domingo, 17 de outubro de 2021

Faces da Perseguição: Jesus, a Esperança das Viúvas na Nigéria

Pequeno documentário sobre a brutal perseguição que os cristãos sofrem na Nigéria.

Tabitha, uma viúva cristã, teve o seu marido torturado e morto por muçulmanos em 2001. Ela conta que até esse ano, os cristãos e muçulmanos viviam em paz, frequentando os mesmos lugares, sem animosidades. Porém, tudo mudou. Os muçulmanos resolveram acabar com os cristãos no país.

O documentário inicia com estas tristes palavras dela:

"Os radicais islâmicos na Nigéria, nunca atacam de manhã ou à tarde. Não, eles vêm à noite, às duas ou três horas. Esse é o tempo certo pra eles. Eles sabem que nesse horário, não temos como nos defender, e quando eles atacam uma aldeia, eles matam pai, mãe, filhos. Então [a] você só resta chorar. Acabou, tudo acabou. Alguns deles matam tudo que encontram pela frente. Matam duas ou três crianças, queimam casas, queimam todo o alimento que está na casa, tudo é queimado. Se você consegue se salvar, você só tem a roupa que está no corpo, e isso é tudo.”

A Nigéria está entre os vinte primeiros países onde a perseguição aos cristãos é intensa, por causa das cruéis e costumeiras chacinas promovidas por grupos islâmicos radicais.

“Nesse país do Oeste africano, a milícia radical Boko Haram luta, há muito tempo, contra o Estado e contra os cristãos. Há muitos mortos e feridos. O nome dele significa ‘a educação ocidental é proibida’. Eles querem que a Nigéria se torne um Estado islâmico. A lei islâmica, a sharia, já domina no norte da Nigéria desde a virada do milênio, enquanto o sul do país é dominado por cristãos. Através dos ataques do Boko Haram e de outros grupos extremistas que se encontram no norte, centenas de igrejas já foram queimadas e milhares de cristãos foram assassinados.”

Tabitha expõe a diferença crucial entre a sua fé cristã e a fé muçulmana:

“Na região que eu moro a doutrina cristã e a doutrina muçulmana são diferentes. A doutrina deles diz: ‘Você só deve amar um irmão muçulmano, ame apenas os seus irmãos muçulmanos. Mas você não deve amar nenhum infiel, ele é seu inimigo. Mas a minha Bíblia não diz isso. Eu não sei de onde eles tiram esses ensinamentos, eles dizem que nós, cristãos, somos seus inimigos. Por isso eles querem nos matar, e acreditam que se eles matarem cristãos, então, irão para o céu. Além disso, acreditam que quando eles lutam, estão ajudando Deus a lutar contra os seus inimigos. Eu não conheço esse tipo de religião e esses ensinamentos religiosos, mas a minha fé não me diz isso. Até mesmo Deus diz: ‘Ame os seus inimigos, ame seus inimigos’. E então eu tomo coragem para dizer pra mim mesma: ‘Você deve amar os muçulmanos, pois se você não os amar, não pode contar a eles o que Jesus fez na cruz por você...’”

É com tristeza que frequentemente vemos informações vindas da Nigéria, que noticiam a destruição de igrejas e massacres horrendos de cristãos pelo Boko Haram. Foi-se o tempo em que os cristãos podiam viver com alguma tranquilidade nesse país. Os grupos terroristas estão exterminando não somente os cristãos, mas também toda a religiosidade fetichista nigeriana, da qual a religiosidade brasileira tanto bebeu.

domingo, 26 de setembro de 2021

Ateus no Mundo Muçulmano

Para quem coloca o cérebro para funcionar o mínimo que seja, o islã não sobrevive ao menor dos escrutínios. O resultado nós vemos aí: muitos apóstatas. Estes acabam sofrendo as horrendas consequências da perseguição que se abate sobre eles, pois a própria doutrina islâmica tem ensinos concernentes a combater com a força bruta os renegados da religião. Os cristãos são um povo bem conhecido em ser vítimas dessas criminosas chacinas feitas, incentivadas por Maomé e seu livro sagrado. Saltam aos olhos todas as semanas, notícias de cristãos mortos, perseguidos e brutalizados, nos países de maioria muçulmana. Mas não é só eles que sofrem as agruras da apostasia. Os ateus são um grupo crescente nos países muçulmanos. Eles são considerados inimigos da religião e do estado. Agitaram um vespeiro. Portanto, devem ser combatidos também. A despeito da intolerância, eles estão crescendo. E isto é muito bom.

Daniel Pipes, especialista em Oriente Médio e Ph.D em História em Harvard, traz informações que mostram o quanto o ateísmo tem crescido entre os muçulmanos.

“[...] declarar-se abertamente ateu [num país muçulmano] convida a punições que vão do ostracismo ao espancamento, ao despedimento, à prisão e ao assassinato. As famílias veem os ateus como manchas em sua honra. Os empregadores os consideram indignos de confiança. As comunidades os veem como traidores. Os governos os veem como ameaças à segurança nacional. Para que isso não pareça absurdo, as autoridades percebem que o que começa com decisões individuais se transforma em pequenos grupos, ganha força e pode culminar na tomada do poder. Na reação mais extrema, o Reino da Arábia Saudita promulgou regulamentos antiterroristas em 7 de março de 2014, que proíbe ‘Chamar o pensamento ateísta de qualquer forma, ou questionar os fundamentos da religião islâmica em que este país se baseia.’ Em outras palavras, o livre-pensamento equivale a terrorismo.

De fato, muitos países de maioria muçulmana punem formalmente a apostasia com execução, incluindo Mauritânia, Líbia, Somália, Iêmen, Arábia Saudita, Catar, Emirados Árabes Unidos, Irã, Afeganistão, Malásia e Brunei. As execuções formais tendem a ser raras, mas a ameaça paira sobre os apóstatas. [...] A violência vigilante também ocorre no Paquistão, pregadores convocaram turbas para incendiar as casas dos apóstatas.

[...]

Momen, um egípcio acrescenta: ‘Meu palpite é que toda família egípcia contém um ateu, ou pelo menos alguém com idéias críticas sobre o Islã.’ A professora Amna Nusayr, da Universidade al-Azhar, afirma que 4 milhões de egípcios deixaram o Islã. Todd Nettleton descobriu que, segundo algumas estimativas, ‘70 por cento do povo do Irã rejeitou o Islã’.”

Khaled Diab, jornalista ex-muçulmano e ateu, traz estas informações:

“Em países onde o ateísmo é proibido - é punível com a morte em países como o Irã e a Arábia Saudita - muitos devem manter seu ceticismo em segredo não apenas da família, mas também da sociedade. Na Arábia Saudita, uma das teocracias mais repressivas do mundo, os culpados de ateísmo ou ‘apostasia’ podem ser açoitados impiedosamente ou receber a pena de morte. Por exemplo, em 2017, um homem, nomeado na mídia como Ahmad Al-Shamri, que supostamente renunciou ao Islã e a Maomé nas redes sociais, foi condenado à morte."

"Embora o Egito seja mais aberto e tolerante do que a Arábia Saudita, também não é um paraíso para os ateus. [...] Por um lado, a constituição, pelo menos retoricamente, garante absoluta liberdade de crença e não há leis que proíbam explicitamente o ateísmo ou apostasia. Isso permite que alguns ateus expressem abertamente sua rejeição à religião, sem qualquer dano infligido à sua pessoa ou liberdade. Por outro lado, o Egito tem leis de blasfêmia draconianas que são exploradas por alguns elementos do estado e advogados islâmicos vigilantes em cruzada para reprimir e perseguir de forma seletiva e aleatória alguns céticos e ateus.”

Francesca Paci, jornalista com trabalhos focados no Islã e Oriente Médio, em sua matéria, diz o seguinte:

“De acordo com uma recente pesquisa do Barômetro Árabe em 10 países diferentes no norte da África e no Oriente Médio, os árabes, um quinto do mais de um bilhão e meio de muçulmanos mundo, estão cada vez mais inclinados a questionar o próprio credo. [...] um jovem em cada cinco não reconhece a dimensão confessional como fulcro da própria identidade.

[...]

Riad [capital da Arábia Saudita] julga o ateísmo equivalente ao terrorismo, enquanto o Egito de Al Sisi, em parceria com a Universidade de Ahzar e a Igreja ortodoxa, jurou lutar contra ‘uma moda’ que um jornal local de alguns anos atrás estimava já ter infectado 3 milhões de jovens.”

A jornalista Natalia Román traz a seguinte notícia:

“A Tunísia, onde em 2011 teve início a ‘Primavera Árabe’, tornou-se, seis anos depois, o primeiro país do mundo árabe muçulmano a autorizar uma associação que defende um dos maiores tabus do islã: o ateísmo.

Formada por mais de 400 membros que se declaram ‘agnósticos e ateus’, a associação, chamada de ‘Livres Pensadores’, tem como objetivo principal ‘garantir os direitos daqueles que não se sentem religiosos’.

‘Promovemos nossa visão da sociedade, questionamos a hegemonia da religião e mostramos que, além de muçulmanos, judeus, cristãos e bahais, também há quem não é religioso’, disse à Agência Efe Munir Baatour, advogado e membro da associação.

[...]

Sob essas premissas, e diante de um Parlamento dominado pelo partido islamita moderado Ennahda, pilar da coalizão que governa o país, e um movimento jihadista estabelecido (a Tunísia é a quarta nação do mundo em número de combatentes radicais), a associação admite que sua tarefa é titânica e perigosa.”

Matéria da BBC:

“Ser ateu no Paquistão pode ser fatal. Mas, a portas fechadas, os descrentes estão se juntando para apoiar uns aos outros. Como eles sobrevivem em uma nação onde a blasfêmia carrega uma sentença de morte? [...] Em junho deste ano, [...] Taimoor Raza foi condenado à morte por uma publicação no Facebook. [...]Para Omar [ateu], o governo está em guerra com os blogueiros ateus. ‘Um amigo meu costuma escrever contra o fundamentalismo religioso. Nós administrávamos o grupo (online) juntos. Eu fiquei sabendo que ele foi brutalmente torturado. Uma vez que você é sequestrado, há uma grande chance de seu corpo voltar em uma mala’, diz.

[...]

‘Querido diário. Algumas pessoas chamaram de prisão, mas foi um sequestro. Fui mantido em cárcere durante 28 dias. Eles não se identificaram, mas tenho certeza que eram militares. Foram oito dias de tortura e 20 dias para me recuperar. O meu corpo inteiro ficou preto. Eles me fizeram assinar uma declaração dizendo que me arrependi do que eu fiz e que não me envolveria blogs políticos ou religiosos. E que minha família poderia se tornar um alvo, caso eu falasse com a imprensa’, escreve Hamza, blogueiro e fundador de um fórum online sobre ateísmo.

"A Justiça no Egito condenou o estudante Karim Ashraf Mohammed Al-Banna, de 21 anos, a três anos de prisão por 'insultar o Islã', depois que ele usou o Facebook para declarar que é ateu. O jovem já tinha sido criticado por suas visões ateístas. Durante o julgamento, seu próprio pai testemunhou contra ele."

Ativistas proeminentes que deixaram o Islã e hoje são ateus ou agnósticos, são a Ayaan Hirsi Ali, Wafa Sultan e Ibn Warraq.

Que apareçam mais.

Não sou ateu, mas qualquer cosmovisão é melhor que a religião islâmica, visto que esta promove a violência desde sempre. 

É muito bom viver em uma sociedade, onde podemos expressar as nossas convicções religiosas, ateísticas, filosóficas, sem ter medo de ser preso, ou até ser morto por isso. Lutemos pela liberdade de expressão. E é sempre bom atentar, que essa liberdade é você ter o direito de ofender as opiniões alheias e ser ofendido também. Se a liberdade de expressão não abarcar isso, ela não passa de conversinha furada.

quinta-feira, 2 de setembro de 2021

O Multiverso é Real e Elimina a Existência de Deus?

O universo está ajustado de maneira tão refinada e precisa, para que a vida dele emergisse, que qualquer mudança mínima que houvesse, nós não estaríamos aqui. Na verdade, quaisquer alterações milimétricas seriam o suficiente para que nenhuma forma de vida surgisse. Não podia haver erro algum, tudo teria que ser perfeitamente sintonizado. Todos os elementos do universo foram interdependentes, para que vida se formasse. As constantes antrópicas foram/são extremamente precisas. Nível de oxigênio, gravidade, força nuclear forte, força nuclear fraca, força eletromagnética, pressão atmosférica e mais de 100 constantes, provam a fineza com o que o universo foi formado, permitindo o surgimento da vida humana. O universo está equilibrado na corda bamba, em face da precisão dessas constantes cosmológicas. Lembre-se, basta alterar de maneira extremamente sensível (a nível subatômico) qualquer uma delas, para que a vida vá para o buraco.  

A Sintonia Fina do Universo é um dos argumentos mais corriqueiros dos apologistas cristãos, para mostrar a razoabilidade da existência de Deus. Não há tolice aqui! Ninguém diz que a sintonia prova que Deus existe. O que eles dizem é que a sintonia é totalmente compatível com um universo teísta. Ela é uma evidência, indício, pista... Ela insinua... Ela sugere... É um fio condutor. Ela se encaixa com a crença em Deus. Pode-se inferir legitimamente que a sintonia traz implicações teístas. Ela sugestiona um planejamento. Ela é consonante com a ideia de um Criador. Em conjunto com outras evidências encontradas, ela torna-se um argumento que não pode ser ignorado, dado que as probabilidades matemáticas envolvidas são uma forte evidência de organização não aleatória.

Diante das inferências teológicas da sintonia, não demorou para que alguns ateus a contestasse, apelando para a teoria do Multiverso, Mundos Paralelos, Teoria das Cordas, Universos Paralelos, Muitos Mundos. Isto é, se existem milhões e bilhões de universos além do nosso, em pelo menos um deles, a vida inteligente surgirá, e calhou de ser em nosso universo, e por isso estamos aqui falando sobre esse incrível tema.

"Hoje muitos físicos usam o conceito de 'multiverso' para explicar coincidências que de maneira diferente seriam inexplicáveis, como a razão pela qual as forças têm a intensidade que possuem, permitindo a existência de átomos e da vida." P. 183. - Joanne Baker, Ph.D em Física na Universidade de Sydney.

BAKER, Joanne. 50 Ideias de Física Quântica Que Você Precisa Conhecer. São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2015.

“‘No passado, muitas ideias pareceram tão loucas quanto essa ao serem propostas pela primeira vez’, conta o físico teórico do momento, Brian Greene, autor de O Universo elegante. ‘Einstein não acreditava em buracos negros, embora fossem decorrentes de suas equações. Hoje, ninguém os questiona. Agora a matemática indica que poderiam existir outros universos além do nosso.’” P. 338-339.

KUKSO, Federico. Tudo o Que Você Precisa Saber Sobre Ciência. São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2019. (PDF).

Dois Físicos proeminentes, Hawking (Professor de Matemática na Universidade de Cambridge) e Mlodinow (Ph.D em Física na Universidade da Califórnia), são dois ateus que defendem que o Multiverso descarta por completo Deus como o Criador.

“Nosso universo e suas leis parecem ter um design que é ao mesmo tempo feito sob medida para nos apoiar e, se quisermos existir, deixa pouco espaço para alterações. [...] Muitas pessoas gostariam que usássemos essas coincidências como prova do trabalho de Deus. [...] Mas, assim como Darwin e Wallace explicaram como o projeto aparentemente miraculoso de formas de vida podia aparecer sem intervenção de um ser supremo, o conceito de multiverso pode explicar o ajuste fino das leis físicas sem a necessidade de um criador benevolente que fez o universo em nosso benefício”. P. 96, 97.

HAWKING, Stephen; MLODINOW, Leonard. O Grande Projeto. São Paulo: Nova Fronteira, 2011. (PDF).

O Multiverso é real ou não? Pode ser. Não há unanimidade entre os pesquisadores. Mas acontece que por mais fascinante que seja a existência de outros supostos universos, parece que até o momento não passa de especulação, por mais que grandes Físicos estejam trabalhando nessa hipótese. E mesmo admitindo que exista o Multiverso, ele passa longe de ser uma evidência em favor do ateísmo. Alguns até dizem que ele seria mais uma pista que favorece a crença em Deus, solapando o entusiasmo de Hawking e Mlodinow, que meteram os pés pelas mãos, em pensar que tais universos ratificam a sua cosmovisão naturalista, que não consegue se sustentar, a não ser apelando para suposições metafísicas, mesmo que eles contraditoriamente digam no início de seu livro, que "a filosofia está morta".  

Para Deborah B. Haarsma, Ph.D em Astrofísica no MIT, o Multiverso não é incompatível com a existência de Deus, e carece de experimentos que o corroborem.

“A Teoria das Cordas sugere que há um tipo de universo-mãe, a partir do qual muitos universos poderiam se formar, em diversos Big Bangs. Trata-se de uma teoria matemática que não foi testada experimentalmente.

No entanto, é interessante pensar sobre como essas ideias de ponta podem interagir com a minha fé. Se realmente houver um universo-mãe, ou ‘multiversos’, isso sugere a existência de muitos universos além do nosso. Esses universos poderiam ter um espectro diferente de leis físicas. Talvez o nosso seja apenas aquele no qual todas as forças estão equilibradas exatamente do modo correto para colher a vida, e, assim, existam muitos outros universos lá fora que sejam estéreis. Se isso for verdade, poderia explicar algo da sintonia fina que vemos em nosso universo.

Eu posso conciliar a ideia de um multiverso com minha compreensão de Deus. Por um lado, estou pronta para seguir o que quer que o universo nos mostre sobre a sua formação, continuando a ver Deus como o Criador de tudo. De todo modo, ainda precisamos de um universo-mãe para receber a sintonia fina, pois ele deve ser capaz de produzir universos com um certo espectros de propriedades. O multiverso não elimina inteiramente o argumento da sintonia fina.

Por outro lado, também me sinto confortável com a ideia de que Deus fez apenas um universo, mesmo que jamais possamos explicar o que Deus fez no primeiro instante. Há uns poucos experimentos, aguardando serem postos em prática nos próximos anos, que podem dar alguma substância a essas diferentes teorias. Estou esperando para ver os resultados dessa investigação e, também, o que o próprio universo nos diz sobre como Deus o fez.” P. 140-141.

BANCEWICZ. Ruth (Org.). O Teste da Fé. Viçosa, MG: Ultimato, 2013.

Jeff Zweerink, Ph.D em Astrofísica na Universidade Estadual de Iowa, EUA, argumenta que o Multiverso é mais compatível com a cosmovisão teísta.

“As ambiguidades científicas atuais na avaliação de modelos de multiversos impactam argumentos apologéticos para a existência de Deus. Em vez de focar na existência de um multiverso, a questão chave torna-se: ‘Os modelos multiversos se encaixam mais confortavelmente em uma cosmovisão cristã e teísta ou em uma cosmovisão ateísta do naturalismo estrito?’ Três áreas principais em que essas duas cosmovisões diferem estão relacionadas à origem do universo (argumento cosmológico), design no universo (argumento teleológico) e consciência (argumento da razão). Inicialmente, os modelos de multiversos pareciam a base da segunda premissa do argumento cosmológico, a saber, que o universo começou a existir. Por exemplo, os multiversos inflacionários do big bang, esse universo ainda tem um começo, mas o mecanismo da inflação produziu novos universos para sempre no futuro. Os cosmológos achavam que esse processo poderia se estender para sempre no passado também; se for verdade, nosso universo começaria, mas o multiverso seria eterno. A pesquisa finalmente demonstrou que qualquer modelo de multiverso inflacionário capaz de explicar o universo também deve ter um começo, fortalecendo ainda mais o argumento cosmológico para a existência de Deus. A maioria dos cosmólogos agora concorda que o reino físico (não apenas o universo, mas todo o multiverso) começou a existir.

[...]

Em suma mesmo que exista um tipo de multiverso, as pesquisas mais recentes indicam que ele começou a existir, o que demonstra evidências de design para a humanidade e parece exigir uma mente (que existe além do multiverso) para explicar a consciência. Em vez de apoiar o argumento para uma cosmovisão naturalista e ateísta, esses resultados defendem fortemente uma cosmovisão teísta e sobrenatural semelhante ao judeu-cristianismo.” P. 518-519.

COPAN, Paul; LONGMAN III, Tremper; REESE, Christopher L.; STRAUSS, Michael (Orgs). Dicionário de Cristianismo e Ciência. Rio de Janeiro: Thomas Nelson, 2018. 

Edward Harrison, Cosmólogo e membro da Associação Americana para o Avanço da Ciência, usa a Navalha de Ockam:

“O ajuste fino do universo fornece evidência, prima face de projeto deísta. Faça sua escolha: acaso que requer uma multidão de universos ou projeto que requer apenas um [...]. Muitos cientistas, ao admitirem os seus pontos de vista, se inclinam em direção ao argumento teleológico ou projeto [...]. Aqui está a prova cosmológica da existência de Deus — o argumento de projeto de Paley — atualizado e remodelado.” P. 91.

BROOCKS, Rice. Deus Não Está Morto. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2014.

John Lennox, Professor de Matemática e Filosofia da Ciência na Universidade de Oxford, também apela para a Navalha:

“[...] muitos cientistas têm a sensação de que uma explicação que envolve universos não detectáveis, e, além disso, representa uma extrema violação do princípio da Navalha de Ockham de buscar teorias que não envolvam a multiplicação de hipóteses desnecessárias, vai muito além da ciência e acaba na metafísica. Há muita especulação e poucas evidências.” P. 309.

Multiverso e Deus, não se excluem.

“[...] essas duas opções não são mutuamente excludentes, embora sejam em geral apresentadas como se fossem. No fim das contas, universos paralelos poderiam ser a obra de um Criador. P. 94.

John Polkinghorne, ex Professor de Física na Universidade de Cambridge.

“Vamos reconhecer essas especulações pelo que elas são. Não são físicas, mas sim, no sentido mais estrito, metafísicas. Não há uma razão puramente científica para crer num conjunto de universos. Por sua construção, esses outros universos não podem ser conhecidos por nós. Uma explicação possível com igual respeitabilidade intelectual — e a meu ver com mais economia e elegância — seria a de que este mundo é como é porque é a criação da vontade de um Criador que pretende que ele assim seja.” P. 309.

Christian de Duve, Nobel de Medicina, mesmo não sendo um pesquisador profissional do tema, mostra que o Multiverso não anula a grande significância do nosso universo, de onde brotou a mente.

“Independentemente de quantos universos alguém postule, o nosso nunca poderá ser reduzido à insignificância pela magnitude desse número [...] o que para mim parece ter suprema importância é que no fim das contas exista uma combinação capaz de fazer surgir a vida e a mente.” P. 94-95.

Até Martin Rees, Astrônomo Real Britânico, que é proponente do Multiverso, admite é uma teoria altamente especulativa.

“Se alguém não acredita no design da providência, mas ainda acha que a sintonia fina precisa de uma explicação, há uma outra perspectiva — uma perspectiva altamente especulativa, de modo que, neste estágio, devo reiterar que estou bem de saúde. É uma perspectiva, porém, que tem toda a minha preferência, embora, em nosso atual estado de conhecimento, qualquer preferência desse gênero não passe de um palpite.” P. 95.

LENNOX, John C. Por Que a Ciência Não Consegue Enterrar Deus. São Paulo: Mundo Cristão, 2011.

Richard Swiburne, Professor na Universidade de Oxford, usa a Navalha:

“[...] seria o cúmulo da irracionalidade postular inúmeros universos apenas para explicar as características particulares de nosso universo quando podemos fazê-lo postulando apenas uma entidade adicional — Deus. A ciência nos requer que postulemos a explicação mais simples dos dados e uma entidade é mais simples que um trilhão.” P. 400.

SWIBURNE, Richard. A Existência de Deus. Brasília, DF: Academia Monergista, 2015. (PDF).

Alister McGrath, Ph.D em Biofísica Molecular em Oxford, que escreveu um livro inteiro sobre a Sintonia, escreve:

“Uma forma de evitar as implicações teístas óbvias da sintonia fina consiste em postular a existência de um ‘multiverso’. De acordo com essa teoria, nosso universo é apenas um entre muitos outros. O universo observável deve, portanto, ser contextualizado no âmbito de um multiverso invisível, infinitamente grande e eterno. Pode ser que nosso universo esteja mesmo sob um regime de sintonia fina, mas não há necessidade de que os outros estejam. Demos sorte. Alguém tinha de acertar na loteria. Não é de admirar que Richard Dawkins, seja favorável a essa teoria!

Contudo, a hipótese do multiverso padece de problemas óbvios [...]. Em primeiro lugar, a distinção entre universo e multiverso é em grande medida semântica. Continua a existir apenas um universo verdadeiro nessa hipótese, se é que o termo ‘universo’ significa o domínio por completo da realidade física interconectada. Se o multiverso hipotético não estiver conectado de modo algum ao universo em particular que observamos de fato, é difícil ver como qualquer lei da física derivada do nosso domínio possa ser aplicada ao multiverso de modo geral. Isso significa que não podemos recorrer a observações do nosso mundo para tirar quaisquer conclusões sobre o multiverso.” P. 100.

MCGRATH, Alister. Apologética Pura e Simples. São Paulo: Vida Nova, 2013.

Em outro livro McGrath revela:

“Hoje a hipótese do multiverso continua pouco mais que um exercício matemático fascinante, mas altamente especulativo. Essa hipótese, talvez de forma não sensata, foi adotada por ateístas ansiosos por solapar a potencial relevância teológica da sintonia fina do universo. Assim, parte da atração da hipótese do multiverso para os físicos ateístas, [...] está no fato de que ela parece evitar qualquer inferência de projeto ou divindade. No entanto, é possível usar em grande medida os mesmos argumentos para sustentar a existência de Deus no caso de um multiverso quanto no caso de um universo, com a hipótese do multiverso sendo consistente com o entendimento de Deus, e não o elemento intelectual destruidor desse entendimento.” P. 113-114.

MCGRATH, Alister. Surpreendido pelo Sentido. São Paulo: Hagnos, 2015.

Ariel Roth, Ph.D em Biologia pela Universidade de Michigan, EUA, dá o seu parecer:

“Seria possível haver outros universos que não conhecemos? Seria possível haver diferentes tipos de universo e em grande quantidade? Tudo isso é possível. Com base na pura força dos números, poderíamos sugerir que existe um número infinito de universos, sendo o nosso o único que por mero acaso veio a ter as características exatas para a existência da vida. Essa ideia tem sido alvo de muitas considerações como resposta para o Universo com finos ajustes no qual vivemos. Simplesmente aconteceu de estarmos no universo correto dentre muitos outros. Tal raciocínio não possui nenhuma força argumentativa e carece de validação. É possível explicar praticamente qualquer coisa com esse tipo de argumento, sendo, portanto, desprezível. Seja lá o que você encontrar, basta dizer que simplesmente surgiu por acaso em um dos infinitos universos. O cerne da questão é onde estariam esses outros universos. Onde estariam as evidências científicas para a existência deles? Parece não haver uma sequer.

[...] O conceito de muitos universos se tornou um campo fértil para muitas cogitações sobre nossa existência, a vida e o cosmos. Não é difícil se perder nessas lucubrações, especialmente quando se pode misturar nelas uma pitada de realidade para fazê-las parecer mais plausíveis.

[...]

Pode-se argumentar que há sempre a possibilidade de existir muitos outros tipos de universos, fornecendo todos os tipos de ideias mirabolantes, mas isso não é ciência; é pura imaginação. [...] É necessário postular um número gigantesco de universos na tentativa de reduzir as inúmeras improbabilidades observadas no Universo com finos ajustes no qual vivemos. Essa sugestão representa uma grave ofensa ao princípio científico conhecido como a navalha de Ockham (também conhecido como princípio da parcimônia). Esse princípio requer que as explicações não se multipliquem além do necessário. A proposta da existência de muitos universos não passa de especulação desenfreada, não é raciocínio cuidadoso baseado em fatos conhecidos.” P. 64-65.

Hugh Ross, Ph.D em Astronomia pela Universidade de Toronto, diz que:

“Esta proposta [do multiverso] é um abuso gritante da teoria da probabilidade. Ela pressupõe os benefícios de uma amostra com dimensões infinitas sem possuir, contudo, qualquer evidência de que exista mais de uma amostra.” P. 65.

ROTH, Ariel. A Ciência Descobre Deus. São Paulo: Casa Publicadora Brasileira, 2010. (PDF).

William Lane Craig, Ph.D em Filosofia na Universidade de Birmingham, que já escreveu amplamente sobre o argumento cosmológico, também aponta algumas arbitrariedades na hipótese dos Muitos Mundos. Para ele, é apenas uma desculpa sem fundamento para negar que o Ajuste Fino do Universo é poderosamente uma evidência para a existência de Deus.

“O problema é o seguinte: esses outros universos teóricos são inacessíveis a nós e, portanto, não há nenhum meio ´possível de oferecer qualquer evidência de que isso poderia ser verdade. É simplesmente um conceito, uma idéia, sem prova científica. O proeminente cientista e teólogo inglês John Polkighorne a denominou ‘pseudociência’ e ‘adivinhação metafísica’.

E pense no seguinte: se isso fosse verdade, tornaria impossível a conduta racional da vida, porque se poderia justificar qualquer coisa – não importa quão improvável – ao postular um número infinito de outros universos.

[...]

Por exemplo, se você estivesse dando as cartas em jogo de pôquer, toda vez que distribuísse a si mesmo quatro ás você não poderia ser acusado de trapacear, não importa quão improvável fosse a situação. Você poderia simplesmente argumentar que em um conjunto infinito de universos existirá um universo, em que, toda vez que uma pessoa dá as cartas – ela dá quatro a´s para si mesma e, portanto – sorte minha! – acontece de eu estar nesse universo. Veja – isso é pura metafísica. Não há nenhuma pessoa de verdade que acredite na existência desses universos paralelos. O próprio fato de que os céticos têm de inventar uma teoria tão fantasiosa é porque o ajuste preciso do universo aponta poderosamente para um Planejador Inteligente -  e algumas pessoas vão apresentar qualquer hipótese para não chegar a essa conclusão.” P 105-106.

Craig só está errado em dizer que nenhuma pessoa acredita nesses universos fantasmas. Para citar apenas um, o grande Físico Michio Kaku já trabalhava nessa hipótese, quando Craig deu essa entrevista.

STROBEL, Lee. Em Defesa da Fé. São Paulo: Vida, 2002.

Em seu livro, Craig argumenta magistralmente:

“O atual debate sobre o ajuste preciso tornou-se agora um debate sobre a hipótese dos muitos mundos. A fim de explicar o ajuste preciso estão nos pedindo para acreditar não somente que existem outros universos não observáveis, mas que existem um número infinito deles e que eles variam aleatoriamente em suas constantes e quantidades fundamentais. Tudo isso é necessário para garantir que um universo como o nosso, que permita a existência de vida, venha a surgir aleatoriamente nesse conjunto de mundos. A hipótese dos muitos mundos é na verdade um elogio às avessas ao design. Se assim não fosse, cientistas sérios não estariam se reunindo para adotar uma hipótese tão especulativa e extravagante quanto essa dos muitos mundos, a não ser que eles se sentissem absolutamente obrigados a fazê-lo. Assim, se alguém lhe disser: ‘0 ajuste preciso poderia ter acontecido por acaso’ ou ‘O improvável acontece’ ou “É apenas pura sorte”, pergunte a essa pessoa: ‘Se é assim, então porque os opositores do design se sentem obrigados a acatar uma teoria tão extravagante quanto essa da hipótese dos muitos mundos, somente com o intuito de evitar o design.” P. 129.

Craig faz um bombardeio de argumentos de que o Multiverso e o ateísmo são excludentes, e conclui:

“Ironicamente, a melhor das esperanças para os partidários do multiverso é manter que Deus criou o multiverso e ordenou seus mundos, de modo que eles não são aleatoriamente ordenados. Deus poderia dar preferência a mundos observáveis que são precisamente ajustados cosmicamente. Ou seja, para ser racionalmente aceitável, a hipótese dos muitos mundos precisa de Deus.” P. 131.

CRAIG, Willian Lane. Em Guarda. São Paulo: Vida Nova, 2011.

Marcelo Gleiser, ateu e Ph.D em Física na Universidade de Londres, quando perguntado sobre se é razoável a existência de múltiplos universos, respondeu que:

“A ideia do multiverso é a de que o nosso universo não seja o único e de que, além dele, existam múltiplos universos, paralelos ao nosso, nos quais as leis da física seriam, em princípio, diferentes deste nosso universo. A gente não consegue visualizar isso, mas, de forma simplificada, seria imaginar coleções de bolhas de sabão numa sala, e cada uma delas ocupando um espaço diferente, e dentro das quais haveria uma física diferente. Em princípio, não tem nada de errado com essa hipótese: existem outros planetas, existem estrelas diferentes, existem outras galáxias e, se as leis da física podem realmente mudar, e há várias teorias que preveem que elas possam mudar, por que não imaginar que existam outros universos além do nosso, com propriedades diferentes? Essa é uma hipótese super ousada, que traz uma série de problemas complicados para comprová-la ou refutá-la: podemos ou não observar esses universos?. A resposta é não. Não podemos observar esses universos por um motivo simples: toda a informação que recebemos do mundo, da natureza, viaja na velocidade da luz. Então, demora um tempo para a informação chegar até nós. Se olhamos para a lua, estamos vendo-a há alguns segundos no passado. Se olhamos para o sol, estamos vendo-o há oito minutos no passado. Então, toda a informação que recebemos depende da viagem da luz até nós. Isso significa, que como o universo tem uma idade finita de 14 bilhões de anos, só podemos receber informação que tenha viajado na velocidade da luz durante esses 14 bilhões de anos. Tudo o que está além desta bolha de informação – como se fosse o nosso aquário cósmico – não é acessível a nós. E esses universos estão além desses aquários cósmicos. Então, não podemos receber informações deles. E, se não podemos receber informações deles, não podemos comprovar se realmente existem. Então, passam a ser uma hipótese científica que não pode ser comprovada e que representa um problema filosófico supercomplicado.”

O Multiverso pode até existir! Físicos apontam que a matéria escura que permeia praticamente tudo no universo é uma evidência dele. Equações matemáticas realizadas, dizem, também entram na conta das evidências encontradas. Os Universos Paralelos, afirmam alguns, resolveria os paradoxos da escala subatômica, como a dualidade onda-partícula. A matéria escura, cálculos matemáticos e a onda-partícula seriam evidências substanciais a favor dos Múltiplos Mundos ou ainda estamos no terreno de meras conjecturas metafísicas? Pesquisadores profissionais estão divididos. Admito que é até fascinante e muito louca essa teoria. E não vejo nela, um bom argumento de escape para explicar a sintonia fina do nosso universo para escantear Deus. Os ateus devem apelar para outros argumentos.

segunda-feira, 30 de agosto de 2021

O Dilema do Porco Espinho


KARNAL, Leandro. O Dilema do Porco Espinho. São Paulo: Planeta do Brasil, 2018. 

“[...] somos animais sociais e a ausência de convivência com outros seres humanos é extremamente penosa. Ela provoca depressão, aumenta a agressividade, facilita o aparecimento de doenças e pode levar ao suicídio.” P. 117. – Fernando Reinach, membro da Academia Brasileira de Ciências. 

Estamos nos aproximando dos 8 bilhões de pessoas vivendo e convivendo neste planeta. A nova configuração é regida pela comunicação ultrarrápida e instantânea; não precisamos mais esperar para nos comunicar com as pessoas. Tudo acontece num toque simples e rápido em nossos pequenos computadores de mão. Entretanto, parece que esta é a era onde a solidão galgou patamares assustadores. Nunca nos sentimos tão sós! Nunca precisamos tomar tantos remédios para depressão, para ansiedade e para termos uma simples noite de sono. Somos a geração dos distúrbios psicológicos, apesar de todo o aparato tecnológico disponível tão facilmente em nossas mãos. As redes sociais estariam na causa de nossas perturbações mentais ou elas apenas revelam a nossa miserabilidade psicológicas? Ou melhor, seria uma simbiose?

Leandro Karnal, historiador conhecido, tem uma habilidade ímpar em lidar com essas questões contemporâneas. Em O Dilema do Porco-Espinho, ele traz insights sobre a solidão que teima em não sair de nosso dia a dia, mesmo que estejamos rodeados de pessoas e de exposições nossas e dos outros nos meios internéticos.

A solidão é algo tão presente e patente, que “o governo da primeira-ministra britânica Theresa May criou o chamado Ministério da Solidão. Um número alarmante de 9 milhões de britânicos parece reclamar de frequente ou total solidão. O que estaria acontecendo no mundo para que o combate à solidão virasse uma política de Estado?” P. 7.

A explosão demográfica é um fato, no entanto, ela veio acompanhada de um “esvaziamento de laços pessoais e significativos. Vizinhos que trocam cumprimentos formais nas áreas comuns, mas sabem que não podem contar com ninguém. Pessoas que não criam vínculos afetivos e/ou familiares expressivos que tornem a existência mais interessante.” P. 8.

No campo do afeto amoroso...

“Se considerarmos que um amor correspondido seria o perfeito oposto da solidão, entenderemos que quase toda a arte e literatura gira entre os dois polos: estar só ou estar acompanhado. Fugir ou buscar o isolamento, encontrar ou perder o amor é o eixo definidor da própria cultura humana. O poeta Rainer Maria Rilke definiu que o amor era apenas duas solidões protegendo-se uma à outra. Quase podemos ver a ligeira ironia contida na afirmação: amor é solidão compartilhada.” P. 10.

Uma das práticas mais eficazes para mitigar a solidão, é a leitura. Bom, para quem gosta de ler, né? Algo tão raro entre os brasileiros.

“De todos os antídotos contra a solidão, a leitura é um dos mais criativos. Aqui estamos, eu sozinho ao escrever e você sozinho ou sozinha ao ler. Aqui, duas solidões se encontram, trocam ideias, pensam e, efeito fascinante, transmutam o estar só em pensar e compartilhar. Só na solidão você é você e só na solidão eu sou eu. Na leitura solitária, somos dois autênticos viajantes isolados que, por um breve instante, aceitam conversar com um estranho fortuito.” P.11.

O primeiro livro da Bíblia tem algo a dizer sobre a solidão.

“Como toda narrativa fundacional, o Gênesis toca nas estruturas antigas da nossa percepção. Estar só seria estar pela metade, desejante de complemento. Estar acompanhado é a plenitude do ser e seu destino arquetípico. A tradição judaico-bíblica desconfia do isolamento. O eremita, o habitante místico de zonas desoladas e desérticas, seria alguém do futuro, do mundo cristão que passaria a desconfiar de certos aspectos da vida a dois. Celibatários não constituem parte importante da tradição judaica.” P. 13.

O chavão triunfalista que já vem de uns bons anos é: “Seja Feliz!” Você pode e tem a obrigação de ser feliz todos os dias, todos momentos, todas as horas!

“Como deveríamos ser profundamente felizes, todo desvio do caminho áureo da realização é um defeito a ser corrigido. Estar sozinho é impensável. Há manuais para buscar o par ideal. Existem testes e questionários em quase todas as revistas. A riqueza, o amor, a realização profissional e a própria estética pessoal passam a ser vistas como parte de uma meta possível e desejável. Todos podem alcançar se forem focados e resilientes. Ninguém precisa ficar sozinho.” P. 20.

Gozando de mais liberdade do que nunca, mesmo assim, as mulheres não escapam da pressão exercida.

“Porém, mesmo a mulher livre e empoderada deve dizer constantemente que está feliz mesmo não sendo mãe, assim como as mães devem estar muito felizes com a maternidade. O novo imperativo não é case, tenha filhos e siga uma carreira estável. O imperativo absoluto é ‘seja feliz’ e, se não for, ao menos pareça nas fotos de redes sociais. A solidão aparentemente pesa mais em um mundo onde a felicidade é cláusula pétrea. A era da plena liberdade de escolha e intensa realização é a era da farmacopeia contra a tristeza. Nunca sorrimos tanto nas redes e nunca consumimos tantos remédios para dormir, para ser viril ou para acordar.” P. 20.

Falando agora sobre os celulares e redes sociais...

“O que notamos entre tantos sorrisos e vidas plenas das redes? Vivemos uma perigosa epidemia de suicídio entre jovens. A depressão está se tornando um mal mais forte na nossa era. Já indiquei o crescimento assombroso da farmacopeia contra a tristeza. O que pode explicar esse paradoxo?” P. 28.

“Talvez não seja a solidão que nos cause horror, mas a falta de controle sobre estar só ou acompanhado. O celular respondeu de forma extraordinária a essa demanda, criando a companhia real-ficcional do mundo. Todo o sucesso do aparelho está no jogo de permitir palco e camarim ao mesmo tempo. Nenhuma escrita sobre a solidão poderá ignorar o celular, a muleta suprema que criamos para ter o suficiente isolamento do mundo aliado ao contato com quem e quando desejarmos. [...] Então, parece que a chave de tudo não é solidão ou companhia, porém controle.” P. 31.

O Facebook, Instagram, Tik Tok...

“As redes sociais podem reunir multidões e ter potencial agregador e mobilizador, mas sua função revelou-se muito mais simplória: serve, antes de mais nada, para reafirmar o self, criar a ilusão da companhia, o vício da curtida. [...] Vivemos, perfeitamente felizes, em ilhas que cabem em nossas mãos. [...] regulo quem me faz companhia, administro meu silêncio e posso reger quais imagens quero criar para tornar real meu roteiro imagético para o público.” P. 32.

As redes também nos expõem ao contraditório. O que pode ser bom.

“Conviver com a diferença e administrar o atrito inevitável é um ato de maturidade. Ser contrariado, questionado, posto em suspeição, rejeitado, desde que não sejam as únicas experiências que conheça, criam resiliência, moldam personalidade, caráter. O filtro bolha impede tudo isso.” P. 35.

Retomando a pergunta inicial deste resumo:

“Se os diagnósticos de que a internet como potencial pode retirar-nos da solidão ou de que, como ato, nos isola são igualmente reais, resta ainda uma pergunta sem resposta: o que veio primeiro, o ovo ou a galinha? Usamos as redes sociais para suprir um vazio, uma sensação de solidão anterior à existência delas ou as redes criaram e alimentam esse sentimento, que pode levar à compulsão e ao vício?” P. 35-36.

As redes e o seu poder de excluir, gerando tristezas, frustrações, sentimentos de inferioridades...

“Também há nas redes sociais aquele que não exclui, mas é excluído, o que posta, mas ninguém dá like, o que não está na foto. O sentimento de exclusão porque não estava no evento ou festa que todo mundo postou ou porque se deixa ludibriar pela exposição massiva da vida de colegas nas redes sociais, sempre uma idealização, pode alimentar inveja, ferir o Narciso e machucar a vaidade: acabo remoendo, em minha triste e segura solidão, a crença distorcida de que a grama do vizinho é sempre mais verde, de que meu colega de trabalho é mais bem-sucedido ou de que meu amigo de infância, que não vejo há décadas, é mais feliz do que eu. Trocando em miúdos: tenho certeza de que algumas pessoas encontram conforto e pertencimento na internet. São realmente felizes, têm amigos e vivem de forma real no mundo virtual. Para cada uma delas, contudo, existe outra (talvez dezenas ou centenas de outras) que mergulhou numa solidão perniciosa e nefasta.” P. 36.

Por mais desagradável que muitas vezes seja, conviver com pessoas que têm gostos e pensamentos distintos dos nossos, nos ajudam a evoluir.

“Menos popular e igualmente importante, o atrito dentro de certos limites razoáveis estabelece uma fronteira ao meu narciso ou a diminuição do sentimento de vaidade e de onipotência. Viver com outros é negociar. Grupos de pessoas são pedras sendo limadas e roladas pelo exercício da convivência. A diferença, os ritmos distintos, a busca de consensos ou de diálogos, os enfrentamentos: tudo se constitui em escola vital. A companhia é um alívio e também uma dificuldade. No prazer da fruição do outro e no próprio atrito da fruição está parte do segredo de se conhecer e não ser dominado pelo egocentrismo.” P. 38.

Até Jesus, o filho de Deus, foi deixado na solidão, quando exclamou na cruz: “Deus meu, Deus meu, por que me abandonaste?”

“Slavoj Žižek leu essa frase, a do abandono, do sentimento dolorido da solidão, de um jeito interessante. Para o filósofo, o Deus cristão, dentre todos os deuses que postulam para si a ideia da onisciência, é o único que pode realmente afirmar que o é, pois experimentou a morte. Deus morreu na cruz, de forma banal e comum. Sem essa experiência, os demais deuses podem apenas dizer que tudo conhecem em teoria. Apenas Cristo experimentou a morte na prática.” P. 76.

As origens do termo solidão e suas transformações:

“Em um estudo bastante interessante, a professora de literatura inglesa Amelia Worsley mapeou o surgimento da própria palavra solidão (loneliness) na língua de Shakespeare. Percebeu que, até o século XVII, a palavra quase nunca era usada. Quando o era, designava algo muito distinto do que concebemos hoje. Em um glossário de palavras pouco usadas, compilado em 1674 por John Ray, ‘solidão’ é definida como estar ‘longe dos vizinhos’. Ou seja, era condição física, um isolamento perigoso, pois indicava que alguém estava longe da proteção oferecida pelo grupo. Quando lemos o clássico de Milton O paraíso perdido, de 1667, deparamo-nos com uma das primeiras criaturas solitárias na literatura inglesa: o Demônio. Satã é descrito como aquele que dá ‘passos solitários’ para fora do inferno, enquanto se direcionava ao Jardim do Éden para tentar Eva. Se lermos com atenção, veremos, como Worsley chamou atenção, que a solidão do Diabo não é uma condição psicológica, mas, sim, física: ele dá passos solitários, pois sai de seu terreno conhecido para andar onde nenhum anjo antes andara [...].

Ao longo dos séculos seguintes, especialmente no movimento romântico, tanto na Europa quanto nas Américas, solidão se transformou de algo físico, uma condição de vulnerabilidade advinda do isolamento, em um sentimento, uma condição da mente. Poetas, escritores e artistas de toda espécie passaram a criar em função da solidão. A nova concepção de estar só era sinônimo de escapismo, uma escolha pessoal para que o indivíduo pudesse, conscientemente, fugir das angústias da vida em sociedade. A sociedade, especialmente a vida urbana, passa a ser vista como fútil e plena de relações pessoais superficiais. Lord Byron, descrevendo como poucos esse pessimismo, essa insatisfação com a vida, escreveu que ‘é na solidão que estamos menos sós’. Não se elimina a ideia de que estar só envolve perigo.” P. 99-100.

Solidão no casamento...

“No começo de uma relação, dizer que a alma gêmea não precisa falar nada porque te conhece com um simples olhar pode parecer virtude. Com o tempo, as não palavras podem virar silêncios que duram dias. O enfado previsível do outro. Sei o que ele vai dizer, sei o que ela fará antes mesmo que diga ou faça. Monotonia e previsibilidade são sintomas dessa solidão a dois. Outro é o amor apenas na distância. Amar intensamente a pessoa, desde que ela esteja longe. Por mensagens de celular, demonstrações públicas de carinho, o amor é impávido colosso. Tão logo a campainha toca, tudo o que era sólido se desmancha no ar. O único desejo é que nossa cara-metade suma, pois vivemos melhor sem ela. Se dedicação e entrega viram exigência e obrigação, podemos estar acompanhados, mas nossa condição é de solidão profunda. Abrir a boca para que, se isso gerará briga e (mais) rancor? Se estar sozinho pode ser bom, a solidão a dois é terrível, uma prisão autoimposta. Paradoxos da vida conjugal, vivemos numa solitária em companhia indesejável.” P. 109-110.

A solidão dos idosos...

“Não é incomum que encontremos idosos em festas de família. O raro é encontrarmos essa pessoa perfeitamente enquadrada nas conversas da família. No geral, está sentada num canto, ouvindo os mais jovens ou nem isso. Foi levada ao encontro, mas não foi convidada a falar, não encontrou ninguém disposto a ouvir ou, depois de um tempo em que a situação se repete, ela própria talvez nem queira mais falar. O mundo que nos formou morre antes de nós. Quando nos tornamos velhos, nossas referências de mundo já caducaram. Alguém com 90 anos ouviu Carmen Miranda na infância. Com quem conversa sobre isso numa festa apenas com pessoas mais jovens? O idoso é isolado. Sua solidão pode ser no meio de muita gente e funcionar como uma solitária social.” P. 112.

A solidão é um problema de saúde pública.

“Vale lembrar que a Organização Mundial da Saúde classifica a solidão como fator de risco maior que o tabagismo e tão grande quanto a obesidade para a saúde humana. Somente na Europa, mais da metade dos idosos com mais de 75 anos mora sozinha. Isso, em si, não é problema, apenas sinal dos tempos, pois muitos desses idosos estão bem com a situação e o fazem por opção. Mas outros tantos estão em quadros de solidão intensa devido à dispersão de seus familiares.” P. 113.

A solidão as vezes é necessária...

“É compreensível a solidão para fugir do mundo cheio de incômodos. As pessoas nem sempre são agradáveis, e nós, muitas vezes, não queremos ser obrigados à gentileza eterna. Custa energia sorrir quando você quer berrar. Fugir da multidão virou um produto de luxo. Áreas mais reservadas no avião custam mais. Quanto mais gente, mais barato. Praias isoladas, comprar sua ilha, estar sozinho em um carro e não no transporte coletivo, ter um apartamento por andar, visitar lugares sem ninguém, e assim vai. Sair do grande grupo é privilégio extremo. Não estou pensando no indivíduo abastado na reclusão da primeira classe, especialmente se estiver lá postando fotos para causar inveja ao mundo. Comprou o isolamento e o privilégio de menos gente para conversar com a multidão virtual.” P. 132.

...

“Terminaremos todos solitários em um túmulo algum dia.” P. 133.

sexta-feira, 27 de agosto de 2021

Régine Pernoud e a Objetividade da História

Durante toda a história do pensamento clássico ocidental, a verdade sempre foi vista como objetiva ou absoluta. Por mais que houvessem discordâncias nas conclusões, havia unanimidade de que a maioria via a verdade como correspondência. A verdade era aquilo que é (Aristóteles). A verdade era descoberta, e não inventada. Não havia muito espaço para o relativismo. Claro que existia um ou outro teórico, que pendia para ideias relativistas ou algo semelhante. No entanto, o sentimento geral era de que podia-se acessar a verdade sobre o mundo, a vida, a natureza, o cosmos, Deus etc.

No século XX, precisamente em sua segunda metade, o ambiente cultural mudou. A Modernidade caía aos prantos diante da Pós-Modernidade. A verdade passa a ser vista como relativa e contextual, sendo o ser humano incapaz de se desprender das amarras sociais, para decodificar o mundo assim como ele é. Cada vez mais, a teoria da verdade como correspondência foi sendo questionada e motivo de risos, pelos mais cínicos filósofos, críticos literários e sociólogos. A verdade era vista agora como um meio eficaz de oprimir os mais fracos, e de legitimar interesses pessoais escusos. Os poderosos contam as suas verdades, que ocultam um poder de coerção para organizar a vida social e até natural, para que continuem a moldar a sociedade conforme os seus caprichos. Os ideais clássicos de verdade e razão foram às favas.

Os departamentos de História não escaparam dessa corrosão pós-modernista. A própria ideia de verdades objetivas no campo do estudo histórico foi solapada por alguns historiadores de grande influência. Alguns passaram a ver os estudos historiográficos como mera ficção e manipulação de documentos antigos que nada tinham a ver com verdade e objetividade. Eles não estavam pondo em xeque apenas as interpretações dos fatos históricos, mas os próprios fatos. Interpretações diversas dos acontecimentos sempre houve, os historiadores sabiam e sabem disto. A diferença é que agora, todas as interpretações não eram mais do que jogos de palavras e proposições sem consonância com o mundo real, mas apenas coadunavam-se com a visão e ideias subjetivas de quem escreve a história.

Felizmente, apesar de todos os estragos intelectuais feitos, a maioria dos historiadores não caíram no canto da sereia, segundo nos conta John Tosh, em seu livro A Busca da História.

Régine Pernoud, Historiadora, Arquivista e Paleografa, com um Ph.D em Letras na Ècole Nationale des Chartes, não caiu nessa maracutaia. Na sua obra Idade Média: O Que Não Nos Ensinaram, livro que foi tema da postagem passada, ela é cristalina quanto a busca da verdade objetiva no campo da história.

Pernoud sintetiza bem, o que historiadores relativistas pensam e fazem, e lhes dá uma resposta:

“‘Eu, compreenda, quando faço história, não é para saber se tal fato é exato ou não; procuro apenas aquilo que possa promover minhas ideias.’ Impunha-se uma resposta: ‘Então, caro senhor, por que faz história? Volte-se para a política, para o romance, o cinema, o jornalismo! A História não tem interesse a não ser quando busca a verdade; ela deixa de se chamar História desde que seja outro seu objetivo’. P. 112.

Para ela:

“[...] a História é o estudo paciente de documentos, às vezes bastante áridos, mas sempre concretos, traços de acontecimentos vividos por pessoas vivas, pouco preocupadas de se condicionar a teorias pré-fabricadas, ou a obedecer a estatísticas determinadas.” P. 112.

A objetividade deve pautar a pesquisa do historiador.

“Impossível negar de modo mais ingênuo ou com menos pudor a História. A liberdade de pensamento que ela exige e necessita como toda pesquisa científica, não pode ser confundida de forma alguma com fantasias intelectuais de um indivíduo ditadas por suas opções políticas, opiniões pessoais, impulsos momentâneos ou mais simplesmente pelo desejo de escrever um volume de grande tiragem. A História tem seu campo. Ela deixa de existir quando não for procura de verdade, fundamentada em documentos autênticos; ela se evapora literalmente; ou melhor, ela nada mais é do que fraude e mistificação. É, aqui, a ocasião de citar a belíssima definição de História de Henri Irénée Marrou: ‘Homem de ciência, o historiador, encontra-se, como nomeado por seus irmãos, os homens, para conquistar a verdade’.” P. 113.

Claro que podem e de fato existem muitas interpretações que deixam a desejar. Erros metodológicos contaminam a credibilidade e veracidade da pesquisa. Mas é precisamente a objetividade que faz com que esses erros sejam notados e corrigidos.

“Remontar às fontes, mas não a qualquer fonte, porque a confusão é frequente em demasia, entre fontes literárias e fontes históricas. É evidente que quando se toma ‘em primeiro grau’, ao pé da letra, o teor das canções de gesta ou dos romances de cavalaria, e se deseja fazer de seus personagens tipos de vida quotidiana, a humanidade que se descreve povoa se de monstros, de grandes crimes, de aberrações. O simples bom senso, parece, deveria bastar para retificar erros deste gênero. Isto não é nada. Vimos comentaristas, na França, principalmente, obstinados em tomar em uma acepção literal obras de pura fantasmagoria. Tudo o que se pode pedir a uma obra literária é que seja eco de uma mentalidade, não a descrição de uma realidade, ainda menos sua descrição exata.” P. 116.

A história sendo ficção para entretenimento dos leitores, está cagando para isso.

O verdadeiro trabalho de pesquisa histórica é árduo e cheio de percalços e dificuldades.

“Ciência árdua, que exige que se debruce, longamente, sobre cacos e escritos ilegíveis — os escritos ilegíveis a que os historiadores marxistas acharam bem tratar com desprezo, porque duvidam de sua própria existência enquanto historiadores. Pesar e repesar o valor histórico de cada fonte de documentação, desde a consistência da cerâmica até a carta ou ata do notário; isolar, lentamente, de uma justaposição de fatos controlados a substância viva, a que permite reconstituir peça por peça o itinerário de um personagem, sua obra, às vezes, quando se tem uma documentação suficiente- mente abundante e falante, sua mentalidade — isto exige anos de trabalho e em nossa época de facilidade é, ainda uma vez, quase heroico, mas é apenas a este preço que se faz História.” P. 132-133.

Não há problema em iniciar uma pesquisa, imbuído de uma certa visão, contanto que se os documentos analisados a desmentirem, o historiador abandone-a.

“Um preconceito como ponto de partida é estimulante por certo, mas é necessário saber se resignar a abandoná-lo sempre que os documentos assim o impuserem.” P. 133.

Isto é precisamente o que historiadores relativistas não farão. Ou as vezes nem são relativistas, apenas querem porque querem manter seus preconceitos a despeito de toda e qualquer evidência que os contrariem.

PERNOUD, Régine. Idade Média: O Que Não Nos Ensinaram. São Paulo: Linotipo Digital, 2016. (PDF).

quarta-feira, 25 de agosto de 2021

Idade Média: O Que Não Nos Ensinaram

PERNOUD, Régine. Idade Média: O Que Não Nos Ensinaram. São Paulo: Linotipo Digital, 2016. (PDF).

Ainda hoje é comum, as pessoas vincularem a Idade Média, a um período sombrio e sem avanço significativo algum, seja nas artes, literatura, poesia, ciências. Uma era de trevas sobre a Europa, precisamente por estar sob a influência cristã. Régine Pernoud, Historiadora, Arquivista e Paleografa, com um Ph.D em Letras na Ècole Nationale des Chartes, na França, que trabalhou durante décadas chafurdando antigos documentos empoeirados da idade medieval, discorda desse diagnóstico.

“Mil anos sem produção poética ou literária digna desse nome, é concebível? Mil anos vividos pelo homem sem que se tenha exprimido nada de belo, de profundo, de grande, sobre ele mesmo? Quem acreditaria nisto? No entanto, fizemos acreditar nisso pessoas muito inteligentes que somos nós mesmos, os franceses, e isso por quase quatrocentos anos.” P. 47.

Por exemplo, é comum haver uma sobrevalorização da civilização islâmica que detinha o monopólio do saber. De fato, os árabes muçulmanos na Idade Média, deram grandes contribuições aos vários ramos do conhecimento, inclusive na ciência. Fizeram coisas incríveis. Isso é um fato bem atestado. Não se pode negá-lo. Embora isso não se configure numa dita idade de ouro. Entretanto, essa não é toda história. Eles fizeram o que fizeram, porque o Ocidente conquistado, tinha todo o aparato (ou considerável parte dele), para que a civilização islâmica pudesse florescer.

“Esquecemos frequentemente estes pormenores quando se trata das traduções de Aristóteles, que os filósofos árabes fizeram, em seguida, na Espanha; jamais teriam podido empreender semelhante empreendimento em Sevilha, como houvessem encontrado aí as bibliotecas que haviam conservado as obras de Aristóteles, e isto bem antes da invasão, ou seja, para a Espanha, antes do século VIII. A ciência e o pensamento árabes não fizeram mais do que aprofundar-se nas fontes preexistentes, a dos manuscritos que permitiram este conhecimento de Aristóteles e de outros escritores antigos. Seria um verdadeiro absurdo supor o contrário, como, aliás, se fez. A culpa é dos nossos livros escolares que mencionam Avicena e Averróis, mas passam completamente por cima de Isidoro de Sevilha. Jacques Fontaine chamou atenção sobre o fato de que, em arquitetura, o arco otomano, que se atribui geralmente aos árabes, existia há mais de cem anos antes de sua eclosão nesta Espanha ‘visigótica’, que ele tão bem estudou.” P. 50.

Esse é apenas um fator. Existem outros.

É na modernidade renascentista que se volta para a revalorização da Antiguidade Clássica e não na medievalidade, que a escravidão floresce. Apesar de na segunda ter existido a servidão, em que o servo estava preso a terra.

“[...] há grande distância entre esta servidão medieval e o renascimento da escravidão que se produziu bruscamente no século XVI, nas colônias da América. Ora, trata-se de escravidão, de pessoas consideradas e tratadas como coisas, vendidas e transportadas como carregamento de mercadorias comuns. É, realmente, a volta à escravidão determinada pela expansão colonial que caracteriza o período clássico. E não se vê humanismo em destaque nessa época que prestasse alguma atenção a esta porção da humanidade que foi escravizada como na Antiguidade. No entanto, parece não haver dúvida que a reconquista de influência pela Antiguidade desempenhou papel decisivo para justificar este injustificável comércio.” P. 80.

Pernoud também argumenta que no medievo, a igreja católica lutou contra os casamentos forçados. Enquanto que nos países muçulmanos até hoje, a livre escolha do casamento praticamente não existe.

“Uma força lutou contra essas uniões impostas, e esta foi a Igreja; ela multiplicou, no direito canônico, as causas de nulidade, reclamou sem cessar a liberdade para os que se unem, um com relação ao outro e, com frequência, mostrou-se bastante indulgente ao tolerar, na realidade, a ruptura de laços impostos — muito mais nesta época do que mais tarde, notemos. O resultado é a constatação que provém da simples evidência de que o progresso da livre escolha do esposo acompanhou em toda parte o progresso da difusão do cristianismo. Hoje ainda é, em países cristãos, que esta liberdade, tão justamente reclamada, é reconhecida pelas leis, enquanto que, nos países muçulmanos ou nos países do Extremo Oriente, essa liberdade, que nos parece essencial, não existe ou só recentemente foi concedida.” P. 87.

As mulheres também tinham uma certa autonomia nas atividades e funções que compõe o mundo do trabalho. Ironicamente, é na idade moderna que a mulher começa a perder mais e mais direitos e liberdades.

“Basta dizer que o lugar da mulher na Igreja é exatamente o mesmo que ela ocupou na sociedade civil e que, pouco a pouco, lhe foi retirado, depois da Idade Média, tudo o que lhe conferia alguma autonomia, alguma independência, alguma instrução.” P. 91

“Nas atas de notários é muito frequente ver uma mulher casada agir por si mesma, abrir, por exemplo, uma loja ou uma venda, e isto sem ser obrigada a apresentar uma autorização do marido. Enfim, os registros de impostos (nós diríamos, os registros de coletor), desde que foram conservados, como é o caso de Paris, no fim do século XIII, mostram multidão de mulheres exercendo funções: professora, médica, boticária, estucadora, tintureira, copista, miniaturista, encadernadora etc. Não é senão no fim do século XVI, por um decreto do Parlamento, datado de 1593, que a mulher será afastada explicitamente de toda a função no Estado. A influência crescente do direito romano não tarda então a confinar a mulher no que foi sempre seu domínio privilegiado: os cuidados domésticos e a educação dos filhos.” P. 92-93.

Pergunto-me: por mais que haja essa “multidão de mulheres exercendo funções”, nos documentos pesquisados pela Pernoud, não seriam essas mulheres exceção e não a regra?  

No medievo já se sabia que a Terra era redonda.

“Quando preparávamos, nos Arquivos Nacionais, uma exposição sobre o século de São Luís, enviei uma assistente, aliás bastante culta, para consultar, de Brunetto Latini, a passagem bem conhecida do Tesouro, em que ele explicava a seus leitores, em meados do século XIII, a redondeza da terra. [...] Galileu não tinha descoberto que a terra era redonda; o fato já era conhecido há mais de quatro séculos.” P. 96.

Sobre a Inquisição:

“Sob vários aspectos, a Inquisição foi a reação de defesa de uma sociedade para a qual, com razão ou sem ela, a preservação da fé pareceria tão importante como a da saúde física para a atualidade. É palpável aqui o que faz a diferença de uma época para outra, isto é, diferença de critérios, de escala de valores. E é elementar em História começar por levá-los em conta, ou seja, respeitá-los, sem o que o historiador se transforme em juiz.” P. 99.

Pernoud parece dar aquela bela passada de pano para os abusos da igreja católica. Seria por ela ser adepta dessa religião? Talvez.

“De fato, para o crente — e a imensa maioria acreditava, durante a Idade Média — a Igreja está perfeitamente em seu direito quando exerce o poder de jurisdição: enquanto que guardiã da fé, esse direito lhe foi sempre reconhecido pelos que, pelo batismo, pertenciam à Igreja. Daí, por exemplo, a aceitação geral de sanções tais como a excomunhão ou a interdição. Excomungar é colocar fora da comunidade de fiéis quem não se conforma com as regras instituídas pela Igreja enquanto sociedade; é um ‘colocar fora do jogo’, como se pratica em toda parte com quem trapaceia, quem trai, quem não aceita as regras de uma sociedade, de um clube, de um partido, de uma associação qualquer, à qual, anteriormente, pretendia pertencer. Na mesma linha das sanções eclesiásticas, a interdição condenava a uma espécie de excomunhão geral um território inteiro, toda uma cidade, para levar à obediência seu responsável: senhor, rei, até abades etc. Esta espécie de banimento da comunidade dos fiéis era o meio mais eficaz de obter o arrependimento do culpado, porque a interdição compreendia a suspensão de todas as cerimônias religiosas; os sinos deixavam de tocar, os ofícios religiosos (casamentos, enterros...) não eram mais celebrados, o que tornava por demais intolerável a vida das populações.” P. 102-103.

Concluo com estas palavras:

“Haveria um primeiro progresso decisivo a fazer com respeito à Idade Média: seria aceitar que ‘estas pessoas’ tenham sido pessoas como nós; uma humanidade como a nossa, aliás, nem melhor, nem pior, mas diante da qual não basta fazer um gesto de desprezo ou um sorriso condescendente; pode-se estudá-la, serenamente, como a qualquer outra.” P. 122.