terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Candomblé e Umbanda

Candomblé: Orixá Ninú Ilê


Antigo documentário sobre o Candomblé gravado em 1978. De lá para cá, muita coisa mudou. O cuidado e atenção dispensados a cada detalhe, já vi alguns adeptos lamentarem que não existem mais, em muitas comunidades. Nem o culto nesse vídeo podia ser gravado. Os espíritos da comunidade não permitiam. Hoje em dia, os orixás e cia perceberam que não podem deixar de acompanhar os avanços tecnológicos e por isso, já se deixam serem filmados? Não esquecendo, é claro, que segundo eles, Ogum é o orixá da tecnologia. 

Candomblé: Folhas Encantadas


O Candomblé é uma religião que dá muita ênfase aos poderes que emanam das folhas, de acordo com os seus fieis. No vídeo em questão, a mais importante mãe de santo contemporânea, Stella de Oxossi, mostra-se uma pluralista religiosa. Ela diz que o Candomblé não é melhor que as outras religiões, mas apenas uma maneira encontrada por ela de cultuar o divino. Todos devem seguir intensamente os ensinos de suas religiões – servir a comunidade religiosa, conforme foi chamado. Um fato curioso que ela menciona é que muitas pessoas que estão profundamente envolvidas no “axé’, quando perguntadas qual religião professam, respondem que são católicas. Para ela, isso está errado, elas não devem negar o Candomblé. Particularmente gostei muito da fala dela.

Casa de Santo (Maragogipe)


Na cidade de Maragogipe, interior da Bahia, o Candomblé, proporciona um sentido de identidade, de se sentir especial, e de “ser” gente, aos seus habitantes. Essa religião traz coesão a sociedade maragogipana.

Mesmo sendo um crítico desses mitos e religiosidades tacanhas disseminados a torto e a direito em solo brasileiro, devo admitir que a religiosidade, neste caso, a religiosidade de matriz africana, bem ou mal traz em seu bojo um senso muito forte e imponente de ancestralidade, dando um lugar de honra aos seus aderentes, que ainda se sentem muito estigmatizados e vítimas de discriminação. É a válvula de escape deles, diante de um mundo tão hostil e cheio de problemas. De maneira similar, temos também nossos caminhos religiosos ou filosóficos, que nos servem como terapia diante das vicissitudes da vida.

O que é Umbanda 


Um documentário bem didático sobre as origens e práticas da Umbanda! Uma religião tipicamente brasileira, que traz em suas crenças e práticas, elementos das religiões africanas, indígenas, do kardecismo e do cristianismo.

O bom seria que o brasileiro não precisasse desse tipo de muleta para viver bem em sociedade e consigo mesmo. Mas nós, muitas vezes somos muito frágeis emocionalmente, e assim, precisamos nos apegar à algo. Se aproveitando da instabilidade psicológica de muitos, essas religiões vem e arrebanham um número muito alto de fiéis. 

Umbanda é Brasil


Micro documentário feito com intuito de desmistificar algumas ideias sobre a Umbanda. Por exemplo, pensa-se que a Umbanda é uma religião afro-brasileira. Mas não é. É uma religião criada no Brasil, por um brasileiro que incorpora elementos da religiosidade trazida pelos negros africanos. Assim como ela trouxe para a sua liturgia elementos da pajelança, catolicismo e kardecismo. As diferenças em relação ao Candomblé são substanciais, de acordo com os entrevistados. É uma verdadeira miscelânea de crenças e atos litúrgicos. É uma religião brasileira.

Uma garota que participa de um culto umbandista e vai se consultar com um suposto espírito provido de uma visão de mundo mais apurada e cheio de sabedoria, nas palavras dela, esses foram os “maravilhosos” conselhos dele: 

“Ele falou coisas sobre perspectiva de vida, sobre minhas dúvidas quanto ao meu futuro. Sobre seguir o seu coração, fazer o que você acha certo, e tomar isso como seu rumo, como um propósito pra você viver. Seguir o que você acha certo”.

Puta merda! A menina vai se consultar com esse suposto ser de luz, pra ele lhe dar esse tipo de conselho?! Essa menina não tem Facebook não?! Porque esse tipo de ajuda ela consegue em 5 minutos com o Face dela aberto. Não precisa ir num terreiro se submeter a baforadas de charutos na cara pra receber esse tipo de conselho LIXO; de quinta categoria; filosofia barata e sem valor. Espírito de araque.

“Seguir o que você acha certo” – existe pior pensamento do que esse?! “Seguir seu coração” – é de embrulhar o estômago. 

sábado, 14 de janeiro de 2017

Ensaios Sobre a História da Igreja


GONZÁLEZ, Justo. Ensaios Sobre a História da Igreja. São Paulo: Hagnos, 2010.

Quarto livro do Justo González (Ph.D e Mestre em Teologia Histórica na Universidade de Yale, EUA) postado por aqui. Mais uma obra dando uma verdadeira aula de como se deve estudar a história do cristianismo. González foge do modo usual de se olhar o passado da igreja cristã. Para começo de conversa, ele é um Historiador protestante com tendências bem ecumênicas. O seu olhar para o catolicismo romano, para exemplificar, é bem mais conciliatório e positivo do que da maioria das igrejas evangélicas na América Latina, que demonizam a igreja romana.

“[...] um dos males que o cristianismo evangélico latino-americano sofre é o da proliferação de facções e seitas, cada uma com a própria verdade, cada uma acusando a outra de não ser verdadeiramente cristã, e todas acusando o catolicismo romano de não ser cristão, ou até de ser o anticristo. As igrejas que têm um pouco mais de abertura para outras igrejas (ou – Deus não o permita! – para o catolicismo romano) são acusadas de serem ‘ecumênicas’, e, portanto, de não serem verdadeiramente ‘cristãs’, ou pelo menos de não serem ‘evangélicas’.” P. 25.

Eu não vejo com bons olhos, nem o catolicismo e nem esse montante de seitas e facções evangélicas lixo. São tudo farinha do mesmo saco.

Deixando os mais fanáticos seguidores de Calvino bufando de raiva, González revela a contingência das formulações calvinistas, que nunca foram e nunca serão sinônimo da ortodoxia que todos os cristãos devem adotar.

“[...] quando começo a entender que as posições desenvolvidas, por exemplo, pelo calvinismo ortodoxo, que desembocaram no Sínodo de Dort, não expressavam apenas considerações bíblicas ou doutrinais, mas também conflitos econômicos e sociais na Holanda do século 17, fica muito difícil tomar tais posições como medida final de ortodoxia nas circunstâncias muito diferentes do século 21.” P. 27 

Sabiamente ele coloca um freio de que também, não se deve aceitar qualquer merda que se fale por aí, propagadas pelas inúmeras seitas protestantes, que Deus sabe lá de que esgoto saíram.

“Entretanto, os estudos históricos também nos ajudam a julgar com mais cuidado essa profusão de doutrinas exóticas, de exoterismos gnósticos, de espiritualismos hedonistas que se multiplicam hoje em dia, e que claramente ficam de fora do âmbito tradicional da fé cristã. Desse modo, tais estudos nos auxiliam não apenas a tomar cuidado com o sectarismo injustificável, mas também a perceber os erros inaceitáveis de muitas das novas seitas que nós vemos surgir a nossa volta”. P. 27.

Os determinantes históricos, por mais que os mais empedernidos insistam, moldam a hermenêutica da Bíblia, nessa linha de pensamento, González expõe:

“Se a história da igreja é a história da interpretação bíblica, o próprio estudo mostrará para o estudante o caráter polissêmico do texto bíblico, interpretado em diferentes circunstâncias por pessoas com experiências e preocupações, determina ainda significados diferentes. O que, por sua vez, o forçará a enfrentar semelhantes questões como a tensão entre a tal polissemia, por um lado, e a autoridade e a alteridade dos textos, por outro.” P. 28.  

Em certos seminários, os alunos saem piores do que quando chegaram, pensando seriamente que somente a confessionalidade daquela instituição consegue abarcar corretamente o significado das escrituras. São centros de estudos mais preocupados em alienar seus discentes, do que em formar pensadores críticos.

Sobre como se deve estudar a história da igreja, González sabiamente escreve:

“A história já não pode ser lecionada como se seu tema fosse o passado. A história de se apresentar como o passado lido a partir do presente e em direção ao futuro. Tai idéia, que teria sido considerada como heresia por alguns de meus mestres de história, é lugar-comum nestes dias em que nos damos conta de que as supostas objetividades da modernidade não eram tão objetivas quanto pensávamos”. P. 28-29.

[...]

“Não basta, por exemplo, debater a simonia do século 15: é necessário também abordar como as circunstâncias econômicas presentes corrompem ou ameaçam corromper a vida eclesiástica de hoje. Não basta discutir como a igreja enfrentou as tendências gnósticas que a ameaçavam nos primeiros séculos: é necessário também discutir de onde e por que aparecem atualmente semelhantes tendências e como devemos reagir a elas.” P. 29.

A cada parágrafo mais lucidez é lançada, para um estudo histórico responsável:

“Mas o certo é que a nossa interpretação do passado reflete sempre nossa circunstância presente e, portanto, queiramos ou não, existe um ciclo presente/passado/presente semelhante ao ciclo ação/reflexão/ação e paralelo a ele. Se com honestidade fizermos ver a nossa estudantes que nossa leitura da história tem muito a ver com o nosso lugar social e com os nossos interesses, explícitos e implícitos; se, igualmente, lhe fizermos perceber que as histórias que outras pessoas escreveram antes também refletiram o presente desses historiadores, estaremos estimulando nossos alunos a refletir sobre o passado e a construído o passado a partir de sua prática e fé, e, da mesma forma, a construir sua prática de fé à luz de seus estudos históricos.” P. 29-30.

O estudo cuidadoso da geografia é bastante salutar aos estudantes de história. Segundo o autor, é escasso o conhecimento dos alunos sobre a geografia dos eventos estudados. O que gera uma deficiência cognitiva entre os lugares e seus personagens. A importância do estudo da Geografia é o primeiro requisito proposto para se estudar a história do cristianismo – González até trata mais especificamente desse tema em outro livro (Mapas Para Futura História da Igreja – Editora: CPAD).

“[...] muitos estudantes de história da igreja tentam aprender as controvérsias cristológicas, com seus conflitos entre as escolas alexandrina e antioquenha, sem ao menos se dar ao trabalho de olhar em um mapa onde ficam Alexandria e Antioquia. Ou estudam sobre os ‘Grandes Capadócios’ sem averiguar do que se trata a Capadócia, e muito menos como ela é. Ou aprendem de memória que Lutero nasceu em Efurt, que foi professor em Wittenberg, que esteve na Dieta de Worms, mas eles não fazem a menor ideia sobre a relação geográfica existente entre esses lugares.” P. 34.

Não me lembro de nenhum Professor meu, no curso de História, falar sobre a importância de se devotar tempo especial aos mapas, para conhecer a relação existente entre os países, cidades, locais, e seus protagonistas. Certamente, essa deficiência não é exclusiva nos alunos de cursos teológicos. 

Nenhum Historiador é especialista em todos os eventos da história

“Certamente, até os mais destacados e famosos historiadores da igreja, aqueles que realizam as investigações históricas mais profundas e originais, são apenas especialistas em alguns pontos ou tópicos; nos demais, eles não passam de ‘generalistas’, e seus conhecimentos são limitados ao que leram nos trabalhos de outros historiadores. Aquele historiador a quem admiramos pelos estudos de Basílio de Cesareia possivelmente derive seu conhecimento acerca de Lutero do que leu nos escritos de outros historiadores. E é bem possível que não conheça mais sobre a missão dos jesuítas na China além daquilo que aprendeu no curso introdutório de história da igreja.” P. 40.

Para se escrever algo novo, precisa-se conhecer o velho

“Com muita frequência encontro pessoas que, sem conhecer o velho, querem fazer algo novo. Um estudante me diz que quer escrever uma nova interpretação de Lutero. Quando lhe pergunto pelas interpretações existentes, ele admite que não as conhece. Como então saberá que o novo é de fato novo?” P. 42.

O bispado feminino já existia nos primeiros séculos da igreja

“Um sínodo reunido em Laodiceia, no ano 352, proibiu que as mulheres servissem como sacerdotes ou dirigissem igrejas, em outras palavras, que se tornassem bispos. O próprio fato de um sínodo ter promulgado semelhante legislação indica que, pelos menos, até aquela data, havia sim mulheres ocupando tais funções.” P. 67-68.

Celibato

“A primeira legislação oficial em prol do celibato eclesiástico se deu em um concílio reunido em Elvira, Espanha, no ano 305, cujo cânon número 33 diz:

‘Decidimos proibir totalmente aos bispos, presbíteros e diáconos e a todos os clérigos que exerçam o ministério sagrado, o uso do matrimônio com suas esposas e a procriação de filhos. Quem o fizer, será excluído da honra do clericato’.” P. 81.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

CIÊNCIA OU RELIGIÃO: quem vai conduzir a história?


BRAKEMEIER, Gottfried. Ciência ou Religião: quem vai conduzir a história? São Leopoldo: Sinodal, 2006.

“Quem sabe pouco amiúde está convicto de que a ciência vai refutar a religião. Quem, porém, de fato sabe muito enxerga que a cada passo se aproxima de uma concepção correspondente à da religião.” P. 27. – Jean Guitton, Ph.D em Letras pela Escola Normal Superior de Paris, membro da Academia Francesa.

Existe um antagonismo intrínseco entre Religião e Ciência? Ambas precisam estar em pé de guerra eternamente? Uma exclui compulsoriamente a outra? Levar a sério as duas é entrar em contradição? A Religião sempre foi um entrave aos avanços dos conhecimentos sobre o mundo natural? A igreja sempre atrapalhou, e continua imperrando os caminhos da Ciência?

Fato é que muitos igrejas no passado tiveram e ainda têm um sentimento de desprezo doentio pela Ciência, quando está faz afirmações que vão contra os seus dogmas. A irracionalidade ainda é muito visível entre muitas pessoas ligadas a certas igrejas. Aqui no Brasil, principalmente nas igrejas de tradição pentecostal/neopentecostal. A igreja católica, apesar de ser moderada e promover o conhecimento científico, mediante a Academia do Vaticano e Universidades, ainda possui algumas crenças que precisam ser revogadas. Brakemeier (Ph.D em Teologia na Universidade de Gotinga, Alemanha) escreve:

“A história da relação entre religião e ciência tem sido marcada por rivalidade e acontecimentos traumatizantes. Produziu mártires, a exemplo de Giordano Bruno (1548-1600), condenado pela Inquisição da Igreja Católica, torturado e queimado vivo por sua resistência em retratar-se no que dizia respeito às suas convicções copernicanas. Não menos escandalosa é a perseguição de que se tornaram vítimas muitos cientistas por partes de grupos protestantes, na maioria fundamentalistas. Foram coagidos a renunciar a cargos e direitos, sofreram difamação, foram hostilizados”.  P. 10.     

Mas nem sempre foi e é assim!

“Ainda assim, a imagem de permanente guerra entre esses gigantes, que são a religião e a ciência, é falsa. Ela peca por uniteralidade e omissão de fatos. Há que se lembrar que as novas conquistas científicas sofreram contestação inicial não apenas por parte de teólogos e pessoas ‘crentes’. Eram controvertidas entre os próprios cientistas. É o que costuma acontecer quando do lançamento de novas teorias. São recebidas em compasso de espera e apreciação. Ademais, é notável que os pioneiros, em sua esmagadora maioria, eram cristãos convictos e consideravam a si mesmos filhos fiéis da igreja. Aplica-se a isso tanto a católicos como a protestantes”. P. 11-12.

“[...] ciência e fé não são inimigas ‘naturais’. Ainda hoje não faltam exemplos ilustres de cientistas declaradamente cristãos. Há que se ouvir com atenção o seu testemunho.” P. 12.  

O exemplo desses ilustres Cientistas estão presentes no livros “Verdadeiros Cientistas, Fé Verdadeira” e “O Teste da Fé”,  resumidos neste blog:



Aquilo que já foi contado às dezenas de vezes aqui: a Ciência moderna surge impulsionada pela visão judaico-cristã. Os Cientistas cristãos na certeza de que o mundo natural pode ser estudado e escrutinado, porque um Deus pessoal todo-poderoso o criou, foram os precursores do conhecimento científico na modernidade. O mundo não era um caos; não era o próprio Deus; era apenas a criação desse Deus e, descobrir os seus mecanismos era uma das formas de servir e adorar o Divino.

“[...] o desenvolvimento das ciências naturais teve o ambiente cultural cristão como premissa indispensável. Foi somente no mundo ocidental que elas conseguiram desabrochar”. P. 12.

Mas todos sabemos que os gregos pagãos, muito antes do Cristianismo e da idade moderna, foram exímios Filófosos naturais, que deram grandes contribuições para conhecimento da natureza. Egípcios, babilônios, chineses e indianos, de muitos séculos atrás, por exemplo, fizeram descobertas extraordinárias, inclusive na Biologia, Medicina, Matemática... Por que parece que o crédito só vai para o ocidente cristão, ou a maior fatia do bolo vai para a Europa cristã? Eis a resposta:

“Evidentemente, pesquisa científica não é nenhuma invenção cristã. Ela tem notáveis precursoras na antiguidade, na Babilônia, no Egito, na China e, principalmente, na Grécia. [...] Todavia, as ciências antigas, muito antes do advento da igreja cristã, como que atolaram. Ficaram trancadas. A concepção heliocêntrica, por exemplo, pareceu por demais complicada aos gregos para ser verídica. Prevaleceu a geocêntrica, defendida por Hiparco ( 190-126 a. c.) e Ptolomeu (por volta de 140 d. c.). As causas, porém, são mais profundas. Residem essencialmente no pensamento ontológico grego, atemporal, estático. Buscava a harmonia do cosmo, mas não tinha olhos para a dinâmica das transformações na natureza. Enquanto isso, o pensamento judaico-cristão, que enxerga a história mover-se em direção a um fim último, ‘escatológico, possibilitou um novo olhar, favorável a análise científica da natureza.

[...] Essa tradição judaico-cristã ‘desencantou’ a natureza. Procedeu a um ‘desendeusamento’, respectivamente a uma ‘demonização’ radical das forças naturais. Essas já não mais seriam nem divinas tampouco demoníacas. São destituídas de atributos mágicos, mitológicos e religiosos. Sol, lua, estrelas, oceanos, terra, tudo passa a ser ‘mundo’, criação, e por isso, objeto de estudo. Consiste nisso um dos grandes propósitos da história da criação no livro de Gênesis, a saber: a ‘demitologização’ da natureza. Proclama o universo como obra de Deus, distinguindo entre criador e criação. A natureza não merece adoração, muito embora deva ser respeitada como dom divino. É claro que não há clima propício as ciências naturais enquanto se atribui qualidade divina a seu objeto de pesquisa.” P. 12, 13.  

Em relação aos países muçulmanos, algo semelhante aconteceu.

“Também a cultura islâmica conheceu uma era árdua das ciências, da qual o mundo ocidental é devedor. Situa-se entre os séculos IX e XII da nossa era. São de origem árabe, por exemplo, os algarismos mundialmente usados hoje. Sem eles, somente à base dos antigos algarismos romanos, são inimagináveis o desenvolvimento da matemática e a explosão da ciência na modernidade. Todavia, também a ciência muçulmana estagnou. Não teve continuidade. Atualmente, a relação entre ciência e religião islâmica parece carecer de nova definição. Há quem diga que ‘o islã e a ciência continuam a ser zonas de discursos separados e não sobrepostos para a maioria dos muçulmanos, mesmo para os cientistas muçulmanos”. P. 14.

O livro logo nas primeiras páginas já nos traz todo esse arsenal de informações.

Outros trechos interessantes:

“Ora, a ciência não conseguiu aniquilar a religião. O vaticínio de integral secularidade da sociedade moderna não se cumpriu. Pelo contrário, fervor religioso renasce com vigor em meio ao mundo tecnicizado”. P. 18.

“Aliás, vale sublinhar que nem toda religião é fundamentalista. O fenômeno religioso como tal, pois, não merece a imagem negativa que amiúde dele se constrói. Religião não é violenta por natureza nem aliena seus adeptos. [...] Importa julgar as religiões por seu discurso fundante, não pelos desvios comportamentais. Em suas formas autênticas, religião costuma desempenhar função altamente salutar, sim, terapêutica, para as pessoas. Toda cultura repousa em bases religiosas.” P. 18.

“A ciência não conseguiu cumprir suas promessas seculares. O otimismo histórico de outrora evaporou. O lançamento da bomba atômica revelou em definitivo que as conquistas científicas podem ser usadas também em desfavor da humanidade e ameaçar sua sobrevida. O feitiço voltou-se contra o feiticeiro”. P. 20.

[...]

“Seria estúpido responsabilizar ‘a ciência’ por esse desenvolvimento. As ciências não são nada demoníaca. O sujeito responsável sempre permanece sendo o ser humano”. P. 20.

“[A] ciência deve ser responsabilizada. O mesmo vale, aliás, para a religião. Também ela não está isenta da prestação de contas frente à sociedade. Religião pode degenerar e adquirir uma natureza até mesmo diabólica. Não dispensa o exame crítico”. P. 24.  

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Em Defesa da Fé


STROBEL, Lee. Em Defesa da Fé. São Paulo: Vida, 2002.

"Hoje, os dados concretos apontam fortemente na direção da hipótese de Deus [...] Os que querem opor-se a ela não tem nenhuma teoria testável para apresentar, somente especulações sobre universos não vistos tecidas por uma fértil imaginação científica [...] Ironicamente, a imagem do universo legada a nós pela ciência mais avançada do século XX está, mais próxima em seu espírito da visão apresentada pelo livro de Gênesis do que qualquer coisa oferecida pela ciência desde Copérnico." P. 106. - Patrick Glynn, formado em Literatura, Filosofia e História em Harvard e Cambridge, chegando ao título de Ph.D. É Professor na Universidade de Georgestown, EUA.

"A minha fé pode ser resumida neste grande paradoxo: eu creio na ciência e eu creio em Deus. [...] Eu pretendo continuar a dar testemunho de ambos." P. 77. - Hugh Siefken, Ph.D e Mestrado em Física pela Universidade de Kansas, EUA.

Li essa pérola no primeiro semestre de 2004. É o segundo livro do ex-ateu Lee Strobel, que tem formação em Jornalismo pela Universidade de Missouri, Mestrado em Direito pela Universidade de Yale e ex-editor jurídico do The Chicago Tribune. Em seu primeiro livro, ele foi atrás de diversos especialistas acadêmicos de linha conservadora, para investigar a plausibilidade da pessoa de Jesus ser realmente a que está relatada nos evangelhos - o que o levou a abraçar o protestantismo cristão.

A obra que venho trazer a este blog, foi escrita anos depois de sua conversão, quando o mesmo resolveu pesquisar sobre outros temas difíceis em relação a fé cristã. Perguntas difíceis, espinhosas e amargas, que por vezes, levam muitos para longe da fé. 

Os especialistas conservadores foram mais uma vez consultados e colocados no canto da parede, para que sejam interrogados sobre Deus, Sofrimento, Bíblia, História da Igreja, Fé, Ciencia, Milagres e Razão.

O primeiro entrevistado é o Peter Kreeft (Ph.D em Filosofia pela Universidade de Fordham), que é questionado sobre o maior problema em relação a Deus: o sofrimento.

Sua resposta é que o próprio Deus, na pessoa de seu filho, sofreu também. Veio ao nosso encontro, padecendo as agruras da humanidade. E óbvio, um dia ele “fará justiça." Essa na verdade é a resposta apologética padrão.

Kreeft, num certo momento, diz que a liberdade concedida por Deus aos homens criou a possibilidade deste trazer ao mundo sofrimento e dor

“Deus criou a possibilidade do mal; as pessoas concretizaram essa potencialidade”. P. 49.

Noutra parte, Kreeft dá uma alfinetada no ateísmo:

"O ateísmo trata as pessoas de modo medíocre. Além disso, rouba à morte o seu significado, e se a morte não tem sentido, como pode a vida, em última análise, ter sentido? O ateísmo vulgariza tudo o que toca – veja as consequências do comunismo, a mais poderosa forma de ateísmo sobre a terra. E no fim, quando o ateu morre e se encontra com Deus em vez do vazio que havia predito, terá que reconhecer que o ateísmo foi uma resposta vulgar porque recusou a única coisa que não é vulgar – o Deus de valor infinito." P. 45.

O segundo entrevistado é Willian Lane Craig (Ph.D em Filosofia pela Universidade de Birminghan, na Inglaterra). O tema tratado é se a Ciência não contradiz os milagres. Craig diz que não. As leis naturais atuam sob condições ideais, quando não há a interferência de um agente externo. Um exemplo é citado pelo Strobel: caso uma fruta caia da árvore, não estaremos infringindo nenhuma lei da gravidade, caso a apanhemos antes dela cair no chão. Há uma intervenção externa e não violação dos mecanismos naturais.

Craig acaba enumerando alguns argumentos usados para provar a racionalidade da crença em Deus. O argumento cosmológico é o primeiro.

"Tanto filosófica quanto cientificamente eu argumentaria que o universo e o próprio tempo tiveram um principio em algum ponto do passado finito. Porém, como algo não pode simplesmente sair do nada, tem de haver uma causa transcendente do tempo e do espaço que trouxe o universo à existência." P. 100.

Mais quatro argumentos são propostos.

A terceira entrevista é com o Walter Bradley, Ph.D em Ciência de Materiais na Universidade do Texas, especialista em Termodinâmica e Polímeros.

O assunto em pauta é sobre a origem da vida, que tem se mostrado teimosamente um empecilho para a evolução química por meios estritamente naturalistas.

A evolução ao longo dos anos tornou-se talvez a maior aliada na guerra contra o deus judaico-cristão. Michael Denton (Ph.D em Bioquímica no King’s College de Londres) diz:

“No que diz respeito ao cristianismo, o advento da teoria da evolução [...] foi catastrófico [...] Provavelmente o declínio da crença religiosa pode ser atribuído mais à propagação e defesa da teoria darwinista da evolução pela comunidade intelectual e científica do que a qualquer outro fator isolado.” P. 121.

Se o darwinismo naturalista estiver correto, eis as implicações:

"Com efeito, o destacado evolucionista William Provine, da Universidade Cornell, admitiu honestamente que, se o darwinismo for verdadeiro, existem então cinco implicações inevitáveis: não existem evidências a favor de Deus; não existe vida após a morte; não existe um fundamento absoluto para o certo e o errado; não existe um sentido último para a vida; e as pessoas realmente não têm livre-arbítrio." P. 121.

Teorias naturalistas sobre a origem dos seres vivos vão sendo uma a uma refutadas, e Bradley chega a seguinte conclusão:

"Acho que as pessoas que acreditam que a vida surgiu de modo natural precisam ter muito mais fé que as pessoas que concluem racionalmente que existe um Planejador Inteligente.

Muitos [cientistas] já chegaram a essa conclusão. Porém, em alguns casos, a filosofia atrapalha. Se ele estão persuadidos de antemão que Deus não existe, então, não importa quão convincentes sejam as evidências, sempre negarão: 'Aguarde e nós encontraremos algo melhor no futuro'. Mas esse é um argumento metafísico. Os cientistas não são mais objetivos que qualquer outra pessoa. Todos eles se aproximam de questões como essa com idéias pré-concebidas." P. 149.

Em concordância, James Tour (Ph.D em Química Orgânica pela Universidade Purdue e Pós-Doutorado na Universidade Stanford e na Universidade de Wisconsin, Professor do Departamento de Química e do Centro de Ciência e Tecnologia em Escala Infinitesimal da Universidade Rice) dispara:

"Fico extasiado com Deus em virtude do que ele tem feito por meio de sua criação. Somente um principiante que nada sabe sobre ciência diria que a ciência prejudica a fé. Se você realmente estudar a ciência, ela o levará para mais perto de Deus." P. 153.

O conhecido apologista Norman Geisler (Ph.D em Filosofia na Universidade Loyola, EUA) é o quarto especialista a ser interpelado. Ele defenderá a credibilidade da Bíblia em relação à Arqueologia; tentará amenizar o massacre de crianças ordenados por Deus no Antigo Testamento; “conciliará” algumas contradições que aparecem nos textos bíblicos, etc.

O quinto entrevistado é o Ravi Zacharias (Professor visitante da Universidade de Cambridge), tratando da exclusividade Jesus como o único redentor da humanidade. E quem não aceitar a messianidade de Cristo em vida, está eternamente perdido? Seria justo condenar as pessoas de outras religiões que nunca tiveram contato com a mensagem cristã? Zacharias enfrentará essas perguntas intrigantes.

O sexto entrevistado é o J. P. Moreland (Ph.D em Filosofia na Universidade do Sul da Califórnia). O inferno eternamente para aqueles que rejeitam o Cristianismo é algo justo? O inferno é um lugar de fogo que queimará para sempre os que forem para lá? Moreland diz que a linguagem do fogo é figurada, mas isso em nada altera o quanto será triste e ruim, para aqueles que forem para lá. Afinal, estarão por toda a eternidade conscientes de que Deus os julgou justamente.

O sétimo entrevistado é John Woodbrige, Ph.D em História na Universidade de Toulouse, França. As perguntas focam nas chacinas, atrocidades e guerras, perpetradas pela igreja ao longo dos séculos. As Cruzadas, A Inquisição, O Anti-Semitismo, Os Julgamentos das Feiticeiras de Salém e a Exploração Por Parte dos Missionários.

A oitava e derradeira entrevista é concedida por Lynn Anderson, Doutor em Ministério Cristão na Universidade de Abilene. Ele fala sobre as dúvidas que permeiam o caminhar diário do cristão. Defendendo que fé e dúvida são compatíveis, apesar de popularmente se pensar o contrário.

O livro é muito bom. Mas boas réplicas podem ser feitas a apologia de Em Defesa da Fé.  As melhores entrevistas foram com o Willian Lane Craig e Walter Bradley. As mais fracas foram com J. P. Moreland e Ravi Zacharias. E Geisler não me convenceu com a sua explicação sobre a matança das crianças ordenadas por Deus, no Antigo Testamento.

sábado, 7 de janeiro de 2017

Mercado Negro

Produtos Falsificados


A pirataria está disseminada em todos os lugares. E os EUA é um dos países que mais sofrem com esse mercado alternativo. Grandes marcas são imitadas. Às vezes seus produtos são tão cuidadosamente falsificados, que fica difícil em identificar o verdadeiro do falso. Como não é novidade, grande parte desses produtos são fabricados na China. Segundo o governo, bilhões de dólares deixam de ser arrecadados em impostos, devido a pirataria. É algo impossível de acabar, visto que todas as classes sociais consomem esses produtos que são mais bem em conta que os originais, mesmo que muitas vezes não tenham a mesma qualidade.  

Sexo à venda


Prostituição! Uma quantidade absurda de garotas de programa norte-americanas estão sob o jugo dos cafetões. Estes as escravizam; as torturam; as exploram; e se necessário for, as matam. Algumas conseguem escapar da tutela cruel desses exploradores, são as renegadas. Claro que eles odeiam a estas mais que tudo nessa vida. A desculpinha besta é que sob a “proteção” deles, elas estarão seguras diante de clientes violentos ou outros cafetões mais inescrupulosos que eles. O documentário Tricked, já resumido neste blog, traz detalhes horripilantes da vida dessas mulheres, vítimas desses cafetões. Aqui o link:


Armas Fantasmas


Os EUA é um país conhecido por ser bem liberal em relação à venda de armas para os seus cidadãos. Porém, a venda de armas tem que ser devidamente registrada, o usuário tem que fornecer todos os seus dados, se não, a venda não acontece. Todas as armas têm um número uma série de números que as identificam. Se o camarada fizer alguma merda com elas, a polícia tem como saber quem matou, assaltou ou cometeu qualquer outro delito com elas. Até mesmo, não sei como, pela balística da arma, as autoridades têm grandes chances de descobrir qual foi a arma. Pois bem, a bandidagem consegue colocar no mercado, armas fantasmas, ou seja, armas que não estão catalogadas. Aí, quem quiser subverter a lei, pode utilizar essas armas, correndo um risco menor de serem presas.

Os Malefícios do Moonshine


Bebidas alcoólicas existem de todos os tipos, sabores, texturas... Cervejas, conhaques, cachaças, whiskys, vodkas, vinhos e etc. As opções são as mais diversas – seja com teor alcoólico maior, ou menor, elas estão em qualquer supermercado, boteco, restaurante, bar... São legalizadas, e os impostos arrecadados pelo Estado chegam a bilhões todos os anos. Mas existe um mercado paralelo de bebidas embriagantes proibidas. O Moonshine é uma delas. Altamente inebriante, com teor alcoólico além do permitido, ela é feita às escondidas, e possui um público fiel de consumidores.

Apostas Ilegais


Apostar é permitido, que o diga a cidade de Las Vegas. Mas um submundo de certas apostas são terminantemente proibidas. Por exemplo, racha de carros. Mas não adianta, sempre haverá os contraventores dispostos a ganhar um dinheiro a mais, indo contra as leis do Estado. Dentro dessas apostas ilegais está a rinha de cães. Esses animais são treinados diária e pesadamente para matar. Os seus criadores não têm escrúpulos algum. Esse modo cruel de aposta ainda é praticado por cerca 40 mil pessoas nos EUA. Alguns criadores chegam a colocar cocaína nos pêlos de seus cachorros para que quando os seus oponentes os morderem, suas bocas fiquem dormentes e seus ataques se tornem nulos. 

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

A Filosofia Explica Grandes Questões da Humanidade


FILHO, Clóvis de Barros; POMPEU, Júlio. A Filosofia Explica Grandes Questões da Humanidade. 2. ed. – Rio de Janeiro: Casa da Palavra; São Paulo: Casa do Saber, 2014. (PDF).

Como é de praxe, comecemos pelos autores. Clóvis de Barros filho possui um Doutorado em Ciência da Comunicação na USP e Júlio Pompeu tem um Doutorado em Psicologia na Universidade do Espírito Santo. Como deu pra notar, nenhum dos dois tem formação acadêmica em Filosofia. Não são Filósofos profissionais, mas se aventuram a filosofar. Nada contra. Só os mais frescos ligariam. Inclusive, não duvido nada, muitos Filósofos.

O título é enganoso. Visto que a filosofia exposta por eles, não explica nenhuma das “grandes questões da humanidade”. Apenas levanta hipóteses, faz perguntas e mais perguntas, apresenta possíveis respostas e nos traz o pensamento dos Filósofos clássicos (Platão, Sócrates, Aristóteles, Espinosa...). Não explica, somente complica, ou sendo mais justo, amplia nossos horizontes intelectivos. Os autores reiteram que não podemos cobrar da Filosofia, além daquilo que ela pode nos fornecer (eu concordo). Se é assim, porque um título tão chamativo e diria até sensacionalista? Como eles já são Professores e autores populares, sabem que qualquer obra literária que colocarem nas prateleiras, irá ter uma boa rotatividade. Mesmo com minhas reclamações, aqui estou eu, com a leitura concluída do livro e ainda “perdendo” tempo, falando dele. Dando um desconto, o livro traz boas reflexões, principalmente as considerações do Pompeu.

Clóvis de Barros Filho, por exemplo, é um dos queridinhos da vez – em suas palestras é bastante articulado e eloquente, fala com paixão, vocabulário amplo e despojado, não tem besteira em falar palavrões de vez em quando, é um baita palestrante. Está ao lado de Cortella, Karnal e Pondé, entre os mais populares intelectuais que suscitam muitos admiradores e detratores, no mundo internético. Quanto ao Pompeu, nem o conhecia. Mas como está escrevendo junto com o Filho, com certeza é figura (quase) tão conhecida quanto o primeiro.

Os primeiros capítulos foram escritos pelo Filho. Uma parte interessante dele, falando sobre a mentira, acerta bem o alvo.

“Mentir por conveniência nossa, com certeza. Mas também por conveniência do outro, do interlocutor, da vítima. Que terá no afastamento do real lesivo – proporcionado pela mentira – um unguento, uma sobrevida, um instante de alívio, ainda que temporário. Um bálsamo protetivo face à tristeza que supostamente ensejaria a verdade. Para quando a sinceridade parece cruel demais. Será que um doente, em estado terminal, precisa mesmo de relatos verídicos?

E você, senhora, na hora de dar um fora em seu parceiro, no momento de se justificar, precisa mesmo revelar que encontrou outro com melhores condições de proporcionar prazer? Com apetrechos e dotes que não consegue tirar da cabeça? Precisa falar daquela linguetada em diagonal acompanhada do atrito com a ponta do nariz que fez badalar os sinos da Catedral de Notre Dame, mesmo longe de Paris? Do número de investidas por encontro? Sobretudo para um marido de mais de uma década, de pegada frouxa, esporádica e inconsistente. Que nunca fez tocar nem a campainha de casa. Será tão necessário assim passar em revista os talentos e competências profissionais do pretendente? Do sucesso econômico – vencimentos diários superiores ao minguado salário docente? Da farta cabeleira face às fracassadas tentativas de implante?

Você imagina as causas do novo amor. Ou, pelo menos, os atributos determinantes da troca. Mas, na hora de justificar ao incrédulo cônjuge sua decisão, você mente. Diz que o problema é com você. Que não se sente à altura. Que o outro é legal em demasia. Que se pudesse escolher alguém para passar a vida eterna, não hesitaria em procurá-lo novamente. Mentiras. Por compaixão. Porque a verdade pode agredir muito. E muitos de nós não suportamos dar causa à tristeza do outro.” P. 21.

Caramba. É isso mesmo. Mentir é NECESSÁRIO. Sem a mentira a vida se tornaria mais cruel do que ela já é. Precisamos e devemos mentir, em várias ocasiões, não para prejudicar as pessoas, mas para poupá-las de potenciais sofrimentos, que não lhes trarão benefício algum.

Adentrando a difícil problemática do livre arbítrio humano, ele nos diz:

“Muitos questionam nossa liberdade. Afinal, se tudo no universo vive como só poderia viver, regido por causalidades materiais, e a pêra cai da pereira sem nunca poder se opor, por que seríamos diferentes? O que permitiria que fôssemos autores de nós mesmos? Semideuses, criadores da nossa própria trajetória? Assim, se o vento venta, a maré mareia e o sapo sapeia, não deveríamos, nós também, ser o mero resultado de vetores causais que nos determinariam absolutamente? O que nos facultaria transcender à inexorabilidade da matéria, de suas relações e seus fluxos?

O assunto vai longe. Consagraremos a ele um capítulo inteiro. Aqui basta deixar claro que não há ética entre sapos ou peras. Que se trata de uma prerrogativa exclusiva nossa. Humana, necessariamente humana. Justamente porque supomos, muitos de nós, que no nosso caso a vida é diferente. Que temos uma grande participação na sua definição. E que, para isso, refletimos e deliberamos. Porque, se fôssemos o mero resultado mecânico de uma combinação de variáveis, não faria sentido discutir sobre a melhor vida a viver, dado que seria a única, a necessária, a inexorável.

De fato, só faz sentido investir energia na identificação da melhor alternativa, se acreditarmos, de verdade, tratar-se de uma alternativa. Que a vida pode mesmo ser diferente do que ela é. E se algum chato defender obstinadamente a tese da inexorabilidade, sugiro que lance mão de um porrete e se ponha a golpeá-lo sem piedade. E quando suplicar para que pare, devolva-lhe o argumento: sou um mero resultado. Um autômato. Uma superestrutura consciente determinada por forças infraestruturais afetivas que não controlo. Sou um escravo da minha ira. Nada me fará parar.” P. 30-31.

Concordo com ele. Entretanto, ele sendo ateu, fica bem complicado defender a livre agência humana, visto que num universo sem Deus, somos meras combinações dos elementos da natureza. Dessa maneira como ele mesmo pergunta: “O que nos facultaria transcender à inexorabilidade da matéria, de suas relações e seus fluxos?” Acho que a única escapatória é pressupor o Pressuposto do qual todos os outros derivam: Deus. Ciente, é claro, das dificuldades filosóficas, que esse Postulado nos traz. Creio que os obstáculos, apesar de espinhosos, são menos embaraçosos, quando afirmamos que temos liberdade, pelo fato de não sermos meros efeitos da matéria inanimada, que surgiu sem uma causa inteligente.

Os últimos capítulos são de autoria de Pompeu. Na verdade, achei a segunda parte do livro mais interessante. Sei que não é uma disputa, mas se podemos comparar, ele foi melhor que o Filho.

“Definida a moda, haverá os de bom gosto e os de péssimo gosto, os in e os out, os dominantes e os dominados. Acrescente que o fato de que quando um objeto ou prática é consagrado como diferenciador estético do dominante e dominado, o acesso a ele passa a ser objeto de disputa e restrições. Ele deixa de ser para qualquer um. Podemos continuar com o exemplo da moda. Consagrado um estilo, as roupas e acessórios que nele se encaixam tornam-se mais caros e, portanto, coisa para poucos. Também quanto mais caro é um objeto, mais atrativa é a sua venda. Começa a ser falsificado. Pela falsificação barata se torna acessível e popular. É quando o chique vira brega, dando lugar a uma nova moda.” P. 90.

É isso mesmo. Somos assim. Uns mais, outros menos. Muitos são completamente idiotas e dependentes do que está em voga.

A abordagem que Pompeu faz do que é a Justiça é muito boa.

“Muitos aqui podem ter vivido até hoje sem nunca terem se perguntado o que é a justiça, mas dificilmente conseguiram chegar até aqui sem ponderar sobre o justo e o injusto. Por mais feliz que seja sua vida, em alguns momentos esse sentimento de que as coisas estavam fora do lugar, de que os acontecimentos pareciam conspirar sem motivo para a sua tristeza, os tomou de assalto. Certamente chamaram isso de injustiça. Eis a mais comum das experiências primeiras com a justiça. Torta, enviesada, surgida pela via oposta da injustiça e recebida como um sentimento e não uma ideia ou conceito. Sentimos algo ruim a que chamamos injustiça e por isso desejamos seu oposto, a justiça.” P. 94-95.

Algumas palavras a frente ele faz uma pergunta intrigante do ponto de vista da Filosofia:

“Mas se tudo o que chamamos de justiça for ideia contrafeita à de uma injustiça sentida, temos um sério problema: a dependência das sensações para pensar a justiça. [...] [Algo] seria injusto por ser essencialmente injusto, injusto nele mesmo, ou por apenas o sentirmos como injusto? Seja qual for a resposta, ela é problemática.” P. 95.

Realmente não se tem uma resposta conclusiva. Por mais que possamos pressupor Deus como a fonte da Justiça, as dificuldades persistem.

Expondo extraordinariamente o problema do que é Justo ou Injusto, aqui vai mais longa citação, mas que vale muito, lê-la até o final:

Se algo for injusto em essência, teríamos pela frente a difícil tarefa de apontar num conceito tal essência do injusto. Uma ideia abstrata que uma vez bem compreendida nos permitisse apontar com precisão caso a caso, acontecimento a acontecimento, o que é e o que não é injusto. Este grau de precisão nos julgamentos é o sonho de todo jurista, que permanece como um sonho justamente por não ter sido alcançado até hoje. Em respeito a este insistente esforço ao longo da história, podemos concluir, prematuramente, que nunca será alcançado. Na prática, uma justiça em essência funciona como os sonhos, que existem na medida em que se acredita neles. O problema é que cada crente a vê de um modo diferente, mas a defende como se fosse uma realidade tão concreta quanto as paredes do seu quarto.

Mas nossa segunda hipótese não é menos problemática. Nem todo evento afeta a todos da mesma maneira. Um mesmo acontecimento pode ser alegrador para uns e entristecedor para outros. Os entristecidos dirão que estão diante de uma injustiça e que o justo seria corrigir ou reparar os fatos e os sentimentos ruins surgidos em consequência deles. Já os que se alegraram com os fatos tendem a dizer que está tudo bem, que não há nenhuma injustiça e que qualquer pretensão de mudar os efeitos do que se passou é que seria injusta.

As duas hipóteses acabam caindo nos mesmos problemas, a falta de objetividade e a possibilidade de que alguém tome por universal uma ideia de justiça que é apenas particular, íntima até. A justiça não poderia ser apenas um sentimento oposto ao da injustiça e tampouco uma ideia que não fosse reconhecida por todos como válida. Eis o desafio que uma filosofia da justiça propõe: eliminar as incertezas sobre o justo e o injusto, afastando a justiça dos sentimentos e das ideias particulares, ambos efeitos do modo singular de ser afetado por um evento qualquer. Trata-se de substituir as emoções privadas por uma razão pública sobre o justo e o injusto.” P. 95.