quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Guia Politicamente Incorreto do Sexo


PONDÉ, Luiz Felipe. Guia Politicamente Incorreto do Sexo. São Paulo: Leya, 2015. (Versão em PDF).

Link para o livro em PDF:


Como não é novidade, mais um livro da série “Politicamente Incorreta”, alvo de muitas críticas negativas.

Devo concordar!

Pondé (Ph.D em Filosofia pela USP) deixa muito a desejar em muitos de seus aforismos (textos curtos, pequenos, sucintos). Alguns são bem superficiais; fora da realidade, creio eu. Fala muitas tolices em vários deles.

O livro é contrabalançado pelas boas críticas desferidas contra o tosco feminismo moderno, que está imbuído de idéias contraproducentes e ilusórias. Os estardalhaços da esquerda, com sua estúpida ideologia de gênero (não rejeito toda a ideologia), não escapam das alfinetadas de Pondé.

Pondé escreve algumas coisinhas pornográficas, aqui e ali. Querendo chocar, no primeiro parágrafo, ele já começa nesse tom:

“De quatro, ela gemia. Por trás, ele a penetrava e doía. O amor anal é sempre selvagem e mais íntimo do que todos os outros. Gemia de dor, as lágrimas escorriam pelos lábios. Ele puxava seus cabelos loiros com força. Sentia-se uma cadela, momento supremo, pedia que a tratasse por cachorra. Um filósofo diria: eis a mulher.” P. 8.

E assim, ele inicia sua jornada no Guia Politicamente Incorreto do sexo.

“Pouco é necessário dizer sobre a origem e a natureza da praga do politicamente correto. Muitos autores, e eu mesmo, já escrevemos contra ela: trata-se de uma forma de censura do pensamento, dos gestos e da linguagem. [...] Acrescentaria apenas que o terreno da vida sexual é um dos campos em que ela, esta pauta do politicamente correto, faz maior estrago, tornando a vida sexual e afetiva um inferno maior do que já é, impondo-nos agendas políticas que são desejadas por uma minoria de pessoas mal-amadas de alguma forma”. P. 11.

As feministas que mais parecem homens se encaixariam perfeitamente nessa descrição. Mas lembrando que os setores das igrejas cristãs estão afundados no politicamente correto. Controlam se possível, até as posições que seus fieis podem ou não podem fazer dentro de seus quartos.

“O desejo pela mulher é, e sempre foi, um pilar da história humana. A fantasia de tê-la como objeto sexual move o mundo. Por isso, sempre digo que entre as pernas das mulheres se encontram segredos essenciais para a alma masculina e para o mundo como um todo. Infeliz aquele que nunca provou seu gosto.” P. 15.

O Pondé gosta do sexo oposto? Rsrs. Ou ele está tentando disfarçar? Páginas à frente, ele escreve:

“Sim, este livro é escrito por um homem que gosta de mulher. Não me venham cobrar outros pontos de vista”. P. 23.

Deixando de lado sua sexualidade, ele traduz o que TODO homem fantasia. Ele esclarece:

“[...] todo homem que gosta de mulher, gosta dela, antes de tudo, como objeto. Mas a estupidez é assumir que essa frase exclui a alma ou qualquer coisa além do corpo. Tudo nela pode ser objeto de desejo.” P. 23.

“Uma mulher que se sente feia é como um universo criado por um deus mau. Claro, os feinhos e as feinhas são contra a beleza porque não conseguem atingi-la e, sempre que se deseja muito algo e não se atinge, a alma deforma de inveja.” P. 16.

A crítica aí é dirigida as feministas e "feministos". Os "abiguinhos" que até a beleza querem relativizar, por não serem vistosos.

“Pessoas muito limpas não deveriam emitir opiniões sobre sexo. Uma cama muita limpa é um atestado de insanidade sexual. Uma mulher cheirosa demais dá medo. Gostar de cheiro de sexo é condição fundamental para falar de mulher. Uma mulher sem cheiro de fêmea é uma morta.” P. 17.

Eita, Pondé tá cheio das saliências. Todo saidinho. 

“Um dos maiores problemas dos debates politicamente corretos sobre sexo é o fato apontado pela autora americana Phyllis Schafler: esse debate é dominado por mulheres que não tiveram sorte no amor e, por isso, só conheceram homens ruins. Daí, elas tiram a conclusão de que todos os namorados e maridos das outras são trastes como os delas. No fundo, esse ódio é fruto, como sempre, não de um argumento racional, mas de uma paixão ferida.” P. 19.

Outro disparo contra as feministas. 

“Meio doce-azedo é o sabor da mulher. Cada vez mais exige-se coragem para prová-lo. Escondido, ali, entre as pernas, lugar de segredos. [...] Quando você cresce, você quer chupar o seio porque mulher é coisa gostosa e geme quando se sente assim. Quando uma mulher geme não é apenas porque ela goza de prazer, é porque ela goza ao se sentir gostosa. Nenhum homem tem inveja do seio nem do útero. Homem tem pavor da dor de parto e se sensibiliza com ela. Tampouco tem medo da vagina. Homem quer penetrar na vagina ou chupá-la.” P. 22.

Se mostrando "saliente", "imoral" e "cabido". 

"[...] Foucault (século 20) foi quem deu o tapa final para muita gente pensar que sexo é política: para ele, o mundo é apenas um conflito entre formas de dominação (as formas de 'homogeneidade' da qual ele fala). Tudo é construção social discursiva. O que é isso? Suspeito que muitos foucaultianos repetem essa ideia sem saber direito o que é, mas, na prática, em termos de sexo, isso deságua na ideia de que um discurso social constrói as identidades sexuais a partir de formas de dominação, estabelecendo, por exemplo, que mulheres gostam de ser penetradas e possuídas e que homens têm que gostar de fazer isso com as mulheres (coisa que ele, Foucault, não apreciava muito)." P. 26.

Em tudo que é pensamento lixo, Foucault está envolvido. Pondé continua:

"Na ponta final dessas políticas do sexo (ou teorias de gênero) está a ideia de que a humanidade não está dividida na díade macho-fêmea, mas sim que essa díade é uma construção do discurso patriarcal opressor. Sei que isso dá sono para qualquer um que já viu uma mulher gemendo de tesão, mas vamos adiante nessa coisa. O resultado é que chegamos assim à ideia de que sexo politicamente correto é sexo que desfaz qualquer forma de 'opressão' política do corpo (da mulher, quase sempre). A semelhança com a idéia de culpa cristã via a crença de que temos uma 'vontade pecadora' (no caso das políticas do sexo, a 'vontade pecadora' seria a 'vontade patriarcal opressora') é enorme, daí a semelhança com o puritanismo. A diferença é que o pecado dá tesão, enquanto o papo político dá sono." P. 26.

"[...] Nelson Rodrigues dizia que a prostituição não é a profissão mais antiga da mulher, mas sua vocação mais antiga. Sua ideia não é maldizer as mulheres (só o imbecis pensam assim), sua ideia é enaltecer ocaráter erótico e pecaminoso do desejo que se tem pelas mulheres. Ideias como essa do Nelson são como verdadeiros 'marcadores' contra o sexo correto. Quando ouvida, quem se revolta contra ela é um analfabeto em sexo. E, infelizmente, o lugar onde se encontram mais analfabetos no Eros é onde se acumulam inteligentinhos: o mundo da cultura e do pensamento. As universidades contemporâneas são lugares sem nenhum Eros e com muita política." P. 29.

Sobre nós, homens, gostarmos de apreciar duas mulheres se pegando:

"Um dos maiores mistérios para as mulheres é entender a razão de os homens adorarem ver duas gatas em ação. O fato de cenas assim estarem no mercado (e o mercado é sempre um sábio da natureza humana e, por isso mesmo, é detestável para quem teme esta mesma natureza) de filmes pornô hétero é indicação de que homens gostam disso. A beleza aqui é dobrada. Muitas mulheres, contaminadas pela praga do politicamente correto que vê machismo até no Papai Noel, acham que isso é puro machismo". P. 40.

Ele continua:

"Outras imaginam que seja desejo de dominação, como se Foucault (que inventou esse negócio de “dominação” porque gostava de rapazes fortes com roupas de couro) entendesse alguma coisa quando se referiu ao desejo masculino por uma mulher. Não. Pouco importa a razão de os homens sonharem em ver duas gatas em ação. Ninguém sabe a razão desse desejo. E, como tudo que é mais forte ou importante em nós, pouco se sabe a causa, e quase sempre pouco importa saber." P. 40.

A “vitória” de Eva sobre Deus:

"Mesmo diante de Deus, o homem escolheu a mulher. Fosse Eva uma feia, a Criação estaria no seu lugar até hoje. [...] Como alguém pode dizer que a Bíblia é machista quando Eva venceu Deus no prólogo do drama cósmico?" P. 48.

Caramba, nunca tinha pensando dessa forma!

"Todo mundo um pouco mais velho se lembra do coração disparado no momento de chamar uma menina para dançar. O poder dela de destruir sua noite diante de todos era avassalador e, ao mesmo tempo, encantador. Um 'não' encerrava uma carreira por alguns dias. Um 'sim' colocava o vencedor da noite nos céus. Se ela fosse linda, a vitória era esmagadora." P. 54.

Hoje numa festa ou micareta, caso você leve um fora, é só partir para a outra garota ao lado. 

“Aulas sobre sexualidade em escolas deveriam ser objeto de muito cuidado por parte dos pais. [...] Por quê? Porque quem disse que podemos confiar cegamente em quem decidiu dar aula de sexualidade para as crianças? E não me refiro à suspeita de taras sexuais por parte desses professores. Acho que suas principais taras são ideológicas. Querem fazer a cabeça das crianças com suas bobagens.” P. 65.

Continuando:

“[...] a principal razão, suspeito, é simplesmente a motivação ideológica de falar para as crianças o que eles, professores, acham que seja certo em matéria de sexo. Nelson Rodrigues já suspeitava das aulas de educação sexual, e isso porque ele não chegou a ver gente que pretende dizer aos alunos que meninos que agem como meninos são machistas e meninas que gostam de meninos são oprimidas.” P. 65.

Continuando:

“Ensinar às crianças que não devemos fazer bullying com colegas em sala de aula é uma coisa boa. Ensinar aos meninos que eles são opressores das meninas é, talvez, uma das piores formas de bullying que já existiram na face da Terra. E não vejo nenhuma educadora dizer que esses professores estão fazendo bullying com seus alunos quando os fazem se sentirem culpados porque são meninos.” P. 65.

Fantástico!

“Que a pedagogia é um dos ramos do saber em que menos devemos confiar nos últimos anos é sabido por qualquer um. Vejam: uma das últimas novidades das escolas que torturam meninos (e meninas também, porque reprimir meninos é reprimir meninas, apesar de que hoje em dia queiram dizer que homens e mulheres não são seres interdependentes) é o dia em que meninos devem ir vestidos de meninas e meninas vestidas de meninos”. P. 67.


[...]


"A pergunta é: para quê? E por quê? Para nada, apenas para satisfazer as bobagens teóricas que animam grande parte da pedagogia nos últimos tempos.” P. 67.


[...]


“Devem pensar que assim acabarão com os preconceitos. Não, vão piorá-los. E também a violência vai piorar porque todas as práticas politicamente corretas são exatamente o que elas pretendem combater: violência simbólica”. P. 67.

A ideologia doentia sobre gênero nos centros do "saber":

"Os departamentos universitários que estudam sexualidade (ou gênero) têm novas exigências de pureza para seus pesquisadores. Além do fato de que, para esses estudos de gênero, homens e mulheres não existem em si, mas são criações de uma sociedade patriarcal opressora (frases como essa dão sono para quem passou da idade infantil), a universidade, transformada plenamente em instância totalitária, agora exige cada vez mais pureza de gênero para seus pesquisadores.

Sabe-se há muito tempo que os estudos de sexualidade nas universidades eram privilégio de mulheres (normalmente sem muito sucesso afetivo estável) e gays. Agora isso não basta. Se você quiser provar sua lealdade ao partido de gênero você deve ser no mínimo um transexual, melhor se for transgênero.

Se você for gay, deve fazer algum tipo de intervenção que transforme você num transexual feminino para garantir que não é um gay reacionário. Se for mulher, já não basta essa condição porque você pode ser heterossexual, e, portanto, uma colaboracionista que deseja o opressor. Melhor se for lésbica. O caráter perverso e totalitário é evidente, mas, antes de tudo, o ridículo salta aos olhos de qualquer pessoa razoável". P. 73.

O mito da "cultura do estupro":

"Estupro é uma praga ancestral e tem a ver com uma mistura de força física maior do homem e sua eterna e miserável insegurança diante de sua fêmea. É uma praga e deve ser combatida sem pena nem dó. Mas outra coisa é a afirmação de algumas chatinhas de que todo homem é estuprador". P. 76.

[...]

"Mulheres que fazem essa afirmação são semelhantes a homens que afirmam que toda mulher é vagabunda e não merece confiança. O fato de que a mulher gosta do homem que a submete ao seu desejo (ao desejo dela por ele, antes de tudo) e a faz desejar ser penetrada e possuída é absolutamente desconhecido por essas puritanas modernas, que arrastam seu rastro de solidão, ódio e histeria pelo mundo afora." P. 76.

Programa Roda Viva: Luiz Felipe Pondé


Excelente programa com o Filósofo, Luiz Felipe Pondé (Doutor em Filosofia pela USP e pela Universidade de Paris - VIII. Pós-Doutorado pela Universidade de Tel Aviv, Israel). Com uma sagacidade e inteligência ímpar, Pondé articula com maestria suas ideias sobre Deus, ateísmo, sentido da vida, religião, feminismo, políticas públicas, marxismo, esquerda, direita, psiquismo humano, aborto, catolicismo, casamento gay, verdade, dentre outros temas.

Um dos assuntos que mais me chamou a atenção foi sobre sua visão sobre a natureza humana. Para ele:

"O ser humano é fraco, medroso, precário, mentiroso sobre suas próprias angústias. Inclusive por razões sociais – não dá pra você sair por aí falando de tudo que você tem medo. [...] A hipocrisia é parte da base da moral pública”. 

Todos nos encaixamos nesses adjetivos. Ninguém escapa, segundo Pondé. Parece que para ele, não há verdadeira abnegação, desprendimento e altruísmo, todos esses atos vêm acompanhados de um certo interesse que nos traga alguma vantagem, e venha suprir a nossa miséria. Creio que ele está correto em suas ponderações. Até o mais devoto religioso, é “abnegado”, “amoroso” e “dedicado”, porque espera a recompensa lá na frente. 

Como me deu uma certa preguiça de transcrever certas falas dele nesse programa, copiei e colei um trecho do que ele disse a revista “Veja” no mesmo ano em que essa entrevista foi exibida (2011), visto que representa muito bem o que foi dito nela:

“Opero no debate público assumindo os riscos do niilismo, e sou muitas vezes acusado de niilista. [...] Sou basicamente pessimista, cético, descrente, quase na fronteira da melancolia. Mas tenho sorte sem merecê-la. Percebo uma certa beleza, uma certa misericórdia no mundo, que não consigo deduzir a partir dos seres humanos, tampouco de mim mesmo. Tenho a clara sensação de que às vezes acontecem milagres. Só encontro isso na tradição teológica.”

Filosofia para Corajosos


PONDÉ, Luiz Felipe. Filosofia para Corajosos. São Paulo: Planeta, 2016. (Versão em PDF).

Link do livro para baixar:

http://lelivros.top/book/baixar-livro-filosofia-para-corajosos-luiz-felipe-ponde-em-pdf-epub-e-mobi-ou-ler-online/

Apesar do sensacionalismo do título dessa obra, Pondé é um cara que gosto de ouvir! Sempre gostei de suas palestras e entrevistas! E agora, acabo de terminar um segundo livro de sua autoria.

Com Ph.D em Filosofia na USP, e Pós-Doutorado na Universidade de Tel Aviv, nesse seu recente livro, ele dispara todo o seu veneno contra a sociedade contemporânea, que segundo ele, é a sociedade mais hipócrita, doente e retardada da história.

É um Pondé abusado, chato, marrento, birrento, pessimista e, digo até, contraditório e marqueteiro, ou sendo mais compreensível com ele (como se ele se importasse com isso): paradoxal.

Livro bom! Livro recomendado!

Alguns trechos que julguei interessantes:

"Pensar para onde vamos depois da morte ou como nos sentimos quando sabemos que vamos morrer levanta, de cara, uma questão, entre tantas outras: por que o susto em saber que vamos morrer quando sabemos o tempo todo que vamos morrer um dia?" P. 15.

Quem é que não se caga de medo, por esse iminente dia?! Eu me cago todinho.

"E se não existir vida após a morte, tudo é permitido? E senão existir Deus, tudo é permitido? [...] Essa pergunta é muito importante porque implica o seguinte: se morro e viro pó e ninguém descobre os absurdos que fiz na vida, e não existe alguém ou algo que me faça pagar pelo que fiz nesta vida 'no outro mundo', isso significa que tudo bem matar. Será que a vergonha de fazer algo errado basta para limitar meu comportamento? Acho que não. E você? Mas o fato de, talvez, precisarmos de um 'Deus' para garantir a moral e o bem não implica a sua existência, certo? O mais legal da filosofia é você aprender a pensar sem medo das respostas.Talvez Deus não exista e ainda assim continuemos a precisar que Ele exista. Enfim, questões sem fim." P. 16.

Questão espinhosa. Muitos dos religiosos mais moralistas da história fizeram coisas horríveis em nome de Deus. Para eles, como Deus tem existência concreta, então tudo é permitido fazer, para defender a reputação dele, frente aos hereges.

“Quem nunca leu nada não tem opinião sólida sobre nada, apenas achismo, uma opinião vazia, como dizia Platão, quando fazia a diferença entre ter opinião (doxa) e conhecer algo (episteme). Conhecer demanda trabalho, conversar com outras pessoas e ler alguns livros. Na maioria dos casos, conversar com mortos. Uma opinião vazia, qualquer bêbado tem.” P. 22.

A maioria dos brasileiros. A preguiça para pensar, ler e estudar, é generalizada.

“Para dizer que existe evolução moral na humanidade seria necessário termos um critério absoluto, universal e seguro do que é certo e do que é errado. E isso não existe.” P. 36.

Existe esse critério? Os apologistas evangélicos dizem que sim. Seria o próprio Deus. Mas é difícil extrair do livro que eles dizem seguir a risca, absolutos morais.  São os que mais esbravejam contra a relativização dos valores, mas relativizam, suavizam, minimizam, atenuam, as passagens de matanças de crianças e velhos no Antigo Testamento.  

"Vale a pena ser honesto? Será? Minha tendência é achar que não. [...] Para começo de conversa, podemos suspeitar que a honestidade seja falsa ou fruto de falta de oportunidade de agirmos de outra forma. Para piorar, a verdadeira virtude é silenciosa e não faz marketing de si mesma, o que em nosso mundo dominado pelo marketing, fica difícil de ser sustentado. O mundo contemporâneo é tagarela por natureza." P. 41, 42.

Até vale. Mas até quando raramente fazemos algum ato de “caridade”, gostamos que os outros notem a nossa “bondade”. Eu sou assim. Quem sabe, não posso adquirir alguma vantagem disso no futuro, não é mesmo?!

"Essa ideia de que ser religioso implica alguma forma de carência cognitiva é comum entre pessoas que se julgam mais cultas. Tenho dúvidas de que isso seja uma verdade evidente. [...] O século XX foi mortífero não em nome de Deus, mas em nome da política. Esse é um fato que, muitas vezes, escapa aos nossos péssimos professores de história que ensinam bobagens para nossos alunos". P. 44.

Esse mito de que gente religiosa é (sempre) mais fraca intelectual e emocionalmente, ainda perdura em alguns círculos.

Pondé continua:

"Na minha experiência pessoal, acadêmica ou  na mídia, não me parece que pessoas não religiosas sejam mais sábias do que pessoas religiosas. Muita gente para de crer em Deus ou deuses e passa a crer em si mesma [...], o que acho uma bobagem ainda maior se levarmos em conta a fragilidade de nossos pequenos 'eus'." P. 44.

Independente de termos crenças religiosas ou não, somos frágeis, carentes, dependentes, egoístas, angustiados, perdidos, aflitos... Diante disso, como ter fé em nós mesmos?


“A ideia mais comum de sobrenatural é que ele seja o mundo dos mortos que se relacionam com os vivos. [...] A questão essencial aqui é: por que esses mortos 'precisam de nós, meros vivos?'. Porque não existem e são criações humanas. Esses espíritos nunca sabem além do que sabemos: precisamos amar uns aos outros, fazer menos guerra, ter menos poluição e combater o apego material. Quem precisa de espíritos do além para saber que estamos num atoleiro moral neste mundo dos vivos?" P. 57-58.

[...]

"Resta nos perguntarmos a razão de, depois de tanto conhecimento científico acumulado, tanta gente ainda se sentir atormentada e atraída por esse tipo de coisa. A primeira conclusão é que permanecemos, em alguma medida, na pré-história, amedrontados pela escuridão do mundo e de nós mesmos." P. 58.

As ladainhas do espiritismo, ainda enganam muitas pessoas. 

“Uma das perguntas que julgo mais inúteis em filosofia é se Deus existe. [...] crer em Deus é mais fruto de causas extrarracionais como educação, traumas infantis, ambiente cultural familiar, ter um 'cérebro de crente' do que pensar que crer em Deus é fruto de uma cadeia lógica de provas a seu favor. A mesma coisa vale para a descrença. Dito de outra forma, não acredito que crer em Deus seja uma coisa que você escolhe, assim como você escolhe uma marca de sabonete ou uma marca de carro com base na lógica custo-benefício". P. 58, 60.

[...]

"Acho que argumentos que tentam provar a existência de Deus são inúteis. Muita gente tenta provar a existência de Deus dizendo que o universo 'necessita' de um princípio ordenador de tudo, o que eu julgo infantil como argumento. Tudo isto aqui pode ser fruto de um grande acaso num espaço de tempo inimaginável no qual os elementos se arrumam e desarrumam, e no meio deles nós surgimos e desaparecemos. Deus existe? Eu nunca fui crente. Mas isso não me impede de julgar Deus uma hipótese elegante para a existência das coisas, uma vez que um ser como Ele me parece misterioso e interessante de conhecermos, ainda mais se for uma 'pessoa'". P. 61.

Discordo dele. A questão da existência de Deus é um ponto crucial na Filosofia.  E também não acho que os argumentos pró e contra sejam (sempre) inúteis.

E terminando as citações:

“Os alunos chegam à universidade sabendo nada, lendo nada, tendo uma opinião sobre tudo. Todos vão mudar o mundo para melhor, e os outros não querem saber de muita coisa. Claro, existem as exceções". P. 92.

Hahaha. E num é não?! Mas nem os Professores muitas vezes não sabem nem o que estão ensinando.  

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Guia Politicamente Incorreto da História do Mundo


NARLOCH, Leandro. Guia Politicamente Incorreto da História do Mundo. São Paulo: Leya, 2013.

Link do livro em PDF:


O jornalista Leandro Narloch, odiado pelos Professores de História, narra nessas páginas, uma história não usual de certos acontecimentos e personagens da História mundial. Fala muita merda, é verdade. Faz um uso seletivo de fatos, para chegar à conclusão que deseja. É como se a maioria dos Historiadores fossem burros, e ele (adivinhe?!?) fosse o grande e verdadeiro intérprete da História! 

Mas ele acerta em muitas coisas. Quando detona o socialismo, por exemplo. Isso deixa muita gente puta da vida.

Até onde sei, a comunidade profissional de Historiadores repudia essa obra. Nessa rejeição, há motivos legítimos, mas creio que a ideologia político-filosófica tem o seu quinhão. 

Como não sou Historiador profissional, apenas um reles Licenciado, não nutro nenhuma ojeriza pelo Narloch e suas obras de História. Não obstante, tenho consciência de que ele é muito malandro em muita coisa que escreve.

Em todo caso: obra recomendada, todavia, com cautela.

Alguns trechos:

"Outros grafites de Pompéia [cidade romana destruída pelo vulcão vesúvio] parecem anúncios de prostituição, mas talvez sejam tentativas de difamar conhecidos. 'Quem sentar aqui deve ler isso antes de qualquer coisa: se quiser uma trepada, pergunte por Ática. O preço é 16 asses.' Outra: 'Rômula chupa o homem dela aqui e em todos os lugares'. Há casos similares sugerindo garotos de programa: 'Glicão lambe vaginas em troca de 2 asses', diz um rabisco. 'Aceito virgens', informa outro." P. 14-15. - Ray Laurence, Professor de História Antiga na Universidade de Kent, Reino Unido.

A safadeza já era grande.

"Os grafites também revelam que existia amor em Pompeia. Na parede de um bar, um vizinho zomba do rapaz que não é correspondido pela amada. 'Sucesso, o tecelão, ama uma garçonete chamada Íris, que não gosta dele; e quanto mais ele implora, menos ela gosta.'" P. 15.

A natureza humana não muda mesmo. Desde a antiguidade... Demonstre muito interesse, que você só ganhará desprezo. E o nome do desprezado era Sucesso. Que ironia.

“Os cintos de castidade estão para a Idade Média assim como a loira do banheiro e as balas com cocaína estão para os anos 80. São pura lenda urbana, mas de um tipo que durou séculos e pegou até grandes historiadores.” P. 22.

E de onde vieram esses benditos lacradores de pipiu? Objetos falsificados que possivelmente foram criados no século XIX. Mas os cintos existiram. A finalidade não era para evitar o marido de levar um chifre.

“Só em 1405 é que aparece o primeiro registro conclusivo de cinto de castidade. O Bellifortis, primeiro manual ilustrado sobre equipamentos bélicos, exibe um desenho do acessório e informa que ele era usado em Florença na defesa pessoal das mulheres: elas o utilizavam durante invasões de exércitos estrangeiros para evitar estupros. Não seria, então, um ícone da opressão machista, mas uma defesa contra ela.” P. 22.

"A Igreja exigia abstinência [de sexo] nos domingos, nos dias santos, na Quaresma e durante a menstruação. Somando outras restrições, sobrava menos da metade do ano para o entretenimento conjugal. Os senhores feudais negavam a maioria dos divórcios e, na Inglaterra, mulheres foram multadaspor fazer sexo antes do casamento. Tudo isso para fazer valer o sexto mandamento da Bíblia, aquele que pede aos cristãos evitar a fornicação. 'Fornicar' inclui praticar incesto, requisitar prostitutas, sexo fora do casamento e masturbação." P. 24.

Ela exige muitas dessas coisas até hoje. Mas quantos filhos da igreja obedecem? Assim como os fiéis da Idade Média, são poucos os que se abstêm atualmente. O discurso é de castidade, santidade, submissão, mas não passa de teoria.

"Assim como hoje, a prostituição era comum e às vezes reprimida, às vezes tolerada. A partir do século 14, algumas cidades europeias não só legalizaram a venda de sexo como organizaram o negócio. Bordéis dirigidos pelo governo municipal apareceram em toda aEuropa Continental. Supervisores estipulavam os locais e as horas de prostituição e cobravam impostos das mulheres e dos cafetões. O mais famoso desses bordéis, o Casteletto, criado em Veneza por volta de 1350, atraía turistas sexuais de toda a Europa." P. 25-26.

Hoje o lugar na Europa que mais atrai a macharada é Amsterdã, na Holanda. Nem ia dizer que um grande amigo meu, quando esteve na Europa, solicitou, por 150 euros, os serviços e chamegos carinhosos de uma loira exposta em uma daquelas vitrines num bairro da luz vermelha na capital da Holanda.

"A ideia de que a Terra se movia não era nova: tinha quase dois mil anos quando foi proibida pela Igreja. O grego Aristarco propôs, no século 3 a.C., tudo aquilo que Copérnico defenderia 18 séculos depois: o Sol era o centro, a Terra girava em torno de si própria e em torno do Sol, assim como os outros planetas. Mas ninguém na Grécia levou Aristarco a sério. Contra sua teoria havia diversos argumentos e questões sem resposta. Se a Terra se move, por que um objeto solto do alto de uma torre não atinge o chão um pouco para trás, como acontece quando alguma coisa cai de um carro ou de um barco?" P. 40.

"[...] Newton era obcecado por prever grandes acontecimentos do cristianismo. Reconstruiu a planta do Templo do rei Salomão, acreditando que ela guardava pistas matemáticas sobre a data em que Jesus Cristo voltaria à Terra. Com base nesse estudo, o físico propôs que, em 2370, haveria a segunda ressurreição e o Juízo Final. A mais inquietante previsão de Newton é a data da volta de Jesus Cristo: 1948. Trata-se do mesmo ano em que o catarinense Inri Cristo nasceu. Coincidência?" P. 43.

"A média atual do Brasil é de 26,2 homicídios a cada 100 mil mortes. A da cidade de São Paulo é 12 – menor que a de cidades americanas como Miami (16,8) e Chicago (15,9)." P. 74.

Caramba, a cidade brasileira é a menos violenta! Eu sabia que Miami, pelo menos na década de 1980, talvez fosse à cidade mais perigosa do mundo. Mas a violência ainda é muito alta por lá.

“A bomba de Hiroshima salvou milhões de japoneses.” P. 83.

Qual a justificativa que o Narloch fornece para essa afirmação?

“É razoável acreditar que, houvesse uma operação anfíbia rumo a Tóquio, morreriam muito mais japoneses que as cerca de 200 mil vítimas das bombas atômicas. Só na invasão ao arquipélago de Okinawa, pelo menos 100 mil civis morreram (um quarto da população local), além de 70 mil soldados”. P. 85

Ele diz que se não fosse a bomba atômica, cerca de 7 milhões de japoneses provavelmente morreriam nos ataques convencionais perpetrados pelos EUA e União Soviética. E como no lançamento da bomba morreram "apenas" milhares de japas... Há uma lógica na explicação. Mas tenho dificuldades com o termo "salvar". Narloch parece dizer que a bomba atômica foi algo benéfico! Como se um grande erro pudesse justificar algo.

Suponhamos que uma mulher é brutalmente estuprada e a criança fruto desse ato, no futuro se torne um Cientista que descubra a cura da diabetes. Podemos afirmar que o estuprador salvou milhões de pessoas, porque ele resolveu violar sexualmente uma mulher, gerando um ser humano prodígio, que encontrou a cura de uma doença que acomete parcela considerável da população mundial? Claro que não, né?!

O livro é bom, mas é inegável o seu caráter sensacionalista em muitos pontos. Narloch é muito sonso e cínico. 

"Nas aulas de matemática, os alunos [da Alemanha nazista] calculavam quanto o governo gastava ao manter um doente mental no asilo, sugerindo a justificativa para o programa de eutanásia dos doentes mentais". P. 125.

“Na destruição física, é difícil dizer quem foi pior. Os comunistas mataram mais (por volta de 80 milhões de pessoas, 218 contra 10 milhões dos nazistas), mas num período mais longo e em mais países. Deportações em massa, chacinas a céu aberto ou com gases asfixiantes ocorreram na União Soviética desde a década de 1920. A NKVD, a polícia secreta soviética, criou em 1936 uma câmara móvel de gás, instalada num caminhão que levava as vítimas para a vala comum enquanto elas morriam. Hitler copiou e aperfeiçoou esses métodos.” P. 128. - Alain Besançon, ex-Professor de História nas Universidades de Stanford, Princeton, e Oxford.

"De 150 chefes de Estado que governaram a África entre 1957 e 1991, apenas seis deixaram o poder voluntariamente." P. 187-188.

Se a neocolonialismo espoliou o continente africano, os líderes que o governaram depois de sua emancipação do homem branco, terminaram de espoliar e explorar, causando tantos males quanto os europeus. Talvez tenham sido até piores, visto que assassinaram, torturaram, exilaram e deixaram morrer de fome, a sua própria gente.

"'Pergunte a esses líderes sobre as causas dos problemas da África', sugere o economista ganense George Ayittey. 'E eles vão tagarelar sobre o colonialismo, o imperialismo americano, os efeitos perniciosos da escravidão, a injustiça do sistema econômico internacional, a exploração das multinacionais. É claro que nunca mencionarão sua própria incompetência e a adoção de políticas equivocadas'.” P. 188.

“[...] Nikolai Yezhov, o homem mais poderoso do regime depois de Stálin. [...] Nas horas de lazer, o inquisidor soviético [...] participava de orgias com mulheres e amigos e organizava campeonatos de flatulência. É, campeonatos de flatulência. 'Ele comandava competições entre comissários sem calças para ver quem jogava mais longe as cinzas de um cigarro com um peido', conta um dos principais biógrafos de Stálin, o historiador Simon Montefiore." P. 193.

Tá explicado! Por isso que o comunismo/socialismo foi uma verdadeira cagada.

“A mais grave consequência da quebra do sistema produtivo é a fome. Sem possibilidade de lucro na produção de alimentos, os países comunistas e suas fazendas coletivas abrigaram as maiores crises de fome do século 20. Foram entre 10 milhões e 30 milhões de mortos em apenas três anos na China (entre 1958 e 1961), 5 milhões de mortos na União Soviética de Lênin entre 1921 e 1922, cerca de 3 milhões na Coreia do Norte entre 1995 e 1999, 2 milhões no Camboja entre 1975 e 1979, 400 mil da Etiópia governada sob influência da KGB. Na Ucrânia, entre 1932 e 1933, a fome foi planejada e aprovada por Stálin, que pretendia punir os rebeldes camponeses ucranianos. Sete milhões de pessoas morreram – mais que os judeus sob Hitler e num período menor”. P. 196.

Eita, socialismo bom da gota.

“Ao arranjar culpados para as crises de fome, nenhum líder comunista foi tão criativo quanto o chinês Mao Tsé-tung. Em 1958, ele concluiu que o motivo da falta de comida eram quatro pestes que infestavam as plantações: ratos, mosquitos, moscas e pardais. Estes últimos eram os grandes inimigos de Mao, pois não só atacavam plantações como armazéns e árvores frutíferas. A solução: implantar uma força-tarefa, a Grande Matança de Pardais. Os chineses foram obrigados a destruir ninhos e ovos de pardais e a bater panelas, sacudir vassouras e pedaços de madeira 24 horas por dia para evitar que os pássaros pousassem, e assim eles foram levados à morte por cansaço. Parece insano, mas deu certo – ou melhor, deu tudo errado. Os pardais foram eliminados da China. Só que, como eles ajudavam a comer insetos que atacavam as plantações, a matança acabou gerando um desequilíbrio ainda pior. O jeito foi chamar os pássaros de volta. Anos depois, numa ação secreta, os chineses importaram 200 mil pardais da União Soviética.” P. 196.

"Diante da falta de papel higiênico, o governo [de Hugo Chávez] arranjou uma desculpa genial: o produto faltava porque os venezuelanos estariam comendo mais – e indo ao banheiro com mais frequência." P. 197.

As cagadas do socialismo.

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Drogas S/A: A Festa da Maconha em Boston


Boston, nos EUA, descriminalizou as pequenas posses de maconha, menos de 30 gramas. Ser pego com a droga não é mais crime, apenas uma contravenção. A polícia tá puta da vida com isso. Boa parte de suas abordagens não resultam em prisões. Mas o que ela quer? Se forem colocar na cadeia cada maconheiro que encontrar por lá, as prisões ficarão lotadas em poucos dias. Quanto aos traficantes, a lei continua dura. Muitos anos de prisão.  

Os maiores consumidores são os alunos universitários. O futuro do país. As repúblicas estão repletas da cannabis.Todo dia 20 de abril, os apreciadores da maconha reúnem-se em uma movimentada praça, para fumar a droga, como forma de protesto contra as leis que restringem o seu uso. Querem mais liberdade para consumi-lá. Layla, uma universitária, alega que a droga ajuda aos alunos a superarem a pressão dos estudos diários da Faculdade. Eles chegam a estudar 12 horas diariamente. Mas ao mesmo tempo o documentário informa que o mais tem nessas Universidades e albergues são festas e mais festas.  

Para o dia 20, os traficantes estão ansiosos, visto que é o dia do ano mais promissor na vendas dos entorpecentes. Entretanto, o dia está chuvoso, a presença e abordagens da polícia está intensa, e poucas pessoas comparecem a praça para contestar o sistema “opressor” de restrição da cannabis.

Segundo a NatGeo, o sistema imunológico fica bastante danificado, com o uso prolongado da maconha. O que pode ser um benefício hoje, anos à frente, poderá ser um problema de saúde. 

Fumar a cannabis é apenas uma das formas de se provar a droga. Existem bolos, confeitos, biscoitos e uma série de produtos derivados da maconha. 

Aos poucos o governo americano está cedendo e liberando o uso medicinal e recreativo da maconha. O debate é polêmico e fervoroso, sobre a viabilidade disso ser benéfico ou lascar a sociedade americana de vez. De uma coisa todos estão cônscios: a sociedade estadunidense é uma cultura chapada. A descriminalização parece ser o melhor caminho. Os Estados mais conservadores continuam irredutíveis. Nada de isentar os usuários.

Ano passado o Estado do Oregon liberou a posse da maconha.

“[...] qualquer pessoa maior de 21 anos pode possuir legalmente até oito onças (227 gramas) de maconha, fumá-la em sua casa ou em locais privados, compartilhá-la com outras pessoas e cultivar um total de quatro plantas para uso pessoal.[1]

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Mesopotâmia: Retorno ao Éden


Mesopotâmia, terra entre rios. Palco das primeiras civilizações humanas. Abrigou grandes impérios da antiguidade. Sumérios, babilônios e assírios. Todos esses povos estão presentes nas narrativas bíblicas. Numa mistura de mito, histórias reais e interpretações divergentes de um mesmo evento, os acontecimentos do livro hebreu se entrelaçam com os escritos dos cronistas dessas culturas. 

Há pouco mais de 200 anos a Arqueologia vem desenterrando e esclarecendo muitos pontos obscuros das passagens bíblicas. Muitos dos artefatos encontrados e estudados revelaram uma consistência interessante e impressionante com o texto sagrado. Muitos eventos continuam um mistério. E podem confirmar ou desmentir a Bíblia. Alguns a contradizem. 

Pergunta: é confiável o texto do Antigo Testamento em sua integralidade? Onde a razão e a ciência podem ir? E quando a fé entra para completar a crença nos relatos hebraicos? Também podemos inverter a ordem das coisas, ou reformular melhor essas perguntas. 

Aos mais empolgados, a Arqueologia não comprovou totalmente o texto das escrituras. Ela lida com peças fragmentárias, que precisam ser interpretadas. A quem quer justificar a fé no bom e velho livro, não precisa se apegar a ferro e fogo ao que as ferramentas da Ciência diz ou deixa de dizer. 

O documentário em questão é de 1995. Um pouco antigo. Pesquisas avançaram, e Arqueólogos atualmente não aceitam a historicidade da Bíblia em trechos chaves de suas páginas. Uma minoria (creio eu) continua alegando que ela é precisa. É difícil mensurar até onde esses mais crentes não estão sendo movidos pela emoção. Sobretudo quando vão ao campo de pesquisa com o pressuposto de que a Bíblia é 100% confiável. 

Se desvencilhar das pressuposições religiosas não é tarefa fácil. Isso também vale para os mais céticos, que às vezes fazem declarações, que vão além dos que as evidências permitem dizer. 

Em minha opinião, um trabalho mais saudável, sério e idôneo, deve pautar-se por uma atitude mais neutra em relação a Bíblia. É difícil livrar-se dos pressupostos que carregamos. Mas um pesquisador não pode ir a campo, batendo o pé e dizendo: "Nenhum achado, descoberta, artefato, pergaminho, papiro ou outra merda qualquer, irá entrar em choque com a Bíblia, visto que ela é a Palavra de Deus, e assim, não pode estar errada. A Ciência verdadeira, sempre a confirmará." Proceder assim é se fechar as várias possibilidades que o estudo arqueológico pode nos fornecer. 

O crente pode ir à labuta nos sítios arqueológicos, crendo que a Bíblia é confiável. O que acredito é que não pode proceder ad hoc quando as evidências forem contra as suas convicções ideológicas. Deve admitir que naquele ponto em específico o texto é (ou parecer ser) impreciso historicamente. E se for preciso, sob o peso das evidências abandonar alguns (ou todos) dos seus velhos pressupostos. 

Semelhante coisa deve fazer o cético. Se um achado reiterar uma passagem do texto bíblico, uma atitude sóbria é ele admitir: "Essa narrativa bíblica mostrou-se precisa. Pensava que ela era fantasiosa e fruto dos desvarios do cronista hebreu. Enganei-me." E assim, não subestimar a priori as outras histórias que a Bíblia contém. 

Tabu Brasil: Nudez


Nudez! 

Em nossa cultura é praticamente impossível não vincular o nu ao sexo, ao erotismo, a pornografia, a putaria e outras coisas mais. 

Estamos acostumados a erotizar o corpo despido. Associamos o estar sem roupas a libido, a sexualidade a ser exercida. 

Não é dessa maneira que umas poucas pessoas veem a nudez. 

Por exemplo, no Rio Grande do Sul, na comunidade Colina do Sol, todas as pessoas que ali moram, vivem nuas. Para eles, a nudez é algo tão natural quanto comer, tomar banho, conversar, praticar esportes e etc. Com rígidas regras de convivência, eles vivem numa mini cidade, onde a roupa tem pouca importância. Apenas quando está muito frio, ou noutras pequenas circunstâncias, é que eles se cobrem com um pedaço de tecido. Algumas pessoas que querem visitar e conhecer o local, pensam erroneamente, que ali é um antro de putaria. Mas talvez, excetuado a nudez inerente do local, eles vivem com sérias restrições de comportamento até mais severas que as do mundo "normal". Carinhos excessivos em público são duramente proibidos. Eles não falam claramente, mas ereção em público é pecado capital nessas localidades.

O Brasil vive uma ironia, ou podemos chamar de hipocrisia mesmo. No Carnaval é permitido que peitos e bundas sejam plenamente exibidos em público, seja na TV, seja nos bailes e nas ruas. Podem estar crianças, pessoas idosas, não importa, pois pelo menos nesses quatro dias de folia, a lei que pune a nudez em público, como atentado violento ao pudor é SUSPENSA. Que sistema legal é esse que arbitrariamente resolve tirar férias nos dias dessa festa? Não estou criticando a nudez carnavalesca, mas a flexibilidade injustificada do nosso sistema de leis. 

Quando a Sara Winter, ainda feminista na época em que esse documentário foi feito, foi fazer um protesto contra os vergonhosos gastos para a copa do mundo, mostrando seus lindos e apetitosos seios (acho que sejam, pois estão embaçados; e ok, sou mais um que não sabe desassociar a nudez do sexo), ela e suas companheiras de militância foram arrastadas pela policia. Num protesto pacífico e com uma acusação legítima, pessoas são presas e punidas, por estarem com os seios à mostra, sem fazer atos e gestos obscenos. No entanto, na futilidade do carnaval, pessoas podem fazer insinuações sexuais em rede televisiva nacional e ainda são aplaudidas e idolatradas. Vai entender uma coisa dessas. 

Ficarmos nus é, e continuará sendo um TABU. Nossa formação ético-religiosa-cultural não nos permite ir além. Pra falar a verdade, a roupa protege-nos não apenas fisicamente, mas psicologicamente. Nossa história de vida está de certa forma refletida em nosso corpo. Sejam defeitos, cicatrizes, marcas... Por que deveríamos expô-las aos outros? Quem diabo se importa em ver nossas pelancas, estrias, celulites, bunda murcha, manchas?! Não obstante, se tem pessoas que não ligam, que assim vivam em seus lugares e paraísos do naturismo, como a localidade Colina do Sol. 

Que todos sejam felizes. Ou com roupa ou sem.

Tabu: Medicina Alternativa


Quando os tratamentos convencionais, não trazem os resultados esperados, é hora de buscar ajuda na medicina milenar, nos procedimentos heterodoxos, na sabedoria dos monges, na ciência popular. Esse pelo menos é o pensamento de muitos, que vão atrás da resolução de seus problemas de saúde, quando os remédios alopáticos deixam a desejar. 

Tabu: Medicina Alternativa vem trazer as histórias de várias pessoas que foram em busca de tratamentos não validados pela medicina acadêmico-científica. Mas apesar de sua falta de comprovação pelos rígidos métodos dos laboratórios de ciências, os métodos alternativos, ainda são muito populares e vistos como possibilidades viáveis, na cura das doenças e vícios que acometem as pessoas que os buscam. 

Dois ingleses, um homem e uma mulher, viciados em heroína, resolvem acabar, depois de muitos anos de vícios e vidas destruídas pela droga, com a dependência do entorpecente. Vão até a Tailândia, num mosteiro budista, especializado em arrancar em poucos dias o vício das drogas, através de um severo tratamentos com nove ervas misturadas. Eles esperam se livrar de uma vez por todas do inferno em que se encontram.
Surpreendentemente, nesse lugar sagrado, a taxa de sucesso das pessoas que largam de uma vez por todas o vício das drogas é de 70%. Uma porcentagem alta e que valida a maneira radical com que os monges combatem as drogas. E ainda com o adicional de que o tratamento é gratuito. 

Na cidade se Hyderabad, na Índia, 500 mil pessoas estão em busca da cura da asma. O medicamento deve ser ingerido com um pequeno peixe vivo, que deve ser engolido ainda com vida. Há mais de 150 anos, milhões de pessoas são tratadas assim, nesse país. A mãe de uma criança com asma leva o seu filho, para engolir o tal remédio com o peixe. A criança, dias depois, tem uma melhora significativa. O efeito placebo explica a "cura" do garoto? Para os acadêmicos, sim. 

No Peru, um curandeiro sob a influência de tradições incas e cristãs, trabalha na cura daqueles que vem procurar os seus poderes, mediante ervas e sacrifícios de porquinhos da índia. Um jovem que durante muitos anos de sua vida, carregou muito peso, agora se encontra com discos lombares que lhes causam dores terríveis. Ele vai tentar se curar com esse xamã. Se submeterá ao ritual, onde o porquinho será dilacerado e os órgãos deste serão uma espécie de tomografia do que se passa em seu corpo. 

Ainda no Peru, numa barraca se vende suco de rã triturada no liquidificador. Quem o faz, garante que essa bebida cura qualquer doença. A rã é morta e sua pele é retirada, logo em seguida é fervida. Assim estará pronta para ser esfacelada no liquidificador, com uma erva dos andes. Muitos peruanos tomam, e juram que a bebida faz efeito. Até tornar as mulheres férteis, esse suco exótico consegue, segundo eles.

Quando os caminhos normais não nos servem, vamos por outros incomuns, por mais que sejam estranhos e irracionais. As vezes o desespero é tão presente e intenso, que pensamos: por que não tentar? Mesmo tendo ciência de que inexiste comprovação científica nessas abordagens terapêuticas extravagantes, para muitas pessoas desesperançosas, a aflição que uma doença/deficiência, vontade ou desejo acarreta, fala mais alto. E assim, qualquer ajuda é válida. 

terça-feira, 27 de setembro de 2016

Tabu Brasil: Soro Positivo


Desde que apareceu os primeiros casos, a AIDS matou até hoje, cerca de 36 milhões de pessoas. É uma doença infecto-contagiosa transmitida pelo vírus HIV. Atualmente, 35 milhões de pessoas estão infectadas. 718 mil brasileiros são HIV positivo. A contaminação cresceu fora do que se esperava na última década entre os jovens. E impressionantemente, entre as pessoas de mais de 60 anos, houve um alarmante aumento de 157% entre 2001-2012! 

Os primeiros casos de HIV no Brasil foram no início da década de 1980. Era prevalecente entre os homossexuais. Logo em seguida, o vírus se espalhou entre os usuários de drogas, através das seringas. O primeiro caso de uma mulher infectada foi 1983. 

A doença para se manifestar pode durar 5, 7, 9 anos, ou menos que isso. Tem pessoas que podem ter o HIV e nunca desenvolverem a AIDS. Vai de cada sistema imunológico. 

Como avanço dos medicamentos retrovirais, ter HIV não é mais um atestado de óbito. Mas engana-se quem pensa, que os portadores do vírus têm uma vida fácil. São muitos comprimidos para tomar todos os dias. Os efeitos colaterais são inevitáveis. Exames de rotina, para ver a carga viral no sangue, também fazem parte da vida de um soro positivo. 

Três histórias distintas, porém, tendo em comum o vírus HIV, são contadas.

Um jovem homossexual, que teve a infelicidade de pegar o vírus ainda com 19 anos de idade. Começou seus relacionamentos sexuais com o preservativo, mas os deixou de lado, e não demorou muito para ser infectado. Há 11 anos, ele toma os remédios para o controle da carga viral. Nunca teve nada sério até então. Está para casar com um parceiro “limpo”. Está feliz. De vez em quando sente os efeitos colaterais dos remédios que toma diariamente.

Uma senhora de 60 anos conta a sua história de infecção. Depois de uma vida inteira, chega a terceira idade carregando o HIV em seu corpo. Pegou de seu antigo parceiro. Nunca imaginou que ele poderia lhe contaminar. Nesse caso, as mulheres continuam sendo um grupo de risco, visto que seus maridos e namorados podem ser infiéis, acabar se contaminando e passar o vírus para suas mulheres. Isso acontece com uma freqüência alarmante.

O terceiro caso é de uma jovem de trinta e poucos anos, considerada o primeiro bebê portador do vírus, em 1983. Sofre desde a infância com os problemas que o vírus pode acarretar. Oscilou entre fazer o tratamento com os antivirais, e parar de tomá-los. Passou por prolongadas internações. Mas hoje, apesar das seqüelas e saúde limitada, está bem na medida do possível, e está para ser mamãe. É casada com um soro positivo.

Enfim... Documentário pesado. A cura ainda não está disponível. E não há esperanças concretas de que ela virá nos próximos anos. O tratamento avançou bastante desde os primeiros casos no começo dos anos 1980. Ouvimos aqui e ali, que a cura já foi encontrada, mas a indústria farmacêutica não está interessada em fornecer os comprimidos que tenham o poder de extirpar por completo o HIV do organismo. Ela perderia muito dinheiro. O mundo dos remédios não é filantrópico, benevolente, altruísta...

Não duvido dos boatos de que a solução para o problema do HIV/AIDS tenha sido encontrado.   

Asé


Culto trazido pelos negros, no período da escravidão. Sobreviveu, evoluiu, resistiu aos ataques do Estado, da igreja, e hoje possui muitos adeptos nas grandes cidades brasileiras.

O Candomblé é a religião que une os vários cultos aos orixás trazidos do continente africano. Seja Exu, Xangô, Oxóssi... É uma celebração da natureza. Seja das plantas, dos rios, mares... Faz parte de seus elementos de adoração as entidades/forças/energias, os sacrifícios de animais. No entanto, todos são aproveitados para alimentar os membros da comunidade. Nada se perde. E não existe em hipótese alguma, sacrifícios de pessoas, como alguns costumam acusar o Candomblé.

Em suas adorações os negros escravizados, astutamente vincularam os santos do catolicismo aos orixás, para que estes fossem cultuados, sem a censura do homem branco. A coisa deu certo. Quando a igreja e os sacerdotes pensavam que o negro tinha se convertido a fé católica, na verddae, ele estava adorando e prestando devoção ao seu orixá.

Uma afirmação curiosa é dita: os fiéis do Candomblé não são politeístas. São monoteístas. Existe apenas um deus. Os orixás são emanações desse único Ser. Numa comparação com a religião cristã popular, seriam espécies de anjos da guarda.

Uma importante mensagem de respeito e tolerância é deixada por um dos babalorixás entrevistados. Não importa a religião que você pratique, contanto que ela seja baseada no amor ao próximo, você estará perto de Deus. Seja o padre, seja o pastor, seja o pai de santo, o direcionador da devoção ao Criador. O que vale de verdade, é a busca do sagrado, do bem maior: Deus.