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sexta-feira, 1 de julho de 2016

O Escândalo do Comportamento Evangélico


SIDER, Ronald J. O Escândalo do Comportamento Evangélico. Viçosa, MG: Ultimato, 2006. 

Os evangélicos são conhecidos em apontar o “erro” da sociedade que não se identifica com os padrões de comportamento ensinado por eles. Sempre com o dedo em riste condenam o quanto a população precisa de Deus, alias, do seu deus. As pessoas estão em pecado, em rebeldia, em desobediência, em rebelião contra a divindade – e caso não venham o mais rápido para suas igrejas e comecem a comungar de seus valores, irão sofrer a ira divina. Colocam-se como os guardiões da Moralidade e da Ética. São os exemplos dos bons costumes e de como a sociedade deve se comportar. Mas a realidade é ironicamente bem diferente.

Não precisaríamos nem de um livro, nem de pesquisas ou artigos acadêmicos, para constatar algo tão abertamente patente aos nossos olhos. Não obstante, felizmente, muitos olhares de dentro do mundo protestante têm denunciado a hipocrisia reinante nesse ambiente. Ronald J. Sider (Ph.D em História na Universidade de Yale), que já lecionou nas Universidades de Yale, Harvard, Princeton e Oxford, traz nesse livro dados assustadores e realistas sobre a situação daqueles que se dizem “nascidos de novo”. É tão crítico o estado dos evangélicos, que George Barna (Sociólogo e Pesquisador evangélico) admite:

“O cristianismo norte-americano fracassou grandemente desde meados do século 20.” P. 15.

Apenas digo que o Barna ameniza a questão. O cristianismo nos EUA sempre fracassou, visto que nos séculos anteriores, a escravidão fez parte da dinâmica social e econômica desse país. Como um povo que diz seguir a lei do amor ao próximo, como ensinou Jesus, poderia aprovar um sistema tão desumano quanto este? E pior: quando a escravidão acabou, o racismo apenas aumentou. E com a diferença grotesca de que a discriminação foi e ainda é maior nos estados com a maior concentração de “nascidos de novo”. 

Os evangélicos são conhecidos por terem um discurso de valorização do casamento, rejeitando, portanto, o divórcio. Mas inúmeras pesquisas mostram que na prática o discurso não passa meramente de um palavreado vazio.

“Em agosto de 2001, uma nova pesquisa demonstrou que a taxa de divórcio era a mesma para os cristãos nascidos de novo e a população em geral.” P. 18.

Brad Wilcox (Ph.D em Sociologia na Universidade de Princeton), estudioso de temas ligados a família diz:

“Comparados ao resto da população, os protestantes conservadores têm mais propensão a se divorciar.” P. 19.

Com relação às contribuições na área social, Sider destaca que os cristãos protestantes têm contribuído muito pouco para erradicação da miséria.

“Observemos a agenda pública de movimentos políticos e coalizões evangélicas de destaque. Quase nunca a justiça em favor do pobre aparece como uma área de preocupação ou esforço significativo.” P. 21.

“Como evangélicos afirmamos ter a Bíblia como nossa autoridade final. Um dos temas mais recorrentes nas Escrituras é que Deus e seu povo têm uma preocupação especial para com o pobre. Então por que essa contradição gritante entre crença e prática?” P. 22.

Voltando a questão familiar, outro ponto muito enfatizado e “valorizado” pelos protestantes, é o casamento ser oficial; no papel; reconhecido no mínimo pelo Estado. Se não casou na igreja, que pelo menos só passe a viver como um casal depois de terem oficializado a união perante as autoridades competentes. Pois bem, nessa altura, já não sendo mais novidade, a realidade é bem outra.

“Uma reportagem no The New York Times relatou que, de acordo com dados do censo, em 1990 o número de casais não casados vivendo juntos aumentou muito mais no Cinturão da Bíblia (onde grande parte da população é evangélica) que nos Estados Unidos como um todo. No país o aumento foi de 72%. Mas em Oklahoma, ele foi de 97%; no Arkansas, de 125%; e no Tennesse, de 123%.” P. 23. 

Entre os jovens a taxa de sexo antes do casamento é bem alta. Não existe diferença significativa entre a juventude evangélica e a mundana. Meninos e meninas da igreja estão fazendo muito sexo.

“A juventude evangélica tem uma probabilidade apenas de 10% menor de fazer sexo antes do casamento que os não-evangélicos.” P. 23.

No tocante ao racismo, para os que pensam que a comunidade dos “seguidores” de Jesus não despreza as pessoas pretinhas, estão bem enganados. O racismo entranhado nos Estados Unidos não faz distinção entre os que estão na igreja protestante e os que não a frequentam. O crime da discriminação pela simples quantidade de melanina persiste com muita intensidade, com o agravante, de que os evangélicos são os mais racistas!

“Em 1989 George Gallup Jr. e James Castelli publicaram os resultados de uma pesquisa para determinar quais grupos nos Estados Unidos eram mais propensos a rejeitar vizinhos negros – um bom indicador de racismo. Católicos e cristãos não evangélicos foram classificados entre os menos propensos; 11% fizeram objeção ao contato entre negros e brancos. Os protestantes históricos chegaram próximo dos 16%. Com 17% batistas e evangélicos ficaram entre aqueles mais propensos a repudiar a possibilidade de ter vizinhos negros, e 20% dos batistas do sul rejeitaram a ideia de ter vizinhos negros.” P. 25.

E não para por aí, há algumas décadas, até os líderes da igreja...

“Durante o movimento de direitos civis, quando os protestantes históricos e os judeus se uniram aos afro-americanos em sua luta histórica por liberdade e igualdade, líderes evangélicos foram quase totalmente omissos. Alguns se opuseram ao movimento; outros não se pronunciaram. Quando Frank Gaebelein, então co-editor de Christianity Today, não apenas cobriu a marcha de Martin Luther King sobre Selma, como também endossou o movimento e a ele se juntou, experimentou oposição e hostilidade da parte de outros líderes evangélicos.” P. 25.

Sider mesmo sendo um evangélico não se esquiva da hipocrisia que reina absoluta no seio da igreja protestante. E ainda sobre o racismo, ele continua:

“Michael O. Emerson e Christian Smith escreveram um livro crucial [...] explorando as atitudes racistas presentes no mundo evangélico. Concluíram que ‘o evangelicalismo branco provavelmente faz mais para perpetuar a sociedade racista do que para reduzi-lá’. Os protestantes conservadores brancos têm mais que o dobro de propensão que os outros brancos de apontar falta de motivação entre os negros (e não a discriminação) como fator responsável pela desigualdade entre brancos e negros. Os protestantes conservadores são seis vezes mais propensos a citar a falta de motivação que o acesso desigual à educação.” P. 27.

Diante dessa trágica e demoníaca realidade, Sider tristemente pergunta:

“[...] como é possível que os evangélicos sejam as pessoas mais racistas e preconceituosas de nossa sociedade?” P. 47.

Eu também pergunto como é possível, que o povo que se julga o mais santo da face da terra, pode ter uma práxis tão destoante daquilo que diz seguir. Os evangélicos que são conhecidos em criticar os católicos são mais racistas que estes! Como conciliar a discrepância gritante em afirmar possuir ter o Espírito do Criador, com suas ações e práticas tão vergonhosas? O que fica claro é à distância quilométrica entre o que dizem e o que fazem de fato. Lógico que não são todos, e o Sider sabe muito bem disso. Mas os números são altos demais; é uma porcentagem elevada demais, o que descaracteriza o universo evangélico como o “sal da terra e luz do mundo”, como eles gostam de se ver.

Apesar de nos apresentar esses dados que diminuem drasticamente à credibilidade do universo evangélico, Sider não está totalmente desesperado, ele crê que existe esperança para a comunidade evangélica. Eu não tenho.

O Escândalo do Comportamento Evangélico é muito mais do que foi resumido aqui. Mas por ora, basta. 

Livro recomendado.

segunda-feira, 8 de junho de 2020

Os Evangélicos Norte-Americanos e o Racismo


Na sociedade norte-americana, dentre os grupos religiosos mais racistas, os evangélicos se destacam, mostrando que estão longe de serem a "luz do mundo" dita nos Evangelhos. Li três livros evangélicos que reconhecem a problemática do racismo em seu meio, dos quais destaco O Escândalo do Comportamento Evangélico, de Ronald Sider, evangélico e Ph.D em História na Universidade de Yale.

“Em 1989 George Gallup Jr. e James Castelli publicaram os resultados de uma pesquisa para determinar quais grupos nos Estados Unidos eram mais propensos a rejeitar vizinhos negros – um bom indicador de racismo. Católicos e cristãos não evangélicos foram classificados entre os menos propensos; 11% fizeram objeção ao contato entre negros e brancos. Os protestantes históricos chegaram próximo dos 16%. Com 17% batistas e evangélicos ficaram entre aqueles mais propensos a repudiar a possibilidade de ter vizinhos negros, e 20% dos batistas do sul rejeitaram a ideia de ter vizinhos negros.

[...]

Durante o movimento de direitos civis, quando os protestantes históricos e os judeus se uniram aos afro-americanos em sua luta histórica por liberdade e igualdade, líderes evangélicos foram quase totalmente omissos. Alguns se opuseram ao movimento; outros não se pronunciaram. Quando Frank Gaebelein, então co-editor de Christianity Today, não apenas cobriu a marcha de Martin Luther King sobre Selma, como também endossou o movimento e a ele se juntou, experimentou oposição e hostilidade da parte de outros líderes evangélicos.” P. 25.

“Michael O. Emerson e Christian Smith escreveram um livro crucial [...] explorando as atitudes racistas presentes no mundo evangélico. Concluíram que ‘o evangelicalismo branco provavelmente faz mais para perpetuar a sociedade racista do que para reduzi-lá’. Os protestantes conservadores brancos têm mais que o dobro de propensão que os outros brancos de apontar falta de motivação entre os negros (e não a discriminação) como fator responsável pela desigualdade entre brancos e negros. Os protestantes conservadores são seis vezes mais propensos a citar a falta de motivação que o acesso desigual à educação.” P. 27.

“[...] como é possível que os evangélicos sejam as pessoas mais racistas e preconceituosas de nossa sociedade?” P. 47.
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SIDER, Ronald J. O Escândalo do Comportamento Evangélico. Viçosa, MG: Ultimato, 2006.

O documentário Reavivamento da Rua Azusa: A História Nunca Antes Contada reconhece que apesar do movimento em seu início ter juntado em seus cultos, negros e brancos, a “harmonia” racial não teve repercussão duradoura, sendo apenas em 1994 que houve um pedido de desculpas sobre a tensão racial entre brancos e negros nas fileiras pentecostais.

Entretanto, Billy Graham, o pastor mais conhecido e respeitado do século XX-XXI, posicionou-se eminentemente contra o racismo dos anos 1950-1960, tendo o reconhecimento de Martin Luther King, que disse sobre ele:

"Não fosse pelo ministério do meu amigo Billy Graham, meu trabalho em prol dos direitos civis, não teria alcançado o mesmo sucesso."

Recortei a parte do documentário Billy Graham: O Embaixador de Deus, que fala sobre quais foram as atitudes de Graham frente ao racismo, mostrando o quanto ele foi um homem corajoso que lutou pela igualdade de todos, fato que o próprio King admite, em sua fala já citada, quando muitos pastores e líderes evangélicos empunham as suas Bíblias para dizer que os negros eram inferiores e deviam ser tratados com tal. 

terça-feira, 14 de agosto de 2018

Canção da Liberdade



Há uns 12 anos, numa madrugada sem sono, liguei a TV e estava passando este filme no SBT. Logo me chamou a atenção, devido ao tema abordado em sua trama. O racismo e o Movimento pelos Direitos Civis, na década de 1960, em todo o território norte-americano, principalmente nos estados sulistas, onde a discriminação e perseguição aos negros eram e ainda é mais intensa que nos estados do norte.

Sempre garimpando na internet filmes sobre o racismo, demorei anos a fio para encontrar este. Finalmente consegui baixá-lo e colocá-lo disponível no Youtube. Infelizmente, não está em sua melhor qualidade visual, mas dá para apreciá-lo numa boa, e ver o quanto o nefasto racismo que gerou uma cruel segregação é uma ferida aberta na história do país da “liberdade”.

Canção da Liberdade conta em seu elenco com o renomado ator negro, Danny Glover, que faz o papel de pai de Owen, um adolescente indignado com o racismo e preconceito vigentes na cidade em que vive. 

A história se passa na fictícia cidade de Quinlan, no Mississipi, uma cidadezinha tranquila e pacata, mas que guarda em suas entranhas um ódio visceral dos negros que ali habitam. A segregação é total. Negros não podem entrar em lanchonetes, não podem frequentar a biblioteca, a justiça eleitoral coloca várias dificuldades para o direito de voto dos negros, mesmo que a constituição do país lhes “garanta” essa prerrogativa.

Não conformados com a situação de humilhação porque passam, os negros de Quinlan começam a se organizar para reverter o quadro degradante em que a segregação os colocam. Imbuídos da ideia de não-violência, resistirão as investidas dos brancos racistas sem apelarem para o revide físico, suportando as pancadas, chutes e murros, numa tentativa de pouco a pouco ir minando a segregação. 

Em muitos lugares da nação, o Movimento Pelos Direitos Civis está progredindo e fazendo as estruturas segregacionistas verem os primeiros tijolos de seus muros ruírem. Em Quinlam, seus moradores negros nutrem essa esperança, não sem discordarem e discutirem calorosamente sobre as estratégias que devem tomar. No final das contas, a não-violência é o caminho que resolvem adotar.

Encarceramentos, surras e humilhações, que já eram esperados não demoram a acontecer. Quando Owen e Archie Mullen, outro ativista negro estão saindo da prisão, uma corja de moradores brancos tentam linchá-los, e um homem empunhando uma Bíblia, provavelmente o pastor da cidade, interpela Owen:

“Não acredita em jesus, acredita?”

Ao que Archie Mullen responde:

“Acredita que Jesus Cristo é amor?”

O “cristão” retruca:

“Não estou falando com você. Você vai pro inferno, negro! E vai logo!”

Numa outra ocasião do filme, uma “mulher de Deus” tem uma “inteligente” e “divina inspiração” ao dizer:

“Deus nos fez separados. Deve ter uma razão. Enfim, percebi... Ele quer que cada um saiba o seu lugar e fique nele! De outro modo, haveria desordem. E Deus não quer desordem!”

Nunca é demais lembrar que o estado do Mississipi tinha e tem uma concentração massiva de evangélicos conservadores, aqueles que se dizem a luz do mundo, e veem a si mesmos como os iluminados de Deus.

O racismo dos evangélicos ainda é tão acentuado que o protestante Ronald Syder, Ph.D em História na Universidade de Yale, traz em seu livro (O Escândalo do Comportamento Evangélico. Viçosa, MG: Ultimato, 2006), os seguintes números:

“Em 1989 George Gallup Jr. e James Castelli publicaram os resultados de uma pesquisa para determinar quais grupos nos Estados Unidos eram mais propensos a rejeitar vizinhos negros – um bom indicador de racismo. Católicos e cristãos não evangélicos foram classificados entre os menos propensos; 11% fizeram objeção ao contato entre negros e brancos. Os protestantes históricos chegaram próximo dos 16%. Com 17% batistas e evangélicos ficaram entre aqueles mais propensos a repudiar a possibilidade de ter vizinhos negros, e 20% dos batistas do sul rejeitaram a ideia de ter vizinhos negros.” P. 25.

Ele escreve mais:

“Durante o movimento de direitos civis, quando os protestantes históricos e os judeus se uniram aos afro-americanos em sua luta histórica por liberdade e igualdade, líderes evangélicos foram quase totalmente omissos. Alguns se opuseram ao movimento; outros não se pronunciaram. Quando Frank Gaebelein, então co-editor de Christianity Today, não apenas cobriu a marcha de Martin Luther King sobre Selma, como também endossou o movimento e a ele se juntou, experimentou oposição e hostilidade da parte de outros líderes evangélicos.” P. 25.

E conclui com uma pergunta desconcertante:

“[...] como é possível que os evangélicos sejam as pessoas mais racistas e preconceituosas de nossa sociedade?” P. 47.

Voltando ao filme, com muitos sofrimentos e dores, os pretinhos de Quinlan conseguem a liberdade de não serem mais segregacionados. Entretanto, para quem conhece um pouco da história dos negros, isso não seria o final de práticas racistas nos EUA.

Mais um filme espetacular!