quinta-feira, 20 de maio de 2021

O Mito da Idade de Ouro do Mundo Islâmico

Muçulmanos são constantemente acusados de intolerância (e com razão), por serem tão hostis as religiões não islâmicas como o budismo, cristianismo, judaísmo, espiritismo; fora serem bastante agressivos com homossexuais, ateus etc., nas sociedades onde são maioria. Se prezam por uma certa tolerância e diálogo, isto se dá em sociedades não islâmicas, onde são minoria, estando alijados do poder de mando, para perseguir e até matar qualquer um que falar algo negativo contra o seu profeta e religião.

Para contestar e refutar a pecha de intolerantes, não é incomum, apelarem para uma suposta e mitológica “era de ouro do islã”, ou “era de ouro da civilização islâmica”, que prezava pela tolerância e convivência pacíficas entre o islã, religião dos dominantes, e o cristianismo e outros credos, religião dos vencidos, em que estes viviam a plenitude de suas religiões e credos, sem serem importunados pelo poder estatal islâmico.

Eles também apelam para os poucos e duvidosos casos de tolerância muçulmana no mundo atual, fazendo dessas exceções à regra.

O presente texto focará no mito da idade de ouro, trazendo à baila as conclusões de historiadores que discordam da propaganda ideológica muçulmana de que no medievo, os muçulmanos eram exemplos de muita tolerância. Alguns desses historiadores também falará do mito de que os muçulmanos viveram uma era de ouro nas várias áreas do conhecimento. As citações finais atestarão o medíocre estado em que se encontram atualmente os países árabes nas ciências e educação. 

Para Mohamad Ballan, Ph.D em História Medieval e Islâmica na Universidade de Chicago, as coisas não foram bem assim. Ele escreve:

“[...] a ideia de uma ‘Idade de Ouro muçulmana’ é uma construção historiográfica. [...] Existem muitos problemas com essa perspectiva. [...] seu principal argumento de que o período entre o século VIII e o século XIII pode ser caracterizado principalmente pela tolerância, eflorescência cultural, unidade política e harmonia religiosa é contrário a muitos dos fatos que encontramos ao ler a história das várias civilizações que são incluída na categoria de ‘civilização islâmica’, uma frase que esconde a diversidade linguística, cultural, intelectual, teológica e política das terras em que os muçulmanos residiram durante os períodos medieval e início da modernidade. Isso para não falar do fato de que as narrativas promovidas por essas perspectivas da ‘Idade de Ouro’ costumam ser um retrabalho de histórias oficiais que não levam em consideração as realidades de grupos marginalizados durante o mesmo período. A perspectiva da ‘Idade de Ouro’ também é problemática porque é em muitos aspectos reacionária e uma resposta aos muitos desafios políticos, religiosos e intelectuais enfrentados pelo mundo muçulmano no período moderno.”

O historiador diz que a “idade de ouro islâmica” é pura ideologia, que não tem respaldo nos fatos históricos.

“A ênfase em uma ‘Idade de Ouro muçulmana’ é portanto, normalmente não com base em qualquer envolvimento abrangente com fontes históricas ou um desejo de descobrir a realidade real da história muçulmana medieval e do início da modernidade. Em sua essência, o projeto é puramente reacionário e busca fornecer aos muçulmanos a armadura ideológica de que precisam para resistir às críticas modernistas contra sua civilização. Infelizmente, no entanto, ao fazê-lo, o paradigma da ‘Idade de Ouro’ tende a submeter os fatos históricos a seus estreitos interesses ideológicos. Em outras palavras, as nuances da história e da civilização muçulmana são completamente obscurecidas em face de declarações amplas e abrangentes voltadas para enfatizar não apenas a retidão, mas até mesmo a supremacia absoluta da civilização muçulmana, como se acreditava ter se manifestado entre o século IX e o século XVIII. É nesse ponto que a história deixa de ser um esforço intelectual crítico e se torna polêmica e apologética.”

Discordo de algumas conclusões do autor no parágrafo final (não estou falando desses excertos postados). No entanto, o texto dele é muitíssimo bom. Vale dá uma conferida.

Muitos apologetas muçulmanos adoram dizer, que no reino de Andaluz, na Espanha, a tolerância religiosa para com os judeus e, também, cristãos, era política de estado. Uma idade de ouro da alteridade!

Mas a realidade se impõe sobre declarações fundadas mais em ideologia, e na ânsia de nos mostrar um islã do passado amigável, atraente e tolerante, do que na documentação existente, que desmente esse mito de que os judeus e cristãos viviam numa espécie de paraíso multirreligioso. O discurso muçulmano é exagerado e, infelizmente, muitas vezes, mentiroso.

Darío Fernández-Morera, Ph.D em Literatura Comparada na Universidade de Harvard, e autor do livro O Mito do Paraíso Andaluz: Muçulmanos, Cristãos e Judeus Sob o Domínio Islâmico na Espanha Medieval, contradiz todo esse discurso de tolerância islâmica fundado em um desejo de livrar o islã e os muçulmanos da pecha de intolerantes.

“Por quaisquer padrões objetivos, então, e apesar de suas realizações artísticas, literárias e científicas inegáveis e do pensamento moderno e desejoso de 'vamos todos nos dar bem' que tenta encobrir as evidências em contrário, a Espanha islâmica foi não é um modelo de harmonia multicultural. A Andaluzia foi assolada por conflitos religiosos, políticos e raciais controlados nos melhores tempos apenas pela aplicação de força tirânica. Suas conquistas são inseparáveis de sua turbulência.”

Richard Fletcher, Professor de História na Universidade de York, é categórico:

“O testemunho daqueles que viveram os horrores da conquista berbere, da fitnah [provação] andaluza no início do século XI, da invasão dos almorávidas - para citar apenas alguns episódios perturbadores - deve dar isto [isto é: a visão rosada de Espanha muçulmana] a mentira.

A verdade histórica simples e verificável é que a Espanha mourisca foi mais frequentemente uma terra de turbulência do que de tranquilidade. … Tolerância? Pergunte aos judeus de Granada que foram massacrados em 1066 ou aos cristãos que foram deportados pelos almorávidas para o Marrocos em 1126 (como os mouriscos cinco séculos depois). … Na segunda metade do século XX, surge um novo agente de ofuscamento: a culpa da consciência liberal, que vê os males do colonialismo - mais presumidos do que demonstrados - prenunciados na conquista cristã de al-Andalus e na perseguição de os mouriscos (mas não, estranhamente, na conquista e colonização mourisca). Misture bem a mistura e distribua-a gratuitamente para acadêmicos crédulos e pessoas da mídia em todo o mundo ocidental. Em seguida, derrame-o generosamente sobre a verdade ... nas condições culturais que prevalecem no Ocidente hoje, o passado deve ser comercializado e, para ser comercializado com sucesso, deve ser embalado de forma atraente. A Espanha medieval em estado natural carece de grande apelo. Fantasias auto-indulgentes de glamour ... fazem maravilhas para aguçar sua imagem. Mas a Espanha mourisca não foi uma sociedade tolerante e esclarecida, mesmo em sua época mais cultivada.”

A historiadora Gisèle Littman, conhecida por Bat Ye'or, faz coro, elencando um exército de fatos na Andaluzia, que faz evaporar a narrativa de uma sociedade exemplar quando o assunto é convivência pacífica e exemplar:

“Em 730, a Cerdagne (na Septimania, perto de Barcelona) foi devastada e um bispo foi queimado vivo. Nas regiões sob controle islâmico estável, judeus e cristãos eram tolerados como dhimmis - como em outros lugares em outras terras islâmicas - e não podiam construir novas igrejas ou sinagogas nem restaurar as antigas. Segregados em quartos especiais, eles tiveram que usar roupas discriminatórias. Sujeito a pesados impostos, o campesinato cristão formou uma classe servil ligada aos domínios árabes; muitos abandonaram suas terras e fugiram para as cidades. As duras represálias com mutilações e crucificações sancionariam os pedidos de ajuda dos reis cristãos aos moçárabes (dhimmis cristãos). Além disso, se um dhimmi prejudicasse um muçulmano, toda a comunidade perderia seu status de proteção, deixando-a aberta à pilhagem, escravidão e assassinato arbitrário.

[...]

A condição humilhante imposta aos dhimmis e o confisco de suas terras provocaram muitas revoltas, punidas com massacres, como em Toledo (761, 784-86, 797). Depois de outra revolta toledana em 806, setecentos habitantes foram executados. As insurreições eclodiram em Saragoça de 781 a 881, Córdoba (805), Mérida (805-813, 828 e no ano seguinte, e mais tarde em 868), e novamente em Toledo (811-819); os insurgentes foram crucificados, conforme prescrito no Alcorão 5: 33.

A revolta em Córdoba de 818 foi esmagada por três dias de massacres e pilhagem, com 300 notáveis crucificados e 20 000 famílias expulsas. O feuding era endêmico nas cidades andaluzas entre os diferentes setores da população: colonizadores árabes e berberes, convertidos muçulmanos ibéricos (Muwalladun) e dhimmis cristãos (moçárabes). Raramente houve períodos de paz no Amirato de Córdoba (756-912), nem depois.

Al-Andalus representou a terra da jihad por excelência. Todos os anos, às vezes duas vezes por ano, expedições de invasão eram enviadas para devastar os reinos cristãos espanhóis ao norte, as regiões bascas ou a França e o vale do Ródano, trazendo despojos e escravos. Os corsários andaluzes atacaram e invadiram ao longo das costas da Sicília e da Itália, até mesmo nas ilhas do Egeu, saqueando e queimando pelo caminho. Milhares de pessoas foram deportadas para a escravidão na Andaluzia, onde o califa mantinha uma milícia de dezenas de milhares de escravos cristãos trazidos de todas as partes da Europa cristã (os Saqaliba) e um harém cheio de mulheres cristãs capturadas. A sociedade foi fortemente dividida em linhas étnicas e religiosas, com as tribos árabes no topo da hierarquia, seguidas pelos berberes que nunca foram reconhecidos como iguais, apesar de sua islamização; mais abaixo na escala vinham os convertidos mullawadun e, na parte inferior, os cristãos e judeus dhimmi.

[...]

[...] bibliotecas inteiras de judeus e cristãos foram saqueados e destruídos. Outro proeminente jurista andaluz, Ibn Hazm de Córdoba (falecido em 1064), escreveu que Alá estabeleceu a propriedade dos infiéis de suas propriedades apenas para fornecer butim aos muçulmanos.

Em Granada, os vizires judeus Samuel Ibn Naghrela e seu filho Joseph, que protegiam a comunidade judaica, foram assassinados entre 1056 e 1066, seguidos pela aniquilação da população judaica pelos muçulmanos locais. Estima-se que cerca de cinco mil judeus morreram no pogrom de muçulmanos que acompanhou o assassinato de 1.066. Esse número é igual ou superior ao número de judeus supostamente mortos pelos cruzados durante a pilhagem da Renânia, cerca de trinta anos depois, no início da Primeira Cruzada.

O pogrom de Granada provavelmente foi incitado, em parte, pela amarga ode antijudaica de Abu Ishaq, um conhecido jurista e poeta muçulmano da época, que escreveu: 'Coloque-os de volta onde pertencem e reduza-os ao mais baixo dos mais baixos ... volte seus olhos para outros países [muçulmanos] e você descobrirá que os judeus são cães proscritos ... Não considere uma violação da fé matá-los ... Eles violaram nosso pacto com eles, então como você pode ser considerado culpado contra os violadores?'

Os muçulmanos berberes almóadas na Espanha e no norte da África (1130-1232) causaram enorme destruição tanto na população judaica quanto na cristã. Essa devastação - massacre, cativeiro e conversão forçada - foi descrita pelo cronista judeu Abraham Ibn Daud e pelo poeta Abraham Ibn Ezra. Suspeitando da sinceridade dos judeus convertidos ao islamismo, os “inquisidores” muçulmanos (isto é, anteriores a seus colegas cristãos espanhóis em três séculos) removeram as crianças dessas famílias, colocando-as aos cuidados de educadores muçulmanos. Maimônides, o renomado filósofo e médico, experimentou as perseguições almóada e teve que fugir de Córdoba com toda a família em 1148.

De fato, embora Maimônides seja freqüentemente referido como um modelo de realização judaica facilitado pelo governo esclarecido da Andaluzia, suas próprias palavras desmentem essa visão utópica do tratamento islâmico dos judeus: ‘... os árabes nos perseguiram severamente e passaram a ser nocivos e legislação discriminatória contra nós ... Nunca uma nação nos molestou, degradou, rebaixou e nos odiou tanto quanto...’.

[...]

A história sócio-política da Andaluzia foi caracterizada por uma dhimmitude particularmente opressiva que é completamente incompatível com as noções modernas de igualdade entre os indivíduos, independentemente da fé religiosa. No alvorecer do século 21, devemos insistir que os muçulmanos no Ocidente adotem padrões sociais pós-iluministas de igualdade, não ‘tolerância, abandonando para sempre sua hagiografia dos padrões brutais e discriminatórios praticados pelos juristas clássicos de Maliki dos ‘iluminados’ Andaluzia.”

Para se ufanarem ainda mais, os muçulmanos metidos a apologistas não se restringem a questão da tolerância, mas também, nas questões do intelecto e da ciência.

Em 2009, o então presidente Barack Obama, em um discurso falou sobre a dita “idade de ouro”, afirmando que o islã levou a luz do conhecimento para todo o mundo. Victor Davis Hanson, Ph.D em História Clássica na Universidade de Stanford, não subscreve as falas entusiasmadas dele:

“Em seu discurso na semana passada no Cairo, o presidente Obama proclamou que era um 'estudante de história'. Mas, apesar da imagem de Obama como intelectual formado pela Ivy League, ele carece de competência histórica tanto em fatos quanto em interpretação. … Obama… afirmou que 'o Islã... Carregou a luz do aprendizado por tantos séculos, abrindo caminho para o Renascimento e o Iluminismo da Europa'. [Na verdade] a cultura islâmica medieval ... teve pouco a ver com a redescoberta europeia dos valores clássicos gregos e latinos. Europeus, chineses e hindus, não muçulmanos, inventaram a maioria das descobertas que Obama atribuiu à inovação islâmica. ... Grande parte da Renascença, na verdade, foi mais baseada na fuga de séculos de estudiosos bizantinos de língua grega de Constantinopla para a Europa Ocidental para escapar da agressão dos turcos islâmicos.”

De acordo com Serge Trifkovic, Ph.D em História Moderna na Universidade de Southampton, Reino Unido, esse papo de “idade de ouro do islã” na área do conhecimento é um exagero.

“Para ser justo, o mito da idade de ouro do Islã tem um ponto de partida parcialmente válido: houve momentos no passado em que as sociedades muçulmanas atingiram níveis mais altos de civilização e cultura do que em outros momentos. Houve momentos em que algumas terras muçulmanas eram adequadas para um homem cultivado morar. Bagdá sob Harun ar-Rashid (apesar de suas bem documentadas probabilidades de matar cristãos e odiar judeus), ou Cordova muito brevemente sob Abd ar-Rahman no século X. Esses episódios isolados, nem longos nem típicos, são infinitamente invocados pelos apologistas e admiradores ocidentais do Islã.

[...]

Essa era foi marcada por, entre outras coisas, conquistas intelectuais. Vários pensadores e cientistas medievais que vivem sob o domínio islâmico, de modo algum todos eles ‘muçulmanos’ nominalmente ou substancialmente, desempenharam um papel útil de transmitir aos ocidentais frutos gregos, hindus e outros frutos do conhecimento pré-islâmico. Eles contribuíram para tornar Aristóteles conhecido na Europa cristã. Mas, ao fazer isso, estavam transmitindo o que eles mesmos haviam recebido de fontes não muçulmanas.

[...] o padrão que vemos repetidas vezes: os melhores muçulmanos, julgados por realizações intelectuais ou políticas, são geralmente os menos muçulmanos.

[...] Mas quando os pensadores foram longe demais em sua livre investigação sobre os segredos da natureza, prestando pouca atenção à autoridade do Alcorão, despertaram suspeitas dos governantes no norte da África e na Espanha, bem como no Oriente. Perseguição, exílio.

[...]  Do outro lado do Império, na Espanha, Averroës exerceu muita influência sobre pensadores judeus e cristãos com suas interpretações de Aristóteles. Embora fielmente fiel ao método de Aristóteles, ele encontrou o ‘principal motor’ aristotélico em Allah, a Primeira Causa universal. Seus escritos o levaram a desfavor político, e ele foi banido até pouco antes de sua morte, enquanto muitas de suas obras em lógica e metafísica haviam sido entregues às chamas.

[...] O problema de transformar essa lista de realizações intelectuais em uma era de ouro ‘islâmica’ convincente é que, o que quer que tenha florescido, o fez não por causa do Islã, mas apesar do Islã. Os muçulmanos invadiram as sociedades (persas, gregas, egípcias, bizantinas, sírias e judias) que possuíam sofisticação intelectual por direito próprio e falharam em destruir completamente suas culturas. Dar o crédito pelo que os remanescentes dessas culturas alcançaram é como creditar o Exército Vermelho pela sobrevivência de Chopin em Varsóvia em 1970! O Islã em si nunca encorajou a ciência, no sentido de uma investigação desinteressada, porque o único conhecimento que ele aceita é o conhecimento religioso.

Como Bernard Lewis explica em seu livro O que deu errado? o império muçulmano herdou ‘o conhecimento e as habilidades do antigo Oriente Médio, da Grécia e da Pérsia; acrescentou-lhes inovações novas e importantes de fora, como a fabricação de papel da China e a numeração posicional decimal da Índia’. Os números decimais foram assim transmitidos para o Ocidente, onde ainda são erroneamente conhecidos como números 'árabes', honrando não seus inventores, mas seus transmissores.

Além disso, as realizações intelectuais da ‘era de ouro’ do Islã eram de valor limitado. Havia muita especulação e pouca aplicação, seja em tecnologia ou política.”

Régine Pernoud, Historiadora e Ph.D em Letras na Ècole Nationale des Chartes, que trabalhou durante décadas como arquivista, chafurdando antigos documentos empoeirados da idade medieval, atesta o seguinte:

“Esquecemos frequentemente estes pormenores quando se trata das traduções de Aristóteles, que os filósofos árabes fizeram, em seguida, na Espanha; jamais teriam podido empreender semelhante empreendimento em Sevilha, como houvessem encontrado aí as bibliotecas que haviam conservado as obras de Aristóteles, e isto bem antes da invasão, ou seja, para a Espanha, antes do século VIII. A ciência e o pensamento árabes não fizeram mais do que aprofundar-se nas fontes preexistentes, a dos manuscritos que permitiram este conhecimento de Aristóteles e de outros escritores antigos. Seria um verdadeiro absurdo supor o contrário, como, aliás, se fez. A culpa é dos nossos livros escolares que mencionam Avicena e Averróis, mas passam completamente por cima de Isidoro de Sevilha. Jacques Fontaine chamou atenção sobre o fato de que, em arquitetura, o arco otomano, que se atribui geralmente aos árabes, existia há mais de cem anos antes de sua eclosão nesta Espanha ‘visigótica’, que ele tão bem estudou.” P. 50.

PERNOUD, Régine. Idade Média: O Que Não Nos Ensinaram. São Paulo: Linotipo Digital, 2016. (PDF).

Houve realizações importantes de fato, nas antigas cidades islâmicas do medievo, mas elas ficaram para trás. Os países muçulmanos atuais estão em péssimas condições no quesito educação, tecnologia e ciência. Os países ricos e modernos dos Emirados Árabes e a própria Arábia Saudita dependem quase que exclusivamente da importação de tecnologia e ciência do “satânico” ocidente judaico-cristão.

Asad Q. Ahmed, Ph.D em História Islâmica na Universidade de Princeton, nos revela a seguinte situação:

“[...] o estado da ciência e das disciplinas racionalistas no mundo muçulmano contemporâneo é geralmente lamentável e que é um desiderato da máxima urgência que a situação seja remediada.”

Bernard Lewis, Professor de História na Universidade de Princeton, diz que:

“Na Arábia Saudita, as universidades surgiram mais tarde, e em pequeno número. Atualmente, para uma população estimada em 21 milhões, há oito universidades – uma a mais que as sete instituições de ensino superior criadas pelos palestinos desde a ocupação dos territórios por Israel em 1967. ” P. 67.

"Segundo todos os indicadores das Nações Unidas, do Banco Mundial e de outras autoridades, os países árabes – em questões como geração de empregos, educação, tecnologia e produtividade – estão ficando cada vez mais para trás do Ocidente." P. 110.

Na página 112, Lewis traz estes dados:


LEWIS, Bernard. A Crise do Islã: Guerra Santa e Terror Profano. Rio de Janeiro: Zahar, 2004.

Paul Balta, que dirigente do Centro de Estudos Orientais Contemporâneos na Universidade de Sorbonne, na França, reconhece: 

"Um dos mais graves problemas que continuam a se impor em grande parte dos países muçulmanos é o do ensino inspirado pelo método corânico e fundamentado em sua aprendizagem decorada. Unicamente nos países árabes, em 2005, cerca de 50% das mulheres e 30% dos homens eram analfabetos. Um relatório da Organização da Liga Árabe para a Educação, Cultura e Ciências (ALECSO), estabelecida no final da década de 1990, afirma que ‘os programas educacionais, em vários casos, não correspondem nem às necessidades da sociedade árabe, nem às exigências de seu desenvolvimento. De maneira semelhante, não conduzem à formação do espírito crítico, científico e democrático’.

A partir de então, a situação não melhorou em nada. O segundo relatório do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) sobre o mundo árabe toca as trombetas de alarme. Redigido por intelectuais árabes e publicado em 2004, ele salienta a existência de ‘grandes deficiências’ e apresenta uma longa lista de atrasos, principalmente os seguintes: acumulação de conhecimentos medíocres, fraqueza da capacidade de análise, falta de espírito criativo e de abertura para o mundo, ausência de pesquisas fundamentais. Recomenda, portanto, que se restabeleçam os liames com o espírito da ‘idade de ouro’ [que não existiu] do islamismo para se reencontrar a modernidade perdida.” P. 31-32.

BALTA, Paul. Islã: Uma Breve Introdução. Porto Alegre/RS: L&PM Editores, 2010. (PDF).

Gottfried Brakemeier, Ph.D em Teologia na Universidade de Gotinga, Alemanha, que devota grande reconhecimento ao legado islâmico, escreve que:

"[...] a ciência muçulmana estagnou. Atualmente, a relação entre ciência e religião islâmica parece carecer de nova definição. Há quem diga que ‘o islã e a ciência continuam a ser zonas de discursos separados e não sobrepostos para a maioria dos muçulmanos, mesmo para os cientistas muçulmanos”. P. 14.

BRAKEMEIER, Gottfried. Ciência ou Religião: Quem Vai Conduzir a História? São Leopoldo: Sinodal, 2006.

Muçulmanos mais sofisticados dizem que o mito é criação dos orientalistas do século 18-19, para justificar o imperialismo europeu, e que muitos muçulmanos compraram essa ideia errônea, visto que nunca houve declínio algum da civilização islâmica.

Entretanto, há de convirmos que as sociedades islâmicas dos últimos séculos estão muito longe do que elas foram na idade medieval, que produziu escritos importantes e relevantes, mesmo que os seus avanços tenham sido apesar do islã, e não por causa dele. E que tais avanços por mais interessantes e pertinentes que fossem, passam longe de evidenciar uma “idade de ouro”.

Não preciso nem falar da questão da tolerância religiosa, que no máximo aceitava a existência do outro, mas não a sua legitimidade, descambando muitas vezes em cruéis atos de perseguição e mortes. O que não era nada fora do padrão estabelecido por Maomé e seus primeiros seguidores.  

terça-feira, 27 de abril de 2021

O Islã Prescreve o Apedrejamento Para Adúlteros? (1° Parte)

A religião do islã é frequentemente acusada de apoiar o apedrejamento por adultério. Se isso for verdade, seria mais uma prova cabal de que esse sistema religioso não é e nunca foi da paz, como se propaga tão fortemente por aí. Se essa religião preconiza em seus ensinos que pessoas que fazem sexo fora dos padrões estabelecidos por ela, devem e têm que ser mortas por tal “pecado”, ela será apenas mais um sistema totalitário e assassino, mostrando mais uma vez a sua face intrinsecamente violenta e em total desacordo com os valores mais elevados de tolerância, diversidade, paz e dignidade humana.

Mas então, o adultério é ou não é um crime que mereça pena capital na sharia islâmica? Há respaldo escriturístico no alcorão?

A revista Aventuras na História na matéria A Verdadeira Posição do Islamismo em Relação a Cruel Prática de Apedrejamentos, nega que o islã e sobretudo o alcorão exijam o apedrejamento para adúlteros. A revista pode ser acessada neste link:

Aventuras na História afirma:

“A pena de morte por apedrejamento para praticantes do adultério público (ou seja, com testemunhas e de conhecimento social) não consta no Corão, e tampouco é destinado apenas para as mulheres.”

É preciso dizer logo de cara, que essa revista não é nada confiável. É vergonhoso o quanto ela dissimula a realidade para defender uma religião tão intolerante e, que para piorar, esse mesmo sistema religioso não seria nada condescendente com boa parte do conteúdo que ela veicula, por não estar coadunado com a sharia (lei) islâmica. Ah, mas independentemente de qualquer coisa, a revista está compromissada com a verdade dos fatos, alguém pode afirmar. No entanto, infelizmente, não está.

A afirmação de que o Alcorão, livro sagrado dos muçulmanos, não prescreve/ordena o apedrejamento aos adúlteros, é verdadeira. Entretanto, essa não é toda história. A revista quer passar para os seus leitores a ideia de que no islã não existe essas práticas retrogradas e cruéis para os filhos rebeldes da religião. Porém, o que a matéria convenientemente deixa passar, é que o Alcorão na surata 24.2 diz que os adúlteros devem ser açoitados.

“À adúltera e ao adúltero açoitai a cada um deles com cem açoites. E que não vos tome compaixão alguma por eles, no cumprimento do juízo de Allah, se credes em Allah e no Derradeiro Dia. E que um grupo de crentes testemunhe o castigo de ambos.” P. 372.

100 açoites para cada um! Tem como afirmar diante de uma prática tão bárbara, que essa é a religião da paz? Mas a revista Aventuras na História passou longe de mencionar esse texto.

Quanto ao apedrejamento, olha que curioso o que o autor dessa tradução citada, o muçulmano Helmi NASR, professor de Estudos Árabes na USP, escreveu na nota de rodapé, sobre o verso dos açoites:

“Trata-se do adultério cometido entre pessoas não comprometidas pelo casamento, já que, o adultério cometido após este, é punido com apedrejamento.” P. 372.

Ou seja, ele não nega que existe a punição por apedrejamento no islã. Ele não é voz isolada nisso, muito pelo contrário, fala pela comunidade muçulmana majoritária. Voz isolada e vendida a dissimulação é essa revista.

Tradução do Sentido Nobre do Alcorão. 2ª Edição. Dr. Helmi NASR, Professor de Estudos Árabes e Islâmicos na Universidade de São Paulo.

A tradução do texto corânico publicado pelo Centro Cultural Beneficente Árabe Islâmico de Foz do Iguaçu, diz assim:

“Quanto à adúltera e ao adúltero, vergastai-os com cem vergastadas, cada um; que a vossa compaixão não vos demova de cumprir a lei de Deus, se realmente credes em Deus e no Dia do Juízo Final. Que uma parte dos fiéis testemunhe o castigo.” P. 299.

Olha outra coisa bem curiosa. Em nota explicativa, os muçulmanos desse centro islâmico dizem:

“A punição deve ser pública, para que seja dissuasiva.” P. 808.

Em miúdos, muçulmanos adúlteros devem apanhar em público, para que a sua humilhação sirva de exemplo para que os outros não caiam nesse grave pecado, e também sejam publicamente humilhados e dilacerados pelos açoites. Essa é a religião da paz e da tolerância, diz a mídia. 

Para comentar outro verso corânico, eles usam a surata 24.2 como texto prova de que ao adúltero cabe os 100 açoites, sem piedade alguma. E falam também no apedrejamento.

“A punição, nesta vida, para a falta de castidade de uma mulher casa é muito severa: para adultério, açoitamento em público de cem açoites, segundo o versículo 2 da 24ª Surata; ou para impudícia, a prisão (ver o versículo 15 da 4ª Surata); ou o apedrejamento até à morte, para o adultério, de acordo com certos precedentes estabelecidos no Direito Canônico.” P. 874.

O alcorão na surata 4.15 assim versa:

“Quanto àquelas, dentre vossas mulheres, que tenham incorrido em adultério, apelai para quatro testemunhas, dentre os vossos e, se estas o confirmarem, confinai-as em suas casas, até que lhes chegue a morte ou que Deus lhes trace um novo destino.” P. 82

Nota explicativa que o centro islâmico fornece para ele:

“A maioria dos jurisprudentes compreende que isto se refere ao adultério ou à fornicação; tal caso, eles consideram que a punição foi alterada para cem açoites, de acordo com o versículo 2 da 24ª Surata.” P. 608.

De acordo com os intérpretes muçulmanos, a punição para a surata acima foi ab-rogada, dando lugar aos 100 açoites! Quanta “afetuosidade” alá tem pelos seus! Ele “amorosamente” trocou o confinamento das mulheres em suas casas até a morte, pelas 100 “míseras” vergastadas (açoites) sem compaixão.

Pergunto: Que parte tem o islã com a paz e os direitos humanos?

Na tradução de Challita Mansour, o verso 24.2 está assim:

“A adúltera e o adúltero, castigai cada um deles com cem açoites; e não tenhais pena deles na religião de Deus se credes em Deus e no último dia.  E que um grupo de crentes assista ao castigo.” P. 184.

“Não tenhais pena deles” – Essa é a religião da misericórdia?

Portanto, diante das provas mostradas, por mais que o alcorão não ensine explicitamente o apedrejamento, ele deixa claro o açoitamento, uma prática bárbara e cruel por si mesma, que qualquer pessoa racional, de prontidão rejeitará veementemente, classificando o islã como incompatível com os ideais de empatia, alteridade, tolerância, liberdade e etc. 

Todavia, não paramos por aqui. A religião islâmica não está somente ancorada no seu livro sagrado. Ela também está alicerçada na tradição, nos hadiths, que são as narrativas do que Maomé fez e ensinou. A coleção canônica de hadiths mais confiável é a de Bukhari, e ela diz claramente o que Maomé fez com aqueles pegos em adultério: O apedrejamento.

Al-Bukhari - Volume 2, Livro 23, Número 413:

“Narrado 'Abdullah bin' Umar: O judeu trouxe ao Profeta um homem e uma mulher dentre eles que cometeram (adultério) relação sexual ilegal. Ele ordenou que os dois fossem apedrejados (até a morte), perto do local de oferecer as orações fúnebres ao lado da mesquita." P. 304.

Al-Bukhari - Volume 3, Livro 34, Número 421:

“Narrou 'Aisha: Sad bin Abi Waqqas e 'Abu bin Zam'a brigaram por causa de um menino. Sad disse: ‘Ó Deus do Apóstolo! Este menino é filho do meu irmão ('Utba bin Abi Waqqas) que recebeu uma promessa minha de que eu aceitaria ele como se fosse seu filho (ilegal). Olhe para ele e veja com quem ele se parece. ‘'Abu bin Zam'a disse: ‘Ó Apóstolo de Alá ! Este é meu irmão e nasceu na cama de meu pai de sua escrava.’ O Apóstolo de Alá lançou um olhar para o menino e encontrou uma semelhança definitiva com 'Utba e então disse: ‘O menino é para você, ó 'Abu bin Zam'a. A criança vai até o dono da cama e o adúltero só ganha as pedras (desespero, ou seja, ser apedrejado até a morte). Então o Profeta disse: ‘Ó Sauda bint Zama! Proteja-se de este menino.’ Então, Sauda nunca mais o viu.” P. 498.

Al-Bukhari - Volume 3, Livro 49, Número 860:

“Narrou Abu Huraira e Zaid bin Khalid Al-Juhani: Um beduíno veio e disse: ‘Ó Apóstolo de Allah! Julgue entre nós de acordo com as Leis de Allah.’ O oponente dele levantou-se e disse: ‘Ele está certo. Julgue entre nós de acordo com as Leis de Alá.’ O beduíno disse, ‘Meu filho era um trabalhador braçal que trabalhava para este homem, e ele cometeu relações sexuais ilegais com sua esposa. As pessoas me disseram que meu filho deveria ser apedrejado até a morte; então, em vez disso, paguei um resgate de cem ovelhas e uma escrava para salvar meu filho. Então eu perguntei aos estudiosos eruditos que disseram: ‘Seu filho tem que receber cem chicotadas e tem que ser exilado por um ano.’ O Profeta disse: ‘Sem dúvida vou julgar entre vocês de acordo com as Leis de Alá. A escrava e as ovelhas devem voltar para você, e seu filho receberá cem chibatadas e um ano de exílio.’ Ele então se dirigiu a alguém: ‘Ó Unais! vá até a esposa deste (homem) e apedreje-a até a morte.’ Então, Unais foi e apedrejou até a morte.” P. 616.

Al-Bukhari - Volume 4, Livro 56, Número 829:

“Narrado 'Abdullah bin' Umar: Os judeus foram até o Apóstolo de Alá e disseram-lhe que um homem e uma mulher dentre eles cometeu relações sexuais ilegais. O Apóstolo de Alá disse a eles: ‘O que você encontra na Torá (Antigo Testamento) sobre a punição legal de Ar-Rajm (apedrejamento)? ‘Eles responderam: (Mas) nós anunciamos seu crime e açoitá-los’. Abdullah bin Salam disse: ‘Você está mentindo; Torá contém a ordem de Rajm. ‘Eles trouxeram e abriram a Torá e um deles consolou sua mão no Versículo de Rajm e leu os versículos anteriores e posteriores. Abdullah bin Salam disse a ele: ‘Levante a mão’. Quando ele levantou a mão, o versículo de Rajm estava escrito lá. Eles disseram: ‘Muhammad disse a verdade; a Torá tem o versículo de Rajm. O Profeta então deu a ordem de que ambos deveriam ser apedrejados até a morte. ('Abdullah bin' Umar disse: ‘Eu vi o homem inclinado sobre a mulher para abrigá-la das pedras’.” P. 847.

Sahih Bukhari - Translator: M. Muhsin Khan - 1st edition. Edited by: Mika'il al-Almany. Created: 2009-10-02 17:41:54. Last modified: 2009-10-11 23:46:24 Version: 0910112346244624-21.

https://d1.islamhouse.com/data/en/ih_books/single/en_Sahih_Al-Bukhari.pdf

Como aporte a negação do apedrejamento, Aventuras na História afirma que a maioria dos países muçulmanos não o pratica, então, conclui "brilhantemente" que as pedradas nos pecadores sexuais não é um ensinamento do islã.

“Uma prova de que essa não é uma prática inerente ao Islã é o fato de que, dos mais de cinquenta países muçulmanos no mundo, apenas sete ainda possuem essa pena retrógrada.”

O apedrejamento é parte das correções válidas para o muçulmano até hoje. Se ele não é largamente praticado, isso é outra história. Maomé e os seus discípulos praticaram, e não existe indicativo algum de que Maomé o proibiu posteriormente. O fato de uma maioria religiosa não praticar alguns dos ditames de sua religião hoje em dia, não quer dizer que eles foram revogados, proibidos, ou substituídos. Na realidade, acontece exatamente o contrário na maioria das vezes: os fiéis é que deixam de lado os ensinos de sua religião. Um exemplo bem patente é o sexo fora do casamento entre os cristãos. Isso diz algo sobre a proibição do sexo antes do matrimônio não ser mais válida? Absolutamente que não. Apenas os cristãos de um modo geral desobedecem a esse mandamento. De maneira similar, se os muçulmanos não praticam o apedrejamento como antes, é porque estão em desarmonia com os ensinos de sua religião.

Acrescento ainda que se o critério usado pela revista de que o apedrejamento “não é inerente ao islã” pelo fato de a maioria dos países muçulmanos não o praticar, então a revista pelos mesmos critérios que adota, deve admitir de prontidão que os crimes contra as mulheres que são inferiorizadas, sem liberdades, assassinadas; e de perseguição aos cristãos e outros religiosos; fora tantas outras atitudes contra os direitos humanos são parte inerente do islã, visto que são práticas rotineiras nas sociedades islâmicas. Duvido que ela admita isso. E infelizmente é triste saber que todos esses componentes de fato são parte dos ensinamentos do islã.

E são apenas sete países que praticam o apedrejamento, como diz a revista? Não.

“Nos últimos tempos, o apedrejamento tem sido uma punição legal ou costumeira no Irã, Emirados Árabes Unidos, Iraque, Qatar, Mauritânia, Arábia Saudita, Somália, Sudão, Iêmen, norte da Nigéria, Afeganistão, Brunei e partes tribais do Paquistão, incluindo o noroeste de Kurram Valley e a região noroeste de Khwezai-Baezai.”

O apedrejamento é apenas uma das punições que existe no islã. Como já foi demonstrado, as chicotadas fazem parte do time também. Fora a pena de morte para os apóstatas, e tantas outras mais.

Uma outra prova que Aventuras na História lança para sua defesa do islã é esta:

“A maioria do clero islâmico mundial repudia o apedrejamento hoje em dia.”

Mesmo que isso fosse verdadeiro, não anularia os mandamentos da religião que estão muito bem fundamentados na vida de Maomé e na teologia islâmica histórica. E duvido muito que esses clérigos islâmicos estejam falando a verdade. Líderes islâmicos são notórios em dizer X ao público de fora, para aplacar a opinião pública, mas entre os seus, dizerem exatamente o oposto. A Taquyia, mentira sagrada para propagação do islã, é largamente difundida entre eles. Mentem, omitem e dissimulam!  

Segundo a revista, quem lê o alcorão e encontra apoio para o apedrejamento, na realidade está impondo os seus desejos nefastos ao texto, visto que ele não ensina isso.

“Quando o Corão ou a Bíblia legitimam tal prática, é resultado do ímpeto daquele que lê, e culpar a religião isoladamente é um recurso pueril.”

Diante de toda a refutação exposada, o único “recurso pueril” vem dessa revista, que deve ser lida com muita cautela, pois não tem compromisso com a verdade, ao contrário do que diz a sua matéria. O comprometimento dela é com a estupidez do politicamente correto, que nada mais é que ideologia, sem respaldo nos fatos. 

Essa revista além de mentirosa, é incompetente, pois no final de sua matéria, entre as indicações de livros sobre o islamismo, ela indica a obra Entenda o Islã, da Christine Schirrmacher, uma expert em islã, que mostra de cabo a rabo nesse livro, o quanto o islã é opressivo e violento, sobretudo com as mulheres. 

segunda-feira, 26 de abril de 2021

Manifesto do Partido Comunista



ENGELS, Friedrich; MARX, Karl. Manifesto do Partido Comunista. 2ª Ed. Portugal, Lisboa: Avante, 1997. (PDF).

“Anda um espectro pela Europa — o espectro do Comunismo.” 

Karl Marx desperta paixões! Desperta amor! Desperta ódio!

Muitos desejam que ele esteja no lugar mais quente do inferno. Motivo? Suas ideias que serviram de inspiração para os governos comunistas/socialistas do século XX, que redundaram no mais pleno fiasco, tendo a URSS o seu maior exemplo de fracasso, e, o pior, a morte de milhões e milhões de pessoas. Fora a total falta de liberdade de expressão, impressa, ideias, religião e locomoção. Os que odeiam Marx podem ainda citar os atuais governos comunistas da Coreia do Norte e Cuba, sobretudo o primeiro, onde reina o caos, a fome, os assassinatos e toda sorte de malefícios aos seus cidadãos.

Na contramão, não são poucos os que idolatram o velhinho de barba do século XIX. Professores nas cátedras de humanas, estão aos montes, para celebrar Marx e o seu “materialismo histórico”, que dizem ser o maior empreendimento intelectual para entender e dar sentido a todos os processos históricos, que estão assentados na infraestrutura econômica, de onde emerge a superestrutura (filosofia, religião, ideias). Uns ainda sonham com o utópico paraíso comunista, em que a sociedade como um todo, estará plenamente assentada na igualdade social, inexistindo as antigas relações de opressores (burguesia) e oprimidos (proletários).  

Karl Marx (1818-18830 foi um autor prolífico. Sua obra é vasta e complexa, onde poucos se atrevem a ler o seu mais monumental livro – O Capital. Nesses dois times de detratores e fãs, poucos foram aqueles que leram pelo menos metade de seus escritos, sobretudo O Capital, que não é uma obra fácil e atraente de ler, além de ser muito extensa, com mais de duas mil e quinhentas páginas! Quem é o maluco para se aventurar? Eu que não me arrisco. Prefiro ler o Manifesto do Partido Comunista e outras obras que comentam, interpretam, desvelam o pensamento de Marx e de seu companheiro intelectual Friedrich Engels (1820-1895), seja criticando, ou elogiando, ou tentando ser neutra. Muitos críticos e entusiastas de Marx, nem isso fazem. Ficam nos pequenos vídeos de cinco, dez, quinze minutos...

Em todo caso, aqui estamos no Manifesto. Este opúsculo foi lançado em 1848. Teve ainda no século XIX, diversas traduções e reedições nos vários países europeus e na América do Norte, sendo um sucesso entre os movimentos proletários, germinando as ideias que viriam a configurar o arcabouço intelectual do comunismo e, de como ele suplantaria o capitalismo burguês, dando lugar a sociedade sem classes, mais justa e igualitária.

O Manifesto começa com um ar triunfal:

“Anda um espectro pela Europa — o espectro do Comunismo. Todos os poderes da velha Europa se aliaram para uma santa caçada a este espectro, o papa e o tsar, Metternich e Guizot, radicais franceses e polícias alemães. [...] O comunismo já é reconhecido por todos os poderes europeus como um poder. Já é tempo de os comunistas exporem abertamente perante o mundo inteiro o seu modo de ver, os seus objectivos, as suas tendências, e de contraporem à lenda * do espectro do comunismo um Manifesto do próprio partido.” P. 28.

Marx e Engels dizem que a burguesia rompeu com todos os laços medievais, destruindo todas as relações então existentes. Aquele ambiente bucólico da Idade Média tinha se desfeito sem pudor. O valor de troca, o comércio, desbancaram sem piedade os laços que prendiam o homem do campo aos seus senhores naturais. A burguesia causou um racha sem volta e inexorável nas formas de viver e ver o mundo. As relações de produção foram irredutivelmente modificadas, dando lugar ao novo social, e, com ele, a um novo antagonismo entre as classes dos opressores e oprimidos. Os enganos vindos da religião e a política agora eram abertos, sem subterfúgios. O que era sagrado a burguesia dessacralizou. Tudo era movido por dinheiro e pelo dinheiro.

“Numa palavra, no lugar da exploração encoberta com ilusões políticas e religiosas, pôs a exploração seca, directa, despudorada, aberta.

A burguesia despiu da sua aparência sagrada todas as atividades até aqui veneráveis e consideradas com pia reverência. Transformou o médico, o jurista, o padre, o poeta, o homem de ciência em trabalhadores assalariados pagos por ela.

A burguesia arrancou à relação familiar o seu comovente véu sentimental e reduziu-a a uma pura relação de dinheiro.” P. 32.

Com o boom da revolução industrial, a ascensão cada vez mais evidente da burguesia e a desenfreada produção cada vez mais gigantes de produtos, estes tinham ser vendidos, escoados, postos à disposição de compradores, não apenas na Europa, mas em cada recanto do planeta.

“A necessidade de um escoamento sempre mais extenso para os seus produtos persegue a burguesia por todo o globo terrestre. Tem de se implantar em toda a parte, instalar-se em toda a parte, estabelecer contactos em toda a parte.” P. 32-33.

“As relações burguesas tornaram-se demasiado estreitas para conterem a riqueza por elas gerada. — E como triunfa a burguesia das crises? Por um lado, pela aniquilação forçada de uma massa de forças produtivas; por outro lado, pela conquista de novos mercados e pela exploração mais profunda de antigos mercados.” P. 35.

Como o sistema capitalista aí está, mais forte do que nunca, esse escoamento continua numa proporção jamais imaginada por Marx e Engels. Com a era dos eletrônicos, somos constantemente “obrigados” a trocar de celulares, televisores, notebooks, tablets e outras parafernálias digitais, todos os anos. Isso sem falar em carros, roupas... As empresas para sobreviverem, precisam estar dissimulando a todo momento, novas necessidades para vender e não ficarem para trás e falirem. Isto é uma bola de neve, pois se falirem, muitos ficarão sem empregos. Portanto, para que tudo funcione “direitinho” é preciso colocar no mercado produtos atraentes que escoem o mais rápido possível. Estamos presos em uma teia inescapável. Sem o consumo exagerado, o mundo vai à bancarrota. É salutar para o empresariado, convencer as pessoas de que elas precisam de seus produtos inovadores, para que daí possam ser gente de verdade, descoladas, alinhadas com a moda, com o que o mundo tem de melhor. Essa psicologia barata tem dado certo. É aquele velho clichê de que na sociedade capitalista, as pessoas serão vistas pelo que tem, e não pelo que são.

A dupla dinâmica escreve:

“Para o lugar das velhas necessidades, satisfeitas por artigos do país, entram [necessidades] novas que exigem para a sua satisfação os produtos dos países e dos climas mais longínquos. Para o lugar da velha auto-suficiência e do velho isolamento locais e nacionais, entram um intercâmbio omnilateral, uma dependência das nações umas das outras. E tal como na produção material, assim também na produção espiritual. Os artigos espirituais das nações singulares tornam-se bem comum. A unilateralidade e estreiteza nacionais tornam-se cada vez mais impossíveis, e das muitas literaturas nacionais e locais forma-se uma literatura mundial.

A burguesia, pelo rápido melhoramento de todos os instrumentos de produção, pelas comunicações infinitamente facilitadas, arrasta todas as nações, mesmo as mais bárbaras, para a civilização. Os preços baratos das suas mercadorias são a artilharia pesada com que deita por terra todas as muralhas da China, com que força à capitulação o mais obstinado ódio dos bárbaros ao estrangeiro. Compele todas as nações a apropriarem o modo de produção da burguesia, se não quiserem arruinar-se; compele-as a introduzirem no seu seio a chamada civilização, i. é, a tornarem-se burguesas. Numa palavra, ela cria para si um mundo à sua própria imagem.” P. 33.

Quando eles falam da China, não tem como não lembrar do que as potências capitalistas fizeram a ela no século XIX, com as Guerras do Ópio (1839-1842, 1856-1860) que forçaram a China a abrir cinco de seus portos para a Inglaterra e outros países, e a entregar a ilha de Hong Kong aos britânicos. Era o “livre comércio” sendo imposto na base do cacete. Não bastando, ainda teve a Guerra dos Boxers, em que a Inglaterra, Rússia, França, Japão, Estados Unidos e Alemanha, invadiram a China obrigando o país a reconhecer de uma vez por todas, as concessões de que gozavam as potencias imperialistas. A ironia macabra disso tudo, é que atualmente a China está tomando conta de tudo, chegando em breve a ser a maior economia e potência mundial, comprando ações, universidades, países, impondo sua ética política, subjugando vários setores do mundo ocidental e não ocidental. O Ocidente está pagando pelos pecados de outrora?

Com a burguesia tomando conta de todos os setores de produção e venda, além dos proletários das fábricas, ela tinha os seus contestadores entre os pequenos comerciantes, camponeses... Mas Marx e Engels chegam a prever que apesar de ainda de serem reacionários, finalmente serão absorvidos na grande massa de proletários, rumo a sociedade comunista.  

“Os estados médios [Mittelstände] — o pequeno industrial, o pequeno comerciante, o artesão, o camponês —, todos eles combatem a burguesia para assegurar, face ao declínio, a sua existência como estados médios. Não são, pois, revolucionários, mas conservadores. Mais ainda, são reaccionários, procuram fazer andar para trás a roda da história. Se são revolucionários, são-no apenas à luz da sua iminente passagem para o proletariado, e assim não defendem os seus interesses presentes, mas os futuros, e assim abandonam a sua posição própria para se colocarem na do proletariado.” P. 39.

A dupla Batman e Robbin afirma que o modo de pensar do proletariado é totalmente distinto dos pensamentos, ética, moral e justiça dos opressores da classe dominante. A destruição da superestrutura em todas as suas facetas burguesas deve ser colocada abaixo, para que dela surja a nova sociedade. É uma ruptura total com as verdades ditas eternas legadas pela burguesia e pelas sociedades anteriores, onde sempre foi regra a opressão de uma parte por outra. Primeiro começa-se a luta proletária em seus respectivos países, para depois irromper-se pelo mundo. Para isto acontecer, a violência é um caminho legítimo.

“As leis, a moral, a religião são para ele outros tantos preconceitos burgueses, atrás dos quais se escondem outros tantos interesses burgueses. [...] Os proletários nada têm de seu a assegurar, têm sim de destruir todas as seguranças privadas e asseguramentos privados. [...] O proletariado, a camada mais baixa da sociedade actual, não pode elevar-se, não pode endireitar-se, sem fazer ir pelos ares toda a superestrutura [Überbau] das camadas que formam a sociedade oficial. [...] Ao traçarmos as fases mais gerais do desenvolvimento do proletariado, seguimos de perto a guerra civil mais ou menos oculta no seio da sociedade existente até ao ponto em que rebenta numa revolução aberta e o proletariado, pelo derrube violento da burguesia, funda a sua dominação.” P. 40.

“À medida que é suprimida a exploração de um indivíduo por outro, é suprimida a exploração de uma nação por outra. [...] Será preciso uma inteligência profunda para compreender que com as relações de vida dos homens, com as suas ligações sociais, com a sua existência social, mudam também as suas representações, intuições e conceitos, numa palavra, [muda] também a sua consciência?” P. 48.

“A revolução comunista é a ruptura mais radical com as relações de propriedade legadas; não admira que no curso do seu desenvolvimento se rompa da maneira mais radical com as ideias legadas.” P. 49.

“Para o lugar da velha sociedade burguesa com as suas classes e oposições de classes entra uma associação em que o livre desenvolvimento de cada um é a condição para o livre desenvolvimento de todos.” P. 51.

Neste aspecto é que recaem muitas críticas a Marx, devido aos seus desejos(?) de solapar tudo que tinha sido construído até então pela civilização ocidental: seus valores que regulam a civilização. “Derrube violento da burguesia” – Não era difícil um proletário pensar assim, diante das agruras que sofria nas fábricas insalubres em que trabalhava que nem um animal, por horas a fio, para ganhar um salário miserável, que dava apenas para mal se alimentar e enriquecer os seus patrões. Eu não teria piedade alguma. 

O declínio da burguesa e poder nas mãos do proletário chegaria muito em breve. Essa é uma das “profecias” de Marx que mais causa riso em seus críticos, pois como sabemos, ela não se confirmou.

“Torna-se com isto evidente que a burguesia é incapaz de continuar a ser por muito mais tempo a classe dominante da sociedade e a impor à sociedade como lei reguladora as condições de vida da sua classe. Ela é incapaz de dominar porque é incapaz de assegurar ao seu escravo a própria existência no seio da escravidão, porque é obrigada a deixá-lo afundar-se numa situação em que tem de ser ela a alimentá-lo, em vez de ser alimentada por ele. A sociedade não pode mais viver sob ela [ou seja, sob a dominação da burguesia], i. é, a vida desta já não é compatível com a sociedade.

A condição essencial para a existência e para a dominação da classe burguesa é a acumulação da riqueza nas mãos de privados, a formação e multiplicação do capital; a condição do capital é o trabalho assalariado. O trabalho assalariado repousa exclusivamente na concorrência entre os operários. O progresso da indústria, de que a burguesia é portadora, involuntária e sem resistência, coloca no lugar do isolamento dos operários pela concorrência a sua união revolucionária pela associação. Com o desenvolvimento da grande indústria é retirada debaixo dos pés da burguesia a própria base sobre que ela produz e se apropria dos produtos. Ela produz, antes do mais, o seu  próprio coveiro. O seu declínio e a vitória do proletariado são igualmente inevitáveis.” P. 41.

Em uma das citações anteriores, Marx/Engels falam sobre o proletariado “destruir todas as seguranças privadas e asseguramentos privados.” O que eles queriam dizer com isso? Muito se fala que Marx era contra a propriedade privada, e queria a sua total abolição. O Manifesto explica o que ele quis dizer com isso.

“Neste sentido, os comunistas podem condensar a sua teoria numa única expressão: supressão [Aufhebung] da propriedade privada.

Têm-nos censurado, a nós, comunistas, de que quereríamos abolir a propriedade adquirida pessoalmente, fruto do trabalho próprio — a propriedade que formaria a base de toda a liberdade, actividade e autonomia pessoais.

Propriedade fruto do trabalho, conseguida, ganha pelo próprio! Falais da propriedade pequeno-burguesa, pequeno-camponesa, que precedeu a propriedade burguesa? Não precisamos de a abolir, o desenvolvimento da indústria aboliu-a e abole-a diariamente.” P. 43.

Marx/Engels continuam:

“Mas será que o trabalho assalariado, o trabalho do proletário, lhe cria propriedade? De modo nenhum. Cria o capital, i. é, a propriedade que explora o trabalho assalariado, que só pode multiplicar-se na condição de gerar novo trabalho assalariado para de novo o explorar. A propriedade, na sua figura hodierna, move-se na oposição de capital e trabalho assalariado.” P. 44.

...

“Horrorizais-vos por querermos suprimir a propriedade privada. Mas na vossa sociedade existente, a propriedade privada está suprimida para nove décimos dos seus membros; ela existe precisamente pelo facto de não existir para nove décimos. Censurais-nos, portanto, por querermos suprimir uma propriedade que pressupõe como condição necessária que a imensa maioria da sociedade não possua propriedade.

Numa palavra, censurais-nos por querermos suprimir a vossa propriedade. Certamente, é isso mesmo que queremos.

[...]

Concedeis, por conseguinte, que por pessoa não entendeis mais ninguém a não ser o burguês, o proprietário burguês. E esta pessoa tem certamente de ser suprimida.

O comunismo não tira a ninguém o poder de se apropriar de produtos sociais; tira apenas o poder de, por esta apropriação, subjugar a si trabalho alheio.

Tem-se objectado que com a supressão da propriedade privada cessaria toda a actividade e alastraria uma preguiça geral.

De acordo com isso, a sociedade burguesa teria há muito de ter perecido de inércia; pois os que nela trabalham não ganham, e os que nela ganham não trabalham. Toda esta objecção vai dar à tautologia de que deixa de haver trabalho assalariado assim que deixar de haver capital.” P. 45.

Sabe aquela história de “família burguesa opressora”? Pois é, ela tem que ser abolida. Qual a qualificação e o porquê de Marx/Engels nesta abolição?

“Supressão da família! Até os mais radicais se indignam com este propósito infame dos comunistas.

Sobre que assenta a família actual, a família burguesa? Sobre o capital, sobre o proveito privado. Completamente desenvolvida ela só existe para a burguesia; mas ela encontra o seu complemento na ausência forçada da família para os proletários e na prostituição pública.

A família dos burgueses elimina-se naturalmente com o eliminar deste seu complemento, e ambos desaparecem com o desaparecer do capital.

Censurais-nos por querermos suprimir a exploração das crianças pelos pais? Confessamos este crime.

Mas, dizeis vós, nós suprimimos as relações mais íntimas ao pormos no lugar da educação doméstica a social.” P. 46.

Marx/Engels passeiam rapidamente pelo socialismo utópico que precedeu o pensamento comunista propriamente dito, sendo os seus maiores representantes Saint-Simon, Fourier, Owen e outros mais, que pregavam uma revolução desprovida de conteúdo, sem terem desenvolvido as armas teóricas e organizativas para enfrentar a classe burguesa, não pensando num movimento político revolucionário onde a classe oprimida toma as rédeas da história.

“A forma não desenvolvida da luta de classes assim como a sua própria situação de vida implicam, porém, que eles creiam estar muito acima daquela oposição de classes. Querem melhorar a situação de vida de todos os membros da sociedade, mesmo dos mais bem colocados. Por isso apelam continuamente à sociedade toda sem diferença, e de preferência à classe dominante.

É só preciso entender o seu sistema para reconhecer nele o melhor plano possível para a melhor sociedade possível. Rejeitam, por isso, toda a acção política, nomeadamente toda a acção revolucionária, querem atingir o seu objectivo por via pacífica e procuram, com pequenos experimentos naturalmente condenados ao fracasso, abrir pela força do exemplo o caminho ao novo evangelho social.” P. 61.

Por último, a previsão de Marx/Engels era de que a grande revolução proletária aconteceria em breve na Alemanha.

“Para a Alemanha dirigem os comunistas a sua atenção principal, porque a Alemanha está em vésperas de uma revolução burguesa e porque leva a cabo este revolucionamento em condições de maior progresso da civilização europeia em geral e com um proletariado muito mais desenvolvido do que a Inglaterra no século XVII e a França no século XVIII, porque a revolução burguesa alemã só pode ser, portanto, o prelúdio imediato de uma revolução proletária.” P. 64.

Como sabemos, isso não aconteceu.