domingo, 21 de fevereiro de 2016

Histórias Cruzadas


“Ninguém pode exigir que qualquer mulher branca atenda em ala ou quarto em que homens negros estejam internados. Livros não poderão ser trocados entre escolas de brancos e de negros, e deverão continuar sendo usados pela raça que os usou primeiro. Barbeiros de cor não poderão atender a mulheres e meninas brancas.” (Mississipi – Leis de Conduta)

Um grande e comovente filme, que traz a infeliz história do racismo, na década de 1960 nos EUA. A história se passa na cidade de Jackson, interior do Mississipi, um dos Estados mais racistas da América.

As empregadas domésticas "de cor" são as protagonistas. Elas criam os filhos e filhas das senhoras brancas, educam, dão conselhos, limpam as suas bundas, etc., para depois essas mesmas crianças crescerem, perderem a pureza e inocência, virarem patrões, e finalmente, perpetuar o racismo, preconceito e discriminação ensinados pelos seus pais e sociedade.

O absurdo das humilhações que as negras sofrem nas casas dos brancos são tão grandes, que uma das peruas brancas resolve criar um projeto de lei, para que as domésticas tenham um banheiro separado para fazer as suas necessidades. O motivo: os negros têm doenças diferentes das pessoas brancas. Suas doenças são piores. Eles precisam mijar e cagar em suas próprias privadas. O lema da época era “iguais, mas separados”.

A cena é a seguinte, a gostosinha branca mais racista da trama está com vontade de cagar ou mijar (o filme não diz o que é). Mas ela se recusa a usar o banheiro da casa de sua amiga, porque a exemplo de sua casa, ali também a empregada negra usa o mesmo banheiro.

Aibileen: - Hilly, eu gostaria que você usasse o banheiro.

 Hilly: - Estou bem.

Mãe da Hilly: - Ela só está chateada porque a negra usa o banheiro social e nós também.

Hilly diz a Aibileen: - Não prefere que eles façam as necessidades lá fora? [...] cada centavo gasto com um banheiro para negros será recuperado quando a casa for vendida. É perigoso. Eles têm doenças diferentes de nós.

Histórias cruzadas também tem como protagonista,  uma linda jovem branca, que não se encaixa nos estereótipos e obrigações sociais que a sua cidade impõe. Ela resolve escrever um livro sobre o drama e experiências das domésticas da cidade. Inicialmente duas começam a relatar as suas histórias e depois conseguem angariar mais voluntárias para a composição do livro. Tudo é feito às escondidas, visto que se a cidade souber que uma obra que denuncia os abusos e humilhações que empregadas domésticas vivem diariamente, por anos a fio, está sendo escrita pelas negras residentes de Jackson, a coisa vai ficar feia para o lado delas.

O livro é finalmente publicado, com muitos exemplares vendidos. Mesmo que a situação de humilhação ainda se perpetue por muitos anos, foi um grande passo dado para emancipação dos negros no Mississipi.

Dezenas de anos depois do movimento pelos direitos civis, como será que está essa absurda e delicada questão do racismo no Mississipi, principalmente no interior? Como é a relação entre brancos e negros? A situação financeira dos afrodescendentes melhorou desde então? Ou esse Estado ainda carrega os resquícios da segregação? Para responder algumas dessas perguntas, basta dá uma olhada nessas matérias:

http://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult94u449367.shtml

http://g1.globo.com/mundo/noticia/2012/07/casal-negro-americano-tem-casamento-negado-por-racismo.html

Quanto ao segundo link, ele começa dizendo:

“Um casal do Mississippi, sudeste dos EUA, sofreu um duro golpe quando o pastor da igreja que frequentavam comunicou que o casamento não poderia ser celebrado no local por serem negros, informou o canal ABC.”

“Ele [o pastor] afirmou que vários integrantes brancos da congregação foram contrários, de forma violenta, à celebração do casamento de Charles y Te'Andrea Wilson. Alguns o ameaçaram de demissão.”

Ah, o amor cristão...

Link do filme:

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