarices escancaradas:

“Muitos de nós apostaríamos que ninguém teria sucesso se fosse à televisão e dissesse, com todas as palavras: ‘Envie-me seu dinheiro para que eu possa usá-lo para convencer outros trouxas a me enviar o dinheiro deles também’. E no entanto, hoje em dia, em qualquer grande cidade dos Estados Unidos nós podemos encontrar pelo menos um canal evangélico totalmente dedicado a esse tipo de fraude transparente. E eles conseguem sacos de dinheiro. Diante dessa parvoíce em escala tão assustadora, é difícil não nutrir um sentimento de compreensão ressentida em relação a esses vigaristas de ternos brilhantes.

Até que nos lembramos de que nem todos os trouxas são pessoas ricas, e de que quase sempre é com o parco dinheirinho das viúvas que os evangélicos engordam seus cofres. [...] Deus só aprecia verdadeiramente uma doação, disse ele, com sinceridade apaixonada, quando ela é substancial a ponto de representar um prejuízo para o doador. Anciãos pobres eram conduzidos em cadeiras de rodas para testemunhar o quanto eles se sentiam mais felizes depois de terem doado o pouco que tinham para o reverendo fulano de tal.” P. 136.

Dawkins é irredutível. Não há harmonia entre religião e Ciência.

“Estarão a ciência e a religião convergindo? Não. Atualmente há cientistas cujas palavras soam religiosas, mas cujas crenças, se examinadas de perto, mostram-se idênticas às de outros cientistas que se referem a si mesmos, sem rodeios, como ateus.” P. 139.

Há coisas que Dawkins escreve que só lendo as próprias palavras dele para acreditar. Surpreendentemente ele diz que:

“[...] a religião [não] é em si a motivação para as guerras, os assassinatos e os ataques terroristas, mas que ela é o principal rótulo, e o mais perigoso, pelo qual se demarca uma oposição entre um ‘eles’ e um ‘nós’. Não estou afirmando nem mesmo que a religião seja o único rótulo pelo qual demarcamos as vítimas de nossos preconceitos. Há também a cor da pele, a língua e a classe social. Mas, com freqüência, como é o caso na Irlanda do Norte, esses rótulos não se aplicam, e a religião torna-se o único sustentáculo de uma divisão. Mesmo quando não está sozinha, ela é quase sempre um ingrediente explosivo na mistura desses rótulos. P. 148-149.

A bala do seu canhão agora é disparada contra a Homeopatia, que carece de testes que a legitimem como tratamento medicinal eficaz. Lembro que em 2004 o programa Fantástico exibiu durante quatro domingos seguidos, a batalha de um Cientista em tentar provar a cientificidade dos remédios homeopáticos. Os testes não foram favoráveis.

“Há uma saída possível em relação a esse problema, da qual os homeopatas frequentemente lançam mão desde que se chamou a atenção deles para essa dificuldade embaraçosa. O modo de ação de seus remédios, dizem eles, não é químico, mas físico. Eles concordam com a afirmação de que nem uma única molécula do ingrediente ativo subsiste no frasco que compramos, mas isso só importa se insistirmos em raciocinar nos termos da química. Eles acreditam que, por algum mecanismo físico que os próprios físicos desconhecem, uma espécie de ‘traço’ ou de ‘memória’ das moléculas ativas se imprime nas moléculas da água empregada para diluí-las. É o molde impresso fisicamente na água que cura o paciente, e não a natureza química do ingrediente original. Essa é uma hipótese científica, no sentido de que é passível de verificação. Ela é facilmente testável, na verdade, e se não me dou ao trabalho de fazê-lo é somente porque considero que o tempo e o dinheiro de que dispomos seria mais bem empregado no teste de uma hipótese mais plausível. Mas todo homeopata que realmente acredite em sua teoria deveria se esforçar dia e noite para comprová-la.

Afinal de contas, se os testes duplo-cego dos medicamentos prescritos aos pacientes produzissem repetidamente um resultado positivo confiável, ele ganharia um prêmio Nobel não somente de medicina como também de física. E teria descoberto um princípio da física novinho em folha, talvez uma nova força fundamental no universo. Com uma tal perspectiva em vista, os homeopatas com certeza devem estar se acotovelando uns com os outros na sua ânsia por chegar primeiro ao laboratório, correndo em disparada, como Watsons e Cricks alternativos, para reclamar para si esse brilhante galardão científico. Bem, na verdade eles não estão. Será que eles não acreditam de fato em sua teoria, afinal de contas?” P. 172.

Valeu demais a leitura. Gosto do Dawkins, apesar de seus exageros. Meus amigos é que não gostam.

terça-feira, 3 de julho de 2018

Por que fazemos o que fazemos?



CORTELLA, Mario Sérgio. Por que fazemos o que fazemos? 1. ed. - São Paulo: Planeta, 2016. (PDF).

“Se você não acredita que educação é um bom investimento, tente investir em ignorância”. P. 70.

Desses intelectuais públicos, o que menos me empolga é o Sérgio Mário Cortella (Ph.D em Educação na PUC), a despeito disso, este é o terceiro livro dele que leio (imagine se ele me empolgasse). Os dois primeiros livros até que gostei. Na verdade, eram livros em forma de diálogos entre Cortella e Clóvis de Barros de Filho (Ph.D em Comunicação Social na USP), na obra Ética e Vergonha na Cara, e uma boa conversa com Janine Ribeiro (Ph.D em Filosofia na USP), em Política Para Não Ser Idiota. Ambas as obras tive o maior prazer em ler do que está que venho a comentar agora, por julgar muitas das “dicas” e insights dadas pelo Cortella, bastante triviais.

Por Que Fazemos o Que Fazemos é um livro sobre motivação no ambiente de trabalho, visto que muitas vezes nossos afazeres rotineiros nos cansam, nos desmotivam, nos desanimam, nos fazem pensar e repensar, se fazemos o que fazemos por mera obrigação, necessidades... Seja o nosso emprego bem remunerado ou não, é constante os pensamentos que nos vêm e nos fazem questionar se estamos sendo nós mesmos quando fazemos o que fazemos em nossos labores trabalhistas. Não é coisa rara o desânimo nos acometer, mesmo ganhando um bom salário. O dia a dia, a rotina, o sentimento de que estamos vendendo um produto ou serviço “inútil” parecem minar a nossa felicidade e empolgação.

Reconhecendo esses problemas de falta de sentido, Cortella lança uma luz em meio ao desânimo no ambiente de trabalho.

Vamos ao livro.

Umas das utopias do Marx, que infelizmente não se realizou:
           
"Em uma de suas obras, Marx sonhou que chegaríamos a uma tecnologia tal que o homem dividiria o dia de modo que fosse possível trabalhar apenas quatro horas. E as outras vinte seriam dedicadas ao lazer, à convivência com os filhos. Ele dizia, inclusive, que iríamos pescar. Esse sonho de Marx é, em grande medida, resultado da crença na racionalidade tecnológica, a partir da qual teríamos a possibilidade de partilhar as tarefas, o que economizaria tempo coletivo." P. 12.

No Brasil, o trabalhador tem direito a trinta dias de férias remuneradas. Mas noutros países a coisa é diferente:

"As culturas agrícolas tradicionais, em sociedades mais simples, não têm a parada no fim de semana. [...] Nem todos os países têm trinta dias de férias. Há nações, como os Estados Unidos, em que as férias não são remuneradas. O empregado tem direito de tirar, mas não recebe. Há sociedades em que o período de férias é de cinquenta dias. Na sociedade japonesa, em que o trabalho intenso e contínuo é quase um dever moral, o funcionário não reclama, é resignado e a hierarquia é fechada." P. 16.

Cortella traz uma ótima reflexão sobre como devemos olhar o nosso trabalho, por mais que ele não seja aquilo que almejamos de fato. A experiência adquirida e o conhecimento aprendido, por si só, já valem, para que posteriormente sigamos adiante, e consigamos galgar novos espaços. Ele magistralmente escreve:

"Uma das áreas que mais têm dificuldade para estimular o funcionário é a de teleatendimento, call center. Por quê? Geralmente, trata-se de um jovem na faixa dos vinte anos de idade, no primeiro emprego, e que vai trabalhar ali por não ter experiência. Por conta dessa condição, ele receberá um treinamento para ser robótico. Logo, vai encarar aquilo como algo meramente transitório, enquanto ele não arruma um emprego melhor.

Qual a principal dificuldade da empresa com esse grupo? Alta rotatividade. O turnover às vezes chega a 70%, justamente porque as pessoas estão ali de passagem. O propósito delas é ir embora. Vão ficando enquanto for preciso. Na hora em que não precisarem mais, pegarão o boné. Como consultor, frequentei algumas empresas de telemarketing. Minha recomendação a elas foi para que mostrassem ao jovem que ele, de fato, estava ali de passagem, mas que não deveria perder a profundidade da experiência vivenciada.

Embora esteja ali transitoriamente, não adianta a empresa dizer para ele 'você está num ótimo lugar', 'vai crescer na empresa', 'podemos oferecer cargos e salários', porque ele sabe que não é verdade. O que deve ser colocado é: 'Nós sabemos que você está aqui por um período, você quer pagar a sua faculdade, e quando puder vai para outra atividade na qual tenha mais interesse'.

Mas isso não impede que, 'enquanto você estiver aqui, de passagem, perceba quanto essa experiência pode contribuir profundamente para a sua formação. Você vai conviver com pessoas diferentes, vai enfrentar situações de conflito ao telefone, vai lidar com informações relevantes. Você vai sair daqui preparado para dar outros passos em sua carreira'.

Nas empresas em que essa lógica foi colocada, houve uma diminuição significativa da rotatividade. Afinal, seria possível dizer que, assim como tenho uma postura de pouco envolvimento porque estou de passagem pela empresa, também estou de passagem na vida. Eu estou tão de passagem quanto o meu primeiro emprego.

Mas não é porque estou de passagem por esta vida que vou deixar de vivenciar a experiência com maior densidade, enquanto aguardo uma coisa melhor, que pode ser o paraíso, a eternidade etc. Essa experiência que tenho aqui me faz, ela me forma e eu a faço. Eu dou sentido a ela." P. 34-35.

Não há como só fazermos coisas que nos agradem no emprego:

"A empresa é um lugar onde posso construir uma parcela daquilo que pode me proporcionar situações de felicidade. Mas quando alguém diz 'Ah, eu quero fazer só o que gosto na vida', lamento, isso é impossível. Tenho um vínculo fortíssimo com a minha atividade de docente. Mas não gosto de fazer uma parte das coisas que faço. E outra parte imensa eu gosto muito de fazer.

Gosto muito de dar aula, mas não aprecio corrigir provas. Quem gosta de ler cinquenta redações sobre o mesmo tema? Depois, mais cinquenta, mais cinquenta… Mas eu não posso não corrigir, porque, se deixar de fazer isso, não terei visão de como os alunos estão aprendendo e de como estou ensinando. Quando estou escrevendo um livro, não gosto de fazer a releitura do material, a revisão, a correção gramatical." P. 37.

E aqui vai aquele mote: sem esforço, sem ganho:

"É possível notar um comportamento marcado pelo hedonismo nas gerações mais jovens. Um posicionamento expresso pelo clássico 'eu quero fazer o que gosto. Evidente, eu também. Aliás, uma frase que falei numa entrevista repercutiu bastante: 'Só um imbecil gostaria de fazer o que não gosta'. [...] Mas é preciso ter consciência de que no desenrolar da vida profissional, para fazer o que se gosta, é necessário passar por etapas não necessariamente agradáveis no dia a dia. O caminho não é marcado apenas por coisas prazerosas. O problema é que grande parte da geração atual foi criada sem a ideia de transição entre o desejo e o fato, entre a vontade e o sucesso, o anseio e a satisfação. Existem jovens de vinte anos de idade que nunca se deram ao trabalho de arrumar a cama ou lavar a louça. A raiz está na formação dentro da família." P. 37-38.

Sem esforço, sem ganho [2]:

"É ótimo para um jornalista fazer uma matéria e vê-la publicada num jornal ou numa revista, mas o trabalho de apuração, acordar de madrugada, checar informações, receber vários nãos enquanto se procura fontes, tudo isso é desagradável. A agradabilidade tem um caminho anterior que não necessariamente é agradável. Talvez a frase mais clássica que traduza isso é a norte-americana 'no pain, no gain' (sem dor, sem ganho)." P. 40.

segunda-feira, 2 de julho de 2018

Breve História do Feminismo no Brasil


TELES, Maria Amélia de Almeida. Breve História do Feminismo no Brasil. São Paulo: Brasiliense, 1999.

Não levando em conta os exageros e tomadas equivocadas de decisões, conceitos e ideias, de certos movimentos feministas atuais, acho extremamente justa e bastante necessárias as reivindicações do mundo feminino, por igualdade, equidade, respeito e etc. Durante milênios, as mulheres não têm sido tratadas com justeza, por nós, homens. Somos egoístas. Somos egocêntricos. Pensamos que por sermos “másculos”, somos superiores.

Aqui no Brasil, durante a Colônia, Império, República... não foi/é diferente, um país encharcado no patriarcalismo, tratou, e ainda trata as mulheres de maneira inadequada.

“O feminismo é uma filosofia Universal que considera a existência de uma opressão específica a todas as mulheres. Essa opressão se manifesta tanto a nível das estruturas como das superestruturas (ideologia, cultura e política). Assume formas diversas conforme as classes e camadas sociais nos diferentes grupos étnicos e culturas. Em seu significado mais amplo, o feminismo é um movimento político. Questiona as relações de poder, a opressão e a exploração de grupos de pessoas sobre outras. Contrapõe-se radicalmente ao poder patriarcal. Propõe uma transformação social, econômica, política e ideológica da sociedade.” P. 10.

Muitas mulheres que se destacaram por questionarem o status privilegiado e opressivo das elites, foram consideradas loucas e meretrizes. Dona Beija, Chica da Silva, Marília de Dirceu, e outras mais.

Teles traz uma lista de algumas mulheres que se destacaram no Brasil colonial:

 - Ana Pimentel, que governou a capitania de São Vicente, na ausência de seu marido.

 - Brites de Albuquerque tomou conta da capitania de Pernambuco durante alguns anos.

 - Aqualtune, que foi uma das fundadoras do Quilombo dos Palmares, avó de Zumbi.

- Dandara, mulher de Zumbi, uma das guerreiras de Palmares.

 - Filipa Aranha, líder do Quilombo no Pará.

 - Tereza de Quariterê, que liderou um Quilombo no Mato Grosso.

- Zeferina, líder de vários negros para proteger o Quilombo do Urubu, na Revolta dos Malês.

- Maria Otiz, que lutou contra os holandeses.

Pode-se dizer que as mulheres, em sua totalidade eram analfabetas, pois apenas duas sabiam ler na cidade de São Paulo (séc. 17). No resto do Brasil essa equação não devia ser muito diferente.

"Consta que, em São Paulo, no século 17, apenas duas mulheres sabiam assinar o nome. [...] para mulher receber alguma instrução tinha de entrar no convento. Nessa época no Brasil a educação estava a cargo da igreja católica em especial dos padres jesuítas. A igreja disseminava a ideologia patriarcal e racionalizava o seu significado: 'Adão foi induzido ao pecado por Eva e não Eva por Adão. É justo que aquele que foi induzido ao pecado pela mulher seja recebido por ela como soberano'." P. 19-20.

No Brasil Império, a educação do sexo feminino ainda deixava muito a desejar. As mulheres só podiam aprender coisas básicas, nunca avançando aos níveis mais elevados da educação.

“Na primeira metade do século XIX, houve mulheres que começaram a reivindicar por seu direito à educação. O ensino então proposto (1837) só admitia para as meninas a escola de 1º grau, sendo impossível, portanto, atingir níveis mais altos, abertos aos meninos. O aspecto principal continuava sendo a preparação para as atividades do lar (trabalhos de agulha), em vez da instrução propriamente dita (escrita, leitura e contas). [...] O número de escolas para meninas era inferior ao de escolas para meninos (no Rio de Janeiro, na metade do século XIX, havia 17 escolas primárias para meninos e apenas 9 para meninas)”. P. 27-28.

Uma das mulheres que mais se destacou na história do nosso país foi Anita Garibaldi, na revolução Farroupilha, iniciada na década de 1830. Posteriormente, ainda lutou pela unificação da Itália, na Europa.

Considerada umas das primeiras feministas, Nísia Floresta (1809-1885), defendeu o fim da escravidão e a autonomia das mulheres. Ela abriu uma escola feminina no Rio de Janeiro.

No mesmo século XIX, temos a primeira romancista, Maria Firmina, que escreveu um romance contra a escravatura. Ela também abriu uma escola para crianças, onde meninos e meninas podiam estudar.

Luísa Mahim, destacou-se na Revolta dos Malês, em 1835, rebelião de negros em Salvador.  Sua casa tornou-se uma espécie de quartel general.

Chiquinha Gonzaga, a primeira compositora popular, teve sua primeira ópera barrada por ela ser mulher. Questionada entre escolher o marido e o seu violão, optou por este.

Surge em 1888, o jornal A Família, Josefina Álvares era a sua dirigente. Ela defendia o direito das mulheres votarem, não aceitava que o homem chefiasse a família, queria o divórcio como um direito da mulher, a educação integral da mulher e contestava de forma veemente a dominação dos homens.

Pelos anos 1910...

“Já em 1910, Deolinda Dalho, professora, fundava o Partido Feminino Republicano, defendendo especificamente que os cargos públicos fossem abertos a todos os  brasileiros, sem distinção de sexo. Em 1917, no Rio, ela promoveu uma passeata com quase 100 mulheres, pelo direito de voto.” P. 43.

Pelos anos 1920...

“Em 1920, Maria Lacerda Moura, professora, juntamente com a bióloga Bertha Lutz, fundaram no Rio de Janeiro a Liga para a Emancipação Internacional da Mulher, um grupo de estudo cuja preocupação era batalhar pela igualdade política das mulheres. Maria Lacerda de Moura, porém, não tinha em mente apenas essa questão; dirigiu a revista Renascença e pregava o pacifismo, o amor livre e a emancipação da mulher”. P. 44.

Nos anos de 1964, Carmen da Silva escrevia artigos para revista Cláudia, destacando-se perante o público brasileiro. Também a feminista Betty Friedan quando esteve no Brasil, trouxe consigo o seu livro que causou um grande frisson nas mídias brasileiras, por defender ideias muito moderninhas para a época.  

A partir da metade da década de 1970, as mulheres começam a se emancipar, mesmo sob os desmandos da ditadura militar. Com o amparo da ONU, a mulher passa a construir a sua história autonomamente, questionando os disparates machistas e reivindicando os seus direitos. A opinião pública é obrigada a lhes dá ouvidos. Dois jornais tiveram grande importância, nesta ascensão feminina.

“Nós Mulheres e Brasil Mulher, juntos, fortaleceram as reivindicações femininas e ajudaram as mulheres a tomar consciência da sua condição. Cada um a seu modo, é claro. Ao se colocarem a serviço das mulheres das camadas populares, esses jornais trouxeram para o debate, ainda incipiente, a necessidade de transformação econômica e social, para que as condições de vida e trabalho de ambos os sexos de tornassem adequadas.” P. 91.

Depois surge em 1981 o jornal Mulherio, que teve importância salutar na nova década que se iniciava.

Ao longo da segunda metade do século XX, as mulheres lutaram junto aos movimentos sindicais, partidos de esquerda, por mais creches, melhores salários... Congressos feministas foram realizados... Teles reitera algumas vezes, que apesar da agenda progressista dos partidos de esquerda, as mulheres não tinham a visibilidade adequada neles. O machismo ainda prevalecia nos bastidores.  

Chega-se a última década do século, e ainda muitas coisas estão por se fazer a favor de uma maior autonomia e reconhecimento da mulher na sociedade.

quinta-feira, 28 de junho de 2018

As Coisas São Assim: Pequeno Repertório Científico do Mundo que nos Cerca



BROCKMAN, John; MATSON, Katinka (Orgs). As Coisas São Assim: Pequeno Repertório Científico do Mundo que nos Cerca. São Paulo: Cia das Letras, 1997. (PDF).

Cada capítulo foi escrito por um Cientista eminente em sua área de atuação. Um pouco de tudo: Evolução, Big Bang, Natureza do Tempo, Acaso, Origem da Vida... Um livro antigo, de mais de 20 anos, mas bastante pertinente nas questões que traz em suas páginas.

Richard Dawkins (Zoólogo da Universidade de Oxford, Inglaterra) escreve o primeiro capítulo, e como é a sua habitual maneira de ser, atacando as concepções religiosas que aí estão. Ele escreve:

"As pessoas acreditam em coisas simplesmente porque outras pessoas acreditaram nessas mesmas coisas ao longo dos séculos. Isso é tradição. O problema com a tradição é que, independentemente de há quanto tempo a história tenha sido inventada, ela continua exatamente tão verdadeira ou falsa quanto a história original. Se você inventar uma história que não seja verdadeira, transmiti-la através de vários séculos não vai torná-la verdadeira!" P. 21.

Paul Davies (Professor de Filosofia Natural na Universidade de Adelaide, Austrália) dá sua contribuição, falando sobre o que diabos causou o Big Bang. Ele pergunta:
               
“Afinal de contas, o que é que aconteceu antes do big bang? [...] poderia o universo inteiro simplesmente ‘pipocar’, ganhando existência num passe de mágica, sem nenhuma razão específica? Essa pergunta simples, feita por tantas crianças, tem ocupado o intelecto de gerações de filósofos, cientistas e teólogos. Muitos a evitaram, considerando-a um mistério impenetrável. Outros tentaram afastá-la usando certas definições. A maioria deles, só de pensar no assunto, acabou ficando terrivelmente confusa. O problema, no fundo, é o seguinte: se nada acontece sem uma causa, então alguma coisa deve ter levado o universo a surgir. E assim enfrentamos a inevitável pergunta sobre o que causou essa alguma coisa. E assim por diante, numa regressão infinita”. P. 28.

Não faz sentido perguntar o que havia antes da grande explosão, visto que tudo começa a partir dela.

“Se o big bang foi o começo do próprio tempo, então nenhuma discussão sobre o que aconteceu antes do big bang ou o que o causou — no sentido habitual de causação física — faz sentido. Infelizmente, muitas crianças, e adultos também, consideram essa resposta um pouco desonesta. Deve haver algo mais do que isso, contestam.” P. 29.

As partículas subatômicas com as suas aparições espontâneas do nada parecem um indicativo de que o universo surgiu também espontaneamente, segundo Davis.  

“É claro que há um grande salto entre o aparecimento espontâneo e sem causa de uma partícula subatômica — fato rotineiramente observado em aceleradores de partículas — e o surgimento espontâneo e sem causa do universo. Mas o paralelo está aí. Se, como acreditam os astrônomos, o universo primitivo estava comprimido num tamanho muito pequeno, então efeitos quânticos devem ter sido importantes numa escala cósmica. Mesmo se não tivermos uma ideia precisa do que aconteceu no início, podemos pelo menos ver que a origem do universo a partir do nada não é necessariamente ilícita, não natural ou não científica. Em suma, não precisa ter sido um evento sobrenatural.” P. 30.

Existe um porquê de o nosso universo ter passado a existir?

“Mesmo com esses detalhes adicionais, muitas pessoas se sentem enganadas. Elas querem saber por que essas coisas estranhas aconteceram, por que há um universo e por que esse universo. Talvez a ciência não consiga responder essas perguntas. A ciência é boa para explicar os comos, mas não muito boa nos porquês. Talvez não exista um porquê. Perguntar ‘por que’ é muito humano, mas talvez não haja resposta, em termos humanos, para perguntas tão profundas sobre a existência.” P. 30.

Davis conclui:

“[...] o que aconteceu antes do big bang? A resposta é: nada.” P. 30-31.

Segundo Robert Shapiro (Ph.D em Química na Universidade de Harvard, EUA), para que a vida tenha dado o ar de sua graça, ao menos uma vez, ela deve ter vindo da não-vida – Abiogênese. E assim, iniciou-se o processo evolucionário. Deus está fora da jogada.

"Mas como é que a vida surgiu pela primeira vez, neste ou em qualquer outro lugar do universo onde possa existir? Muitas religiões e algumas filosofias se esquivam dessa questão ao supor que a vida, na forma de uma deidade ou de algum ser imortal, sempre existiu. A ciência, que procura respostas naturais ao invés de sobrenaturais, pode oferecer uma resposta alternativa: a vida surgiu da 'não-vida' pelo menos uma vez, em algum momento após a formação do universo." P. 37.

Stephen Jay Gold (Professor de Paleontologia da Universidade de Harvard, EUA) afirma que a Ciência não lida com o significado das coisas no universo. Isso fica a cargo da Teologia e Filosofia.

“[...] a evolução, assim como qualquer área de ciência, não é capaz de sondar a questão das origens fundamentais ou significados éticos. (A ciência, como um empreendimento, busca explicar fenômenos e regularidades do universo empírico, sob o pressuposto de que leis naturais são uniformes no espaço e no tempo. [...] Assim, a evolução não é o estudo da origem primordial da vida no universo ou do significado intrínseco da vida entre os objetos da natureza; essas questões são filosóficas (ou teológicas) e não fazem parte do domínio da ciência. (Também desconfio que não possuam respostas universalmente satisfatórias, mas isso é assunto para outro momento.) Esse aspecto é relevante pois fundamentalistas fervorosos, disfarçados de ‘criacionistas científicos’, afirmam que a criação deve ser equiparada à evolução e receber tempo proporcional nas escolas, uma vez que ambas são igualmente ‘religiosas’ ao lidar com mistérios primordiais. Entretanto, a evolução não trata desses assuntos de modo algum, e portanto permanece plenamente científica.” P. 62.

Gold vê a evolução como um fato consumado. Agora, os mecanismos pelos quais ela acontece é que são frutos de vários debates entre os Cientistas.

“O fato da evolução é tão bem documentado quanto qualquer coisa que conhecemos na ciência — tão seguro quanto nossa convicção de que a Terra gira ao redor do Sol, e não o contrário. Porém, o mecanismo da evolução permanece o centro de empolgantes controvérsias — e a ciência é mais animada e frutífera quando há importantes debates sobre as causas de fatos bem documentados. A seleção natural de Darwin foi confirmada por copiosos e elegantes estudos como um mecanismo poderoso, especialmente na evolução de características que tornam os organismos adaptados ao seu ambiente”. P. 64.

Milford H. Wolpoff (Ph.D em Antropologia na Universidade de Illinois, EUA) lamenta que a evolução tão bem atestada pelos estudos biológicos, seja vista com ceticismo por tanta gente.

“A evolução, o fato de que todas as formas vivas estão relacionadas entre si por descendência comum e que alterações genéticas levam à diversidade da vida na Terra, é um desses avanços revolucionários na organização de nosso conhecimento. E possivelmente o avanço revolucionário da biologia. E, no entanto, apesar do fato de a evolução ser uma explicação de nossa ancestralidade e nossa diversidade, ou talvez por causa disso, ela é largamente desacreditada. [...] O mais difícil de engolir é aquilo que toda criança aprende na escola, que ‘o homem veio dos macacos’.” P. 66.

A dúvida é a mola propulsora que faz a Ciência progredir, nos conta Steve Jones (Professor de Genética no University College, Londres).

“A certeza foi o que bloqueou a ciência por séculos. Os cientistas são, no mínimo, pessoas com incertezas. Suas ideias precisam ser constantemente testadas à luz de novos conhecimentos. Se falharem nessa prova, são rejeitadas.” P. 82.

Jones não considera os Biólogos criacionistas como verdadeiros Cientistas.
               
"Hoje, nenhum biólogo acredita que os seres humanos foram criados num ato milagroso. Todos estão convencidos de que eles evoluíram a partir de formas de vida anteriores. Apesar de as provas da ocorrência da evolução serem fortíssimas, ainda há muito espaço para as controvérsias sobre como ela ocorreu". P. 82.

Grandes símios são os nossos parentes na cadeia evolutiva:

“Chimpanzés e gorilas parecem ser nossos parentes, com base em seu plano corporal. Seus genes sugerem a mesma coisa. De fato, cada um partilha 98% de seu DNA conosco, mostrando que nos separamos recentemente. O relógio sugere que a separação se deu há cerca de 6 milhões de anos. Tanto o chimpanzé quanto o gorila têm pele negra. Isso também sugere que os primeiros humanos eram negros e que a pele branca evoluiu posteriormente.” P. 84.

Hao Wang (Ph.D em Filosofia na Universidade de Harvard, EUA) escreve:

"É claro que um preconceito não é necessariamente falso. E, sim, uma crença fortemente aceita e não garantida pelas evidências disponíveis, sendo a intensidade da convicção desproporcional em relação às evidências que a sustentam". P. 102.

É aqui a única vez que dou um pitacozinho de nada neste “resumo”: No ponto. Todos nós temos ideias e visões de mundo preconcebidas, e elas não são necessariamente falsas por serem assim. Mas claro, geralmente conceituamos o preconceito como uma ideia compulsoriamente falsa. Mas estamos equivocados em ver ele apenas dessa forma. Muitos dos preconceitos que temos são até saudáveis. Não podemos escrutinar (e por que deveríamos?) todas as nossas crenças.

Wang não olha o mental como o equivalente do cérebro. Neste sentido, ele destoa do paradigma vigente. Olhemos sua opinião:

“Os cientistas e filósofos da atualidade em geral entendem que mente e cérebro se equivalem, que há uma correspondência integral entre os estados mental e físico do cérebro de alguém. [...] Mas as evidências disponíveis estão longe de provar que todo estado mental corresponde a um único estado físico do cérebro. Pelo que sabemos, certas mudanças súbitas na mente podem não corresponder a nenhuma alteração física no cérebro. [...] Parece que fomos capazes de observar mais diferenças mentais do que diferenças físicas no cérebro.” P. 102.

Não importa as limitações e deficiências que a Ciência tem, Pascal Boyer (Professor da Universidade de Cambridge, Inglaterra) alega que ela explica o universo melhor que qualquer outra coisa:
               
"[...] a ciência tem sido o empreendimento intelectual mais bem-sucedido de todos até o momento. Explicou mais sobre o mundo do que qualquer outra forma de pensamento". P. 120-121.

Steven Rose (Professor de Biologia e Neurobiologia na Open University) argumenta que cérebro e mente são a "mesma coisa". 
               
“Em primeiro lugar, existe apenas um mundo, uma unidade material ontológica. A alegação de que existem dois tipos de coisas incomensuráveis no mundo, o material e o mental, induz todo tipo de paradoxo e é insustentável. Sem entrar em longos debates filosóficos, a simples observação de que manipular a bioquímica cerebral (com drogas psicoativas, por exemplo) altera as percepções mentais ou de que o sistema de imagem tomográfica indica que regiões específicas do cérebro usam mais oxigênio e glicose quando uma pessoa está concentrada, tentando resolver um problema matemático ‘mentalmente’, mostra que, enquanto a personalidade é mais do que uma simples questão de fosfato, os processos que denominamos mentais e cerebrais devem estar ligados de alguma forma. Portanto o monismo dita as regras, e não o dualismo”. P. 139.

Vários outros Cientistas participaram na composição deste livro, mas ficamos por aqui.