terça-feira, 21 de agosto de 2018

O Diabo e Padre Amorth



"O diabo não existe."

"A crença em demônios ficou no passado." 

"Possessões demoníacas não são nada mais que distúrbios psiquiátricos, ou estados alterados da consciência, isso, quando não passam de mentiras descaradas." 

Estas são basicamente as respostas dadas pelos céticos quando se deparam com essa questão. Outros, ainda munidos de certa incredulidade, não descartam por completo que algo muito estranho esteja em curso, mas ainda são relutantes em afirmar ou acreditar que exista uma força pessoal e maligna externa que esteja infernizando a vida da pessoa “possessa”. Até muitos daqueles que deveriam estar na linha de frente na “defesa” do demônio, os padres, não mais creem na sua existência, e reinterpretam as passagens evangélicas em que Jesus enfrenta os mensageiros de Lúcifer possuindo as pessoas, dizendo que aquelas pessoas possuídas, na verdade, estavam doentes. O condicionamento cultural limitado da época fazia os judeus verem o sobrenatural onde ele não estava.

O padre Gabriel Amorth está na contramão de todas essas visões contemporâneas. Morto desde 2016, aos 91 anos, foi considerado o maior exorcista da igreja católica das últimas décadas, cujo trabalho incansável de tratar as pessoas com o capeta no corpo se estendeu até os seus últimos dias. 

Este documentário tem um tom especial. Ele foi produzido por nada mais nada menos que o Cineasta William Friedkin, Diretor do clássico O Exorcista, de 1973. Sendo que agora, não é um exorcismo ficcional que ele filmará, mas um exorcismo feito pelo padre Amorth em uma mulher bastante oprimida por uma legião de demônios. Friedkin nos diz que nunca até então tinha visto um exorcismo de verdade, e, que agora, depois de 45 anos, finalmente viu uma mulher supostamente possessa sendo exorcizada pelo padre Amorth.

O exorcismo é mostrado. Padre Amorth, ajudantes, padres, familiares e amigos da possessa começam o ritual de expulsão do maligno dela.  A mulher não demora muito para manifestar gritos, sofrimento, falar com uma voz gutural e estranha, ficar agitada, dizer que é satanás... Devo admitir, que é um pouco perturbador ver o seu sofrimento. Ela está possuída por uma força espiritual maligna ou manifestando algum distúrbio tratável pela Medicina? E mesmo se a medicina não tiver no momento os dispositivos e meios eficazes para tratá-la, num futuro próximo a Ciência não elucidará em termos puramente cerebrais tal distúrbio?

Uma das cenas mais interessantes é quando Friedkin mostra o vídeo que gravou, a vários Médicos, para que eles deem o seu parecer científico sobre o exorcismo em questão. Suas respostas são um pouco vagas.

Noutras ocasiões, já dei meu parecer, e aqui o repito. Pode ser verdade que algumas pessoas estejam possuídas por forças espirituais de outras dimensões da realidade. E alguns homens da Ciência não descartam essa possibilidade.

No caso dessa mulher, a resposta mais razoável é que ela sofre de problemas psicológicos e psiquiátricos, acrescente-se a isso, o meio religioso e social em que foi criada, aí, para ela e seus parentes (católicos) acreditarem que está sendo usada pelo diabo é um pulo.  

O documentário sofreu várias críticas de falta de credibilidade. Para começar, a voz que a mulher emite em seu exorcismo. Fica claro que o som dela foi modificado pelo editor, dando-lhe um ar de malignidade. Outra coisa: Friedkin diz que vai atrás dela meses depois, e ela não quer vê-lo, ele vai atrás dela na igreja, e diz que a mesma começa a manifestar-se como um animal no chão, enchendo-o de medo e pavor. Pois bem, se ela não queria mais ser filmada, não queria mais participar do documentário, como ele que ele pode expor a vida dela, dessa maneira? Duvido muito que ela tenha permitido que a sua história fosse ao ar.

Fica a pergunta, tudo não passa de charlatanismo do Friedkin ou dos dois? Ou a insensibilidade de Friedkin foi tão grande, que ele pouca se importa de mostrar ao mundo inteiro a dor dessa mulher?

E o padre Amorth foi um fanático católico, que dizia que o demônio tinha medo dele (neste documentário é o oposto, o tinhoso não medo algum), e que a igreja católica era a única verdadeira, declaração que os espíritos do mal confirmavam. Basta ler o seu livro  Memórias de um Exorcista.

terça-feira, 14 de agosto de 2018

Canção da Liberdade



Há uns 12 anos, numa madrugada sem sono, liguei a TV e estava passando este filme no SBT. Logo me chamou a atenção, devido ao tema abordado em sua trama. O racismo e o Movimento pelos Direitos Civis, na década de 1960, em todo o território norte-americano, principalmente nos estados sulistas, onde a discriminação e perseguição aos negros eram e ainda é mais intensa que nos estados do norte.

Sempre garimpando na internet filmes sobre o racismo, demorei anos a fio para encontrar este. Finalmente consegui baixá-lo e colocá-lo disponível no Youtube. Infelizmente, não está em sua melhor qualidade visual, mas dá para apreciá-lo numa boa, e ver o quanto o nefasto racismo que gerou uma cruel segregação é uma ferida aberta na história do país da “liberdade”.

Canção da Liberdade conta em seu elenco com o renomado ator negro, Danny Glover, que faz o papel de pai de Owen, um adolescente indignado com o racismo e preconceito vigentes na cidade em que vive. 

A história se passa na fictícia cidade de Quinlan, no Mississipi, uma cidadezinha tranquila e pacata, mas que guarda em suas entranhas um ódio visceral dos negros que ali habitam. A segregação é total. Negros não podem entrar em lanchonetes, não podem frequentar a biblioteca, a justiça eleitoral coloca várias dificuldades para o direito de voto dos negros, mesmo que a constituição do país lhes “garanta” essa prerrogativa.

Não conformados com a situação de humilhação porque passam, os negros de Quinlan começam a se organizar para reverter o quadro degradante em que a segregação os colocam. Imbuídos da ideia de não-violência, resistirão as investidas dos brancos racistas sem apelarem para o revide físico, suportando as pancadas, chutes e murros, numa tentativa de pouco a pouco ir minando a segregação. 

Em muitos lugares da nação, o Movimento Pelos Direitos Civis está progredindo e fazendo as estruturas segregacionistas verem os primeiros tijolos de seus muros ruírem. Em Quinlam, seus moradores negros nutrem essa esperança, não sem discordarem e discutirem calorosamente sobre as estratégias que devem tomar. No final das contas, a não-violência é o caminho que resolvem adotar.

Encarceramentos, surras e humilhações, que já eram esperados não demoram a acontecer. Quando Owen e Archie Mullen, outro ativista negro estão saindo da prisão, uma corja de moradores brancos tentam linchá-los, e um homem empunhando uma Bíblia, provavelmente o pastor da cidade, interpela Owen:

“Não acredita em jesus, acredita?”

Ao que Archie Mullen responde:

“Acredita que Jesus Cristo é amor?”

O “cristão” retruca:

“Não estou falando com você. Você vai pro inferno, negro! E vai logo!”

Numa outra ocasião do filme, uma “mulher de Deus” tem uma “inteligente” e “divina inspiração” ao dizer:

“Deus nos fez separados. Deve ter uma razão. Enfim, percebi... Ele quer que cada um saiba o seu lugar e fique nele! De outro modo, haveria desordem. E Deus não quer desordem!”

Nunca é demais lembrar que o estado do Mississipi tinha e tem uma concentração massiva de evangélicos conservadores, aqueles que se dizem a luz do mundo, e veem a si mesmos como os iluminados de Deus.

O racismo dos evangélicos ainda é tão acentuado que o protestante Ronald Syder, Ph.D em História na Universidade de Yale, traz em seu livro (O Escândalo do Comportamento Evangélico. Viçosa, MG: Ultimato, 2006), os seguintes números:

“Em 1989 George Gallup Jr. e James Castelli publicaram os resultados de uma pesquisa para determinar quais grupos nos Estados Unidos eram mais propensos a rejeitar vizinhos negros – um bom indicador de racismo. Católicos e cristãos não evangélicos foram classificados entre os menos propensos; 11% fizeram objeção ao contato entre negros e brancos. Os protestantes históricos chegaram próximo dos 16%. Com 17% batistas e evangélicos ficaram entre aqueles mais propensos a repudiar a possibilidade de ter vizinhos negros, e 20% dos batistas do sul rejeitaram a ideia de ter vizinhos negros.” P. 25.

Ele escreve mais:

“Durante o movimento de direitos civis, quando os protestantes históricos e os judeus se uniram aos afro-americanos em sua luta histórica por liberdade e igualdade, líderes evangélicos foram quase totalmente omissos. Alguns se opuseram ao movimento; outros não se pronunciaram. Quando Frank Gaebelein, então co-editor de Christianity Today, não apenas cobriu a marcha de Martin Luther King sobre Selma, como também endossou o movimento e a ele se juntou, experimentou oposição e hostilidade da parte de outros líderes evangélicos.” P. 25.

E conclui com uma pergunta desconcertante:

“[...] como é possível que os evangélicos sejam as pessoas mais racistas e preconceituosas de nossa sociedade?” P. 47.

Voltando ao filme, com muitos sofrimentos e dores, os pretinhos de Quinlan conseguem a liberdade de não serem mais segregacionados. Entretanto, para quem conhece um pouco da história dos negros, isso não seria o final de práticas racistas nos EUA.

Mais um filme espetacular!


terça-feira, 24 de julho de 2018

Pablo Escobar: Anjo ou Demônio?



Chamá-lo de traficante, ou narcotraficante, é um eufemismo diante do que ele fez na Colômbia nos anos 1970-1990, deixando o seu rastro implacável de destruição e de admiração e devoção na cabeça de muitos pobres a quem ele ajudou dando moradias e um pouco de dignidade, em troca de sua fidelidade. Pablo Escobar foi um mega NARCOTERRORISTA, que o mundo já mais viu desde sua morte em 2 de dezembro de 1993. O cara é um ídolo para os habitantes do bairro que ele construiu. As pessoas rezam a ele. Na sua morte, muitos na Colômbia choraram a sua partida, porque lhes viam como um homem bom e generoso, preocupado com os mais necessitados, coisa que o estado não era. Escobar continua sendo um paradigma complexo e que deixa estupefato quem quer conhecer a sua história.

“Durante vários anos, principalmente na década de 1970, Pablo Escobar Gaviria passou despercebido no nariz das autoridades. Nunca levantou suspeitas sobre o império criminoso e multimilionário que crescia vertiginosamente. Durante esse período, não ostentava fortuna, nem deixava ver o verdadeiro alcance de sua atividade delituosa. Cercou-se de muito poucas pessoas que não conheciam a magnitude de suas atividades, nem a perversidade de seu gênio enigmático. Com sigilo e inteligência de sobra, foi tecendo toda sua estrutura do empório do narcotráfico mais sólido e temerário do século XX.”

Pablo Escobar: Anjo ou Demônio? é um documentário de 2007 que traz o depoimento de muitas pessoas que fizeram parte dos conturbados anos em que Escobar aterrorizou a Colômbia. Aqui vão algumas impressões de quem o conheceu.

Alfonso Valdivieso, ex Fiscal General:

“Bom, uma pessoa que teve uma habilidade especial para o mal, uma predisposição para a perversidade.”

José Joaquim Caicedo, Advogado:

“Era um homem muito frio, com uma inteligência incrível. Um homem que sempre estava dois ou três anos na frente dos outros. Em 1988 quando o conheci, ele já falava do que ia acontecer em 1991 ou em 1992. Ou seja, projeções políticas. Ele me falava muito sobre política. E, de fato, muitas das projeções de Pablo Escobar viraram realidade. Um homem que se projetava para frente, para o futuro. Um homem muito frio. Com certeza a maior mente criminosa do século XX.”

Cesar Gaviria, ex Presidente da Colômbia:

“Uma mente muito complexa. Um homem com uma capacidade enorme de manipular a opinião pública.”

Enrique Parejo, ex Ministro da Justiça:

“Eu diria que Pablo Escobar era um monstro.”

Pablo Escobar foi:

“O mais fiel dos amigos e o mais desapiedado dos inimigos. Nunca aceitou a traição e foi implacável e cruel com seus detratores. Seu único foi fumar maconha. Nunca cheirou a cocaína que traficava. E sua família era absolutamente intocável.”

Pablo Escobar redefiniu a estrutura político-social da Colômbia.

“Para alguns setores da impressa do país, Pablo transformou a linguagem, a cultura, a fisionomia, a economia e até a justiça. A Colômbia era o país do café e das esmeraldas, e se converteu num piscar de olhos, no país da cocaína. As forças armadas foram infiltradas, corroídas e dizimadas com seu poderio e brutalidade. Por sua conta, mudou-se o sistema judicial e foi modificada a política penitenciária e até os desenhos das prisões. O Capo havia conseguido tudo o que havia proposto. Não apenas havia desenhado o negócio da cocaína, como também havia redesenhado o país para que se adequasse ao seu negócio.”

E terminando, aqui vão as palavras de Alfonso Valdivieso, ex Fiscal General:

“O que aconteceu com nós colombianos é uma lição que a humanidade deve aprender. Não deve apenas ficar registrada na História, mas não deve se repetir.”  

Documentário riquíssimo em informações.

sexta-feira, 20 de julho de 2018

O Sol Tornará a Brilhar


Quando penso no maior ator negro do cinema, não me vem à mente, Morgan Freeman, Denzel Washington, Cuba Gooding Jr., Will Smith, entre tantos outros. Eu penso em Sidney Poitier - este sim - creio ser o maior ator negro da história cinematográfica, com seus filmes que julgo impecáveis e bastante atuais, com temáticas que são caras ao povo negro, que ainda sofre discriminações por serem quem são, pessoas com mais melanina. Poitier estrelou grandes filmes de peso, verdadeiros clássicos, como: Adivinhe Quem Vem Para o Jantar; No Calor da Noite; Ao Mestre Com Carinho 1 e 2, com a música To Sir, with Love, cantada na estonteante voz da atriz e cantora Marie McDonald, sendo uma das canções mais belas e emocionantes já feitas; enfim, muitos outros filmes fantásticos. 

O Sol Tornará a Brilhar é mais um que entra nesse formidável time de filmes espetaculares do ator em questão, tratando mais uma vez, dos conflitos e problemas que envolvem o negro. Filme de 1961, que retrata a vida de uma típica família negra, na cidade de Chicago, na região norte dos EUA, que em tese, seria um lugar melhor e com a tensão racial mais reduzida que na parte sul da nação. 

O personagem de Poitier (Walter Lee) é um jovem sonhador, com esperanças de poder largar o seu emprego de motorista de um branco, e se tornar um empresário no ramo das bebidas com outros três colegas. Mas para isso, ele tem que convencer a sua mãe, a matriarca da família, a lhe dar parte da herança que o seu pai deixou. Ela, sendo uma mulher de princípios religiosos rigorosos, não admite que o dinheiro conquistado com tanto suor, seja investido em algo tão ilícito como a venda de bebidas inebriantes, gerando grande conflitos com o seu filho.  

Nesse ínterim, há conflitos entre ele e sua mulher, que está grávida novamente; conflitos entre a sua irmã e a sua mãe, quando aquela resolve revelar o seu ateísmo, causando grande decepção; o filho de Walter Lee, por falta de espaço no sobrado, dorme no sofá, e há todo o incentivo e pressão de seus amigos para que ele possa arranjar a parte dele na sociedade para que possam abrir essa loja de bebidas, e poderem serem donos de seus próprios umbigos, não tendo que dar mais satisfação a patrões brancos. 

99,9% da história passa-se no pequeno sobrado, onde são travados muitos diálogos interessantes que revelam para nós, do século XXI, quais eram os problemas sociais, financeiros e de identidade pelos quais passavam os negros norte-americanos, no início dos anos 1960. A trama está recheada de conversas sobre família, passado negro africano, futuro, profissão, emancipação... Os diálogos são pertinentes.

Dona Lena, a matriarca, é convencida a dar 3.500 dólares (na época essa quantia era uma pequena fortuna) da herança para que seu filho corra atrás de seus sonhos. Outra parte do dinheiro, ela tem a ousada ideia de dar entrada numa casa num bairro de pessoas brancas. Nesse bairro, não há gente de cor. Mas ela não quer saber disso. Compra a casa, e quando todos estão empolgados arrumando os móveis e utensílios para fazer a mudança para o novo lar, aparece em seu sobrado o presidente da associação de moradores do bairro em que irão morar, dizendo que os moradores não querem eles como vizinhos, por não compartilharem um “passado comum”. Mas ele garante, não é de forma alguma por questão racial. E para se verem livres dos negros inoportunos, tais moradores brancos e “gente de bem” oferecem uma quantia em dinheiro maior do que a aqueles investiram na casa, para que os deixem em paz no seu pacato bairro de brancos. 

Tal cena representa muito bem o discurso daqueles que são racistas, mas juram pela mãe, pai e Deus, que não são. Isso é algo tão comum em nossa sociedade, que mascara o racismo de tal forma, que quando o negro abre a boca e denuncia a discriminação, é acusado de querer dividir a sociedade, quando na verdade, ela sempre foi dividida e racista. 

No final das contas, eles não aceitam o suborno. Muitas outras coisas acontecem. Será que Walter Lee, personagem do Poitier, consegue o seu tão sonhado negócio? 

Aprovado e indicado. 

quarta-feira, 18 de julho de 2018

Malala


"Se ficar em silêncio, então você perde o direito de existir. O direito de viver. Se meu direito é violado e me silencio, é preferível morrer a ficar vivo. [...] A educação dá a você o poder de questionar. O poder de desafiar. De ser independente." Ziauddin Yousafzai, pai de Malala.

Acadêmicos públicos como a Ayaan Hirsi Ali, ex muçulmana, tem alertado o mundo para o caráter intrinsecamente violento da religião islâmica, que tem em seu bojo as sementes para o uso da força beligerante contra aqueles que não estão dentro dos muros dos ensinamentos do seu profeta Maomé. Não adianta querer florear o Alcorão, tentando nos passar a ideia de que o islã é uma religião de paz, pois definitivamente não é. Ela possui o germe da coerção e da alienação. Infelizmente grupos como o talibã tem seguido à risca o militarismo maometano, assassinando quem não está em consonância com a sua agenda ideológica de violência e morte. 

Quanto a educação secular de meninas, acredito que o islã não tenha proibições específicas. Se for este o caso, o talibã vai além do que o Alcorão diz,  militando na total ignorância de meninas, para que estas não estudem, para que continuem ignorantes, sem poderem pensar minimamente por si mesmas, mantendo total poder sobre suas mentes.

Malala Yousafzai foi uma das vítimas do talibã, que com apenas 15 anos, juntamente com o seu destemido pai, ousaram desafiar as ordens arbitrárias e retrógradas desse grupo terrorista, insistindo na educação das crianças de uma pequena região no interior do Paquistão. Não deu outra! Malala sofreu um terrível ataque quando estava indo a escola, que quase lhe tirou a vida. Felizmente ela não sucumbiu, e voltou com mais força e determinação, pronta para o combate contra as trevas do anti-intelectualismo imposto a certas regiões do seu país. Se antes do atentado contra a sua vida, sua voz já estava sendo ouvida, agora mais do que nunca, ela voltaria com força total, para lutar em favor das milhões de meninas entregues a má sorte de terem nascido em regiões pobres e carentes de cultura. 

Este emocionante e lindo documentário biografa a vida dessa maravilhosa alma feminina, que ganhou a simpatia do mundo, trazendo para sua causa a atenção, apoio e patrocínio de políticos, grandes empresários, astros da música e da grande mídia, dando uma visibilidade tamanha para a sua obra, que culminou no ano de 2014 no Prêmio Nobel da Paz. 

Malala teve uma dolorosa recuperação depois de ter recebido uma bala na cabeça, onde os Médicos estavam receosos de que ela teria grandes limitações depois que saísse do hospital, não podendo ter a mesma saúde, intrepidez e postura de antes. Algumas imagens de sua recuperação são mostradas, e foram momentos difíceis, pois todo seu corpo estava muito debilitado, com movimentos prejudicados, e uma Malala que não prometia muita coisa depois daquilo. 

Algumas sequelas ficaram, sua boca não abre direito, um de seus olhos não pisca, entretanto, Malala teve uma ótima recuperação. Cenas do cotidiano de sua casa, com o seu pai, mãe e irmãos, dão um toque especial ao documentário, evidenciando o clima de amor e união entre todos eles. Malala juntamente com a sua família, agora moram na Inglaterra, estão exilados de seu país, pois se voltarem, o talibã promete que a matará. Os terroristas do Paquistão acenderam uma fagulha que está incendiando o mundo inteiro com o trabalho de Malala pela educação de meninas, seja no Oriente, seja na África... 

Malala continua sendo muçulmana, acreditando que a sua religião é inerentemente pacífica. Talvez lá na frente, tomará ciência de que não é esse o caso. 

terça-feira, 17 de julho de 2018

Zeitgeist: O Filme


Com 11 anos de “atraso” venho a assistir a esse barulhento documentário que descortina as “verdades” escondidas de nós, pobres humanos alienados, enganados pelas grandes corporações, governo (dos EUA, claro) e pela religião cristã (está não podia faltar). Fomos e somos constante, metódica e sistematicamente manipulados como marionetes a não vermos a verdadeira natureza dos acontecimentos mundiais, defende o Zeitgeist (Espírito do Tempo). Esta é mais uma produção que não tem nenhuma modéstia em dizer para o mundo, que agora sim, nós conheceremos a verdade através dela, que mediante pesquisa exaustiva, original e o mais importante, altruísta!, nos legou a verdade que tanto precisávamos para sair da Caverna do antigo Filósofo grego, nosso amigo Platão. Peter Joseph, o produtor e diretor deste filme, conseguiu bons fiéis seguidores, que agora acham que foram iluminados, fazendo coro as suas verdades reveladas.

Tudo o que vemos, ouvimos e aprendemos, é mentira, a começar pelo cristianismo que plagiou as suas histórias de outras religiões mais antigas, em especial a egípcia com o seu deus Hórus, que foi descadaramente plagiada para compor a história de Jesus. A Bíblia é um conglomerado de escritos com simbologia astrológica que visa manipular malignamente os seus seguidores. Não preciso dizer, mas já dizendo, que tal argumento é desprovido de provas documentais e carece do apoio dos estudos acadêmicos sobre Jesus e a religião do antigo Egito. Não é citada uma obra acadêmica sequer que pelo menos forneça algum indício de plausibilidade as alegações feitas. Mesmo que fosse anexada ao argumento, uma obra científica que desse peso as afirmações feitas, isso ainda não seria suficiente para provar nada. Seria preciso muita articulação histórica, teológica... Portanto, se quer refutar a história de Jesus e sua credibilidade, que faça uso de argumentações legítimas e não de falácias e informações nitidamente falsas.

O 11 de setembro de 2001 mostra-se como a maior mentira já contada pelo governo americano neste século, para poder ganhar legitimidade em suas guerras posteriores contra o Iraque e o Afeganistão, controlando aquelas áreas e garantindo os seus inesgotáveis poços de petróleo, produto tão precioso para os EUA, que não pode prescindir desse combustível fóssil. O ataque aéreo contra as torres não foi colocado em ação pelos terroristas de Osama Bin Laden, mas tudo foi minuciosamente orquestrado pelo próprio país atacado. Como o Zeitgeist prova assertiva tão polêmica? Apelando para vários vídeos recortados de políticos, especialistas, jornalistas, frases soltas e mostradas freneticamente, esperando convencer quem assiste, que a sua teoria da conspiração é rica em fontes diversificadas, como entrevistas, documentos, vídeos... Não obstante, de cara percebe-se as falácias pulando na tela como pipocas, incorrendo em erros de correlação, falsas causações, falsos dilemas, apelos irrelevantes e etc. A mesma coisa vale aqui: se quer apresentar uma explicação alternativa sobre os atentados do 11 de setembro, que tenha o mínimo de respeito, usando argumentos decentes, e não associações confusas e disparatadas, como as que estão no vídeo. O atentando ocorrido na Espanha também é mencionado como pura manipulação para fins escusos.

O dedo de Zeitgeist é apontado para os grandes bancos, corporações financeiras, para as guerras mundiais e do Vietnã, que pasmem!, estão na mesma esfera de manipulação e mentira que o atentando em Nova Iorque e ao Pentágono. A mesma estratégia é feita, vídeos recortados e rápidos, com muitas frases e ditos, que certamente, muitas das ditas falas podem estar descontextualizadas, dando a entender e significar coisas que não foram intencionadas por quem as disse. Nessa trilha o autor vai criando um suposto e poderoso argumento ao seu favor.

Agora verdade seja dita, é claro que há manipulações e inverdades ditas pelo governo, pelas corporações e pela mídia. Mas não precisamos recorrer a espantalhos para sabermos disso. É muito claro que dificilmente ou nunca saberemos de informações comprometedoras sobre o fatídico 11 de setembro. Tem muito caroço nesse angu. Muitos fios soltos. O governo americano não é nenhum anjinho inocente na história do mundo. E não querendo entrar na mesma vibe conspiracionista do idealizador deste filme, não há garantias de que não haja um dedinho dos EUA na destruição do World Trade Center e de outros episódios dramáticos.

Eita, parece que comprei a ideia do filme.

domingo, 15 de julho de 2018

Testemunhas de Jeová e o Problema de Abuso Infantil



Elas batem à sua porta com sorrisos largos e simpáticos, estão bem vestidas, mulheres com vestidos floridos e sombrinhas por causa do sol, homens com roupas sociais e maletas executivas. Eles falam com prazer sobre Deus, sobre Jesus, sobre a Bíblia, entregam-lhe folhetos, livros, fazem convites para estudos bíblicos, e passam a imagem de que são o povo mais feliz e correto do planeta. São oito milhões deles em todo mundo, cerca de 860 mil aqui em nosso país. É um número pequeno, é verdade, em vista dos mais de sete bilhões de pessoas que ocupam o globo. Contudo, é uma seita perigosa, que protege estupradores e pedófilos em suas fileiras.

Não é só o Vaticano e a sua política nojenta, que faz vistas grossas e dá mingau na boquinha de molestadores de pequenos e adolescentes. Mas a organização que vê a si mesma como a única representante de Deus, também é mais uma religião que não mede esforços para manter-se num falso padrão de alta moralidade, colocando a instituição acima de crianças inocentes que foram sexualmente abusadas.

Este documentário feito por um “apóstata”, aquele tipo de pessoa que foi expulsa da religião por “má” conduta, clareia direitinho os mecanismos pelos quais as lideranças das testemunhas de Jeová escondem, minimizam, atenuam e desmentem, os milhares de casos de abusos infantis que ocorrem há muitas décadas entre os seus membros. Não são casos isolados. Não são abusos aqui e ali. Há procedimentos sistemáticos para calarem as vítimas, para que estas não entrem em contato com as autoridades policiais.

Os líderes mundiais dessa seita são chamados por eles de Corpo Governante. É vergonhoso os vídeos desses crápulas mentindo sobre os milhares de estupros em sua religião, como se não bastasse os estupros mentais que os fiéis já sofrem por aprenderem um monte de baboseiras sem fundamento que lhes são passadas todas as semanas, minando progressivamente as suas capacidades de pensar e criticar ideias contraproducentes.

Lastimável que mesmo as testemunhas de Jeová assistindo a esse documentário, ainda abram a boca para defenderem essa organização. Há um componente espiritual, psicológico e social muito forte nisto. A alienação dos membros dessa instituição é assustadora. Enquanto isso, pedófilos continuarão a estuprar os seus filhos. E ainda ficam chateadas quando dizemos que são uma SEITA! A Torre de Vigia é igual ou até pior que o Vaticano em proteger estupradores, visto que o catolicismo até onde tenho conhecimento, fornece esconderijo aos seus padres, cardeais e bispos (o que já é inadmissível), enquanto que a Torre de Vigia além de dar abrigo aos seus líderes, igualmente concede guarida aos membros comuns que venham a molestar crianças.

Este documentário apresenta algumas histórias de ex testemunhas de Jeová que corajosamente depois de anos de abusos sexuais, resolveram ir à justiça comum denunciar os seus molestadores e dizer a verdade  de que os seus pastores nada fizeram para que eles fossem devidamente punidos com os rigores da lei. Processos foram ganhos, e a Torre de Vigia teve que desembolsar milhões de dólares para indenizar as vítimas. E de onde veio o dinheiro para pagá-las? Dos fieis otários e ingênuos, porém sinceros, que dão o seu sangue para que a organização cresça cada vez mais.

O problema não é ter em suas fileiras pedófilos e outros tipos de criminosos, porque é uma triste realidade que toda instituição tem as suas maçãs podres, mas sim, em não entregá-los a justiça do país para que sejam julgados e presos. As testemunhas de Jeová consideram as práticas de pedofilia acontecendo nos bastidores de sua religião apenas como um pecado, desvio, infração, ou erro, que não são passíveis do castigo externo do estado. A pedofilia praticada por seus membros, para eles não é crime, mas no máximo, um pecado, que somente cabe a eles julgarem quais procedimentos tomarem para disciplinar o infrator. A essa altura, podemos vislumbrar o caráter ignominioso dessa seita.

Documentário esclarecedor.    

sábado, 14 de julho de 2018

Vida Depois da Vida


MOODY, Raymond. Vida Depois da Vida. 16º Edição. Editora Nórdica. (PDF).

Raymond Moody Jr. (Ph.D em Filosofia na Universidade da Virgínia, Ph.D em Psicologia e Medicina na Universidade da Geórgia Ocidental) foi a pessoa que cunhou o termo Experiência de Quase Morte (EQM), na década de 1970, palavra tão usada hoje em dia, para caracterizar os testemunhos de pessoas que ficaram a beira da morte, e voltaram pra contar suas experiências de terem vivenciado um novo mundo além deste nosso mundinho material e concreto. As experiências são surpreendentes, e os pacientes reiteram que foram muito REAIS. Estão CONVICTOS daquilo que VIRAM e OUVIRAM. Moody nos traz essas histórias em seu livro pioneiro sobre o assunto.

“Seja-me permitido dizer desde o começo que, com base no que explicarei bem mais tarde, não estou tentando provar que existe vida depois da morte. Nem creio que ‘prova’ disso seja possível no presente.” P. 07.

Moddy como aluno de Medicina ficava intrigado e reflexivo com a certeza da morte física, de que um dia ele e todos nós iremos encarar. Na aula de anatomia diante de um corpo sem vida, ele contemplava a sua própria mortalidade futura.

Como um perito em Filosofia, ele está ciente de que a linguagem para lidar com a morte é extremamente limitada, visto que obviamente não passamos por ela. De um modo geral, falamos daquilo que experenciamos.

“A compreensão geral que temos da linguagem depende da existência de uma grande comunidade de experiências comuns da qual quase todos participamos. Esse fato cria uma grande dificuldade, que complica todas as discussões que se seguem. Os eventos vi vendados por aqueles que estiveram próximos da morte estão fora da nossa comunidade de experiências, por isso bem se poderia esperar que eles tivessem certas dificuldades lingüísticas ao expressar o que lhes sucedeu. Com efeito, é isso precisamente o que acontece. As pessoas em questão unanimemente caracterizam suas experiências como inefáveis, isto é, ‘inexprimíveis’.” P. 19.

Diante da morte, basicamente temos duas visões inconciliáveis: (1) Morrer é estar privado para sempre da consciência. (2) Morrer é uma passagem para outra esfera da existência. O nosso autor não quer de modo algum contrariar nenhuma das duas. 

Quando no início de sua pesquisa, Moody percebeu que independente da postura religiosa, social e cultural do depoente, as suas histórias convergiam. Para escrever o presente livro foram estudados 150 relatos. A EQM geralmente é composta por 15 elementos que aparecem com muita freqüência nos testemunhos contados - aqui vão eles:

(1)               Ruído desagradável;

(2)               Túnel grande e escuro;

(3)               Percepção de que está fora do corpo, vendo seu corpo físico ao longe;

(4)               Perturbação emocional ao ver a equipe médica tentando lhe ressuscitar;

(5)               Resignação a sua nova e esquisita condição;

(6)               Nota que tem um novo e diferente corpo, com novas capacidades;

(7)               Parentes, amigos e um espírito de luz vêm ao seu encontro. Há um reexame de sua vida;

(8)               Depara-se com a fronteira entre a vida na terra e a vida nesse novo universo. Mas percebe que a sua partida ainda chegou.

(9)               Relutância em querer voltar, visto que foi invadido por sentimentos de felicidade, amor e paz.

(10)             Volta ao seu corpo físico.

(11) Tentam contar pelo que passaram as pessoas, (12) mas há uma dificuldade muito grande em dizê-lo, pois as palavras são inadequadas para descrever suas aventuras extracorpóreas. (13) Acrescente a isso, a zombaria de quem os ouve, (14) o que resulta em não falarem mais sobre o assunto. (15) De todo modo, suas vidas são completamente mudadas.

“Conversei com algumas pessoas que foram declaradas mortas, ressuscitadas, e que ao voltar não relataram nenhum desses elementos comuns. De fato, disseram que não se lembravam de absolutamente nada a respeito de suas ‘mortes’.”
P. 18.

A sensação é muito agradável para muitos que experimentaram a EQM.

“Uma jovem que quase morreu de hemorragia interna associada com uma desordem de coagulação diz que no momento do colapso ‘comecei a ouvir uma espécie de música, majestosa, uma espécie de música realmente linda’.” P. 23.

Outra pessoa relata:

"Tinha a sensação de estar me movendo através de um vale muito fundo e escuro. A escuridão era tão profunda e impenetrável que eu não podia ver absolutamente nada, mas foi a experiência mais maravilhosa e libertadora que se possa imaginar". P. 25.

Algumas reações:

“A maioria relata, a princípio, um desejo desesperado de voltar a seus corpos, mas não tem a menor idéia de como proceder. Outras pessoas relembram que tiveram muito medo, quase entraram em pânico. Algumas, entretanto, relatam reações mais positivas à sua condição” P. 29.

Moody diz:

“Ninguém, em todos os meus casos, relatou qualquer sensação de cheiro ou de paladar fora dos seus corpos físicos.” P. 40-41.

A pessoa fora do corpo:

“Neste estado fora do corpo, pois, a pessoa fica separada dos outros. Pode ver as outras pessoas e compreender seus pensamentos completamente, mas não pode ser vista nem ouvida por elas. A comunicação com os outros seres humanos fica efetivamente interrompida, mesmo ao sentido do tato, uma vez que o corpo espiritual carece de solidez. Por isso, não é de surpreender que, depois de certo tempo nesse estado, apareçam profundos sentimentos de isolamento e solidão.” P. 42.

Seres espirituais vieram ao encontro daqueles que estavam quase partindo para o lado de lá.

“Muitos me contaram que em certo ponto, enquanto estavam morrendo — algumas vezes bem cedo na experiência, outras só depois da ocorrência de outros eventos —, tornaram-se cônscios da presença de outros geres espirituais na sua vizinhança, seres que aparentemente lá estavam para ajudá-los na transição para a morte, ou, em dois casos, para dizer que sua hora ainda não tinha chegado e que deviam voltar a seus corpos físicos.” P. 44.

O encontro com o Ser de Luz:

“O que é talvez o mais incrível elemento comum dos relatos que estudei, e é certamente o elemento que tem o mais profundo efeito sobre o indivíduo, é o encontro com uma luz muito brilhante. Tipicamente, em sua primeira aparição, a luz é tênue, mas rapidamente fica cada vez mais brilhante, até que alcança um brilho extraterreno. Contudo, ainda que essa luz (dita branca ou ‘clara’) seja de um brilho indescritível, muitos fizeram questão de acrescentar que de modo algum dói nos olhos ou ofusca, nem impede de ver outras coisas ao redor (talvez porque a essa altura não tenham ‘olhos’ físicos para ser ofuscados).

Apesar da manifestação inusitada da luz, ninguém expressou qualquer dúvida de que se tratasse de um ser, um ser de luz. Não apenas isso, é um ser pessoal. Tem uma personalidade bem estabelecida. O amor e calor que emanam desse ser para as pessoas que estão morrendo estão completamente além das palavras, e elas se sentem completamente rodeadas por eles, completamente à vontade e aceitas na presença desse ser. Sentem uma atração magnética irresistível para essa luz. Uma atração inelutável.

É interessante que, enquanto a descrição acima, do ser de luz, é totalmente invariável, a identificação do ser varia de indivíduo a indivíduo e parece estar muito em função dos antecedentes religiosos, da educação ou das crenças da pessoa em questão.” P. 47.

Uma pessoa que esteve diante desse ser de luz, disse o seguinte:

“[...] eu definitivamente sentia a presença de um ser muito poderoso, completamente amoroso, ali comigo durante toda aquela experiência.” P. 57.

Outra pessoa testemunha:

"Eu estava hospitalizado com um grave problema de rins, e fiquei em estado de coma por quase uma semana. Os médicos não tinham nenhuma certeza de que eu fosse viver. Durante o período em que estive inconsciente senti-me como se tivesse passado para um plano superior, exatamente como se não tivesse mais um corpo físico. Uma luz brilhante me apareceu. Era uma luz tão brilhante que eu não podia ver através dela, mas estar na sua presença tinha um efeito calmante e maravilhoso. Não há mesmo nenhuma experiência igual na Terra. Na presença da luz, estes pensamentos ou palavras me vieram à mente: 'Você quer morrer?' E eu respondi que não sabia, pois não sabia de nada sobre a morte. Então a luz branca disse: 'Passe para o lado de cá desta linha e você saberá'. Achei que eu sabia onde a linha estava, diante de mim, embora não a estivesse vendo realmente. Quando cruzei a linha, vieram-me as sensações mais maravilhosas — sensações de paz, tranqüilidade e o desaparecimento de todas as preocupações." P. 61-62.

É comum as pessoas lamentarem por voltar a este mundo depois de terem avançado muito no novo mundo, e terem um encontro com o ser de luz. Muitas não queriam voltar mais, e sim, dá o derradeiro passo e adentrar o novo universo de paz e felicidade. A experiência é marcante demais, recheada de alegria para quererem voltar.

"Essas sensações eram indescritíveis mesmo. Ficaram comigo de certo modo. Nunca as esquecerei. Ainda penso em tudo aquilo com muita freqüência." P. 69.

Não há dúvidas quanto à veracidade dessas experiências, para essas pessoas. Moody enquanto colhia os relatos, percebeu que elas sabiam perfeitamente distinguir sonho e fantasia da realidade. As pessoas eram mentalmente sadias e sabiam do que estavam falando. Garantem: não eram sonhos. Eram fatos. E infelizmente, os seus ouvintes são incrédulos e zombeteiros em relação as suas histórias. Não existem, de um modo geral, simpatia e compreensão em ouvir testemunhos tão extraordinários. O que faz elas se calarem e guardarem somente para si o que passaram. Uma dela lamenta:

"Durante muito tempo não contei nada a ninguém. Não disse mesmo nada a respeito. Não me sentia à vontade porque tinha medo de que ninguém acreditasse que eu estava contando a verdade, e temia que dissessem: 'Ora, você está inventando essas coisas!” P. 70.

As pessoas que contam as suas experiências de quase-morte não querem palanques e fama.

“[...] ninguém do meu conhecimento construiu para si um púlpito portátil e saiu pregando em tempo integral na base da sua própria experiência. Ninguém achou apropriado fazer proselitismo, tentar convencer os outros das realidades que experimentou. Com efeito, descobri que a dificuldade é bem o reverso: as pessoas são naturalmente muito reticentes em dizer aos outros o que aconteceu com elas.” P. 73.

Essas pessoas agora buscam mais do que nunca evoluírem espiritualmente.

“Ninguém que eu tenha entrevistado relatou ter saído da experiência moralmente ‘purificado’ ou aperfeiçoado. Ninguém com quem conversei deu qualquer sinal de uma atitude ‘mais santa que a de vocês". [...] Sua visão deixou-os com novos propósitos, novos princípios morais, e renovou sua determinação de viver de acordo com eles, mas nenhum sentimento de salvação instantânea ou de infalibilidade moral.” P. 77.

Nas histórias pesquisadas por Moody, há menção a demônios, inferno de fogo, ruas de ouro, portões majestosos? Nenhum.

“Durante a minha pesquisa, entretanto, não ouvi uma só referência ao céu ou ao inferno, nem a nada que se assemelhe ao quadro costumeiro com que somos postos em contato em nossa sociedade. Na verdade, muitas pessoas acentuaram o quanto suas experiências foram dessemelhantes ao que tinham sido levadas a esperar no decurso de sua instrução religiosa. Uma mulher que "morreu" relata: ‘Sempre ouvi dizer que quando se morre a gente vê o céu e o inferno, mas não vi nenhum dos dois’. 

[...]

Além disso, em alguns casos os relatos vieram de pessoas sem qualquer crença ou educação religiosa anterior, e as descrições que fazem não diferem em conteúdo das de outras pessoas que tinham fortes convicções religiosas.” P. 109-110.

Número grande de Médicos ficaram impressionados quando souberam pela boca dos que “morreram”, de como eles viram as tentativas de suas ressurreições, quando estavam em coma, em uma situação completamente impossível de ver e ouvir qualquer coisa. As descrições dos detalhes são estarrecedoras demais para serem preconceituosamente descartadas.

Há uma similaridade curiosa entre alguns estágios da EQM e o milenar Livro Tibetano dos Mortos. 

“A correspondência entre os primeiros estágios da morte que o livro retrata e aqueles que me foram relatados pelos que chegaram perto da morte só pode ser designada como fantástica.” P. 96.

“Em resumo, ainda que o Livro tibetano dos mortos inclua muitos estágios posteriores da morte que nenhum dos meus pacientes foi tão longe para experimentar, é mesmo óbvio que há uma similaridade extraordinária entre o relato desse velho manuscrito e os eventos que me foram narrados por americanos do século XX.” P. 98.

Em nossa época de ciência e tecnologia avançadas, falar em vida depois da morte, almas que saem de corpos, mundo espiritual, soa como algo esquisito, retrógrado e atrasado, como crenças moribundas de um passado afundado em infantilidades metafísicas. Por isso não é incomum que as histórias expostas no presente livro sejam vistas como contos irreais.

“Sabendo dessas atitudes, as pessoas que têm experiências transcendentais são naturalmente relutantes, em geral, em narrá-las de maneira muito aberta. Com efeito, estou convencido de que há uma enorme massa de material escondido nas mentes das pessoas que têm tais experiências, mas que, de medo de serem consideradas "malucas" ou "demasiado imaginativas", nunca as contaram a mais do que um ou dois amigos ou parentes chegados.” P. 104.

As EQM estudadas por Moody têm algo a dizer sobre a possibilidade da reencarnação?

“Nenhum dos casos que examinei é de alguma forma indicativo de que ocorra reencarnação. Entretanto, é importante ter em mente que nenhum deles elimina a possibilidade de reencarnação. Se a reencarnação ocorre, parece provável que exista um interlúdio em algum outro reino entre o tempo de separação do velho corpo e o de entrada no novo.” P. 110.

Se hoje temos vários relatos de EQM hoje, é porque a ciência médica tornou-se capaz de ressuscitar aqueles que estavam há um passo da morte.

“Muitas das pessoas que têm sido trazidas de volta na nossa era não teriam sobrevivido anos antes. As injeções de adrenalina no coração, o coração artificial e o pulmão artificial são exemplos desses progressos médicos.” P. 112.

Várias explicações de naturezas distintas são propostas para elucidar o que são as EQM. Explicações céticas, diga-se de passagem.

“Nas numerosas conferências sobre minha coleção de narrativas sobre acontecimentos de quase morte, encontrei proponentes de muitos tipos de explicação. Pessoas que pensam fisiológica, farmacológica ou neurologicamente encaram as suas próprias orientações como fontes de explicação que são intuitivamente óbvias, mesmo que os casos trazidos à baila pareçam contrariar aquela particular explicação. Aqueles que esposam as teorias de Freud agradam-se por ver no ser de luz uma projeção do pai do paciente, enquanto os adeptos de Jung vêem arquétipos do inconsciente coletivo, e assim por diante.” P. 135.

Admirável é a postura equilibrada de Moody em ter total consciência de que seu objetivo não é provar que existe vida após a morte. Como Filósofo e Médico treinado sabe das limitações de tudo que escreveu.

“Ao escrever este livro tinha plena consciência de que meu propósito e minhas perspectivas poderiam ser facilmente mal entendidos. Em particular, gostaria de dizer aos leitores que pensam cientificamente que estou ciente, de maneira cabal, que o que fiz não constitui um estudo científico. E, aos meus colegas filósofos, gostaria de insistir que não estou tendo a ilusão de ter provado que existe vida depois da morte.” P. 136.

Há implicações em tudo isso:

“[...] o que aprendemos sobre a morte pode fazer uma diferença importante em como vivemos nossas vidas. Se experiências do tipo que venho discutindo são reais, elas têm implicações muito profundas para o que cada um de nós está fazendo com sua vida.” P. 139.

Nos posfácio, Moody traz o que descobriu sobre o suicídio nas histórias que ouviu.

“De particular importância foram os relatos de fenômenos de quase morte que ocorreram associados com tentativas de suicídio. Creio que são suficientemente significativos para serem incluídos no presente volume. Essas experiências foram uniformemente caracterizadas como desagradáveis. Como disse uma mulher: ‘Se você deixa aqui um espírito atormentado, também lá você será um espírito atormentado’.

Em resumo, essas pessoas relatam que os conflitos dos quais quiseram escapar tentando o suicídio ainda estavam presentes depois que elas morreram, mas com complicações adicionais. No seu estado fora do corpo não eram capazes de fazer nada com relação aos seus problemas, e ainda tinham que ver as conseqüências infelizes que resultaram de seus atos.

Um homem, desalentado com a morte de sua esposa, deu um tiro em si mesmo, 'morreu' em conseqüência disso e foi ressuscitado. Ele conta: ‘Não fui para onde estava minha esposa. Fui para um lugar terrível. . . Imediatamente, vi o engano que tinha cometido. . . Pensei: 'Gostaria de não ter feito isso'.

Outros que experimentaram esse desagradável estágio no ‘limbo’ contam que tiveram a sensação de que permaneceriam lá por muito tempo. Seria esse o seu castigo por terem ‘quebrado as regras’, tentando libertar-se prematuramente daquilo que era, com efeito, uma ‘atribuição’ para cumprir um certo propósito na vida. Tais observações coincidem com o que tem sido dito por diversas pessoas que morreram de outras causas; disseram que, enquanto estavam nesse estado, foi-lhes dado a entender que o suicídio era um ato muito infeliz, punido com uma severa penalidade.” P. 139-140.

Quanto a mim, não tenho porque duvidar de que as EQM tragam de fato uma parcela da realidade de um mundo existente que se abre a nós, depois que partimos deste. As EQM são uma evidência poderosa de que este mundo não é tudo o que há. Os incrédulos e ateus propõem e proporão todas as explicações possíveis para desacreditar esse fenômeno que enfraquece e muito o mundo materialista concebido por eles. O que lhes resta é criarem teorias e mais teorias ad hoc. 

As EQM também vão na contramão de certas visões religiosas, como a da igreja adventista do sétimo e as testemunhas de Jeová, que não admitem, baseados em suas interpretações da Bíblia, que o homem possui uma parte imaterial distinta de seu corpo físico. Cabe a eles, se juntarem ao time de céticos e ateus, e rechaçarem por completo o que as pessoas que voltaram da "morte" testificam sobre o que viram.