quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Ética e Vergonha na Cara


CORTELLA, Mário Sérgio; FILHO, Clóvis de Barros. Ética e Vergonha na Cara. São Paulo: Papiro 7 Mares, 2014. (PDF).

Venho trazer aqui, mais um livro escrito por dois intelectuais queridinhos do grande público. Acadêmicos populares, que vem ganhando muito destaque nos últimos anos. Mário Cortella (Doutor em Educação na PUC-SP) e Clóvis Filho (Doutor em Ciências da Comunicação na USP).

O livro é basicamente um diálogo super inteligente entre os dois. Concordam em tudo. Não é debate, não é um confronto de ideias. O tema gira em torno da ética do cotidiano, como o título já diz.

Num determinado ponto do diálogo, Barros fala:

Quando visitamos empresas, geralmente nos deparamos com o banner de valores. E, em alguns, podemos ler: HONESTIDADE, CRIATIVIDADE, TRANSPARÊNCIA; em seguida, o invariável: FOCO NO RESULTADO. Um fato interessante é que a palavra foco inevitavelmente vem acompanhada da palavra resultado, como se fosse uma obviedade. Não sei também se você, Cortella, já refletiu sobre a bobagem que é fazer uma lista em que um dos itens tem a palavra foco. Porque nesse caso ficam anulados os outros itens. Se o oftalmologista diz: ‘Foque a terceira letra’, todas as outras letras perdem o foco.” P. 13.

As empresas acabam se contradizendo. O foco delas é o FOCO. Honestidade e Transparência, em não raras vezes não são os meios para se chegar ao fim (FOCO). E a Criatividade? Esta é usada para alcançar o FOCO, sem muita (ou nenhuma) relação com aquelas. Como Barros fala um pouco antes:

“A lógica do resultado, da meta e do sucesso acaba se impondo de tal forma que os procedimentos e a maneira de atingir um objetivo acabam sendo sucateados e colocados como uma questão menor”. P. 13.

Ele pergunta:

“[...] se uma conduta vale em função do seu resultado, qual é o bom resultado que me autoriza a concluir que agi adequadamente?” P. 18.

Qual é a lógica empresarial?

“Não vamos ser hipócritas. A definição dos resultados é um gesto de poder que deixa bem claro o que importa. E o curioso no caso das organizações é que elas são muito pouco cínicas e dissimuladoras. Afinal, o foco é no resultado, só não vê quem não quer. Qualquer outro princípio é válido desde que não comprometa o princípio maior, que é o do resultado. Enquanto estivermos apoiados nessa lógica, parece-me absolutamente compreensível que as pessoas ‘colem’, que comprem as respostas do concurso público, porque fomos treinados para isso.” P. 21.

Acho extremamente difícil encontrar uma empresa que trabalhe de maneira totalmente idônea. Mas diante dos altos impostos cobrados, por exemplo, pelo Estado brasileiro, fica muito difícil trabalhar na base da Honestidade e Transparência. Qual é a empresa que nunca sonegou um imposto sequer? Devem todas serem condenadas? Talvez não. O governo de certa forma estimula-nos a ir contra as leis, quando cobra demais, e não repassa em infra-estrutura, educação, saúde e segurança, os impostos recolhidos. Ou melhor dizendo: os impostos que nos são roubados. Bem, os autores não concordarão com essa minha “defesa” de sonegação de impostos. Seria uma atitude cínica de minha parte, na visão deles.

A Ética conforme Barros diz, é transcendente. Nós, humanos, temos a capacidade de abstração; de racionalização; de introspecção. Não agimos somente por instinto, como os outros animais. Temos as prerrogativas da escolha.

“O homem transcende a sua natureza. Ele inventa, cria, improvisa, inova, empreende, pensa em soluções nunca antes pensadas para situações nunca antes vividas. E tenho a impressão de que, se não se entende isso, a ideia de ética fica 'capenga'. Porque a ética surge por isso. Ela é a transcendência em relação à natureza; a necessidade de encontrar caminhos quando o instinto não responde mais; a necessidade de perceber que vontade não é desejo, porque vontade, muito mais do que uma inclinação do corpo, é uma decisão racional, elaborada e criativa sobre para onde queremos ir. E, por isso, claro está que cabe ao homem fazer o que nenhuma outra criatura mais precisa fazer, como já mencionei: inventar, criar, improvisar, inovar, empreender e, sobretudo, refletir sobre a melhor maneira de conviver.” P. 25.

“Ou seja, as relações sociais, os papéis sociais são o que são, mas poderiam ser  diferentes. Porque não somos regidos pela nossa natureza, podemos transcendê-la. Devemos transcendê-la. Devemos sempre buscar, portanto, uma solução de convivência que nos pareça mais adequada”. P. 26.

Cortella concorda:

Gosto de refletir sobre isso. Trabalho um pouco essa ideia que você expôs quando digo que a ética é uma transgressão da biologia, isto é, uma transgressão da natureza. Toda a ética, no meu ponto de vista, é transcendental sem ser necessariamente religiosa ou metafísica. Claro que é possível ter uma ética religiosa ou metafísica, sem dúvida. Aliás, estão aí os fundamentos kantianos, os fundamentos aristotélicos, os fundamentos platônicos... até Espinosa vai dar certa fundamentação metafísica à questão ética. Mas penso que a ética é transcendência nesse sentido rousseauniano que você usou do ir além-corpo, além-biologia, além-natureza; isto é, ruptura, estilhaçamento daquilo que é o instinto indomável que nós não temos”. P. 27.

Cortella conclui:

“Assim, o que nos caracteriza é a possibilidade que a formiga, o gato e o pássaro não têm, isto é, a possibilidade de escolher a conduta. Inclusive, escolher errado. E escolher certo ou errado é justamente o campo da ética como princípio.” P. 27.

Segundo Cortella, “a ética implica necessariamente conduzir a si mesmo.” P. 28.

De onde vem a ideia de que a virtude é algo que por vontade própria escolhemos fazer? E a ideia de igualdade? Barros responde:

“O que é mais bonito no pensamento cristão – com o perdão pela ousadia – é a própria mudança da ideia de virtude. Para os gregos, a virtude é a própria força, é o talento natural, digamos, atualizado. A virtude é a própria beleza, a própria rapidez, é um atributo da natureza de um corpo. No pensamento cristão, a virtude deixa de ser isso. Ela passa a ser aquilo que livremente decidimos fazer com os talentos que são os nossos. Fiz minha tese de doutorado na França com a ajuda do professor Bourdieu. Eu conversava com ele e tinha a nítida sensação de que não jogávamos na mesma divisão, porque seu patamar de intelecção é outro. Ele falava e eu, muito mais novo, quase um moleque, procurava aprender... O que diria um grego? ‘Há uma discrepância de virtude porque ele tem uma capacidade intelectiva que você não terá nunca.’ O que dirá o pensamento cristão? ‘Não é bem assim. Vai depender do que ele decidir fazer com o talento que é o dele e vai depender do que você decidir fazer com o talento que é o seu.’ Podemos não perceber, mas isso é redentor. Porque a própria ideia de igualdade, que é absolutamente fundamental em qualquer reflexão sobre ética, surge aí. A ética grega é uma ética aristocrática”. P. 35-36.

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