segunda-feira, 17 de abril de 2017

Reforma: Renovação da Igreja pelo Evangelho


FISCHER, Joachim H. Reforma: Renovação da Igreja pelo Evangelho. São Leopoldo: Sinodal/EST, 2006.

“A origem da Reforma protestante foi a redescoberta da justificação pela graça de Deus mediante a fé.” P. 27.

500 anos da Reforma Protestante! Passaram-se cinco décadas desde 1517, quando Lutero desafiou a autoridade católica, levando consigo, milhões de pessoas a adotarem um novo estilo de culto ao deus judaico-cristão. A reforma desencadeou um movimento que mudou os rumos do mundo. Fez parte de um movimento maior, o Renascimento, iniciado no fim do século XIV, que começou a trazer gradativamente uma nova visão há muitos europeus, que se deram conta de que o antigo sistema de crenças, já não explicava a realidade adequadamente.  O caminho estava sendo construído para que rupturas no catolicismo acontecessem.

Vejamos um pouco do que Fischer (Ph.D em História da Igreja na Universidade de Göttingen, na Alemanha) tem a nos dizer.

“Seu objetivo [da Renascença] era superar a Idade Média e seu pensamento filosófico e teológico, a Escolástica. Queria voltar às origens, às ‘fontes’; que a antiguidade renascesse e se tornasse modelo de concepção de vida. Voltou sua atenção ao ser humano, à natureza, às ciências naturais, ás pesquisas históricas. [...] Ao tentar superar a Idade Média, a Renascença ajudou a preparar o chão para o surgimento da Reforma protestante”. P. 14.15.  

Qual era o objetivo dos reformadores?

“Queriam renovar a igreja de seu tempo a partir do Evangelho e pelo Evangelho, testemunhado pela Sagrada Escritura. Pretendiam libertar a Igreja das tradições e leis humanas que ofuscaram a luz da palavra de Deus. Desejavam que toda a Igreja voltasse às suas origens, ao cristianismo dos tempos dos apóstolos. Foi, em termos gerais, o objetivo de todas as correntes da Reforma protestante, embora depois tenham trilhado caminhos diferentes entre si para alcançar aquele objetivo.” P. 16.  

Várias linhas de pensamento reformistas passaram a fazer o seu trabalho de proselitismo na Europa, alegando serem fieis ao espírito da Bíblia Sagrada, repudiando a igreja católica e muitas de suas doutrinas. O papa agora era visto como um (o) anticristo, a besta do derradeiro livro do Apocalipse. Quem quisesse ser salvo, que se desligasse do catolicismo e se juntasse as igrejas protestantes. Mas não qualquer uma. Não demorou muito para que os reformados começassem a brigar por picuinhas e crenças divergentes. Algo que vemos ainda nos dias atuais.

“Após a Reforma, os próprios protestantes trataram a Bíblia muitas vezes de modo legalista, contrariando o princípio de liberdade de suas próprias origens”. P. 20.

Mesmo assim:

“Muitas pessoas sentiram-se aprisionadas pelas estruturas eclesiásticas e sociais de seu tempo. Falava-se do cativeiro babilônico da Igreja: a instituição Igreja era mais importante do que as pessoas. A Reforma arrombou a prisão; colocou os prisioneiros em liberdade. Em relação à Igreja da época, a Reforma era um movimento libertador”. P. 26.

Até hoje, no catolicismo as pessoas têm menos importância que a instituição. Os casos de pedofilia que grassam aos montes entre os seus sacerdotes, é um exemplo escrachado do quanto às crianças molestadas nada valem, se isso colocar em risco a credibilidade e mexer nos cofres da igreja em indenizações.

Lutero, o iniciador da Reforma questionou:

A autoridade do papa;

Afirmou que os concílios da igreja não eram infalíveis (exemplo: concílio de Constança);

Condenou as indulgências;

Reconheceu dois sacramentos, em detrimento dos sete ensinados pelo catolicismo;

A eucaristia era com o pão e o vinho para os fieis;

O batismo tornava todos (leigos e padres) sacerdotes;

Etc.

As palavras e os escritos de Lutero abalaram as estruturas da Europa; logo muitas pessoas e regiões deram-lhe apoio, visto que não mais suportavam a mesmice e morbidez da igreja católica. O gordinho de Wittenberg era subversivo, rebelde, insurreto, insubmisso. Não demorou, para que os sacerdotes católicos exigissem uma retratação de Lutero. Como ela não veio, houve um repúdio recíproco entre a igreja e o reformador.

“Quando o núncio apostólico Jerônimo Aleander (1480-1542) queimou os escritos de Lutero na Bélgica, Lutero, por sua vez, queimou solenemente aquela bula papal e os decretos jurídicos dos papas em 10 de dezembro de 1520 na presença de professores e estudantes da universidade de Witteberg. Lutero já não esperava mais a renovação da Igreja papal. De sua parte, rompeu definitivamente com essa igreja”. P. 30. 

Lutero foi chamado a prestar depoimento a Dieta de Worms, pelo imperador Carlos V, em 1521. Não se retratou, contrariando o desejo do imperador. Foi considerado um herege por este, e acabou se escondendo com a ajuda de Frederico, o Sábio, em Wartburg. Num período de 10 meses ficou isolado de todos. Aproveitou para traduzir o Novo Testamento para a língua nativa. Assim como Erasmo de Roterdã, Lutero também era um humanista e, portanto, voltou às fontes das línguas originais gregas. Mais tarde com a colaboração de outros traduziu o Antigo Testamento para o alemão.

Lutero e Erasmo acabaram indo por caminhos distintos em suas perspectivas teológicas. Enquanto Lutero negava o livre arbítrio humano, Erasmo o afirmava. Sem acordo, Lutero rompe relações com ele.

“Em 1524/25, Lutero rompeu publicamente com Erasmo e os humanistas erasmianos. Isso aconteceu durante um debate literário de altíssimo nível intelectual sobre a questão ‘se a vontade [humana] efetua alguma coisa ou nada naquilo que concerne à salvação’ ou ‘do que o livre-arbítrio é capaz’. Erasmo respondeu que o livre-arbítrio ‘efetua alguma coisa’ quanto à salvação. Lutero, no entanto, afirmou categoricamente, no escrito ‘Da vontade cativa’ (1525): ‘Não pode haver livre-arbítrio nem no homem, nem num anjo, nem em qualquer outra criatura’.” P. 43.

Lutero brigou e discordou de muitos protestantes que iam surgindo. Vários temas referentes ao que a Bíblia ensina, era motivo de interpretações diferentes entre os reformadores. Lutero teve discórdias teológicas com Karltadt, Zwínglio, Tomás Muntzer e anabatistas. Muitos dos últimos foram massacrados por católicos e protestantes, por não aceitarem o batismo de crianças. Um anabatista radical, Tomás Muntzer, foi morto por pregar idéias revolucionárias no campo social e se juntar aos camponeses que exigiam mudanças, contra os senhores, que os exploravam. Rejeitado pelos luteranos e zwinglianos, Muntzer passou a ser visto positivamente séculos depois.

“Sua imagem só começou a mudar no contexto da Revolução francesa, no final do século XVIII (1789), e da historiografia marxista, que viu nele o paladino da libertação do povo de domínio e opressão feudal.” P. 47.

Sobre os judeus, Lutero não se colocou acima de sua época, reproduziu os mesmos pensamentos e atitudes de anti-semitismo contra eles. Num primeiro momento o reformador tinha esperanças de que os judeus aceitassem o cristianismo (protestante), como eles não aceitaram, mais tarde, seu ódio se fez presente em seus escritos. Fischer nos conta:

“[Lutero] rejeitou atos de vingança contra os judeus e não conclamou ‘as autoridades à matança de judeus’. Mas sugeriu uma série de medidas: queimar as sinagogas e escolas dos judeus, destruir suas casas, confiscar livros religiosos, proibir o ensino dos rabinos, proibir-lhes cobrar juros, confiscar seu dinheiro e jóias, exigir dos jovens e das jovens que trabalhassem e, finalmente, seguir o exemplo das autoridades da França, Espanha e Boêmia e[m] expulsar os judeus”. P. 52.

Ah o amor cristão...

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