domingo, 7 de outubro de 2018

O Século XXI Pertence à China? Um Debate Sobre a Grande Potência Asiática



FERGUSON, Niall; LI, David; KISSINGER, Henry; ZAKARIA, Fareed. O Século XXI Pertence à China? Um Debate Sobre a Grande Potência Asiática. Rio de Janeiro: Elsevier, 2012. (PDF). 

Há mais de trinta e cinco anos, a China cresceu exponencialmente a sua economia, tornando-se a segunda maior potência econômica, atrás apenas dos Estados Unidos. Diante do atual quadro econômico e poder de força chinesa, que só tende a crescer mais e mais, ela passará a dominar o mundo? Os vermelhinhos ultrapassarão os atuais imperialistas?

Este livro é a transcrição de um debate com quatro potências intelectuais, que manjam muito de geopolítica chinesa, realizado em Toronto, no Canadá, em 2011, trazendo argumentos pró e contra a moção apresentada. Ambos os lados apresentam boas articulações de ideias, evidenciando o alto nível do embate.

O primeiro a falar foi Niall Ferguson, Professor de História na Universidade de Harvard, EUA.

“Acredito que o século XXI pertencerá à China porque a maioria dos séculos pertenceu à China, com exceção dos séculos XIX e XX. Dezoito dos últimos 20 séculos tiveram a China, com alguma vantagem, como a maior economia do mundo.” P. 15.

“[...] a China é mais um continente do que um país. Um quinto da humanidade vive lá. É 40 vezes maior do que o Canadá. Se a China fosse organizada como a Europa, teria de ser dividida em 90 Estados-nações. Hoje existem 11 cidades na China com uma população de mais de 6 milhões de habitantes. Na Europa, existe apenas uma cidade com população similar, que é Londres. Onze estados na União Europeia têm menos de 6 milhões de indivíduos. Em 30 anos, a economia da China cresceu quase 10 vezes, e o Fundo Monetário Internacional (FMI) previu recentemente que ela será a maior economia do mundo daqui a cinco anos. A China já superou os Estados Unidos em termos de manufatura e mercado automotivo mundial, e a demanda de carros no país será 10 vezes maior nos próximos anos. A China será responsável por um quinto do uso de energia global em 2035. O país dependia de investimentos estrangeiros diretos, mas hoje, com US$3 trilhões de reserva internacional e um fundo soberano de US$200 bilhões em ativos, a China tornou-se o grande investidor.” P. 15.

Niall falou isto em um debate público em 2011. A projeção de que a China seria a primeira economia do mundo, ultrapassando os EUA cinco depois, ou seja, em 2016, não se concretizou. Tanto em 2016 como neste ano, a China está em segundo lugar, atrás da nação norte-americana.

Fareed Zakaria, Editor Geral da revista Time, discorda.

“A China não será o poder dominante durante o século XXI. O século não pertencerá à China por conta de três fatores: um econômico, um político e um geopolítico. O primeiro fator é econômico - uma coisa que percebemos ao longo das últimas décadas é que nada ascende em linha reta para sempre. A China parece estar a ponto de conquistar o mundo, mas o Japão já esteve nesse lugar por algum tempo também. Já foi a segunda maior economia do mundo. Não sei quantos aqui se lembram, mas havia muitas histórias sobre como o mundo se tornaria japonês. Iríamos todos comer sushi - bem, estamos realmente comendo sushi -, mas o resto daquela previsão não se concretizou. Se pararmos para pensar a respeito, a maioria dos tigres asiáticos cresceu a um índice de aproximadamente 9% ao ano por um período de 20, 25 anos. Depois, esse índice baixou para 6% ou 5%. Não estou prevendo nenhum tipo de crash chinês. Estou apenas dizendo que a China seguirá aquela lei de grandes números no início e depois retornará, em algum momento, a uma taxa de crescimento lenta, talvez um pouco mais tarde do que outras nações, porque é um país muito maior.” P. 16-17.

“A China ainda não solucionou um problema básico: o que fazer quando surgir uma classe média, e como o governo responderá às aspirações desse grupo de pessoas. Quando Taiwan passou por um processo similar, houve uma transição para a democracia. Quando a Coreia do Sul passou por isso, houve uma transição para a democracia. Essas transições não foram períodos fáceis. Ao contrário, foram bastante caóticas e cruentas.” P. 17-18.

“A China realizou grandes façanhas do ponto de vista econômico, mas, como país, tem de criar 24 milhões de empregos por ano, absorver 6 milhões de pessoas que se mudam para as cidades todo ano e lidar com uma população flutuante de 150 a 200 milhões de habitantes. Precisa adaptar-se a uma sociedade em que as regiões costeiras estão no nível dos países avançados, enquanto o interior do país é subdesenvolvido, e precisa fazer tudo isso dentro de um sistema político que considere tanto as mudanças econômicas quanto as adaptações políticas resultantes das enormes cifras provenientes dessas mudanças.” P. 20.

Henry Kissinger, Diplomata estadunidense e Prêmio Nobel da Paz, junta-se a Zakaria.

“[...] a questão perante o mundo não é se o século XXI pertence à China. A questão é se, durante o século XXI, com o indubitável fortalecimento da China, nós, no mundo ocidental, seremos capazes de trabalhar com a China. E outro ponto a questionar é se a China será capaz de trabalhar conosco, criando uma estrutura internacional em que, talvez pela primeira vez na história, um Estado em ascensão tenha sido incorporado num sistema internacional, reforçando a paz e o progresso. Em meu livro, digo, por experiência própria, que as perspectivas não são boas.” P. 20.

Kissinger mostra-se preocupado com a relação comercial entre a China e os países subdesenvolvidos da África.

“Fui ao Quênia há um ano e perguntei a um grupo de parlamentares quenianos qual era sua principal preocupação - estávamos conversando sobre democracia e direitos humanos -, e eles disseram que sua única grande preocupação é o envolvimento da China com o governo africano para fazer acordos com os ditadores, sem fazer perguntas nem ligar para direitos humanos. Pode haver certo exagero nisso, mas certamente eles têm motivos para se preocupar quanto ao aspecto geopolítico de longo prazo. Achávamos que tínhamos uma relação bastante estável com muitos países do Oriente Médio e acabamos descobrindo que nossa relação estável era com os ditadores daquela região.” P. 27.

Ferguson tem uma outra visão desse relacionamento.

“Também costumo ir à África, e falei com os mineiros na faixa de cobre que não tinham emprego quando o sistema de mineração estatal desmoronou e têm emprego agora porque os chineses reabriram as minas. E não só reabriram, como também expandiram. Não é justo dizer que a China lida somente com ditadores africanos. O país lida também com democracias africanas. Lida com os governos que encontra na África, inclusive com aqueles que os poderes ocidentais apoiaram por tantos anos.” P. 27.

Zakaria diz que os EUA tiveram um papel bastante positivo no processo de abertura chinesa para o mundo.

“Todos tendem a ver os Estados Unidos como um país com uma política externa instável - incapaz de se organizar, em constante mudança. No caso da China, devo dizer, creio que acontece o contrário. Desde que Henry Kissinger abriu a China ao mundo e inaugurou as relações americanas com a China, os Estados Unidos tiveram uma política extraordinariamente sólida em relação a este país. Tal política foi a de integrar a China ao mundo, para ajudá-la a adquirir o conhecimento, o know-how, a tecnologia, o capital e os modelos institucionais necessários para se tornar um membro produtivo e próspero da comunidade internacional. Seguimos isso com presidentes democratas e presidentes republicamos. Mantivemos uma política extremamente coesa, mesmo em relação a tabus, como nosso relacionamento com o Taiwan e com o Dalai Lama. Todos os presidentes mantiveram uma relação bastante estreita de cooperação com a China, mantendo, ao mesmo tempo, alguns valores e interesses que eram importantes para os Estados Unidos.” P. 34.

E chegamos ao quarto debatedor, David Li, membro acadêmico do Comitê de Política Monetária do Banco Central da China, que fala em defesa de seu país.

“A China não quer dominar o mundo. Existe apenas um país dominador no mundo: os Estados Unidos. Não é o sonho nem o desejo da China tentar reproduzir o sucesso dos Estados Unidos nessa área, e o país nem teria essa capacidade. É algo que não está nos genes de nossa tradição confuciana.” P. 36.

Na parte final do livro, há uma entrevista com Kissinger, o entrevistador John Geiger, lhe pergunta:

“Em 2020, a China terá ultrapassado o PIB dos Estados Unidos. Com base nisso, por que os próximos 80 anos deste século não pertenceriam à China?

HENRY KISSINGER: Por um simples motivo: os chineses têm de distribuir o PIB por muito mais gente do que os Estados Unidos. Estamos falando de 1,3 bilhão de pessoas. Desse modo, a renda per capita na China é consideravelmente inferior à renda per capita nos Estados Unidos. Portanto, muitos dos indicadores que as pessoas mencionam, como os trens de alta velocidade da China - bem, isso significa que os chineses que viajam de trem têm mais conforto do que os americanos, mas não representa necessariamente influência internacional.” P. 40.

É um baita livro. Aprendi muito. E por ora, acredito que aqueles que se posicionaram com um "não" a pergunta apresentada no título do livro, foram os melhores debatedores.

Astrofísica Para Apressados



TYSON, Neil deGrasse. Astrofísica Para Apressados. 1. ed. - São Paulo: Planeta, 2017. (PDF).

Neil deGrasse Tyson (Ph.D em Astrofísica na Universidade de Columbia, EUA), um dos Cientistas mais conhecidos no mundo, substituto do finado Carl Sagan, na famosíssima série Cosmos, traz neste livro, a nível básico, "as principais ideias e descobertas que conduzem nossa moderna compreensão do universo."

O negão de bigode chamativo, nos leva até ao início do Espaço-Tempo, com o Big Bang, 14 bilhões de anos, até a atual conjuntura do universo, onde estamos no limiar de talvez descobrir que este não é o único Universo existente, mas apenas um, dentre muitíssimos outros - o Multiverso, sugere o bigodudo.

Diante das grandes descobertas já feitas pela Astronomia, Tyson conclama a todos a serem mais humildes diante da grandeza do cosmos.

Vamos ao livro.

Quem já não festa está pergunta?
               
"Em um momento ou outro, todos nós olhamos para o céu noturno e imaginamos: o que tudo isso significa? Como tudo isso funciona? E qual é o meu lugar no universo?" P. 08.

Queremos um sentido para tudo. Todavia...

"O universo não tem obrigação de fazer sentido para você." P. 10.

A origem do Universo:

"No começo, há quase 14 bilhões de anos, todo o espaço, toda a matéria e toda a energia do universo conhecido estavam contidos em um volume menor que 1 trilionésimo do tamanho do ponto final que encerra esta frase.

As condições eram muito quentes, as forças básicas da natureza que coletivamente descrevem o universo eram unificadas. Embora ainda não se saiba como ele passou a existir, esse cosmos que era menor que um ponto só poderia se expandir. Rapidamente. Naquilo que hoje chamamos de Big Bang." P. 11.

Nos primeiros momentos do Universo, surgem as partículas elementares: fótons, bósons, léptons, quark-léptons, quarks, anti-quarks, elétrons, anti-elétrons, neutrinos, anti-neutrinos, hádrons, prótrons, nêutrons...

A Terra está no lugar correto...

“Caso a Terra estivesse muito mais perto do Sol os oceanos teriam evaporado. Caso a Terra estivesse muito mais distante, os oceanos teriam congelado. Em qualquer um dos casos, a vida como a conhecemos não teria evoluído.” P. 19-20.

Umas das perguntas mais enigmáticas da Ciência é o que havia antes do Big Bang. Não obstante, agora sabemos que tempo, matéria e espaço surgem nele, portanto, parece não fazer sentido perguntar o que havia antes. Tyson reconhece que os Astrofísicos estão diante de um problema não resolvido, e especula que talvez um Multiverso, o Nada, ou até mesmo uma simulação de computador tenha dado origem ao que conhecemos hoje. Descarta a hipótese de um deus ter desencadeado tudo isto.

“O que aconteceu antes de tudo isso? O que aconteceu antes do começo?

Os astrofísicos não fazem ideia. Ou melhor, nossas ideias mais criativas têm pouca ou nenhuma base na ciência empírica. Como reação, alguns religiosos afirmam, com um tom de superioridade moral, que algo deve ter dado início a tudo: uma força superior a todas as outras, uma fonte da qual tudo brota. Um agente primordial. Na mente dessas pessoas, essa coisa é, claro, Deus.

Mas e se o universo sempre tivesse existido ali, em um estado ou condição que ainda não identificamos – um multiverso, por exemplo, que continuamente dê à luz universos? Ou e se o universo simplesmente brotou do nada? Ou e se tudo o que sabemos e amamos fosse apenas uma simulação de computador criada para a diversão de uma espécie alienígena superinteligente?

Essas ideias filosoficamente divertidas em geral não satisfazem ninguém. Ainda assim, elas nos lembram que a ignorância é o estado mental natural para um cientista de pesquisa. Pessoas que acreditam não ignorar nada não procuraram ou não se depararam com a fronteira entre o que é sabido e o que não é no universo.

O que nós sabemos, e o que podemos afirmar sem hesitação, é que o universo teve um começo. O universo continua a evoluir. E, sim, todos os átomos em nosso corpo podem ser rastreados até o Big Bang e às fornalhas termonucleares dentro de estrelas de grande massa que explodiram há mais de 5 bilhões de anos.

Somos apenas poeira de estrelas trazida à vida, depois dotada pelo universo do poder de se compreender – e nós apenas começamos." P. 21-22.

Sobre o sol:

"[...] por mais diferente que o Sol seja da Terra em tamanho, massa, temperatura, localização e aparência, ambos contêm as mesmas coisas: hidrogênio, carbono, oxigênio, nitrogênio, cálcio, ferro e assim por diante." P. 24.

As leis da física que conhecemos são válidas para todo o Universo.

“Certo, as leis da física operam no sistema solar, mas operam por toda a galáxia? Por todo o universo? Pelo próprio tempo? Passo a passo, as leis foram testadas. Estrelas próximas também revelaram substâncias químicas familiares. Estrelas binárias distantes, unidas em uma órbita mútua, pareciam saber tudo sobre as leis da gravidade de Newton. Pela mesma razão, também galáxias binárias.” P. 24.

"[A] universalidade das leis da física nos diz que se pousarmos em outro planeta com uma civilização alienígena vibrante, eles estarão seguindo as mesmas leis que nós descobrimos e testamos aqui na Terra – mesmo que os alienígenas tenham diferentes crenças sociais e políticas." P. 25-26.

“Para o cientista, a universalidade das leis da física torna o cosmos um lugar maravilhosamente simples. Em comparação, a natureza humana – domínio do psicólogo – é infinitamente mais intimidante.” P. 30.

“O poder e a beleza das leis da física são que elas se aplicam a todos os lugares, quer você acredite nelas ou não.” P. 30.

Sobre a velocidade da luz:
               
"Entre todas as constantes, a velocidade da luz é a mais famosa. Não importa quão rápido você vá, nunca conseguirá ultrapassar um raio de luz. Por que não? Nenhuma experiência já realizada revelou um objeto de qualquer forma atingindo a velocidade da luz. Leis da física bem testadas preveem e afirmam isso. Eu sei que declarações assim soam intolerantes. Algumas das declarações mais obtusas do passado baseadas em ciência subestimaram a engenhosidade de inventores e engenheiros. 'Nunca iremos voar.' 'Voar nunca será comercialmente factível.' 'Nunca iremos dividir o átomo.' 'Nunca quebraremos a barreira do som.' 'Nunca chegaremos à Lua.' O que elas têm em comum é que nenhuma lei estabelecida da física era uma barreira." P. 27.

Um Tyson nada modesto:

"Os cosmólogos têm egos muito grandes. Como não ter quando seu trabalho é deduzir o que fez o universo existir?" P. 39-40.

Os chineses serão os primeiros a “saberem” dos alienígenas.

"O maior radiotelescópio do mundo, concluído em 2016, é chamado de Radiotelescópio Esférico de 500 Metros de Abertura, ou fast, na sigla em inglês, para facilitar. Foi construído pela China, na província de Guizhou, e ocupa uma área maior que 30 campos de futebol. Se um dia alienígenas ligarem para nós, os chineses serão os primeiros a saber." P. 104.

Júpiter é o nosso protetor.

“As leis de Newton determinam especificamente que, embora a gravidade de um planeta fique cada vez mais fraca quando mais você viaja para longe dele, não há distância em que a força da gravidade chegue a zero. O planeta Júpiter, com seu poderoso campo gravitacional, tira do caminho muitos cometas que do contrário causariam o caos no interior do sistema solar. Júpiter age como um escudo gravitacional para a Terra, um irmão mais velho corpulento, permitindo longos (100 milhões de anos) períodos de relativa paz e calma na Terra. Sem a proteção de Júpiter a vida complexa teria dificuldade em se tornar interessantemente complexa, sempre correndo o risco de extinção por um impacto devastador.” P. 115.

Quantos planetas semelhantes a Terra existem?

“As últimas estimativas, tendo como base o catálogo atual, sugerem até 40 bilhões de planetas como a Terra apenas na Via Láctea.” P. 126.

Pondo em cheque a singularidade daquilo que conhecemos:

“Repetidamente ao longo dos séculos, descobertas cósmicas rebaixaram a imagem que temos de nós mesmos. Um dia supunha-se que a Terra era astronomicamente única, até os astrônomos aprenderem que a Terra é apenas outro planeta orbitando o Sol. Depois supusemos que o Sol era único, até aprendermos que as estrelas no céu noturno são elas mesmas sóis. Depois supusemos que nossa galáxia, a Via Láctea, era todo o universo conhecido, até ser estabelecido que as inúmeras coisas indistintas no céu são outras galáxias, salpicando a paisagem do nosso universo conhecido. Hoje é fácil supor que esse universo é tudo o que há. Mas novas teorias da cosmologia moderna, bem como a improbabilidade constantemente reafirmada de que algo seja único, exigem que permaneçamos abertos ao último ataque à nossa alegação de singularidade: o multiverso.” P. 134.

sexta-feira, 5 de outubro de 2018

Crepúsculo dos Ídolos



NIETZSCHE, Friedrich. Crepúsculo dos Ídolos. São Paulo: Companhia das Letras, 2006. (PDF).

Friedrich Nietzsche (1844-1900) é um dos Filósofos mais populares, mais lidos, mais citados... Quando o assunto é ateísmo, sobre quem foram os grandes pensadores que atacaram o cristianismo, a existência divina, a religião em si, é quase certo, termos alguma menção ao seu nome e escritos. “Deus está morto!” – este enunciado certamente vem a memória quando lembramos o que ele tem a dizer sobre Deus. Nietzsche é também conhecido como o antifilósofo, por escrever através de aforismos, pequenos textos, ensaios, não ter preocupação com métodos, tendo como objetivo “dizer em dez frases o que qualquer outro diz em um livro — o que qualquer outro não diz em um livro...” P. 63. Sua linguagem é deveras fácil, quando a comparamos com outros Filósofos.

Crepúsculo dos Ídolos tem como finalidade derrubar, esmiuçar (com o martelo) os falsos deuses antigos que teimavam em persistir, tais como a Filosofia grega representada por Sócrates e Platão, Filósofos que ele não tem apreço algum; ao cristianismo, este sim, a pior desgraça da humanidade, segundo o antifilósofo alemão; a moralidade; e as tendências alemãs de seu tempo, em que Nietzsche não poupa críticas a sociedade alemã, a qual não possui a pujança de outrora. Seu canhão é disparado contra muita gente. É uma declaração de guerra contra aquilo que ele chama de décadence.

Ele pergunta:

"O ser humano é apenas um equívoco de Deus? Ou Deus apenas um equívoco do ser humano?" P. 06.

Ludwig Feuerbach, Filósofo alemão contemporâneo do nosso autor, diria que o homem criou Deus a sua imagem e semelhança, invertendo o que o texto bíblico diz.

Uma pergunta que vai ao estômago dos moralistas hipócritas:

"Como? Vocês escolhem a virtude e o peito estufado, e ao mesmo tempo olham furtivamente para as vantagens dos irrefletidos? — Mas com a virtude renuncia-se às 'vantagens'." P. 08.

Vejo tanto isso, dentre os chamados seguidores de Jesus.

Mais uma cajadada nos hipócritas moralistas:

"Há um ódio à mentira e à dissimulação que vem de uma sensível noção de honra; há um ódio igual que vem da covardia, sendo a mentira proibida por um mandamento divino. Covarde demais para mentir..." P. 10.

Quantas pessoas não conheço que são exatamente assim. Não fazem isso ou aquilo, porque Deus ordenou que não fizessem. E se não houvesse mandamento divino, fariam? “São covardes demais para mentir...”

O antifilósofo ateu, naturalmente desdenhava da ideia de uma vida após a morte. Ele escreve:

“Não há sentido em fabular acerca de um ‘outro’ mundo [depois que morrermos], a menos que um instinto de calúnia, apequenamento e suspeição da vida seja poderoso em nós: nesse caso, vingamo-nos da vida com a fantasmagoria de uma vida ‘outra’, ‘melhor’.” P. 19.

Ele é contra toda forma de moralidade. O que é bom, a igreja castrou, reclama ele.

“A Igreja primitiva lutou, como se sabe, contra os ‘inteligentes’, em favor dos ‘pobres de espírito’: como se poderia dela esperar uma guerra inteligente contra a paixão? com a extirpação em todo sentido: sua prática, sua ‘cura’ é o castracionismo. Ela jamais pergunta: ‘Como espiritualizar, embelezar, divinizar um desejo?’ — em todas as épocas, ao disciplinar, ela pôs a ênfase na erradicação (da sensualidade, do orgulho, da avidez de domínio, da cupidez, da ânsia de vingança). — Mas atacar as paixões pela raiz significa atacar a vida pela raiz: a prática da Igreja é hostil à vida...” P. 22.

Outro disparo contra a moral pregada pela igreja:

“A fórmula geral que se encontra na base de toda moral e religião é: ‘Faça isso e aquilo, não faça isso e aquilo — assim será feliz! Caso contrário...’. Toda moral, toda religião é esse imperativo — eu o denomino o grande pecado original da razão, a desrazão imortal. [...] A Igreja e a moral dizem: ‘o vício e o luxo levam uma estirpe ou um povo à ruína’. Minha razão restaurada diz: se um povo se arruína, degenera fisiologicamente, seguem-se daí o vício e o luxo (ou seja, a necessidade de estímulos cada vez mais fortes e mais freqüentes, como sabe toda natureza esgotada).” P. 26.

Para ele, a igreja criou a abjeta ideia de livre arbítrio para responsabilizar os homens dos seus supostos pecados, fazendo com que a humanidade sinta culpa pelo que não deveria. O livre arbítrio ao contrário do que podemos pensar é uma força escravizadora, que nos manter debaixo das rédeas da igreja.

“Hoje não temos mais compaixão pelo conceito de ‘livre arbítrio’: sabemos bem demais o que é — o mais famigerado artifício de teólogos que há, com o objetivo de fazer a humanidade “responsável” no sentido deles, isto é, de torná-la deles dependente... Apenas ofereço, aqui, a psicologia de todo “tornar responsável”. — Onde quer que responsabilidades sejam buscadas, costuma ser o instinto de querer julgar e punir que aí busca. [...] a doutrina da vontade foi essencialmente inventada com o objetivo da punição, isto é, de querer achar culpado. Toda a velha psicologia, a psicologia da vontade, tem seu pressuposto no fato de que seus autores, os sacerdotes à frente das velhas comunidades, quiseram criar para si o direito de impor castigos — ou criar para Deus esse direito... Os homens foram considerados ‘livres’ para poderem ser julgados, ser punidos — ser culpados. [...] Hoje, quando encetamos o movimento inverso, quando nós, imoralistas, buscamos com toda a energia retirar novamente do mundo o conceito de culpa e o conceito de castigo, e deles purificar a psicologia, a história, a natureza, as sanções e instituições sociais, não existem, a nossos olhos, adversários mais radicais do que os teólogos, que, mediante o conceito de 'ordem moral do mundo', continuam a empestear a inocência do vir-a-ser com 'culpa' e “castigo”. O cristianismo é uma metafísica do carrasco...” P. 29-30.

Eis o seu niilismo:

“Conhece-se minha exigência ao filósofo, de colocar-se além do bem e do mal — de ter a ilusão do julgamento moral abaixo de si. Tal exigência resulta de uma percepção que fui o primeiro a formular: de que não existem absolutamente fatos morais. O julgamento moral tem isso em comum com o religioso, crê em realidades que não são realidades. Moral é apenas uma interpretação de determinados fenômenos, mais precisamente, uma má interpretação. O julgamento moral é parte, como o religioso, de um estágio de ignorância em que falta inclusive o conceito de real, a distinção entre real e imaginário: de modo que ‘verdade’, nesse estágio, designa coisas que agora chamamos de ‘quimeras’. Portanto, o julgamento moral nunca deve ser tomado ao pé da letra: assim ele constitui apenas contra-senso.” P. 31.

Interessante que a todo momento ele está fazendo julgamentos morais.

A tríade do conhecimento:

“Deve-se aprender a ver, aprender a pensar, aprender a falar e escrever: o objetivo, nos três casos, é uma cultura nobre.” P. 37.

“Aprender a pensar: não há mais noção disso em nossas escolas. Mesmo nas universidades, mesmo entre os autênticos doutores da filosofia começa a desaparecer a lógica como teoria, como prática, como ofício. Leia-se livros alemães: já não se tem a mais remota lembrança de que para pensar é necessária uma técnica, um plano de estudo, uma vontade de mestria — de que o pensar deve ser aprendido, tal como a dança deve ser aprendida, como uma espécie de dança...” P. 37.

Outra cipoada no cristianismo:

“De que serve todo o livre-pensamento, toda a modernidade, zombaria e volúvel flexibilidade, se em suas entranhas o indivíduo permanece cristão, católico e até sacerdote!” P. 39.

Há beleza no mundo? Sim, mas só porque, nós, humanos, subjetivamente o dotamos de beleza. Não há objetividade em nossas valorações estéticas.

“O ser humano acredita que o mundo está repleto de beleza — ele esquece de si mesmo como causa dela. Somente ele dotou o mundo de beleza, oh, de uma beleza muito humana, demasiado humana... No fundo, o ser humano se espelha nas coisas, acha belo tudo o que lhe devolve a sua imagem: o juízo ‘belo’ é sua vaidade de espécie... Pois o cético pode ouvir uma leve suspeita lhe sussurrar esta pergunta: o mundo realmente se tornou belo pelo fato de o ser humano tomá-lo por belo? Ele o humanizou: isso é tudo. Mas nada, absolutamente nada nos garante que justamente o ser humano constitua o modelo do belo.” P. 46.

 Agora leiamos o que ele diz sobre os doentes sem perspectiva de cura.

“O doente é um parasita da sociedade. Num certo estado, é indecente viver mais tempo. Prosseguir vegetando em covarde dependência de médicos e tratamentos, depois que o sentido da vida, o direito à vida foi embora, deveria acarretar um profundo desprezo na sociedade. Os médicos, por sua vez, deveriam ser os intermediários desse desprezo — não apresentando receitas, mas a cada dia uma dose de nojo a seus pacientes... [...] Morrer orgulhosamente, quando não é mais possível viver orgulhosamente. A morte escolhida livremente, a morte empreendida no tempo certo, com lucidez e alegria, em meio a filhos e testemunhas: de modo que ainda seja possível uma real despedida, em que ainda está ali aquele que se despede, assim como uma real avaliação do que foi alcançado e pretendido, uma suma da vida — tudo contraste com a miserável e terrível comédia que o cristianismo fez da hora da morte. Não se deve jamais esquecer, em relação ao cristianismo, que ele se aproveitou da fraqueza do moribundo para cometer violação da consciência, e da própria maneira de morrer para formular juízos de valor sobre o indivíduo e seu passado! [...] Mas a morte nas condições mais desprezíveis é uma morte não livre, uma morte no tempo errado, uma morte covarde. Por amor à vida se deveria desejar uma outra morte, livre, consciente, sem acaso, sem assalto... [...] Não nos é dado nos impedir de nascer: mas podemos reparar esse erro — pois às vezes é um erro. Se alguém se elimina, faz a coisa mais respeitável que existe: com isso, quase se merece viver...” P. 52-53.

É realmente assustador ler estas palavras de Nietzsche diante de como foi o seu fim, num estado de demência avançado, sendo cuidado pela irmã. Temos até prova material disto, um vídeo em que ele está em estado vegetativo. É só procurar no YouTube.

Muitos progressistas que admiram Nietzsche, principalmente quando ele atira suas balas céticas contra a religião, mal sabem dos posicionamentos ultraconservadores que ele defendia. Para ele, a mulher era uma mera POSSE do marido. Casamento tinha que ser arranjado. À mulher não cabia a prerrogativa de se casar por livre vontade com quem quisesse. Matrimônio concretizado tinha que ser matrimônio INDISSOLÚVEL. Que ironia, o queridinho dos modernistas pensar assim.

“[...] o casamento moderno [...] claramente perdeu toda racionalidade: mas isso não constitui objeção ao casamento, e sim à modernidade. A racionalidade do casamento estava na responsabilidade legal única do homem: com isso o casamento tinha um centro de gravidade, enquanto agora manca das duas pernas. A racionalidade do casamento estava em sua indissolubilidade por princípio: com isso adquiriu um tom capaz de fazer-se ouvir, perante o acaso de sentimento, paixão e momento. Estava igualmente na responsabilidade das famílias pela escolha dos noivos. A crescente indulgência para com o casamento por amor praticamente eliminou o fundamento do matrimônio, aquilo que faz dele uma instituição. Jamais, em tempo algum, uma instituição é fundada numa idiossincrasia, não se funda o matrimônio, como disse, no ‘amor’ — ele é fundado no instinto sexual, no instinto de posse (mulher e filho como posses), no instinto de dominação, que incessantemente organiza para si a menor formação de domínio, a família, que necessita de filhos e herdeiros, para segurar também fisiologicamente a medida que alcançou de poder, influência e riqueza, para preparar longas tarefas e a solidariedade de instinto entre os séculos. [...] O casamento moderno perdeu seu sentido — portanto, está sendo abolido.” P. 56-57.

Ele surpreende ao dizer que um escritor um cristão foi um gole de sorte em sua vida.

“Dostoiévski, o único psicólogo, diga-se de passagem, do qual tive algo a aprender: ele está entre os mais belos golpes de sorte de minha vida, mais até do que a descoberta de Stendhal.” P. 60.

Nosso autor previa a entrada dos sacerdotes religiosos no limbo da sociedade. Isso de certa forma já tem acontecido há décadas no velho continente.

“Enquanto o sacerdote foi considerado o tipo supremo, toda espécie valiosa de homem foi desvalorizada... Chega o tempo — prometo — em que será visto como o inferior, como o nosso chandala, como a espécie mais mendaz e indecente de homem...” P. 60.

Modéstia não era com ele. Julgava-se o mais sábio alemão.

“Com freqüência me perguntam por que, afinal, escrevo em alemão: em nenhum outro lugar sou tão mal lido como em minha pátria. Mas quem sabe, enfim, se eu também desejo ser lido hoje? — Criar coisas em que o tempo crave suas garras em vão; buscar uma pequena imortalidade na forma, na substância — jamais fui modesto o bastante para exigir menos de mim. O aforismo, a sentença, nos quais sou o primeiro a ser mestre entre os alemães, são as formas da ‘eternidade’; minha ambição é dizer em dez frases o que qualquer outro diz em um livro — o que qualquer outro não diz em um livro... Dei à humanidade o mais profundo livro que ela possui, meu Zaratustra: em breve lhe darei o mais independente.” P. 63.

E suas inspirações literárias? Ele diz:

“No fundo, é um número pequeno de livros antigos que conta em minha vida; os mais famosos não se acham entre eles.” P. 64.

E para fechar, mais uma crítica a moral cristã:

“Só o cristianismo, com seu fundamental ressentimento contra a vida, fez da sexualidade algo impuro.” P. 67.

Posso até subscrever algumas coisinhas dele, mas no geral, é um cara que não tenho muito apreço. Um Filósofo que não acreditava na existência da verdade, para mim todo o discurso dele contra isso ou aquilo cai por terra, afinal a verdade não existe, segundo a própria premissa admitida por ele. Quanto a sua crítica a Deus e a moralidade, ele não elaborou argumentos contra a sua existência e a necessidade dos valores. Ele criou apenas frases de efeito. Frases assim o outro lado também faz. De todo modo, é um Filósofo que deve ser lido, pela proporção que seus escritos tomaram no século XX e no atual. O que não quer dizer que ele seja um bom Filósofo. Popularidade não implica em qualidade. Ele tenta derrubar dogmas, estabelecendo outros. Quer dizer, os seus próprios.

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

Apologia de Sócrates



PLATÃO. Apologia de Sócrates. São Paulo: Saraiva, 2013. (PDF).

“[...] não acredito saber aquilo que não sei.” P. 10. – Sócrates.

Sócrates (469-399 a.c.) é um dos principais Filósofos gregos que nos vem à mente quando pensamos nos grandes pensadores da Grécia antiga. Ele influenciou outros pensadores, como Platão e Aristóteles, Filósofos que têm suas ideias discutidas e rediscutidas por vários estudiosos ainda hoje. O modo filosófico de Sócrates distinguia-se bruscamente dos Filósofos anteriores que buscavam na natureza a explicação do Ser. Enquanto que para ele, a Filosofia estava concentrada no homem. Uma de suas frases mais conhecidas é: “Conhece-te a ti mesmo.” Sua Filosofia também era distinta dos seus contemporâneos sofistas, um pessoal que não estava preocupado em formar pessoas em busca da verdade, mas em ensiná-las a serem eloquentes, formando as elites, para exercerem a política. A verdade pouco importava para os sofistas. Nada diferente daqueles que atuam na vida política brasileira.

Em tempos de relativismo defendido principalmente por aqueles que deveriam veementemente rejeitá-lo (os Professores universitários), o método socrático, fazendo o interlocutor refletir sobre suas afirmações e ideias, é a melhor maneira de destruir as ideias pós-modernas tão presentes nas várias instâncias do saber. Percebemos que aqueles hoje em dia, que tratam a verdade como meros jogos de poder, são os sofistas modernos. A verdade não depende do “lugar de fala”, termo tão em moda. Sócrates dizia:

“[...] essa, de fato, é a virtude do juiz, do orador - dizer a verdade.” P. 05.

Sócrates andava pelas ruas de Atenas, conversando com velhos, jovens, e quem quer que fosse, persuadindo-os a fazerem uma profunda reflexão sobre aquilo que afirmavam e acreditavam – uma espécie de iluminação interior, baseada em raciocínio lógico, obviamente. Para ele, na confluência de ideias, o conhecimento humano aumenta, fornecendo os meios para a prática da virtude. Com o tempo, o seu modelo filosófico foi incomodando certas pessoas poderosas, que o colocaram no limbo da sociedade grega, acusando-o de negar os deuses gregos, culminando em seu julgamento e morte por envenenamento. Este livro, escrito pelo seu principal discípulo, Platão, trata de sua defesa perante as calúnias que o colocaram na mira da justiça ateniense, quando tinha mais de setenta anos.

Um tal de Anito e Licon, juntos com outros diziam “dizendo-vos que há um tal Sócrates, homem douto, especulador das cosias celestes e investigador das subterrâneas e que torna mais forte a razão mais fraca.” P. 06.

Mas o grande acusador de Sócrates foi Meleto.

Em sua defesa, Sócrates apelava para as palavras do Oráculo de Delfos, templo religioso da época, que previa o futuro, aconselhava e orientava quem o procurava. Segundo o Oráculo Sócrates era o homem mais sábio da Grécia. Uma das acusações contra ele, era de negar os deuses, mas como o principal centro religioso da Grécia poderia afirmar que ele era o homem mais sábio, se o mesmo rejeitava os deuses da cidade? Portanto, eram falsas as acusações que estavam sendo usadas contra o velho homem. Xenofonte, um de seus seguidores, era uma testemunha a seu favor quanto a isso.

“Conheceis bem Xenofonte. Era meu amigo desde jovem, também amigo do vosso partido democrático, e participou de vosso exílio e convosco repatriou-se. E sabeis também como era Xenofonte, veemente em tudo aquilo que empreendesse. Uma vez, de fato, indo a Delfos, ousou interrogar o oráculo a respeito disso e - não façais rumor, por isso que digo - perguntou-lhe, pois, se havia alguém mais sábio que eu. Ora, a pitonisa respondeu que não havia ninguém mais sábio. E a testemunha disso é seu irmão, que aqui está.” P. 09.

O grande Filósofo em sua peregrinação em diálogo com os "detentores" do saber - políticos, poetas, adivinhos, "vates", e finalmente, os artífices, chega à seguinte conclusão:

“Por fim, também fui aos artífices, porque estava persuadido de que por assim dizer nada sabiam, e, ao contrário, tenho que dizer que os achei instruídos em muitas e belas coisas. Em verdade, nisso me enganei: eles, de fato, sabiam aquilo que eu não sabia e eram muito mais sábios do que eu. Mas, cidadãos atenienses, parece-me que também os artífices tinham o mesmo defeito dos poetas: pelo fato de exercitar bem a própria arte, cada um pretendia ser sapientíssimo também nas outras coisas de maior importância, e esse erro obscurecia o seu saber.” P. 12.

Isso é tão verdade ainda hoje. Por sabermos muito em uma determinada área (ou pensarmos que sabemos), achamos que podemos ser os experts em outras, e acabamos falando coisas fora da realidade, que quando melhor avaliadas, não passam de embustes alimentados por ideologias ou pressuposições erradas.

Eis a acusação:

“Sócrates - diz a acusação - comete crime corrompendo os jovens e não considerando como deuses os deuses que a cidade considera, porém outras divindades novas.” P. 14.

Meleto o acusava de ateísmo. Sócrates pergunta a ele:

“Mas, por Zeus, assim te parece, que eu creio que não exista nenhum deus?” P. 18.

Dirigindo-se aos cidadãos de Atenas, Sócrates lamenta:

“Aquilo, pois, que eu dizia no princípio, que há muito ódio contra mim, e muito acumulado, bem sabeis que é verdade.” P. 20.

Para o idoso, devemos fazer a coisa certa, independente dela acarretar resultados desagradáveis que irão nos prejudicar, inclusive a morte.

“[...] quando fizer o que quer que seja, deve considerar se faz coisa justa ou injusta, se está agindo como homem virtuoso ou desonesto.” P. 20.

Aparentemente, Sócrates não temia a morte:

“Ninguém sabe, na verdade, se por acaso a morte não é o maior de todos os bens para o homem, e entretanto todos a temem, como se soubessem, com certeza, que é o maior dos males.” P. 21.

“Porque morrer é uma ou outra destas duas coisas: ou o morto não tem absolutamente nenhuma existência, nenhuma consciência do que quer que seja, ou, como se diz, a morte é precisamente uma mudança de existência e, para a alma, uma migração deste lugar para um outro. Se, de fato, não há sensação alguma, mas é como um sono, a morte seria um maravilhoso presente. Creio que, se alguém escolhesse a noite na qual tivesse dormido sem ter nenhum sonho, e comparasse essa noite às outras noites e dias de sua vida e tivesse de dizer quantos dias e noites na sua vida havia vivido melhor, e mais docemente do que naquela noite, creio que não somente qualquer indivíduo, mas até um grande rei acharia fácil escolher a esse respeito, lamentando todos os outros dias e noites. Assim, se a morte é isso, eu por mim a considero um presente, porquanto, desse modo, todo o tempo se resume a uma única noite.” P. 38.

Se o deixassem livre, ele não pararia de exortar os habitantes de Atenas a virtude a e verdade.

“Cidadãos atenienses, eu vos respeito e vos amo, mas obedecerei aos deuses em vez de obedecer a vós, e enquanto eu respirar e estiver na posse de minhas faculdades, não deixarei de filosofar e de vos exortar ou de instruir cada um, quem quer que seja que vier à minha presença.” P. 21.

“Por toda parte eu vou persuadindo a todos, jovens e velhos, a não se preocuparem exclusivamente, e nem tão ardentemente, com o corpo e com as riquezas, como devem preocupar-se com a alma, para que ela seja quanto possível melhor, e vou dizendo que a virtude não nasce da riqueza, mas da virtude vem, aos homens, as riquezas e todos os outros bens, tanto públicos como privados.” P. 22.

“[...] digo que o maior bem para um homem é justamente este, falar todos os dias sobre a virtude [...] examinando a mim mesmo e aos outros, e, que uma vida sem esse exame não é digna de ser vivida”. P. 34.

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

Uma História do Negro no Brasil



ALBUQUERQUE, Wlamyra R. de; FILHO, Walter Fraga. Uma História do Negro no Brasil. Salvador: Centro de Estudos Afro-Orientais; Brasília: Fundação Cultural Palmares, 2006.

Wlamyra de Albuquerque (Doutora em História Social na Unicamp) e Walter Fraga (Doutora em História Social na Unicamp), traçam a história do negro desde a escravidão africana, sendo intensificada pelos árabes, culminando no grande comércio escravagista europeu, que trouxe para cá, a partir do século XVI, milhões de negros para trabalharem forçadamente para enriquecer a Portugal e os senhores de engenho.

O Brasil se desenvolveu ancorado no trabalho escravo, que fazia do negro uma coisa útil para um determinado fim. Tanto o escravo africano como o escravo crioulo (nascido aqui), arranjaram diversas formas de resistência ao regime escravocrata, ora fugindo e criando seus quilombos, ora sabotando as plantações e os bens de seus senhores, fundando irmandades...

Eles criaram a Capoeira, luta disfarçada em dança; mantiveram em meio a perseguição, a sua inabalável crença nos orixás, inundaram o Brasil com os seus costumes, hábitos, culinária...

Diante de revisionismos toscos de uma classe de pessoas que se julgam guardadoras da alta moral, que querem minimizar os horrores da escravidão e de suas sequelas tão evidentes diante de nossos olhos (o racismo e a situação de vulnerabilidade do negro), é um alento ler um livro sério sobre a história de tão grande parcela de pessoas que levaram esse país nas costas.

A escravidão já existia no continente africano muito antes dos europeus aportarem lá, para levar os seus primeiros cativos para trabalharem em suas lavouras, países, feitorias e etc. Mas era em quantidades bem inferiores comparada ao viria depois. Os árabes intensificaram vertiginosamente tráfico, e daí não parou mais.

“Desde que os árabes ocuparam o Egito e o norte da África, entre o fim do século VII e metade do século VIII, a escravidão doméstica, de pequena escala, passou a conviver com o comércio mais intenso de escravos. A escravidão africana foi transformada significativamente com a ofensiva dos muçulmanos. Os árabes organizaram e desenvolveram o tráfico de escravos como empreendimento comercial de grande escala na África. Não se tratava mais de alguns poucos cativos, mas de centenas deles a serem trocados e vendidos, tanto dentro da própria África quanto no mundo árabe e, posteriormente, no tráfico transatlântico para as Américas, inclusive para o Brasil.” P. 15.

A religião dos árabes lhes davam o aval para escravizarem aqueles que não estavam no curral de fieis do islamismo. As jihads chegaram a África, para converter na base da força e escravizar.

“Desde os fins do século VIII, os árabes, partindo da região do Golfo Pérsico e da Arábia, disseminaram o islamismo pela força da palavra, dos acordos comerciais e, principalmente, das armas. Eram as guerras santas, as jihad, destinadas a islamizar populações, converter líderes políticos e escravizar os ‘infiéis’, ou seja, quem se recusasse a professar a fé em Alá.” P. 16.

A “misericórdia” de Alá se traduzia assim, para com os de fora:

“O Corão não condenava o cativeiro. Para os seguidores do profeta Maomé, a escravização era uma espécie de missão religiosa. O infiel, ao ser escravizado, ‘ganhava’ a oportunidade da conversão e, depois de devidamente instruído nos preceitos islâmicos, tinha direito a voltar a ser livre.” P. 18.

Quantos mais escravos, mais dinheiro no bolso. Nessa corrida, por exemplo, os luadenses eram os caçadores.

“[...] eram os próprios moradores de Luanda que se lançavam à caça de cativos. Luanda rapidamente se tornou uma grande feira de comércio de gente. Angola, desde fins do século XVI até a primeira metade do século XVIII, foi o maior fornecedor de escravos para as Américas portuguesa e espanhola.” P. 33.

Cabe aqui uma ressalva. Não é raro vermos por aí, alguns querendo mitigar a escravidão que houve por aqui, ressaltando a escravidão dos africanos contra os próprios africanos, alegando que nem eles tinham consideração pelos seus “irmãos”. Tal ideia ignora que a única coisa que eles tinham em comum eram a cor da pele e a sua moradia num mesmo continente, que por sinal é gigante, abarcando culturas e modos de vida bem distintos. Eles eram suscetíveis a todos os erros e virtudes, como qualquer europeu era. Não consigo concluir a partir da escravidão existente na África, um álibi para a escravatura aqui, e muito menos para o racismo ainda existente.

O conceito de salvação dos cristãos não era muito diferente dos muçulmanos. A justificativa para escravizar tinha na verdade uma missão mais nobre e profunda por trás. A salvação espiritual do africano. Ah, o amor cristão...

“Na idéia dos europeus, o tráfico era justificado como instrumento da missão evangelizadora dos infiéis africanos. O padre Antônio Vieira considerava o tráfico um ‘grande milagre’ de Nossa Senhora do Rosário, pois retirados da África pagã, os negros teriam chances de salvação da alma no Brasil católico. No século XVIII, o conceito de civilização complementará a justificativa religiosa do tráfico atlântico ao introduzir a idéia de que se tratava de uma cruzada contra as supostas barbárie e selvageria africanas.” P. 41.

Feito cativo, o africano agora seria tratado que nem gado.  

“Antes de entrar nas embarcações, eles [os escravos] eram marcados a ferro quente no peito ou nas costas com os sinais que identificavam a que traficante pertenciam, uma vez que em cada barco viajavam escravizados pertencentes a diferentes donos.” P. 48.

A vinda até aqui era dura, penosa, um verdadeiro inferno.

“Estimativas mais recentes calculam entre 15 a 20 por cento de mortos durante uma viagem normal, mas não era incomum haver 40 a 50 por cento de perdas.” P. 50.

“Havia ainda a morte provocada por suicídio e não foram poucos os cativos que puseram fim à existência precipitando-se no mar.” P. 50.

Até existiam leis que tinham a finalidade de “proteger” os escravos contra os exagerados castigos impostos por seus senhores, mas não novidade que eles só estavam no papel, não tendo nenhum efeito prático e real.

“Apesar da legislação colonial permitir que escravos e livres denunciassem senhores cruéis às autoridades civis ou eclesiásticas, pouquíssimos senhores responderam perante os juízes por acusações de crueldade contra escravos. A maioria dos acusados terminou perdoada ou absolvida por juízes que, em geral, pertenciam à mesma classe dos senhores.” P. 69.

Diante da revolta de ser escravizado, muitos negros podiam e sabotavam as produções. Era preciso ter cuidado e estar de olho.

“A produção no engenho podia ser facilmente sabotada. Bastava espremer um limão em uma caldeira de melado para impedir a sua cristalização em açúcar. Daí que, trabalhadores negligentes e rebeldes não eram selecionados para as tarefas mais especializadas. Para conseguir a colaboração dos escravos era preciso recorrer a incentivos. Os senhores costumavam pagar os escravos especializados com pequenas quantidades de açúcar, aguardente, melaço, roupa ou mesmo em dinheiro.” P. 75.

E que não é novidade:

“A sociedade escravista contou com o apoio da Igreja Católica para inculcar nos cativos paciência e humildade como virtudes desejáveis.” P. 96.

Li não lembro aonde, um Historiador dizendo que os feriados católicos, que não eram poucos, e é exatamente pela abundância deles, salvaram muitos africanos dos trabalhos estafantes a que estavam submetidos. Isso alivia e minimiza o papel dela numa conjuntura tão brutal quanto foi a escravidão no Brasil?

Umas das grandes forças terapêuticas que mantiveram muitos africanos fortes diante da brutalidade portuguesa, foi a religião. A crença nos orixás dava-lhes a força necessária para resistirem e manterem a esperança. Mas cultivar o culto aos seus deuses era proibido pelo estado.

“Africanos e afro-brasileiros não tinham liberdade para cultuar seus santos e deuses, mas muitas vezes tinham permissão para fazê-lo. E permissão não é liberdade. A Constituição do país, promulgada em 1824, definiu o catolicismo como religião oficial do Império, sendo outras religiões permitidas desde que não ostentassem templos. Mas as religiões afro-brasileiras não estavam incluídas nessa tolerância legal porque não eram consideradas religião e sim superstição, curandeirismo, feitiçaria. Por isso eram consideradas práticas ilegais e muitas vezes criminosas.” P. 112.

Na segunda metade do século XIX começam a aparecer vários grupos abolicionistas, e muitos se destacaram na guerra contra o sistema escravista. Uns lutavam apenas pelo fim do cativeiro, outros, se preocupavam com a situação econômica e social dos negros quando fossem libertos. Foi o caso de André Rebouças (1838-1898).

“André Rebouças pregava mudanças na legislação que permitissem aos ex-escravos acesso à terra. Era o que ele chamava de ‘democracia rural’, uma espécie de reforma agrária que deveria promover a inclusão social dos ex-escravos. Para Rebouças a luta contra a escravidão não podia ser desligada da luta pela cidadania dos ex-escravos e dos seus descendentes.” P. 164.

Acabada a escravidão em 1888, as ideias racistas eugênicas começam a percorrer o seu nefasto caminho.

“Em 1894, Raimundo Nina Rodrigues, professor da Faculdade de Medicina da Bahia, defendeu uma idéia polêmica sobre a responsabilidade penal no Brasil. Segundo Nina Rodrigues os criminosos deveriam ser julgados por critérios diferenciados, pois os negros seriam naturalmente incapazes de compreender certas regras sociais e, portanto, não poderiam ser responsabilizados penalmente do mesmo modo que os brancos. Na sua lógica, por conta das hierarquias raciais, os negros deveriam ter um tratamento jurídico diferenciado. Afinal, se as raças eram desiguais em termos civilizatórios, não se poderia igualar a cidadania dos negros à dos brancos, ou seja, não era possível estabelecer direitos e deveres iguais para todos. Já em 1899 ele publicou um estudo intitulado ‘Mestiçagem, crime e degenerescência’, no qual relacionou certos problemas psiquiátricos a miscigenação racial. No entanto, as suas convicções racistas não o impediram de realizar pesquisas importantes sobre a presença africana no Brasil. Nina Rodrigues foi autor de Os Africanos no Brasil, um estudo fundamental para a história dos negros brasileiros. Nesse livro, o autor trata, dentre outros aspectos, da origem étnica dos escravos, suas práticas religiosas, valores e costumes.” P. 205.

Teses eugênicas ainda são defendidas por estudiosos hoje em dia. O famoso documentário norueguês Lavagem Cerebral, em seu terceiro episódio traz a opinião de dois estudiosos que são peremptoriamente contra o casamento de negros e brancos, alegando que isso é prejudicial a humanidade. O documentário Uma História Sobre o Racismo, da BBC, é outro que mostra que ideias eugênicas e racistas ainda têm fôlego nos dias atuais.

Mas nem todos eram contra a miscigenação no final do século XIX, veja o porquê:

“Mas para outros era justamente a miscigenação que garantiria a civilização no Brasil. A esperança era que, em médio e longo prazo, o país se tornasse predominantemente branco. E o caminho para o branqueamento era a miscigenação. Desse modo a ‘raça branca’, considerada mais evoluída, corrigiria as marcas deixadas na população brasileira por aquelas tidas como ‘raças inferiores’, negros e índios.” P. 206.

Havia quem contestasse as teses raciais que inferiorizavam os negros.

“Manoel Bomfim, ao contrário da grande maioria dos intelectuais do seu tempo, não considerava que a numerosa população negra era o que explicava o atraso da sociedade brasileira. Para ele, as teorias raciais não passavam de 'ciência barata' que, covardemente, era usada para garantir a exploração dos fracos pelos fortes. Manoel Bomfim nasceu em Sergipe, estudou na Faculdade de Medicina da Bahia e, além de insistente contestador da validade científica das teorias raciais, criticou os políticos brasileiros por não terem se empenhado por melhores condições de vida para os negros depois da abolição.” P. 207.

Havia quem acreditasse que os negros estariam extintos nos iniciais deste século.

“Em 1911, durante o Congresso Internacional das Raças realizado em Londres, o representante brasileiro, Batista Lacerda, garantiu que no início do século XXI já não haveria negros no país e que o número de mulatos seria insignificante.” P. 208.

Nos EUA existiam as Leis Jim Crown, que segregava os negros. Estes não podiam ter a liberdade de frequentar os mesmos lugares que os negros. No Brasil não havia leis nesse sentido, porém, eram como se houvesse. Os negros eram impedidos de muitas atividades que só eram permitidas aos brancos.

No esporte:

“Até a década de 1930, jogadores negros não eram admitidos nos times de primeira divisão do campeonato paulista.” P. 237.

No lazer:

“Na cidade de São Paulo, por exemplo, o acesso dos negros aos parques e praças era restrito a locais afastados dos freqüentadores brancos.” P. 263.

Nos postos de trabalho:

“As dificuldades crescentes impostas aos trabalhadores negros para sua inserção no mercado de trabalho contrastavam cruamente com o desenvolvimento industrial e urbanístico de São Paulo. Mesmo na década de 1930, quando a imigração diminuiu de ritmo e aumentou o número de trabalhadores nacionais na indústria paulista, os critérios de contratação e demissão continuaram marcados pelo racismo. Os brancos, depois os mulatos, é que tinham maiores chances de conseguir e manter empregos, em detrimento das pessoas de pele mais escura. [...] A grande imprensa, os jornais de maior circulação, que tanto haviam contribuído com o movimento abolicionista, demonstravam pouco ou nenhum interesse pelas questões que afligiam a população negra no pós-Abolição.” P. 260.

O culto aos deuses africanos demorou para ser totalmente pelo governo.

"[...] só em janeiro de 1976, durante os festejos ao Senhor do Bonfim na Bahia, o então governador Roberto Santos assinou o ato administrativo que garantiu a liberdade de culto para as religiões afro brasileiras. Só então, os terreiros deixaram de ser obrigados a pedir licença para funcionarem e foi suspenso o pagamento de taxa ou registro na polícia." P. 243.

A Capoeira, luta criada pelo negro em solo tupiniquim, foi proibida no Brasil republicano.

“Quando a República foi proclamada [...] a capoeira passou a ser contravenção prevista no Código Penal de 1890, com pena de dois a seis meses de prisão. Muitos praticantes acusados de outros crimes, como vagabundagem e roubo, tiveram como destino a colônia correcional da Paraíba, a ilha de Fernando de Noronha ou o Acre para que fossem corrigidos pelo trabalho. A ordem do presidente Deodoro da Fonseca era que a capoeiragem fosse extinta do território nacional para o bem dos cidadãos e da segurança do Estado. A atenção especial da legislação penal republicana, por certo, estava relacionada à participação política de capoeiras nos episódios que antecederam a proclamação da república em 1889. Mas outras razões para a repressão aos capoeiras também foram enumeradas. Em Belém, um delas era o suposto aumento da criminalidade. Na interpretação da polícia paraense os capoeiras eram os principais responsáveis por delitos que iam desde o uso de palavras obscenas em locais públicos a homicídios.” P. 247.

A sociedade branca dizia hipocritamente que não existia racismo no Brasil. Assim como hoje, muitos dizem a mesma coisa.

“Falar de preconceito contra negros [anos 1920] já era algo bastante censurado, uma vez que a sociedade brasileira não reconhecia a existência do racismo, nem tão pouco que as dificuldades de ascensão social das populações negras tivessem como causa a discriminação racial. A negação do preconceito era conveniente, pois mantinha os privilégios de uma minoria e isentava o governo brasileiro de qualquer responsabilidade sobre a situação de pobreza e marginalidade da população negra.” P. 262.

Criticar movimentos negros não é prerrogativa dos dias atuais, isso já vem de longa data.

“A idéia de identidade nacional formulada pelas elites republicanas não apenas servia para negar a existência do racismo como para desestimular a formação de associações negras. Quando, em 1928, O Clarim d’Alvorada anunciou a intenção de organizar um Congresso da Mocidade Negra, os jornais da grande imprensa paulista reagiram indignados à iniciativa. A possibilidade de que os negros pudessem se organizar e manifestar politicamente suas aspirações assustava a elite brasileira. Houve quem se perguntasse: ‘que necessidade há nisso?’, ‘o que se vai falar nesse congresso?’.” P. 263.

“Na interpretação de alguns jornais [década de 1940], a organização dos negros devia ser combatida porque ameaçava a democracia, porque contribuía para o que chamavam de ‘racismo às avessas’, ou seja, o preconceito do negro em relação ao branco. O argumento do ‘racismo às avessas’ era a evidência de que na sociedade brasileira havia o preconceito racial, pois não se admitia que os negros tivessem o direito de se organizar e reagir ao racismo.” P. 274.

Passados 100 anos da abolição, o negro se encontrava em situação extremamente vulnerável na sociedade brasileira. Abolição de quê mesmo?

“A militância negra da década de 1980 passou a questionar, com vigor, a versão oficial da Abolição que exaltava muito mais a bondade e a caridade da princesa Isabel do que a luta dos escravos para conquistar a liberdade. Ao mesmo tempo, não parecia fazer sentido comemorar a Abolição se a maioria da população negra continuava relegada a péssimas condições de vida. Com o objetivo de resgatar o espírito de luta e enaltecer a resistência, as organizações negras passaram a rejeitar o 13 de Maio.” P. 295-296.

E não é que já vi criaturinhas exaltarem sobremaneira a princesa Isabel por ela ter assinado a Lei Áurea, desconsiderando por completo a luta de resistência de três séculos dos escravos em busca de suas liberdades, fora a militância dos grupos abolicionistas, compostos por pessoas brancas?