domingo, 13 de março de 2016

South Central: O Bairro Proibido


South Central é o nome de uma enorme região na periferia da rica cidade de Los Angeles. Um lugar muito pobre, marcado por um alto índice de criminalidade, tráfico de drogas e de todos os males que mancham a reputação de um grande centro urbano. E o que não é novidade, é um bairro majoritariamente composto por pessoas negras.

Um ciclo interminável de jovens negros entrando para o crime, ainda quando crianças. Muitos deles, os pais e avôs seguiram pelo mesmo caminho errado e, acabaram sendo presos ou mortos. É um mal que se arrasta por décadas e décadas, e não seria exagero dizer, que isso, se deve em maior parte, ao histórico de racismo e segregação, que atrasou a ascensão social dos afros americanos. Não quero dizer, que os negros envolvidos na marginalidade estão isentos de suas responsabilidades, perante a justiça. Mas por que será que existe um índice tão alarmante de negros no mundo do crime? Não será pelo fato de lhes ser negada frequentemente a chance de poder evoluir socialmente? Ou alguém, ainda hoje teria a audácia de afirmar que eles são mais propensos a fazer coisas erradas, devido a sua condição fenotípica?!

Nesse filme, Bobby (Glenn Plummer) recém-saído da prisão, se encontra com seus “amigos”, e eles resolvem banir todo qualquer traficante de seu bairro. Não porque são contra o tráfico de drogas e , portanto, querem a vizinhança longe delas, mas porque almejam ser os únicos a vendê-las no “bairro proibido”. Os “Deuce”, sua gangue deve ser soberana na distribuição dos entorpecentes.

No entanto, um traficante poderoso está atrapalhando a hegemonia dos “Deuce”. Para que eles comecem a ganhar muito dinheiro, precisam eliminá-lo. Numa emboscada a noite, cabe a Bobby fazer o serviço de matá-lo. E ele o faz. Meses depois ele é preso e passa dez anos na prisão. Passa todo esse período sem ver o seu filho Jimmy (Christian Coleman), um bebê, quando ele foi preso.

Enquanto Bobby está ausente, a sua esposa Carole (Larita Shelby), uma viciada, não dá conta de criar decentemente o seu filho. Mais um ciclo se inicia de uma criança negra do bairro entrando para o mundo do crime. Jimmy, já imerso na bandidagem, leva um tiro quando tenta roubar o toca fitas de um carro.

Quando Bobby, ainda preso, tem ciência de que seu filho foi recrutado para o mundo do crime, pela sua gangue e, que quase veio a óbito por isso, ele resolve não fazer mais parte dela. Não se conforma que seu filho trilhe o mesmo caminho do pai e avô. Ele acaba conhecendo um homem na cadeia, que lhe ajuda a repensar a sua vida e a mudar sua visão. Ocorre-lhe uma verdadeira transformação, através da leitura, reflexão e entendimento advindos dos livros e diálogos travados com Ali, homem muito sábio, que lhe direciona para um novo caminho. Essas palavras do Ali é o começo da redenção de Bobby:

“Esse é o problema da nossa comunidade. O negro está na prisão ou fugindo da prisão e seus filhos sofrem. É a raiva no ciclo de ódio do negro. Você está nesse ciclo. [...] [Você] precisa quebrar esse ciclo. Ódio é quebrado com doação. Eu doo para você e quebro meu próprio ciclo de ódio. Por que eu me importo? Eu e você somos irmãos, e temos que estar do lado dos nossos filhos.”

Bobby, depois de várias tentativas, consegue a condicional. Agora seu objetivo é resgatar seu filho da marginalidade e lhe ensinar a ser uma pessoa honesta, íntegra e do bem. Num momento de muita tensão, em que Jimmy, incentivado por Ray Ray (Byron Minns), chefe dos "Deuce", está prestes a matar o homem que lhe deu o tiro, Bobby lhe dirige estas palavras no intuito de lhe salvar do buraco em que se encontra:

“Jimmy, filho, se atirar em um homem, com o tempo, suas feridas vão sarar. E depois, poderá se desculpar para esse homem. Se você roubar seus pertences, depois poderá devolver seus pertences ou recompensá-lo no mesmo valor. Mas se você matar, não tem depois. Não tem como se redimir com esse homem. Não poderá fazer a coisa certa com ele e sua família. Ele perde a vida para sempre. Você nunca poderá voltar atrás.”

Felizmente, Jimmy se deixa convencer pelas palavras de seu pai. Se livra de fazer a merda de matar um inocente.


Agora seu pai terá a chance de ensinar a seu descendente a quebrar esse ciclo nefasto, em que milhares de negros estão.

Filme aprovado! Filme recomendado! 

sexta-feira, 4 de março de 2016

Adivinhe quem vem para jantar

Link para baixar o filme:

https://mega.nz/#!rphhCLhS!tyrQ52YHSv_SZU3NA_SeJnTrU8R01ZWwKrY_Wt2rqGQ

Não seria exagero dizer que esse filme ESPETACULAR, seja, talvez, o melhor filme que já vi! É uma obra prima do cinema. Sensacional, formidável, impecável, inteligente... Todos os elogios possíveis a essa pérola do cinema mundial. É lindo. É maravilhoso. Fiquei atônito. Empolgo-me para falar desse longa.

As interpretações de todos os personagens beiram a perfeição. Os diálogos, nem se fala. E o tema? Explosivo na época em que foi lançado. E lá vou eu, mencionar mais uma vez a tão falada década de 1960. Década das árduas lutas pelos direitos civis. Os “de cor” reivindicando da sociedade e do governo norte-americano, plenos direitos de cidadania, que sempre lhes foram negados.


Joanna Drayton (Katharine Houghton ) é uma linda mulher de 23 anos, filha de pais ricos, que conhece no Havaí, o proeminente Médico John Prentice Jr (Sydney Poitier). Ambos se apaixonam logo de cara. E durante a curta estadia nessa ilha, resolvem se casar.

Até aí, tudo bem, afinal de contas, são duas pessoas solteiras e jovens, que optam por oficializar, perante a sociedade e Estado, mediante o matrimônio, o amor que sentem um pelo outro. Nada fora do padrão; do comum; do corriqueiro; do saudável; do bom senso; da decência; dos bons e aceitáveis costumes. É exatamente esse tipo de procedimento, que a então sociedade em que vivem, espera de pessoas verdadeiramente comprometidas e que levam a sério a vida a dois.


O problema, e bote problema nisso, é que um dos pombinhos enamorados é negro.  O Dr. Prentice é torradinho/pretinho/escurinho. Se hoje em dia, mais de meia década depois, muitas vezes, ainda vemos com uma certa estranheza, um negro e uma branca namorando > noivando > casando, principalmente, se ela for loira e linda, como é o caso da noiva do Prentice, imagine o quanto não era algo de outro mundo e totalmente inaceitável, para a maioria das pessoas dos EUA, se deparar com tal situação, naquele contexto racista e discriminatório?! Mesmo a história se passando em San Francisco, cidade mais aberta, liberal e menos preconceituosa, se comparada aos Estados sulistas do Mississipi, Alabama e Tennessee.

O casal apaixonado chega a San Francisco, para dar a notícia aos pais de Joanna, de que em breve irão se casar. Joanna ou Joey, bastante entusiasmada, não vê a hora de falar aos pais a grande novidade, visto que ela teve uma educação diferenciada. Recebeu de seus pais uma educação moderna e não baseada no racismo vigente em derredor. Dessa forma, por que temer a reação de seus pais? Eles mesmos lhe disseram na mais tenra idade, que todos são iguais e devem gozar de plenos direitos como cidadãos.

Enquanto Prentice está no escritório da casa, telefonando para os seus pais, Joanna estava contando para Christina Drayton (Katharine Hepburn), sua mãe, sobre o maravilhoso, inteligente e homem perfeito, que conheceu.  Ele, então, aparece na sala, a cara de assustada da Senhora Christina, quando o vê, é emblemática. Quase que ela tem um infarto fulminante. Apesar dela não ser racista (ou pensa que não é), não está acreditando que sua única filhinha linda e tão amada, está noiva de um afrodescendente. Sua mãe está engasgada com o que está acontecendo. A própria Joanna diz a ela:

“Ele acha que você vai desmaiar, porque ele é negro.”


O engraçado é que a própria Tillie (Isabel Sanford ), empregada da casa, uma negra, não aceita de forma alguma, que a sua querida menina, que viu crescer e ajudou a criar, pretende se casar com um preto. Para ela é uma tolice e disparate sem tamanho tudo isso. Cada um deve ficar na sua. Prentice é um negro aproveitador, segundo ela. É aí que se encontra mais um dos vários pontos positivos do vídeo. Mostrando a realidade de que muitos negros, também, tinham sérias reservas, em relação aos casamentos exogâmicos.


Pouco tempo depois, enquanto Joey, Prentice e Christina estão no jardim da casa, fazendo um lanchinho, o pai de Joey, Matt Drayton (Spencer Tracy), chega. Ele é surpreendido pela bombástica notícia. Durante todo o desenrolar da história, ele sente uma dificuldade muito maior que a sua mulher em aceitar tal situação. Apesar dele ser dono de um jornal liberal e antirracista de San Francisco, agora ele está de fato, sendo provado quanto as convicções que tanto defendeu ao longo do anos. Todo o seu discurso moderno e avesso ao preconceito só se aplica aos negros que não estejam, porventura, cortejando a sua filha?! Se a resposta for sim, ele não estaria comprometendo seriamente a sua coerência e integridade ideológica?!

Ele e sua esposa vão para o escritório e ela dispara:

“[...] E se ela (Joanna) é assim, foi porque nós a criamos assim mesmo. Respondemos as suas perguntas; ela escutou as nossas respostas. Dissemos a ela que era errado acreditar que gente branca era sempre superior à gente negra, ou mulatos, vermelhos ou amarelos, pouco importa. Gente que pensa assim, era errado em pensar assim. Por vezes, por ódio, sempre por estupidez. Mas sempre, sempre errados. Era o que dizíamos. E quando dissemos, nada acrescentamos, como: ‘Nunca se apaixone por um homem de cor’.”

Logo após ela dizer tudo isso, eles recebem uma ligação informando quem verdadeiramente é o recém-noivo de sua filha. Informação essa, solicitada por seu pai. Realmente Prentice é Médico, mas não é qualquer Médico. Todas as credenciais possíveis ele já conseguiu, apesar de sua juventude. A lista de seus feitos na Medicina é gigantesca. Uma boa sacada do roteirista, em “exagerar” nas qualificações acadêmicas do Prentice. Pois dessa forma, caso os pais da Joey não aceitem o casamento, não será porque ele é um vagabundo, ou um zé ninguém, mas sim, porque é uma pessoa de “cor”.

Um novo personagem é incorporado a toda essa confusão.  O monsenhor Mike Ryan (Cecil Kellaway), que a exemplo dos demais, tem uma desenvoltura marcante no desenvolvimento do enredo. É um padre simpático, carismático e que dá total apoio ao casamento de Prentice e Joanna. Vários diálogos são travados entre ele, e seu melhor amigo, o pai de Joey. O religioso sempre dando alfinetadas e jogando argumentos para que seu amigo deixe de birra e abençoe o casamento de sua filha. Um velhinho muito agradável, esse padre. Uma figura.


E para fechar, caminhando para o final, os pais de Prentice, viajam de Los Angeles, para conhecer a noiva de seu filho. Eles se assustam, quando descobrem que a amada de seu filho, é branca. O pai, John Prentice (Roy E. Glenn), vira uma estátua, e a semelhança do pai de Joey, é muito mais enfático que a Senhora Mary Prentice (Beah Richards), em aprovar esse casamento. Ele é ignorante e marrento, tentando persuadir o seu filho a desistir dessa “loucura”.


Nos minutos finais do filme, depois de ouvir umas verdades bem ditas da mãe do Prentice, e refletir muito sozinho no jardim, o pai de Joanna, reúne todos na sala, e diz:

“[...] Existem 100 milhões de pessoas, bem aqui, neste país, que ficarão chocados e ofendidos e desgostosos quanto a vocês dois. E vocês terão que superar tudo isso. Talvez cada dia, pelo resto de suas vidas. Vocês poderão tentar ignorar essas pessoas, ou sentir pena delas, por seus preconceitos e intransigência. Seus cegos e odiosos temores. Mas quando for necessário, vocês vão ter que se unir um ao outro, e dá as costas a toda essa gente.”


O seu discurso é mais extenso, ele resume todos os acontecimentos, pensamentos, dúvidas e temores do dia, e chega a mais razoável conclusão: de que os dois devem e têm o direito de se casarem e serem felizes.

Filme nota 1000!

quarta-feira, 2 de março de 2016

No Calor da Noite


Sidney Poitier em mais uma maravilhosa performance, num maravilhoso filme. 

Tenho um certo interesse em obras do cinema, que tragam a temática do racismo.  E essa é mais uma das inúmeras películas, que trazem para o centro de seus roteiros, a vergonha da discriminação e preconceito em solo norte-americano.

Na cidade pacata de Sparta, interior do Mississipi (tinha que ser nesse Estado mesmo), acontece um assassinato misterioso de um empresário (Sr. Colbert), que iria investir pesado na região, na construção de uma fábrica, gerando desenvolvimento e empregos para a população local, o que incluía centenas de afrodescendentes. Um policial fazendo sua ronda noturna se depara com o Sr. Colbert, morto na calada da noite, em uma rua.



Como bode expiatório, esse mesmo policial, devido a sua incompetência, prende Virgil, um negro que estava de passagem pela cidade. Virgil então é levado para delegacia. Apenas baseado no puro preconceito, racismo e incapacidade, o delegado o acusa de assassinato, para logo ser surpreendido, com a notícia dada pelo próprio Virgil, de que este é policial, e ainda é especialista em homicídios.

Ele então fica na cidade, para ajudar a encontrar quem de fato assassinou o empresário. É de vital importância que o caso seja solucionado, pois o Sr. Colbert levaria a cidade a se desenvolver economicamente. Seguindo várias pistas e evidências, aos poucos Virgil vai montando o quebra-cabeça, para chegar ao verdadeiro assassino.

Por causa da intolerância, truculência e racismo reinante do delegado, policiais e moradores, Virgil, num certo momento resolve ir embora desse antro de caipiras burros e atrasados (olha o meu “preconceito”). Mas é convencido a ficar e resolver o caso. A partir daí, ele não desanima e não esmorece, até resolver de vez o caso. Mesmo sendo vítima de agressões físicas e tentativas mal sucedidas dos moradores em querer matá-lo.

Torna-se uma missão de extrema importância jogar na cara da cidade de Sparta, que um negro pode sim, prestar um grande serviço a sociedade, tanto quanto qualquer pessoa que tenha menos melanina na pele. As investigações só evoluem graças aos conhecimentos de Virgil, o negro tão odiado.

O final, de certa forma, é previsível. Virgil consegue desatar os nós, que envolve a morte do Sr. Colbert e, finalmente, chegar à pessoa que o matou. Logicamente que todo o mistério da trama, estava em quem tinha praticado o ato.


Outros filmes do Poitier (Adivinhe quem vem para jantar, Ao mestre com carinho I e II), me chamaram bem mais atenção, ao ponto de me emocionar, porém, No calor da noite, não deixa a desejar. Até ganhou vários Oscars, em 1968. Não sei com que outros filmes, ele concorreu, mas mesmo assim, digo que foi bem merecido e justo ter ganho as estatuetas. Rsrs.

Um filme provocativo, produzido nos turbulentos anos 60, quando pipocava a luta pelos direitos civis, com muita efervescência e tumultos no sul dos EUA.

Para mim, o recado do filme foi claro: Negros podem ser tão ou mais competentes que os brancos. Pois competência, perspicácia e inteligência, não dependem da cor da pele.

Ainda é um tipo de mensagem muito válida, para o contexto do Estado do Mississipi. Visto que o racismo continua muito forte nessa região. Principalmente no interior. Um bando de idiotas, que não aceitam nem com um tiro na cabeça, ou faca no pescoço, que eles não são superiores a quem tem a pele mais torradinha, pretinha, marronzinha...

terça-feira, 1 de março de 2016

Beasts of no Nation


Primeira película produzida pela Netflix!

É boa?

É não. É ótima! É triste! É terrivelmente chocante!

Entra século e sai século; entra década e sai década; entra ano e sai ano; e sempre, teimosamente, algum país africano está afundado na lama podre e nojenta de uma guerra civil. Sempre os civis são os que sofrem os efeitos colaterais da guerra. São assassinados pelos seus próprios patrícios, que juram lutar pela soberania da nação e restabelecer a cidadania da população oprimida.


Agu é um garotinho, que vive em uma zona de proteção militar com sua mãe, pai, irmão mais velho e irmão mais novo. Apesar dos poucos recursos disponíveis, eles vivem relativamente em paz, enquanto o país está em guerra. Ele pode brincar com os amigos, pode conversar e pedir comida aos soldados, ir a igreja rezar e o seu irmão pode paquerar as meninas da vizinhança. Comparado a outras regiões da Nigéria, mesmo com várias limitações, Agu e sua família, ainda conseguem ter uma vida “normal”.

Tudo começa a desabar, quando eles têm que fugir, por causa das forças inimigas estarem prestes a invadir a sua região. O seu pai consegue pagar um homem que leva pessoas para a capital. Ele insiste para que o maluco que faz a lotação, deixe o seu filho Agu ir também. Pedido negado. Só podem ir, a mãe e o bebê. Agu, juntamente com seu pai e irmão mais velho ficam. Agora eles têm que se virar e sobreviver, para quem sabe, consigam chegar à capital.

As forças inimigas conseguem capturá-los. Seu pai e irmão são fuzilados, mas ele consegue escapar, correndo para a mata. Vários soldados vão atrás dele, muitos tiros são disparados, no entanto, ele não é atingido. Infelizmente, uma milícia de rebeldes, denominada Força de Defesa Local (FDL), e liderada por um perverso comandante, pega o pequeno e inocente Agu na floresta.

Agu passa a ser treinado pelo exército da FDL. Come o pão que o diabo amassou. Passa por rituais religiosos de purificação, para ter o corpo protegido pelos espíritos. E não tem outra escolha, senão matar aqueles que o seu comandante tirano, julga como inimigos. Sua inocência aos poucos vai para o espaço. De criança pura e inocente, Agu agora é um adulto em miniatura, que mata, que usa heroína e comete crimes de guerra, assassinando crianças e mulheres inocentes. Impressionantemente, ele ainda guarda um sentimento, de que suas atitudes não estão certas. Ele sempre fala com Deus, posto que sua consciência o acusa, dizendo que ele está fazendo coisas moralmente erradas.

As ambições de seu líder, não se concretizam. O exército do qual Agu faz parte, mesmo obtendo vitórias importantes em suas guerrilhas, não atingiu seu objetivo maior, ganhar a guerra, e tomar o poder. As manipulações psicológicas e coerções físicas de seu líder, não deram em nada. Redundou em fracasso.

Agu e os outros soldados se rendem. Jogam as armas. Não querem mais guerrear. Reconhecem a derrota. Estão cansados de tanto sangue, carnificina, violência e banalidade da vida, que eles próprios ajudaram a criar. Foram caça e tornaram-se caçadores.

Agu, agora passa a viver num lugar tranqüilo, perto da praia, com outras crianças, onde tem um teto, comida, água e educação. Parece que os horrores da guerra estão se dissipando. Provavelmente, não em sua mente. Mas pelo menos, não precisará mais matar e cometer atos horrendos.


Beasts of no Nation é um filme de primeira linha. Sabia de antemão, que iria me chamar à atenção e fazer refletir.


Como julgar as atitudes do protagonista Agu? Uma criança que perdeu a sua família, e devido às circunstâncias em que se encontrava, não tinha como dizer não as ordens do maldoso Idris Elba, comandante da FDL, pois seria torturado e morto. Difícil julgar. Agu comete muitos crimes de guerra. O filme deixa claro, que ele mesmo tinha consciência desse fato. No entanto, fica evidente, que tanto ele, como os outros soldados, sendo adultos ou crianças, foram vítimas de um sistema cruel criado pela guerra. Numa visão fatalista, parece que parte de seus destinos era matar.

Tomando emprestadas as palavras do Jornalista Eduardo Galeano, quando ele se refere à América Latina, os países africanos ainda estão com as suas veias abertas. Rios de sangue jorram nesse continente. Estancá-los é muito difícil.  


Link do filme:

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

O que é Etnocentrismo


ROCHA, Everaldo P. Guimarães. O que é Etnocentrismo. 5ª edição.São Paulo: Brasiliense, 1994. 

Link do livro:


Etnocentrismo!

Alunos dos cursos de História, Sociologia, Antropologia e demais áreas das Ciências Humanas, com certeza já se depararam com esse termo. Ele é sempre mencionado como algo ruim, tirânico, ditatorial, desaconselhável, inapropriado e, que, portanto, deve ser evitado pelos discentes, em suas práticas e análises acadêmicas e, até mesmo em suas vidas. Ser etnocêntrico, dirão os Professores, não é legal. É mostrar-se incompreensivo; é mostrar-se imaturo; é mostrar-se preconceituoso; é mostrar-se opressor; é mostrar-se infantil; é mostrar-se prepotente; é mostrar-se autoritário; é mostrar-se dono da razão; é não olhar o “outro” em seus próprios termos.

Mas que ideia/imagem/noção/abstração/entendimento/conceito essa palavra carrega para ser tão rechaçada nos departamentos de humanas? Para responder o que é Etnocentrismo, Everardo P. Guimarães Rocha (Ph.D e Mestre em Antropologia Social do Museu Nacional da UFRJ, e Professor do Departamento de Comunicação Social da PUC/RJ) escreveu esse pequeno livro para a famosa e consagrada série Coleção Primeiros Passos, da editora Brasiliense.

O Etnocentrismo carrega em seu seio, o ponto de vista de que o grupo do “eu” tem valores culturais, sociais, espirituais, religiosos e políticos, melhores que o “outro” grupo. O “outro” é visto com desconfiança; o “outro” é inferior; o “outro” precisa civilizar-se. O “nós” alcançou um status moral elevado e, assim, tem o direito e dever de moralizar o “eles”.  O “outro” precisa aprender com o “nosso” grupo, civilização, povo... Eles carecem de bons modos, de educação.

“No mais das vezes, o etnocentrismo implica uma apreensão do ‘outro’ que se reveste de uma forma bastante violenta. Como já vimos, pode colocá-lo como ‘primitivo’, como ‘algo a ser destruído’, como ‘atraso ao desenvolvimento’, (fórmula, aliás, muito comum e de uso geral no etnocídio, na matança dos índios).” P. 7.

Exemplos clássicos do que seria Etnocentrismo, nos são explicados pelos Antropólogos, que vão viver em lugares remotos, entre povos que possuem uma visão de mundo bastante distinta da nossa. Como eles passam a viver no universo dessas culturas, acabam tendo um olhar mais compreensivo e sem os preconceitos costumeiros, que geralmente nós manifestamos, quando ficamos diante de um costume, hábito ou práxis, que não nos agrada, por não termos aprendido em nossa sociedade e cultura, a agir da maneira que um determinado povo, age, vê o mundo, a vida, deus ou deuses, e as relações interpessoais.

“Ao ‘outro’ negamos aquele mínimo de autonomia necessária para falar de si mesmo.” P. 7.

Acabamos sendo injustos ao analisar uma cultura, segundo nossos padrões de certo e errado. Como a moralidade é relativa, volúvel e arbitrária, não há razão, para nos colocarmos como os donos da verdade absoluta sobre o que um povo, com um legado histórico-social diferente, deve ou não fazer. Eles têm a sua própria moralidade, lógica e racionalidade interna. Não precisam que nós lhes ensinemos como proceder, diante dessa ou daquela situação.

Nesse caso, diante das centenas de estudos etnográficos, históricos e sociológicos, podemos e devemos superar o Etnocentrismo.

“Entender alguns movimentos deste jogo é acompanhar a superação do etnocentrismo na arena do intelecto e da razão e na arena da emoção e do sentimento.” P. 10.

“[...] conhecer a diferença, não como ameaça a ser destruída, mas como alternativa a ser preservada, seria uma grande contribuição ao patrimônio de esperanças da humanidade.” P. 30.

Relativizando o que o autor diz

Numa leitura rápida, apressada e sem análise crítica, a defesa que o Rocha faz da relativização como meio de não julgarmos o “outro” e abandonarmos o Etnocentrismo, é muito bonita e coerente, e parece dignificar o ser humano e as diversas culturas e povos. Mas o tiro pode sair pela culatra.

Concordo com autor que devemos dar voz ao “diferente”. É uma virtude tentarmos entender e compreender, e não julgarmos de forma negativa uma cultura, pelo singelo fato dela parecer  estranha aos nossos olhos. Devemos relativizar muitas de nossas práticas, tomando consciência de que elas são apenas o resultado de várias contingências históricas e sociais que foram se sobrepondo ao longo dos anos e séculos. Aquilo que nós pensamos ser algo inscrito na natureza, nada mais é que o fruto de decisões subjetivas, que atenderam a necessidades locais.

Mas o meu problema com o Rocha, é que ele parece defender a ideia pós-moderna de um relativismo cultural exagerado. O que é facilmente desmascarado como autocontraditório. Ele aceita que relativizemos o que ele diz sobre isso? Ele não estaria sendo Etnocêntrico ao rechaçar o pensamento das pessoas que julgam negativamente a cultura e sociedade de um determinado país, por não estarem em harmonia com os seus valores? Por que a ideia de não julgar nada e nem ninguém deve ter precedência sobre a visão de que se deve julgar os “outros” de acordo com o padrão de certo e errado do “eu” ou dos “nossos”? Certamente a ideia de relativismo cultural, tão aclamada por ele, é contingente e condicionada também! Ou ela estaria inscrita na natureza?

Rocha teria coragem de abrir a boca e dizer que os que discordam dele, estão errados?  E por que estariam? Segundo as premissas adotadas por ele, como sair desse labirinto? Labirinto construído por ele mesmo, e que agora ele não sabe o caminho de volta. 

Chega a ser tão incoerente o que ele fala nesse livro em sua maior parte, que fico abismado, pensando em como ele não percebe as contradições inerentes ao seu sistema de pensamento. Num determinado trecho ele diz:

“Nas relações internacionais, interétnicas, nos costumes políticos, na indústria cultural, sua exploração econômica e até mesmo na observação do comportamento do nosso vizinho ou em vários outros espaços de pensamento e de ação social, muito pouco se relativiza.” P. 37.

Segundo os pressupostos aderidos/professados por ele em todo livro, fica a impressão de que nenhum aspecto de um dado povoado ou tribo deve ser julgado como errado, mas apenas “diferente”. Devemos relativizar sempre. Nessa citação acima, ele vai além, devemos relativizar até mesmo, hábitos e práticas de nossos vizinhos. Se for assim, por que ele vê como algo errado, aqueles que julgam uma cultura como inferior? Ele está disposto a relativizar a sua observação do comportamento do seu vizinho, que afirma com veemência, que a Índia, por exemplo, é um país atrasado espiritualmente? De acordo com os critérios que ele adota, ele deve responder afirmativamente, para manter um mínimo de “coerência” com o que prega e acredita. Entretanto, de qualquer forma, se o fizer, o seu discurso acabará se esvaindo.  

Em complemento, basta dá uma olhada em minha postagem sobre o livro O Básico da Filosofia, neste link:

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Bruna Surfistinha


Quem nunca procurou uma mulher da vida para despejar o esperma acumulado? Quem nunca procurou uma puta para aliviar a tensão do seu pinto nervoso? Quem nunca procurou uma prostituta para lhe fazer, o que suas namoradas e esposas não fazem? Quem nunca foi atrás de uma garota de programa, procurando um sexo oral, um sexo anal, uma fantasia, que suas parceiras nem imaginam realizar? Quem nunca foi, que atire a primeira pedra! Pois bem, eu nunca fui! Eu posso atirar essa pedra! Nunca procurei. Mas falo isso, sem moralismo hipócrita! Sem puritanismo besta, fundamentado numa moral religiosa. Quem quer esse tipo de entretenimento, que o busque. Quanto a mim, é dinheiro demais. Tô fora. Rsrs.

Em 2006, quando trabalhava em um colégio, nas duas horas de almoço que tinha, sempre ia a uma livraria de um shopping perto. Pegava um livro, sentava numa poltrona que eu julgava que já era minha, e ficava lendo ele. Comecei a observar que sempre tinham umas meninas de uma outra escola próxima, lendo um livro de capa preta. Elas tinham um interesse enorme, folheando aquelas páginas, que até então eram um mistério para mim. Dias depois, fiquei sabendo do que se tratava aquele livro misterioso. Eram relatos de uma garota de programa. Raquel Pacheco tinha lançado a sua “obra-prima”, O Doce Veneno do Escorpião. Suas experiências sexuais, com o seu exército de clientes tarados. Tava explicado o porquê do interesse daquelas jovens de 16, 17 anos, em ler com tanta avidez aquelas páginas repletas de putaria.

Li quase todo O Doce Veneno do Escorpião. Li de cabo a rabo, o segundo livro, O que Aprendi com a Bruna Surfistinha, uma mera repetição do primeiro. Apenas relatos do que ela fez na cama com os seus clientes. Meus amigos da Faculdade, que tinham uma certa admiração por mim, até me perguntaram, como eu podia ler uma literatura de um nível tão “baixo”. Mas nem tinha e nem tenho besteira com isso. 

Finalmente, chego ao filme. Fim de noite, procurando um filme na Netflix, encontro essa “pérola” do cinema nacional.

Raquel, filha adotiva, não aguenta mais aquela vidinha “sem graça”. No auge dos seus 17 anos de idade, resolve sair de casa e trabalhar abrindo as pernas. Inicialmente vai para um muquifo de quinta categoria. Em pouco tempo, passa a ser a garota mais requisitada do local. Para atrair clientes, ela “faz tudo”. Aí já viu, né?! Vira a princesinha do local. Alçando vôos mais altos no mundo da safadeza, ela resolve trabalhar sozinha, começa a escrever em um blog, e assim, consegue uma miríade de clientes ávidos em comê-la. Sucesso garantido. Muito sexo, bebidas e drogas. Estas, quase acabam com a sua vida. Muita cocaína consumida. Mas ela consegue superar.

Débora Secco está linda no papel da Bruna. Seios lindos. Bundinha linda. Ótima interpretação.



Temos milhares de “Brunas” nesse Brasil a fora. Milhares de histórias. Muitas, apenas querem sobreviver. Outras querem uma vida de luxo, porém, não terão como ostentar uma vida de festas, viagens, roupas caras e bens materiais, num emprego, ganhando apenas um salário mínimo, ou um pouco mais que isso por mês. Aí, o jeito é dá a b..., o c...

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Um Sonho Possível


Um jovem negro, de 17 anos, nascido na periferia de Memphis, no Tennessee, não conhece o pai, a sua mãe é uma drogada, não a vê há muito tempo, não tem casa, não tem familiares, possui apenas duas camisetas para se vestir. Essa é a triste realidade de Michael Oher (Big Mike).

Sua sorte começa a mudar como por um milagre, quando um colégio cristão de alto nível resolve aceitá-lo no seu quadro de alunos. Big Mike passa a estudar nessa escola de pessoas ricas e abastadas da cidade de Memphis, e assim, passa a vivenciar uma outra realidade. Porem, não consegue se adaptar aos estudos, porque não teve uma educação adequada e situação social e familiar favorável.

Um casal, que têm dois filhos estudando na mesma escola que o Mike, resolve adotá-lo, e a vida dele começa a mudar.

Um Sonho Possível é um filme baseado numa história real, que consegue nos passar a linda  mensagem de que é possível sermos altruístas, amorosos e misericordiosos. Uma história que impressiona.

Imaginar que um casal rico, possa levar um desconhecido para dentro de sua casa, parece ser uma história bem surreal. Junte-se a isso, o fato desse desconhecido ser um negro, num Estado, com um histórico de racismo bastante acentuado, como o Tennessee. Mas essa história aconteceu de fato há não muitos anos. E Mike, felizmente, não fez parte das trágicas estatísticas de negros mortos ou presos, na cidade de Memphis, que por sinal, é uma das cidades mais violentas dos EUA.      

Sandra Bullock arrasa no papel da mãe adotiva do Mike. O que lhe rendeu um Oscar. O ator mirim Jae Head, também detona no papel de “irmão” do Mike.  

Um Sonho Possível é mais uma obra cinematográfica que vem se juntar as dezenas de ótimos filmes, que vem nos inspirar a sermos pessoas melhores, mais amorosas, mais humildes... Virtudes estas, que têm faltado a muitos. Inclusive a mim.  

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Amistad


Em um navio negreiro ilegal, negros de Serra Leoa, conseguem escapar dos grilhões e matar os tripulantes. Dois destes são mantidos vivos, para que possam ajuda-los a voltarem para a África. No entanto, os planos são frustrados, e eles acabam sendo presos nos EUA.

Começa-se uma batalha no tribunal para saber com quem ficarão essas pobres almas condenadas à servidão. Pessoas vêm de todos os lados reivindicando o direito à posse desses cativos. A rainha da Espanha, Isabella II, uma pirralha de 12 anos de idade, manda o seu recado do outro lado do oceano, para ferrar com os negros, mas ninguém leva muito em conta o que ela diz. A bichinha ainda nem tirou a cantiga do mijo.

Felizmente, um abolicionista, juntamente com o seu amigo e empregado negro (Morgan Freeman) e um advogado, frustram pelo menos a nível estadual, a pretensão de certos escravistas de possuírem esses africanos. E olha que o poder executivo interferiu de modo desonesto no poder judiciário, mudando o juiz, quando os abolicionistas estavam se saindo melhor nos argumentos. Fizeram isso por temerem uma guerra civil. O seu fantasma já rondava o novo mundo no final da década 1830.

Devido a conchavos políticos, o caso vai parar na suprema corte, e o ex-Presidente dos EUA e Advogado, John Adams Quincy, convence o tribunal, de que os negros do navio espanhol Amistad, não são escravos, portanto, não são bens e propriedades de ninguém, e assim, devem ser soltos.

Amistad é um filme longo, e até cansativo em alguns momentos. Mas vale muito a pena gastar às duas horas e meia, assistindo-o. É mais uma obra do cinema que volta ao passado, para nos lembrar do quanto à escravidão é algo imoral. São assustadoras algumas cenas do filme, quando, por exemplo, mulheres e homens são acorrentados uns aos outros e jogados em alto mar, sem chance alguma de sobrevivência. Isso às vezes era feito, para que o navio não fosse acusado de estar traficando ilegalmente, visto que os navios britânicos estavam sempre patrulhando os mares, para conter o tráfico de escravos.

“É nosso destino como abolicionistas e cristãos, salvar esta gente. Eles são gente, não gado” (Sr. Tappan, abolicionista)

Pena que os cristãos da época não pensavam assim. Legitimavam de todas as formas, inclusive usando a Bíblia para provar que os “de cor” deviam ser escravizados. Ah o amor cristão... Católicos e protestantes juntos no comércio e tortura de pessoas.

Em sua brilhante fala perante a suprema corte, John Quincy Adams (Anthony Hopkins) menciona a Declaração de Independência dos EUA, que diz que “todos os homens são iguais” e que todos têm “direitos inalienáveis”. Eis aí, a hipocrisia, safadeza e incoerência da política e sociedade norte-americana durante o nefasto período da escravidão e segregação. 

"Considerando estas verdades como evidentes por si mesmas, que todos os homens foram criados iguais, foram dotados pelo Criador de certos direitos inalienáveis, que entre estes estão a vida, a liberdade e a busca da felicidade." P. 9. 

Jogaram a Declaração no lixo. E ainda tinham a cara de pau de mantê-la exposta em seus tribunais, repartições públicas... Vai ver que eles tinham uma definição bem peculiar do que seria “homem”. Nesse caso, o negro não preenchia os requisitos necessários para ser considerado um ser humano, com plenos “direitos inalienáveis”.

Hoje, aqui mesmo no Brasil, existem vários tipos de escravidão, opressão e injustiças. E assim como a sociedade branca de tempos passados, fingimos que as coisas naturalmente devem ser assim, porque sempre foram. Uns sofrem bastante, para que outros sejam felizes. Pensando dessa forma, convenientemente nos inocentamos e nos isentamos de nossas responsabilidades como seres humanos. Nada ou quase nada de empatia e misericórdia para com os que sofrem.  

REFERÊNCIAS

JEFFERSON, Thomas. Declaração de Independência. In: CONSTITUIÇÃO dos Estados Unidos da América e Declaração de Independência. São Paulo: Jalovi, 1987.

Histórias Cruzadas


“Ninguém pode exigir que qualquer mulher branca atenda em ala ou quarto em que homens negros estejam internados. Livros não poderão ser trocados entre escolas de brancos e de negros, e deverão continuar sendo usados pela raça que os usou primeiro. Barbeiros de cor não poderão atender a mulheres e meninas brancas.” (Mississipi – Leis de Conduta)

Um grande e comovente filme, que traz a infeliz história do racismo, na década de 1960 nos EUA. A história se passa na cidade de Jackson, interior do Mississipi, um dos Estados mais racistas da América.

As empregadas domésticas "de cor" são as protagonistas. Elas criam os filhos e filhas das senhoras brancas, educam, dão conselhos, limpam as suas bundas, etc., para depois essas mesmas crianças crescerem, perderem a pureza e inocência, virarem patrões, e finalmente, perpetuar o racismo, preconceito e discriminação ensinados pelos seus pais e sociedade.

O absurdo das humilhações que as negras sofrem nas casas dos brancos são tão grandes, que uma das peruas brancas resolve criar um projeto de lei, para que as domésticas tenham um banheiro separado para fazer as suas necessidades. O motivo: os negros têm doenças diferentes das pessoas brancas. Suas doenças são piores. Eles precisam mijar e cagar em suas próprias privadas. O lema da época era “iguais, mas separados”.

A cena é a seguinte, a gostosinha branca mais racista da trama está com vontade de cagar ou mijar (o filme não diz o que é). Mas ela se recusa a usar o banheiro da casa de sua amiga, porque a exemplo de sua casa, ali também a empregada negra usa o mesmo banheiro.

Aibileen: - Hilly, eu gostaria que você usasse o banheiro.

 Hilly: - Estou bem.

Mãe da Hilly: - Ela só está chateada porque a negra usa o banheiro social e nós também.

Hilly diz a Aibileen: - Não prefere que eles façam as necessidades lá fora? [...] cada centavo gasto com um banheiro para negros será recuperado quando a casa for vendida. É perigoso. Eles têm doenças diferentes de nós.

Histórias cruzadas também tem como protagonista,  uma linda jovem branca, que não se encaixa nos estereótipos e obrigações sociais que a sua cidade impõe. Ela resolve escrever um livro sobre o drama e experiências das domésticas da cidade. Inicialmente duas começam a relatar as suas histórias e depois conseguem angariar mais voluntárias para a composição do livro. Tudo é feito às escondidas, visto que se a cidade souber que uma obra que denuncia os abusos e humilhações que empregadas domésticas vivem diariamente, por anos a fio, está sendo escrita pelas negras residentes de Jackson, a coisa vai ficar feia para o lado delas.

O livro é finalmente publicado, com muitos exemplares vendidos. Mesmo que a situação de humilhação ainda se perpetue por muitos anos, foi um grande passo dado para emancipação dos negros no Mississipi.

Dezenas de anos depois do movimento pelos direitos civis, como será que está essa absurda e delicada questão do racismo no Mississipi, principalmente no interior? Como é a relação entre brancos e negros? A situação financeira dos afrodescendentes melhorou desde então? Ou esse Estado ainda carrega os resquícios da segregação? Para responder algumas dessas perguntas, basta dá uma olhada nessas matérias:

http://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult94u449367.shtml

http://g1.globo.com/mundo/noticia/2012/07/casal-negro-americano-tem-casamento-negado-por-racismo.html

Quanto ao segundo link, ele começa dizendo:

“Um casal do Mississippi, sudeste dos EUA, sofreu um duro golpe quando o pastor da igreja que frequentavam comunicou que o casamento não poderia ser celebrado no local por serem negros, informou o canal ABC.”

“Ele [o pastor] afirmou que vários integrantes brancos da congregação foram contrários, de forma violenta, à celebração do casamento de Charles y Te'Andrea Wilson. Alguns o ameaçaram de demissão.”

Ah, o amor cristão...

Link do filme:

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Área de Caça


Fiquei chocado com o conteúdo desse extraordinário documentário, que denuncia a política de acobertamento de milhares de estupros que acontecem nas universidades norte-americanas, e os diretores, supervisores, professores e reitores dessas instituições nada fazem para punir os estupradores.

As universidades que imaginarmos são cúmplices das agressões que as suas alunas sofrem em seus apartamentos e casas, dentro do campus. As universidades de Harvard, Princeton, Brandeis, Washington, Tulsa, Carolina do Norte, Oregon, Notre Dame, MIT, Miami, Yale, Califórnia, John Hopkins, e dezenas e dezenas delas, estão envolvidas nesse jogo sujo, de não denunciar os alunos que comem suas colegas a força.

Uma das centenas de meninas que foram violadas sexualmente traz a sua história:

“No meu segundo ano, logo após o recesso da páscoa, uma grande amiga minha disse: ‘Você que ir a esta festa hoje?’, e já era bem tarde da noite. Eu comecei a dançar com um rapaz. Ele era bem atraente e um dançarino muito, muito bom e uma pessoa muito legal. Pelo menos, eu achei que era. Tudo aconteceu muito rápido. Na verdade, eu era virgem, então isso torna a situação pior, mas ele começou a me puxar em direção ao banheiro. Ele agarrou a minha cabeça na lateral da minha orelha e a golpeou contra o piso do banheiro. E não parou. Eu não podia me mexer. Eu podia ouvir as risadas do lado de fora da porta. Eu podia ouvir as pessoas dançando. E aquilo me fez perguntar, por que ninguém me vê? Por que ninguém vem ao banheiro? Por que eu não estou gritando?”

Ela continua:

“Quando você está apavorada e não sabe o que está se passando com você, você simplesmente fica ali e espera que não morra. E era isso que eu estava esperando, que eu tivesse mais que 20 anos para viver.”

A maioria dos casos acontece nas festas promovidas pelos alunos e fraternidades. São farras regadas a muita bebida alcoólica e drogas também. Talvez alguns possam querer amenizar a situação, afirmando que meninas decentes não deveriam estar nessas festas. Entretanto, essas meninas vão a estes lugares para se divertirem e não para transarem contra a sua vontade.  Mulher nenhuma pode ter a sua integridade íntima violada por estar bêbada. Caso em que muitas dessas meninas não estavam.

E não surpreende o fato, de que até homens também estão na lista. Claro que são pouquíssimos em relação ao número de mulheres, mas tiveram a sua dignidade destruída por maníacos sexuais descontrolados.

David Lisak (Ph.D em Psicologia na Universidade de Duke) revela:

“Sabemos há, provavelmente, 25 anos, que o problema da violência sexual nos campus das universidades é enorme.”

John Foubert, Professor da Universidade de Oklahoma, especialista na prevenção de agressão sexual, diz:

“Mas acho que muitos pais pensam: ‘Vamos deixar nossa filha lá, e ela terá uma ótima experiência universitária, e tudo será ótimo, porque a universidade tem reputação de ser um lugar seguro’. [Mas] não é.”

Os números são alarmantes. A violência sexual contra as estudantes é um problema gigante nas universidades dos EUA.

“Mais de 16 por cento das estudantes sofrem violência sexual na universidade.”

As alunas estupradas dão queixa, no entanto, a direção das universidades faz vista grossa para o que tem acontecido com muita frequência em seus aposentos. Não dão assistência as vítimas. Questionam a idoneidade dos depoimentos. Tapam o sol com a peneira. Mas por quê? A resposta é simples e óbvia. O deus dinheiro tem precedência sobre a dignidade das alunas. Geralmente os criminosos que cometem as agressões sexuais fazem parte das fraternidades e são atletas do time de futebol ou basquete, da instituição. As fraternidades e os campeonatos universitários geram muitas receitas para os cofres de Harvard, Yale... Elas não querem perder os milhões e milhões que arrecadam todos os anos. Caso elas admitam que existam com certa frequência estupros de alunas em suas dependências, a renda pode cair. Alunos (principalmente mulheres) não vão querer estudar nelas. Então é melhor que as alunas que caíram nessa desgraça, sejam silenciadas ou desacreditadas.

“88 por cento das alunas violentadas nos campus não dão queixas.”

Vendo esse documentário, me lembrei de outro (A Guerra Invisível) que assisti meses atrás, que trata da problemática do estupro nas forças armadas dos EUA. A Guerra Invisível pode ser encontrado nesse link:

https://www.youtube.com/watch?v=M_yZ9ywEOMk

Uma pequena resenha dele nesse blog:

http://dinhosheol.blogspot.com.br/search/label/Liberdade%20de%20Express%C3%A3o

Fica patente que as autoridades estadunidenses estão pouco se lixando para quem sofre de agressão sexual, se está tiver sido perpetrada por um militar ou por um estudante que faça parte do time da universidade.

“Menos de 8% dos rapazes da faculdade cometem mais de 90% das agressões sexuais”. (David Lisak e Paul Miller)

Esses 8% fazem o inferno e são reincidentes. Estupram uma, não se conformam, estupram outra e, assim, por diante. Se forem atletas, estão numa bolha impenetrável.

Aqui vão números que provam a conivência das universidades:

- Universidade de Harvard, 135 denúncias de violência sexual (2009-2013), apenas 10 suspensões relatadas;

- Universidade da Califórnia, em Berkeley, 78 denúncias de violência sexual (2008-2013), apenas 3 expulsões;

- Faculdade de Dartmouth, 155 denúncias de violência sexual (2002-2013), apenas 3 expulsões;

- Universidade de Stanford, 259 denúncias de violência sexual (1996-2013), apenas 1 expulsão;

- Universidade da Carolina do Norte, 136 denúncias de violência sexual (2001-2013), nenhuma expulsão;

- Universidade da Virgínia, 205 denúncias de violência sexual (1998-2013), nenhuma expulsão.

Lamentável tal situação.

Dando uma pesquisada rápida sobre a repercussão Área de Caça teve, é claro que as universidades disseram que ele não é fiel aos fatos. Distorce números e blá blá blá. Conta outra. É claro que eles irão negar com a faca no pescoço, que não são coniventes com tais crimes. Jurarão e venderão a alma ao diabo, afirmando que não protegem os criminosos sexuais.

Eu acredito nessas meninas entrevistadas. Essas universidades são verdadeiras empresas. Estão inseridas no competitivo e cruel mercado de trabalho. Farão de tudo para estarem no alto da torre. Mesmo que para isso, tenham que mentir e proteger criminosos.