quinta-feira, 22 de abril de 2021

Viver Em Paz Para Morrer Em Paz


CORTELLA, Mario Sergio. Viver Em Paz Para Morrer Em Paz. 1. ed. – São Paulo: Planeta, 2017. (PDF).

“Afinal, viver em paz não é viver sem problema, sem encrenca, sem dificuldade. Viver em paz é viver com a certeza de que não está vivendo de forma morna!” P. 08.

Mario Sérgio Cortella, Doutor em Educação na PUC-SP, é um carinha que ainda gosto. É um daqueles intelectuais midiáticos, que muitas vezes fala o óbvio, e o populacho, no qual estou incluído, acha o máximo. Ele tem o seu valor, enquanto intelectual público. Se as pessoas estão comprando os seus livros e, o mais importante, lendo-os, já é um começo, para um país tão avesso a leitura e ao estudo que nem o nosso Brasil. 

Cortella traz boas diretrizes neste livro. Vamos recortar algumas delas.

Sobre a dicotomia Ter vs Ser.

“Existe uma obsessão consumista, uma ideia de que eu sou aquilo que eu tenho, e não é verdade. Eu sou aquilo que eu faço, relaciono, convivo com outros. Afinal de contas, o que vale na vida é ser importante. Não necessariamente ser famoso. [...] Millôr Fernandes, estupendo carioca nascido no Méier, dizia que ‘o importante é ter sem que o ter te tenha’. Isto é, não seja possuído por aquilo que você possui. Ou, não seja propriedade” P. 08-09.

O maior prazer do ser humano.

“O maior prazer do ser humano, não importa a idade, é falar de si mesmo. Outro grande prazer é ensinar, pois é uma afirmação de valor, do seu próprio valor.” P. 15.

A dúvida é a força motriz da inovação.

“Convicção absoluta é loucura plena. Quem não tem dúvida faz sempre do mesmo modo. Quem tem dúvida se inova, se reinventa.” P. 16.

Não aprendemos com os erros.

“Percalços são inevitáveis. Toda vida é composta por erros e acertos, por dores e delícias. A maioria das pessoas acredita piamente que aprende com os erros. Cautela com isso. Na minha opinião, aprendemos é com a correção dos erros; se aprendêssemos com os erros, o melhor método pedagógico seria errar bastante.” P. 18.

Chame as pessoas pelo que elas gostam.

“Se você chama alguém do jeito que ela gosta, está criando uma ponte. Se a chama como acha que deve chamar, pode estar criando uma barreira.” P. 19.

Aí está um tema que gera muita polêmica, diante dos transgêneros. A pessoa nasce biologicamente homem, mas diz que pensa como uma mulher, e, assim quer ser tratada como do sexo feminino. Hoje fala-se muito em mulheres trans. Independente de qualquer coisa, continuam sendo homens. "Ah, mas assim, você não está criando pontes com essas pessoas, está criando barreiras", dizem. No entanto, eu não quero criar ponte alguma com elas. A não ser que essa ponte seja conveniente pra mim. Tipo, algo que envolva emprego, por exemplo. Muitos pensam do mesmo jeito que eu, porém, dissimulam para evitar dores de cabeça desnecessárias, perdas de emprego, de promoções e etc. Dissimulamos quando é preciso.     

Mais pensamentos do barbudo.

“Aqui é preciso lembrar que um adversário fraco te enfraquece, um concorrente burro te emburrece. E um adversário forte, fortalece.” P. 22-23.

Basicamente todas áreas do conhecimento quer responder apenas uma pergunta.

“De maneira geral, a ciência, a arte, a filosofia e a religião são quatro caminhos que têm por trás uma mesma questão: ‘Por que algo – nós, o mundo, o universo – existe?’. Ou: ‘Por que existimos em vez de não existirmos?’. Reconheça que é um tema que desperta paixões, assim como o futebol e a política…” P. 24.

A razão é fugaz.

“Compreender é ser capaz de entender as razões, mesmo sabendo que razões são sempre provisórias. Quando você tem consciência da fugacidade das razões, mata qualquer indício de fanatismo e se torna uma pessoa mais acolhedora, apta a receber o outro como a um igual.” P. 26.

Não se é feliz a todo tempo.

“A felicidade contínua é uma impossibilidade, uma vez que as pessoas vivem em meio a outras pessoas e a atribulações. Mas, se a felicidade pudesse ser um estado contínuo, nós não a perceberíamos, assim como não percebemos nossa respiração, exceto na carência, quando o ar nos falta.” P. 28.

O desespero de querer ser visto, notado, aplaudido.

“No século XVII, Blaise Pascal disse, ao olhar para o céu, uma frase que gosto demais: ‘O silêncio desses espaços infinitos me apavora’. Talvez o maior pavor moderno hoje seja o silêncio – não apenas o silêncio como a ausência de ruído, mas o silenciar sobre mim. Por isso, a obsessão por comunicação, uma comunicação regida pela celeridade, pela celebridade, uma comunicação do ‘cá estou’, do ‘fale comigo’ seja como e onde for, pelo celular, por SMS, no Facebook, no Twitter.

Se não retornam, eu entro em depressão. Tendo em vista o tamanho da rede de comunicação na internet, criar um blog muitas vezes equivale a jogar uma garrafa no oceano, com a esperança do náufrago de que, algum dia, alguém encontre a garrafa.

É o grito dos desesperados.” P. 37.

As crianças, adolescentes e jovens, são os que mais sofrem com isso. Cresceram na era da internet para todos, onde parte gigante das interações sociais acontecem na tela dos celulares e computadores. Se elas não têm os likes e elogios esperados, se frustram. Suas mentes ainda estão em formação a caminho da maturidade. O pior que isto não está restrito a essas faixas etárias. Muitos adultos formados, pais de famílias, com empregos estabelecidos, também entraram na onda e estão se frustrando. Linhas a frente, Cortella sintetiza bem.

“O homem moderno se desespera em ser quase, em quase ser – quase conhecido, quase famoso, quase feliz. O “quase” leva ao desespero. O homem quer escapar da penumbra da caverna e chegar ao sol, à exposição da luz.” P. 37.

Ainda nesse tema, Cortella tira um retrato fiel da atual sociedade:

“Na sociedade da exposição e do espetáculo, ver e ser visto é fundamental. O velho ditado “diz-me com quem andas e te direi quem és” ressurge com força. Estar em boa companhia qualifica o acompanhante – até por isso, as pessoas gostam de ir a bares e outros lugares da moda, onde vão artistas e celebridades. Estar cercado de estrelas, de pessoas que brilham, tira o anônimo das sombras, diminui seu pavor da penumbra.” P. 38.

Nesta era de muita carência, queremos nos sentir importantes a todo custo.

“Por isso, tantas garotas pagam agências e fotógrafos para fazer um book. Se uma mãe já não tem idade para desfilar nas passarelas, tenta a todo custo que sua filha tenha a exposição que ela não teve. Se alguém foi viajar, faz questão de postar as fotos que tira num blog ou numa comunidade virtual.” P. 46.

Mas nossa excessiva exposição pode (e tem) um efeito contrário daquilo que queríamos.

“Numa época em que todo mundo tem as mesmas condições e a mesma facilidade de se expor, seja no Facebook, no Twitter, o excesso de exposição devolve as pessoas ao anonimato.” P. 47.

Tempos estranhos, bizarros...

“Hoje, a diferenciação está ligada à exposição hiperbólica, ao exagero pleno, ao grotesco. Nos nossos tempos, o grotesco se tornou altamente sedutor. São as mulheres com bundas do tamanho de melancias, seios explodindo de silicone, lábios inflados como uma boia de sinalização. São os homens com músculos estourando, com cabelos hiperproduzidos, com a vaidade desvairada de uma diva ou com uma violência desmedida a troco de nada.” P. 47.

Sabe aquele clichê que “a felicidade está nas pequenas coisas da vida”? É isso mesmo.  

“[...] muita gente não compreende que felicidade não é um estado ou uma condição de permanência, algo que só poderia ser obtido no nirvana ou qualquer outro lugar onde a paixão inexista. A felicidade é uma ocorrência eventual, um instante, um episódio, e é exatamente pelo seu caráter passageiro que ela deve ser valorizada. Assim, a felicidade pode existir por causa de um desejo por algo ou alguém, mas também pela ausência de algo ou alguém. Desse modo, a felicidade pode estar em episódios breves, como um gole numa taça de vinho, ou em um gole na cerveja ou em um suco.” P. 57.

Ficamos por aqui.

Respostas de um Astrofísico


TYSON, Neil deGrasse Tyson. Respostas de um Astrofísico. 1 ª ed. – São Paulo: Record, 2020. (PDF).

Neil deGrasse Tyson, Ph.D em Astrofísica na Universidade de Columbia, é certamente o cientista mais famoso do mundo nos últimos, aparecendo em diversos programas na TV, em vídeos na Internet, apresentando a inestimável série Cosmos na NatGeo, na ótima vendagem dos seus livros, dentre outras coisas. Tyson sabe se comunicar de maneira atraente, de modo calmo, sem palavras difíceis, fazendo com que o grande público leigo, como eu, se interesse pelo que ele tem a dizer. Este é o segundo livro dele que leio, sendo o primeiro Astrofísica Para Apressados.

Em Respostas de um Astrofísico, Tyson faz uma compilação das várias mensagens no Facebook, cartas e e-mails que recebeu durante todos esses anos. Algumas das mensagens são agradecimentos, outras dúvidas, não necessariamente sobre ciência, que os seus leitores querem sanar, e outras, obviamente, contestações ao que astrofísico mainstream ensina e divulga, geralmente sobre a sua visão sobre a religião e suas tentativas de intervenções na ciência, que ele rechaça veementemente, mas sem o tom agressivo e belicoso do seu amigo Richard Dawkins.  

Tyson não descarta a existência de vida inteligente fora da Terra. O que ele rejeita como prova, ou evidência, são as experiências visuais das testemunhas sobre seus avistamentos no céu. Ele enumera quatro possibilidades.

“1. O observador é maluco ou está delirante.

2. O observador avista algo e narra o que viu de forma imprecisa, tornando confuso um relato que seria uma simples descrição de fenômenos naturais.

3. O observador avista algo e narra o que viu de forma precisa, mas não tem familiaridade suficiente com fenômenos naturais para não se confundir com o que está vendo.

4. O observador avista e narra de forma precisa algo que desafia qualquer explicação normal ou convencional — constituindo um verdadeiro mistério.” P. 39.

Constituir “um verdadeiro mistério” ainda está longe de se constituir em uma prova/evidência real de aquilo que se viu é uma nave interplanetária, visto que “testemunhos oculares são, de longe, a forma mais frágil de evidência que uma pessoa pode apresentar para apoiar uma alegação.” P. 39. “Psicólogos e cientistas sabem muito bem que testemunhos oculares são a forma menos confiável de evidência.” P. 57.

Tyson é o cientista clássico, aquele que acredita que a ciência é objetiva, revela a verdade sobre o mundo natural – é o cientista estritamente realista.

“Na era da ciência experimental ‘moderna’, que basicamente parte de Galileu e Sir Francis Bacon em diante (os últimos 400 anos), existe a ciência que foi testada e sobre a qual se chegou a um consenso e existe a ciência da fronteira. A ciência da fronteira muda mensalmente, se não semanalmente, à espera de dados suficientes para pôr fim às controvérsias. A ciência testada, aquela em relação à qual já se chegou a um consenso por meio de observações e experimentos, é imutável. O que pode acontecer, e com frequência acontece, são novas ideias expandirem o alcance de ideias previamente testadas — mas não as desdizerem.” P. 52.

“Mas eu tenho como saber (e sei) o formato da Terra, da Lua, das estrelas e do universo, a origem dos elementos químicos, a idade da Terra e do universo, os episódios de extinção nos registros fósseis, o impacto de asteroides na Terra, a convergência genética entre toda a vida na Terra, a proximidade genética entre os humanos e os chimpanzés, e diversas outras verdades objetivas sobre o mundo.” P. 96.

“Eu diria que as principais equações físicas modernas representam verdades cósmicas.” P. 113.

Com essas palavras acima, Tyson se opõe a visão de outros cientistas de sua área, do qual podemos citar o Hawking e Mlodinow, que abraçam uma perspectiva anti-realista em seu livro O GrandeProjeto.

Tyson não tem apreço pelos filósofos (relativistas), dispensando os seus pitacos sobre o que a ciência é, ou o que deveria ser/fazer.

“No decorrer dos anos, os métodos e as ferramentas da ciência nos mostraram que, apesar do que alguns filósofos afirmam, uma realidade existe independentemente da nossa percepção dela.” P. 49.

A sua ojeriza não é apenas direcionada aos relativistas, mas a toda a comunidade de Filósofos.

“Eu nunca fui um grande fã da filosofia aplicada às ciências físicas no século XX (e XXI). Percebi que os argumentos comuns são mais baseados no uso e no significado das palavras do que em ideias, e assim vejo essas discussões como inúteis, em grande medida, para o progresso da ciência.” P. 112.

“Ainda não vi nenhum filósofo com formação acadêmica a partir do século XX (no Departamento de Filosofia de uma universidade) fazer qualquer avanço palpável em nosso entendimento do mundo natural. Eles normalmente carregam um nível de confiança em seus conhecimentos que não é corroborado por nenhum dado ou observação do universo físico. Filósofos não têm laboratórios. Nem telescópios. Nem microscópios. Eles têm seus cérebros e suas poltronas, e incorretamente acreditam que isso é suficiente para adquirir conhecimento sobre como a natureza opera.” P. 120.

Lidando com um ateu doido da cabeça, revoltado, por usarmos um calendário que divide a história em Antes e Depois de Cristo, Tyson dá uma bela resposta a ele. Parte da resposta:

“O calendário gregoriano é simplesmente o mais preciso e estável já elaborado. Os padres jesuítas, nomeados pelo Papa Gregório XIII no século XVI, fizeram um ótimo trabalho com seus cálculos. Eles corrigiram o falho calendário juliano, no qual o equinócio da primavera havia recuado, no decorrer dos séculos, do familiar 21 de março para o dia 10 de março. A correspondência do equinócio da primavera com 21 de março está para sempre assegurada, podendo variar apenas em um dia para a frente e para trás nos anos bissextos. Já outros sistemas, especialmente calendários lunares, precisam intermitentemente introduzir meses inteiros para conciliar o registro do tempo com a localização da Terra em sua órbita em torno do Sol.

[...]

Pense que O Messias, de Händel, é uma das melhores peças já composta para coral. Assim como a Missa em Si Menor, de Bach. No entanto, nenhuma dessas obras existiria se alguém não tivesse se sentido inspirado por Jesus. Isso não diminui (ou pelo menos não deveria) a genialidade, a beleza e a majestade dessas grandiosas composições musicais. Além do mais, como ateu, você com certeza utiliza as palavras ‘holiday’ e ‘adeus’, cuja origem vem das expressões “holy day” e ‘a Deus vos recomendo’.” P. 67-68.

Ao contrário do que muitos pensam, Tyson não é ateu. Ele se diz agnóstico.

“A-teu: literalmente, ‘sem Deus’. Nunca gostei desse termo. Estranho que existam palavras que lhe digam o que você não é. Por acaso existe algum vocábulo para não jogadores de golfe? Não chefs? Não astronautas?” P. 79.

“Não sei se Deus existe. Sei apenas que as pessoas que citam evidências a favor de Deus fazem vista grossa para a preponderância de evidências em contrário.” P. 162.

“Sou agnóstico, e repudio energicamente o rótulo de ateu, como diversos vídeos online podem atestar. Incluindo um com mais de 3 milhões de visualizações.” P. 218.

Tyson vê o atual momento da ciência em seu país, EUA, em maus lençóis.

“Todas as classificações de desempenho do nosso país no palco mundial da ciência, tecnologia, engenharia e matemática (áreas STEM), junto às outras nações industrializadas, nos colocam entre os 10% inferiores. Uma fração crescente do nosso eleitorado (quase chegando aos 50%) nega as descobertas científicas quando elas entram em conflito com suas visões políticas e/ou religiosas.” P. 88.

Muito se objeta, sobre os milhões, bilhões de dólares que são gastos anualmente para pesquisas espaciais. Diante de tantas necessidades aqui, em nosso planeta, porque gastar tanto dinheiro, recursos, trabalho e tempo, com o universo lá fora? Muitos americanos estão putos da vida, em ter que bancar essas pesquisas “inúteis”. A artilharia de Tyson mostra-se imbatível. Sem as pesquisas no campo da Astronomia/Astrofísica...

“• Lá se vão os circuitos integrados que estão nos seus aparelhos eletrônicos.

• Lá se vai o Canal do Tempo do seu pacote de TV a cabo.

• Lá se vai seu acesso a imagens de satélites (de qualquer fonte de notícias) que acompanham a rota de tempestades, furacões e tornados em formação.

• Lá se vai o sistema de GPS do seu carro (hora de voltar a comprar mapas de papel, se você conseguir achar alguém que os venda).

• Lá se vão todas as suas ferramentas que usam pilhas.

• Lá se vão (algumas) das pessoas que você ama, levadas pelo câncer de mama porque o algoritmo de processamento de imagens espaciais, que detecta células cancerígenas mais cedo que nunca, não teria sido usado nelas.

• Lá se vai o sistema de aviso de colisões do seu carro ou do carro que você planeja comprar em breve.

• Lá se vão as informações sobre o asteroide Apophis, que neste exato momento está vindo em direção à Terra, e passará bem perto dela no dia 13 de abril de 2036.

• Lá se vão todas as transmissões via satélite de notícias da Europa ou de qualquer outro lugar do mundo para a sua TV.

• Lá se vai seu conhecimento de que algo de ruim aconteceu em Vênus (deixando o planeta com um efeito estufa descontrolado de 482 graus Celsius) e em Marte (que já teve água corrente na superfície, mas agora está completamente seco e frio), informações que embasaram a tomada de consciência internacional sobre o aquecimento global.

• Lá se vai a eficiência aerodinâmica das asas dos aviões (lembre-se de que o primeiro A em NASA é a inicial de Aeronáutica).

• Lá se vai seu acesso ao Google Maps.” P. 92-93.

Respondendo a um leitor que acusa os cientistas de odiarem os cristãos, Tyson diz o seguinte:

“Nem eu, nem ninguém que eu conheça, tem a intenção de jogar os cristãos aos leões, apenas a de manter a religião longe das salas de aula de ciências. Aliás, não existe nenhum histórico de cientistas arrombando portas de escolas dominicais para dizer aos pregadores o que eles devem ensinar. Cientistas não fazem piquetes diante de igrejas nem atiram em pessoas que entram nelas. Cientistas não costumam interromper pregadores durante os sermões. E, a propósito, quase metade de todos os cientistas (no Ocidente) são religiosos e rezam para algum Deus.” P. 95.

Até gente defendendo o Alcorão, aparece para evangelizar o Tyson.

“Na quarta-feira, 3 de junho de 2009, Tahmid Rahim, mulçumano, respeitosamente me perguntou por que, em minhas várias aparições em documentários científicos e em outros lugares, a ciência presente no Alcorão nunca foi mencionada. Ele declarou que o Alcorão contém muitos versos que fazem referência a descobertas específicas da astrofísica moderna, da relatividade à expansão do universo. Para um livro escrito por Maomé 1.400 anos atrás, isso seria extraordinário, se fosse verdade.

* * *

Olá, Tahmid Rahim,

Obrigado por sua mensagem.

Um grande desafio com as verdades reveladas por profetas divinos é que ninguém nunca fez uma previsão correta sobre objetos e fenômenos previamente desconhecidos baseada no conteúdo de textos religiosos. Normalmente, o que acontece é que pessoas devotas tomam conhecimento das descobertas dos cientistas sobre o mundo natural e então retornam a seus textos religiosos em busca de passagens que façam alusão ao que já se conhece. Mas, como a informação extraída vem depois da descoberta, não é útil para o avanço da ciência. O que você precisa fazer, se estiver convencido da capacidade do Alcorão de prever o futuro e da sua infalibilidade, é apresentar previsões sobre o mundo natural derivadas de versos do Alcorão que estimulem pesquisas. Se alguma dessas previsões se tornar realidade (aliás, seria a primeira vez que algo assim aconteceria), os cientistas minerariam o Alcorão em busca de seus insights, diariamente.

Isso nunca aconteceu — com nenhum texto religioso —, e é por isso que esses textos não têm lugar nas aulas de ciências. Ocasionalmente, quando pessoas muito religiosas acham que a ciência está em conflito com seus textos religiosos, elas atacam os conceitos, declarando que há algo de errado com a ciência.

Apresente uma lista de previsões de fenômenos desconhecidos, derivados do Alcorão, e eu ficarei feliz em oferecer meus comentários. Caso contrário, ciência e religião não têm muito o que dizer uma à outra.” P. 104-105.

Respondendo a acusação de um leitor, de que os cientistas acreditam religiosamente que a ciência explica tudo, Tyson diz:

“Cientistas em atividade não saem correndo por aí declarando que a ciência pode explicar tudo. Por exemplo, nenhum de nós alega que a ciência pode explicar o amor, o ódio, a beleza, a coragem ou a covardia. Mas, à medida que a ciência avança, essas noções podem, de fato, alcançar o âmbito experimental da ciência, como aconteceu com tantos assuntos considerados insolúveis no passado. Isso não é uma fé absoluta como você descreve, mas uma confiança baseada no desempenho pregresso dos métodos e das ferramentas da ciência.” P. 115.

Um internauta pergunta sobre o porquê de estarmos aqui, ao que Tyson responde:

“Nunca penso muito no ‘porquê’. O porquê sugere um propósito ditado por forças exteriores. Eu sempre fui da opinião de que propósito não é algo definido externamente, mas bem dentro de nós. Meu propósito na vida é diminuir o sofrimento dos outros, contribuir para aumentar a nossa compreensão do universo e enriquecer de conhecimento os outros ao longo do caminho.” P. 118.

Sobre as pessoas que negam o aquecimento global:

“Pessoas que negam as alterações climáticas causadas pelo ser humano estão muito mal informadas. Essa posição não é politicamente liberal nem conservadora. Ela é factual. Embora seja possível argumentar que todos aqueles que desejam preservar o meio ambiente são os verdadeiros conservadores nessa discussão.” P. 218.

É um livro que se lê rapidinho e mostra de forma clara e dinâmica, o que o Tyson pensa sobre diversos assuntos. Vale a leitura.

domingo, 18 de abril de 2021

A Dança do Universo


GLEISER, Marcelo. A Dança do Universo: Dos Mitos de Criação ao Big Bang. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.

“Para a maioria dos cientistas o estudo da Natureza é encarado como um desafio intelectual. Sua motivação para enfrentar esse desafio vem de uma profunda fé na capacidade da razão humana de poder entender o mundo à sua volta.” P. 19.

Marcelo Gleiser, Ph.D em Física na Universidade de Londres, faz um passeio pelo maravilhoso, misterioso e estranho mundo dos astros, estrelas, cometas, planetas e átomos. Gleiser passou a ficar conhecido do grande público apenas na metade dos anos 2000, por causa da série Poeira das Estrelas, apresentada no Fantástico, em que nos brindava com as descobertas científicas da Astronomia. Mas este livro é de 1997. Seus trabalhos na área de Cosmologia já eram reconhecidos nos EUA. Não é por acaso, que ele é também membro da Sociedade de Física Americana.

A Dança do Universo é um livro direcionado para o grande público. Mas não se engane, a leitura dele será cansativa em alguns momentos.  Porém, isso não desqualifica a obra. No geral é um livro muito bom.   

Gleiser é ateu, mas reconhece que os teístas tiveram papel primordial na empreitada científica.

“[...] se voltarmos um pouco no tempo, veremos que alguns dos cientistas responsáveis pelo desenvolvimento de nossa visão do Universo eram profundamente religiosos.” P. 19.

No capítulo primeiro, sobre os mitos de criação, Gleiser mostra que os antigos já tinham a percepção de que a Terra era redondinha. Ovídio (43 a.C.-18 d. C), poeta romano, já dizia em sua obra Metamorfoses:

“Divisão, subdivisão, quem quer que ele seja, Ele moldou a terra na forma de um grande globo”. P. 33.

No mito de criação chinês, o deus Pan Ku morre para que o Universo seja aperfeiçoado; e da putrefação do seu corpo, emergem os humanos.

“E dos vermes que cobriam seu corpo surgiu a humanidade.” P. 34.

Nossa! Isso faz todo o sentido!

Sobre a relação da ciência e religião, Gleiser tece esses comentários:

“[...] será possível que uma pessoa possa questionar o mundo cientificamente e ainda assim ser religiosa? Acredito que a resposta é um óbvio sim, contanto que seja claro para essa pessoa que ambas não devem interferir entre si de modo errado, ou seja, que existem limites tanto para a ciência como para a religião. Cientistas não devem abusar da ciência, aplicando-a a situações claramente especulativas, e, apesar disso, sentirem-se justificados em declarar que resolveram ou que podem resolver questões de natureza teológica. Teólogos não devem tentar interpretar textos sagrados cientificamente, porque estes não foram escritos com esse objetivo. Para mim, o que é realmente fascinante é que tanto a ciência como a religião expressam nossa reverência e fascínio pela Natureza. Sua complementaridade se manifesta na motivação essencialmente religiosa dos maiores cientistas de todos os tempos.” P. 40.

As Leis da Física são imutáveis e universais, abrangendo todo o Universo, se não fosse assim, a ciência seria impossível.

“Uma das funções mais importantes da física é a busca de leis universais que sejam capazes de descrever fenômenos naturais observados tanto no dia-a-dia como no laboratório. Ao chamarmos essas leis de ‘universais’, estamos implicitamente supondo que elas são válidas não só em qualquer parte do Universo, mas também em qualquer momento de sua história. Essa suposição baseia-se na nossa crença de que a Natureza, em um nível mais profundo de análise, é de fato imutável, e que, portanto, as leis que concebemos para descrever seu funcionamento são também imutáveis. [...] De fato, é justamente por causa dessa imutabilidade das leis da física que o estudo racional da Natureza é possível.” P. 52.

Essa crença é anátema para o irracionalismo pós-moderno.

Mais uma vez, Gleiser reconhece o papel da religião no forjar do pensamento científico:

“Sua filosofia religiosa influenciou e moldou o pensamento de alguns dos maiores filósofos e cientistas da história, incluindo Platão e Kepler. Alguns autores consideram Pitágoras o fundador Alguns autores consideram Pitágoras o fundador da ciência, enquanto outros, levados pela enorme repercussão do seu pensamento em várias áreas do conhecimento, consideram Pitágoras ‘o fundador da cultura européia em sua vertente mediterrânea ocidental’.” P. 53.

Copérnico não foi o primeiro a tirar a Terra do centro do universo. Muito antes dele, já se especulava sobre.

“Astrônomos pitagóricos sugeriram que não só a Terra se move, como também não é o centro do Universo.” P. 57.

Por mais que a crença religiosa tenha tido o seu quinhão de responsabilidade sobre o desenrolar da ciência, esta deve caminhar sozinha, sem estar presa aos pressupostos de nenhuma religião, assevera o nosso Físico.

“Para que o discurso científico tenha uma natureza universal, é fundamental que ele não dependa de nenhuma crença religiosa ou interpretação subjetiva.” P. 64.

Isso de certa forma, não contradiz o que ele já disse anteriormente, quando afirma que a crença religiosa de uns, teve um impacto profundo em suas ciências? O pressuposto religioso de que o Universo é inteligível, porque um deus pessoal e todo poderoso o criou, tornando-o inteligível e pronto para ser investigado, foi uma das premissas pela qual os grandes cientistas do passado criaram a ciência moderna. Esse foi o pressuposto religioso-filosófico deles e, ainda é o de muitos hoje. Não consigo ver contradição, ou empecilho nisto. Pressupostos ligados ao divino, sempre estiveram atrelados ao estudo do mundo natural, como o próprio Gleiser atesta algumas páginas a frente.

“Para ele, assim como para Platão e para Aristóteles, os corpos celestes eram divinos. Mais ainda, a ordem que percebemos no Universo é uma manifestação direta da inteligência divina. O estudo dos céus servia como um veículo de ascensão espiritual para o astrônomo. Por intermédio de seu trabalho, o astrônomo liberava-se das limitações e trivialidades da vida diária, em busca de uma existência moral e ética superior; para Ptolomeu, a astronomia estava profundamente ligada à filosofia moral. Ao investigar os mecanismos celestes, o astrônomo estava em contato com o divino.” P. 84.

“O frade franciscano de Oxford, Roger Bacon (c. 1219-1292), [...] fiel a seus pronunciamentos contra o dogmatismo, ele enfatizou a importância da matemática e da experimentação como instrumentos no estudo da Natureza e, portanto, como veículos para nos aproximarmos de Deus e de sua Criação, tornando-se uma importante influência no desenvolvimento inicial da ciência. Quando penso em Roger Bacon, imediatamente a imagem de um ‘profeta da ciência’ me vem à mente, um visionário solitário anunciando o inevitável declínio do Universo medieval.” P. 97-98.

“Newton via o Universo como manifestação do poder infinito de Deus. Não é exagero dizer que sua vida foi uma longa busca de Deus, uma longa busca de uma comunhão com a Inteligência Divina, que Newton acreditava dotar o Universo com sua beleza e ordem. Sua ciência foi um produto dessa crença, uma expressão de seu misticismo racional, uma ponte entre o humano e o divino.” P. 164.

Claro que o fato da religião/crença no divino ter contribuído, não é um passaporte automático para a sua validade enquanto verdade metafísica sobre o Universo. Não acreditamos mais na Astrologia e na Alquimia, por mais que essas também tenham sido respectivamente o embrião da Astronomia e da Química. Muitos reconhecem a religião como mola propulsora para a ciência na modernidade, no entanto, tornaram-se ateus. Outros tanto a reconhecem, como também subscrevem seus pressupostos fundamentais. O importante é que todos contribuam para o aumento do conhecimento sobre o Cosmos. 

Os gregos, ah, os gregos! Sempre eles!

“Talvez mais relevante que os vários detalhes de seu legado cultural, os gregos nos ensinaram como é importante nos perguntar sobre o mundo à nossa volta e sobre nós mesmos. Seu amor pela razão e sua fé no uso do raciocínio como instrumento principal na busca do conhecimento formam o arcabouço fundamental do estudo científico da Natureza. Não devemos nunca fugir dessa busca, intimidados pela nossa ignorância. O medo deve ser combatido com a razão e não com mais medo. Essa, para os gregos, é a chave da sabedoria.” P. 88.

Gleiser, a exemplos de muitos, traz o mito tão propalado de que na Idade Média, a igreja colocou empecilhos ao estudo da natureza, e de que a crença na Terra plana era generalizada.

“Ao entrarmos na Idade Média, veremos que essa curiosidade sobre o mundo natural irá praticamente desaparecer. A ascensão da Igreja e o declínio de Roma redirecionaram as preocupações das pessoas ‘educadas’ para questões teológicas extremamente abstratas; as sementes plantadas pelos gregos irão hibernar por um longo tempo. Isso não significa que nenhuma ciência tenha sido produzida nesse período. Os árabes, em particular, produziram melhorias no modelo de Ptolomeu, e levaram a matemática a novos níveis de sofisticação. Entretanto, seu Universo continuou sendo essencialmente aristotélico, finito, com a Terra no centro e dividido entre os domínios do ser e do devir.

O único tipo de estudo aceitável era de natureza teológica. Questões pertinentes ao estudo da Natureza eram consideradas não só supérfluas como também perigosas para a salvação da alma. A situação se tornou tão terrível que, por aproximadamente setecentos anos, de 300 d.C. (santo Lactancio) até o ano 1000 (papa Silvestre 11), se acreditava novamente que a Terra era plana! Quando os muçulmanos trouxeram os textos de Aristóteles, Euclides, Arquimedes, Ptolomeu e muitos outros de volta para a Europa, uma nova brisa de despertar começou a soprar, lentamente liberando o intelecto do sono hipnótico da Idade Média.” P. 88-89.

Se eu não tivesse lido Terra Plana, Galileu na Prisão e Outros Mitos Sobre Ciência e Religião, acreditaria ainda nisso. Mas esta obra desmente com maestria muitas dessas afirmações acima.

Como todo livro sobre história da ciência, ele passa por Copérnico, Galileu, Tycho, Newton Kepler... Sobre este último, olha que bacana:

"Kepler não devia ser uma pessoa muito agradável de se conviver, ou por quem fosse fácil sentir atração física. Fora suas horrendas feridas e vermes nos dedos, parece que ele tomou apenas um banho em toda sua vida. E, mesmo assim, ele reclamou que o banho o deixou doente por dias." P. 124.

Se o grande mestre foi assim, quem sou eu para contrariar. Não tenho 1% da genialidade intelectual dele, mas compartilho pelo menos de uma de suas práticas.

Sobre o afamado caso de Galileu e a igreja, Gleiser tem isto a dizer:

“Embora seja comum representar Galileu como um dos grandes mártires na luta pela liberdade de expressão e a Igreja como o vilão intolerante, a verdade (ao menos o que podemos concluir, dada a evidência existente e as interpretações em conflito) é bem mais sutil. [...]Os problemas iniciais de Galileu vieram principalmente do meio acadêmico, incitados por professores de filosofia de várias universidades italianas, cegamente obedientes à doutrina aristotélica.” P. 137.

Sobre a existência de Deus, o que dizer? Gleiser assume uma atitude parcimoniosa.

“Mesmo que não possamos descartar por completo a possibilidade de que uma prova definitiva da existência de Deus esteja escondida em algum canto obscuro da Natureza, pacientemente esperando para ser descoberta por nós, também não podemos descartar a possibilidade de que jamais tenhamos acesso a essa prova através da ciência. Ou de que essa prova simplesmente não exista, a menos que acreditemos nela. Talvez existam muitas respostas possíveis a essa pergunta, científicas ou não, cada uma satisfazendo parcialmente nossa necessidade de entender a origem de todas as coisas. No momento, tudo o que podemos fazer é especular, com base em nossos próprios preconceitos. Para mim, não é claro que a beleza e a ordem que tantas vezes encontramos na Natureza não possam ser simplesmente resultado do acaso, de acidentes sem nenhum objetivo ou ‘plano final’. Por outro lado, também não é claro que tudo seja produto do acaso.” P. 203.

As misteriosas Leis da Física não podem ser um poderoso indício de um Criador? Gleiser, como cético que é, mostra-se cautelosamente incrédulo.

“Será que as leis da física são evidência para a existência de um Criador? É muito tentador dizer que as leis da física são ‘inteligentes’. Afinal, é devido à nossa inteligência que podemos desvendar os mecanismos através dos quais a Natureza opera, expressando-os em termos de leis físicas. Mas assumir superficialmente essa posição pode ser muito perigoso. O fato de que seja necessária inteligência para desvendarmos as leis da física não implica que elas sejam produto de um Criador. A menos, claro, que acreditemos que nossa própria inteligência não seja produto do acaso, por intermédio da seleção natural, mas sim o produto do trabalho de um Criador. Será que a necessidade de identificarmos inteligência por trás do funcionamento dos processos naturais é uma conseqüência do fato de sermos seres inteligentes? Afinal, se a capacidade do cérebro humano de reconhecer padrões complexos (como, por exemplo, atribuirmos formas a constelações ou a nuvens, ou reconhecermos melodias musicais) é uma de suas propriedades mais importantes, não seria previsível que tentaríamos encontrar inteligência em um mundo cheio de padrões complexos? Será que somos vítimas de nossos próprios processos mentais?

Ou será que o modo como funcionamos é realmente produto premeditado de um Criador inteligente? Até que tenhamos uma compreensão mais profunda da origem de nossa própria inteligência, talvez seja um pouco prematuro querer atribuir inteligência ao Universo como um todo.” P. 204.

As Leis da Física como passaram a existir? Ninguém sabe! É um mistério, que parece-me insolúvel! Gleiser reconhece a grande dificuldade nesse enigma inexplicável.

“Mesmo que seja possível usar relatividade geral e mecânica quântica na construção de modelos matemáticos que descrevam de modo auto-consistente uma possível ‘origem’, na minha opinião modelos por si sós não são suficientes para que realmente possamos entender a origem do Universo. Já que todos esses modelos supõem a validade das leis da física como ferramenta fundamental em sua construção, eles, por definição, não podem explicar qual a origem das próprias leis da física. Se simplesmente supusermos que as leis da física foram criadas juntamente com o Universo, cairemos forçosamente numa regressão infinita.

Na minha opinião, que também é defendida por outros colegas, como, por exemplo, Paul Davies, é a questão da origem das leis da física que lida de fato com ‘A Pergunta’. Infelizmente, a resposta para tal pergunta está além do alcance das teorias físicas, pelo menos do modo como elas são formuladas no momento. Será que devemos então desistir de investigar essas questões através da física? Certamente não!

Mas talvez, ao refletirmos sobre essas questões, e sobre nossas limitações ao lidarmos com elas, um pouco de humildade, tantas vezes esquecida no ‘calor’ do debate científico, venha a ser restaurada.” P. 361-362.

Já vi não lembro onde, que a relatividade de Einstein foi usada para “provar” o relativismo pós-moderno. Mas este é um uso completamente equivocado das ideias do nobre cientista.

“A teoria da relatividade especial é uma teoria de absolutos, mesmo que ela tenha sido (e ainda seja) interpretada como uma teoria de relativos nas suas muitas encarnações fora da física, de jantares em família a círculos mais acadêmicos.” P. 277.

Para o azar dos pós-modernos é o absoluto que a ciência procura.

“Desde os pré-socráticos até nossos dias, a busca do absoluto é uma inspiração constante para a criatividade científica.” P. 281.

A Física na virada do século XIX para o XX, sofreu uma gigantesca reviravolta e baque. O mundo atômico e subatômico emergia de tal forma, que deixou a comunidade de cientistas arrepiada com o que acontecia no mundo minúsculo dos átomos - elétrons, nêutrons, prótons.  O universo quântico com os seus inacreditáveis absurdos, tais como a dualidade onda/partícula da luz, perda da causalidade, a imprevisibilidade total da localização dos elétrons, a interferência do observador, entre outros, colidia/rompia/separava completamente e violentamente o mundo clássico do mundo quântico. Os objetos quânticos podem nem existir! As descobertas malucas e extraordinárias do universo diminuto dos átomos chegaram ao ponto de deixar um de seus pesquisadores, o Nobel de Física Erwin Schrödinger tão tenso, que ficou doente, diante dos disparates encontrados. Mesmo diante dos acalorados debates e brigas, da incredulidade, ceticismo e estupefação dos pesquisadores e do próprio Einstein (ele se angustiou muito), Gleiser assevera que a Física Quântica é bastante eficaz para explicar nosso mundo de partículas invisíveis, gozando o posto de ser a teoria mais bem colocada na explicação das coisas.  

“A mecânica quântica é extremamente eficiente na descrição dos resultados de inúmeros experimentos que testam fenômenos em escalas atômicas e subatômicas. De fato, ela é a teoria científica mais eficiente em toda a história da ciência. É devido ao seu fantástico sucesso que um número enorme de maravilhas tecnológicas foi criado durante este século, de transistores e computadores até discos laser e televisão digital. “As descobertas de hoje serão as ferramentas de amanhã.” P. 305.

Para terminar estes recortes de A Dança do Universo, nada melhor do que fechar o livro com estas palavras:

“O conhecimento pode gerar poder, e o poder é muito sedutor. A ciência pode curar, mas também pode matar. Contudo, a alternativa, certamente, não é desprezar a importância crucial da ciência para a sociedade. Essa atitude seria uma viagem sem escalas para o obscurantismo, forçando nossa qualidade de vida a regredir aos padrões miseráveis de um passado não muito distante. O conhecimento não representa necessariamente sabedoria, mas com certeza a ignorância nunca é uma opção razoável.” P. 275.

“Teorias científicas jamais serão a verdade final: elas Irão sempre evoluir e mudar, tornando-se progressivamente mais corretas e eficientes, sem chegar nunca a um estado final de perfeição. Novos fenômenos estranhos, inesperados e imprevisíveis irão sempre desafiar nossa imaginação. Assim como nossos antepassados, estaremos sempre buscando compreender o novo. E, a cada passo dessa busca sem fim, compreenderemos um pouco mais sobre nós mesmos e sobre o mundo a nossa volta.” P. 397-398.

sábado, 17 de abril de 2021

Mateus 16.18 e os Estudiosos Protestantes

O evangélico médio, sobretudo o pentecostal/neopentecostal, acredita piamente que a Pedra na qual a igreja está edificada é Cristo, na passagem do evangelho de Mateus 16.18 . Eles acham que a intepretação de que a Pedra na qual Jesus falou é Pedro, é uma exegese espúria e tipicamente católica, não comportando lugar entre os estudiosos evangélicos. Mas será que é assim mesmo? Proeminentes eruditos evangélicos, dentre eles, muitos conservadores, necessariamente veem a Pedra na qual Jesus falou como se referindo a si mesmo? Intérpretes evangélicos não creem que a Pedra seja o apóstolo Pedro?

O texto de Mateus 16.18 diz assim na Nova Versão Transformadora:

“Agora eu lhe digo que você é Pedro, e sobre esta pedra edificarei minha igreja, e as forças da morte não a conquistarão.”

Listarei a seguir eruditos evangélicos conservadores, que afirmam que a Pedra na qual Jesus falou é Pedro.

“Em Mt 16:18 Jesus diz que Pedro é a rocha sobre a qual edificará a Sua igreja: ‘Também eu te digo que tu és Pedro\petros], e sobre esta pedra\petra) edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela’ (- Portão; Inferno), O fundamento aqui é o jogo de palavras entre petros e petra. Conforme Mc 3:16 e Jo 1:42, o próprio Jesus deu a Si mão o nome de Pedro. Em Mateus, Pedro já tem este nome quando é mencionado pela primeira vez em 4:18; muitos comentaristas tiram daí a conclusão de que em Mt 16:18 não está recebendo o nome, mas, sim a interpretação dele. Paulo emprega usualmente a forma aram. Cephas kepa\urochan, ‘pedra’ (1 Co 1:12; 3:22; 9:5; 15:5; G1 1:18; 2:9, 11, 14; cf. 1 Ciem 47:3). Em Jo 1:42, o único lugar no NT onde o subs. petros é empregado no seu sentido normal, declara-se que o nome Kephas significa petros: ‘E [André] o levou [a seu irmão, Simão] a Jesus. Olhando Jesus para ele, disse: Tu és Simão, o filho de João; tu serás chamado Cefas’ (que quer dizer Pedro).’ Tanto a transliteração aram. quanto a tradução gr,, kephas/petros, podem significar ‘rocha’ e, portanto, petra em Mt 16:18 pode ser traduzida como ‘rocha’. A assonância entre as palavras torna imediatamente evidente que Pedro é o ‘homem-rocha’, o alicerce sobre o qual Jesus edificará Sua igreja.” P. 1615.

BROWN, Colin; COENE, Lothar. (Orgs). Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento Volume 02. São Paulo: Vida Nova, 2007.

“O significado é: Você é Pedro, isto é, Rocha, e sobre esta rocha, isto é, sobre você, Pedro, edificarei minha igreja. Nosso Senhor, falando em aramaico, provavelmente tenha dito: 'E eu disse a você, você é Kepha, e sobre esta kepha edificarei minha igreja.' Jesus, pois, está prometendo a Pedro que ele está para edificar sua igreja sobre ele\ Eu aceito este ponto de vista.” P. 204.

HENDRIKSEN, William. Comentário do Novo Testamento: Mateus Vol 02. São Paulo: Cultura Cristã, 2001.

“Até que ficou demonstrado na última década do século XIX que normalmente Jesus deve ter ensinado em aramaico, a exegese protestante popular desse versículo contrastava petros, uma pedra, com petra, uma rocha, assim tentando descartar a idéia de que Pedro de alguma maneira deveria ser o fundamento da igreja. Já antes, quando a verdadeira natureza do grego koinê começou a se tornar conhecida, alguns estudiosos estavam insatisfeitos com o jogo de palavras, que se encaixava melhor com o grego clássico do que com o koinê. Uma vez que se compreendeu que o nome conferido era o termo aramaico Kepha (gr. kêphas, português Cefas), ficou claro que o suposto jogo de palavras tinha de ser abandonado, pois era impossível em aramaico. Que Cefas foi o nome dado, fica claro no uso que Paulo faz do nome ao citá-lo oito vezes e citar ‘Pedro’ som ente duas vezes (G1 2.7,8). Parece claro então que a formulação tão atacada da NEB (e de Phillips) é justificada: ‘Você é Pedro, a Rocha, e sobre esta rocha...’.” P. 1578.

BRUCE, F. F. (Org). Comentário Bíblico NVI: Antigo e Novo Testamentos. São Paulo: Editora Vida, 2009.

“Ao dar a bênção, Jesus se dirige a Pedro por ‘Simão Barjonas’ (Simão Bariona) e reconhece que o único meio de ele saber que Jesus é o Cristo é mediante revelação divina, e não mediante especulação humana. Bariona (“Barjona”) é termo aramaico que significa ‘filho de Jonas’. Jesus dá a Simão o novo nome ‘Pedro’ (petros), que significa ‘pedra’, visto que eles estão diante da grande pedra atrás da cidade tendo o monte Hermom visível à distância. Sobre esta pedra (petra) Jesus promete edificar a Igreja. É evidente que Jesus quer que a primeira pedra, Pedro, seja identificado com a segunda pedra.

Alguns estudiosos tentam distanciar as duas pedras comentando que Pedro é petros em grego (substantivo masculino), ao passo que a segunda pedra é petra (substantivo feminino). Eles sustentam que a primeira pedra denota uma pedrinha e a última, uma considerável formação geológica. Esta interpretação afirma que a petra sobre a qual Jesus edifica é a confissão de Pedro, não o homem Pedro.

É razoável que petra se torne petros quando se refere a Simão, porque em grego é natural que o homem traga a forma masculina do substantivo, e não a feminina. Do contrário seria como chamar André de Andréa! Além disso, a alegada diferença entre petros e petra se evapora quando o aramaico original é considerado: “Tu és Kejpha e sobre esta kepha edificarei a minha igreja”. (Kepha é o nome original de “Cefas”, usado para se referir a Pedro.) O significado mais óbvio do texto em aramaico, grego ou em nosso idioma é que Pedro é a pedra, opinião apoiada pela maior parte da erudição protestante. O uso de petros/petra em relação a edificar no contexto que se segue, exprime o ensino da Igreja em que Jesus e os apóstolos são a fundação da Igreja (At 2.42; Ef 2.20,21; Cl 1.18; 1 Tm 3.15; 1 Pe 2.4-7).” P. 101.

ARRINGTON, French, L.; STRONTAD, Roger. (Editores). Comentário Bíblico Pentecostal: Novo Testamento. 4 ª Ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2006.

“Houve muita discussão sobre o significado das palavras de Cristo a Pedro, ‘Sobre esta pedra edificarei a minha igreja’. Também houve muita discussão sobre ‘as chaves do reino dos céus’ de que Jesus falou aqui. Não existe uma razão gramaticalmente convincente pela qual Cristo não estivesse se referindo a Pedro como a ‘rocha’.” P. 576.

RICHARDS, Lawrence O. Comentário Devocional da Bíblia. Rio de Janeiro: CPAD, 2012.

“O nome Pedro faz um trocadilho, no grego, com a palavra ‘rocha’ (petra). Há quatro principais interpretações para este jogo de palavras: (a) a pedra é a confissão de Pedro (‘tu és o Cristo’, v. 16), sobre a qual a igreja é edificada; (b) Jesus mesmo é a pedra, como Pedro depois testifica (1 Pe 2.5-8); (c) Pedro, como representante dos apóstolos, é o fundamento da igreja (Ef 2.20). (d) Por sua confissão, Pedro representa o tipo de pessoa sobre a qual a Igreja será edificada.

A primeira e segunda possibilidades são freqüentemente defendidas, por indicar que o nome de Pedro é petros e a pedra é petra. Porém esta diferença linguística não é significativa neste contexto. A segunda possibilidade é improvável porque Jesus descreve-se a si mesmo. nesta passagem, não como a fundação, mas como construtor da igreja.

Não fosse pelo abuso desta passagem pela Igreja Católico-Romana, é pouco provável que qualquer dúvida fosse levantada de que a referência é a Pedro. Mas a pedra fundamental é Pedro como representante dos apóstolos (v. 15, nota), e cuja confissão a respeito de Cristo lhe foi revelada pelo Pai. Como Pedro mesmo declara posteriormente (1Pe2.4-8), todos os crentes se tornaram ‘pedras vivas’ por causa da associação deles com Cristo e com os apóstolos, como o fundamento da igreja (Ef 2.20-21; Ap 21.14).” P. 1124.

Bíblia de Estudo de Genebra. São Paulo e Barueri: Cultura Cristã e Sociedade Bíblica do Brasil, 1999.

“Pedra: Pode também ser traduzido por rocha; em grego há um jogo de palavras entre petros ‘pedra, rocha’, usada aqui como nome próprio (aportuguesado para Pedro), e petra ‘rocha, penha’ (rocha, traduzida em Mt 7.24-25). Jesus usou, provavelmente, a forma aramaica kefá (Cefas; cf. Jo 1.42; 1Co 1.12; Gl 2.9), que significa tanto ‘rocha’ como ‘pedra’.”

Bíblia de Estudo Almeida. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil.

“Chegamos à última interpretação, que é a melhor. Consiste em que Pedro mesmo é a rocha, mas em um sentido especial. Não é a rocha sobre a qual se funda a Igreja; essa rocha é Deus. É a primeira pedra basal de toda a Igreja. Pedro foi o primeiro homem da Terra que descobriu quem era Jesus. Foi o primeiro homem que efetuou o salto de fé que via em Jesus Cristo o Filho do Deus vivo. Em outras palavras, Pedro foi o primeiro membro da Igreja e, nesse sentido, a Igreja está fundada sobre ele. Este é o significado. É como se Jesus tivesse dito a Pedro: "Pedro, você é o primeiro em compreender quem sou eu; portanto, é a primeira pedra, a pedra fundamental, o princípio mesmo da Igreja que fundo." E nos séculos por vir, qualquer um que faz o mesmo descobrimento que Pedro fez é outra pedra que se acrescenta ao edifício da Igreja de Cristo.” P. 571.

BARCLAY, William. Comentário do Novo Testamento. Tradução: Carlos Biagini. (PDF).

“Assim, Mateus 16.13-20 traz a famosa “confissão” na estrada para Cesaréia de Filipe. Em resposta a ela, e apenas no relato que Mateus faz do episódio, Jesus louva a percepção de Pedro como vinda do céu e diz que ele é a rocha sobre a qual edificaria a sua igreja, prometendo-lhe as chaves do reino. Não há aqui nenhuma base para as idéias católicas de papado ou de sucessão apostólica. O que Jesus predisse foi o papel de destaque que Pedro teria como líder no começo da igreja, integrando novos grupos étnicos na comunidade cristã (veja At 1— 12).” P. 595.

DOCKERY, David S. Manual Bíblico Vida Nova. São Paulo: Vida Nova, 2001.

“E sobre esta pedra... Agora, ‘pedra’ torna-se petra (feminino), e com base na distinção entre petros (acima) e petra (aqui), muitos tentam evitar identificar Pedro como a pedra sobre a qual Jesus edifica sua igreja. Alega-se que Pedro é uma mera ‘pedra’; mas Jesus mesmo é a ‘pedra’, conforme Pedro mesmo atesta (IPe 2.5-8; como, entre outros, Lenski, Gander, Walvoord). Outros adotam alguma outra distinção: e.g., ‘sobre essa pedra da verdade revelada — a verdade que você acaba de confessar — edificarei minha igreja’ (Allen). Contudo, se não fosse pela reação protestante contra os extremos de interpretação do catolicismo romano, seria duvidoso que muitos considerassem que ‘pedra’ fosse alguma outra coisa ou outra pessoa que não Pedro.

Embora seja verdade que, no grego antigo, petros e petra possam ter o sentido de “pedra” e ‘rocha’, respectivamente, a distinção está grandemente limitada à poesia. Além disso, nesse caso, a base aramaica é inquestionável; e o mais provável é que kêpâ’ tenha sido usado nas duas orações (‘você é Kêpâ’, e sobre esta kêpâ’’ ), uma vez que a palavra foi usada para o nome e para ‘pedra’. A Peshita (escrita em siríaco, língua cognata com o aramaico) não faz distinção entre as palavras nas duas orações. O grego faz a distinção entre petros e petra apenas porque tenta preservar o jogo de palavras, e, no grego, o feminino petra não pode servir muito bem como nome masculino.

[...]

Se Mateus não quisesse dizer nada mais além de que Pedro era uma pedra em contraste com Jesus, a Rocha, a palavra mais comum a ser usada seria lithos (‘pedra’ de quase qualquer tamanho). Então, não haveria jogo de palavras — e esse é exatamente o ponto!” P. 431.

CARSON, D. A. O Comentário de Mateus. São Paulo: Shedd publicações, 2010.

“Esta é uma das passagens mais controversas e debatidas em toda a Escritura. Os católicos romanos têm apelado para esta passagem para defender a idéia de que Pedro foi o primeiro papa. A questão fundamental diz respeito a relação de Pedro com ‘esta pedra’. Em grego, ‘Pedro’ é Petros (‘pedra’), que está relacionada com a petra (‘rock’). O outro nome NT de Pedro, Cefas (. Cf. João 1:42, 1 Coríntios 1:12), é o equivalente aramaico: kepha’ significa ‘pedra’, e se traduz em grego como Kephas. ‘Esta rocha’ foi por diversas vezes interpretado como referindo-se (1) o próprio Pedro; (2) a confissão de Pedro; ou (3) Cristo e seus ensinamentos. Por várias razões, a primeira opção é a mais forte. Todo o pronunciamento de Jesus é direcionado para Pedro, e a palavra de ligar ‘e’ (gr. kai) identifica mais, naturalmente, o rock com o próprio Pedro.” P. 1441.

Bíblia de Estudo ESV. Illinois, EUA: Published by Crossway Bibles Wheaton, 2007.

“‘Esta pedra’ tem sido interpretado diferentemente como se referindo (1) ao próprio Pedro; (2) à confissão de Pedro; ou (3) a Cristo e seus ensinamentos. Por várias razões, a primeira opção é a mais forte. Todo o pronunciamento de Jesus é dirigido a Pedro, e o conector ‘e’ (gr. Kay) identifica mais naturalmente a pedra com o próprio Pedro.” P. 1734.

Bíblia de Estudo NAA. Barueri, SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 2018. 

“O nome ‘Pedro’, em grego, significa ‘rocha’ ou ‘pedra’. A frase sobre esta pedra é, portanto, um trocadilho: Pedro era a pedra fundamental, uma vez que foi o primeiro a confessar Jesus como o Cristo e também foi o líder dos apóstolos, isto é, o ‘membro fundador’ da igreja (ver Ef 2.20-22; Ap 21.14). Alguns estudiosos sugerem que Jesus se referiu a si mesmo quando disse esta pedra, mas parece claro que ele apontava para Pedro ou para a confissão do discípulo.” P. 1560.

Bíblia de Estudo Nova Versão Transformadora. 1. Ed. – São Paulo: Mundo Cristão, 2018.  

“Simão reconheceu a identidade de Jesus por meio da revelação divina (11:25-27), e essa é a razão pela qual Jesus lhe deu o nome de Pedro. Apesar de Mateus já ter se referido a Simão como Pedro, esta é a primeira vez no Evangelho que jesus fez assim. Jesus identificou Pedro como rocha sobre a qual a Sua igreja seria estabelecida. A proclamação, por Pedro e pelos demais apóstolos, do messiado de Jesus pôs o fundamento para a igreja (Ef 2 19-20; Ap 21:14).” P. 1575.

Bíblia King James 1611 Com Estudo Holman. 3º Ed. Niterói-RJ: BV Books, 2020.

“Se Pedro declarou que Jesus era o Messias, Jesus também tinha uma palavra para ele. O nome ‘Pedro’ ou sem nome nativo aramaico, ‘Cefas’, tem o sentido de ‘rocha’ ou ‘pedra’. Se Pedro estava preparado para afirmar que Jesus era o Messias, Jesus estava preparado para dizer que Pedro, com sua sujeição, seria ele mesmo a fundação de sua nova edificação. Da mesma forma como Deus deu a Abrão o nome de Abraão, indicando que ele seria pai de muitas nações (Gênesis 17:5), agora Jesus dá a Simão o novo nome de Pedro, a Rocha.” P. 22.

WRIGHT, N. T. Mateus Para Todos. 1 Ed. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2020.

“A palavra grega traduzida <<pedra>> é petra e serve de trocadilho ao nome de Pedro, que em grego é Petros. A interpretação católico-romana desta passagem é que Pedro é a pedra fundamental da igreja, que gozava de uma primazia entre os apóstolos e se tornou bispo de Roma, passando esta primazia a seus sucessores, os papas. Era difícil sustentar a primeira proposição e impossível defender as outras. Uns comentaristas, apoiados por alguns pais da igreja, tendem a identificar a pedra ou com a confissão de Pedro ou com o Senhor mesmo. A intepretação mais simples é que Pedro é indicado como a pedra, sem ser o único fundamento. Os doze fundamentos da igreja são mencionados em Ef. 2:20 e Ap. 21:44. Esta interpretação é apoiada pelo fato de que as mesmas palavras são dirigidas a todos os discípulos em [Mateus] 18:18, como a Pedro em [Mateus] 16:19.” P. 968.

DAVIDSON, F. (Org.). O Novo Comentário da Bíblia. São Paulo: Vida Nova, 1997. 

“Quando Pedro foi aclamado ‘A Pedra’, não se sabia ao certo que tipo de pedra ele provaria ser. Um oráculo, no livro de Isaías, sugere que a mesma pedra que ofereceria refúgio seguro em tempos de enchentes também seria uma pedra de tropeço e queda para quem fosse jogado contra ela (Is 8.14). Assim, no mesmo contexto, o primeiro evangelista mostra Jesus dizendo a Pedro: ‘Sobre esta pedra construirei minha igreja’, e: ‘Você é um obstáculo (skandalon) no meu caminho’ (Mt 16.18,23). Pedro tinha a capacidade de ser tanto uma pedra de tropeço quanto uma pedra fundamental. Graças à intercessão do Mestre a seu favor em uma hora crítica, Pedro fortaleceu seus irmãos e tornou-se uma rocha de estabilidade e um ponto de união.” P. 35.

BRUCE, F. F. Pedro, Estevão, Tiago e João: Estudo do Cristianismo Não-Paulino. São Paulo: Shedd Publicações, 2005.

“Do grego, petros e petra, respectivamente – um trocadilho. Alguns creem que a diferença na terminação das duas palavras distingue ‘Pedro’ de ‘Pedra’ – uma referência a Cristo ou à confissão de Pedro acerca de Jesus. Mas a palavra para ‘Pedra’ no grego é o substantivo feminino petra, enquanto ‘Pedro’, o nome de um homem, é o masculino petros. O jogo de palavras requer uma mudança no gênero, ainda que Pedro seja, de fato, a pedra. O trocadilho faz mais sentido dessa forma, já que, no v. 23, é o próprio Pedro que repentinamente transforma-se em um tipo diferente de pedra: uma ‘pedra de tropeço’. [...] nada nesta passagem, e em nenhum outro lugar da Bíblia, sugere que ele é infalível ou que tenha iniciado um processo de ‘sucessão apostólica’ de liderança da igreja.” P. 1574.

Bíblia de Estudo Thomas Nelson. 1° Ed. São Paulo: Thomas Nelson, 2021.

“Cristo profetizou nestas palavras dirigidas a Pedro: ‘sobre esta pedra edificarei a minha igreja.’ Há um trocadilho aqui com a palavra ‘pedra’, que é também o nome de Pedro. Jesus disse: ‘você é Pedro’ (masculino, petros), e ‘sobre esta pedra’ (feminino, petra) ‘edificarei a minha igreja’. O Espírito Santo desceu sobre a igreja no dia de Pentecostes após o sermão de Pedro quando ‘houve um acréscimo ao número de seguidores de aproximadamente três mil pessoas’ (At 2;41).” P. 1036.

Bíblia de Estudo Introdutória. 1° Ed. São Paulo: Thomas Nelson, 2025.

A finalidade de citar esses autores evangélicos é apenas para mostrar que não existe consenso algum sobre a passagem de Mateus 16.18 no arraial protestante, contrariando a visão simplista de que só os católicos afirmam que Pedro é a Rocha da passagem em questão. Admitir que a Rocha é o senhor Pedroca, não embasa a doutrina da sucessão apostólica e as implicações que a igreja católica tira dela, como bem diz alguns dos comentaristas acima.