sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Depois que o Pornô Acaba


Pornografia!

Todos já vimos (pelo menos os homens), nos masturbamos e idealizamos em nossos olhares gulosos, “comer” as gostosas desses filmes adultos. A fascinação de muitos, já começa na infância, e se estende pela adolescência, chegando à fase adulta, e não raras vezes, o desejo e vontade de ver esse tipo de entretenimento se prolongam por toda a vida.

No vídeo em questão, são entrevistados alguns dos atores e atrizes pioneiros dessa indústria tão rica e tão cobiçada por muitos. Algumas atrizes que ainda atuam, também dão os seus depoimentos, sobre como é viver nesse meio tão louco e perigoso.

Não é incomum, essas pessoas falarem sobre vícios em drogas, bebidas, depressão e tantos outros sentimentos negativos que podem vim, por estarem tão imersas nesse universo e não se sentirem bem, nessa profissão. As mulheres são as que mais se abrem (não há duplo sentido aqui) sobre as suas frustrações, medos e arrependimentos. Creio que muitas são sinceras em seus desabafos.

Algumas entrevistadas viraram religiosas, e se dizem extremamente arrependidas pela vida “devassa” que tinham quando faziam esses filmes “nojentos”. Outras já não têm mais idade para a coisa, também não eram muito felizes, mas não carregam tanto remorso ou arrependimento pelo que fizeram.

Nina Artley, atriz pornô da velha guarda que atua, fala algo bastante pertinente sobre o remorso e rejeição que muitas pessoas que fazem filmes adultos sentem posteriormente:

“Algumas estrelas pornô ‘encontram’ Deus e abandonam. Mas são pessoas que precisavam mesmo sair, e não tinham determinação para fazê-lo. Então, procuram algo externo para ajudá-las a sair. Existem várias pessoas no meio que não deveriam mesmo estar aqui, porque têm conflitos. Se eu tivesse sido criada para ter vergonha do meu corpo e para discriminar os homens e seus desejos horríveis, mas fizesse filmes pornôs por outros motivos, eventualmente, as coisas sairiam do controle. Só consigo negar por certo tempo. As pessoas tentam negar. Reprimem seus sentimentos com drogas e álcool ou o que quer que seja. Depois de seis meses, um ano, cinco anos, dez anos, não importa, elas dizem: ‘Quer saber? Não posso mais’. A religião, especialmente a ocidental e, especialmente, o Cristianismo, diz: ‘Eu te amo, eu te perdoo, você pode voltar para casa agora. E eu não o colocarei para fora’. Então, isso é poderoso demais e incrivelmente potente, ter alguém para lhe dizer finalmente: ‘Não tenho vergonha de você. Eu te amo. Você é bem vindo aqui’.”

Não tem como ignorar o que ela disse. A força psicológica que as religiões têm, seja para o bem ou para o mal, é incrivelmente poderosa. E é claro, que se você vive numa sociedade, mesmo que hipocritamente, condena/rechaça/repudia o sexo explícito e proibido dos filmes pornográficos, a despeito de milhões de litros de esperma derramados assistindo essa putaria toda, é evidente que mais cedo ou mais tarde, o sentimento de culpa e pecado virá na mente de muitos daqueles (principalmente mulheres) que fazem parte do show e foram condicionados a pensar assim.

O documentário nos brinda com a velha guarda dessa indústria tão potente e que teima em permanecer mesmo com a pirataria online ou em DVD. A indústria ainda tem muito fôlego. E não podia ser diferente, o sexo e suas fantasias fazem parte da essência do ser humano. A não ser que a frigidez ou outros problemas entrem no caminho. Alguns pensam mais na coisa, outros nem tanto, mas o sexo sempre foi e é, uma parte muito importante nos relacionamentos humanos.

XVÍDEOS, RETUBE, PORNTUBE e tantos sites, estão com força total aí. Rsrs. 

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Filha da Índia: A História de Jyoti Singh



“Segundo os últimos números oficiais, uma mulher é estuprada na Índia a cada 20 minutos. Mas muitos estupros não são denunciados.”

Uma linda garota, filha de pais pobres, com muitos sonhos, e uma vontade imensa de vencer e crescer na vida, para ajudar aos seus pais e ser útil a sociedade. Mas seis demônios, frutos de uma sociedade machista e doentia, puseram um fim trágico, a vida de Jyoti Singh, num estupro coletivo, extremamente violento e monstruoso, na capital da Índia, Nova Dhéli.

Voltando do cinema com um amigo da faculdade de Medicina, Singh e seu colega foram surpreendidos por esses seis filhos das trevas, que os colocaram dentro de um ônibus escolar e a estupraram. Não bastasse a violação da sua intimidade, eles a agrediram de tal forma, que ela em alguns dias depois, veio a óbito.

Em 17 de dezembro de 2012, um dia após o estupro, a população foi às ruas, pedir justiça. Milhares de estudantes enfrentaram a truculência da polícia, exigindo mudanças. As mulheres que durante todos esses anos, e por que não dizer milhares de anos, foram reivindicar mais igualdade. Algo que elas não têm nesse país, pois sofrem as consequências de serem consideradas seres de segunda classe, nessa nação.

Mukesh, de 28 anos, é o único dos estupradores que é entrevistado para o documentário. Vejam o que ele diz:

“Uma mulher decente, não andaria por aí, à noite. A mulher é muito mais responsável pelo estupro do que o homem.”

“Homens e mulheres não são iguais. A mulher deve fazer o serviço de casa, e não ficar por aí, em boates e bares à noite, fazendo coisas erradas e usando roupas erradas. Só 20% das mulheres são boas.”

Percebe-se uma frieza e indiferença total ao crime cometido. Para ele, a mulher não vale muita coisa. Entretanto, deve ser observado que a cultura em que ele vive, produziu esse tipo de pensamento. O patriarcado de milhares de anos impingiu na mente dos homens indianos a idiota ideia, de que eles têm direitos a isso e aquilo, e as mulheres só têm deveres e obrigações para com eles.

A mãe de Singh, emocionada, fala como foi o encontro dela com a filha no hospital:

“Ela me viu e começou a chorar. Eu disse para ela não se preocupar, pois tudo ficaria bem. Eu disse: ‘Seja o que for, ficaremos com você’.”

Sobre os estupradores, o pai da vítima desabafa:

“Chamá-los de humanos é difamar a humanidade. E sabemos que até os monstros têm limites. Eles são diabólicos. Eles passaram de todos os limites do mal. Nem o diabo confessaria um crime tão bárbaro.”

A sentença de 5 dos 6 réus foi à pena de morte, porém, um morreu na prisão, antes da pena ser aplicada. O sexto era menor idade, 17 anos, quando cometeu o crime e, assim, a sua punição foram apenas 3 míseros anos. Igualzinho aqui no Brasil, onde um marginal que não completou 18 anos, é tratado com mansidão e a pão de ló.

Não é dito quando os 4 foram executados. Se é que já foram. Tomara que sim. Se já estão mortos, com certeza, foram bem recepcionados no inferno.

No final do vídeo são mostrados os números de estupros em alguns países. É alarmante o grande número de mulheres, que são estupradas e violentadas, e acabam não denunciando a polícia. A impunidade também é grande nos países de primeiro mundo, como EUA e Inglaterra. O que impressiona é o número assustador de estupros que acontecem na África do Sul. A cada 26 segundos, uma mulher é estuprada nesse país. Sim, sim, é isso mesmo. 26 segundos, e não minutos!

E os estupradores são punidos?
...

Globo Repórter: Viagem a Índia


“1 bilhão de pessoas [em 2002]. Mais de 5 vezes a população do Brasil. A Índia é o segundo país mais populoso do mundo. Só fica atrás da China. E um dos mais pobres também. Já dá para imaginar a dimensão do problema social indiano. Existe muita miséria.”

Procurando documentários sobre a Índia, acabei assistindo esse antigo episódio do Globo Repórter de 2002. Um documentário que trata de modo geral, algumas características desse país tão populoso e muitas vezes tão estranho aos nossos olhos.

Começamos pelo Panda Vermelho, um animal que só existe nas florestas indianas, e que ainda os Cientistas não conseguiram catalogar a que família ele pertence. Sunita Pradhan (Ph.D em Zoologia, North Bengal University) fez uma pesquisa exaustiva sobre esse animal, resultando em sua tese doutoral. Foram 7 meses para achar o pequeno animal.

A vaca depois é a protagonista, é de conhecimento comum, que esse animal é sagrado nesse país, e, portanto, não pode ser comido. Porém, um detalhe curioso que não sabia: a vaca não é sagrada em todo país. Embora não seja dito em que região as mimosas podem ser saboreadas.

“Os indianos amam as vacas. São muito gratos a ela.”

Já por aqui, poucos de nós, ocidentais, nos preocupamos com esse animal. Ignoramos o sofrimento que milhões deles passam nos açougues, para nos alimentar. Isso, porque nos foi passada a inverídica informação de que não podemos viver sem carne. Fui convencido de que o melhor é não comer carne (só na teoria, pois na prática...), através do documentário A CARNE É FRACA, que pode ser visto aqui:


Indo para a região da Caxemira, lugar de conflito entre Índia e o Paquistão, o repórter irá filmar um tradicional casamento arranjado. Mas como ocidental, corre perigo de vida, por causa dos extremistas muçulmanos que têm um ódio endêmico e intolerante para com aqueles que não comungam de sua religião. O repórter Luís Nachibin revela:

“Eu passei cinco dias, aqui na Caxemira, e praticamente não coloquei o pé na rua, por ordem da polícia local. Eu, jornalista estrangeiro, com uma câmera de vídeo, seria uma presa rara e fácil para os terroristas. Se eles me pegassem, certamente conquistariam a atenção do mundo inteiro.”   

Quanto ao casamento, os noivos foram prometidos desde que nasceram, há 27 anos. Nunca se viram, nunca conversaram nem por telefone, carta, email, whatsapp, tinder, badoo, skipe, facebook... ops, nessa época não existiam essas redes sociais. Rsrs.

Apesar dos muitíssimos problemas sociais existentes, como a extrema pobreza da maioria esmagadora da população, a criminalidade não é proporcional à miséria que reina soberana na Índia. Mais uma vez invocando Nachibin, que diz:

“Andei de trem ordinário, fui a alguns dos bairros mais miseráveis do planeta, sempre com uma câmera de vídeo no ombro, e jamais percebi qualquer ameaça de roubo. O povo indiano aceita a própria condição social, sem cobiçar os bens do próximo. Essa aceitação, em parte, é resultado da forte religiosidade da população.”

Interessante e louvável isso. Excetuando a triste segregação que o sistema indiano de castas impõe a milhões de seus cidadãos. Mas o foco aí é o roubo, o furto, o assalto, isto é, a violência para tomar ilegitimamente aquilo que não é seu. Aqui no Brasil, sabemos como a coisa funciona. A criminalidade reina.

O vídeo é bom, trás muito mais coisas, mas por ora, é isso. 

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Antes que seja tarde - Filme


Link do filme:


Lendo o livro Antes que seja tarde, várias vezes os autores mencionam em suas páginas o filme de mesmo título, que sua igreja tinha produzido como parte do Global Freedom, projeto que tem por finalidade trabalhar em prol da liberdade, dignidade e fim do sistema de castas dos dalits na Índia.

O poder de um drama é muito poderoso em fazer as pessoas mais receptivas a uma causa. Por isso, a igreja do sr. Matthew Cork, resolveu gravar um filme que pudesse mostrar a violência que as crianças dalits sofrem. Vítimas não apenas da pobreza extrema, preconceito e discriminação, mas também do terrível tráfico sexual.

Crianças de apenas 4 anos de idade, são vendidas e escravizadas para satisfazer a libido doentia de homens maus, egoístas e inescrupulosos. Uma realidade que acomete milhões de crianças indianas, que são negociadas pelos próprios pais, muitos destes (como é o caso do filme), nem sabendo do negro destino que as espera, pensando que elas terão uma vida melhor.

Antes que seja tarde nos conta a história de Caden, um mauricinho idiota, mimado e muito rico da Califórnia, que não anda muito bem em seu namoro e com a separação de seus pais. Ele resolve com outros três amigos tão idiotas quanto ele, viajar para a Índia, e conhecer seus lugares exóticos. Sair da sua rotina de menino rico e fútil.

Na Índia, um pai e sua filha dalit, chamada Annika, vão lhe pedir dinheiro, pois faz três dias que ela não come. Caden se recusa a dar dinheiro a eles, e manda o pai de Annika arranjar um emprego. Algumas reviravoltas acontecem, fazendo com ele fique com a consciência pesada, por não tê-los ajudado. Ele acaba encontrando Karin, pai da garota, e este lhe diz que a vendeu, pois foi lhe prometido que ela teria uma vida melhor.

Caden não se conforma com isso, e diz a Karin, que ela está correndo perigo. Ambos vão atrás dela, em vários lugares de prostituição infantil na Índia, e a história termina com ela resgatada, e voltando a viver com o seu pai.

O filme tem uma carga religiosa cristã muito forte, visto que foi produzido por uma igreja. O protagonista Caden está em conflito com Deus, por este não ter evitado o divórcio de seus pais. Reclama o tempo todo de que Deus não ouve e não responde as suas orações, resultando no seu afastamento da igreja e dos caminhos de Deus.

Esse pano de fundo religioso pode não agradar a muitos telespectadores. Pode soar apelativo e proselitista. Chega a ser chato em alguns momentos a insistência nesse “relacionamento” mal resolvido entre Caden e seu deus. Mas como o filme foi produzido por uma igreja, não há nada de anormal nesse tipo de abordagem.

De qualquer maneira, apesar de alguns diálogos mal feitos e as interpretações regulares de seus atores, a história é boa e de extrema importância. Ela chama a atenção para algo terrivelmente real. Isso por si só, é o suficiente.

NUNCA SEREMOS LIVRES ATÉ QUE TODOS SEJAM

Que um futuro mais digno e feliz seja a sorte dessas crianças que tanto sofrem.

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Antes Que Seja Tarde


CORK, Matthew; KEMP; Kenneth. Antes que seja tarde. Rio de Janeiro: Graça Editorial, 2014.

Não esperava ver um livro desse quilate, publicado pela Graça Editorial. Ela é campeã em vender lixos de autores como o Kenneth Hagin, T. L. Osborn e tantas outras porcarias. Mas esse livro aqui é diferente e valeu muito a pena tê-lo lido.

A capa por si só, já chama a atenção de qualquer um. A criança indiana com lágrimas nos olhos e o subtítulo NENHUM DE NÓS ESTÁ LIVRE ENQUANTO UNS SÃO ESCRAVIZADOS é muito forte e impactante.

Muitas pessoas desinformadas têm a ingênua e fantasiosa ideia de que a escravidão terminou nos séculos anteriores. Pensam que vivemos uma era pós-escravista e pós-racista. Enquanto sociedade global e globalizada, estamos alguns passos a frente de nossos antepassados, somos evoluídos e superiores moralmente, dizem elas.

Mas as coisas nem sempre são como nós as idealizamos. Não obstante, o apartheid ter oficialmente acabado na África do Sul, em 1994, depois de muitas lutas e sangue derramado, e a segregação dos negros ter sido “banida” na década de 1960, com a luta pelos direitos civis, nos EUA - a discriminação, o preconceito, o racismo e a escravidão ainda permanecem na Índia e países vizinhos como o Nepal, Bangladesh e Paquistão. Um contingente expressivo de mais 250 milhões de pessoas, apenas na Índia, são vítimas diariamente, há milênios, de grande violência e castração de suas dignidades, por não fazerem parte das castas “superiores”.

“O drama desse povo é particularmente terrível. Fome, doença, abusos, exploração, violência física e espiritual, agressão à dignidade humana. Tudo é tangível. Incomparável.” P. 120.

“[...] mais de 250 milhões presos a um sistema por mais de três milênios, uma população inteira condenada ao abandono, exploração, isolamento, opressão e dificuldades. Em suma, excluídos de quaisquer benefícios sociais.” P. 122.

Este livro nos trás a infeliz situação dos dalits na Índia. Para as castas superiores, eles são os intocáveis, os inferiores, os sub-humanos, a escória da sociedade, os peões e todos os adjetivos ruins que imaginarmos. Não há esperança para eles no sistema religioso hindu. Arrisco dizer, que para 99% deles, não há mobilidade social alguma. É um sistema cruel, opressor e desumano. Os dalits são o grupo humano mais oprimido de todos os tempos. Nada os supera.

“Espera-se que os dalits cumpram funções sociais básicas: cuidar de dejetos humanos e animais, do lixo. Não são considerados humanos. Não têm acesso à educação. São usados e abusados em becos ermos da cidade e das densas florestas do interior da área rural e não possuem recursos ou direito à justiça. Não há proteção legal, acesso aos tribunais, eles não têm voz política nem esperança de melhoria de vida.” P. 35.

Mais informações e fatos chocantes e bárbaros são trazidos sobre os dalits:

“[...] Outras ocupações impuras incluem abate, curtume, remoção e descarte de animais mortos, limpezas de latrinas à mão e manejo de carcaças podres.” P. 142.

A religião hindu como discurso autoritativo divino, legitimador e legal, tem um papel de proeminência na configuração opressiva e discriminatória da sociedade indiana de castas.

“Dalith são escravos. Espera-se que eles sirvam às castas superiores. O hinduísmo ensina-lhes que o drama deles é resultado de algum crime terrível cometido em uma vida passada. A posição que ocupam na sociedade é seu destino. Pensar em fugir disso seria violar a regra do carma, a lei de causa e efeito, e tal infração nesta vida resultaria em um sofrimento maior na próxima. O destino é a casta. São o que são: escravos.” P. 141.

Udit Raj, um proeminente indiano dalit, uma das raras pessoas que conseguiram “escapar” do apartheid da Índia, também reconhece o papel nefasto do hinduísmo na perpetuação do sistema de castas:

“Os deuses e as deusas hindus deram aos dalits apenas indignidade, fome e escravidão. Recusamo-nos a continuar a aceitar esse código de dominação por mais tempo. Os dalits precisam se libertar das algemas de seu passado de opressão e iniciar um renascimento por meio da educação e conscientização acerca dos direito humanos.” P. 98.

O relativismo cultural entra em colapso diante dessa triste situação. Como os relativistas culturais poderão argumentar em favor da não intervenção e ajuda externa (objetivo desse livro) para minar essa desumana forma de organização social? Se eles forem contra, podemos concluir que são a favor de que milhões de pessoas continuem sendo tratadas como inferiores e sub-humanos? Eles não estão, dessa maneira, apoiando o etnocentrismo das castas “superiores”? Concordo com o André Luiz dos Santos, Ph.D em Antropologia na Universidade de Londres e Professor da Unicamp, quando ele diz:

“Não há razão para querer imortalizar as facetas culturais que resultam da miséria e da opressão.” P. 20. [1]

Não querendo imortalizar as facetas culturais que resultam da miséria e da opressão”, o Matthew Cork, um pastor norte-americano, saiu de sua zona de conforto, e se propôs a fazer algo por esse povo indiano.

“Era hora de deixar para trás tudo o que havia levado comigo, livrar-me de preconceitos e pressupostos, desse complexo de superioridade norte-americano natural, construído em grande parte pela mídia.” P. 27.

Como ele mesmo diz, agora ele tinha uma visão pela qual valeria morrer”. P. 36.   Juntamente com a sua igreja, ele se comprometeu a construir 200 escolas (dentre 1000) para crianças dalits – o futuro e a esperança de um povo tão sofrido.

“As crianças são o futuro. Essas jovens mentes podem absorver novas possibilidades. Estão famintas por conhecimento, abraçam a ideia de que foram feitas de modo incrivelmente maravilhoso e de que há potencial ilimitado além das precárias condições em que vivem.” P. 36.

Páginas a frente ele retoma o papel transformador que as crianças podem ter, caso tenham uma educação emancipadora.

“De algum modo, sabíamos que, se houvesse escolas suficientes e crianças com uma visão de mundo ampla e desperta, talvez o sistema de castas sucumbisse sob o terrível peso do próprio abuso cruel, sendo exposto como realmente é: a escravidão dos dias atuais. P. 119-120.

Um filantropo muito rico que fundou uma escola para crianças dalits, mostra-se esperançoso com os resultados que a educação desses pequeninos pode gerar:

“Nossa intenção é que essas crianças quebrem todas as barreiras sociais. Esperamos que se tornem os líderes empresariais e intelectuais da próxima geração.” P. 133.

Dentro dessa perspectiva e visão, diga-se de passagem, tarefa mui grandiosa e árdua, Cork e sua igreja tiveram a ajuda inestimável de Joseph D’ Souza, um indiano corajoso e cabra macho, que pouco se lixou para a sua casta “superior” e se casou com uma dalit. Vivenciando diariamente a discriminação que sua esposa e todos os dalits sofriam, ele resolveu lutar pela eliminação desse sistema segregador e escravizante. Ele diz:

“O trabalho que estamos realizando tem consequências sociais históricas. As iniciativas terão implicações nacionais para milhões de pessoas da geração emergente. Uma coalização de líderes de várias origens religiosas e políticas se uniram na urgência de erradicar um sistema que massacrou o espírito de todo um povo por centenas e, talvez, milhares de anos. Este é um momento crucial na história da Índia.” P. 33.

Na verdade, muito antes do Cork está envolvido na causa, o D’ Souza já trabalhava há anos pela libertação dos dalits. Esse livro conta-nos como eles se conheceram e sua posterior sociedade para a construção das escolas para as crianças intocáveis. Cork relembra quando foi à primeira vez a Índia, e se deparou com os pequeninos:

“Sabia sobre o tráfico humano e o fato chocante de que essas crianças não eram simples pedintes de rua, e sim propriedades de exploradores que as soltavam atrás de estrangeiros com dinheiro no bolso. Tudo o que elas conseguem obter dos pedestres a caminho de seus afazeres vai diretamente para os cofres do líder da quadrilha. Essas crianças perdidas eram máquinas de fazer dinheiro para seus ‘tutores’.” P. 29.

Essas crianças são vítimas do tráfico humano, estupros e toda sorte de perversidade que homens inescrupulosos, com a ajuda do Estado e da religião hindu, podem perpetrar.

“O mundo precisa entender que a escravidão persiste. Ainda hoje, crianças são compradas e vendidas como bugingangas. Meninas ainda bem pequenas são forçadas a entrar no obscuro e ilícito comércio sexual. Na infância, são forçadas a esmolar nas ruas e levar o que recebem para encher os bolsos de bandidos, que abusam delas à noite.” P. 184.

Ele continua:

“Outras crianças são obrigadas a trabalhar em fábricas por muitas horas, sob intenso calor e metas de produção rígidas, tudo isso em condições precárias, excluindo esses jovens de qualquer possibilidade de educação. As escuras ruas da abarrotada cidade se transformam em um mercado onde adolescentes são oferecidos por dinheiro para satisfazer o furor de seres primitivos e imorais, que sequer pensam no impacto daqueles poucos minutos abjetos sobre aquelas vidas.” P. 184-185.

Diante desse quadro tão assustador e nefasto, Cork é um pastor evangélico que arregaçou as mangas, juntamente com a sua igreja e investiram recursos e mais recursos para ajudar na erradicação do sistema de castas na Índia. Esse livro conta como foi essa aventura, que gerou e tem gerado muitos frutos.

Não são todos os pastores que são corruptos e gananciosos. São de pessoas e igrejas assim, que o mundo precisa. Não importa de que religião ou igreja seja. Contanto que tal religião ou igreja não trabalhem para a alienação humana, a exemplo do Hinduísmo, todas podem e devem lutar pela emancipação e dignidade humana. Coletiva ou individualmente.

REFERÊNCIAS

[1] - SANTOS, José Luiz. O Que é Cultura. 16ª ed. São Paulo: Brasiliense, 2006.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Retorno à Historia do Pensamento Cristão


GONZÁLEZ, Justo. Retorno à história do pensamento cristão. São Paulo: Hagnos, 2011.

Link do livro em PDF:


Justo L. González (Ph.D e Mestrado em Teologia Histórica na Universidade de Yale, EUA) é um dos escritores protestantes que mais admiro e leio. Ele foge do estereótipo fundamentalista-conservador, algo tão comum nos arraiais evangélicos. Algumas de suas obras sobre a história da igreja têm se destacado, por se diferenciar dos livros que sempre apresentam o atlântico norte, como o ápice do Cristianismo. González rompe com isso, e mostra que a pujança da cristandade e o seu eixo, agora se encontram na América do Sul, no oriente e no continente africano e asiático. Eis aí, uma de suas peculiaridades.

O livro a que venho resumir, segundo o próprio autor, é uma nota de rodapé, isto é, um apêndice de sua obra A História do Pensamento Cristão (publicada pela editora Cultura Cristã em três volumes, no Brasil), escrita muitos anos antes, mas que precisou ser revisitada, o que gerou esse retorno a ela. Uma interpretação da primeira obra, onde nesta, ele apenas expôs o que era o consenso entre os acadêmicos sobre os temas apresentados. Dessa vez é o González quem dá as cartas.

Em linhas gerais, foram três, os tipos de Teologia que perpassaram a história do Cristianismo, que são mais bem representadas pelos Teólogos e Pais da Igreja, Tertuliano, Orígenes e Irineu. Teologia do tipo A, B e C, classifica o autor. Mesmo que elementos da Teologia do tipo A estejam na Teologia do tipo C, e características desta, façam parte da Teologia do tipo B, e vice-versa, há peculiaridades que as distingue uma das outras.

Fatores de ordem social, cultural e econômica, logicamente forjaram a estrutura de cada uma dessas teologias, fazendo com que os três Teólogos edificassem suas apologias, escritos e interpretações bíblicas, para responder aos problemas e inquietações que eles se depararam ao logo de seu ministério cristão. Nenhuma dessas construções teológicas surgiram no vácuo, argumenta González.

“Quando nos aproximamos delas [as escrituras], não o fazemos com a mente totalmente em branco para deixar que as Escrituras nos falem. Pelo contrário, estando ou não cientes disso, ao nos aproximar das Escrituras, trazemos conosco toda uma tradição de interpretação escriturística que nos leva a entender o texto bíblico de um modo particular. Em outras palavras, todos lemos a Bíblia através de óculos que nos foram legados por nossa tradição, e da cor de suas lentes depende grande parte do que podemos ou não enxergar nas Escrituras.” P. 16.

O que ele diz aí é muito pertinente. Sempre somos tentados a interpretar os escritos da história, ancorados numa ilusão de que seremos eminentemente objetivos. Não vem a nossa mente, que somos produtos de um tempo histórico específico e, assim, trazemos conosco toda uma tradição de interpretação.

Como aconteceu com Tertualino, Orígenes e Irineu, se repetiu com Lutero, Calvino, Teólogos católicos e etc. Nossa Teologia pretende responder as problemáticas do nosso tempo. E quando vamos aos textos fundantes, nossa leitura sempre estará enviesada pelos nossos óculos construídos e reconstruídos, conforme a situação política, social, econômica e cultural que nos cerca.

Para González, a Teologia do tipo C, de Irineu, é a que mais se aproxima dos ensinos de Jesus e do Novo Testamento. A geografia, o lugar de onde Irineu exerceu o seu pastorado, tem papel importante nisso. 

“Em razão de a Palestina, Antioquia e a Ásia Menor serem terras onde ocorreram muitos dos acontecimentos narrados no Novo Testamento, os cristãos dessa região tinham raízes mais profundas na história do evangelho do que seus correligionários de Alexandria ou Cartago. Para eles, a essência da fé não se encontrava em uma série de verdades imutáveis vindas do céu [Teologia do tipo B], mas em certos acontecimentos que haviam ocorrido ali mesmo e entre as pessoas que tinham lhes legado a fé.” P. 37.

Apesar de Tertuliano e Orígenes depositarem sua fé no mesmo Cristo, suas abordagens, de certa forma serviram para que interesses escusos adentrassem ilegitimamente na práxis e ensinamentos da igreja.  

“Os outros dois tipos de teologia abriram caminho na sociedade greco-romana justamente por interpretar a fé em termos de duas tradições às quais essa sociedade dava alto valor. O tipo A faz uso da lei e da ordem (primeiro da lei romana, e depois da germânica ou sálica, da napoleônica, etc.) como seu ponto de contato com a sociedade e seus valores. O tipo B faz a mesma coisa com a filosofia (primeiro com a platônica, e depois com a aristotélica, a cartesiana, a hegeliaana, a do processo, etc.). Tudo isso implica que os dois primeiros tipos de teologia, ainda que seus expositores não o soubessem ou desejassem, acabaram servindo aos interesses dos poderosos e da elite intelectual. Embora, a princípio, os poderosos e os intelectuais tenham se oposto ao cristianismo, que foi objeto de zombaria por parte dos filósofos e de perseguição por parte dos governantes, quando finalmente o cristianismo se tornou a religião do Império, essas mesmas elites preferiram que ele fosse interpretado em termos da lei ou da filosofia, e não de uma história que resultaria no estabelecimento de uma nova ordem.” P. 104.

Num quadro explicativo, são sintetizadas as características de cada uma dessas teologias.


González interpreta e analisa toda a história do pensamento cristão dentro dessas três perspectivas teológicas. Passando pela Teologia Escolástica, Teologia dos Reformadores, Teologia Liberal, Teologia Fundamentalista, até os dias atuais - ora identificando aspectos da Teologia do tipo A, como a Teologia dominante, considerada a ortodoxa, tanto entre católicos e protestantes; ora identificando a Teologia do tipo B, como uma espécie de contestação aquela. A Teologia do tipo C, relegada a diminutos momentos.

No século XX, mediante as inúmeras teologias que surgem, sobretudo as teologias feministas, da libertação, Concílio do Vaticano II, os escritos de Karl Barth, teologia de Lund na igreja luterana, ocorre uma redescoberta da Teologia do tipo C.

“As diversas teologias da libertação — não somente as latino-americanas, mas também as negras, feministas e outras — orientam-se instintivamente pelas perspectivas do tipo C. Em razão de todas elas terem surgido dentro de contextos de opressão e se nutrirem da esperança de uma nova ordem.” P. 166.

É aí, que González não agradará as alas conservadoras e fundamentalistas do protestantismo e do catolicismo. Ele não se alinha ao conservadorismo tão comum na comunidade evangélica norte-americana e do lado sul da América. Percebe-se em seus livros uma atitude ecumênica e de aproximação com as várias tradições da cristandade.  Nem tampouco ele seria um liberal, ele rejeita, por exemplo, as reformulações existencialistas de Bultman, por estas não fazerem jus ao espírito do Novo Testamento. O aparato liberal não faz parte da teologia defendida pelo González.

“[...] o ‘proposicionalismo’ conservador quanto a ênfase na experiência dos liberais fracassam juntos com o fracasso dos mitos fundamentais da modernidade.” P. 173.

Essa é a visão do Teólogo luterano George Lindbeck, com a qual o autor concorda. E assim, ele rechaça o conservadorismo e o liberalismo teológicos. Ambos são produtos da cosmovisão falida do modernismo.

A Teologia do tipo C, dos primórdios do Cristianismo, propagada por Irineu de Lião, é a abordagem que mais se aproxima dos ensinos de Jesus e dos apóstolos, e com certeza, ela não está mancomunada com o fundamentalismo e liberalismo, pondera González.

Livro recomendado.

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Egito Revelado: Cleópatra


A última rainha do Egito. A mulher que conseguiu por quase 20 anos, conter o avanço romano sobre as terras dos faraós. 3000 anos de civilização chegam ao fim com a sua morte. Os encantos, mistérios e legado de um povo, chegam ao seu destino final.

Quase não se tem vestígios arqueológicos sobre Cleópatra, muitos, provavelmente foram destruídos ou desapareceram. Mesmo com toda a limitação que os artefatos e documentos nos impõe - a rainha Cleópatra - hoje tem uma nova história reconstruída pelos estudiosos, que vem desmentir as alegações romanas, altamente difamatórias sobre ela. Quanto a isso, Robert Bianchi, Ph.D pelo Instituto de Belas Artes da Universidade de Nova Iorque, dispara:

“Os romanos deturparam a história de Cleópatra. Fazendo dela, uma prostituta lascíva. Uma sedutora inconsequente, que entrava e saía da cama de qualquer romano que a desejasse.”

Como eu tinha dito no resumo de um documentário anterior que vi há poucos dias, eu também pensava que ela era uma espécie de maníaca sexual, que tinha ido pra cama com toda uma legião de soldados romanos. Quando surge esse tipo de relato fantasioso sobre alguma personagem histórica conhecida, somos propensos a acreditar logo de cara, acriticamente, sem questionar. O assunto envolvendo sexo chama logo a nossa atenção. E se for referente à difamação de alguém, aí é que damos crédito a esses tipos de estórias. Não que ela não pudesse ser uma mulher louca pela coisa, mas o respeito pelos dados históricos deve prevalecer.

Na contramão do que os romanos disseram acerca dela, o renomado Arqueólogo Zahi Hawass (Ph.D e Mestre em Egiptologia na Universidade da Pensilvânia, EUA) é só elogios a rainha:

“A vida de Cleópatra é um mistério. Mas ela foi uma rainha mágica. Sua beleza conquistou o coração dos dois homens mais poderosos da Terra.”

Cleópatra foi à última rainha da dinastia dos ptolomeus. Foram cerca de 300 anos que essa família governou o Egito. No início de seu reinado, Cleópatra aliou-se ao homem mais poderoso de Roma, Júlio César e teve um filho com ele, Cesário. Seu reinado foi na cidade de Alexandria, o centro intelectual do mundo naquela época, que abrigava em sua famosa biblioteca, mais de 700 mil pergaminhos sobre as mais diversas áreas do conhecimento. Era o centro mundial da difusão do saber.

“A biblioteca de Alexandria era o coração do mundo de Cleópatra. [...] ela [a biblioteca] teria abrigado mais de 700 mil pergaminhos. Gerações de ancestrais de Cleópatra foram implacáveis na ambição de transformar a cidade em um centro internacional de ensino e conhecimento.”

Cleópatra tinha uma mente sagaz, mostrando-se muito competente no nível intelectual. Era poliglota. De origem helenista, ela soube fundir a cultura do Egito e a grega. Ela que não era nada besta, tratou logo de assimilar a religião egípcia, declarando-se deusa do Egito. Mais uma vez destaco aqui as palavras de Hawass:

“Ela possuía tanta cultura para ser rainha do Egito, porque viveu na cidade mais sofisticada e maravilhosa do mundo, naquela época.”

A derradeira rainha do Egito sempre foi tema de livros, filmes e muitos documentários. E ainda muitos virão. Independente dos poucos vestígios documentais que temos sobre os seus feitos, ela já virou um mito. Ela é um ícone. Cleópatra faz parte da cultura pop.

Não obstante, ser muito difícil aparecer mais vestígios arqueológicos sobre ela, devemos torcer para que algo novo surja, seja das areias, templos, palácios ou algum pergaminho, e lance mais luz sobre o seu reinado e pessoa.  

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

O Sexo no Mundo Antigo: Prostituição em Pompéia


Pompéia, a cidade que foi engolida pelas cinzas causticantes do Vesúvio, era uma das cidades mais erotizadas de seu tempo. A putaria grassava em suas ruas, esquinas, tabernas... Uma cidade imersa na prostituição. Pinturas, esculturas e cerâmicas pornográficas eram algo comum nessa cidade. Era um mundo que fervilhava em sexo.

Quando foram descobertos os segredos sexuais de Pompéia, o mundo moderno ficou horrorizado com os bacanais, orgias, safadezas, prostituição e todo (ou quase todo) tipo de prática sexual, vivenciados pelos seus habitantes. Era uma cidade que abrigava seis mil pessoas, mas que tinha um número muito alto de lugares destinados a vender prazer. Arqueólogos identificaram quarenta e um bordéis, fora os bares, teatros, anfiteatros e tabernas. Onde pensarmos, tinha um lugarzinho para afogar as mágoas.

“Desde suas taças, até os postes nas ruas, Pompéia nadava em sexo.”

Mulheres da vida tinham a torto e a direito. Para todos os gostos e bolsos. Nem o liso com o seu pobre dinheirinho, se furtava a dá uma sapecada rapidinha a um preço camarada, em pequenos quartos ou becos da cidade. Para os cafetões da época, era um comércio altamente lucrativo. Pessoas dos altos escalões da sociedade tinham suas rameiras, para lhes proporcionar grandes lucros.

As garotas eram as lascadas dessa história, visto que eram em sua maioria, escravas, sem direito algum. Se a mulher romana praticamente não desfrutava de direito algum, naquela sociedade patriarcal e machista, imagine uma prisioneira de guerra. O seu destino era servir de objeto sexual a homens insaciáveis, que estavam pouco se lixando para elas. Até mulheres cristãs eram forçadas a se prostituírem, como forma de humilhação e punição a sua condição religiosa.

“[...] a maioria das prostitutas em bordéis são escravas roubadas de terras conquistadas da Europa, do norte da África e da Ásia. Elas são forçadas a fazer tudo que seus donos ordenam.”

Para entender o porquê da prostituição ser tão disseminada em Pompéia, o vídeo retrocede algumas décadas até o imperador Otávio Augustus, que quis moralizar a sociedade romana. Para isso, ele tornava o adultério um grave delito. Mas daí surgiu um grande problema, os nobres precisavam saciar suas vontades/desejos, Augustus relutantemente tornava assim, a prostituição legalizada, com o intuito de que os nobres não transassem com as mulheres de outros nobres, gerando transtornos incalculáveis. Tudo para preservar a “boa” moral da aristocracia.

“Ironicamente, as leis morais de Augustus fizeram o mercado da prostituição crescer. O sexo pago e o sexo com escravas domésticas, se tornaram alternativas simples e legais ao adultério.”

O império romano estava envolvido até o pescoço com o comércio sexual. Calígula, no ano 40, criou um imposto sobre a prostituição, arrecadando muito dinheiro para os cofres do império e para seu bolso. Ele mesmo tinha os seus aposentos para as orgias e bebedeiras. Basta lembrarmos do premiado e polêmico filme Calígula, da década de 1970. Nesse filme, a putaria é bem explícita e reflete o que eram os bacanais romanos e aventuras sexuais desse psicopata.  

Nero, outro maluco, sucede a Calígula. Foi outro que organizava bacanais, com muita bebida, danças e sexo.  

Como dizem, a prostituição é a profissão mais antiga do mundo, e acrecento: uma das mais tristes. No brasil, temos as nossas “Pompéias”. Um exemplo é a cidade de Uberlândia, em Minas Gerais, que sem dúvidas é uma das cidades brasileiras mais voltadas para esse ramo. Em 2005, nessa cidade, com 600 mil habitantes, foram contabilizadas cerca de 400 casas de prostituição. Fora as garotas de programa de rua. [1]

REFERÊNCIAS

[1] - https://www.youtube.com/watch?v=g1Dt5Z_JYpY

Jesus antes do Cristianismo


NOLAN, Albert. Jesus antes do cristianismo. 9º Impressão. São Paulo: Paulus, 2014.

Esse é o livro mais conhecido do Albert Nolan, um respeitado Teólogo católico sul-africano, que escreveu essa obra na década de 1970, num contexto extremamente sombrio em termos políticos, sociais e econômicos, não apenas na África do Sul, mas em todo planeta, de acordo com o autor.

“[...] Hoje nos encontramos frente a novas ameaças que, dizem, nos destruirão de modo muito mais garantido e inevitável do que uma guerra nuclear: a explosão populacional, a diminuição dos recursos naturais e dos suprimentos de alimentação, a poluição do meio ambiente e a escalada de violência. Qualquer um desses problemas seria por si só ameaça suficiente a nosso futuro. Tomados em conjunto significam catástrofe.” P. 18.

Ele escreveu isso há quase 40 anos. Ainda estamos aqui. Mesmo que seja difícil, espero que tenhamos muitos e muitos anos pela frente. Nada de catástrofe.

“[...] Jesus de Nazaré enfrentou basicamente o mesmo problema – ainda que tenha sido em escala muito menor. Ele viveu em época que parecia que o mundo estava prestes a chegar ao fim.” P. 22.

Dentro desse contexto, o que o homem da poeirenta e pobre Israel do século I, tem a nos dizer? O Jesus antes do cristianismo (antes das formulações teológicas) pode nos dá algum direcionamento? Assim como podemos estar à beira da catástrofe, Jesus também esteve.
Na introdução nos é dito:

“A fé em Jesus não é nosso ponto de partida, mas será, espero, nossa conclusão.” P. 11.

Não obstante, Nolan não cumpre o que diz. Sua análise em todos os capítulos está recheada de fé.

“Sua única motivação para curar as pessoas era a compaixão.” P. 59.

“O gesto de amizade de Jesus tornava bastante evidente...” P. 64.

“Não pode haver dúvida de que Jesus era pessoa notavelmente alegre e que sua alegria, assim como sua fé e esperança, era contagiante. [...] Jesus não só os curava e perdoava, como também lhes dissipava os temores e aliviava as preocupações. Sua simples presença os libertara.” P. 67.

E também de análises teológicas fincadas em estudos acadêmicos.

“É, portanto, bem provável que as histórias de milagres que chegaram até nós através dos evangelhos tenham recebido ENFEITES e EXAGEROS – e que, também, incluam relatos de acontecimentos que não eram originalmente nem milagres, nem maravilhas extraordinárias (por ex., a caminhada sobre as águas, a multiplicação dos pães, a maldição da figueira e a transformação da água em vinho). O estudo crítico dos textos tende a confirmar isso.” (Ênfase acrescentada) P. 58.

“A mesma ideia é apresentada para os leitores do evangelho na história do paralítico (Mc 2, 1-12 par). Se um homem pode se levantar e andar, então isso mostra que os seus pecados devem ter sido perdoados. Ele provavelmente sofria de complexo de culpa, que provocou paralisia psicossomática. Assim que Jesus lhe garantiu que seus pecados estavam perdoados, que não estava em dívida com Deus, seu sentimento fatalista de culpa foi removido e ele pôde andar de novo.” P. 65

“[...] Mesmo que Jesus não tenha realmente lido e comentado esse texto na sinagoga [Lucas: 4. 16-30], a avaliação de Lucas sobre a importância dessas passagens para a compreensão da práxis de Jesus é certamente correta.” P. 71.

Abrindo um parêntese: como claramente se vê, Nolan questiona a veracidade das próprias fontes primárias sobre a vida de Jesus. É um homem de fé, mas que não se incomoda em dizer abertamente que os evangelhos contêm inconsistências históricas. E ainda reinterpreta algumas curas ou milagres registrados nos evangelhos. Ele faz isso durante todo o livro.

Os evangélicos conservadores, que acreditam na inerrância das escrituras (a Bíblia não possui erros de espécie alguma), acham que proceder assim é incorrer numa incoerência sem tamanho. Como podemos acreditar nos evangelhos como a palavra de Deus, se ele possui inconsistências de qualquer ordem (moral, histórica, geográfica, etc.)?

Esse é um tipo de preocupação exclusivo dos arraiais evangélicos norte-americanos, e consequentemente, aqui do Brasil, com as igrejas que “compram” a teologia daqueles. A igreja católica há muito tempo não tem problema em aceitar a inspiração do texto, mesmo que este contenha alguns errinhos aqui e ali.

Tema difícil, confesso. Mas me ponho ao lado daqueles que não veem o texto como algo perfeito e sem contradição e equívocos.

Voltando ao livro, Nolan contextualiza a sua análise sobre a vida e obra de Jesus, trazendo informações sobre os vários grupos judaicos da época, que seriam basicamente estes:

ZELOTES – “[...] um homem chamado Judas, o Galileu, que fundou um movimento de inspiração religiosa, de pessoas que lutavam pela liberdade [contra o império romano]. [...] Os judeus os chamavam de zelotas; os romanos de bandidos.” P. 26.

FARISEUS – “Seu nome significa ‘os separados’, isto é, os santos, a verdadeira comunidade de Israel. Sua moral era legalista e burguesa, uma questão de recompensa e castigo. [...] acreditavam [...] em [um] futuro Messias que Deus ia mandar para libertá-los dos romanos.” P. 28.

ESSÊNIOS – “Os essênios foram muito mais longe do que os fariseus em sua busca de perfeição. [...] rejeitavam todas as pessoas que não pertenciam à sua ‘seita’. [...] Estavam se preparando para a vinda do Messias [...] como filhos da luz, iriam destruir os filhos da trevas [os primeiros seriam os romanos].” P. 28.

SADUCEUS – “[...] eram os mais conservadores. Eles se agarravam às antigas tradições hebraicas e rejeitavam todas as novidades, tanto na crença como no ritual. [...] eles colaboravam com os romanos e faziam o possível para manter o status quo.” P. 29.

Em contrapartida Jesus dirigiu a sua atenção, prioritariamente para os pobres e oprimidos. Enquanto as lideranças judaicas desprezavam e rejeitavam esse enorme contingente de pessoas, Jesus os abraçou e lhes propôs uma mudança de mentalidade, que seria a única esperança para que Israel não fosse destruída pelos romanos, segundo nos explica Nolan.

Durante todo o seu livro, Nolan trabalha os vários momentos narrados pelos quatro evangelhos e tentar entender o que Jesus de fato queria para o povo de Israel. Valendo-se de seus conhecimentos teológicos e das recentes pesquisas acadêmicas sobre Jesus, ele interpreta os vários conteúdos referentes ao seu ministério. Uma cuidadosa abordagem é feita para não conduzir a pesquisa vinculada a crença dos evangelistas de que Jesus era o Messias.

Claro que esse tipo de leitura está fadada a todo tipo de crítica e questionamentos justificados. Mas por ora, não tenho paciência e muito menos capacidade para me ater a essa discursão.

Numa contextualização sociocultural da Israel do século I, temas como o Reino de Deus, o Reino e o dinheiro, política e religião, o incidente do templo, etc, vão sendo estudados e escrutinados.

Os comentários do Nolan fogem do usual; daquilo que estamos acostumados a ouvir sobre Jesus e sua vida. Para ele, Jesus esperava que o Reino de Deus fosse se concretizar em toda sua plenitude ainda naqueles anos.

“[...] Jesus, como uma espécie de profeta-mártir, esperava ressuscitar no último dia, e que o último dia viria logo.”. P. 169.

Como sabemos isso não aconteceu. Caso ele tenha mesmo crido que a consumação de todas as coisas (fim do mundo; estabelecimento do Reino) aconteceria em seus dias, podemos dizer sem rodeios que Jesus se equivocou/enganou.

Será que esse suposto equívoco, o descredencia como o Salvador do mundo? Para o Nolan, não. No último capítulo, ele fala da fé em Jesus, de uma maneira pulsante e muito viva, conclamando a todos a viver no seu dia a dia os valores do Deus encarnado. Para o autor, Jesus é a única esperança para um mundo tão caótico como o nosso.